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Fernando Dolabela

Fernando Dolabela é criador e coordenador de programas de ensino de Empreendedorismo no Brasil. Na área universitária, implementou a Oficina do Empreendedor em cerca de 400 instituições, incluindo o Sistema de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae) e a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Na educação básica, introduziu a metodologia Pedagogia Empreendedora em redes públicas de ensino de 126 municípios. Dolabela, que é palestrante internacional, é autor de 11 livros da área de Empreendedorismo, entre eles “O Segredo de Luísa”. Nesta entrevista, ele fala sobre as características do empreendedor.

O que é empreendedorismo?

A melhor idéia de empreendedor é alguém que sonha, imagina o futuro e o torna realidade. O empreendedor age neste sentido: olha para a comunidade, para o que já existe e vê o que pode mudar para melhor. Este conceito serve para o empreendedor de qualquer área (médicos, jornalistas, empresários...). Todos os conceitos de empreendedorismo estão ligados à inovação. Aquele que não inova, apenas opera o sistema.

Quais são as principais características que um empreendedor deve ter?

Antes de dizer quais características são fundamentais, é bom ressaltar que todos nascemos com potencial para sermos empreendedores. Mas uns o desenvolvem e outros não. E como desenvolver essa capacidade empreendedora? Convivendo com outros empreendedores.

Um empreendedor precisa ser um inconformado (uma pessoa que enxerga as coisas sempre com olhos que de quem pode fazer melhor); ter conhecimento sobre a área que vai atuar (quem usa, os fornecedores, como é feito, os concorrentes...); ser criativo; estabelecer uma rede de relações (fazer o networking) e ter capacidade de liderança (no sentido de seduzir as pessoas para apoiarem a sua empresa). 

Pesquisas divulgadas pelo SEBRAE - Serviço Brasileiro de Apoio a Micro e Pequenas Empresas - registram que os micro e pequenos empreendimentos fecham as portas logo nos primeiros anos de atividade. Na sua avaliação, qual o “erro” mais comum cometido pelos empreendedores? Como evitá-los?

O erro mais comum é não pesquisar sobre a área que irá atuar. Não há sorte, não há milagre em um negócio. A competência específica é mais fácil adquirir. O mais difícil é saber o que oferecer para o público e para isso você tem que conhecer a fundo. É importante saber como inserir uma inovação, o que falta em determinado mercado.
Na maioria das vezes, as pessoas iniciam uma atividade sem esse conhecimento. Apressadamente, criam um negócio. O que é importante saber é que empreendedorismo não é uma habilidade técnica. É a percepção do que as pessoas querem. É montar um produto de sucesso, mas com a idéia completa: a novidade, o conhecimento do mercado, a forma de desenvolvê-lo e como vendê-lo a um preço acessível. 

No Brasil já são oferecidos cursos de “empreendedorismo e inovação”. É relevante a formação intelectual do empreendedor para que ele seja bem-sucedido em seus negócios?

A formação intelectual é importante para sobreviver em qualquer profissão. Embora não haja relação direta entre escola/universidade e o grau de empreendedorismo de uma pessoa. Não há ligação entre inovação e aprendizado acadêmico. Um bom exemplo disso é o Steve Jobs, dono da Apple, que não cursou a faculdade e é bem–sucedido nos negócios.

Empreendedorismo é um valor, uma forma de ser. O empreendedor tem a cultura de enfrentar riscos. Ele pensa: eu quero ser dono do meu próprio nariz; eu quero ditar o meu caminho; quero provocar a diferença. Às vezes, um indivíduo pode ser um PhD e não ser empreendedor.

Esses cursos são mais motivacionais. É como se disséssemos para os alunos: “Olhe para as coisas e pense como você pode melhorar”. É algo diferente porque todo sistema tende a limitar a criatividade das pessoas. No empreendedorismo não há regras. Não é uma aula com repetição de conteúdo ou com fórmulas para se identificar uma nova oportunidade. É uma aula de criatividade, onde o aluno aprende que ele deve seguir caminhos não percorridos, tem que renegar o que já está pronto. É por isso que afirmo que empreender é sonhar.

A necessidade e a oportunidade são as razões mais comuns para o empreendedor iniciar o seu negócio. Na sua opinião, esse fato pode influenciar no sucesso do empreendimento?

Aquele que empreende por necessidade, geralmente, cria um negocinho. Ele se vira. É diferente de uma pessoa que empreendeu por oportunidade, que teve mais chances de se preparar e mais acesso a recursos financeiros.

Mas isso é muito classificatório. Há casos de imigrantes que, no passado, criaram negócios por necessidade e ficaram milionários. A única diferença é que o empreendedor por necessidade sofre mais pressão das circunstâncias da vida. Mas se ele for criativo, ele pode mudar o curso do seu negócio. Então, é possível dizer que as condições que cercam aquela situação é que determinam o sucesso do negócio. 

Como o senhor define o “empreendedor de sucesso”? Existe outra forma de medir o sucesso nos negócios que não seja pelo tamanho do lucro?

Existe diferença entre a empresa de sucesso e o empreendedor de sucesso. A empresa bem-sucedida é a que está sempre inovando, se desenvolvendo e agregando novos valores para os clientes. Não é apenas a que cresceu e tem lucros. Porque muitas delas crescem, se tornam multinacionais e depois fecham as portas.

Quanto ao empreendedor, também não é aquele que ganha muito dinheiro, não. Porque acumular riqueza e acordar deprimido não adianta nada. Um empreendedor realizado é aquele que está sempre em busca de um sonho novo. É aquele que tem coragem, ânimo e fogo para estar sempre em atividade e se sente bem com o que faz. Alguém já noticiou que o José Saramago quer parar de escrever? Que a Fernanda Montenegro quer se aposentar? Não. Porque eles são felizes. Então, sucesso não pode ser sinônimo de dinheiro.



Fonte: CL2G Comunicação

 
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