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Um indicador de educação financeira e seus resultados (2013-2014) - 18.08.2014

Roberto Macedo

 Trata-se do Indicador de Educação Financeira (IndEF), iniciativa da Serasa-Experian, atuando em conjunto com o IBOPE Inteligência e com o Instituto Paulo Montenegro, esta uma organização atuante em projetos educacionais.

O IndEF foi aplicado pela primeira vez em 2013 por meio de um questionário com questões de múltipla escolha e de perguntas sobre o perfil sociodemográfico dos respondentes.  Em 2014, o questionário foi aplicado novamente, permitindo assim uma comparação dos seus resultados nesses dois anos. A divulgação dos resultados de 2014 ocorreu no dia 7 deste mês e teve repercussão nos meios de comunicação.

Apresentarei características do IndEF e abordarei alguns de seus resultados. Todas as informações anteriores e as que se seguem foram obtidas no site da Serasa-Experian (www.serasaexperian.com.br). No canto superior esquerdo do site, aparece o ícone do IndEF-2014,  em azul, e à sua direita as conexões Testar meu Índice e Acessar o Estudo.  Na primeira, o leitor poderá fazer seu próprio teste do IndEF além de outros sobre questões de educação financeira, o que recomendo. O segundo mostra resultados dos dois levantamentos citados, cujo resumo veio com a divulgação do estudo e está disponível em:  noticias.serasaexperian.com.br/jovens-tem-piora-na-educacao-financeira-em-2014/. Esse resumo realça outros aspectos além dos apresentados em Acessar o Estudo.

A natureza do IndEF
 
Textualmente, ele é “(...) composto por três dimensões relativas às finanças pessoais e familiares dos brasileiros, cada uma com um peso diferente: Atitude (24%), Conhecimento (26%) e Comportamento (50%). O indicador e suas dimensões são mostrados em uma escala de 0 a 10. O subíndice Conhecimento avalia o entendimento de conceitos financeiros, o Atitude avalia como o entrevistado enxerga a sua relação com o dinheiro e, por fim, o Comportamento mede as ações do entrevistado no seu dia a dia (por exemplo, se gasta mais do que ganha, se guarda dinheiro e se planeja o futuro).

 Verifica-se que o valor do IndEf não se alterou de 2013 para 2014, ficando em 6,0 em ambos. É uma nota baixa. Nos três componentes do IndEf também não houve alterações relevantes, mas é interessante comparar os valores que assumiram. Tomando-se o valor médio dos dois anos, os resultados foram: Atitude (6,3), Conhecimento (6,45)  e Comportamento (5,15). Como este último mostrou o menor resultado e tem maior peso no índice, ele puxou o resultado do IndEf para baixo.

 Esses resultados confirmam aspectos-chave de nossa pregação sobre a boa gestão das finanças pessoais. O problema maior, seguindo o enfoque analítico das Finanças Comportamentais, é o comportamento das pessoas. Elas devem buscar conhecimentos e tomar atitudes quanto ao que fazer com seu dinheiro, como a de poupar mais. Mas, para que esses conhecimentos e atitudes funcionem é indispensável adotar um comportamento coerente com o que se aprendeu e com o que se decidiu fazer.   Isto justifica, com razão, o maior peso que a dimensão Comportamento tem no IndEF. E, como se viu pela nota 5,15 alcançada pelos entrevistados, confirma-se que aí reside o maior problema.

Aproveito para repetir outro aspecto-chave ligado à minha pregação: para o bem ou para o mal, o comportamento se consolida pelo hábito de fazer uma coisa ou outra. Assim, é preciso praticar repetidamente ações financeiramente saudáveis, como a de não sucumbir ao consumismo, para que elas se firmem natural e permanentemente como hábito.

Uma síntese de outros resultados da pesquisa

1. Começando pelos apresentados em Acessar o Estudo, o IndEF não mostra diferenças entre notas obtidas por homens e mulheres, seja no valor total, seja nos seus componentes.

2. O valor do IndEF aumenta com a idade, e o componente que mais cresce com ela é a Atitude.  O Comportamento apresenta as notas mais baixas em todas as faixas etárias. Com o avanço da idade, ao crescer menos que as notas do componente Atitude, confirma o que já se sabe de problemas financeiros de idosos, como o mau uso do crédito e particularmente dos cartões de crédito. Mas, os mais jovens é que mostram o pior comportamento.

3. A escolaridade tem efeito positivo no IndEF e aumenta particularmente os valores do item Conhecimento. Mas, de novo revelando fragilidade, as notas do componente Comportamento não crescem significativamente com a escolaridade.

4. O IndEF cresce com o valor da renda pessoal ou familiar que, como a escolaridade, tem maior efeito sobre o Conhecimento.  O Comportamento mais uma vez mostra fragilidade, melhorando bem menos que o Conhecimento. Outro aspecto interessante é que o Conhecimento sobe significativamente quando se passa da faixa de renda de até 1 salário mínimo para a faixa de 1 a 2 salários mínimos, seja em renda pessoal ou média familiar. Pode ser que a maior disponibilidade de renda a partir de valores muito baixos já facilite o aprendizado em lidar com ela. Outra possibilidade é que essa maior disponibilidade de dinheiro tenha vindo com a escolaridade, que como já visto amplia o  Conhecimento.

5. Na análise do IndEF por classes sociais, repete-se o efeito da escolaridade e da renda, maior também sobre o Conhecimento, pois classes, renda e escolaridade são correlacionadas. Da mesma forma, constata-se que as várias classes sociais não se diferenciam muito no que tange ao Comportamento.

6. O estudo também classifica os entrevistados por faixas de valores obtidos no IndEF, constatando, entre outros aspectos,  que 50% tiveram pontuações de 0 a 6, sendo 32% entre os valores 5 e 6.  Nas pontuações acima de 8 encontram-se apenas 3%. Também é apresentada uma análise de variações do IndEF e de suas dimensões entre 2013 e 2014.

7. Conclui o estudo uma análise da relação entre o acesso a serviços financeiros e práticas bancárias e os resultados do IndEF e suas dimensões, controlando-se o efeito da escolaridade. Entre os indivíduos com escolaridade limitada ao ensino fundamental, o resultado do IndEF é maior para os que tem acesso a conta corrente, cartão de crédito e seguro. Para os que têm ensino médio e superior, o aumento do IndEF só se manifesta mais claramente para os que têm seguro.

 A utilidade do estudo decorre tanto do panorama da educação financeira que apresenta, bem como de sua evolução ao longo do tempo, ao mesmo tempo em que reforça, na linha da minha pregação, a ênfase que a questão comportamental deve receber no contexto dessa educação.  Espero que o estudo se repita anualmente. Isto ocorrendo, voltarei a examinar seus resultados.

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Roberto Macedo, CFP® (Certified Financial Planner®) e economista formado pela USP com Mestrado e Doutorado pela Universidade Harvard (EUA), é pesquisador da FIPE-USP.  Foi Secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Fazenda e Planejamento, funcionário do Banco Central e do Banco do Brasil. E-mail: imprensa@bb.com.br. Este texto reflete a opinião do autor e não necessariamente a do BB; tem caráter apenas informativo e não deve ser tomado como recomendação de subscrição, compra ou venda de ativos, decisões estas de responsabilidade exclusiva dos investidores.

O significado do default da Argentina, inclusive para o Brasil - 11.08.2014

Default é um termo de uso corrente em várias línguas, inclusive na nossa, constando do dicionário de português que consulto habitualmente. Num de seus significados, ligado ao mundo das finanças, refere-se a uma situação em que alguém, que pode ser uma pessoa, empresa, outro tipo de instituição ou país, não cumpriu um contrato. Ou, mais especificamente, não pagou uma dívida.

Recentemente o termo chegou às manchetes devido ao que seria um default da Argentina, no pagamento da dívida externa do país. Mas, a questão é mais complicada que um default usual. Ademais, as implicações do problema não se limitam à Argentina.

Este artigo examinará inicialmente as origens do problema e o atual status da negociação entre a Argentina e seus credores. Em seguida, abordará suas implicações internacionais e concluirá com as que já alcançaram ou ainda poderão alcançar o Brasil.

Origens e status atual do problema

    Sete vezes antes na sua história, a Argentina chegou ao default. A sétima está nas raízes do problema atual e ocorreu em 2001 quanto o país interrompeu os pagamentos da sua dívida externa, num default bem caracterizado.

    Por vários anos a negociação com os credores desse default não avançou. Creio que o forte aumento das exportações de commodities, que como no Brasil também aconteceu na Argentina a partir de meados da década passada, ajudou-a a minorar as dificuldades de moeda estrangeira que enfrentava, pois numa situação de default o fluxo de financiamentos externos usuais fica interrompido.

    Mas, as conversas entre as partes prosseguiram e a Argentina conseguiu renegociar sua dívida em duas reestruturações (2005 e 2010), pagando menos que o seu valor de face, cerca de 30 centavos por cada dólar, e estendendo prazos, num movimento que alcançou 93%  dos credores.  Mas, uma minoria, que não quis aceitar o acordo, insistiu em receber o valor integral da dívida que detinham. E alguns fundos passaram seus papéis da dívida a outros fundos com um desconto. Compradores se interessaram apostando na perspectiva de comprar barato e resgatá-los por valores maiores, e eventualmente até o valor de face.

Irritada com o comportamento desses fundos, em particular recentemente, a Argentina passou a chamá-los de fundos “abutres”, que estariam se aproveitando da fragilidade econômico-financeira do país para atacá-lo de forma predatória.  Fosse no Brasil, a designação seria de “urubus”. Por causa da presença desses dois tipos de credores, um que renegociou e outro não, ficando sem receber nada, o imbróglio resultante foi chamado de “default seletivo” por uma agência de classificação de risco.

Há cerca de dois meses atrás, um desses fundos “abutres” conseguiu na justiça dos EUA, sob cuja jurisdição os contratos da dívida argentina foram negociados, uma decisão de que a Argentina teria que pagar-lhe como pretendia. O juiz do caso, Thomas Griesa, tornou-se celebridade internacional com sua decisão de que tais fundos não poderiam ser excluídos dos pagamentos que a Argentina vinha fazendo com relação à dívida negociada com a maioria dos credores. Logo após sua decisão, a Argentina fez um depósito de US$539 milhões num banco dos EUA em pagamento de uma das parcelas devidas a esses credores. Mas, o juiz Griesa bloqueou esse depósito por entender que os “abutres” também deveriam receber suas dívidas.
No contexto do problema ganhou destaque uma cláusula de seus acordos de reestruturação da dívida. Conhecida como cláusula Rufo, abreviação de “direitos sobre futuras ofertas”, em inglês, ela impede a Argentina,  até dezembro deste ano, de oferecer aos “abutres” uma proposta melhor  que a acertada nesse acordo, que como vimos foi de 30% do valor de face, o que dificulta a negociação com os “abutres”. Enquanto ela prevalece, se a Argentina a infringisse haveria risco de todos os credores que aceitaram a reestruturação da dívida pleitearem idêntico tratamento. Mas, tampouco está claro que a Argentina fará essa negociação após a referida cláusula expirar.

    O impasse continua. Na sexta-feira passada, houve nova audiência das partes com o juiz Griesa, sem outro resultado que não um apelo dele à continuidade das negociações.  No mesmo dia, frustrou-se outra iniciativa argentina, a de levar o assunto à Corte Internacional de Haya, pois o governo dos EUA não concordou com esse caminho, um passo indispensável para que essa corte o examinasse.

Implicações internacionais

    A que me pareceu mais importante conheci num artigo no jornal New York Times, publicado no último dia 7.  Segundo seus autores, se mantida a decisão do juiz Griesa, de reconhecer os direitos dos “abutres”, ela dificultaria novos acordos envolvendo dívidas nacionais, pois nesses acordos a concessão de descontos sempre foi praticada,  ao mesmo tempo em que acordos com a maioria eram bem aceitos.

Implicações para o Brasil

    Há tempos a economia argentina sofre de dificuldades ligadas à sua dívida externa, principalmente a escassez de divisas estrangeiras,  e a outras questões internas que prejudicam o desempenho da economia. Para se ter idéia de sua situação atual, um relatório recente da Comissão Econômica para a América Latina, da ONU, publicado no dia 4 deste mês, prevê que o PIB do país crescerá apenas 0,2% em 2014, uma taxa que o coloca em penúltimo lugar de uma lista de 35 países da América Latina e do Caribe. Só a Venezuela, também com uma economia desarrumada, fica em posição inferior.

    Com a economia argentina nessa situação, o país vem reduzindo suas importações do Brasil, em particular a de veículos e autopeças, o que prejudica o PIB brasileiro. Se a situação argentina se agravar ainda mais, esse tipo de efeito será maior.

    Aqui também surgiu também uma perda específica, conforme noticiada também no último dia 7, pela Folha de S. Paulo. A de que o fundo de pensão Postalis, de funcionários dos Correios, teria perdido R$190 milhões, pois tem recursos investidos num fundo dos EUA, gerenciado pelo banco BNY-Mellon,  que comprou papéis da dívida argentina que caíram 51,5% de preços de julho para agosto. A direção do Postalis informou que as regras desse fundo previam que ao menos 80% dos seus recursos seriam aplicados em papéis da dívida externa brasileira, o que não aconteceu, e que pretende processar o gestor do fundo para recuperar esse prejuízo.

    Uma lição de toda essa história é que ela confirma que a inadimplência não vale a pena, seja ela pessoal, empresarial ou nacional.  Outra percepção, como foi visto, é que a inadimplência argentina tem desdobramentos que já alcançaram e ainda podem alcançar vários outros países, inclusive o Brasil, num processo acentuado pelo avanço da globalização, em particular do seu lado financeiro.

Como numa novela, o leitor interessado deve aguardar o próximo capítulo.
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Roberto Macedo, CFP® (Certified Financial Planner®) e economista formado pela USP com Mestrado e Doutorado pela Universidade Harvard (EUA), é pesquisador da FIPE-USP.  Foi Secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Fazenda e Planejamento, funcionário do Banco Central e do Banco do Brasil.E-mail: imprensa@bb.com.br. Este texto reflete a opinião do autor e não necessariamente a do BB; tem caráter apenas informativo e não deve ser tomado como recomendação de subscrição, compra ou venda de ativos, decisões estas de responsabilidade exclusiva dos investidores.
Quanto dinheiro para se aposentar? - 04.08.2014
Para responder a esta pergunta, refleti sobre minha própria condição de “aposentado” que continuou a trabalhar, bem como sobre a situação de parentes e amigos que já se aposentaram, com ou sem aspas. Também li um artigo sobre o assunto,  no qual se enfatiza o óbvio, ou seja, que a resposta depende muito dos objetivos e condições de cada pessoa.(*) Mas, longe do óbvio é que as pessoas precisam refletir sobre o assunto, o que nem sempre ocorre, e este artigo apresentará algumas dicas para realizar esse exercício de reflexão. Adicionalmente, procurará motivar o leitor a fazê-lo. 

Inicialmente serão apontados fatores ou aspectos que devem ser objeto dessa reflexão com foco na realidade brasileira, pois o referido artigo tem como pano de fundo a dos EUA. No final será estimulada a motivação para que as pessoas reflitam sobre o assunto.

Um roteiro para responder a pergunta do título
Esse roteiro deve envolver pelo menos as etapas que se seguem, centradas na questão financeira, por trás da qual há também a influência de outros fatores, alguns dos quais também mencionados nesse roteiro formalizado sob a forma de outras perguntas.
1.    Com o que a pessoa já pode contar? A resposta envolve um diagnóstico do presente em suas implicações para a aposentadoria no futuro. O caso típico é o de um assalariado atuando no setor privado da economia, e contribuindo para o INSS sobre o valor do seu salário, que pode alcançar o teto de contribuição ou não. Essa pessoa deve se perguntar: o valor dessa aposentadoria me será suficiente? Obviamente, para quem tem um salário acima do teto, e quer ir além deste na fase de aposentadoria, será preciso pensar num plano de aposentadoria complementar ou noutro tipo de acumulação patrimonial que propicie os rendimentos desejados. Por exemplo, rendimentos financeiros em geral ou derivados de aluguel de imóveis adquiridos.  Assim, o diagnóstico deve se estender também ao quanto já se avançou nesses complementos ao rendimento do INSS. Quanto a estes últimos, havendo opção exclusiva ou não pela acumulação patrimonial, pode-se também  pensar em vender o patrimônio no todo ou em parte à medida em que a condição de idoso for avançando no tempo. Mas, neste caso haverá que superar uma questão cultural, a de deixar uma herança para familiares, com o que essa venda poderá até sofrer a oposição dos mesmos. Por falar em herança, quem contar com uma boa já terá algo mais a acrescentar na resposta à pergunta com que iniciei este parágrafo.

2.    Foram definidos claramente os objetivos para a fase de aposentadoria? Esta pergunta é um complemento da primeira, e poderia até vir antes dela. Mas, a necessidade dessa definição de objetivos também emerge na resposta à primeira, pois ao identificar com o quê já pode contar a pessoa deve relativizar isto com suas necessidades. Esses objetivos podem ser sintetizados no padrão de vida que a pessoa almeja nessa fase da vida. Eu resumiria isto na expressão viver bem, que depende muito do ambiente socioeconômico em que as pessoas estão inseridas, pois tendem a se comparar com seus vizinhos, familiares e colegas de trabalho. Contudo, em qualquer caso,  inclusive entre as pessoas mais pobres, há a percepção de que viver bem envolve bons cuidados com a saúde. Assim, no Brasil é disseminado o interesse em ter um plano de saúde custeado pela própria pessoa, em face da generalizada insatisfação com o atendimento público. E, também em qualquer caso, é preciso examinar com cuidado a cobertura desse plano.

3.    Em que idade a pessoa se encontra e quando pretende se aposentar? O primeiro aspecto é importante porque se ela é jovem poderá fazer seus planos com menor esforço financeiro, não só porque este será mais diluído no tempo, mas porque o capital que for juntando deverá produzir rendimentos que se acrescentarão à sua acumulação.  A idade de aposentadoria atua no sentido contrário. Quanto mais precoce for, maior será esse esforço para ter um mesmo rendimento, e até este poderá ficar comprometido. No âmbito do INSS a precocidade afeta o valor da aposentadoria por meio do chamado fator previdenciário, que privilegia quem se aposenta mais tarde e prejudica quem se aposenta mais cedo. Na aposentadoria complementar, o rendimento que virá dela também depende da amplitude do tempo em que se acumulam as contribuições.

4.    A pessoa pretende continuar trabalhando depois de se aposentar?  Se a resposta é sim tudo muda de figura, pois dependendo do rendimento que terá ao se “aposentar” e do que for receber ao continuar trabalhando, ela poderá ter um rendimento até maior do que o que ganhava antes de passar a essa “aposentadoria”.  A razão pela qual isto pode acontecer é óbvia: a pessoa passará a ter dois rendimentos, no caso trivial um do INSS e o outro do trabalho em que passará a atuar, que poderá ser até mesmo o que já exercia.  Outro benefício de quem adentra essa situação é que, particularmente quando a pessoa gosta do trabalho que faz, isso costuma fazer bem à saúde física e mental. No primeiro caso porque a pessoa evita a ociosidade e no segundo porque ela terá com que ocupar sua cabeça e um convívio social mais intenso, como no trabalho que realizará.  Mas, encontrar um trabalho nessa idade não é simples.  Naquilo que faz, a pessoa precisa ser um profissional qualificado, experiente e demandado mesmo com idade mais avançada. No meio em que atuo, o exercício do magistério é uma alternativa comum para continuar, porque para quem ensina a própria idade é um indicativo de experiência e sabedoria acumulada.      

Motivação para refletir sobre o assunto não falta
Em duas passagens do texto acima já me referi a algumas questões que servem como motivação para as pessoas refletirem sobre seu status na aposentadoria, quais sejam, a perspectiva de ter um rendimento adicional que pode inclusive aumentar o total que a pessoa recebe se continuar a trabalhar.  Outra motivação, também na mesma perspectiva, é o seu impacto favorável na saúde física ou mental.

Ambas são perspectivas favoráveis.  Agora, vou me referir a uma desfavorável, até um tanto assustadora, mas que pode se revelar uma bênção para quem se motivar e se prevenir contra ela. Tal perspectiva assustadora pode se abrir para aquelas pessoas que adotam o comportamento expresso por um trecho de conhecida música de Zeca Pagodinho: “Deixa a vida me levar, vida leva eu...”.  Com a vida assim levando, a pessoa poderá acordar para a necessidade de refletir sobre a aposentadoria e de planejá-la apenas num momento tardio, quando já não mais será possível uma correção de rumos, mesmo que a necessidade disso se revele indispensável.
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Roberto Macedo, CFP® (Certified Financial Planner®) e economista formado pela USP com Mestrado e Doutorado pela Universidade Harvard (EUA), é pesquisador da FIPE-USP.  Foi Secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Fazenda e Planejamento, funcionário do Banco Central e do Banco do Brasil.  E-mail: imprensa@bb.com.br. Este texto reflete a opinião do autor e não necessariamente a do BB; tem caráter apenas informativo e não deve ser tomado como recomendação de subscrição, compra ou venda de ativos, decisões estas de responsabilidade exclusiva dos investidores.
(*) moneyover55.about.com/od/howmuchtoretire/a/How-Much-To-Save-For-Retirement.htm?nl=1.


O efeito da educação financeira na gestão das finanças pessoais - 28.07.2014
Não se pode apenas presumir que a educação financeira trará uma contribuição positiva, pois isto precisa ser avaliado.  Mas, não é uma tarefa simples.  Uma grande dificuldade é isolar o efeito da educação financeira de outras causas atuantes. Por exemplo, um curso de educação financeira com adesão voluntária tenderá a atrair pessoas mais interessadas pelo assunto e já com algum conhecimento dele, podendo assim mostrar melhor desempenho no curso, e não necessariamente como resultado dele.

Este artigo focará num estudo realizado com estudantes universitários de uma escola de negócios em Singapura que procurou isolar o efeito específico da educação financeira controlando ou isolando esse interesse prévio e outras causas atuantes.

Mas, por que se discute esse efeito?
Com base na intuição e no bom senso, a presunção de um efeito positivo parece óbvia. Afinal, no mundo moderno as questões financeiras se tornaram muito complexas e evoluem rapidamente. No Brasil, há cinco décadas atrás o público em geral desconhecia produtos financeiros como os muitos que existem hoje, tais como cartões de crédito, fundos de investimentos em renda fixa e referenciados DI, ampla disponibilidade de crédito, financiamentos imobiliários de longo prazo, incentivos fiscais para investimentos pessoais, Tesouro Direto, Certificados de Depósito Bancário (CDBs) e similares, operações de leasing, seguros e consórcios de todo o tipo, e outros.

Nessas condições torna-se necessário dominar pelo menos os aspectos básicos dessas e outras opções disponíveis, cuja expansão foi muito facilitada pelo avanço das tecnologias de informação e de comunicação. Assim, a educação financeira traria benefícios.

Mas, ela também custa dinheiro, mesmo que oferecida gratuitamente pelo governo ou outras instituições. E quem decide financiá-las quer saber de que formas ela deve ser provida de modo eficaz, ou seja, se produzirá resultados. Colocada essa questão, e como já apontado no início deste artigo, é preciso isolar o efeito específico da educação financeira relativamente a outros atuantes.

Como essa questão foi abordada num artigo 
Ao final indico como chegar ao texto completo dele por meio da internet.(*) Vou me referir apenas a alguns aspectos metodológicos que me pareceram mais importantes, e enfatizarei também as principais conclusões da pesquisa.

Logo no início o artigo aponta que ela contou com recursos de três instituições, duas mais voltadas para pesquisas acadêmicas. A outra, uma fundação que tem o nome de uma grande instituição financeira internacional privada, fundação essa cujo objetivo é o de “... promover o progresso econômico em comunidades de todo o mundo e focar em iniciativas que ampliam a inclusão financeira.” A educação financeira é uma dessas iniciativas, e ao prover recursos para a pesquisa essa fundação também se revela interessada em se saber se tal iniciativa funciona.

Quanto à metodologia, a principal contribuição do estudo, dentro do seu propósito de isolar o efeito de um curso de educação financeira de outras causas atuantes, foi a de colocar entre estas a ideia de que os estudantes mais motivados a tomar o curso podem demonstrar melhores resultados do que os menos motivados. Mas, como medir e isolar essa motivação? Isto foi permitido pela forma pela qual os estudantes dessa universidade escolhem as disciplinas que vão cursar.  A cada semestre todos recebem um montante fixo de dólares virtuais que utilizam para selecioná-las como num leilão, oferecendo lances maiores para aquelas pelas quais eles têm maior preferência. Isto permitiu que os valores dos lances feitos para escolher educação financeira fossem tomados como indicativos do interesse do estudante, com os lances maiores representando maior interesse e motivação. 

Pesquisas desse tipo procuram proceder como em laboratórios em que, por exemplo, um grupo de camundongos doentes recebe um tratamento que outro grupo doente não recebe, para isolar o efeito específico do tratamento. No caso, técnicas estatísticas sofisticadas, como a análise de regressão, permitem verificar o efeito do curso, medido por resultados de testes de avaliação antes e depois dele, e “descontado” o efeito da motivação. 

O experimento estatístico também procurou distinguir o efeito de outros fatores, como o desempenho geral noutros cursos, indicando a capacidade de aprendizado do aluno, e sexo e idade, na hipótese de que essas variáveis também pudessem ter efeitos nos resultados. E numa versão ampliada, até pela qualidade dos professores.

Os resultados  obtidos
Dentre eles destacamos dois. O primeiro, conforme foi ressaltado pelos autores ao resumirem suas conclusões, foi o de que a educação financeira aprimorou em 11% o conhecimento financeiro dos estudantes, medido antes e depois de cursarem essa disciplina, e em 16% seu desempenho em teste sobre questões de planejamento financeiro.
Uma implicação de ordem mais geral é que a educação financeira nessa fase da vida é particularmente importante, pois outra pesquisa referida no texto mostrou que estudantes, donas de casa, desempregados e aposentados revelam o menor conhecimento financeiro quando comparados a outros segmentos da sociedade. Além disso, constatou-se, em mais um estudo citado pelos autores, que o consumismo é muito alto entre os jovens. Assim, nos EUA, mais da metade dos estudantes universitários em nível de graduação têm quatro ou mais cartões de crédito, com um endividamento médio de US$3.000.  E apenas 21% dos estudantes que têm cartões pagam integralmente seus saldos mensais enquanto 11% pagam menos que o mínimo devido.

Outro aspecto interessante do artigo é que ao seu final ele reproduz o teste que avalia inicialmente o desempenho em 13 questões de educação financeira, indicando as respostas corretas. Talvez interesse ao leitor examinar seu próprio conhecimento. Além disso, informa que os estudantes receberam US$10 pela participação em cada teste.

Para este autor,  também pregador da educação financeira, é estimulante saber que o estudo analisado confirma a necessidade dessa pregação, em particular na fase da juventude e a fim de que maus hábitos financeiros não se instalem por toda a vida.
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Roberto Macedo, CFP® (Certified Financial Planner), é economista formado pela USP com Mestrado e Doutorado na Universidade Harvard (EUA).  Foi Secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Fazenda e Planejamento, funcionário do Banco Central e do Banco do Brasil. E-mail: imprensa@bb.com.br. Este texto reflete a opinião do autor e não necessariamente a do BB; tem caráter apenas informativo, e não deve ser tomado como recomendação de subscrição, tomada de créditos, compra ou venda de ativos, decisões estas de exclusiva responsabilidade do investidor.
(*) Rashmi Barua, Benedict Koh e Olivia S. Mitchell, A Educação Financeira Melhora o Preparo Financeiro? Evidencia de um Experimento de Campo em Singapura (tradução deste autor). Trabalho para Discussão Interna BWP2014-01, do Centro Boettner de Pesquisas sobre Aposentadorias e Pensões (idem), acessível em http://www.pensionresearchcouncil.org/publications/document.php?file=1166.    
   

O planejamento tributário nas finanças pessoais - 21.07.2014
A carga tributária ou de impostos no Brasil é uma das maiores do mundo. E é a maior entre os países que têm um nível de Produto Interno Bruto (PIB) por habitante parecido com o brasileiro, que está próximo de US$10.000 ou de R$22.500 por ano.

Essa carga faz jus ao nome, pois é um peso que a economia e seus habitantes suportam para custear o Estado como um todo, ou seja, tanto a administração federal como as estaduais e municipais. Hoje ela está em torno de 36% do Produto Interno Bruto, e se for medida em termos dos referidos valores do PIB por habitante, isto significa que em média os brasileiros pagam US$3.600 ou R$8.100 de impostos por ano. Deve ser um dos maiores itens de suas despesas, se não o maior em muitos casos.

Nessas condições, é particularmente importante que o contribuinte conheça a estrutura tributária do seu país para decidir como se comportar diante dela, inclusive para ser menos alcançado pela mesma, sem sonegar impostos. No que se segue, serão examinados alguns aspectos da carga tributária brasileira e apresentadas dicas quanto a esse comportamento diante dela.

Aspectos relevantes da estrutura tributária brasileira
Três economistas brasileiros realizaram em 2013 um amplo estudo da estrutura tributária brasileira para o Banco Interamericano de Desenvolvimento usando dados de 2010.(*)  Naquele ano a carga tributária alcançou 34,2% do PIB brasileiro.

Nela se destacam os impostos como o Imposto sobre Produto Industrializados (IPI), o Imposto sobre Circulação de Bens e Serviços (ICMS)  e outros,  chamados de indiretos porque embutidos nos preço de bens e serviços. Tais impostos respondiam então por 45% do total da carga; as contribuições de previdência social, pagas por empregadores e empregados, respondiam por 25,9% do mesmo total, sendo que a parte maior, dos empregadores, 20,3% do mesmo total,  e também tende a ser transferida para os preços dos bens e serviços, pois tais preços incorporam os custos de produção em cada caso. Já os impostos sobre rendas, lucros e ganhos de capital, chamados de diretos, pois alcançam diretamente seus contribuintes, respondiam por apenas 18,6% do total arrecadado. 

Dado esse quadro, o cidadão comum paga, em termos relativos, muito mais impostos incidentes sobre o que gasta com consumo do que com os que são descontados de seus rendimentos.  Assim, é uma situação em que é melhor poupar do que gastar, pois não há impostos sobre o ato de poupar. Além disso, a poupança pode ser aplicada em investimentos financeiros, cujos rendimentos, como no caso da Caderneta de Poupança, são isentos do Imposto de Renda.  E mesmo quando tributados, nos prazos mais longos o Imposto de Renda de Pessoa Física (IRPF) não ultrapassa 15%. É claro que os recursos assim poupados poderão ser lá na frente usados no consumo, sofrendo a tributação correspondente, mas enquanto isto não ocorre os altos impostos incidentes sobre o consumo não serão pagos e gerarão rendimentos quando investidos.

Outra implicação importante: quando brasileiros visitam os EUA, e outros países cujos cidadãos pagam mais impostos sobre a renda e propriedade do que os embutidos nos preços de bens e serviços, esta é uma das razões pelas quais turistas brasileiros percebem que nesses países os preços são em geral bem mais baratos do que no Brasil. E, assim, neles gastam bilhões de dólares por ano comprando o que podem. Nos EUA, soube ser comum que casais brasileiros que aguardam uma criança por nascer visitem o país para comprar todo o enxoval que ela usará, inclusive o carrinho para carregá-la.

Outras dicas para o planejamento tributário
1. Aproveitar  deduções de despesas que reduzem o Imposto de Renda de Pessoas Físicas (IRPF) ou aumentam os valores das restituições a receber após o preenchimento da declaração de ajuste anual até 30 de abril de cada ano. Entre elas, gastos com educação e saúde, inclusive planos de saúde, contribuições de previdência próprias e de um empregado doméstico e de investimentos incentivados como planos de previdência privada fechados, como os empresariais,  ou abertos, como o PGBL.

2. Aproveitar incentivos estaduais e municipais para que o consumidor exija nota ou cupom fiscal nas suas aquisições de bens e serviços, o que ajuda no combate à sonegação de impostos devidos a esses entes federativos. Por exemplo, no Estado de São Paulo há o programa Nota Fiscal Paulista, no qual o consumidor se identifica pelo seu CPF ao exigir nota ou cupom fiscal,  e depois recebe de volta uma pequena parte do imposto que pagou, além de participar do sorteio de somas maiores. Há programas semelhantes noutros estados e também em algumas prefeituras das cidades maiores.

3. Examinar impostos a pagar ao adquirir bens e serviços. Este ano, em junho,  entrou em vigor a chamada Lei do Imposto na Nota que estabelece a menção obrigatória, nas notas ou cupons fiscais, do valor de todos os impostos que incidiram sobre os bens adquiridos. Esta lei ainda está nos primórdios da sua aplicação. Uma de suas dificuldades é que o valor dos impostos é apresentado pelo seu total e não discrimina individualmente os vários tributos incidentes sobre cada mercadoria ou serviço, o que poderia orientar a escolha dos menos tributados. Mas, a informação sobre o total de impostos serve para mostrar o elevado peso dos tributos. Por exemplo, na minha última conta de supermercado o valor total dos tributos embutidos representou 37,2% do total gasto.

No site da Receita Federal há um levantamento da carga tributária por produto e por imposto, para uma lista de produtos de consumo popular. Ela está em:
www.receita.fazenda.gov.br/publico/EducacaoFiscal/PrimeiroSeminario/22CARGATRIBUTARIAPRODUTOSDECONSUMOPOPULAR.pdf. Um dos produtos é o maço de cigarros e percebe-se que ao fumar um de R$1,80 a pessoa estará “queimando” R$1,05 de impostos, ou 58,3% do preço. Assim, deixar o vício é também uma forma de poupar.
Pode-se argumentar que essa alta carga tributária sobre os cigarros tem o efeito de desestimular o vício de fumar.  Mas, tome-se outro caso, o da conta de energia elétrica, onde os impostos representam 39,3% da conta. Aí o mesmo argumento não vale.

4. Ao trabalhar, conforme a natureza do trabalho, às vezes é conveniente a pessoa oferecê-lo como pessoa jurídica, pois dependendo do valor do rendimento, a tributação da pessoa jurídica é menos onerosa do que a da pessoa física.  Há que ponderar sobre o tipo de pessoa jurídica mais adequado, e voltarei ao assunto num futuro artigo.
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Roberto Macedo, CFP® (Certified Financial Planner), é economista formado pela USP com Mestrado e Doutorado na Universidade Harvard (EUA).  Foi Secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Fazenda e Planejamento, funcionário do Banco Central e do Banco do Brasil. E-mail: imprensa@bb.com.br. Este texto reflete a opinião do autor e não necessariamente a do BB; tem caráter apenas informativo, e não deve ser tomado como recomendação de subscrição, tomada de créditos, compra ou venda de ativos, decisões estas de exclusiva responsabilidade do investidor.
(*) José Roberto Afonso, Julia M. Soares e Kleber P. Castro, White Paper on Taxation in Brazil, Trabalho para Discussão IDB-DP-265, Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), Washinton, DC, EUA.   

Balanço semestral de aplicações financeiras - 14.07.2014
Um compasso de espera marcou o primeiro semestre e continua a marcar o atual ciclo do mercado financeiro. Mas, por que isto ocorre? Junto com o fraco ritmo da economia, um olhar na eleição presidencial tem sido fator importante nos últimos meses a afetar tanto a renda fixa como a renda variável.

Na renda fixa, a eleição afasta a perspectiva de aumento da Selic, hoje em 11% ao ano, até que as urnas tragam a definição.  Depois desta, a política monetária dependerá  também de como a inflação estará se comportando. As taxas do IPCA,  o índice meta da política monetária, caíram nos últimos dois meses, de um valor médio de 0,71% no primeiro quadrimestre de 2014 para a média de 0,43% em maio e junho, e a perspectiva é de que as taxas se mantenham mais estáveis nos próximos meses. Com isto, a perspectiva é de boa remuneração da renda fixa em face do valor em que a Selic se encontra.  

Uma das razões desse cenário da inflação é a vagareza da economia que ajuda a aliviar pressões inflacionárias. Quanto à economia, algumas instituições financeiras estão  prevendo que no final de agosto o IBGE poderá anunciar uma variação até negativa do PIB no trimestre recém concluído. 

Na renda variável, e centrando o foco nas ações, o fraco desempenho do PIB, na medida em que prejudica resultados das empresas, também tem um efeito desanimador. Mas, talvez em busca de um derivativo para esse desânimo,  e para a imobilidade associada ao compasso de espera, o mercado acionário passou a especular com resultados de pesquisas eleitorais e com o status da economia e da política econômica dependendo de quem for eleito.  Isto tem afetado o desempenho de ações, particularmente as da Petrobrás. Especulação é um traço típico desse mercado, e é um dos fatores que marcam sua atratividade apenas para investidores mais propensos ao risco, particularmente nas condições atuais.

Olhando os dois mercados, a renda fixa, ao lado de seus próprios atrativos, como a Selic alta, vem se revelando, como de hábito nessas circunstâncias, um porto seguro para os investidores que não querem entrar no jogo acionário em tempos de dificuldades econômicas combinada com especulações eleitorais.  E esses investidores são a maioria, e a comparação dos rendimentos de um e outro mercado também estimula essa preferência.
   
Rendimentos: os números de um balanço semestral

A tabela abaixo mostra rendimentos reais e nominais de várias aplicações. Como referências foram acrescentadas as variações do CDI e  do IPCA nos dois lados da tabela.

Rendimento nominal e real no primeiro semestre de 2014 (*) -  Em %
RENDA FIXA


RENDA VARIÁVEL

Aplicação
Nominal
Real
Aplicação
Nominal
Real
Fundos Referenciados DI
5,05
1,32
Ibovespa
3,22
-0,44
Fundos Renda Fixa
5,77
2,01
Dólar Comercial Mercado
-6,19
-9,53
CDBs(**)
4,84
1,12
Ouro BM&F-Spot
3,87
0,18
Poupança antiga e nova (***)
3,39
-0,28



Referências


Referências


CDI (****)
4,97
1,24
CDI
4,97
1,24
IPCA-SEMESTRE (*****)
3,75

IPCA SEMESTRAL(*****)
3,75


Fontes: jornal Valor (1/7/14), com dados baseados  em  instituições do mercado e outras. Notas: (*) rendimento bruto, sem desconto do IR e taxas de administração, se cabíveis;  (**)  taxas  para  aplicações  no  primeiro  dia do  mês; (***) rendimento mensal de contas com vencimento no primeiro dia útil do mês; (****) a taxa do CDI é usualmente muito próxima da Selic; no semestre, a Selic ficou em 5,02% e a taxa do CDI em 4,97%; (*****) estimado em 0,34% pela fonte para o mês de junho (resultado do IBGE foi 0,40%); Outras informações e o quadro completo mensal e semestral nominal e real, podem ser obtidos da fonte no seu caderno D, p. D1.

A tabela deixa claro que os rendimentos das aplicações em renda fixa, em particular das mais referenciadas direta ou indiretamente à Selic (ou CDI), como os CDBs e os fundos DI,  superaram a inflação do IPCA, garantindo assim rendimentos reais. A caderneta de poupança teve uma pequena perda em termos reais, o que em parte explica a queda de sua captação líquida no primeiro semestre deste ano, relativamente a igual período de 2013.

Quanto à renda variável, a tabela mostra que o Ibovespa também teve pequena redução em termos reais, enquanto o dólar caiu até em termos nominais e também em parte como resultado do aumento da Selic, que atraiu mais dólares do exterior. Mesmo com essa valorização do real, o ouro teve rendimento real positivo em reais, pois o preço do metal superou a queda do dólar e o rendimento nominal superou a inflação.

Mas,

Em que pese o melhor rendimento da renda fixa, vale lembrar que dentro dela o investidor dispõe de alternativas que se evidenciaram nos últimos anos, as quais se tornaram particularmente atrativas, pois não sofrem a incidência do Imposto de Renda (IR). Conforme já realçado em artigos anteriores, as Letras de Crédito Imobiliário (LCIs) e as de Crédito do Agronegócio (LCAs) vêm se destacando entre as aplicações alternativas.

Ambas têm características similares às dos muito conhecidos Certificados de Depósito Bancário (CDBs), que podem ser pré ou pós fixados. Como estes últimos, as LCIs e LCAs rendem uma porcentagem do CDI, mas são isentas do IR. De um modo geral, a porcentagem do CDI oferecida pelos CDBs é maior, compensando parte desse IR. É preciso conhecer esses aspectos para saber a aplicação de maior rentabilidade líquida.

De qualquer forma, a procura por essas alternativas cresceu muito. Dados da Anbima (Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais – www.anbima.com.br) mostram que o estoque de LCIs passou de R$75,28 bilhões em junho de 2013 para R$119,93 bilhões em junho de 2014, o que significou um expressivo aumento de 59%. Para uma idéia da dimensão relativa desse estoque, no final do mês ele já representava cerca de um terço do valor do estoque dos tradicionais e muito conhecidos fundos DI, que então chegou a R$317,6 bilhões.

Em menor magnitude, as LCAs também vêm ganhando espaço.  Entre junho do ano passado e junho deste ano, seu estoque cresceu 22% para R$32,2 bilhões nesse último mês.  O BB oferece esses papéis. Fontes de maiores informações são abaixo indicadas (*).
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Roberto Macedo, CFP® (Certified Financial Planner®) e economista formado pela USP com Mestrado e Doutorado pela Universidade Harvard (EUA), é pesquisador da FIPE-USP.  Foi Secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Fazenda e Planejamento, funcionário do Banco Central e do Banco do Brasil.  E-mail: imprensa@bb.com.br. Este texto reflete a opinião do autor e não necessariamente a do BB; tem caráter apenas informativo e não deve ser tomado como recomendação de subscrição, compra ou venda de ativos, decisões estas de responsabilidade exclusiva dos investidores.
(*)LCIs: bb.com.br/portalbb/page100,116,500239,1,0,1,1.bb?codigoMenu=1092&codigoRet=17998&bread=3        
LCAs: bb.com.br/portalbb/page100,114,32422,6,0,1,1.bb?codigoMenu=901&codigoNoticia=35521&codigoRet=17554&bread=2   


Dicas para economizar em supermercados - 07.07.2014
Compras em supermercados absorvem um bom pedaço do dinheiro das famílias, pois envolvem um conjunto de necessidades importantes, particularmente alimentos e produtos de higiene e limpeza. Como há supermercados ou hipermercados que vendem muito mais coisas, inclusive eletrodomésticos e eletrônicos, este artigo focará apenas em bens não duráveis de consumo, como os citados e outros.

1. Entender como os supermercados vendem
Conheci os antigos armazéns, onde o cliente era atendido diante de um balcão e pedia, por exemplo, um quilo de arroz.  Atrás desse balcão o produto era armazenado em caixas de madeira ou nos próprios sacos em que eram recebidos pelos armazéns, tendo como vizinhos o feijão, farinhas e outros produtos.

Com um recipiente onde em geral cabia um pouco mais de um quilo, o atendente retirava o arroz e o colocava num saco de papel levado à balança, diante do freguês.  Se este pedia latas de alguma coisa, lâmpadas ou sabonetes, tudo ficava em prateleiras também atrás do balcão. Carnes eram compradas em açougues, o leite vinha de fazendas por carroças e entregue casa a casa. Verduras e frutas vinham da mesma forma ou eram encontradas em mercados onde também se vendiam frangos vivos para abate doméstico.

Ora, esse processo envolvia muita mão-de-obra e tomava muito tempo nas suas etapas.  Nos supermercados o próprio cliente é colocado a trabalhar retirando os produtos de gôndolas e geladeiras. O atendimento pessoal é limitado ao caixa e a casos como de peixes e dos produtos fatiados vendidos por peso. A disponibilidade de produtos é hoje infinitamente maior e inadequada ao modelo dos armazéns.

Um aspecto fundamental para o consumidor desprevenido é que nos supermercados tudo é feito para induzi-lo a comprar produtos de cuja aquisição não cogitava, expostos nas gôndolas com embalagens de cores atraentes, e também impulsionados pela propaganda na televisão, nos jornais e outros meios, que enfatizam suas qualidades associadas a marcas específicas. Outra prática é colocar os produtos usualmente mais procurados, como leite e pães, mais no fundo do estabelecimento, para que o cliente tenha que passar pelas alas de gôndolas e suas tentações. As dicas que se seguem são formas de resistir a elas e tirar maior proveito do que é oferecido.

2. Ir menos vezes
Ir ao supermercado toma tempo e envolve custos, como o do uso do automóvel. Se não houver custos adicionais ou se forem muito baixos, é recomendável encomendar por telefone a entrega a domicílio, o que também exige a lista prévia sugerida a seguir. Mas, pedir é preciso ser explícito em termos de marcas,  tamanho de embalagens e outros detalhes. Assim pedindo, o consumidor também evita as tentações do local.

3. Fazer previamente uma lista do que se vai comprar
Supermercado não é lugar para passear procurando não sei bem o quê. Mesmo não sabendo, o supermercado se encarrega de ofertar as tentações. É recomendável ter uma lista prévia daquilo de que realmente se necessita, e se apegar a ela não apenas como propósito, mas criando o hábito de segui-la. Hábitos é que firmam atitudes.
 
4. Comparar preços dentro, entre e fora dos supermercados
Mesmo dentro deles, os preços variam. Por exemplo, por marca e forma das embalagens, e é preciso atenção especial para o peso, volume (por exemplo, em litros ou mililitros) ou unidades  (por exemplo, de pilhas) contidas dentro delas. Não me refiro apenas ao fato de que as embalagens maiores, por exemplo, de detergentes, costumam ter preço menor por litros ou suas frações. Mas, noutro exemplo, como proceder quando desodorantes ou pastas dentais vêm em embalagens que às vezes até aparentam ter a mesma quantidade, mas no detalhe há uma diferença quanto ao que contêm?  Por exemplo, pastas dentais com 70 ou 90g. Diante dessa questão, muitas pessoas não conseguem calcular mentalmente o preço por grama mesmo de forma aproximada. Mas, há calculadoras portáteis que custam muito pouco e pode-se levar uma delas, que também servirá para saber o valor total do que já está no carrinho. A propósito, é melhor evitar os carros grandes e a disposição de enchê-los até o topo, o que pode esvaziar o bolso ou vazar dinheiro pela conta do cartão.

Quanto a comparar preços entre e fora dos supermercados, como em feiras livres, mercadinhos da vizinhança e “atacarejos” (atacadistas que também vendem no varejo), trata-se de tarefa mais complicada. Um recurso útil é informar-se com parentes, amigos e vizinhos, pois os supermercados careiros e os mais baratos costumam ficar conhecidos nesse ambiente social.  Pode-se também usar a internet para essa finalidade, como vi colocando “comparar preços de supermercados” num site de busca.

5. Não se apegar a marcas
Marcas procuram fidelizar consumidores, com as virtudes dos seus produtos alardeadas pela propaganda nos seus vários meios.  Há as que de fato primam pela qualidade, mas o consumidor deve comparar o mesmo produto oferecido por diferentes marcas e formar sua própria opinião.

6. Buscar ofertas inclusive de produtos com prazo de validade próximo
Refiro-me às ofertas reais, e não as que iludem o consumidor aumentando o preço antes de aplicar o “desconto”. E coisas do tipo: compre uma unidade pelo preço normal e a segunda com desconto de 50%.  Se aceitar, a pessoa estará comprando as duas com desconto de 25%.   Quanto às ofertas perto da validade do produto vale lembrar que o que está dentro dele não olha o calendário para se tornar inválido. Dependendo do produto, um ou poucos dias a mais não fazem diferença. Cupons de desconto? Nos EUA sei que os jornais de domingo estão cheios deles, mas parece que aqui a moda não pegou.

7.  Não levar criancinhas; as maiores podem aprender com as compras

Criancinhas são mais difíceis de conter e de modo inconveniente podem se embirrar ou cair em choradeiras quando contrariadas em seus desejos. Alguém me disse que alguns supermercados colocam o que mais atraem o interesse delas em prateleiras mais baixas, mas nunca conferi isto. Sugiro, entretanto, que as já alfabetizadas e “numeralizadas” sejam levadas ao supermercado para aulas de educação financeira, aprendendo o valor do dinheiro, o seu limite, ajudando a encontrar os produtos da lista e a comparar preços na forma indicada, aguçando também seu senso de responsabilidade.

O assunto admite outras reflexões e eventualmente voltarei a ele neste espaço.
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Roberto Macedo, CFP® (Certified Financial Planner), é economista formado pela USP com Mestrado e Doutorado na Universidade Harvard (EUA).  Foi Secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Fazenda e Planejamento, funcionário do Banco Central e do Banco do Brasil. E-mail: imprensa@bb.com.br. Este texto reflete a opinião do autor e não necessariamente a do BB; tem caráter apenas informativo, e não deve ser tomado como recomendação de subscrição, tomada de créditos, compra ou venda de ativos, decisões estas de responsabilidade exclusiva dos investidores.

Por que é importante diversificar os investimentos - 30.06.2014
Diversificar investimentos é uma ideia de fácil compreensão, pois é uma questão de bom senso fazer isto para evitar o risco de concentrá-los num único tipo de ativo, como imóveis ou ações.  Até percepções populares transmitem a ideia, como a de que não se deve colocar num mesmo ninho todos os ovos disponíveis para chocar.

Mas, são muitos os investimentos disponíveis e entre outros também podem ser mencionados a Poupança,  fundos de investimentos, papéis como Certificados de Depósito Bancário (CDBs), Letras de Crédito Imobiliário (LCIs),  dólar,  investimentos em bolsas estrangeiras, ouro etc..  Quando o investidor também quer usar a diversificação para ampliar seus rendimentos ela se torna mais complexa.

Pode-se, também, buscar ativos mais adequados quando a inflação se manifesta de modo mais forte, o que é comum num país como o Brasil.  Este artigo procura examinar a diversificação conforme objetivos priorizados pelo investidor.

Começando do começo
Suponhamos uma pessoa que tenha R$10.000 na sua conta corrente ou mesmo em dinheiro vivo. Se o dinheiro ficar nessa situação a inflação irá reduzir o valor real dele, ou seja, algum tempo depois esse dinheiro terá um poder aquisitivo menor.

Atualmente a inflação está próxima de 6,5% a cada 12 meses, conforme o IPCA do IBGE. Isto significa, por exemplo, que se esse mesmo poupador não tomasse qualquer providência, ao final de 12 meses o poder aquisitivo desse dinheiro cairia para R$9.390. Por que esse número? Com a inflação, um conjunto de bens e serviços que valesse R$10.000 no início do período ao final dele passaria a valer R$10.650. Dividindo-se R$10.000 por R$10.650, essa pessoa só teria condições de pagar 0,939 ou 93,9% do novo valor dessa coisa.

Portanto, é preciso que esse poupador procure algum investimento que pelo menos proteja seu dinheiro dessa corrosão inflacionária.

O primeiro passo na direção da diversificação
Esse primeiro passo deve ser feito antes que esse efeito corrosivo da inflação aconteça. E tal passo já é uma diversificação, pois as pessoas sempre mantêm em dinheiro vivo ou em conta corrente uma parcela do que têm, parcela esta que deve ser a mínima possível diante desse impacto negativo da inflação.

Quanto a isto, a maioria dos poupadores brasileiros – e são dezenas de milhões  –, optou por fazer essa diversificação seguindo o caminho da caderneta de Poupança. Por coincidência, no momento atual a remuneração da Poupança está cobrindo aproximadamente a taxa de inflação,  pois essa remuneração é de 0,5% ao mês de juros, o que leva a 6,17% ao ano, mais a Taxa Referencial (TR). Por exemplo, para as contas com vencimento mensal no dia 1º, no mês de junho a remuneração total foi de 0,5467% sendo 0,0467% de TR, número este que equivale a 6,76% em 12 meses. Ou seja, até  maior um pouco do que a inflação nesse período. Mas vale lembrar que contas como esta podem variar de um mês para outro e até a cada dia, pois a TR tem valor diário.

Um segundo passo: na renda fixa, remunerações maiores são para valores maiores
A Poupança é considerada aplicação de renda fixa, não apenas porque a maior parte dela é fixa (a parcela correspondente a 0,5% ao mês), e também porque mesmo a remuneração total tem maior previsibilidade, ao contrário, por exemplo, das ações, cuja volatilidade de preços e de rendimentos é em geral muito maior.

Mas, mesmo na renda fixa quem dispõe de mais recursos que o pequeno poupador poderá encontrar aplicações que rendem mais que a Poupança, em particular porque há muitas que são direta ou indiretamente ligadas à taxa básica de juros, ou Selic, hoje em 11% ao ano. Essa taxa é também a principal e bem próxima determinante da taxa média dos CDIs (Certificados de Depósitos Interfinanceiros), também indicativa da remuneração das mesmas aplicações. Só que sobre várias delas há incidência de taxas de administração e do Imposto de Renda.  Mas, com a Selic nesse valor, várias aplicações ganham da Poupança, mesmo quando oneradas por esses custos. Um elemento que dificulta o acesso a elas pelos pequenos poupadores é que costumam exigir valor mínimo de aplicação e em geral há um prêmio para as aplicações maiores. Por exemplo, algumas podem render 105% da taxa média dos CDIs.

Na renda fixa a liquidez também é muito alta. Ou seja, em geral pode-se resgatar as aplicações imediatamente. Passando ao risco, ele também é dos menores se comparados com os das aplicações em renda variável, que examinaremos em seguida. 

Ainda na renda fixa, várias aplicações têm também a proteção do Fundo Garantidor de Crédito (FGC). Entre elas a Poupança, os CDBs, as LCIs e as de Crédito do Agronegócio (LCAs). A garantia pode alcançar até R$ 250.000,00, limitada ao saldo existente. Para maiores detalhes, veja-se www.fgc.org, inclusive quanto aos interessantes casos de aplicações realizadas conjuntamente por duas ou mais pessoas.

Terceiro passo: na renda variável ganhos podem ser maiores, mas riscos também
As ações são típicas da renda variável, pois seus ganhos variam muito com os preços que elas assumem no dia-a-dia das bolsas. A volatilidade dos preços costuma ser elevada e os ganhos podem ser altos, mas as perdas também. Em geral, os dividendos variam menos, mas os resultados das ações são mais determinados pelos preços.

Entendo que ações são para pessoas que já têm um certo volume de investimentos noutros ativos de risco bem menor, como imóveis e renda fixa, e estão em condições de até perder algum dinheiro nesse outro mercado. Nele a regra de sucesso é comprar na baixa e vender na alta, mas escolher as ações e os momentos adequados para um ou outro movimento não é simples.

Como investidor individual é preciso aprender e adquirir experiência com pequenas aplicações em ações antes de se arriscar a voos maiores. Ou, então, buscar a assessoria de especialistas. Outro caminho é investir em fundos de ações, cujos gestores assumem esse trabalho, cobrando por isso. E, para reduzir ainda mais os  riscos escolher fundos que envolvem um amplo espectro de ações, alguns focados em índices, como o Ibovespa, replicando a composição dele nas carteiras desses fundos.

E há outras formas de diversificar
Entre elas, o imóvel próprio se destaca, pois é uma aspiração da maioria das pessoas. A dificuldade do imóvel é que em geral sua liquidez é baixa. Para ampliá-la e  preservar ou até ganhar com a valorização, a boa localização é fator fundamental.

E há mais, como imóveis para renda, bolsas estrangeiras e empreendimentos próprios. Em geral, a necessidade de diversificação e a propensão a ela aumenta com a ampliação dos recursos disponíveis.
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Roberto Macedo, CFP® (Certified Financial Planner), é economista formado pela USP com Mestrado e Doutorado na Universidade Harvard (EUA).  Foi Secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Fazenda e Planejamento, funcionário do Banco Central e do Banco do Brasil. E-mail: imprensa@bb.com.br. Este texto reflete a opinião do autor e não necessariamente a do BB; tem caráter apenas informativo, e não deve ser tomado como recomendação de subscrição, tomada de créditos, compra ou venda de ativos, decisões estas de responsabilidade exclusiva dos investidores.

Um balanço semestral das finanças pessoais - 23.06.2014
A próxima segunda-feira marca o fim do primeiro semestre de 2014 e várias razões recomendam fazer um balanço desse tipo. Algumas delas serão esclarecidas neste artigo, que também abordará itens que esse balanço deve incluir.

Fim do primeiro semestre é o meio do caminho
O meio do ano tem um quê de meio do caminho, e é um bom momento para avaliar objetivos, metas e resultados na gestão das finanças pessoais, de modo a refletir sobre o que se passa com elas. Na terminologia do planejamento, objetivos são questões maiores, como as de poupar ou estudar mais. Metas são também objetivos, mas definidos com maior precisão e com prazos estabelecidos. Por exemplo, vou poupar certo montante ou uma porcentagem do meu salário todo o mês, de modo a chegar a uma determinada soma em tantos anos. E a avaliação de resultados é fundamental para examinar se tais objetivos e metas são alcançados.

Nessa linha, costumo recomendar o uso da declaração anual do Imposto de Renda da Pessoa Física (IRPF) como um balanço das finanças pessoais, mas ela é preparada só no início do ano seguinte ao ano-calendário a que se refere, com o prazo final de entrega em 30 de abril.  Essa declaração facilita o trabalho, pois exige o levantamento de dados indispensáveis a um balanço, como rendimentos, alguns tipos de gastos, a listagem dos bens e direitos, bem como das dívidas e outros ônus reais, conforme a linguagem da declaração. 

Contudo, ela diz respeito a um passado que não pode ser modificado. Serve para avaliar o passado e planejar o futuro. Ademais, convenhamos, o período de um ano é muito longo para, entre outros aspectos, permitir ajustes ao longo dele.  Como, por exemplo, para ajustar a composição da carteira de investimentos diante da dinâmica até diária de alguns investimentos, como ações ou das remunerações das aplicações de renda fixa. Ou, ainda, para planejar decisões que necessariamente têm que ser feitas antes do fim do ano-calendário, assunto a que voltaremos mais à frente.

As providências do balanço semestral podem ser agrupadas em cinco grupos.

1. Reunir as informações necessárias 
Quem apresentou a declaração do IRPF, particularmente a do formulário completo, já terá boa parte das informações necessárias, com a dificuldade maior residindo no levantamento de outros grupos de despesas, pois nessa declaração o interesse maior se concentra naquelas dedutíveis dos rendimentos brutos para reduzir o imposto a pagar ou aumentar o  valor da restituição.  Como a declaração referente ao ano anterior foi preparada no primeiro quadrimestre do ano corrente, o status das finanças então avaliado ainda deve estar na memória e a respectiva documentação, junto com a do primeiro semestre do ano corrente, constituirão a base para o balanço semestral. Em síntese, é preciso atualizar o balanço relativo ao ano anterior. Quem não o fez para a Receita Federal, e não o completou com outras informações, como os gastos que não são incluídos na declaração, terá evidentemente maior trabalho a fazer.

2. Reexaminar rendimentos, gastos e o que foi poupado
Retomo aqui minha pregação usual de que o caminho da prosperidade pessoal está em poupar e investir no período que antecede as idades mais avançadas, para que as pessoas tenham então um padrão de vida digno ao enfrentar as dificuldades comuns dessa fase da vida. Em particular as de manter rendimentos adequados quando perdem sua capacidade de trabalho, ou optam por deixá-lo, adequação esta que pode ser comprometida por gastos maiores ligados à saúde.

Este deve ser o objetivo síntese do planejamento financeiro pessoal para a maioria das pessoas.  E para alcançá-lo devem ser estabelecidas e cumpridas metas para a poupança e o investimento ao longo da vida.

Também vale lembrar que poupar não é uma questão que se limita a conter determinados gastos. Eu diria que tão ou mais importante é ampliar os rendimentos, entre outras formas mediante investimento dessa poupança, e reforçando a capacidade pessoal de ampliá-los. Como, por exemplo, com mais investimentos em educação e treinamento e/ou buscando uma atividade empresarial.

3. Realocações dentro da carteira de investimentos
Dependendo do volume de recursos disponíveis, da disposição para buscar maiores rendimentos e da propensão ao risco de cada investidor, pode ser conveniente até um acompanhamento diário dos investimentos.  Mas, mesmo quem não dispõe de muito dinheiro deve seguir de perto pelo menos algumas mudanças básicas que ocorrem no mercado financeiro. Como, por exemplo, a elevação da Selic desde 18/4/13, que a trouxe de 7,25% ao ano para seu valor atual de 11% ao ano, o que aumentou a atratividade de aplicações diretamente ou indiretamente ligadas a essa taxa. Mas, sempre lembrando que a análise dessa atratividade relativamente a outras aplicações, como a Poupança, deve incluir em cada caso a tributação pelo Imposto de Renda, se existente,  e a cobrança de taxas de administrações, quando cabíveis.

A realocação de investimentos em ações é um processo bem mais complicado, pois envolve escolher entre muitos papéis ou entre fundos constituídos deles.  Para o investidor que não se especializou em escolher ações, o recomendável é optar por fundos de ações que automaticamente diluem seus riscos entre várias, e/ou recorrer a recomendações de especialistas no assunto.

4. Planejamento tributário de olho no IRPF
Este é um aspecto particularmente importante, pois há prazos para auferir benefícios fiscais como os que vêm do investimento em planos de previdência privada (PGBL, VGBL e outros). Pode-se também planejar a realização, até o fim do ano, de gastos que reduzirão o imposto a pagar em 2015, como aqueles em educação, seja ampliando-os seja antecipando o pagamento de taxas de matrícula no ano seguinte. E também em saúde, antecipando tratamentos necessários ou realizando o recomendado checape anual mais próximo do fim do ano, pois despesas decorrentes serão logo em seguida aproveitadas para reduzir o ônus tributário.

5. Outros itens inevitáveis e de periodicidade definida

Também é conveniente planejar desde já algumas despesas que costumam estressar o orçamento doméstico no fim e no início do ano, como presentes, férias, gastos educacionais, e impostos típicos desse segundo período (IPVA e IPTU).  E, ainda, o que fazer com o 13º. Este último, apesar do número tido como de mau agouro, premiará quem optar por poupá-lo e investi-lo. 
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Roberto Macedo, CFP® (Certified Financial Planner), é economista formado pela USP com Mestrado e Doutorado na Universidade Harvard (EUA).  Foi Secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Fazenda e Planejamento, funcionário do Banco Central e do Banco do Brasil. E-mail: imprensa@bb.com.br. Este texto reflete a opinião do autor e não necessariamente a do BB; tem caráter apenas informativo, e não deve ser tomado como recomendação de subscrição, tomada de créditos, compra ou venda de ativos, decisões estas de responsabilidade exclusiva dos investidores.

O que se passa com a Caderneta de Poupança? - 16.06.2014
Depois de 25 meses de captação líquida positiva (de março de 2012 a março de 2014), a Poupança teve resultado negativo no último mês de abril. Dados de maio mostraram que a captação líquida voltou a ser positiva. Mas, nos primeiros cinco meses de 2014 a captação líquida foi bem menor do que a do mesmo período de 2013.  

Entre outros, vou mostrar dados dessa captação líquida nesses dois períodos, e apontar fatores que explicam o comportamento desses números.

Os dados dos primeiros cinco meses de 2013 e 2014

Na tabela abaixo estão a captação líquida da Poupança nos primeiros cinco meses de 2013 e 2014, o total dessa captação nesse mesmo período, e o saldo final total das contas, nos mesmos meses de 2014.

Caderneta de Poupança  Captação Líquida  Mensal e Total, de Janeiro a Maio de 2013 e 2014, e Saldo Final do Total das Contas, de Janeiro a Maio de 2014 –R$mil

MêsCaptação Líquida
 2013
Captação Líquida
2014
  Saldo Final do Total
  das Contas - 2014
Janeiro
983.995
710.644
469.922.077
Fevereiro
1.750.970
1.924.730
474.533.768
Março
4.523.538
1.708.836
478.591.135
Abril
1.791.569
-735.675
480.464.916
Maio
4.205.225
2.178.090
485.037.160
TOTAL
13.255.297
5.786.625

Fonte: Banco Central do Brasil – Relatório de Poupança – Maio/2014

Esses números mostram que a captação líquida nos primeiros cinco meses de 2014 foi inferior à observada nos mesmos meses de 2013, com uma única exceção, no mês de fevereiro. Ademais, a captação total nos primeiros cinco meses de 2014 foi 43,7% da verificada no mesmo período de 2013.  Houve, portanto, uma clara redução da captação líquida em 2014.

Contudo, o saldo final do total das contas aumentou em todos os meses  de 2014, o que se explica porque esse saldo recebe mensalmente o acréscimo dos juros de 0,5 mais a TR (Taxa Referencial), o que leva a um acréscimo de aproximadamente R$2.500.000 mil. Assim, o mesmo saldo só não cresceria se a captação líquida se revelasse negativa numa magnitude superior a esse acréscimo de rendimentos.

Vista de outra forma, a evolução do saldo total das contas revela que no seu conjunto os poupadores reduziram seus aportes líquidos, mas não chegaram a reduzir esse saldo total, o que seria um resultado mais forte do que essa redução limitada aos aportes líquidos realizados mensalmente.

Por que caíram esses aportes?
(1) Começando do lado da Poupança, sabe-se também que em contraste com essa queda da captação líquida em 2014, em 2013 tal captação foi recorde, alcançando um total anual de R$54.280.749 mil, o que dá um valor médio de R$4.523.957 mil, que contrasta com os valores bem mais baixos registrados em 2014, conforme a tabela acima.  Em 2013, o crescimento mais expressivo ocorreu no segundo semestre do ano.

Ora, esse sobe-e-desce da captação da Poupança entre 2013 e 2014 coincide aproximadamente com a queda e subida da taxa básica de juros, ou Selic, a cujo valor está atrelada boa parte das remunerações de aplicações de renda fixa alternativas à Poupança, como fundos investimentos financeiros do tipo DI e CDBs.  Esse assunto foi abordado no meu artigo de 14/4/14, publicado neste espaço.

Em síntese, mostrei então que em 21/7/2011 o BC iniciou um ciclo de reduções da Selic que a trouxe de 12,5% para 7,25% ao ano em 11/10/12, e aí ficou até 18/4/13, quando foi iniciado um ciclo de altas. Mas, só em 29/8/13, quando a Selic passou a 9% ao ano é que ela superou o valor de 8,5% ao ano em que se encontrava até o dia anterior. Ora, sabe-se que a atratividade relativa da Poupança se mantém até valores da Selic próximos desta última taxa supondo uma taxa de administração de 1% ao ano e a alíquota do IR em 20% em aplicações alternativas. Foi por esta razão que para manter a atratividade delas o governo instituiu a regra de que para os depósitos realizados depois de 4/5/2012 a remuneração mensal da Poupança passaria ser de 70% da taxa Selic (+TR) se esta fosse igual a ou inferior a 8,5% ao ano.

Ou seja, na maior parte de 2013 a Selic esteve abaixo de 8,5% ao ano, e mesmo depois de 29/8/13, quando ultrapassou esse valor, os depositantes da Poupança podem ter demorado a reagir a esse estímulo às aplicações alternativas, duas das razões sendo que nelas as taxas de administração dos fundos que recebem aplicações menores costumam ser maiores que 1%, e há também a facilidade muito maior de movimentação das cadernetas.  Nessa linha, só em 2014 a reação do investidor teria sido maior, outra razão sendo que a Selic continuou crescendo até alcançar seu patamar atual de 11%.

(b) Do lado dos que usam a Poupança, outra provável causa dos depósitos mais contidos em 2014 é que a inflação tem sido mais elevada, em particular no caso dos alimentos, o que afeta mais os pequenos poupadores, reduzindo suas disponibilidades para novos depósitos.  Com respeito a isto, uma evidência de que o próprio consumo das famílias tem sido objeto de contenção veio dos resultados das Contas Nacionais do primeiro trimestre do ano, que revelaram uma queda desse consumo.

(c) Um terceiro fator importante, e que até agora não vi apontado por outros analistas, é que o crédito habitacional vem se expandindo a taxas muito mais fortes que os empréstimos e financiamentos de outros tipos, como o pessoal, o consignado e outros, e o pagamento das prestações habitacionais estaria reduzindo a disponibilidade de recursos para depósitos na Poupança.  Um relatório a que tive acesso, da Associação Comercial de São Paulo, mostrou que nos 12 meses contados até abril último, relativamente aos 12 meses anteriores, o crédito habitacional cresceu 31,5%, enquanto que outros tipos de crédito à pessoa física aumentaram apenas 6,9%. Ademais, uma apresentação do Ministério da Fazenda mostrou que no terceiro trimestre de 2012 o estoque de crédito às pessoas físicas para adquirir imóveis superou o concedido para comprar bens duráveis. E que em julho de 2013, último mês coberto pela mesma apresentação, o estoque de crédito habitacional alcançou R$306,5 bilhões, um valor de grande magnitude, e já então bem superior ao crédito para bens duráveis, cujo saldo então era de R$225,9 bilhões. Essa apresentação não esclareceu se esses bens duráveis incluíam veículos automotores, o que, se for o caso, enalteceria ainda mais a importância que adquiriu o crédito habitacional nos anos recentes.

É ótima notícia, ao revelar que de modo crescente as pessoas estão poupando e constituindo patrimônio, no caminho da prosperidade, em lugar de enfatizar tanto o consumo, ainda que de bens duráveis. Nenhum deles dura mais que um imóvel.
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Roberto Macedo, CFP® (Certified Financial Planner), é economista formado pela USP com Mestrado e Doutorado na Universidade Harvard (EUA).  Foi Secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Fazenda e Planejamento, funcionário do Banco Central e do Banco do Brasil. E-mail: imprensa@bb.com.br. Este texto reflete a opinião do autor e não necessariamente a do BB; tem caráter apenas informativo, e não deve ser tomado como recomendação de subscrição, tomada de créditos, compra ou venda de ativos, decisões estas de responsabilidade exclusiva dos investidores.

Atitudes, comportamentos e hábitos nas finanças pessoais - 09.06.2014
Este artigo é baseado no enfoque comportamental na análise dessas finanças, o qual argumenta que as pessoas muitas vezes tomam decisões equivocadas. Esse enfoque se contrapõe ao tradicional que se sustenta na visão de que elas são racionais e procuram sempre buscar as melhores decisões.

Mas, mesmo dentro da análise comportamental há também discordâncias e ponderações quanto à necessidade de que determinadas recomendações da análise sejam modificadas.  Assim, entre seus pregadores há os que ressaltam a importância de mudar atitudes, vontades, crenças ou convicções pessoais, de modo a alcançar melhor gestão das finanças pessoais. Por exemplo, convencer-se da necessidade de poupar mais, e tomar a decisão de fazer isto.

Mas, outros analistas da mesa escola, percebendo a dificuldade que muitas pessoas têm praticar o que têm em mente, pregam a necessidade de mudar não apenas atitudes, mas de adotar hábitos capazes de assegurar que objetivos traçados sejam efetivamente cumpridos. E às vezes são as mudanças de hábitos que mudam as próprias convicções na direção desejada. Este artigo se apoiará em lições da psicologia para realçar a importância da mudança de hábitos.

A importância do hábito em firmar ou mudar convicções
Antes de prosseguir, cabe firmar conceitos utilizados neste texto. Atitudes, vontades, crenças ou convicções são o que as pessoas têm na cabeça, e querem fazer.  Comportamento é o que de fato elas fazem.  Hábito é um comportamento repetitivo que condiciona as pessoas de tal forma que passam instintivamente a agir conforme ditado por ele que, assim, se torna trivial.

A visão de que as crenças condicionam o comportamento é tradicional na psicologia. Ou seja, o que está na cabeça das pessoas é que determina o que de fato elas fazem. Mas, há outra visão, a chamada Teoria da Dissonância Cognitiva, atribuída a Leon Festinger. Ele argumenta que as pessoas procuram manter a coerência entre suas várias crenças, bem como entre elas e seu comportamento. E quando este divergir daquelas, pode acontecer que seja mudado.  Mas, também pode ocorrer que a permanência dele, se habitual, ainda que não prevista ou mesmo desejada, faça as pessoas mudar suas convicções, ou criarem novas.

Tenho aplicado essa teoria ao processo de escolha de carreiras profissionais. A teoria usual diz que uma pessoa escolhe uma profissão condizente com sua vocação, e para chegar a ela busca a formação educacional correspondente. Mas, no mercado de trabalho poderá não encontrar uma ocupação típica da profissão escolhida, caindo numa atípica. Por exemplo, um engenheiro que passe a trabalhar como analista financeiro de um banco. Ele poderá continuar buscando um emprego como engenheiro, mas também poderá rever sua vocação, acomodando-a àquilo que faz, e assim assumindo a condição de analista financeiro como se fosse uma profissão.

Em retrospecto, creio que adquiri o hábito de poupar com base noutra crença, a de que cedo na vida deveria comprar uma casa própria. Comecei por uma quitinete em construção, com financiamento de cinco anos.  O pagamento das prestações mensais, que significavam poupança financeira investida num imóvel, restringiu minhas disponibilidades para gastos de consumo, o que criou o hábito de poupar. Como deu bons resultados, depois de pagar essa quitinete, eu a vendi, adquiri um imóvel maior pagando-o também a prestações, e depois repeti o processo mais uma vez. Com isso, por cerca de 10 anos tive meu estressado com pagamento de prestações de imóveis, o que firmou um hábito de poupar que depois se voltou para outras finalidades.  Ou seja, comecei pensando numa casa própria e prossegui como um poupador habitual.

As lições que ficam
Vou estender o processo descrito acima, que foi da teoria à pratica, com alguns casos que facilitam o aprendizado de lições. Eles ajudam a estabelecer em bases firmes as atitudes e o hábito de poupar.

(1) Na época em que adquiri esse hábito, a inflação já era bem alta e inexistiam mecanismos formais de correção monetária, com o que os financiamentos imobiliários, além de muito escassos, tinham prazo muito curto, coisa de três a cinco anos.  Hoje, com um único imóvel, é possível praticar o mesmo hábito por 20 ou mais anos.  Mas, se a pessoa tomou o financiamento ainda jovem, com o crescimento da renda ao longo de sua vida profissional o valor da prestação cairá relativamente aos seus rendimentos, abrindo assim uma folga a ser preenchida com poupança adicional para outras finalidades.

(2) Também cresceu muito a quantidade de instrumentos financeiros que facilitam a poupança, como fundos de todo o tipo e papéis diversos, como os CDBs, as ações e os oferecidos pelo Tesouro Direto. Contudo, com relação ao hábito de poupar, uma dificuldade desses instrumentos é a sua alta liquidez e seu pequeno custo de transação, podendo ser resgatados a qualquer momento, às vezes sucumbindo a pressões consumistas. Por esta razão, é preciso consolidar o hábito de poupar de um modo geral, e não restrito a esse caso dos imóveis onde a liquidez é baixa e o custo de transação é alto, na forma de comissões de corretores, escrituras, impostos de transmissão, sobre lucro imobiliário etc., que desestimulam a venda do imóvel.

(3) Entre os casos de liquidez intermediários aos imóveis e esses fundos e papéis, estão contribuições a planos de saúde, mensalidades escolares próprias ou de membros da família, que também são investimentos. E planos de previdência abertos, como o VGBL, sendo que neste caso a opção por tributação regressiva, que cai com o tempo de aplicação, constitui um estímulo importante para o saque não antecipado.

(4) Planos de previdência fechados, onde além da contribuição própria o associado tem a contribuição do empregador, apresentam dois aspectos que contraindicam interromper pagamentos. Primeiro, isto implicaria na perda dos valores pagos pelo empregador. Segundo, há também a facilidade de que as contribuições próprias são diretamente deduzidas do salário do associado, evitando assim a sua passagem por outro processo decisório, o de pagar ou não a contribuição a cada mês.

(5) Um caso interessante é a capitalização, que muitos analistas apontam como mau investimento, ignorando que tais planos são essencialmente mecanismos de poupança adequados para quem tem dificuldades de poupar, e aprecia jogar algum dinheiro em sorteios, como os desses planos.  Assim, eles estimulam o hábito de poupar mensalmente, e embora usualmente a pessoa não seja sorteada, pelo menos ela não perde tanto dinheiro como nas loterias usuais, como a Mega-Sena e outras. Outro estímulo vem do fato de que tais planos punem as pessoas que resgatam os planos antes do seu vencimento, pois quando isto acontece o dinheiro recuperado é menor do que o total que seria obtido se o plano fosse levado até o fim.
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Roberto Macedo, CFP® (Certified Financial Planner), é economista formado pela USP com Mestrado e Doutorado na Universidade Harvard (EUA).  Foi Secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Fazenda e Planejamento, funcionário do Banco Central e do Banco do Brasil. E-mail: imprensa@bb.com.br. Este texto reflete a opinião do autor e não necessariamente a do BB; tem caráter apenas informativo, e não deve ser tomado como recomendação de subscrição, tomada de créditos, compra ou venda de ativos, decisões estas de exclusiva responsabilidade do investidor.

Aposentadoria adequada é a essência do planejamento financeiro - 01.06.2014
Minha percepção sustentada pela própria experiência pessoal e familiar, bem como ao observar pessoas de meu convívio profissional e social, é a de que uma renda adequada na aposentadoria é o aspecto mais importante do planejamento financeiro pessoal.  Se a pessoa errar nesse aspecto, o dano será imenso e sua percepção poderá vir tarde demais para permitir uma correção.
No que se segue vou elaborar sobre essa importância, mostrar como vem aumentando expectativa de vida ou longevidade dos brasileiros e suas implicações. E concluir com passos a serem tomados na direção de uma aposentadoria adequada.

Por quê ela é tão importante
De um modo geral os planejadores financeiros pessoais enfatizam a importância de poupar para o atendimento de necessidades futuras, em particular a melhoria do padrão de vida da pessoa e de sua família. Enfatizam também a necessidade de um compromisso firme com esse objetivo, o que exige muito empenho e disciplina.

Ora, falar em necessidades futuras e praticar o planejamento para atendê-las envolve necessariamente um olhar sobre uma dimensão temporal que vai do momento atual até o fim da vida.  Nessa linha, um aspecto crucial é que a longevidade das pessoas vem se ampliando, ou seja, esse horizonte temporal se estende, com o que o planejamento financeiro para as idades mais avançadas também precisa ter seu horizonte esticado, o que pode exigir uma ampliação dos recursos necessários.

E mais: a ampliação da longevidade em larga medida se sustenta  pelos avanços da medicina, como técnicas cirúrgicas menos invasivas, mais eficazes e de menor risco. Também surgem medicamentos também mais eficazes. Mas, esses avanços costumam implicar em custos mais altos, tornando-os cada vez mais inacessíveis a quem pode recorrer apenas aos serviços providos gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde.   

A ampliação da expectativa de vida
Tenho diante de mim duas tabelas com números da expectativa de vida para homens e mulheres de diferentes idades em 1980 e 2012.  Tomando o caso dos mais idosos, para quem tinha 50 anos em 1980 a expectativa média de vida era a de chegar aos 72 anos de idade, se homens, e a 75,4, se mulheres.

Mas, as pessoas desse grupo que sobreviveram até 2012, ou seja, 32 anos depois, último ano em que as estatísticas do IBGE sobre o assunto estão disponíveis, tinham então a expectativa de chegar aos 88,2, se homens, e aos 89,7 se mulheres. Outra forma de ver essa ampliação da expectativa de vida é examinar também a de pessoas com 50 anos em 2012, e os aumentos, ainda que também expressivos, são menores:  77,3 para os homens e 81,7 anos para as mulheres.

A considerável diferença entre as duas comparações ocorre porque no primeiro caso as pessoas que sobreviveram além da expectativa que tinham em 1980 são pessoas com saúde acima da média ou que a tiveram melhor cuidada quando enfrentaram enfermidades.  Mas, quem tinha 50 anos em 2012 e ultrapassar a expectativa de vida que tinham nesse ano, chegando aos 82 em 2044, terá uma expectativa de vida ainda maior do que aqueles que em 2012 já tinham essa idade.

Nas tabelas de 2012 do IBGE – ver acesso dado por (*) ao final deste artigo –, o leitor encontrará a expectativa de vida média para a sua idade naquele ano, pois a tabela dá esse valor ano a ano, de zero a 80 ou mais anos.  É interessante consultar essa expectativa para ter uma idéia de até quando deve alcançar o planejamento financeiro para aposentadoria e, ainda, conjecturar quanto aos anos adicionais de sobrevida se a pessoa avançar até o fim da tabela.  

Os passos de uma aposentadoria adequada
Em resumo, são os seguintes: 1) definir o que a pessoa quer em termos de padrão de vida e os recursos capazes de sustentar esse padrão mediante recurso a poupanças acumuladas; 2) dado o efeito dos rendimentos acumulados com os investimentos, quanto mais cedo for praticado esse planejamento maiores serão os recursos acumulados ou menores os valores a serem poupados mensalmente para alcançar um total pretendido; 3) considerar a hipótese de continuar trabalhando além de um primeiro ou segundo rendimento de aposentadoria conquistado, como o do INSS e o de um fundo fechado de previdência; tal continuidade costuma fazer bem à saúde ampliando a própria expectativa de vida; 4) definir um plano de investimentos para acumular os recursos poupados, o que inclui o que virá da previdência pública e/ou privada, mais outros investimentos considerados necessários, como os do tipo PGBL ou VGBL; 5) também é considerada poupança, voltada para proteção de riscos, o custeio de um indispensável plano de saúde para quem não se contentar com os serviços do SUS; pela experiência da minha família, onde há uma pessoa centenária, um aspecto negligenciado no seu plano de saúde, e de alto custo,  foi o da cobertura de cuidados em casa, que ainda não se tornou comum por parte desses planos; (6) os itens 4 e 5 acima devem também incluir um planejamento para minimizar o ônus de impostos sobre rendimentos, gastos,  ativos e suas transmissões a outras pessoas.

No fundo, planejar para aposentadoria é uma ação que envolve encarar o antigo dilema entre gastar hoje ou poupar para o futuro. Esse dilema fica cada vez mais difícil de enfrentar se a pessoa poupa pouco e/ou começa a fazê-lo bem tarde na vida. Optei por poupar mais do que entendia necessário, e comecei bem cedo na vida. Não me arrependo, e hoje lamento ver o drama com que se deparam pessoas idosas que descuidaram desses aspectos no passado, sem ter como reverter as equivocadas decisões então tomadas. Como resultado, elas sofrem dificuldades numa idade em que é ainda mais difícil suportá-las, às vezes ferindo sua própria dignidade como seres humanos.
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Roberto Macedo, CFP® (Certified Financial Planner), é economista formado pela USP com Mestrado e Doutorado na Universidade Harvard (EUA).  Foi Secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Fazenda e Planejamento, funcionário do Banco Central e do Banco do Brasil. E-mail: imprensa@bb.com.br. Este texto reflete a opinião do autor e não necessariamente a do BB; tem caráter apenas informativo, e não deve ser tomado como recomendação de subscrição, tomada de créditos, compra ou venda de ativos, decisões estas de exclusiva responsabilidade do investidor. 
(*)ftp://ftp.ibge.gov.br/Tabuas_Completas_de_Mortalidade/Tabuas_Completas_de_Mortalidade_2012/pdf/homens_pdf.pdf, no caso dos homens; no das mulheres, 
ftp://ftp.ibge.gov.br/Tabuas_Completas_de_Mortalidade/Tabuas_Completas_de_Mortalidade_2012/pdf/mulheres_pdf.pdf. Obs.: as tabelas ou tábuas do IBGE indicam a expectativa de vida na forma de anos adicionais à idade examinada, ou seja, a sobrevida esperada nessa mesma idade. Para se chegar à idade à qual a pessoa poderá chegar é preciso somar esses anos adicionais aos da idade examinada. Por exemplo, para os homens com 50 anos em 2012, os anos adicionais seriam 27,3 e a expectativa seria a de chegar aos 77,3 anos (50+27,3).

Jay Mooreland no Seminário Anual de Planejamento Financeiro, do IBCPF - 26.05.2014
Nosso artigo anterior tratou desse seminário, mas deixou para abordagem posterior a apresentação realizada por Jay Mooreland na ocasião. Trata-se de um especialista em finanças pessoais que atua nos EUA, e que se intitula um “economista comportamental”, inclusive no seu cartão de visitas.

A presença dele no evento, como único palestrante de fora do Brasil e fazendo a palestra de encerramento – que em geral aborda tema tido como de grande importância pela plateia, de modo a garantir a presença desta até o fim do evento –, confirma o que já afirmamos vários artigos anteriores: vem crescendo a importância do enfoque conhecido como de finanças comportamentais no planejamento financeiro pessoal.
Neste artigo será abordado especificamente o conteúdo da palestra de Jay Morreland. Antes de prosseguir, vale lembrar que é uma palestra dirigida a especialistas em planejamento financeiro pessoal que prestam serviços a clientes.

Para início de conversa...
Ele apresentou a distinção entre seu enfoque, o de finanças comportamentais (FCs), que enfatiza a presença do raciocínio intuitivo ou instintivo, e o enfoque tradicional, que sustenta que o ser humano pensa e age racionalmente.

Adiciono que na linguagem do psicólogo Daniel  Kanehman, que deu grande contribuição ao desenvolvimento do enfoque das FCs, as pessoas têm dois modos de pensar, um rápido e instintivo e outro, lento e racional, com muitas decisões sendo tomadas pelo primeiro modo, sem passar pelo segundo, o que pode levar a resultados inconvenientes para as finanças pessoais.

Para ilustrar a diferença entre os dois modos, Mooreland apresentou um teste. Para prosseguir mudei a moeda e os objetos envolvidos nesse teste para deixá-los mais adequados ao Brasil: um pãozinho e uma balinha custam um total de R$1,10. O pãozinho custa R$1 a mais que a balinha. Quanto custa a balinha?

Ao responder, as pessoas usualmente dizem que a balinha custa R$0,10, pois numa primeira reação,  intuitiva, entendem que o referido total se decompõe em R$1,00 do pãozinho mais R$0,10 da balinha. Mas, se a balinha custasse R$0,10, o valor do pãozinho (R$1 a mais que a balinha) seria R$1,10, e o total dele mais a balinha levaria a um valor de R$1,20. Assim, uma reflexão maior sobre o assunto, a partir do segundo modo de pensar, mostra que a resposta dada pela intuição está errada. Avançando-se no modo racional, chega-se ao valor de R$0,05 para a balinha, que somado ao valor do pãozinho, de R$1,05(R$1 a mais que balinha) leva a um total de R$1,10.

É um exemplo interessante, mas na vida real as pessoas não enfrentam pegadinhas como essa. Outro exemplo a que costumo recorrer é a seguinte: nas filas de apostas nas muitas loterias brasileiras, sei que as pessoas usualmente se movem por um raciocínio intuitivo, quanto às suas possibilidades de ganho. Assim, é comum dizerem que “se alguém ganhou, eu também posso ganhar”. Mas, isto é apenas uma possibilidade, e não mede a probabilidade de ganho da aposta realizada. No caso da Mega-Sena, a probabilidade de ganho de uma aposta de apenas seis números é de uma entre 50.063.860, ou praticamente zero. Se os apostadores refletissem racionalmente sobre isto, talvez não apostassem tanto. 

Resumo de outros pontos enfatizados pelo palestrante
1. Além de enfatizar que nem sempre os investidores agem racionalmente, Mooreland também disse que não se pode confiar em previsões de comportamento do mercado, pois frequentemente se revelam falsas. Entendo que essa conclusão precisa ser relativizada. Uma coisa, por exemplo, é investir em ações com base apenas em tendências e ciclos de seus preços no passado; outra é fazê-lo com base em informações sobre os mercados em que atuam as respectivas empresas, juntamente com o exame da situação econômico-financeira atual de cada uma delas.

2.  Em face dos erros de previsão, Mooreland recomenda que os clientes de planejadores financeiros sejam advertidos quanto à presença desses erros, e que lhes seja apresentada não uma única previsão, mas um conjunto de eventos possíveis, com o que se chocarão menos com eventos que fujam ao padrão normal.

3.  Mooreland fez referência a pesquisa que mostrou que 70% das decisões têm natureza psicológica enquanto apenas 30% são movidas pela racionalidade,mas planejadores financeiros usualmente trabalham como se 70% das decisões fossem racionais.

4.  Em seguida distinguiu no comportamento pessoal as distorções decisórias causadas pelo modo de pensar de outras em que predominam as emoções. Entre as primeiras estão, entre outras, as decorrentes do excesso de confiança e as ancoradas em informações que não são pertinentes. Ou que são usadas simplesmente porque estão disponíveis, como as relativas ao passado, como a do desempenho de uma ação do mercado.  Entre as segundas, apontou a aversão a perdas, que causam maior desconforto ao investidor do que a satisfação de um ganho de valor correspondente.

5. Nessa linha, propôs que investidores sejam analisados também pelo seu comportamento e não apenas, como é comum, pelo perfil de sua disposição a aceitar riscos. E que, identificadas distorções comportamentais, sejam instados a corrigi-las.

6. Por exemplo, em face da aversão a perdas, é comum que, agindo emocionalmente para não encará-las, investidores retenham papéis perdedores e vendam papéis ganhadores. Uma saída é investir de forma sistemática afastando emoções ou montando uma carteira em que sejam evitados ativos de comportamento correlacionado com os demais, de tal forma que nem todos eles se movam numa mesma direção.

7. Outra sugestão é ter compromissos assinados pelos investidores quanto às suas decisões, por exemplo, a de comprar um determinado valor de ações quando o mercado cair 15%, e mais outro valor, se cair 25%.

8.  Num resumo ao final, enfatizou os seguintes aspectos já mencionados: a) a recomendação de carteira diversificada mencionada no item 6 acima; b) o aconselhamento no sentido de os clientes que saibam da dificuldade de prever o comportamento do mercado, conforme o item 2; e c) quando administrando carteiras, ter regras assinadas pelo próprio investidor, conforme o item 7 acima. E deixou a pergunta: se você, o planejador financeiro, não ensina aos clientes a forma correta de interpretar os mercados e as informações providas pela mídia, quem faria isto?
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Roberto Macedo, CFP® (Certified Financial Planner), é economista formado pela USP com Mestrado e Doutorado na Universidade Harvard (EUA).  Foi Secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Fazenda e Planejamento, funcionário do Banco Central e do Banco do Brasil. E-mail: imprensa@bb.com.br. Este texto reflete a opinião do autor e não necessariamente a do BB; tem caráter apenas informativo, e não deve ser tomado como recomendação de subscrição, tomada de créditos, compra ou venda de ativos, decisões estas de exclusiva responsabilidade do investidor.

O Seminário Anual de Planejamento Financeiro, do IBCPF - 19.05.2014
Esse seminário ocorreu em São Paulo(SP), no dia 9 deste mês, durando o dia todo. É um evento anual que reúne profissionais    brasileiros que têm a certificação internacional conhecida como CFP®–Certified Financial Planner (Planejador Financeiro Certificado). É conferida pela Financial Planning Association (Associação de Planejamento Financeiro - FPA), que congrega os CFP®s dos EUA, onde a certificação teve origem e há o maior número de  pessoas certificadas.

Em seguida descreverei a estrutura do seminário e resumirei o conteúdo das apresentações realizadas no evento.

CFP®: o que é a certificação
Há instituições certificadoras em 24 países. No Brasil quem faz isto é o IBCPF(Instituto Brasileiro de Certificação de Planejadores Financeiros), ligado à Anbima (Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiros e de Capitais).

A certificação é conferida a pessoas de nível educacional superior, de qualquer área, desde que passem pelo exame exigido. Por exemplo, sei de dois médicos que têm a certificação e no Brasil trabalham em cooperativas de crédito cujos sócios são médicos. Para maiores informações, pode-se consultar o site www.ibcpf.org.br.

A certificação é pessoal. Nos EUA um grande número de CFP®s presta consultoria financeira a pessoas. No Brasil, os CFP®s trabalham predominantemente em instituições financeiras.  Mas, um número crescente deles também já presta serviços a pessoas. A certificação precisa ser atualizada a cada dois anos. Para tanto, o profissional precisa demonstrar que passou por programas de educação financeira continuada, entre outros requisitos. O seminário anual é um desses programas e os CFP®s que o assistem ganham pontos que integram os necessários para renovação da certificação bianual.

A estrutura do evento
Ela seguiu três aspectos que constituem a essência do planejamento financeiro, conforme apresentados pelo presidente do IBCPF, Luiz Sorge, ao dar início ao seminário. São eles: (1) o conhecimento do cenário macroeconômico conforme expresso por suas variáveis mais ligadas ao mercado financeiro, como a inflação, o PIB, a taxa de câmbio e a taxa básica de juros, todas nos seus ciclos e tendências; (2) o detalhe das informações específicas de interesse dos investidores, como sobre a Bovespa e seus índices, sobre os fundos de investimento financeiros e seguros, com o orador lembrando que vivemos na chamada sociedade da informação, na qual o investidor tem grande acesso às informações de seu interesse, e é como se chegasse ao CFP tal como um paciente que fosse ao médico já levando os resultados dos exames que seriam solicitados;  em síntese, com um questionamento cada vez mais embasado que exige um aprimoramento constante quem oferece o planejamento financeiro; 3) a questão da adequação do produto financeiro ao cliente, muitas vezes apresentada pela referência ao termo que em inglês trata dessa questão, ou seja, a “suitability” do produto.

O conteúdo do evento: o primeiro painel
Esse painel teve início com a apresentação do economista Marcos Lisboa, ex-secretário de Politica Econômica do Ministério da Fazenda, atualmente vice-presidente do INSPER, uma instituição de ensino superior voltada para administração e finanças. Sua análise foi voltada para o PIB, cuja variação afeta principalmente a Bovespa, pois os lucros das empresas têm usualmente uma relação direta com o PIB.  Segundo Lisboa, para fazê-lo crescer mais rapidamente será necessário um aumento da produtividade por trabalhador, e destacou que o setor de melhor desempenho da economia brasileira, o agronegócio, conseguiu fazer isso, o que precisaria ser feito pelos demais setores. O setor financeiro também teve forte aumento da sua produtividade, obtido mediante ampla adoção das modernas tecnologias de informação e de telecomunicação. Seguiram-se várias recomendações sobre o aumento da produtividade, em particular a do governo, quanto à ação das suas politicas públicas.

Do mesmo painel participou o cientista político Luiz Felipe D’Ávila, convidado porque neste ano eleitoral há grande interesse no mercado financeiro pelo que poderá acontecer em 2015 quanto à politica econômica dependendo de quem vença o pleito. Ele ressaltou que há muita dificuldade no Brasil na busca de consensos quanto a algumas medidas que precisariam ser tomadas para enfrentar questões impopulares como o desequilíbrio da previdência social e a necessidade de reajustar tarifas de energia elétrica e o preço de derivados de petróleo, como a gasolina e o óleo diesel.   Quem assumir o cargo, seja a presidente atual ou um candidato da oposição, vai precisar de muita liderança para conseguir apoios sustentando-se na promessa de um futuro melhor com as medidas que precisarão ser tomadas. Nas suas palavras, será preciso uma “narrativa sobre o futuro, não sobre o passado; uma narrativa da esperança”.

As demais partes do evento
Com a participação de quatro gestores de recursos, o segundo painel abordou especificamente o tema da internacionalização de investimentos por parte de investidores brasileiros.  Do que foi dito sobre o assunto, três aspectos me pareceram particularmente interessantes: (1)os tempos de uma Selic muitíssimo alta se foram, o interesse por ativos externos cresceu e uma maior globalização é inevitável; (2) passou também a fase de grandes aumentos das exportações e dos preços de commodities que valorizaram o real, e a perspectiva hoje é de uma desvalorização da moeda nacional, o que já vem estimulando investimentos fora do Brasil; (3) no mínimo, esses investimentos já se recomendam como diversificação de portfólio.

No terceiro painel, uma CFP® que atua numa seguradora entrevistou um especialista em seguros e outro em previdência privada, de modo a ressaltar a importância da adequação de seus produtos às necessidades dos clientes. 

Na quarta e última parte do programa houve a apresentação individual de Jay Mooreland, que se intitula um “economista comportamental”, dos EUA.  A presença dessa pessoa no evento, como único palestrante de fora do Brasil e fazendo a palestra de encerramento–que em geral aborda um tema tido como de grande importância pela plateia, de modo a assegurar a presença desta até o fim do evento–, confirma o que temos dito em vários artigos neste espaço: vem crescendo a importância do enfoque conhecido como economia comportamental ou finanças comportamentais no planejamento financeiro pessoal.  Em face desta importância,optei por dedicar um artigo específico à palestra de Jay Mooreland, o que farei numa próxima oportunidade.
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Roberto Macedo, CFP® (Certified Financial Planner), é economista formado pela USP com Mestrado e Doutorado na Universidade Harvard (EUA).  Foi Secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Fazenda e Planejamento, funcionário do Banco Central e do Banco do Brasil. E-mail: imprensa@bb.com.br. Este texto reflete a opinião do autor e não necessariamente a do BB; tem caráter apenas informativo, e não deve ser tomado como recomendação de subscrição, tomada de créditos, compra ou venda de ativos, decisões estas de exclusiva responsabilidade do investidor.

A (in)sustentabilidade da previdência social brasileira - 12.05.2014
Estudo internacional do grupo Allianz, concluído recentemente e que alcançou 50 países, colocou o Brasil em penúltimo lugar nessa sustentabilidade, avaliada no aspecto financeiro. Esse grupo atua em 70 países e se destaca na área de seguros.(*)

Voltado para os sistemas nacionais de aposentadorias e pensões, no caso brasileiro o estudo serve para advertir quanto à necessidade de as pessoas se prepararem para eventuais dificuldades decorrentes de mudanças futuras das regras do sistema.

No que se segue vou tratar da metodologia dessa pesquisa e das razões pelas quais o Brasil se sai mal na foto que ela mostra.  Como conclusão, ponderarei sobre o quê fazer financeiramente diante das condições apresentadas pelo sistema brasileiro.

A metodologia do estudo
Para chegar ao indicador da sustentabilidade financeira do sistema previdenciário de cada país, o estudo recorre a três sub-indicadores, levando em conta a situação atual e as perspectivas futuras de cada um deles. Examinarei os três de forma sintética.

O primeiro é a questão demográfica. Nela se examina o conjunto de aposentados e pensionistas relativamente ao dos que permanecem trabalhando, o qual provê a maioria dos recursos para a sustentação dos benefícios pagos pelo sistema. Com relação a isto, o estudo usa a “taxa de dependência dos idosos (TDI)”, dada pelo número de pessoas com 65 ou mais anos de idade tomado como proporção do de pessoas com 15 ou mais anos e menos de 65.  O primeiro grupo mede aproximadamente o conjunto dos inativos e o segundo o da população em idade de trabalho. 

O segundo sub-indicador envolve regras do sistema, nas quais se destacam o valor dos benefícios e a idade em que as pessoas passam a recebê-los. Quanto maior esse valor e menor essa idade, maior o impacto negativo sobre a sustentabilidade do sistema.

O terceiro é o das finanças públicas, na forma do peso ou participação com que os sistemas oneram essas finanças nos respectivos países. Levando em conta as contribuições que esses sistemas recebem de seus segurados e os gastos realizados, eventuais déficits, se não resolvidos, costumam ser cobertos pela arrecadação de impostos em geral, onerando assim as finanças públicas como um todo.

O Brasil na foto
Não encontrei referência explicita, mas tudo indica que ao analisar o nosso país o estudo se concentrou no exame do INSS, ainda que ocasionalmente se referindo a números que abrangem também os sistemas previdenciários típicos dos funcionários públicos federais, estaduais e municipais. Fala também da previdência privada no Brasil.

No aspecto demográfico, o estudo aponta o envelhecimento mais rápido da população brasileira, abordando especificamente o aumento da referida TDI.  Essa situação se combina com a de outro sub-indicador ao diminuir a sustentabilidade do sistema.  É o que o estudo chama de “opções para aposentadoria precoce”, e é quanto a ele que a pesquisa indica estar se referindo ao INSS, pois assinala que há a aposentadoria por idade, aos 65 anos para homens e 60 para as mulheres, mas homens e mulheres têm as opções de se aposentarem por tempo de contribuição, de 35 e 30 anos respectivamente, o que leva a uma concentração de aposentadorias numa idade perto dos 55 anos.

Ainda quanto às regras, o estudo aponta no Brasil o que chama de “taxa de reposição” elevada, taxa esta que mede a proporção dos rendimentos na fase ativa que é  coberta pelo valor do benefício.  Entendo que o estudo vê essa taxa elevada porque a maioria dos trabalhadores brasileiros tem rendimentos inferiores ao valor do teto de contribuição para o INSS.  Para quem ganha acima deste valor, a taxa de reposição é tanto menor quanto maior o valor do salário na outorga do benefício.

Quanto às finanças públicas, um dos sub-indicadores utilizados é a proporção que o valor total das aposentadorias e pensões representa do Produto Interno Bruto (PIB), o que é uma medida do custo do sistema  relativamente à capacidade que o país tem de gerar tributos e outros recursos para sustentá-lo.  O Brasil aparece com a parcela de 12%, e só é ultrapassado por cinco outros países entre os 50 analisados, ou seja, se destaca entre os que gastam proporcionalmente mais com seus sistemas previdenciários. Digo sistemas, por sei que esses 12% incluem também a previdência de funcionários públicos.

O que pode acontecer no Brasil
Aqui ou lá fora, estudos como esse apontam a necessidade de reformas corretivas, mas elas são universalmente impopulares e os governantes, particularmente os de países democráticos, têm grandes dificuldades de levá-las adiante.

Aqui no Brasil vários estudos sobre o INSS vêm recomendando, entre outros aspectos, a instituição de uma idade mínima igual ou acima de 60 anos para o recebimento dos benefícios de aposentadoria. E a alteração da atual regra de reajuste do salário-mínimo cujo valor há vários anos vem crescendo em termos reais, valor este que reajusta benefícios a ele ligados, prejudicando assim a sustentabilidade desse sistema. Diante das dificuldades políticas, talvez a situação tenha que se agravar ainda mais antes que medidas como essas sejam tomadas.

No caso dos funcionários públicos, algumas já foram tomadas: idades mínimas para aposentadoria e aos funcionários novos agora só se garante o mesmo teto do INSS, tanto para aposentadorias como para e pensões. E veio a previdência complementar pública, com contribuições adicionais de quem quiser ultrapassá-lo.

Como é sempre melhor prevenir-se quanto a problemas do que ser surpreendido por eles, em particular quando a solução já se revela inviável ou de todo impossível, como nas idades mais avançadas, a atitude recomendável é essa de caráter preventivo, até porque pode trazer outros benefícios para quem tomá-la.

Essencialmente, a que tenho em mente é a de se preparar para estender o tempo de serviço, na carreira atual ou noutra, e de ampliar a poupança para a fase de aposentadoria. De concreto mesmo já se sabe que as pessoas vão viver por mais tempo do que seus pais e outros antecessores. A continuidade do trabalho traz benefícios à saúde, e sabe-se também que essa longevidade maior é em parte assegurada, particularmente em suas etapas finais, por avanços da medicina e outros cuidados pessoais que costumam custar caro, mesmo para quem dispõe de um bom plano de saúde. 
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Roberto Macedo, CFP® (Certified Financial Planner), é economista formado pela USP com Mestrado e Doutorado na Universidade Harvard (EUA).  Foi Secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Fazenda e Planejamento, funcionário do Banco Central e do Banco do Brasil. E-mail: imprensa@bb.com.br. Este texto reflete a opinião do autor e não necessariamente a do BB; tem caráter apenas informativo, e não deve ser tomado como recomendação de subscrição, tomada de créditos, compra ou venda de ativos, decisões estas de exclusiva responsabilidade do investidor. 
(*) www.allianz.com/en/press/news/studies/news_2014-04-01.html.

Dificuldades financeiras de idosos com doenças mentais - 05.05.2014
O assunto deste artigo não é agradável, mas é melhor antecipar problemas desse tipo e encará-los antes que sua solução se torne ainda mais complicada. No caso, trata-se de uma questão que muitas famílias têm ou terão que enfrentar, a da presença, dentro delas, de um idoso com doença mental. Mas, sendo uma questão ou mesmo constrangedora, sua discussão fica muito limitada ao âmbito familiar. E, quando já presentes, aos médicos e outros profissionais de saúde que cuidam de idosos.

A abordagem do tema neste espaço foi inspirada por artigo que encontrei ao consultar, por outros motivos, o sítio eletrônico do Banco Central(BC) dos EUA.(*) O artigo trata do efeito sobre decisões financeiras de doenças como a de Alzheimer e outras típicas de idades avançadas, e  que levam ao declínio da capacidade de raciocinar ou mesmo a seu esgotamento. O fato de esse BC se preocupar com o assunto é indicativo de uma relevância que também alcança o sistema financeiro,  como esclarecerei mais à frente.

Vou abordar a natureza do problema, como seu encaminhamento se dá quando há informações sobre a má condição mental de idosos, e outras conclusões do estudo.

A natureza do problema
Os autores tratam o conhecimento e habilidade necessários à gestão dos recursos pessoais e familiares nas idades mais avançadas como uma forma de capital humano acumulado ao longo do tempo. Sua magnitude depende tanto da capacidade individual como dos benefícios que de uma melhor gestão dos recursos. Esse capital acumulado tende a se depreciar tanto por doenças físicas como mentais, e o artigo se dedica a estas últimas, destacando a conhecida como de Alzheimer.

Tais doenças causam progressiva e frequentemente irreversível perda da capacidade de raciocínio que pode ser total, do que decorrem custos e riscos financeiros pessoais e familiares. Há os custos dos cuidados de que a pessoa precisa, que além dos médicos incluem os de profissionais conhecidos no Brasil como “tomadores de conta”, podendo sobrevir também a necessidade ou a conveniência de internação em instituições especializadas nesses cuidados. A questão mais enfatizada pelo estudo é que cresce o risco de perdas se a gestão financeira familiar continuar conduzida pela pessoa doente.

A depreciação da capacidade decisória costuma começar com o esquecimento de pagar contas, com a sujeição a fraudes, e assinatura de contratos incompreensíveis para a pessoa, manifestações estas que tendem a se agravar.  Entendo também que pode sobrevir um endividamento insustentável gerando perdas também para o sistema financeiro, o que pode explicar o interesse do BC americano pelo assunto. Os autores se voltam para saber se as famílias mudam sua gestão de recursos diante dessas dificuldades.

O papel de familiares
A pesquisa confirma que esse papel é muito importante, em particular quando o doente tem cônjuge e este permanece sadio mentalmente, sendo natural que assuma a responsabilidade pela gestão financeira do casal. Mas, as dificuldades não param aí, pois esse estágio pode tardar, e só acontecer depois que os danos às finanças já ocorreram.

Adiciono a observação de que usualmente o cônjuge que permanece sadio é a esposa. Mas, infelizmente, na cultura brasileira ela comumente se mantém ou é mantida alheia à gestão financeira do casal, não estando familiarizada com seus procedimentos. Ou seja, há o risco de a gestão ser passada de quem é doente mental para outra que não saberá o que fazer, o que indica a importância de o casal compartilhar a gestão financeira familiar e que a educação financeira de ambos seja buscada e praticada.

E mais: de um modo geral essa educação deve encarar também temas como este para que as pessoas percebam quão graves são os riscos envolvidos e fiquem atentas para as manifestações do problema, inclusive o próprio doente ao perceber os primeiros sintomas da doença que o atingiu. A importância dessa percepção pelo próprio doente é apontada pelo artigo sob análise, que a chama de auto-percepção.

Acrescento que mesmo sem doenças mentais idosos no Brasil são vítimas de abusos financeiros inclusive por parte de familiares.  Um conhecido meu que trabalhou como assistente social numa cidade vizinha a São Paulo contou-me casos em que filhos ou outros parentes se apropriavam, em proveito próprio, dos cartões com que os idosos gerem suas contas bancárias para realizar saques. E houve até um caso em que um senhor idoso foi responsabilizado pelo pagamento de uma pensão alimentícia devida por um filho que se separou da mulher, um procedimento contemplado pela legislação sobre o assunto, mas ignorado por muitas pessoas.

O efeito da informação 
O estudo conclui também que as famílias que têm mais a ganhar com a preparação para a presença de um doente mental no seu âmbito respondem melhor a informações sobre o declínio da capacidade de raciocinar, como as que vêm de diagnósticos médicos das condições de memória de idosos. Usando termos correspondentes às condições brasileiras, o exemplo dado é o de doentes que além da aposentadoria do INSS têm poupanças financeiras, como um VGBL, PGBL e outros investimentos, quando comparados com outros que têm apenas o rendimento do INSS. Quanto a isso, o estudo revela que aqueles que têm mais recursos mostram uma probabilidade duas vezes maior de transferir ao cônjuge sadio a responsabilidade pela gestão financeira do casal.   Isto faz sentido. Quanto mais recursos uma pessoa tem, maiores serão as perdas associadas a riscos, e maiores os ganhos de uma gestão financeira adequada.

Em conclusão...
A seriedade e a inconveniência das doenças mentais ressaltam a importância de um planejamento para a eventualidade de que a pessoa que administra as finanças familiares já não esteja em condições de seguir fazendo isto ao ter seu raciocínio comprometido por uma dessas doenças.
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Roberto Macedo, CFP® (Certified Financial Planner), é economista formado pela USP com Mestrado e Doutorado na Universidade Harvard (EUA).  Foi Secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Fazenda e Planejamento, funcionário do Banco Central e do Banco do Brasil. E-mail: imprensa@bb.com.br. Este texto reflete a opinião do autor e não necessariamente a do BB; tem caráter apenas informativo, e não deve ser tomado como recomendação de subscrição, tomada de créditos, compra ou venda de ativos, decisões estas de exclusiva responsabilidade do investidor.   
(*) “Dementia Risk and Financial Decision Making by Older Households: The Impact of Information” (Tradução: Risco de Demência e a Tomada de Decisão Financeira por Famílias Idosas: O Impacto da Informação). Autores: Joanne W. Hsu e Robert Willis. Publicação das Divisões de Pesquisa e Estatística e de Assuntos Monetários do Federal Reserve Board (Banco Central dos EUA), integrante da Série de Discussão sobre Finanças e Economia. Setembro, 2013.
 

O primeiro mapeamento da educação financeira no Brasil - 28.04.2014
No último dia 15 foi apresentado em São Paulo,  na BM&FBovespa, um documento intitulado “1o Mapeamento Nacional das Iniciativas de Educação Financeira”(*). A educação desse tipo é tema recorrente dos meus artigos neste espaço, e o título do documento atrai interesse tanto pelo seu conteúdo como por se tratar de iniciativa pioneira. O próprio tema, a educação financeira, é algo relativamente novo no Brasil, pois sua abordagem só se manifestou com maior impulso a partir da década passada.

No que se segue, serão abordados os seguintes aspectos do referido documento: sua origem institucional, avaliações de alguns de seus números e observações finais.

A origem institucional do mapeamento realizado
Ele é a mais recente iniciativa de uma entidade governamental, a ENEF (Estratégia Nacional de Educação Financeira, que teve início em 2007, com a criação de um grupo de trabalho voltado para definir o formato dessa nova entidade. Desse grupo participaram representantes do Banco Central (BC), da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), da Secretaria de Previdência Complementar (SPC) e da Superintendência de Seguros Privados (SUSEP). A ENEF veio em 2010, para “(...) promover a educação financeira e previdenciária, e contribuir para (...) a eficiência e solidez do sistema financeiro nacional e a tomada de decisões conscientes por parte dos consumidores.”

Também foi criado o Comitê Nacional de Educação Financeira (CONEF), no qual participam os citados órgãos governamentais (BC, CVM, SPC e SUSEP), e representantes da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (ANBIMA),  da BMF&Bovespa,  da Confederação Nacional de Seguros Privados (CNseg) e da Federação Brasileira de Bancos (Febraban). 

O que mostra o levantamento
Ele encontrou 803 iniciativas de educação financeira das quais 317 foram cadastradas.  Logo no início da apresentação é dito que esse cadastramento foi (...) voluntário, auto preenchido e não feita uma verificação in  loco”. Essa verificação aumentaria enormemente o custo do levantamento. O tamanho da amostra indica boa representatividade, e assim o levantamento se sustenta metodologicamente, particularmente se levada em conta a sua condição de um primeiro levantamento. Algumas das questões investigadas pela pesquisa admitem múltiplas respostas. E vale ressaltar que quem está respondendo são os responsáveis pelas iniciativas cadastras e não os seus beneficiários.

Passando a detalhes, selecionei os seguintes aspectos do levantamento:
1. Os segmentos que oferecem educação financeira são constituídos de empresas públicas ou privadas (47%), órgãos públicos (23%),  indivíduos (19%)   e organizações não-governamentais, associações e outros tipos de entidades (11%).  Creio que os indivíduos atuam como consultores e professores, entre outras atividades.

2. A maioria das iniciativas (60%) oferece seus serviços de forma gratuita, um bom aspecto revelado pelo levantamento, pois facilita o acesso dos interessados.

3. 50% das iniciativas têm atuação nacional, mas entre as regionalizadas 87% estão nas regiões Sudeste e Sul, as de maior nível de renda “per capita”. O Centro-Oeste responde por 16% dessas iniciativas, enquanto o Norte e o Nordeste têm apenas 3% em cada caso. O desequilíbrio, portanto, é muito grande entre as duas primeiras e as duas últimas regiões, e precisa ser levado em conta pela ENEF.

4.  29% das iniciativas atendem até 100 beneficiários, e 17% entre 101 a 500. Creio que são as voltadas para consultorias e cursos, entre outras. Na outra ponta, 20% atingem 10.000 ou mais pessoas, e aí devem estar as abertas ao público em geral, como via internet.

5. 60% das iniciativas são voltadas só para pessoas físicas, e apenas 1% só para jurídicas, enquanto 39% têm foco misto. Entendo que o foco deve ser nas pessoas físicas, pois se educadas financeiramente isto também se refletirá nas empresas em que atuam.

6. Quanto à idade dos beneficiários, a faixa entre 19 e 59 anos representa a maioria, notando-se carência de atendimento para as crianças até 11 anos, um pouco menor para os adolescentes, mas também alta para quem tem mais de 60. O atendimento dos dois primeiros grupos é importante para criar hábitos financeiros saudáveis, enquanto que os idosos costumam ser muito vulneráveis em suas decisões financeiras. Ou seja, nessas duas pontas evidencia-se a necessidade de atenção especial.

7. Quanto à formação educacional dos beneficiários, identifica-se também a maior carência de atenção às pessoas de menor nível educacional, pois predominam os grupos com ensino médio e superior, e há até uma forte participação de pós-graduados.

8. As iniciativas são majoritariamente voltadas para informação, orientação e formação sobre questões financeiras, com distribuição equilibrada entre esses três grupos.

9. Dentre os objetivos mais freqüentes, destaca-se o de educar para consumir e poupar de modo ético e consciente, o que é uma boa constatação, pois são aspectos essenciais da educação financeira.

10. Quanto às formas de contato com o público, destacam-se os recursos tecnológicos (computador e outros), ficando em segundo lugar a comunicação impressa, o que está em linha com o desenvolvimento recente dos meios de comunicação, e destaca a importância da internet na ampliação das iniciativas de educação financeira.
   
Observações finais
O levantamento é bem vindo, principalmente diante da novidade do tema e da carência de informações sobre seu status. O elevado número de iniciativas demonstra interesse pelo assunto. Mas, dadas as grandes e diversificadas dimensões da população e do território do país, a educação financeira ainda está nos seus primórdios.

Destaco a necessidade de formar educadores financeiros, pois o interesse pelo assunto atraiu muitas pessoas se apresentam como qualificadas para a tarefa, o que nem sempre corresponde à realidade. Entre as minhas percepções, noto ênfase muito grande em apontar este ou aquele investimento a fazer, sem a devida atenção para aprimorar o esforço de poupar. Sem este, pode até não haver o que investir. E há questões de detalhe, como a que percebi numa palestra de um desses novos educadores. Ele enfatizava o papel dos juros compostos no crescimento do patrimônio financeiro pessoal, mas chegava a resultados exagerados por não descontar a inflação das taxas de juros nominais.
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Roberto Macedo, CFP® (Certified Financial Planner), é economista formado pela USP com Mestrado e Doutorado na Universidade Harvard (EUA).  Foi Secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Fazenda e Planejamento, funcionário do Banco Central e do Banco do Brasil. E-mail: imprensa@bb.com.br. Este texto reflete a opinião do autor e não necessariamente a do BB; tem caráter apenas informativo, e não deve ser tomado como recomendação de subscrição, tomada de créditos, compra ou venda de ativos, decisões estas de exclusiva responsabilidade do investidor.   
(*) http://www.vidaedinheiro.gov.br/RelatorioEstatisticoENEF.pdf. 

O uso da declaração do IRPF nas finanças pessoais - 22.04.2014
Na próxima semana, no dia 30/4/2014, vence o prazo de entrega da declaração de ajuste do Imposto de Renda de Pessoas Físicas (IRPF) de 2014, relativa ao ano calendário de 2013.  Há os comprovantes a juntar, o tempo que toma para preparar a declaração, e para muitos a tarefa é enfadonha. E quando há mais imposto a pagar? Satisfação mesmo só ocorre quando o contribuinte vê que tem direito a uma restituição,  e começa a pensar no que fazer com ela. Se é que já não pensou antes, e até tomou dinheiro emprestado para antecipar o gasto correspondente.

Chamo a atenção para uma utilidade envolvida nesse trabalho e pouco ou nada conhecida. Para os que preenchem o formulário completo essa utilidade está em que, com alguns ajustes, ele também serve como um balanço anual das finanças pessoais. Como nas empresas, esse balanço deve envolver contas patrimoniais, como os valores de imóveis e os saldos disponíveis em dinheiro e contas bancárias.  Também como nas empresas, cabe a conta dos resultados, que no caso pessoal consiste em avaliar rendimentos e gastos e verificar qual parte daqueles foi poupada.

Ainda como nas empresas, pode-se avaliar o patrimônio líquido (PL).  Trata-se de saber quanto do patrimônio disponível está comprometido por endividamento. E, se descontado este do patrimônio – com o que se chega ao PL –, se o resultado é positivo e qual o seu valor.  Se o PL for negativo, significa que a pessoa deve mais do que tem, uma situação financeiramente desconfortável.

Este artigo abordará esses três aspectos: como a declaração do IRPF pode ser usada para avaliar o resultado do exercício, as contas de patrimônio, e o PL. No seu conjunto eles constituem um balanço anual das finanças pessoais.
   
O resultado do exercício
Como já dito, neste caso interessa se ao final do ano-calendário o declarante poupou parte dos seus rendimentos. Também é bom saber se no mesmo ano o valor desses rendimentos teve pelo menos um aumento que compensou a inflação ocorrida no mesmo período. E, ainda, para quem desenvolve uma carreira profissional, é importante que ao longo dela os rendimentos mostrem uma tendência de crescimento pelo menos até sua fase intermediária.

Todos os rendimentos são declarados ao IRPF, inclusive os não tributados, como a parcela não sujeita ao imposto, mais outros rendimentos isentos, como as retiradas de sócios cujas empresas pagam seu IR pelo regime de lucro presumido, e os rendimentos tributados apenas na fonte, como os de dividendos de sociedades anônimas.  Mas há um problema: do lado das despesas as declaradas constituem um conjunto limitado, como gastos com a saúde, educação e  aluguéis pagos.

Uma saída para ter um levantamento completo das despesas seria fazer uma contabilidade paralela que alcançasse todas elas. Mas, há uma alternativa mais fácil, a de analisar diretamente o que foi poupado, ou os investimentos correspondentes, que aparecerão na declaração. Eles na parte do formulário que lista os bens e direitos, mas será preciso observar apenas os acréscimos ocorridos no ano calendário para a comparação com os rendimentos do mesmo período. 

O balanço das contas de patrimônio
Neste aspecto, o formulário tem essa relação de bens e direitos.  Aí surge outro problema, pois um imóvel, por exemplo, entra pelo seu valor de aquisição. Não se permite que esse valor seja corrigido monetariamente na declaração, e tampouco que o seja avaliado pelo seu valor de mercado no final do ano calendário. Mas, é bom lembrar que o contribuinte pode legalmente acrescentar ao valor de aquisição os acréscimos decorrentes de benfeitorias introduzidas, como as oriundas de reforma do imóvel ou mesmo do prédio em que se encontra, neste último caso pelo valor que coube a cada condômino. Sei que muitas pessoas não registram essas benfeitorias, mas caso o imóvel seja vendido elas não estarão incorporadas ao seu valor de aquisição, o que levará a um maior lucro imobiliário e mais IR a pagar. 

Em face dessas dificuldades trazidas pelo custo histórico de itens do patrimônio, uma saída é aproveitar a lista desses itens que está na declaração de bens e direitos e fazer outra à parte tomando-se as estimativas do valor de mercado de itens cujos valores variam ao longo do tempo, como imóveis, automóveis e ações. 

Agora, o PL
Avaliado o patrimônio, para chegar ao PL é preciso levar em conta o que a declaração lista no item dívidas e ônus reais.  Nessa lista, há também algumas dificuldades, ainda que menores do que no caso do patrimônio. Uma que já enfrentei, diz respeito a como avaliar a dívida remanescente de um imóvel financiado.  Minha conclusão é que se deve começar pelo valor do imóvel adquirido, sem incorporar os juros do financiamento.

Estes devem ser considerados como despesas. Em seguida, é preciso saber quanto das prestações pagas representa as amortizações realizadas e considerar o total das ainda por pagar como o valor da dívida ainda existente. Trata-se de avaliação coerente. Primeiro, porque o imóvel entra na declaração pelo seu valor de aquisição, e o da dívida cairá pelo valor das amortizações. Segundo, porque se os juros fossem acrescentados, esta seria maior que o valor de aquisição. Terceiro, porque os juros correspondem a um custo do financiamento e não propriamente do imóvel.

Em síntese...
A declaração do IRPF tem sem dúvida essa utilidade de permitir um balanço anual das finanças pessoais.  Há as dificuldades citadas, e por sua causa não será fácil chegar a uma avaliação 100% precisa. A pessoa precisará completar as informações da declaração com outras, e usar o bom senso na avaliação do quanto ganhou, do quanto poupou ou investiu, do valor de seu patrimônio e do montante de suas dívidas para chegar a uma visão o mais realista possível de suas finanças.

Não vejo forma mais adequada de fazer isto do que usando informações que em grande parte estão disponíveis e organizadas nas várias partes que constituem a  declaração do IRPF. Assim, é melhor utilizar o que está nessa declaração, com os complementos necessários, do que fazer outro levantamento, que seria idêntico ao do IRPF no conteúdo e nos problemas de avaliação que envolveria.

E para quem usa o formulário simplificado? No formulário simplificado também se revela a oportunidade para também dar à declaração do IRPF a utilidade de que trata este artigo. Só que o trabalho para completá-la será maior. Mas, acredito que vale a pena, levando-se em conta a importante utilidade do esforço, que é a de fornecer um checape anual da saúde financeira do contribuinte.
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Roberto Macedo, CFP® (Certified Financial Planner), é economista formado pela USP com Mestrado e Doutorado na Universidade Harvard (EUA).  Foi Secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Fazenda e Planejamento, funcionário do Banco Central e do Banco do Brasil. E-mail: imprensa@bb.com.br. Este texto reflete a opinião do autor e não necessariamente a do BB; tem caráter apenas informativo, e não deve ser tomado como recomendação de subscrição, tomada de créditos, compra ou venda de ativos, decisões estas de exclusiva responsabilidade do investidor.

Não se aposente! A pregação nos Estados Unidos - 14.04.2014
Há tempos prego este conselho. Também o pratico há mais de 25 anos, quando me aposentei precocemente como professor. Estou feliz com os resultados. Fiquei ainda mais convencido ao constatar essa mesma pregação também num artigo recente publicado em jornal de grande circulação nos Estados Unidos da América (EUA). Já no título o artigo diz que não se aposentar é para muitos o melhor conselho quanto à aposentadoria. (*) Vou examinar os vários argumentos desenvolvidos pelo artigo, examinando se fazem sentido também no Brasil. Agregarei à análise outras observações próprias, inclusive a conclusão final.

Uma síntese do artigo
Começa afirmando que todos sabem que aposentar é difícil, especialmente o planejamento dessa fase, o qual pouca gente faz no Brasil. Aliás, talvez por não fazer esse planejamento, muita gente aqui acha fácil,  sempre pensando na aposentadoria. Mas, o que vem depois dela? Uma solução para não se preocupar com os problemas dessa fase – e eles existem como veremos em seguida –, é não se aposentar, como o mesmo artigo propõe.

Minha visão da aposentadoria é que o ser humano tem raízes no reino animal onde o trabalho, em particular o de buscar alimentos, se impõe como necessidade de sobrevivência.  Ou seja, o animal integrado à natureza morre se parar de trabalhar. Hoje predominantemente fora dela, isto não acontece com o ser humano, mas o hábito de trabalhar tem essas raízes profundas e as pessoas podem ter problemas ao abandoná-lo. Em particular, o trabalho integra as pessoas no meio social, no qual fazem amizades e outros relacionamentos. Como deixá-lo? 

Olhando o que nele se passa, muitas pessoas trabalham por uns 30 anos ou mais, e na aposentadoria buscam só atividades de lazer, às vezes nem isto. Assim, há quem enfrente dificuldades na transição entre o trabalho e a aposentadoria, pois são atividades muito diferentes em termos do esforço e do comprometimento que elas envolvem. 

Em face dessas dificuldades o artigo, ao entrevistar várias pessoas que continuaram ou voltaram a trabalhar, aponta que a continuidade do trabalho contribui para a saúde física e mental.  O jornal que publicou o artigo é muito popular, e algumas das entrevistas são de figuras conhecidas do público em geral. Como um comediante famoso, com 92 anos e ainda atuante, e outras pessoas que atraem interesse dos leitores, como um corretor de imóveis de 99 anos que ainda trabalha um dia por semana.

Mas, na mesma linha que defende a continuidade do trabalho, e nenhum entrevistado se manifestou contra –  talvez em razão do viés do autor do artigo por essa opção –  também há o depoimento de um médico, já na sua terceira carreira. Primeiro praticou a medicina e depois seguiu duas carreiras administrativas na área, na segunda das quais permanece até hoje. Ele assim sintetizou sua opção: "O objetivo da aposentadoria é parar de fazer o que você tem que fazer para começar a fazer o que você quer fazer. Eu estou fazendo isto. E levo uma vida boa.” 

E tem mais
Há o depoimento também de alcance mais geral de uma pessoa que integra a equipe econômica do Instituto de Políticas Publicas da Associação Nacional de Pessoas Aposentadas, uma grande e influente entidade dos EUA. Essa entrevistada diz que o número de pessoas que trabalha nas idades mais avançadas está crescendo, confirma que isto lhes faz bem física e mentalmente, e adiciona que esse trabalho também lhes faz bem do ponto de vista financeiro. E conclui que para quem pode e deseja prolongar seu tempo de trabalho isto pode ser uma experiência positiva. Acrescento que tudo depende muito das condições de saúde nas idades mais avançadas, mas entendo que quem estiver em boas condições deve trabalhar, mesmo em atividades voluntárias.  Para citar um caso emblemático no Brasil, há o do empresário Antonio Ermírio de Moraes, que se destacou como industrial, e mesmo quando ainda ativo na sua empresa  tinha uma ocupação voluntária num grande hospital beneficente de São Paulo, na qual continuou até quando pôde.

Nas razões financeiras, o artigo faz referência a outro texto, no qual se diz que pessoas cobertas por planos fechados de previdência privada nos EUA vêm enfrentando escassez de recursos, pois muitos aposentados se endividam bastante, e comprometem seus rendimentos com o dinheiro que vaza para pagar as dívidas. Num artigo anterior de minha autoria, colocado neste site em 31/3/14, também foi assinalado que muitos beneficiários desses planos sacam seus recursos ao mudarem de emprego ao longo de suas carreiras, mudança esta que é muito comum naquele país, um fenômeno também chamado de alta rotatividade da mão de obra.

Em conclusão e sobre a situação no Brasil
O artigo analisado aponta que razões de saúde física, psicológica e financeira recomendam a continuidade do trabalho efetivo ou voluntário, e essas vantagens serão maiores se a pessoa estiver desenvolvendo um trabalho de que gosta.

Quanto ao Brasil, em 28/1/13 foi postado neste espaço um artigo meu com o título “Aposentadoria? Tô fora”.  Entre outras considerações ele se referiu a uma pesquisa realizada por empresa de recrutamento de mão-de-obra, abrangendo 476 profissionais à procura de emprego, entre os quais 82% de aposentados.   Admitidas respostas múltiplas, 53% declararam buscar uma nova ocupação porque gostam de trabalhar, enquanto que 49% se sentiriam mais ativos, e 47% afirmaram buscar trabalho por necessidade de renda extra.

Como era de se esperar, pois os seres humanos enfrentam problemas que são comuns a muitos países, essas respostas mostram motivações que coincidem com as observadas nos EUA pelo artigo analisado. Ou seja, as pessoas continuam a trabalhar porque gostam, para se sentirem mais ativas – o que é bom para sua saúde –, e por razões financeiras. Estas últimas são agravadas no Brasil onde tanto os rendimentos dos ativos como os dos aposentados pelo INSS são bem mais baixos que nos EUA.

Em retrospecto, embora eu costume enfatizar que o planejamento financeiro pessoal deve ser essencialmente voltado para a fase de aposentadoria, resolvi repensar essa idéia após ler o artigo citado.  Assim, o mais adequado é a pessoa buscar o planejamento para alcançar sua independência financeira, e não necessariamente para se aposentar. Mas, continuarei enfatizando particularmente a necessidade de assegurar essa independência nas idades mais avançadas, trabalhando ou não. Essa ênfase se justifica porque nessa fase da vida o erro ao planejar anteriormente já será então irremediável.
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Roberto Macedo, CFP® (Certified Financial Planner), é economista formado pela USP com Mestrado e Doutorado na Universidade Harvard (EUA).  Foi Secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Fazenda e Planejamento, funcionário do Banco Central e do Banco do Brasil. E-mail: imprensa@bb.com.br. Este texto reflete a opinião do autor e não necessariamente a do BB; tem caráter apenas informativo, e não deve ser tomado como recomendação de subscrição, tomada de créditos, compra ou venda de ativos, decisões estas de responsabilidade exclusiva dos investidores.
(*) Artigo de Rodney Brooks, do jornal USA Today, em http://www.cnbc.com/id/101524058.



A atratividade da poupança diante dos aumentos da Selic - 07.04.2014
A captação líquida da poupança no primeiro trimestre deste ano caiu relativamente à do mesmo período de 2013. Isto significaria uma perda de atratividade da poupança diante de aplicações com remuneração mais ligada à taxa básica de juros, ou Selic, que chegou a 11% ao ano na semana passada? Para responder a esta questão a poupança será comparada com a de um tipo de fundo com remuneração mais ligada à Selic. Esta também costuma ser referida como DI, a taxa dos CDI (Certificados de Depósito Interbancário), que guarda correspondência muito próxima com a Selic.

Examinarei o assunto começando pelos aumentos da Selic que integram um ciclo de altas iniciado pelo Conselho de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC) em 18/4/13. Em seguida serão apresentados números da captação líquida da poupança nesse ciclo de alta e no anterior,  de baixa. Números da captação líquida de fundos do tipo “Referenciado DI” também serão mostrados.

O atual ciclo de aumentos da Selic...
Iniciado na referida data, quando a Selic passou de 7,25% para 7,50 ao ano, ele sucedeu um ciclo de reduções que a trouxe de 12,5% ao ano, em 21/7/2011, para 7,25% ao ano em 11/10/12, neste último valor permanecendo até o início do presente ciclo de aumentos. Essa taxa de 7,25% ao ano foi a menor da Selic na história da política monetária do BC. Com este valor a Selic se aproximou muito da “antiga” e atual remuneração da poupança (6,17% ao ano mais TR, ou taxa referencial), ampliando assim a atratividade das cadernetas, pois os fundos “Referenciados DI” são onerados com o Imposto de Renda (IR) na fonte e taxas de administração, enquanto a poupança não tem nem uma coisa nem outra no caso das pessoas físicas.

Por exemplo, se um fundo desse tipo rendesse essa taxa de 7,25% e seu IR fosse de 20%, o valor líquido dessa taxa cairia para 5,8% ao ano, sem contar a taxa de administração.  Do lado da poupança, o ganho da TR também atuaria em seu favor, mas quando a Selic chegou a 7,25% seu valor caiu para zero.

Estudos mostraram que a atratividade da poupança se mantém até valores da Selic próximos de 8,5% ao ano, supondo uma taxa de administração de 1% ao ano e a alíquota do IR em 20%. Por essa razão, para evitar um grande movimento na direção da poupança caso a Selic caminhasse para valores menores, o governo instituiu a regra de que para os depósitos realizados depois de 4/5/2012 a remuneração mensal da poupança passaria ser de 70% da taxa Selic (+TR) se esta fosse igual a ou inferior a 8,5% ao ano.

O que mostram os dados
Usando esse parâmetro de uma Selic a 8,5% ao ano, verifica-se que ela ficou abaixo dele entre 12/7/2012 a 11/7/13, ou seja, por 12 meses.  Não se pode marcar esse período para avaliar se a maior atratividade da poupança se revelaria exatamente nele, pois há investidores que não reagem imediatamente, seja a uma queda ou a um aumento da Selic,  e também porque a reação desses investidores pode nem mesmo ocorrer. Ela pode também se verificar sob a influência de diferentes avaliações que eles fazem da atratividade de uma aplicação relativamente a outra.

De qualquer forma, tanto a citada reação do governo, limitando em maio de 2012 a atratividade da poupança nas quedas da Selic, como os números da poupança indicam que sua captação líquida aumentou sensivelmente em 2012 relativamente a 2011. Assim, essa captação foi de R$14,2 bilhões em 2011 e passou a R$49,7 bilhões em 2012, um aumento de 250%(!).

Esse ritmo de aumento, contudo, se arrefeceu na comparação de 2013 com relação a 2012, pois foi bem menor (+ 43%).  Isto pode ser explicado tanto porque a Selic voltou a aumentar a partir de julho de 2013 como porque do lado dos investidores talvez já não existissem tantos recursos para serem levados à poupança a partir de aplicações alternativas.

Contudo, com os sucessivos aumentos da Selic a queda da atratividade da poupança acabou por se revelar de modo mais claro no primeiro trimestre de 2014. Assim, em todos os três meses desse trimestre a captação líquida da poupança se revelou menor que nos mesmos meses de 2013, valendo lembrar que tanto em 2012 como em 2013 em apenas um mês em cada um desses anos a captação líquida foi inferior à do ano anterior.  E nesse primeiro trimestre de 2014 houve queda de 49%.

Números dos fundos do tipo “Referenciado DI”
Conforme as definições adotadas pela Anbima (Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais), fonte desses números, esse é o tipo de fundo mais sensível às variações da taxa Selic/DI. 

Tabelas e gráficos dessa fonte permitem concluir que o patrimônio líquido(PL) total dos fundos Referenciados DI alcançou R$300,2 bilhões em fevereiro de 2014. Mas, desde o segundo trimestre de 2011 até o primeiro semestre de 2012 o valor desse PL esteve estagnado em torno de R$250 bilhões em termos nominais, mas caindo em termos reais por conta da inflação . Em seguida, se expandiu para o valor citado, e teve aumento mais sensível em fevereiro de 2013. Portanto, esse período de estagnação e de queda real do PL desses fundos a grosso modo coincidiu com o citado ciclo de queda da Selic, e o período de recuperação com o ciclo de aumentos da mesma taxa. Do lado da poupança, como assinalado, as indicações são de que as aplicações líquidas sobem com a queda da Selic e perdem o ritmo ou mesmo caem quando ela sobe de modo sensível.

Em conclusão...
Tome-se o investidor pessoa física em condições de se informar quanto às variações da Selic e sobre a atratividade da poupança relativamente a aplicações alternativas com rendimentos direta ou indiretamente ligadas a essa taxa, avaliados no seu valor líquido do IR e de taxas de administração quando cabíveis. E, ainda, com recursos disponíveis que justifiquem mudanças de investimentos, ponderadas também as conveniências da poupança na sua facilidade de movimentação, liquidez imediata e risco praticamente nulo. Esse é o investidor que tipicamente deve refletir sobre o novo quadro em que a Selic chegou a 11% ao ano.

Quando na semana passada ocorreu o último aumento da taxa, os analistas se dividiram entre os que apostam em mais um aumento, de 0,25% ponto percentual, e os que entendem que o ciclo de aumentos poderá ser interrompido na próxima reunião.
Mas, no horizonte que se pode contemplar, digamos, até meados do próximo ano, não vi nenhum analista a dizer que a Selic vai cair do seu valor atual, conveniente ao investidor, em particular aos de maiores recursos. Esta é a essência do que esse investidor deve ponderar, e não só comparando os rendimentos da poupança com o dos fundos Referenciados DI, mas também com os de outras aplicações alternativas.
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Roberto Macedo, CFP® (Certified Financial Planner), é economista formado pela USP com Mestrado e Doutorado na Universidade Harvard (EUA).  Foi Secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Fazenda e Planejamento, funcionário do Banco Central e do Banco do Brasil. E-mail: imprensa@bb.com.br. Este texto reflete a opinião do autor e não necessariamente a do BB; tem caráter apenas informativo, e não deve ser tomado como recomendação de subscrição, tomada de créditos, compra ou venda de ativos, decisões estas de responsabilidade exclusiva dos investidores.

Poupança para aposentadoria: decisões pessoais versus produtos para poupar – 31.03.2014
Após refletir por vários anos sobre o que é planejamento financeiro pessoal concluí que seu objetivo mais importante é chegar à fase de aposentadoria em condições de vida dignas de um ser humano: uma residência confortável e rendimentos suficientes para ter e manter um bom padrão de vida em termos de alimentação, vestuário, transporte, lazer e cuidados com a saúde assegurados por um plano de saúde adequado.

Conheço pessoas que hoje lamentam não terem se preparado melhor para essa fase. Outras nem refletem sobre o assunto, conformando-se com o pouco que têm, até porque não têm como superar suas dificuldades.

Portanto, pessoas hoje ainda jovens ou de meia idade devem refletir bastante sobre as condições de vida enfrentadas por diferentes grupos de idosos conforme seu status econômico, para que ainda a tempo possam se engajar num planejamento financeiro que evite as situações constrangedoras que muitos idosos enfrentam.

Nesse planejamento tenho realçado ensinamentos que vêm do enfoque conhecido por finanças comportamentais, que analisa como o ser humano toma decisões, se de modo racional ou influenciado por instintos herdados de seu passado no reino animal. Ou, já fora dele, por crenças e hábitos que o levam a tomar decisões sem refletir sobre suas conseqüências, em particular as de um futuro mais distante.

Este artigo focará numa decisão importante nesse planejamento, a de aderir ou não a planos de previdência privada fechados, oferecidos pelas próprias empresas a seus empregados. Mesmo quando ocorre a adesão, ela pode ser revertida quando a pessoa muda de um emprego para outro, e tem que decidir quanto aos recursos do plano anterior e quanto à inscrição ao plano da empresa em que passou a trabalhar, se oferecido.  Essa abordagem foi estimulada por um artigo em inglês sobre o que se passa nos EUA quanto ao assunto.(*) No Brasil desconheço a existência de relato semelhante.

Primeiro, a clara vantagem de planos desse tipo

Nos EUA os planos de poupança para aposentadoria ofertados por empresas a seus empregados são mais comuns que no Brasil. Lá como cá esses planos oferecem um benefício custeado pela empresa na forma de uma porcentagem sobre os rendimentos mensais de seus trabalhadores, a qual é levada a contas individuais dos mesmos  e cujos recursos são investidos pelo plano para assegurar o benefício na fase de aposentadoria ou quando deixar a empresa. Mas, para ter o benefício, o trabalhador precisa aderir ao plano e contribuir com uma porcentagem igual ou maior à paga pela empresa.

Na linguagem financeira, um plano como esse pode ser visto como um “produto de poupança”. Ou como um produto de investimento. É um produto ou serviço oferecido que o interessado pode “comprá-lo” ou não. Ou seja, aderindo ou não.

Exemplificarei com um plano desse tipo do qual participei no Brasil. A empresa contribuía com 5% do meu salário e eu poderia contribuir com a mesma porcentagem ou mais até o limite de 10%, pelo qual optei.  Não fiquei muito tempo nessa empresa, e quando saí passei a receber um benefício vitalício que hoje cobre a conta do condomínio do prédio onde resido. Acho que foi um ótimo investimento. Mas, seria sempre uma decisão óbvia e permanente? Não, como veremos em seguida.

O caso dos EUA
Lá se percebeu que quando os trabalhadores  eram obrigados a manifestar por escrito sua adesão a um desses planos, muitas vezes deixavam de fazê-la ou procrastinavam a decisão por muito tempo, na linha de um comportamento nada racional, pois, como já ressaltado, a decisão lhes era conveniente.  Em face desta percepção, foi realizada uma experiência em que a inscrição no plano seria automática se não houvesse uma manifestação explícita em contrário.   Com esta simples alteração, a adesão aumentou bastante e a legislação foi modificada para permitir a inscrição automática. Hoje, conforme o artigo citado, essa nova forma de adesão é considerada a mudança mais importante entre as vivenciadas por esses planos.

Mas, outros problemas foram percebidos e mencionarei alguns deles. O primeiro ocorre porque nos EUA é alta a rotatividade da mão de obra. Assim, são muitas as oportunidades para resgatar o plano ao longo da carreira profissional. Creio que lá é possível receber o benefício numa única soma em dinheiro ou em pagamentos mensais, e o artigo dá a entender que muitos optam pelo primeiro caso, quando o melhor seria acumular os benefícios de sucessivos planos. E, ao sacar o dinheiro, não há uma noção clara da tributação que incide sobre eles, que também contra-indica o saque prematuro, pois prejudica rendimentos futuros.

Quanto a esses “vazamentos” por resgates antecipados, o artigo apresenta uma estimativa de que se seu valor total fosse reduzido à metade, um adicional de US$ 1 trilhão(!) seria adicionado na próxima década à poupança para aposentadoria.

Percebeu-se também que quando se procura ensinar questões como estas às pessoas que buscam um resgate antecipado elas podem se sentirem deprimidas diante da ameaça de prejuízos que vem com esses ensinamentos. E reclamam que seus interlocutores não levam em conta outros aspectos de suas condições financeiras como a idade, a história familiar, a disponibilidade do INSS local e o efetivo valor sobre o qual incidiria o imposto de renda na fase da aposentadoria. Em razão disto, segundo um entrevistado, é preciso uma abordagem positiva, partindo de uma estimativa de quanto a pessoa vai precisar nessa fase, o valor já alcançado e como seria alterado pelo resgate.

Mas, também foi percebido que se a mensagem é personalizada como algo que um jovem de 20 anos deve ambicionar,  ou mesmo chegando perto de atemorizar no caso de uma pessoa com 50 anos, ela pode ter um impacto positivo.

Em conclusão...
Os planos fechados de previdência privada são um produto claramente atrativo, mas isto não basta para convencer as pessoas a aderir a eles, e também para manter a adesão quando há mudança de emprego.  Noutras palavras, a atratividade do produto é um elemento importante, mas o comportamento que as pessoas adotam ao administrá-lo é fundamental, pois pode prejudicar o objetivo do plano, a aposentadoria financeiramente adequada, à qual me referi inicialmente.

A educação financeira pode ajudar no processo de conscientizar as pessoas quanto à necessidade de buscar persistentemente esse objetivo, mas a forma de prover essa educação depende, entre outros aspectos, de um amplo conhecimento das condições financeiras da pessoa e de sua família, da idade em que ela se encontra e das reações emocionais envolvidas. Não sem razão, o título do artigo a que me referi, e que só agora revelo é, traduzindo, “A psicologia da poupança para a aposentadoria”.
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Roberto Macedo, CFP® (Certified Financial Planner), é economista formado pela USP com Mestrado e Doutorado na Universidade Harvard (EUA).  Foi Secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Fazenda e Planejamento, funcionário do Banco Central e do Banco do Brasil. E-mail: imprensa@bb.com.br. Este texto reflete a opinião do autor e não necessariamente a do BB; tem caráter apenas informativo, e não deve ser tomado como recomendação de subscrição, tomada de créditos, compra ou venda de ativos, decisões estas de responsabilidade exclusiva dos investidores.
(*)www.cnbc.com/id/101480388.  


Selic e renda fixa – o que vem pela frente? - 24.03.2014
Nos últimos dias houve uma mudança dos cenários da inflação e da taxa básica de juros, ou Selic. Quanto ao da inflação ela voltou a dar sinais de agravamento, principalmente neste mês de março e por conta da prolongada estiagem neste início de ano, a qual vem prejudicando a oferta de alimentos e elevando seus preços.

No caso da Selic, que tem um amplo conjunto de aplicações em renda fixa direta ou indiretamente a ela ligadas, na reunião concluída no dia 26 do mês passado, o Conselho de Política Monetária (Copom), do Banco Central (BC), aumentou-a novamente, desta vez de 10,5% para 10,75%. Na ocasião, e a opinião predominante do mercado financeiro era a de que o atual ciclo de aumentos da Selic teria mais uma elevação de mesma magnitude na reunião a ser concluída no dia 12 de abril próximo.

Na semana passada, contudo, o presidente do BC, Alexandre  Tombini, declarou que está de olho na inflação vinda dos alimentos, o que abriu a perspectiva de mais uma elevação de idêntica magnitude (0,25 ponto percentual) na reunião seguinte que se findará no dia 28 de maio.

No que se segue esse agravamento da inflação serão analisadas essa declaração em maiores detalhes, as opções de política monetária do BC diante dele e as implicações para investidores.

O agravamento da inflação
Ele é evidenciado pela tabela a seguir onde são apresentadas as variações mensais do IPCA do IBGE e do IGP-M da Fundação Getúlio Vargas desde julho do ano passado até fevereiro de 2014. E, em março deste ano, as prévias desses dois índices, apresentadas por variantes dos mesmos, o IPCA-15 e o IGP-M-20 avaliados em datas próximas dos dias 15 e 20 de cada mês, respectivamente.

Inflação Mensal  - IPCA(*) e IGPM (**) –  Jul/13 a Mar/2014 - Em %
Ano/mês
IPCA
IGPM
2013 - Julho
0,03
0,26
2013 - Agosto
0,24
0,15
2013 - Setembro
0,35
1,50
2013 - Outubro
0,57
0,86
2013 - Novembro
0,54
0,29
2013 - Dezembro
0,92
0,60
2014 - Janeiro
0,55
0,48
2014 - Fevereiro
0,69
0,38
2014 - Março
0,73
1,41
Fontes: IBGE (IPCA) e Fundação Getulio Vargas (IGP-DI e IGP-M-20).
(*) IPCA-15, em março de 2014. (**) IGPM-20, idem.

Como se percebe, desde dezembro do ano passado o IPCA, que é  o índice-meta da política monetária do BC,  passou a mostrar taxas bem distantes das necessárias para alcançar uma inflação confortável, que são do valor médio de 0,367% ao mês no caso do centro da meta (4,5% ao ano) e de 0,526% ao mês  no que diz respeito ao teto dessa meta (6,5% ao ano). Destaque-se o forte valor da taxa prévia de março, refletindo claramente o efeito da estiagem e revelando o pior resultado para o mesmo mês desde 2003, segundo o noticiário sobre o assunto.

O IGP-M não é meta da política monetária do BC. Mas, no mesmo mês ele mostrou também um resultado ainda mais elevado, porque nele as variações de preços aos produtores de bens agropecuários e industriais respondem por 60% do índice. E o que preocupa neste caso é que essa alta no atacado também deve pressionar os preços no varejo onde o IPCA é medido, pois este é um índice de preços ao consumidor. Como inclui vários outros itens do orçamento doméstico (habitação, educação, transporte, vestuário e outros), essa pressão não ocorre na mesma magnitude da que se revela no caso do IGP-M, mas ainda assim é significante, como evidenciado pelo resultado de março. Em números, a participação dos alimentos no IPCA é próxima de 23%.

O que disse o presidente do BC
Ao falar na Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) do Senado Federal na terça-feira da semana passada, Alexandre Tombini assinalou que o choque dos preços dos alimentos deve ser temporário, mas acrescentou que cabe à política monetária limitar seus efeitos de curto prazo. Afirmou que nesse contexto não se pode esperar que um aumento da Selic tenha impacto sobre os preços dos alimentos, mas ele pode impedir que essa alta se espalhe para o restante da economia.  Na sequência dessa declaração os contratos de juros futuros de Depósitos Interfinanceiro (DI) tiveram sua taxa aumentada no horizonte mais imediato e a opinião que passou a dominar foi a já referida, ou seja, de mais um aumento de 0,25 ponto percentual da Selic em maio, depois do de mesmo valor esperado em abril, o que a elevaria para 11,25% ao ano.

As opções da política monetária em andamento
É comum que bancos centrais se deparem com circunstâncias difíceis como esta ora enfrentada pelo BC brasileiro. Atualmente ele vem seguindo um ciclo de aumentos da Selic na expectativa de que eles moderem o ritmo da inflação. Mas, também falando na mesma reunião da CAE do Senado Federal, o presidente do BC reconheceu que a inflação vem mostrando resistência acima da esperada. Conforme foi visto, essa resistência transparece na tabela de taxas mostrada acima.

Outro aspecto que complica a ação do BC na frente da inflação é o calendário político, onde se destaca a eleição presidencial deste ano. A experiência demonstra que não se pode esperar uma forte atuação do BC nos meses antes e mais próximos da eleição, e ele esperava que o atual ciclo de aumentos da Selic se encerrasse antes disso, em face da esperada ocorrência de seus efeitos.  Com esse impacto da estiagem na produção de alimentos, será preciso que seus impactos se dissipem nos próximos dois meses, sem o que o BC ficará numa situação ainda mais desconfortável.

Implicações para investidores
Desde que a inflação se comporte de tal modo que não absorva os ganhos reais de novos aumentos da Selic, os rendimentos de aplicações direta ou indiretamente ligados a essa taxa serão beneficiados. Ou pelo menos uma Selic maior evitará que as perdas decorrentes da inflação em alta sejam mais fortes.  De qualquer forma, o investidor não deve contar com uma Selic sempre alta, pois isto não convém ao país.
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Roberto Macedo, CFP® (Certified Financial Planner), é economista formado pela USP com Mestrado e Doutorado na Universidade Harvard (EUA).  Foi Secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Fazenda e Planejamento, funcionário do Banco Central e do Banco do Brasil. E-mail: imprensa@bb.com.br. Este texto reflete a opinião do autor e não necessariamente a do BB; tem caráter apenas informativo, e não deve ser tomado como recomendação de subscrição, tomada de créditos, compra ou venda de ativos, decisões estas de responsabilidade exclusiva dos investidores.


Poupar ou trabalhar mais para ter um mesmo valor? - 17.03.2014
Hoje o tema é uma curiosidade interessante que costumo usar nas minhas pregações do planejamento financeiro pessoal. De novo, o objetivo é realçar a importância de poupar, o verbo mais difícil de conjugar na gestão financeira pessoal.  E, nesse tema, apontar também o peso dos impostos, que costumamos pagar sem perceber seu custo. No caso, o Imposto de Renda de Pessoas Físicas (IRPF) sobre rendimentos do trabalho.

Suponha o leitor que uma pessoa precise de R$1.000,00 a mais para uma despesa, que pode ser um gasto qualquer ou o pagamento de uma dívida não integrante do orçamento usual. A realização desse gasto resolveria o problema em caráter definitivo.

Ai surge o dilema de nosso interesse: que ação seria financeiramente mais conveniente ao enfrentá-lo? Trabalhar mais fazendo horas-extras na atual ou noutra ocupação? Ou poupar esse dinheiro do que já ganha, para atender ao gasto adicional?  No primeiro caso, se a pessoa já estiver pagando o IRPF à alíquota de 27,5%, precisará  de um ganho adicional de R$1.380,00 para chegar ao valor líquido de R$1.000,00. Fazendo as contas: 27,5% de R$1.380,00 resultam em R$379,50 que, arredondados, levam a R$380,00, deixando um valor líquido de R$1.000,00.  Assim, se essa pessoa poupasse este valor, não precisaria trabalhar, nem pagar os R$380,00 de IRPF.

Avançando a discussão do dilema
Ao discutir o assunto surgem dúvidas por parte de meus interlocutores. Alguns ponderam que mesmo tendo um rendimento que coloca a pessoa nessa alíquota da tabela do IRPF a alíquota média que a pessoa paga é menor. Mas, já estando nessa alíquota o que a pessoa vai pagar de IRPF por um rendimento adicional – ou, como dizem os economistas, “na margem” –,  será tributado por essa alíquota maior.

Há quem também pondere que sua alíquota “na margem” é menor que 27,5%. Neste caso, digo que recorro à alíquota maior para ressaltar o tamanho do dilema, como costumam fazer professores como eu.  Em termos de imposto, o dilema só não aparece se a pessoa estiver na faixa em que há isenção do IRPF e se o rendimento adicional não levá-la ao limite em que essa isenção desaparece. Evidentemente, se a “alíquota marginal” da pessoa for menor que 27,5% o ônus tributário será menor.  Vale insistir: o que se pretende é chamar atenção sobre o efeito da tributação e enfatizar novamente a importância de poupar, mesmo que seja para atender a outro gasto.  

Em princípio, portanto, seria melhor poupar, para não ter o ônus do IRPF nem o esforço do trabalho. Não que eu veja o trabalho como abjeto. Pelo contrário, entendo-o como intrínseco à condição humana e assim indispensável. Talvez fosse melhor colocar esta questão em termos do uso do tempo, um recurso sabidamente escasso. Ele poderia ser dedicado a outros afazeres, inclusive o lazer, ou mesmo para trabalhar e pagar mais impostos, mas noutra situação em a discussão não fosse a desse dilema, onde a questão é obter uma importância adicional para uma necessidade específica, e que se esgota com o seu atendimento.

Como tudo em economia e finanças, discussões como essa só são simples nas aparências, e percebo mais dúvidas, como a do IRPF que a pessoa já pagou sobre o dinheiro que já ganhou e do qual teria que “espremer” os R$1.000,00 de que precisa se optasse pela poupança. De fato o IRPF já foi pago, mas quanto a ele não há o que fazer.  Dada a necessidade adicional,  esse dinheiro só poderá vir de uma poupança de mesmo valor ou de renda adicional. Assunto encerrado?  Não.

Outras contas por fazer

Antes de cortar despesas, será importante refletir sobre o que vai ser cortado. Se o orçamento pessoal já estiver “no osso”, todo comprometido com despesas inadiáveis,  às quais é atribuída atribui importância fundamental, e inclui também um valor já poupado que não se quer sacrificar com a nova despesa, também não há o que fazer. Será preciso trabalhar mais e entregar ao IRPF a parte que lhe toca.

Contudo, se há o que pode ser cortado, seria o caso de tirar daí os R$1.000,00 necessários. De novo, não é tão simples assim. A pessoa terá que comparar a satisfação que lhe dá o que seria cortado,  com a satisfação que do que será pago com os R$1.000,00 adicionais. E ponderar também o esforço de trabalho adicional necessário para chegar aos R$1.380,00, ao examinar este caminho. Por exemplo, se não quiser mesmo fazer cortes,  gostar de trabalhar, e ainda tiver tempo disponível para tanto, caminhará na direção do trabalho.

Complicado?  Pode ser, mas às vezes tomamos decisões desse tipo, como a de fazer horas-extras e ganhar mais, sem pensar muito sobre o assunto.  Quando pensamos com esse raciocínio de economistas, as opções são muitas.

Algo que não se pensa muito é sobre o IRPF, talvez porque já estejamos acostumados a olhar apenas o valor líquido do salário mensalmente recebido.  É bom, contudo, refletir sobre o efeito desse imposto, pois poderá mudar a decisão de trabalhar mais.

O que fica de lições
Como cada pessoa tem suas preferências, não há uma opção inequivocamente correta para o dilema, cuja discussão, contudo, enseja três lições importantes. A primeira é a de que o IRPF e a faixa em que estamos são importantes para analisar a opção. A segunda ressalta novamente a importância da poupança em si mesma.  Muitas vezes nos matamos de trabalhar para gerar mais renda, embora uma disciplina maior ao gastar pudesse evitar ou reduzir isso. A terceira é que por isto mesmo devemos estar sempre revendo as despesas, buscando formas de reduzi-las, o que muitas vezes pode ocorrer mesmo sem sacrifício da satisfação que vem com elas. Por exemplo, buscando sempre preços mais baixos, descontos de liquidações e por volumes maiores – que também poupam o tempo dedicado a compras –, a opção pelo usado no lugar do novo, e por aí afora, o que também traz a satisfação de fazer bons negócios.

Em síntese, todas essas lições lembram outra: usar bem o tempo e não jogar dinheiro fora, seja qual for o ralo. E mais uma: é preciso refletir bem sobre as decisões financeiras, seguindo o conselho dos psicólogos, que recomendam não tomá-las rapidamente por instinto ou por hábitos arraigados.     
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Roberto Macedo, CFP® (Certified Financial Planner), é economista formado pela USP com Mestrado e Doutorado na Universidade Harvard (EUA).  Foi Secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Fazenda e Planejamento, funcionário do Banco Central e do Banco do Brasil. E-mail: imprensa@bb.com.br. Este texto reflete a opinião do autor e não necessariamente a do BB; tem caráter apenas informativo, e não deve ser tomado como recomendação de subscrição, tomada de créditos, compra ou venda de ativos, decisões estas de exclusiva responsabilidade do investidor.  


Finanças sociais: o que é isto? - 10.03.2014
Tomei conhecimento do termo finanças sociais na semana passada, por meio da internet, que muito utilizo para pesquisas. Aliás, é impressionante a imensa quantidade de conhecimentos que oferece a um custo muito baixo. Mas, para maior acesso a ela é preciso saber inglês, a língua “internetmente” mais utilizada. E não só para ler, pois nos sites de busca é preciso se expressar nessa língua e de diferentes formas para ter bons resultados. De novo recomendo o investimento nesse aprendizado. Foi um dos que mais me proporcionou ganhos intelectuais e profissionais.

O termo apareceu nessa língua, com o nome de social finance. Em português, finança é mais usado no plural. E o artigo em que achei o termo, de Jennifer Cooper,  falava de carreiras profissionais nessa área.(*) Vou me referir a elas no final, e antes  abordarei o significado do termo e experiências de finanças sociais, inclusive no Brasil.

Finanças sociais: o que é isto?
Trata-se do uso de finanças para alcançar objetivos sociais. Segundo a citada autora, por muito tempo apenas governos e instituições sem fins lucrativos focavam nessa atividade. Hoje, nos EUA, seu país, as finanças sociais “se tornaram uma especialização na área de finanças e também empresas focam nela com objetivo de lucro”.  

Como exemplo dessa combinação de lucro e objetivo social, tome-se o caso de um banco que abriu uma agência, posto de serviço ou apenas de caixas eletrônicos numa comunidade pobre.  Ele pode tirar lucro disso, mas está também gerando um impacto social ao ampliar o acesso por parte dessa comunidade ao sistema financeiro, o que permite aprimorar a gestão financeira das atividades econômicas dentro dela e no seu relacionamento com outras. Quando a ampliação do crédito também ocorre, o impacto econômico e social pode ser maior.  E há instituições financeiras que usam iniciativas desse tipo para aprimorar a imagem com que são vistas pela sociedade em geral.

Experiências no Brasil e a influência de Muhammad Yunus
Como observador da economia brasileira, creio que vem crescendo a importância das finanças sociais no país, começando pelas instituições financeiras oficiais, como também ocorreu no caso dos EUA. Por exemplo, o  Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), ganhou esse S bem depois de ser criado.

Há também o Banco Postal, hoje uma parceria dos Correios com o BB. Suas atividades estão descritas no site www.correios.com.br/bancopostal, no qual é dito que “Tem como objetivo levar serviços de correspondente à população desprovida de atendimento bancário e proporcionar acesso ao Sistema Financeiro”.  Na linguagem das finanças esse acesso é também conhecido como “financeirização” dos segmentos populacionais que alcança.  Sei que no Estado de São Paulo, onde vivo,  também existe, como autarquia estadual, o Banco do Povo Paulista, e eles também estão em outros estados e em alguns municípios.

Conhecidos genericamente como bancos do povo, instituições como essas tiveram forte inspiração de Muhammad Yunus, um cidadão de Bangladesh, país muito pobre.  Nele, em 1983, Yunus criou Banco Grameen para prover empréstimos às comunidades rurais mais pobres. Tais empréstimos mostraram que ser possível despertar a iniciativa pessoal e empresarial para que pessoas em condições de pobreza a deixem para sempre. A ideia é simples: “emprestar dinheiro para os pobres seguindo regras de conveniência deles, ensinar-lhes umas poucas noções básicas de finanças, e com isto eles ajudarão a si mesmos.” A idéia começou em 1976 quando ele emprestou do seu próprio bolso uma pequena importância a 42 pessoas de um vilarejo.

Em 2006, Yunus ganhou o prêmio Nobel da Paz pelo seu trabalho. Segundo dados, presumivelmente de 2010, até então o Grameen já havia emprestado US$ 6 bilhões a sete milhões de pobres nas áreas rurais de Bangladesh. Mais de 250 instituições em cerca de 100 países operavam programas de microcrédito baseados na metodologia do Banco Grameen. Estas informações sobre Yunus foram obtidas no site www.bankertothepoor.com, que entre outros aspectos apresenta seu livro de mesmo nome do site, “Banqueiro para os Pobres” em português.

Iniciativas em finanças sociais, contudo, não se resumem a bancos do povo. Sei de outras no Brasil, como as cooperativas de crédito, ainda que estas sejam mais voltadas para pessoas de maior poder aquisitivo, pois seus fundos vêm dos próprios cooperados.  Em comunidades pobres, há também organizações que chegam ao ponto de criar seu próprio dinheiro para que seus associados se ajudem uns aos outros mediante aquisição de bens e serviços dentro da própria comunidade onde esse dinheiro circula. Eventualmente voltarei ao assunto com mais informações.

Carreiras profissionais em finanças sociais
Como muitas outras, esta é uma área onde atuam profissionais de diferentes especializações, tendo como foco principal o financeiro.  O próprio Yunus é um exemplo disto. Era professor de Economia antes de se envolver no microcrédito.

Voltando ao artigo de Jennifer Cooper, ela fala de investidores comunitários, micro-financistas, executivos de instituições sem fins lucrativos, inclusive fundações, e empreendedores sociais. E, também, de atrativos dessas carreiras: a criatividade envolvida na solução dos problemas de cada cliente, o trabalho “mão-na-massa”, e ver dinheiro usado para promover mudanças sociais. Conclui com dicas para pessoas que pensam numa carreira  voltada para as finanças sociais.

Minha conclusão é que seja para trabalhar na área, se beneficiar dela ou conhecê-la, é interessante saber que esse tipo de finanças existe.
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Roberto Macedo, CFP® (Certified Financial Planner), é economista formado pela USP com Mestrado e Doutorado na Universidade Harvard (EUA).  Foi Secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Fazenda e Planejamento, funcionário do Banco Central e do Banco do Brasil. E-mail: imprensa@bb.com.br. Este texto reflete a opinião do autor e não necessariamente a do BB; tem caráter apenas informativo, e não deve ser tomado como recomendação de subscrição, tomada de créditos, compra ou venda de ativos, decisões estas de exclusiva responsabilidade do investidor.  
(*)www.investopedia.com/articles/financialcareers/07/social_finance.asp?utm_source=term-of-the-day&utm_medium=Email&utm_campaign=TOD-2/26/2014.


Brasileiros estão aprendendo a poupar - 05.03.2014


É comum dizer que o brasileiro é imprevidente, não se preocupa com o futuro,  poupa pouco, e assim por diante.  Isso contrasta com notícias de que os depósitos na caderneta de poupança vêm crescendo muito, os fundos de previdência estão captando mais, os planos de capitalização vão de vento em poupa e o setor de seguros, que também é de poupança, vem se ampliando. Contrasta também com o crescimento do financiamento habitacional, que combina a poupança financeira com a aquisição de um imóvel que, se novo, se soma como investimento ao estoque de capital do país.

Mas, é preciso poupar mais, pois a proporção da renda gerada pelo PIB brasileiro que vai para a poupança ainda é muito baixa relativamente à necessária para depender menos dos recursos de investidores externos. E para permitir mais investimentos de tal forma que as taxas anuais de crescimento do PIB fossem bem maiores que as atuais. Aliás, na semana passada o IBGE divulgou a taxa de 2013, que foi de apenas 2,3%,  quando o ideal seria uma que alcançasse valor próximo de 5% ao ano.

Vamos examinar números ligados ao assunto, os fatores que determinam a poupança financeira, os muitos instrumentos para poupar e ressaltar que é preciso disseminar entre os cidadãos brasileiros a cultura da poupança, pois junto com seu investimento ela é o caminho para a prosperidade pessoal, familiar e nacional.

Poupança ainda é fraca

Em 2013, a taxa de poupança foi de apenas 13,9% no Brasil enquanto que a de investimentos ficou em 18,4%, ambas relativamente ao PIB, também conforme anunciadas pelo IBGE na semana passada.   São taxas muito baixas se comparadas com aquelas que a experiência histórica internacional demonstra serem capazes de fortalecer uma economia para que alcance taxas de crescimento satisfatórias e mediante maior uso de recursos próprios.

Por exemplo, a China, que se destaca pela sua alta taxa de crescimento do PIB, hoje perto de 8% ao ano, chegou a apresentar taxas de investimento próximas de 40% do PIB na década passada, quando este crescia acima de 10% ao ano.  O Brasil não tem condições de alcançar taxas como essa.  Em geral, economistas brasileiros argumentam que deveria buscar uma taxa de investimento próxima de 25% do PIB, que já significaria um crescimento considerável. A taxa de poupança é menos discutida, mas no meu entendimento também deveria ficar próxima de 25% do PIB.

Os referidos dados do IBGE não separam a taxa de poupança por grupos de poupadores, como as famílias, o governo, as empresas e outras instituições. Mas, sabe-se que o governo tem “poupança negativa”, pois suas contas são deficitárias e aumentam sua dívida. Ou seja, não basta que os brasileiros passem a poupar mais. É preciso que sua poupança seja usada para investimentos que façam crescer a capacidade produtiva do país. Por exemplo, quando as pessoas colocam dinheiro na caderneta de poupança a maior parte dele vai para financiar aquisição de imóveis e, como já dito, se forem novos, ocorre um investimento adicional. Mas, o dinheiro colocado em fundos de investimentos lastreados em papéis da dívida pública federal está em parte financiando o déficit do governo que por sua vez investe muito pouco relativamente ao que arrecada e consome.

Do que depende a poupança?

Obviamente, depende da renda, pois é desta que se retira a parte poupada. Em geral, quanto maior a renda, maior a poupança. Mas, esta tende a só se manifestar a partir de um nível de renda que cubra as necessidades básicas de uma pessoa ou família. Uma dificuldade no Brasil é que muitas não têm esse nível de renda. Há até quem defina como pobre a pessoa que não poupa nada, já que não tem como fazê-lo.

Outro fator é a cultura da poupança. No sentido aqui adotado, a cultura é algo impregnado na cabeça das pessoas, e que as levam a determinados padrões de comportamento.  O povo japonês tem uma enaltecida cultura da poupança que em parte vem do fato de que seu país tem uma base territorial pequena para uma população relativamente grande.  No passado, quando sua sobrevivência era muito dependente do desempenho do setor agrícola e pesqueiro do próprio país, os japoneses conviveram por séculos com a escassez de espaço e de alimentos, além de guerras e terremotos, o que teria influenciado seu comportamento preventivamente poupador.  Já os europeus, que por séculos passaram por guerras, invasões e conflitos de todo o tipo, são também conhecidos por bons hábitos de poupança, como na Alemanha.

Outro aspecto é a disponibilidade de instrumentos financeiros para poupar, bem como a facilidade de seu uso. Aqui no Brasil, não se pode queixar quanto a isto, pois há uma profusão deles, como caderneta de poupança, fundos de investimentos financeiros, inclusive cambiais, CDBs, planos de previdência, Letras de Crédito Imobiliário (LCIs), Letras de Crédito do Agronegócio (LCAs), a Bolsa  e outros.

Como adquirir a cultura da poupança?

Aí entra a educação, inclusive no âmbito familiar. É possível estimular a poupança mostrando as suas vantagens, tanto individual como coletivamente. Em particular, ao tornar as pessoas menos pobres ou mais ricas, e pelo que traz de bem estar.  Assim, há quem defenda que o brasileiro seja mais educado para a poupança, para que cresça, e tenhamos um país melhor. Na segunda metade da década passada, o Brasil passou por um período em que o consumo foi muito incentivado, em particular via crédito. Hoje, entretanto, o governo dá indicações de que a poupança e o investimento devem ser estimulados, como no caso do programa Minha Casa, Minha Vida. Outro sinal é o seu empenho em difundir a educação financeira, inclusive no sistema de ensino.

Como nos casos europeu e japonês, algumas peculiaridades do país têm incentivado a poupança. Assim, o brasileiro busca mais seguros para sua crescente frota de veículos ao saber as dificuldades de pessoas que passaram por sinistros sem uma apólice. Também busca o seguro-saúde, depois de conhecer ou experimentar por si mesmo os precários serviços públicos dessa área.  Adquire planos de previdência privada, procurando ampliar a que virá  da pública. Vale lembrar que os diversos tipos de seguro e a previdência privada constituem mecanismos de poupança, pois as seguradoras e as instituições que mantêm esses planos acumulam reservas para fazer face aos seus compromissos com os beneficiários desses planos.

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Roberto Macedo, CFP® (Certified Financial Planner), é economista formado pela USP com Mestrado e Doutorado na Universidade Harvard (EUA).  Foi Secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Fazenda e Planejamento, funcionário do Banco Central e do Banco do Brasil. E-mail: imprensa@bb.com.br. Este texto reflete a opinião do autor e não necessariamente a do BB; tem caráter apenas informativo, e não deve ser tomado como recomendação de subscrição, tomada de créditos, compra ou venda de ativos, decisões estas de exclusiva responsabilidade do investidor.    
(*) Munnell, Alicia H. e Steven A. Saas. “The government’s redesigned reverse mortgage program.” Boston College, Centro de Pesquisa sobre Aposentadoria. Artigo para discussão nº 14-1, Janeiro de 2014.

Hipoteca invertida: interessante, mas ainda não há no Brasil - 24.02.2014
Num artigo sobre esse tipo de hipoteca nos EUA aprendi mais sobre o assunto, do qual já conhecia alguns aspectos.(*) Lá a hipoteca invertida pode ser acessada por pessoa com mais de 62 anos que disponha de um imóvel residencial quitado. Ela poderá hipotecá-lo numa instituição financeira, ou seja, continua sendo uma hipoteca, mas esta se diz invertida porque além de não pagar prestações mensais a pessoa poderá recebê-las dessa instituição, ampliando assim sua renda.  E pode optar também por uma soma em dinheiro ou uma linha de crédito, como numa hipoteca usual.

Vou abordar aspectos da hipoteca invertida, começando pela sua natureza,  ligada aos mecanismos de sustentação da renda que idosos dispõem naquele país. Apontarei também aspectos peculiares dos imóveis nos EUA, como o alto custo do IPTU local. Em seguida abordarei problemas que as hipotecas invertidas apresentaram na esteira da crise do mercado imobiliário, que eclodiu nos EUA em 2007, bem como  soluções concebidas pelo governo daquele país. Concluirei com observações sobre a eventual adoção desse tipo de hipoteca no Brasil.

Fontes de renda e despesas importantes dos idosos nos EUA
Como no Brasil eles podem recorrer à aposentadoria ou pensão do INSS local, o Social Security System, mas também como aqui o benefício mensal recebido muitas vezes é inferior ao valor do último rendimento na ativa. Também como no Brasil há planos de previdência privada fechados e abertos. E novamente como aqui os planos de benefícios definidos vêm sendo substituídos por outros de contribuição definida, com o que os benefícios podem oscilar de valor quando, por exemplo, são sustentados por investimentos no mercado de ações. Muitos idosos, contudo, não contribuíram para esses planos e por esta e outras razões não acumularam recursos suficientes para atender às suas necessidades nessa fase da vida.  Assim, buscam-se outras fontes de recursos, e a hipoteca invertida é uma delas. 

Além de disponibilizar dinheiro mensalmente, outra vantagem é que sua quitação só ocorre se o devedor decidir vender o imóvel ou vier a falecer.  O governo oferece um seguro tanto para quem hipoteca seu imóvel – caso deixe de receber os pagamentos devidos pelo financiador –, como para este se na quitação o valor em aberto do empréstimo se revelar maior que o do imóvel.
 Do lado das despesas há fatores também agravantes da situação dos idosos. Lá o custo do IPTU local é bem mais alto relativamente ao valor do imóvel do que no Brasil. Muitos serviços públicos que no Brasil são oferecidos pelos estados e pela União lá cabem exclusivamente aos municípios, como escolas públicas até o nível médio e  segurança pública.  Há também um Judiciário municipal. Ademais, a participação dos idosos na população vem aumentando pela maior longevidade deles, o que muitas vezes leva a um alto e crescente custo das despesas médicas nessa fase da vida.

A crise que eclodiu em 2007 e os ajustes no programa de hipotecas invertidas
O apoio que recebem do governo nasceu em 1989, mas demorou a ganhar interesse. Creio que em parte pelo desconhecimento dele, pois as hipotecas invertidas não faziam parte da cultura financeira dos americanos. Mas, na década passada o programa se expandiu muito com o crescimento dos valores dos imóveis antes da crise, pois as pessoas viram neles a oportunidade de levantar mais dinheiro.

A crise que sobreveio em 2007  levou a uma forte queda do preço dos imóveis. Mesmo com ela, entretanto, o interesse pelas hipotecas invertidas cresceu em razão  das próprias dificuldades da crise, como o aumento do desemprego e a queda do valor dos benefícios de planos de aposentadoria, o que levou à busca do programa para contornar dificuldades desse tipo. 

Mas, a crise acabou por trazer perdas tanto a devedores como credores. No primeiro caso, entre outras razões por se tornarem inadimplentes dada a dificuldade de pagar o IPTU e o seguro residencial que também integra suas obrigações.  No segundo caso, os credores passaram a ter custos adicionais para recuperar seu dinheiro e/ou lidar com penhoras, diminuindo a rentabilidade do seu negócio.

Com isto, o governo reformou o programa. Entre outros aspectos colocou um limite de valor menor para os financiamentos e passou a exigir comprovação de margem de renda disponível  para o IPTU e o seguro do imóvel, além de ficha limpa nos cadastros de crédito. Os financiamentos voltaram a crescer, tanto por essas razões como porque os preços dos imóveis nos EUA estão em fase de recuperação.

Hipoteca invertida também no Brasil?
Ao responder vou considerar apenas o caso em que a pessoa passa a receber pagamentos mensais da instituição financeira que fez o financiamento.  Parece-me o tipo mais interessante, pois o recebimento de uma única soma em dinheiro ou de uma linha de crédito traria o risco de um imediato e mau uso desses recursos, e ignoro se há restrições quanto a isto nos EUA.

A ideia merece atenção no Brasil, pois vários dos problemas que os idosos enfrentam nos EUA também se repetem aqui. Uma exceção seria o valor relativamente mais baixo do IPTU no Brasil. Ademais, sei que municípios como São Paulo também oferecem descontos para aposentados carentes de recursos.

Mas, também aqui há uma questão cultural a superar. Além de não haver familiaridade com hipotecas invertidas, haveria que enfrentar a reação de herdeiros. A expectativa dos familiares dos idosos e a de herdar o patrimônio deles após sua morte, patrimônio este que,  quando existe, muitas vezes se resume à casa própria.

Em algumas das muitas reuniões de condomínios de que já participei em São Paulo, e numa diversidade de condições provocadas por várias mudanças de residência, às vezes surgiam casos de apartamentos pertencentes a idosos e com seus pagamentos atrasados, dado que eles tinham rendimentos insuficientes ou muito restritos para cobrir suas despesas usuais. Não que fossem pobres no sentido patrimonial, pois às vezes eram apartamentos grandes. Assim, havia a opção de se mudarem para apartamentos menores, tanto para pagar a dívida com o prédio onde viviam como para reduzir o valor de suas taxas de condomínio. Mas, percebia-se a oposição tanto do proprietário, que queria deixar o imóvel como herança, como dos futuros herdeiros diante da expectativa de recebê-la no futuro.

Como não há a hipoteca revertida, ela nunca foi discutida como alternativa. Talvez se os idosos e seus futuros herdeiros soubessem dela sua atitude seria outra. Caberia, assim, uma pesquisa de opinião sobre o assunto, ou um projeto piloto em que fosse oferecida inicialmente em caráter limitado para testar a adesão a ela.

De minha parte, gostaria de ter essa alternativa para a eventualidade de que o recurso a ela se tornasse necessário.
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Roberto Macedo, CFP® (Certified Financial Planner), é economista formado pela USP com Mestrado e Doutorado na Universidade Harvard (EUA).  Foi Secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Fazenda e Planejamento, funcionário do Banco Central e do Banco do Brasil. E-mail: imprensa@bb.com.br. Este texto reflete a opinião do autor e não necessariamente a do BB; tem caráter apenas informativo, e não deve ser tomado como recomendação de subscrição, tomada de créditos, compra ou venda de ativos, decisões estas de exclusiva responsabilidade do investidor.    
(*) Munnell, Alicia H. e Steven A. Saas. “The government’s redesigned reverse mortgage program.” Boston College, Centro de Pesquisa sobre Aposentadoria. Artigo para discussão nº 14-1, Janeiro de 2014.

É bom saber o que é um bem de família - 17.02.2014
Explicarei inicialmente o que é um bem de família referindo-me à legislação pertinente que, já adiantando, na sua essência diz que é um imóvel próprio e usado regularmente pela família.  Depois abordarei outro bem de família, o nome pessoal, cuja preservação é tão ou mais indispensável que a desse imóvel.  Concluirei ressaltando a importância de evitar a inadimplência que comprometem ambos e o privilégio que a lei confere à poupança acumulada na forma de uma casa própria.

O que é bem de família?
A definição está na Lei Nº 8.009, de 29/3/90. Não serão abordados todos os seus detalhes. Aliás, espero que o leitor nunca tenha que consultá-la, nem contratar um advogado para defendê-lo numa ação de penhora de seus bens. Mas, se quiser examiná-la, poderá ser encontrada no sítio eletrônico do Palácio do Planalto que é excelente para consultar a legislação federal: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Leis/L8009.htm.

O nome bem de família só aparece no preâmbulo dessa lei que “Dispõe sobre a impenhorabilidade do bem de família.”  Seu Artigo 1º, define-o: “(...) O imóvel residencial próprio do casal, ou da entidade familiar, é impenhorável e não responderá por qualquer tipo de dívida civil, comercial, fiscal, previdenciária ou de outra natureza, contraída pelos cônjuges ou pelos pais ou filhos que sejam seus proprietários e nele residam, salvo nas hipóteses previstas nesta lei.”  Ou seja, o bem de família é esse imóvel.

O parágrafo único do mesmo artigo adiciona que: “A impenhorabilidade compreende o imóvel sobre o qual se assentam a construção, as plantações, as benfeitorias de qualquer natureza e todos os equipamentos, inclusive os de uso profissional, ou móveis que guarnecem a casa, desde que quitados.”

E o Artigo 5º esclarece:  “ Para os efeitos de impenhorabilidade (...), considera-se residência um único imóvel utilizado pelo casal ou pela entidade familiar para moradia permanente.” E no seu parágrafo único dispõe que: “Na hipótese de o casal, ou entidade familiar, ser possuidor de vários imóveis utilizados como residência, a impenhorabilidade recairá sobre o de menor valor, salvo se outro tiver sido registrado, para esse fim, no Registro de Imóveis e na forma do art. 70 do Código Civil.”

Passando a importantes casos que essa lei não cobre, seu Artigo 2º exclui da “(...) impenhorabilidade os veículos de transporte, obras de arte e adornos suntuosos.” Noutra restrição, há o Artigo 4º:  “Não se beneficiará do disposto nesta lei aquele que, sabendo-se insolvente, adquire de má-fé imóvel mais valioso para transferir a residência familiar, desfazendo-se ou não da moradia antiga.” E o Artigo 3º acrescenta outras exceções importantes.

Começa dizendo que a “ (...) impenhorabilidade é oponível em qualquer processo de execução civil, fiscal, previdenciária, trabalhista ou de outra natureza (...)”, mas seguem-se várias exceções: dívidas com trabalhadores da própria residência e as respectivas contribuições previdenciárias;  dívida decorrente do financiamento destinado à construção ou à aquisição do imóvel, no limite dos créditos e acréscimos constituídos em função do respectivo contrato; dívidas de pensão alimentícia; dívidas de impostos, predial ou territorial, taxas e contribuições devidas em função do imóvel familiar; execução de hipoteca sobre imóvel oferecido como garantia real pelo casal ou pela entidade familiar; por ter sido adquirido com produto de crime ou para execução de sentença penal condenatória a ressarcimento, indenização ou perdimento de bens; obrigação decorrente de fiança concedida em contrato de locação.

Percebe-se que essa lei tem o objetivo social de proteger a família preservando de penhora um único imóvel de sua propriedade, mas estabelece restrições justificáveis pelo bom senso, e porque os credores das dívidas citadas têm direitos que se sobrepõem aos do detentor de um alegado bem de família. Apesar de seus aspectos positivos, a lei tem sido criticada, entre outros aspectos, por não definir um limite de valor para a proteção que confere, e que é a mesma, por exemplo, para uma residência de pequeno valor ou outra que valha R$1 milhão ou mais.

Outro bem de família: o nome pessoal
Mesmo sem chegar a casos de penhora, inclusive porque muitas famílias brasileiras não dispõem sequer de um bem conforme definido pela lei citada, é indispensável preservar outro bem de valor inestimável,  o nome pessoal,  evitando protestos, inscrições em cadastros negativos e outras formas de “sujar a ficha” no sentido financeiro.  Situações como essas depõem contra as pessoas no âmbito social em que vivem Sei de casos de despejos e de veículos e aparelhos eletrodomésticos que são buscados no local onde residem, sob o olhar curioso de vizinhos. O nome sujo também impede o acesso a futuras operações de crédito, as quais são importantes na administração das finanças pessoais, tanto para consumo e principalmente para constituição de patrimônio.    

Portanto, é indispensável evitar a inadimplência
Quando seguida da penhora de bens, é o maior desastre das finanças pessoais.  Mas, é preciso barrá-la antes do seu primeiro estágio, a inadimplência.   Há dívidas que muita gente rola e enrola, como as de contas de serviços públicos, prestações diversas e saldos devedores das chamadas contas especiais. Nos serviços públicos, a encrenca limita-se à suspensão dos mesmos, e pode ocorrer também a inscrição do nome do devedor nos cadastros negativos, como o da Serasa e dos serviços de proteção ao crédito.
Nos casos mais graves, o impasse chega aos cartórios de protesto e aos fóruns. Na sequência, os bens ficam sujeitos à penhora para pagamento das dívidas. A má notícia vem usualmente com a incômoda visita de um Oficial de Justiça. Aí, a última trincheira do devedor será seu bem de família, se não enquadrado nos vários casos de exceção à impenhorabilidade já citados. Mas, mesmo se enquadrado não há nem cabe uma lei capaz de preservar o nome pessoal como um bem de família. Cabe à pessoa cuidar de seu nome.

E mais...
Essa discussão do bem de família serve também para reiterar uma das nossas recomendações usuais para um bom planejamento financeiro, ou seja, a de que casa própria deve ser objetivo prioritário da poupança.    A proteção como bem de família confere a ela status privilegiado, pois a protege de riscos que vêm de dívidas próprias ou assumidas, ao contrário de outros investimentos que a pessoa tenha acumulado.
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Roberto Macedo, CFP® (Certified Financial Planner), é economista formado pela USP com Mestrado e Doutorado na Universidade Harvard (EUA).  Foi Secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Fazenda e Planejamento, funcionário do Banco Central e do Banco do Brasil. E-mail: imprensa@bb.com.br. Este texto reflete a opinião do autor e não necessariamente a do BB; tem caráter apenas informativo, e não deve ser tomado como recomendação de subscrição, tomada de créditos, compra ou venda de ativos, decisões estas de exclusiva responsabilidade do investidor.

A natureza da volatilidade recente afetando os países emergentes - 10.02.2014
Ela se distingue por um viés negativo ou de saída que alcança alguns desses países, pois passaram a ser vistos como sujeitos a maiores riscos de perdas. Esse viés atua contra ativos de maior risco, como o real e outras moedas e ações de empresas locais. Além de desvalorização de moedas e ações, há também o aumento dos juros pagos por operações de crédito a seus governos, empresas e instituições financeiras.

As causas externas
A principal foi que o banco central dos Estados Unidos, conhecido como Fed, passou a reduzir o valor dos estímulos que concede à economia desse país, na forma de aquisições mensais de títulos da dívida do seu governo federal, que hoje alcançam US$70 bilhões por mês. Fazendo isto o Fed coloca mais dinheiro na economia, aumentando a sua liquidez e pressionando os juros para baixo, assim estimulando atividades produtivas e investimentos em ativos de maior risco, como aqueles em países emergentes. Na penúltima frase grifei reduzir, pois tal estímulo não vem sendo eliminado, mas reduzido de valor.

Mesmo assim, houve a reação desses mercados. Eles avaliam que os países emergentes serão afetados pela progressiva redução dos citados estímulos do Fed, pois estes levarão a maiores juros nos EUA, provocando um retorno de recursos aplicados em ativos desses emergentes.  Outra razão é que a China está reduzindo suas outrora altíssimas taxas de crescimento do PIB, o que prejudica países emergentes que se especializaram em abastecer esse país com commodities. Mas, novamente vejo um exagero, e voltei a grifar o verbo reduzir.  Embora em queda, o crescimento do  PIB Chinês  continuará alto, mais de 5% ao ano, com seu enorme mercado crescendo numa magnitude considerável.

Na sua reação, os mercados financeiros miraram, em particular, um grupo de países que passou a ser chamado de “Os cinco frágeis”: Brasil, Indonésia, África do Sul, Índia e Turquia. Argentina nem entra nesse grupo, pois sua situação é fragilíssima. Ao olhar esses países, os mercados também concentram sua atenção em suas condições internas, examinadas a seguir, com foco no nosso país.

A economia brasileira e problemas que enfrenta
Ela passa por um período de transição com dificuldades de ajuste. Resumindo o que precisa ser ajustado, ela vem de um período onde estimulou o consumo de bens e serviços, como via crédito. Outro estímulo veio do aumento de renda ensejado por crescimento bem maior que o atual, tendo como principal força a ampliação da renda interna pelo forte aumento das exportações de commodities e de seus preços, em particular para a China. Houve também forte aumento de gastos sociais, como os do INSS, do Bolsa-Família, seguro-desemprego e abono-salarial. Nesse contexto, contudo, os investimentos voltados para expansão de sua capacidade produtiva, inclusive de sua infraestrutura e da produtividade, tiveram expansão insatisfatória. Na esteira desse modelo pró-consumo, houve a ampliação dos déficits das contas externas e das contas públicas, junto com o aumento da inflação.

Ora, com isto o chamado risco-país também aumenta, pois seu status de crédito externo fica comprometido, e há a expectativa de que outros desdobramentos virão, como em parte já vieram, na forma maior desvalorização do real, menor expansão dos gastos públicos, e aumento da Selic, este para conter a inflação, mas também com o efeito de atrair mais investimentos em renda fixa no país.  Com tudo isto, espera-se que o país passará por um período de menores taxas de crescimento, como já vem acontecendo, reduzindo assim o interesse dos investidores em ativos de maior risco, como ações e atividade empresarial.

Implicações para o investidor brasileiro
Esse quadro está longe de apontar para um desastre como o da Argentina, mas implica numa atitude defensiva e mais voltada para a renda fixa, em particular para preservar o poder aquisitivo dos investimentos financeiros, defendendo-os, assim, da inflação. Essa situação também não recomenda o mercado acionário, ainda que seu período de baixa seja atrativo para investidores dispostos e capazes de enfrentar o maior risco desse mercado. Para investidores de maior poder aquisitivo e também em condições de dominar a dimensão internacional dos investimentos, há também as opções de investimentos em dólar, como em fundos cambiais, ou no mercado acionário de países como os EUA, onde a perspectiva é de uma recuperação, ainda que lenta, de sua economia.
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Roberto Macedo, CFP® (Certified Financial Planner), é economista formado pela USP com Mestrado e Doutorado na Universidade Harvard (EUA).  Foi Secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Fazenda e Planejamento, funcionário do Banco Central e do Banco do Brasil. E-mail: imprensa@bb.com.br. Este texto reflete a opinião do autor e não necessariamente a do BB; tem caráter apenas informativo, e não deve ser tomado como recomendação de subscrição, tomada de créditos, compra ou venda de ativos, decisões estas de exclusiva responsabilidade do investidor.    

As aplicações financeiras diante do novo aumento da Selic - 03.02.2014
Na sua primeira reunião do ano, concluída no dia 16 deste mês, o Conselho de Política Monetária (Copom), do Banco Central (BC) elevou a taxa básica de juros, ou Selic, de 10% para 10,5% ao ano. A decisão teve a unanimidade dos membros do Copom e não surpreendeu o mercado financeiro e seus analistas, embora alguns deles aguardassem um aumento menor, de 0,25 ponto percentual (p.p.), ou seja, de metade do que se concretizou.

Com a decisão, de novo ampliou-se a atratividade potencial, relativamente à poupança,  de papéis e fundos de renda fixa referenciados direta ou indiretamente a essa taxa ou à do Certificado de Depósito Interfinanceiro (CDI), a qual é muito próxima da Selic. Neste artigo, de novo tratarei dessa atratividade, desta vez enfatizando um aspecto usualmente negligenciado na análise da remuneração da poupança, o valor da Taxa Referencial ou TR, que mensalmente se acrescenta à taxa de juros de 0,5% ao mês.

Começarei pela natureza da política monetária em andamento, nesta fase marcada por um ciclo de aumento da Selic.

A política monetária no seu ciclo atual
Essa política segue o modelo de metas de inflação, conforme medida pela variação do IPCA do IBGE.  A meta atual é de 4,5% ao ano, com uma tolerância de 2% para cima ou para baixo, o que leva a um intervalo de tolerância entre 2,5% e 6,5% ao ano. Com isto, a taxa de 4,5% é usualmente chamada de centro da meta, embora a rigor o valor da meta seja só o desta última taxa.

Assim, quando a taxa acumulada em 12 meses de variação do IPCA começa a se distanciar dela, e principalmente quando se aproxima de 6,5% ou ultrapassa esse valor, a política monetária fica vulnerável a críticas e o próprio BC passa a uma situação desconfortável.

Para entender o atual ciclo de política monetária sem voltar muito longe no passado, o ano de 2011 terminou com uma inflação anual de 6,5031% conforme medida pelo IPCA, a rigor uma taxa acima do limite superior de tolerância. Pior do que isto, em agosto e setembro do mesmo ano, a variação em 12 meses havia alcançado taxas bem acima desse limite, de 7,23% e 7,31% respectivamente.

Nessa época, com esse agravamento da inflação a  política monetária passava por um ciclo de elevação da Selic que a havia ampliado de 8,75% onde estava em 28/4/2010 para 12,5% em 21/7/11.  Confiante nos efeitos dessa política, que tomam alguns meses para se manifestar, o BC passou a reduzir a Selic em 1/9/2011. De fato a inflação em 12 meses passou a  cair até chegar a 4,92% em junho de 2012, e a Selic continuou em queda até alcançar 7,25% em 11/10/12, onde ficou até 18/4/2013, quando se iniciou o atual ciclo de elevação da Selic.

Nessa época, a inflação já havia voltado para taxas em 12 meses superando em média 6,5% ao ano entre março de 2013 e junho do mesmo ano. Depois caiu para valores abaixo de 6% nos quatro últimos meses do ano passado, mas fechou o ano em 5,91% e em aceleração, com o que o BC manteve o ciclo de alta até a reunião de janeiro deste ano que, conforme já mencionado,  elevou a Selic para 10,5% ao ano.

Segundo o último boletim Focus do BC, que traz as expectativas do mercado quanto ao futuro da Selic e de outras variáveis, espera-se que até o fim deste ano ela estará em 11%. Assim, há a expectativa de mais um aumento de 0,50 p.p. ou dois de 0,25 p.p., e de que após isto o ciclo atual de aumentos deverá ser interrompido por conta do período eleitoral, e também porque se espera uma inflação menor em meados do ano,  seguindo o padrão observado em anos anteriores. Como não se fala em queda, as perspectivas continuam boas para a renda fixa, desde que a inflação não suba a ponto de comprometer seus rendimentos.
 
A atratividade de outras aplicações relativamente à poupança
É sabido que essa atratividade depende também, do lado dos seus papéis e fundos, do Imposto de Renda (IR) incidente sobre seus rendimentos e de taxas de administração quando cabíveis. Quando estas e o IR são muito altos, a poupança mantém sua atratividade. Além disto, tudo depende muito de como a taxa de remuneração bruta dos citados papéis e fundos responde a um valor maior da Selic, pois é comum que as instituições financeiras ofereçam uma “porcentagem do DI” – ou seja, da taxa do CDI, que acompanha de perto a Selic –, que não alcança 100% da mesma. Só chega bem perto desse valor ou acima dele no caso de clientes que aplicam importâncias de grande porte, como acima de R$1 milhão ou até mais. 

Contudo, para avançar o exame da atratividade de fundos e de papéis com ganhos direta ou indiretamente atrelados à Selic, relativamente aos da poupança, é preciso ver como estes últimos se alteram, pois a TR também depende da Selic.

O renovado papel da TR
A TR é pequena relativamente à taxa de juros da poupança, e por algum tempo ficou bem próxima de zero chegando até a assumir este valor, como aconteceu nos últimos quatro meses de 2012 e nos primeiros seis meses de 2013. Mas, valores mais recentes da TR ficaram várias vezes acima de 0,10%, o qual corresponde a 20% da taxa de juros de 0,5% ao mês. Somando-se a TR a esta última taxa, isto faz subir a remuneração total da poupança, o que compensa parte da atratividade potencialmente perdida para os referidos fundos e papéis com os sucessivos aumentos da Selic.

A título de exemplo, com a TR assumindo o valor zero, a remuneração da poupança ficava  sempre em 6,17% ao ano, que corresponde à sua taxa mensal de juros de 0,5%. Com a TR a 0,10% no mês, a remuneração total mensal passa a 0,60% e a remuneração em 12 meses alcança 7,44%, o que é um aumento considerável.  Noutro exemplo, para as contas de poupança com contagem de juros no período entre o último dia 15 e o dia 15 do próximo mês, a TR foi de 0,1418, com o que a remuneração total ficou em 0,6418 por mês, equivalente a uma remuneração em 12 meses de 7,98% ou 8% em números redondos.

Passando à comparação, tome-se, por exemplo, um fundo que pague 100% da Selic de 10,5% ao ano. Se sua taxa de administração for 1,0% esse ganho cai para 9,5% ao ano. E se o Imposto de Renda (IR) for de 15%, sua taxa mais baixa, a remuneração líquida seria 8,08% ao ano, e acima da poupança para os exemplos de TR considerados acima.  Mas, se a taxa de administração fosse 1,5%, o ganho antes do IR ficaria em 9% e se o IR fosse de 15% o ganho líquido seria 7,65% ao ano, e assim inferior ao do último exemplo da poupança, ou seja, aquele com TR de 0,1418%, o que confirma a importância que os novos valores da TR vêm assumindo. Esses exemplos também ensinam como chegar às remunerações líquidas para fins de comparação, sempre lembrando que a poupança de pessoas físicas não tem IR nem taxas de administração.
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Roberto Macedo, CFP® (Certified Financial Planner), é economista formado pela USP com Mestrado e Doutorado na Universidade Harvard (EUA).  Foi Secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Fazenda e Planejamento, funcionário do Banco Central e do Banco do Brasil. E-mail: imprensa@bb.com.br. Este texto reflete a opinião do autor e não necessariamente a do BB; tem caráter apenas informativo, e não deve ser tomado como recomendação de subscrição, tomada de créditos, compra ou venda de ativos, decisões estas de responsabilidade exclusiva dos investidores.

O baixo conhecimento financeiro da população brasileira - 27.01.2014
No meu penúltimo artigo neste espaço, nele colocado no último dia 13,  mencionei meu propósito de escrever futuramente sobre uma pesquisa de iniciativa do governo federal sobre o conhecimento financeiro da população brasileira.

Este artigo tem como tema essa pesquisa. Aborda a natureza dela em seus aspectos gerais, mostra a sua estrutura e resume algumas de suas conclusões.

Aspectos gerais da pesquisa
Para entender suas origens, vale lembrar que o governo federal criou a Estratégia Nacional de Educação Financeira (ENEF). Institucionalizada em 2010 por um decreto, e conforme seu próprio nome indica,  ela tem como objetivo principal promover a educação financeira no Brasil. A história da ENEF começou antes, em 2007, com a constituição de um grupo de trabalho para desenvolver a proposta de uma estratégia desse tipo, começando por inventário nacional de ações e de projetos de educação financeira no país,  e de uma pesquisa que mapeasse o grau de conhecimento financeiro da população brasileira.

A pesquisa foi realizada em 2008, mas seus resultados não perderam atualidade. Abordou uma questão de natureza estrutural, ou seja, algo não muda em poucos anos. A pesquisa revelou que esse grau de conhecimento é baixo. Qualquer iniciativa para alterá-lo, como a louvável ENEF, só produzirá resultados a médio e longo prazos. É coisa para décadas, conforme demonstrado pelas dificuldades de aprimorar a educação básica no Brasil, também fundamental para disseminar a educação financeira.   

Realizada por um instituto especializado a pesquisa entrevistou 1.809 pessoas em seis grandes cidades do país (São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre, Salvador, Recife e Brasília), com diferentes perfis de renda e grau de escolaridade. Se alcançasse cidades pequenas e zonas rurais, creio que mostraria uma educação financeira ainda mais baixa.
Os diversos detalhes da pesquisa estão disponíveis no início do relato que integra o link www.vidaedinheiro.gov.br/Legislacao/Arquivo/Plano-Diretor-ENEF-anexos-1.pdf.

Estrutura da pesquisa
O relato sobre a pesquisa abrange 28 páginas de perguntas e respostas, sendo difícil condensá-las no espaço aqui disponível. Por isso mesmo, sugere-se que o leitor interessado também consulte diretamente esse documento disponível na internet.

Primeiramente, esse relato detalha questões ligadas ao dispêndio das famílias. Tais questões incluem o papel das mulheres e dos homens casados na administração do orçamento doméstico, os principais gastos familiares, a inclusão em cadastros negativos de crédito e a organização financeira voltada para listas de supermercados, despesas familiares, comprovantes de compras e declaração do Imposto de Renda. E, também, o “empréstimo de nome” ou de cartão de crédito a outras pessoas, o hábito de poupar, o consumo e suas tentações, o quê se entende por investimentos, a atenção dada ao valor dos juros e das parcelas em compras a prazo, e como são feitos os pagamentos de contas.

Em seguida trata da relação com os bancos abrangendo a imagem que se tem deles, como se escolhe um ou outro e como são utilizados. Prosseguindo, aborda produtos financeiros, passando pelo talão de cheque, cartões de débito, de crédito e de loja, a tomada de crédito, a aquisição de seguros e de planos de previdência privada. Quanto aos investimentos, é analisada a percepção que os entrevistados têm de vários deles, como ações, poupança, fundos e imóveis, e o perfil de quem investe. A conta de poupança e a Bolsa de Valores são objeto de perguntas específicas, e quanto a hábitos de investimento o entrevistado é também perguntado sobre o que faria diante da perspectiva de uma disponibilidade de R$1 mil, R$10 mil ou R$20 mil. Ao final há perguntas voltadas para a preferência entre liquidez e rentabilidade dos investimentos, sobre razões para não investir, a aversão ao risco e as expectativas com relação ao futuro, neste caso apresentando respostas tanto de adultos como de crianças.

Algumas conclusões da pesquisa
Conforme já apontado, a conclusão principal da pesquisa foi que o nível de educação financeira da população brasileira é ainda baixo.

Passando a outras conclusões, destacarei as seguintes: 1) há uma contradição no fato de que 71% das mulheres casadas declararam controlar o orçamento doméstico, enquanto que 67% dos homens casados responderam a mesma coisa; ou seja, há quem ache que controla, mas sem esse poder; 2) é alta a porcentagem de incluídos em cadastros de crédito negativos, a qual é de 44% na classe A, de poder aquisitivo mais alto, e 57% na classe D, de poder aquisitivo mais baixo, o que revela um alto descontrole no endividamento, típico da carência de educação financeira; (3) é disseminado o “empréstimo de nome” ou de cartão para outra pessoa tomar crédito (48% dos entrevistados já emprestaram o nome e 39% o cartão de crédito), novamente uma prática não recomendável pela educação financeira; (4) para os entrevistados, o consumo significa inclusão (sentimento de pertencimento), status (bens são símbolos de posição social) e melhora na autoestima, sensações  que trazem risco às finanças pessoais, pois aumentam a propensão a consumir sem clara necessidade; (5) o termo investimento tem um significado mais voltado para a aquisição de bens (como carro, casa própria e computador), e não para investimentos financeiros; (6) nas compras a prestações, a proporção entre os que dão maior atenção aos juros e os que dão maior importância às parcelas é maior entre os mais ricos do que entre os mais pobres, entre os quais é bastante difundida a preocupação de saber apenas se o valor da parcela “cabe” no orçamento, outra prática não recomendável; (7) também se constatou que entre as principais vantagens da compra parcelada a maior parte dos entrevistados considera como positivo o fato de que nessas compras o total de juros cobrados não está explícito, preferindo assim desconhecer o peso real dos juros, o que de novo claramente configura carência de educação financeira; (8) quanto à pergunta do quê fazer com diferentes somas de dinheiro, a maioria das respostas foi a de que um valor de R$ 1 mil seria colocado na poupança; R$10 mil iriam para abrir um negócio próprio, financiar um imóvel ou comprar mercadorias; e uma soma de R$20 mil seria usada para adquirir ações por 17% dos entrevistados, enquanto 26% ainda prefeririam a conta de poupança; como a referência às ações só aparece quando o valor é mais alto, isto indica que muitos entendem que aplicar na Bolsa é algo só para quem tem muito dinheiro, o que é também uma percepção equivocada em termos de educação financeira, pois também é possível adquirir pequenas quantidades ou investir pouco dinheiro em fundos de ações.
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Roberto Macedo, CFP® (Certified Financial Planner), é economista formado pela USP com Mestrado e Doutorado na Universidade Harvard (EUA).  Foi Secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Fazenda e Planejamento, funcionário do Banco Central e do Banco do Brasil. E-mail: imprensa@bb.com.br. Este texto reflete a opinião do autor e não necessariamente a do BB; tem caráter apenas informativo, e não deve ser tomado como recomendação de subscrição, tomada de créditos, compra ou venda de ativos, decisões estas de exclusiva responsabilidade do investidor.     


Milionários também investem na caderneta de poupança - 20.01.2014

Dados do Banco Central (BC) revelaram que em 2013 havia cerca de 10 mil depositantes com pelo menos 1 milhão de reais depositados na caderneta de poupança.  Este e outros dados sobre o assunto serão analisados neste artigo, que também apontará algumas razões que poderiam explicar essa opção. Elas envolvem características desses poupadores e os atrativos da poupança, que mais uma vez serão relembrados.

Os dados sobre os milionários da poupança
No seu detalhe, os dados do BC revelaram que o número de depositantes com pelo menos R$1 milhão aplicados na poupança chegou a 10.145 em julho de 2013, enquanto que em junho de 2008 esse número alcançava 3.914 poupadores.  No período, portanto, o crescimento foi de 159%, o que revela forte expansão.

Mas, relativamente ao universo dos depositantes da caderneta esse conjunto de milionários é pequeno, pois em número arredondado representava em 2013 apenas 0,01% de um total de 112 milhões de depositantes.  Seus grandes saldos, entretanto, totalizavam o expressivo valor de R$36 bilhões de reais, 50% maior do que o gasto pelo governo federal com o programa Bolsa Família. No ano passado, este último valor esteve perto de R$24 bilhões por ano, distribuído anualmente a “mais de 13 milhões de famílias”, segundo a Caixa Econômica Federal (CEF), que administra o programa.

Para explicar porque esses milionários buscam a poupança usarei a análise econômica, onde a caderneta pode ser vista como um produto financeiro, com sua oferta e sua demanda.  Cabe, assim, examinar fatores que atuam em cada um desses lados.

Do lado da oferta...
A poupança é aplicação tradicional no Brasil. Lembro-me que há uns cinqüenta anos atrás havia nos bancos a chamada conta corrente popular, que pagava juros de 6% ao ano, capitalizados semestralmente. Essa taxa está na raiz dos juros de 0,5% ao mês da poupança, que capitalizados mensalmente levam a 6,17% ao ano. E veio a novidade da TR ou Taxa Referencial que se soma a essa taxa de juros.

Mesmo com a Selic hoje a 10,5% ao ano, uma remuneração próxima desse valor noutras aplicações talvez não baste para atrair muitos milionários da poupança, pois eles ponderam outros fatores, como a liquidez e o risco de seus investimentos. E além de ambos, a caderneta tem mais atrativos: não há taxa de administração, a tributação do Imposto de Renda (IR) é nula para pessoas físicas e para jurídicas sem fins lucrativos, e tem a garantia do Fundo Garantidor de Crédito (FGC) para saldos de até R$250 mil, por CPF ou CNPJ e por instituição financeira ou conglomerado. E é de fácil aprendizado, movimentada que é como uma conta corrente, exceto cheques, permitindo o uso de cartões para essa finalidade, podendo ser também operada pela internet.

Do lado da demanda
Desse lado, a rigor seria necessário realizar pesquisas junto a esses milionários para entender suas razões, mas uma pesquisa abrangente exigiria a disposição de fazê-la e teria custos elevados. Numa escala bem menor, mas assim mesmo interessante, encontrei no site do jornal O Globo, no dia 5 deste mês, matéria que publicou os referidos dados do BC, e sobre o assunto entrevistou três operadores e um analista do mercado, bem como dois desses milionários. Estes eram investidores que perderam dinheiro no mercado em outras aplicações, e optaram pela segurança da caderneta. São casos de aversão a risco, reforçada por perdas sofridas.  Também implica em aversão a risco a referência à maior presença de pessoas mais velhas entre os milionários da poupança, ainda que os dados não esclareçam em que proporção estão presentes.  A aversão ao risco aumenta com a idade, e foi mencionado que no Brasil muitos idosos ainda têm na memória a experiência de altíssimas taxas de inflação, o que enfatiza a necessidade de proteger-se dela, no que a poupança ainda mantém sua credibilidade.

Os operadores ressaltaram casos de pessoas muito bem sucedidas em outras atividades, também avessas ao risco de perdas, e que preferem ganhar dinheiro onde sabem fazê-lo.  Outras têm também recursos em aplicações de outros tipos, mas vêm a poupança como forma de diversificar investimentos, dentro da velha regra de que não se deve colocar todos os ovos para chocar num mesmo ninho, e encaram a poupança como um ninho seguro. E há também o uso da poupança como mecanismo de transição de um investimento para outro, como o dinheiro obtido com a venda de um imóvel.

Percebe-se, assim, que a aversão ao risco, cobrindo total ou parcialmente os recursos disponíveis, é elemento comum a todos esses casos.  Mas há outras razões. Em primeiro lugar, os dados falam de depositantes em geral, mas entre os milionários deve estar um número considerável de pessoas jurídicas sem fins lucrativos com maiores recursos. Em segundo lugar, há os premiados pelas várias loterias geridas pela Caixa Econômica Federal, que frequentemente produzem novos milionários. Do noticiário sobre eles é comum ver que depositaram o dinheiro na poupança, e sumiram do entorno onde moravam, para escapar do “assédio financeiro” por parte de parentes, amigos e outros que o praticam nessas circunstâncias, além de riscos ligados à segurança pessoal.  Vários desses milionários se revelam pobres, de baixo nível educacional, o que dificultaria até sua educação financeira. Nessas circunstâncias, como, por exemplo,  assimilar tantos conceitos novos e suas abreviações (CDB, fundos, Selic, renda fixa, ações, LCA, LCI, IR etc.), além de cálculos onde despontam porcentagens de todo o tipo?  Quanto ao analista entrevistado, ele apontou várias aplicações alternativas que rendem mais que a poupança.

De fato...
Não seria difícil encontrá-las, particularmente para aplicações milionárias. Mas, como convencer a demanda, ou seja, esses milionários cujo traço comum, como foi visto, é a aversão total ou parcial a riscos, ainda que movida por diferentes razões.

Como pregador da educação financeira, creio que ela poderia ampliar o interesse pelas aplicações mais rentáveis. Mas, veria com compreensão se algum desses milionários me contestasse com a pergunta: “Por que absorver e esquentar minha cabeça com isto?” De certa forma, na sua avaliação ele estaria até recorrendo a um raciocínio tipicamente econômico, o de ponderar custos, como os de tempo e outros ligados ao aprendizado, relativamente aos respectivos benefícios.

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Roberto Macedo, CFP® (Certified Financial Planner), é economista formado pela USP com Mestrado e Doutorado na Universidade Harvard (EUA).  Foi Secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Fazenda e Planejamento, funcionário do Banco Central e do Banco do Brasil. E-mail: imprensa@bb.com.br. Este texto reflete a opinião do autor e não necessariamente a do BB; tem caráter apenas informativo, e não deve ser tomado como recomendação de subscrição, tomada de créditos, compra ou venda de ativos, decisões estas de responsabilidade exclusiva dos investidores.

O Caderno de Educação Financeira, do Banco Central (BC) - 13.01.2014

Clicando aqui e ali na internet, só recentemente tomei conhecimento desse caderno, publicado pelo BC em 2013. Não vi notícias dele na imprensa que diariamente consulto. Merece maior divulgação e este artigo procura contribuir para que isto ocorra.

Desde logo é bom saber que está disponível no site do BC, onde pode ser acessado e baixado gratuitamente, e recomendo que isto seja feito. O link de acesso é:
(www.bcb.gov.br/pre/pef/port/caderno_cidadania_financeira.pdf).

No texto que se segue começarei por referir-me ao contexto em que esse caderno está inserido, resultante que é de uma politica do governo federal voltada para disseminar a educação financeira no país, a Estratégia Nacional de Educação Financeira (ENEF). Em seguida, descreverei a estrutura do caderno e seu conteúdo.

A ENEF
Instituída pelo Decreto nº 7.397, de 22/12/10, tem “(...) a finalidade de promover a educação financeira e previdenciária, e contribuir para o fortalecimento da cidadania, a eficiência e solidez do sistema financeiro nacional e a tomada de decisões conscientes por parte dos consumidores.”

A criação da ENEF foi iniciada com a constituição, em novembro de 2007, de um grupo de trabalho com representantes do BC, da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), da Secretaria de Previdência Complementar (SPC) e da Superintendência de Seguros Privados (SUSEP), para desenvolver a proposta de uma ENEF e “(...) a promoção de um inventário nacional de ações e de projetos de educação financeira no país, além de uma pesquisa que mapeie o grau de conhecimento financeiro da população brasileira.” (*)

Para dar sequência aos trabalhos da ENEF, foi criado o Comitê Nacional de Educação Financeira (CONEF), constituído por órgãos do governo e representantes da sociedade civil.  O BC, a CVM, a SPC e a SUSEP são os órgãos do governo no CONEF. Do lado da sociedade civil, participam a Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (ANBIMA), a BMF&Bovespa, a Confederação Nacional de Seguros Privados (CNseg) e a Federação Brasileira de Bancos (Febraban).  Com esses membros, a governança do CONEF chama a atenção pela importância dos órgãos e entidades que o compõem.

Note-se que ENEF quer promover a educação financeira e previdenciária. Embora esta última seja parte da primeira, essa referência explícita à educação previdenciária e a presença da SPC no CONEF se justificam. Em última análise, a eficácia de uma educação financeira é demonstrada pelo seu sucesso em garantir à pessoa os recursos necessários para uma vida digna nas idades mais avançadas, ou em caso de invalidez ou, ainda, a seus dependentes, em caso de falecimento. Isto não se alcança sem um adequado planejamento previdenciário, que tomado no sentido lato também inclui a questão securitária.

Mais informações sobre a ENEF podem ser obtidas no site: (www.vidaedinheiro.gov.br). Dele foram retiradas as informações acima mencionadas.

O Caderno de Educação Financeira, do BC
Como foi visto o BC está integrado à ENEF desde os seus primórdios. Entre as diretrizes desta última, está dito que atuação se dá em três níveis: informação, formação e orientação. Esse caderno, portanto, está inserido no contexto da ENEF e de sua atuação, e pode-se dizer que ele cobre esses três níveis, o que se depreende do seu conteúdo.

O caderno tem como subtítulo: “Gestão de Finanças Pessoais (Conteúdo Básico).” É básico, mas bastante extenso, com 64 quatro páginas de conteúdo. Disponível pela internet pode ser considerado um “e-book”, ou livro eletrônico.

No seu início o texto compõe-se de um sumário ou índice, de uma introdução e de um quadro sinóptico.  O sumário faz referência aos seis módulos ou capítulos principais do caderno, a saber: 1 – Nossa Relação com o Dinheiro, 2 – Orçamento Pessoal e Familiar, 3 – Uso do Crédito e Administração das Dívidas, 4 – Consumo Planejado e Consciente, 5 – Poupança e Investimento, e 6 – Prevenção e Proteção.

Há também um capítulo de exercícios, seguido de outro com o respectivo gabarito para conferir as respostas. O texto é concluído com uma lista de referências e outra de leituras complementares sugeridas.

Ao referir-se aos módulos, o sumário mostra os subtemas de cada um. Por exemplo, o módulo 1 tem como subtemas os seguintes: 1.1 Relacionamento com o dinheiro, 1.2 Sonhos e projetos, 1.3 Escolhas: equilíbrio entre emoção e razão, 1.4 Troca intertemporal, e 1.5 Necessidade e desejo.  Todos os módulos terminam com uma seção intitulada Ponha em prática, importante para solidificar o aprendizado do que é ensinado pelo livro.

No quadro sinóptico, cada módulo é apresentado pelas competências que procura transmitir.  De novo tomando como exemplo o módulo 1, essas competências são: a) compreender a relação cotidiana das pessoas com seus recursos financeiros e fazer escolhas cada vez mais conscientes; refletir sobre seus sonhos e sobre como transformá-los em realidade por meio de projetos; e avaliar suas necessidades e desejos e como os efeitos de suas escolhas afetam a qualidade de vida no presente e no futuro.

Vale a pena ler, por em prática e fazer os exercícios do caderno
Trata-se de contribuição muito útil para quem busca educar-se financeiramente ou  aprimorar conhecimentos já adquiridos. Seu conteúdo, conforme explicitado pelo subtítulo do caderno, cobre o básico na gestão das finanças pessoais. Como em qualquer texto sobre o assunto, outros aspectos poderiam ser adicionados, mas isto tornaria o caderno mais extenso e talvez mais complexo, assustando potenciais leitores.

Outro aspecto atraente é que, ao contrário de muitos outros textos sobre o assunto,  o caderno não fica no plano das abstrações, pois insiste na necessidade de praticar, inclusive com exercícios. Na educação financeira a prática e a experiência são indispensáveis para consolidar conhecimentos para que possam se agregar à estrutura de raciocínio das pessoas para utilização automática quando diante de decisões a tomar.

Finalmente, baixar o caderno para consulta ou usá-lo “on line” é ação que se recomenda também no próprio âmbito das finanças pessoais. Ele é útil, gratuito na fonte e sua utilização tem custo insignificante. Portanto, também se recomenda em termos da comparação de seus custos com seus benefícios, uma avaliação típica desse âmbito.

(*) Essa pesquisa foi realizada em 2008 e deverá ser objeto de um futuro artigo neste espaço.
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Roberto Macedo, CFP® (Certified Financial Planner), é economista formado pela USP com Mestrado e Doutorado na Universidade Harvard (EUA).  Foi Secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Fazenda e Planejamento, funcionário do Banco Central e do Banco do Brasil. E-mail: imprensa@bb.com.br. Este texto reflete a opinião do autor e não necessariamente a do BB; tem caráter apenas informativo, e não deve ser tomado como recomendação de subscrição, tomada de créditos, compra ou venda de ativos, decisões estas de responsabilidade exclusiva dos investidores.

Balanço de aplicações financeiras em 2013 - 06.01.2014

No ano passado os rendimentos reais das aplicações em renda fixa mais comuns começaram mal no início do ano, mensalmente quase nulos ou mesmo negativos, mas mostraram melhor desempenho ao seu final em razão do aumento da taxa básica de juros, ou Selic, a partir de abril.  Mas, isto não foi suficiente para assegurar ganhos significativos.

Assim, muitos investidores buscaram rendimentos maiores em aplicações isentas do recolhimento do Imposto de Renda (IR) sobre seus rendimentos, com destaque para duas cuja demanda vem aumentando significativamente, as Letras de Crédito Imobiliário (LCIs) e as Letras de Crédito do Agronegócio (LCAs).

Na renda variável, o mercado de ações voltou a decepcionar com resultado negativo, o mesmo acontecendo com o ouro. Só o dólar se saiu claramente melhor, tendo o melhor rendimento entre todas as aplicações.

Os números do balanço
A tabela abaixo mostra os rendimentos nominais de oito aplicações financeiras que respondem pela maior parte do conjunto delas as aplicações. Além dos rendimentos anuais, neste caso nominais e reais, também se incluem, no caso da renda fixa, os de março e novembro para mostrar a superioridade destes últimos como resultado da Selic maior.

No cálculo dos rendimentos reais, a fonte dos dados usou o IPCA do IBGE. Para outras comparações, foram acrescentadas variações da Selic, do CDI e  do IPCA.

Rendimento nominal (*) em março e novembro/2013;  nominal e real no ano -  Em %
Aplicação
Março
Novembro
No ano
No ano



Nominal
Real
Renda Fixa




Fundos Referenciados DI
0,56
0,73
8,30
2,44
Fundos Renda Fixa
0,42
0,39
6,97
1,18
CDBs(**)
0,56
0,68
7,66
1,84
Poupança Antiga (***)
0,500,52
6,37
0,61
Poupança Nova (***)
0,410,52
5,82
0,09
Renda Variável




Ibovespa


-15,89
-20,44
Dólar Comercial Mercado


14,49
8,29
Ouro BM&F-Spot


-16,89
-21,39
Referenciais para Rendimentos e Inflação




Selic
0,55
0,72
8,14
2,29
CDI
0,54
0,71
7,98
2,14
IPCA-IBGE (****)
0,47
0,57
5,72
5,72
Fontes:  jornal  Valor (30/12/11), com dados até 27/12, baseados  em  informações   do   mercado e fontes oficiais: Cetip, Anbima,  Ibovespa e Banco Central (BC), entre outras. Notas: (*) rendimento bruto, sem desconto do IR e taxas de administração, se cabíveis;  (**)  taxas  para  aplicações  no  primeiro  dia do  mês; (***) rendimento mensal de contas com vencimento no primeiro dia útil do mês; (****) estimado pela fonte para o mês de dezembro; Outras informações e o quadro completo mensal e anual, nominal e real, podem ser obtidos da fonte na data indicada no seu caderno D, p. D1.

A tabela deixa claro que os rendimentos das aplicações em renda fixa, em particular das mais diretamente referenciadas à Selic, os fundos DI,  foram em geral maiores novembro do que em março – exceto os fundos de renda fixa propriamente ditos –, refletindo o já citado aumento da Selic.

Mas, investidores nessas aplicações, de porte médio ou pequeno, podem ter chegado a rendimentos reais negativos no ano, por não se credenciarem a rendimentos iguais ou superiores à Selic ou ao CDI, este muito próximo daquela. E pelo efeito do IR e de taxas de administração quando cabíveis.  Isto também explica a busca de papéis isentos  do IR e sem taxas de administração, como as LCIs e LCAs já citadas, bem como da poupança.

Quanto à renda variável, a tabela mostrou que a Bovespa vem desapontando, o ouro revela-se volátil e só o dólar se saiu bem. Muitos analistas que estão a prever um avanço da desvalorização do real em 2014.  Mas o dólar envolve riscos e se for para arriscar a própria Bovespa é um campo para esse exercício neste seu ciclo de baixa.

O caso da poupança
A tabela mostra que seus rendimentos também foram maiores em novembro do que em março, particularmente no caso da poupança nova, que só a partir do aumento da Selic de 8,5% para 9%, em agosto, voltou a ter a remuneração da antiga. Ambas tiveram remuneração acima da inflação, o que foi facilitado pela ausência de taxas de administração nessas contas e de IR quando seus titulares são pessoas físicas ou entidades sem fins lucrativos.

Perspectivas das aplicações em 2014 
O cenário de alívio para a renda fixa oriundo da retomada das elevações da Selic em 2013 deve permanecer em 2014, mas as previsões predominantes são de que o governo só fará mais uma elevação, na próxima reunião do Copom. Mas, mesmo com o atual valor da Selic ou um pouco maior, os rendimentos reais das aplicações referenciadas direta ou indiretamente a essa taxa não serão nada expressivos, e creio que isto chegou para ficar.  E a inflação também pode atrapalhar, se sua subida não for acompanhada de novos aumentos da Selic, o que muitos analistas vêem como pouco provável num ano eleitoral.

Diante dos maiores da renda variável, os fracos rendimentos da renda fixa devem ser relativizados. Em face das incertezas que cercam o momento atual, para o investidor avesso a riscos a preocupação fundamental deve ser o de preservar o valor real das aplicações, ou seja, protegê-lo da inflação.  Nesse sentido, a renda fixa vem cumprindo o seu papel, nem sempre assegurando uma proteção 100% efetiva, mas tampouco claramente insatisfatória. Assim, para esse investidor a renda fixa continua sendo um refúgio adequado.

Mesmo nesse campo, entretanto, o investidor tradicional precisa conhecer alternativas disponíveis, como as LCAs, as LCIs e o Tesouro Direto. Este oferece um papel que garante a proteção contra a inflação, desde que resgatado apenas no seu vencimento, assunto que será objeto de artigo futuro.

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Roberto Macedo, CFP® (Certified Financial Planner), é economista formado pela USP com Mestrado e Doutorado na Universidade Harvard (EUA).  Foi Secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Fazenda e Planejamento, funcionário do Banco Central e do Banco do Brasil. E-mail: imprensa@bb.com.br. Este texto reflete a opinião do autor e não necessariamente a do BB; tem caráter apenas informativo, e não deve ser tomado como recomendação de subscrição, tomada de créditos, compra ou venda de ativos, decisões estas de responsabilidade exclusiva dos investidores.

Vieses psicológicos e comportamentais nas finanças pessoais - 30.12.2013

Viés é um termo usado aqui no sentido de um meio tortuoso pelo qual uma decisão é tomada, se comparada à que se poderia esperar racionalmente. Os vieses examinados neste artigo dizem respeito a decisões no âmbito das finanças pessoais. Têm natureza psicológica, quando derivados da forma de raciocinar das pessoas, e também refletem comportamentos aos quais foram levadas ou se habituaram pelas mais variadas razões.

São muitos os vieses apontados pela literatura de finanças pessoais. Neste artigo abordaremos alguns e centrados no mercado de ações, onde muitos desses vieses se manifestam. Eventualmente voltarei ao assunto noutras oportunidades.

Desconforto com perdas supera satisfação que viria com ganhos de idêntico valor  Estudos demonstram que em geral as pessoas têm esse traço. No mercado de ações, elas buscam ganhos, mas, sobretudo, procuram evitar perdas, em face do desconforto que trariam. Com isto correm o risco de ficar com ações que caíram de preço para não enfrentar a inconveniência de realizar as perdas correspondentes, mesmo se as condições dessas ações recomendassem sua venda e a compra de outras para recomposição da carteira numa tentativa de assegurar maior rentabilidade futura.

Ancoragem
Ocorre quando as pessoas se prendem ou se ancoram em fatos ou conjecturas de relevância limitada ou nula para orientar decisões ligadas à sua carteira de ações. Por exemplo, uma teve seu preço estável por muito tempo e o investidor se ancorou nele para orientar suas decisões. De repente, o preço da ação caiu isoladamente sem acompanhar o mercado. Mas, o investidor, ancorado no preço anterior e sem buscar outra informação, entendeu que era hora de comprar mais dessa ação, pois na sua avaliação seu preço estaria abaixo do seu valor. Contudo, o preço poderia ter caído por várias razões, como um acidente na empresa ou por que houve perda de mercado para um concorrente.

Comportamento “de manada”
Ocorre quando, sem maiores reflexões, investidores seguem o comportamento de um grupo deles, numa onda formada irracionalmente que leva a bolhas de preços as quais posteriormente se explodem causando prejuízos a quem comprou na alta.  Isto aconteceu, por exemplo, em 2000 nos EUA, na bolsa Nasdaq,  de Nova Iorque, após uma bolha que se formou no final da década anterior. O risco está não apenas em movimentos de supervalorização, que depois levam a quedas, mas também de subvalorização, com saída de investidores, que pode ser seguida por uma valorização quando a “manada” se dispersa. 

Excesso de confiança
Esse excesso, que como outros vieses podem contaminar tanto o investidor como administradores de fundos de ações e outros intermediários, fragiliza a busca de informações relevantes para o processo decisório, e pode conduzi-lo por caminhos arriscados não adequadamente avaliados.

Reação exagerada
Diante de uma nova informação, investidores e intermediários financeiros podem exagerar na sua reação, fazendo com que os preços de ações oscilem mais do que justificado pelos seus fundamentos, e levando a perdas para quem se envolveu no processo, pois em algum momento os resultados do exagero serão percebidos e os preços voltarão a níveis realistas.

Viés de confirmação
Ocorre quando no exame de um investimento as pessoas já têm opinião preconcebida sobre eles, o que faz com que busquem confirmá-la apenas com dados e outras informações que a sustentem, evitando as que a contrariam.

Viés de disponibilidade
Diagnosticado quando as pessoas decidem com base na informação disponível, como os últimos resultados da Bolsa ou de fundos de investimento, e se baseiam neles para tomar decisões. Cabe ter uma perspectiva quanto ao futuro, pois é o que realmente interessa, e fundamentada analiticamente.

Procrastinação
É a prática de adiar decisões, um traço encontradiço no ser humano e que pode levar a prejuízos. Assim, pode-se perder o prazo de ofertas públicas de ações, ou deixar de recompor uma carteira delas, embora isto fosse recomendável pelo mau desempenho de algumas ações.

Viés de celebridade
A experiência com as ações de empresas que eram controladas pelo empresário Eike Batista indica que muitos dos que investiram nelas o fizeram levando em conta a imagem de sucesso que se formou em torno desse empresário. Tanto por iniciativas dele como pela forte difusão dessa imagem pela mídia, o que acabou por torná-lo uma celebridade. Como pessoa, parece-me um caso do viés de excesso de confiança, mas do lado dos investidores a condição de celebridade deve ter contribuído para estimular o investimento nas suas empresas. Lembro que esta minha idéia é apenas uma hipótese a ser confirmada ou não por uma pesquisa científica que se dispusesse a ouvir os muitos investidores que perderam dinheiro com as ações das empresas do grupo.

Em conclusão percebe-se que há muitas armadilhas em que o investidor pode cair. Cabe alertar-se quanto a elas, e perceber que nestes e noutros casos ligados às finanças pessoais o caminho adequado é o da educação financeira.

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Roberto Macedo, CFP® (Certified Financial Planner), é economista formado pela USP com Mestrado e Doutorado na Universidade Harvard (EUA).  Foi Secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Fazenda e Planejamento, funcionário do Banco Central e do Banco do Brasil. E-mail: imprensa@bb.com.br. Este texto reflete a opinião do autor e não necessariamente a do BB; tem caráter apenas informativo, e não deve ser tomado como recomendação de subscrição, tomada de créditos, compra ou venda de ativos, decisões estas de responsabilidade exclusiva dos investidores.

O banco central dos EUA e o investidor brasileiro - 23.12.2013
Na quarta-feira da semana passada o banco central dos EUA, informalmente conhecido como Fed (seu nome é Federal Reserve System), tomou decisão muito aguardada pela economia mundial e seus mercados financeiros. Anunciou que adotará procedimento gradual no desmonte dos incentivos monetários lá instituídos para enfrentar a crise econômica e financeira mundial que eclodiu em 2008 tendo os EUA como epicentro. Os principais incentivos foram uma pequena taxa básica de juros e uma injeção de mais dinheiro na economia. Explicarei a natureza das decisões do Fed, como afetam a economia americana, a mundial e o Brasil, e por quais razoes são de interesse do investidor brasileiro.

O  que faz o Fed
O Fed tem três objetivos principais para a sua ação macroeconômica: manter a estabilidade de preços, ou seja, combater a inflação, assegurar uma baixa taxa de desemprego e moderadas taxas de juros no longo prazo. 

Operacionalmente, a taxa básica de juros, no Brasil conhecida também como Selic, é o principal instrumento que ele utiliza. Como o Fed usa a taxa básica para combater a inflação e o aumento do desemprego? Ora, o aumento dela leva a uma subida das taxas de juros em geral, tornando empréstimos e financiamentos mais caros, o que repercute negativamente sobre o consumo das famílias e os investimentos das empresas, assim enfraquecendo a demanda da economia,  aliviando pressões inflacionárias sobre os preços e levando a uma situação em que o desemprego pode até aumentar. Uma queda da taxa básica de juros tem efeitos contrários, estimulando a demanda e a redução do desemprego.

Percebe-se que no aumento da taxa são conflitantes os objetivos de combater a inflação e de manter baixa a taxa de desemprego. Ou seja, é preciso muito engenho e arte para que o trabalho do Fed com relação à taxa básica de juros seja  bem sucedido na dosagem e na duração do tratamento.

A cada momento, contudo, conflitos decisórios costumam ser superados quando um dos dois problemas, a inflação e o desemprego, se torna mais importante que o outro e a opção pelo ataque ao mais grave deixa para o segundo plano o menos relevante. Isto foi o que aconteceu com a referida crise, que ampliou fortemente o desemprego nos EUA, numa situação em que a taxa de inflação estava contida pelo próprio impacto negativo que a crise teve na economia, reduzindo a demanda, a produção e assim pressionando os preços em geral para baixo.  Portanto, nessa situação ficou claro que o Fed deveria reduzir sensivelmente a taxa básica de juros. E, como será visto a seguir, ele adotou outras medidas além de redução da taxa, pois em circunstâncias de crise os mercados financeiros ficam travados. As instituições financeiras retraem sua oferta de crédito e é preciso que o Fed atue noutra ação típica de um banco central, a de ser o emprestador de última instância.

A ação do Fed em resposta à crise de 2008
Em síntese, ela envolveu a redução da taxa básica de juros para valores muito próximos de zero (dentro da faxa de zero a 0,25% ao ano), ao lado de prover liquidez para o mercado financeiro, como ao comprar papéis de instituições privadas, e também do governo do país. Isto, ao lado de uma atuação internacional, trocando moedas de outros países por dólares, para atender às necessidades de seus mercados nessa moeda, inclusive no caso do Brasil.

Efeitos no Brasil

Ações como essas repercutiram favoravelmente também no Brasil,  pois apesar de a taxa de seu PIB ter caído fortemente em 2009, essa queda poderia ter sido maior na ausência das medidas do Fed.  Mas, um outro efeito aqui teve consequências desfavoráveis, pois as menores taxas de juros nos EUA serviram como incentivo à ampliação de investimentos financeiros e empresariais no Brasil, tornando o real valorizado, ou seja, fazendo cair a taxa de câmbio em reais por dólar.  E esta valorização do real provocou aumento das importações fazendo deteriorar as contas externas, com o surgimento de elevados déficits em conta corrente. Esta, além do fluxo de mercadorias, inclui também o pagamento de juros e dividendos ao capital estrangeiro e gastos de turistas brasileiros no exterior, que sabidamente aumentaram muito.

E por aqui se temia que uma forte retirada dos incentivos adotados pelo Fed levaria à desvalorização do real por conta da saída de dólares em busca de juros maiores nos EUA.

O que veio recentemente e  o que ainda está em jogo?
O que o Fed anunciou na quarta-feira da semana passada foi que em lugar de comprar US$85 bilhões de títulos públicos por mês, essa importância seria reduzida para US$75 bilhões e que a taxa básica de juros seria mantida na faixa citada (entre zero e 0,25% ao ano).  Ou seja, um enfoque bem gradual que tranquilizou os mercados.  As bolsas subiram, inclusive no Brasil, onde na quinta-feira veio um forte aumento de 2,12% no índice Bovespa.

Mas, a alegria durou pouco, pois logo em seguida, na sexta, houve nos EUA o anúncio de que, depois de uma revisão de dados,  a sua economia mostrou um desempenho ainda mais forte no terceiro trimestre deste ano, à surpreendente taxa de 4,1% em base anual, ou seja, comparada com o mesmo trimestre de 2012. Recorde-se que em idêntica comparação o PIB brasileiro aumentou cerca de metade dessa taxa, 2,2%. Com isto, os mercados começaram a especular que o Fed poderá mudar de ideia e acelerar o desmonte de suas medidas. Resumindo o impacto aqui, o Ibovespa caiu 0,87%. Tudo isto mostra como decisões do Fed repercutem no Brasil e afetam os rendimentos dos investidores.

E o dólar? Subiu tanto na quinta (0,29%), como na sexta (1,56%)  da semana passada, pressionado por outros fatores, como alto déficit das contas externas brasileiras e as compras dessa moeda por empresas para remeter lucros no fim de ano, e pela referida notícia de que o PIB dos EUA teve desempenho ainda mais forte no terceiro trimestre e suas consequências já citadas.

Confesso que me frustrei com uma notícia boa na quarta, a do desmonte moderado dos incentivos do Fed, e outra má logo em seguida, na sexta,  a de que poderá acelerar esse desmonte. Mas, analisando friamente, para o investidor brasileiro firmou-se a perspectiva de uma contínua melhoria da renda fixa, ou pelo menos da situação atual por mais tempo, pois o aumento do dólar deverá ter impacto na inflação e o nosso BC não poderá tão cedo abdicar do aumento da Selic já realizado. E para os que apreciam o risco, permanece a perspectiva de um dólar ainda mais caro.
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Roberto Macedo, CFP® (Certified Financial Planner), é economista formado pela USP com Mestrado e Doutorado na Universidade Harvard (EUA).  Foi Secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Fazenda e Planejamento, funcionário do Banco Central e do Banco do Brasil. E-mail: imprensa@bb.com.br. Este texto reflete a opinião do autor e não necessariamente a do BB; tem caráter apenas informativo, e não deve ser tomado como recomendação de subscrição, tomada de créditos, compra ou venda de ativos, decisões estas de exclusiva responsabilidade do investidor. 

Finanças comportamentais: um programa para ampliar a poupança pessoal - 16.12.2013
Um expoente da área de finanças comportamentais, o economista Richard Thaler, da Universidade de Chicago (EUA),  junto com seu colega, Shlomo Benartzi, da Universidade da California, em Los Angeles (EUA), propuseram um programa em que assalariados se comprometem a alocar no futuro, em planos de aposentadoria empresariais, também conhecidos como fundos de pensão, uma parcela de seus futuros aumentos de salários. Quando foi escrito o artigo que usarei como referência, o programa já havia sido aplicado em três empresas, com resultados positivos.

Tomei conhecimento dessa proposta ao participar, no último mês de outubro, de um congresso de planejadores financeiros pessoais nos EUA, conforme meu artigo de 13/10/13 neste espaço.  Numa de suas palestras, a representante de uma instituição financeira fez referência ao estudo de Thaler e Benartzi e encontrei-o na internet.(*)

Ao examinar resumidamente a ideia, começarei por referir-me às suas origens conceituais, no enfoque das finanças comportamentais.
 
As finanças comportamentais como origem do programa proposto
A análise das finanças pessoais segue dois enfoques. O tradicional, ou neo-clássico,  desenvolveu-se com vigor em meados do século passado.  Pressupõe que o ser humano é racional e procura maximizar a satisfação das escolhas que faz segundo suas preferências e levando em conta as opções oferecidas pelo mercado financeiro.

O segundo enfoque é mais recente, e desenvolveu-se principalmente nas duas últimas décadas. Ele pondera que a racionalidade do ser humano é limitada, e isto faz com que muitas vezes suas escolhas se revelem inconvenientes para si mesmo e para a sociedade em que está inserido.

Uma questão que esse enfoque destaca é a dificuldade que as pessoas têm de poupar, em particular para prover suas necessidades na aposentadoria e, em geral, nas idades mais avançadas. Entre outras implicações dessa percepção, confirmada por fatos, foi que muitos países, inclusive o Brasil, criaram sistemas oficiais de previdência social, como o nosso INSS, sustentado por contribuições obrigatórias de empregados e empregadores. E, ainda, por aportes de recursos por parte do próprio governo.  Tudo para evitar os sérios problemas sociais que emergiriam se a escolha do que poupar para a aposentadoria e como fazê-lo ficasse por conta do livre arbítrio da população.

Um exemplo atual dessa questão é que na China o sistema de previdência social ainda é pouco desenvolvido, com o que grande parte dos idosos depende de suas famílias para seu sustento. Ora, isto envolve sérios riscos particularmente numa situação em que o número de filhos por família foi fortemente contido com a política de um filho por casal, o que vem gerando sérios problemas sociais. Em face disso, o governo chinês passou a atuar no sentido de expandir seus sistemas de previdência e assistência social.
   
O programa de Thaler e Bernatzi
É voltado para os EUA, mas vem sendo considerado em outros países, e entendo que deveria receber atenção também no Brasil. Nos EUA existe sistema previdenciário sustentado com contribuições compulsórias, o Social Security System. Mas, este, como o nosso INSS, tem um teto para as contribuições e os benefícios que paga. Assim, também como aqui, há um sistema de previdência complementar.

Tal como no Brasil, nessa previdência destacam-se os fundos de pensão constituídos por empresas e outras instituições, e sustentados com contribuições de empregados e empregadores, além das feitas ao INSS. Só que lá esses fundos existem há mais tempo, e sendo os EUA um país mais rico, eles são muito mais difundidos. Assim, é muito maior lá do que aqui a proporção de empresas e outras instituições que os adotam, e eles detêm volume muito mais elevado de recursos que no Brasil.

A essência do programa de Thaler e Benartzi
Ele nasceu da percepção de que em várias empresas há participantes de seus fundos que poupam pouco para suas necessidades futuras. Com base nas finanças comportamentais, e enfatizando além da racionalidade limitada a dificuldade de auto-controle, Thaler e Benartzi consideram que esses trabalhadores estão cometendo um erro, e veriam com bons olhos um programa que os ajudassem a decidir melhor sobre sua poupança para a aposentadoria.

A ideia é bem simples, e os próprios autores a colocam nestes termos: “A essência do programa é direta: as pessoas antecipadamente se comprometem a destinar à sua poupança para aposentadoria uma parte dos seus futuros aumentos de salários”.

Na prática, há vários aspectos a considerar: 1) o programa se aplica a fundos de pensão de contribuições definidas e não aos de benefícios definidos, pois é nos primeiros que os trabalhadores têm maior responsabilidade para definir o quanto vão poupar; 2) o que aumenta é a taxa de contribuição do empregado; 3) nos três fundos de pensão empresariais onde o programa foi aplicado, o artigo relata que a taxa média de poupança dos trabalhadores que aderiram a ele aumentou de 3,5% para 13,6% dos seus salários num período de 40 meses; ou seja, o relevante é que essa taxa se amplie.

Certa vez passei por uma experiência pessoal que guarda certa similaridade com a proposta desse programa e ajuda a entendê-lo. Só que optei por aumentar a minha contribuição logo ao ser contratado, por uma universidade privada. Ela me propôs um fundo em que eu e ela pagaríamos cada um 5% do meu salário para o plano de previdência que mantém. Mas, também me foi oferecida a opção de pagar mais 5%, dobrando minha contribuição. Assim, minha taxa de poupança relativamente ao meu salário já começou com 10%, sem contar a taxa paga ao INSS.  Não fiquei muito tempo nessa universidade, mas saí de lá com uma pensão vitalícia que hoje cobre com alguma folga o condomínio do prédio onde resido.

Como o artigo citado é de 2004 vou pesquisar a adoção da proposta de Thaler e Benartzi depois dessa data. Se encontrar informações, voltarei ao assunto noutra oportunidade. Já sei, contudo, que o enfoque das finanças comportamentais continua ganhando espaço nos EUA, conforme outro artigo meu neste espaço, em 28/10/13. E acabo de retornar do congresso anual dos pesquisadores dos Centros de Pós-Graduação em Economia brasileiros. Na ocasião, um professor de Harvard (EUA), David Laibson, especialmente convidado para o evento, apresentou estudo mostrando que a dificuldade de poupar no seu país é alta. Para aliviá-la defendeu a limitação do resgate antecipado de valores acumulados em planos de previdência complementar, antes de seu prazo usual. E mostrou que pesquisas com grupos de indivíduos revelaram que sabendo de suas dificuldades de poupar eles estão dispostos a aceitar essa limitação. É uma proposta para preservar o que já foi poupado, que se soma à de Thaler e Benartzi.
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Roberto Macedo, CFP® (Certified Financial Planner), é economista formado pela USP com Mestrado e Doutorado na Universidade Harvard (EUA).  Foi Secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Fazenda e Planejamento, funcionário do Banco Central e do Banco do Brasil. E-mail: imprensa@bb.com.br. Este texto reflete a opinião do autor e não necessariamente a do BB; tem caráter apenas informativo, e não deve ser tomado como recomendação de subscrição, tomada de créditos, compra ou venda de ativos, decisões estas de exclusiva responsabilidade do investidor.
(*) O artigo foi publicado originalmente em inglês na revista acadêmica Journal of Political Economy, 2004, volume 112, nº 1, e pode ser obtido gratuitamente em
http://faculty.chicagobooth.edu/Richard.Thaler/research/pdf/SMarTJPE.pdf 

Como a Selic a 10% amplia a atratividade de papéis e fundos de renda fixa - 09.12.2013
Na última reunião do Conselho de Política Monetária (Copom), concluída em 27/11/13, o Banco Central (BC) elevou a taxa básica de juros, ou Selic, de 9,5 para 10% ao ano. Com isto ampliou-se a atratividade, relativamente à poupança,  de papéis e fundos de renda fixa referenciados a essa taxa ou à do Certificado de Depósito Interbancário (CDI), parente muito próximo dela. Essa atratividade depende também, do lado desses papéis e fundos, do Imposto de Renda (IR) aplicado a seus rendimentos e de taxas de administração quando cabíveis. Quando estas e o IR são muito altos, a poupança mantém uma clara atratividade. Mas, tudo depende muito de como a taxa de remuneração bruta dos papéis e fundos responde a um valor maior da Selic . 

Vou explicar como essa atratividade se eleva e, num exercício, a que taxas de administração e de IR os rendimentos de fundos e papéis de renda  de renda fixa superam ou não os rendimentos da poupança. Começarei pela natureza da política monetária em andamento.

A política monetária recente
O último movimento de redução da Selic teve início 1/9/2011, quando essa taxa passou de 12,5 para 12% ao ano e foi caindo até alcançar 7,25% ao ano em 11/12/12. À medida que esse movimento foi ocorrendo, e mais claramente quando a Selic alcançou 8,5% ao ano no meio desse caminho em  30/5/12, o governo percebeu que a poupança passaria a ganhar competitividade se a Selic caísse abaixo desse valor, com relação a papéis e fundos de renda fixa tributados pelo IR mesmo imposto, e sujeitos também, como os fundos, a taxas de administração.  Em 29/8/12 a Selic veio a 8% ao ano.

Prevendo isto, o governo decidiu mudar a parte mais importante da remuneração da poupança, referenciando-a a 70% da taxa Selic quando esta fosse igual ou inferior a 8,5% ao ano. Isto passou a vigorar para depósitos realizados a partir de 4/5/12, ou seja, no início do mês em que a decisão de reduzir a Selic para 8,5% foi tomada.

Contudo, no início de 2013 a inflação voltou a preocupar e a partir da reunião do Copom em 17 de abril, o BC iniciou o atual ciclo de aumentos da Selic, que a elevou para 10% ao ano na última reunião. Note-se que em 28 de agosto deste ano, quando ela passou de 8,5 para 9% ao ano, a nova poupança passou a render a mesma taxa da antiga, ou seja, 6,17% ao ano mais TR, pois o BC não queria que a nova rendesse mais que a antiga, o que aconteceria a nova passasse a render 70% da Selic a 9%, ou 6,3%, de juros ao ano.

O que o governo buscou com essas alterações foi um razoável equilíbrio entre o fluxo de dinheiro para a poupança e o que segue para as aplicações em renda fixa tributadas, que no caso de fundos têm também o gravame de taxas de administração. Portanto, o valor da Selic em 8,5% ao ano, que baliza a alteração da parte maior da remuneração da nova poupança, é por si mesmo indicativo de que abaixo dele a poupança antiga ganharia atratividade sem a criação da poupança nova. E que de que acima dele os referidos papéis e fundos tendem a ganhar atratividade, principalmente se a Selic continuar  subindo. Como esta taxa chegou a 9% em 29/8/13, a 9,5% em 10/10/13 e a 10% ao ano na última reunião citada, essa atratividade vem se acentuando, mas depende de vários outros fatores, como explicarei em seguida.

Um cálculo aproximado de como essa atratividade se revela
Porque se trata de um cálculo aproximado?  A razão é que os papéis e fundos referenciados à taxa do CDI nem sempre pagam o valor integral dessa taxa, que é muito próxima da Selic. Aplicações de valor muito alto podem pagar até mais de 100% da taxa do CDI, mas na maioria dos casos prevalece uma porcentagem inferior a 100%.

Contudo, os cálculos usualmente divulgados pela imprensa e voltados para a comparação da rentabilidade desses papéis e fundos com a da poupança pressupõem para simplificar que o investidor receberá 100% do CDI, pois essa porcentagem varia muito entre papéis, prazos e valores do investimento. Para prosseguir, usarei o mesmo procedimento, ou seja, suporei um fundo com remuneração bruta de 100% da taxa do CDI, esta com o valor igual ao da Selic atual (10%),  uma taxa de administração de 1% e levando em conta o IR de 20% para uma aplicação de 12 meses.

Advertindo que se trata de uma simplificação, calculei que em 12 meses quem aplicasse R$10.000 num fundo, ao final desse período teria R$10.720.  Num CDB, onde não há taxa de administração, esse valor subiria para R$10.800. Se aplicasse numa poupança com contagem de remuneração no 1º dia do mês, no último dia 1/12 essa remuneração, inclusive TR, seria de 0,5496 ao mês. Se repetida por 12 meses daria como resultado um valor menor, de R$10.679,80. E se a taxa de administração do fundo fosse de 2% o valor final seria de R$10.640,00 e, portanto, abaixo do da poupança.

Esse cálculo que envolve um IR cuja taxa depende do prazo de aplicação, a porcentagem da taxa CDI fixando a remuneração bruta, e a taxa de administração quando cabível, bem como o tempo tomado para recolher essas informações,  é um dos fatores que leva o pequeno investidor a preferir a poupança, cuja captação líquida continua elevada. Em 2013 até novembro, ela mostrou fortes captações líquidas mensais alcançando um expressivo total de R$59,8 bilhões. No mesmo período, fundos referenciados ao CDI tiveram captação líquida bem menor, de R$24,3 bilhões, e os de renda fixa, que guardam alguma correspondência com o CDI, apresentaram queda de R$30,5 bilhões. Assim, até novembro, que só ao seu final teve a Selic elevada para 10%, a poupança não revelou danos à sua atratividade. 

Vale também lembrar, conforme meu artigo na semana passada, que Letras de Crédito Imobiliário (LCIs) e as Letras de Crédito do Agronegócio (LCAs), que são isentas do IR e não têm taxas de administração, também vêm aumentando sensivelmente sua captação. Mas, elas também rendem uma porcentagem da taxa do CDI e só grandes aplicações rendem 100% ou mais da mesma taxa.

Fontes de informação
As informações sobre os diversos fundos oferecidos pelo BB, seus graus de risco e respectivas taxas de administração, podem ser encontradas por meio do link
www.bb.com.br/portalbb/page3,116,32410,1,1,1,1.bb?codigoNoticia=8103&codigoMenu=1092&codigoRet=17512&bread=1_7.

Quanto à rentabilidade passada desses fundos, antes de impostos, o link é
www37.bb.com.br/portalbb/tabelaRentabilidade/rentabilidade/gfi7,802,9085,9089,1.bbx?tipo=1&nivel=1000.

O mesmo link esclarece que não há garantia de que a rentabilidade passada se repetirá no futuro.  Ela serve mais para comparar entre si os rendimentos de diferentes aplicações num mesmo instante de tempo e não como os ganhos de uma delas ou de seu conjunto evoluirão no futuro.
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Roberto Macedo, CFP® (Certified Financial Planner), é economista formado pela USP com Mestrado e Doutorado na Universidade Harvard (EUA).  Foi Secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Fazenda e Planejamento, funcionário do Banco Central e do Banco do Brasil. E-mail: imprensa@bb.com.br. Este texto reflete a opinião do autor e não necessariamente a do BB; tem caráter apenas informativo, e não deve ser tomado como recomendação de subscrição, tomada de créditos, compra ou venda de ativos, decisões estas de responsabilidade exclusiva dos investidores.

Papéis com isenção do IR ganham espaço no mercado - 02.12.2013
Há notícias de que o valor do estoque de títulos de crédito privado com rendimentos isentos do Imposto de Renda (IR) vem crescendo bem mais do que o de papéis cujos retornos são onerados com essa tributação.  Mais do que isto, o estoque do mais conhecido dos papéis tributados, o Certificado de Depósito Bancário (CDB) vem até caindo de valor.

Isto mostra que a isenção do IR é incentivo importante, particularmente nas condições atuais em que a taxa básica de juros, ou Selic, que baliza os rendimentos de aplicações em renda fixa, já não é tão alta relativamente à inflação. Por exemplo, entre 11/9/08 e 21/1/09, a Selic ficou em 13,75% ao ano e a inflação perto de 6% em 12 meses. E num período recente, entre 11/10/12 e 17/4/13 quando a Selic era de 7,25% ao ano, muitos investidores tiveram dificuldade de obter rendimentos superiores à inflação, depois de descontados o IR e taxas quando cabíveis, como a de administração.

Assim, é interessante saber por que o governo concede essa isenção, os papéis e fundos que a oferecem e refletir também sobre outros elementos devem ser considerados no processo de decidir sobre a aquisição ou não dos papéis isentos. Como sempre, há que ponderar sobre o rendimento, a liquidez e o risco das aplicações.

Neste artigo vou tratar especificamente de dois títulos isentos de IR cuja demanda vem aumentando significativamente, as Letras de Crédito Imobiliário (LCIs) e as Letras de Crédito do Agronegócio (LCAs).  Também faremos referência aos Fundos de Investimentos Imobiliários (FIIs) cujos rendimentos também são isentos do IR para pessoas físicas.

Por que a isenção do IR?
Pelos nomes desses papéis e fundos isentos do IR, verifica-se que os recursos correspondentes são utilizados nos setores agrícola e imobiliário, que com razão o governo vê como particularmente importantes no processo de crescimento econômico do país.  E o aumento de aplicações trazido pela isenção mostra que ela vem cumprindo seu papel de  alocar mais recursos para esses setores.

As Letras de Crédito do Agronegócio (LCAs)  
Começando pela remuneração e tomando-se os casos mais comuns, ela se assemelha à do CDB e pode ser pré ou pós-fixada. Na primeira, a remuneração é determinada no momento da aplicação e o cliente fica sabendo o quanto vai aplicar e o quanto vai ser recebido no resgate. Na pós, usualmente é uma porcentagem da remuneração do Certificado de Depósito Interbancário (CDI), a qual tem valor muito próximo da Selic.  

A isenção do IR não garante, contudo, que a remuneração de uma LCA será sempre superior, por exemplo, à de um CDB tributado, mesmo que esta seja também referenciada ao CDI, pois tudo depende da porcentagem da remuneração deste que será combinada com o banco.  Por isto, é preciso se informar quanto a essa porcentagem junto à instituição financeira onde será feita a aplicação. Contudo, o forte crescimento das aplicações em LCAs indica que elas se revelam vantajosas para muitos clientes.

Elas têm a garantia do Fundo Garantidor de Crédito (FGC) até o limite de R$250.000,00 por CPF. Mas, em se tratando do BB o risco é praticamente nulo.

O BB oferece as LCAs e outras informações sobre as mesmas,  como aplicação mínima e resgate,  podem ser obtidas por meio do link:
www.bb.com.br/portalbb/page100,114,32422,6,0,1,1.bb?codigoMenu=901&codigoNoticia=35521&codigoRet=17554&bread=3.

Vale destacar que neste caso a aplicação mínima é de R$30.000,00. O resgate pode ocorrer a partir do 1º dia útil após a contratação, ou seja, o papel tem liquidez imediata. A alíquota do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) também é reduzida a zero.

As Letras de Crédito Imobiliário (LCIs)
Cabem as mesmas observações já feitas acima quanto às LCAs, antes da referência ao link deste site que leva a mais informações sobre as mesmas.   As LCIs também estão disponíveis no BB e o link de acesso às respectivas informações é:
www.bb.com.br/portalbb/page100,116,500239,1,0,1,1.bb?codigoMenu=1092&codigoRet=17998&bread=3.

Neste caso cabe destacar que  a aplicação também é isenta de IOF. A liquidez só ocorre após o 61º dia de aplicação. Em compensação, a aplicação mínima é de R$1.000,00 e, assim, bem menor do que no caso das LCAs.

Os Fundos de Investimento Imobiliário (FIIs)
Outra forma de ver as LCAs e as LCIs é que elas integram o conjunto de papéis conhecidos como de renda fixa, tais como os CDBs com que se parecem. Já os FIIs são títulos da categoria de renda variável e mais se assemelham às companhias que emitem ações. São constituídos com o propósito de aplicar um capital em negócios imobiliários, como um prédio, conjuntos de salas comerciais ou um shopping, sejam em construção ou já construídos.

À semelhança das ações, os fundos imobiliários emitem cotas que depois de lançadas são cotadas no mercado e nele podem ser transacionadas, mas também como as ações e ao contrário de papéis ou cotas de fundos de renda fixa as cotas dos FIIs não são resgatáveis. Os preços das cotas podem oscilar, e assim é um investimento de maior risco do que as LCAs e LCIs.

Os rendimentos dos FIIs decorrem da rentabilidade de seu patrimônio, e novamente têm alguma semelhança com os dividendos das ações, oscilando de valor conforme o desempenho desses fundos.  Por exemplo, se um desses fundos tiver um imóvel alugado que passa à condição de desocupado, e assim fica por alguns meses, trata-se de uma situação que por si diminuirá os rendimentos para os cotistas.

Vale também esclarecer que a isenção se limita ao IR sobre os rendimentos. Se houver a venda de cotas com lucro, cabe a tributação pelo mesmo imposto, novamente como no caso das ações. Nas operações com as cotas há também o ônus de taxas de custódia e de corretagem.

Quanto à aplicação mínima, há fundos que começaram com investimento mínimo de R$1.000,00.  Mas, depois de colocados no mercado, a aplicação mínima será a do valor de uma cota, de modo a garantir a aquisição de pelo menos uma delas, pois não são fracionadas.

Outras informações sobre os FIIs podem ser obtidas neste site por meio do link:
http://www.bb.com.br/portalbb/page3,116,19537,1,1,1,1.bb?codigoNoticia=34419&codigoMenu=1092&codigoRet=17223&bread=1_17.

Esse mesmo link leva a outro, da Bovespa, com informações adicionais.
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Roberto Macedo, CFP® (Certified Financial Planner), é economista formado pela USP com Mestrado e Doutorado na Universidade Harvard (EUA).  Foi Secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Fazenda e Planejamento, funcionário do Banco Central e do Banco do Brasil. E-mail: imprensa@bb.com.br. Este texto reflete a opinião do autor e não necessariamente a do BB; tem caráter apenas informativo, e não deve ser tomado como recomendação de subscrição, tomada de créditos, compra ou venda de ativos, decisões estas de responsabilidade exclusiva dos investidores.


Dezembro: prazo para reduzir IR de 2014 e mês de outras reflexões - 25.11.2013

Dezembro começa no final desta semana e o mês é de grande importância para ajustes das finanças pessoais. Em particular, quem deixar o mês passar sem um desses ajustes perderá a oportunidade de pagar menos Imposto de Renda (IR) ao fazer a declaração a ser entregue até 30 de abril de 2014.

Como nas empresas, o fim do ano é também a ocasião de fazer um balanço patrimonial e dos resultados financeiros pessoais. E, também, o planejamento financeiro pessoal para 2014, com objetivos e metas a cumprir.

É época de festas, mas providências como essas tanto podem adicionar ao quê comemorar ainda em 2013 como também indicar correções que devem integrar a lista de propósitos renovadores para 2014, para ter mais o quê celebrar ao seu final.
Vou abordar algumas ações a serem tomadas começando pela mais urgente, e seguindo por outras também importantes. Em larga medida repetirei a pregação de anos anteriores nesta mesma época, mas vale insistir.

30/12/13: último dia para reduzir o IR de 2014
É bom lembrar que no dia 31 os bancos não abrem para o público e mesmo que abrissem nunca é bom não deixar o que fazer para os últimos dias desse mês, cheio que é de muitos compromissos de confraternização nas empresas, nas famílias e fora delas, e de crianças em férias exigindo maior atenção.

Reduzir o IR legalmente é prática comum que nas empresas é conhecida como planejamento tributário e se estende a outros impostos. Consiste em examinar os caminhos que a própria legislação tributária oferece para tanto. Esse planejamento também interessa às pessoas físicas, para as quais usualmente se recomenda o investimento em fundos de previdência conhecidos como PGBL e VGBL.  Se o leitor ainda desconhece tais planos, deve se informar com seu gerente de atendimento no BB, inclusive quanto às taxas cobradas, de administração e de “carregamento”.

Neste site, informações sobre ambos podem ser obtidas por meio do link Brasilprev. Há também informações sobre aquisições e como simular um plano, por meio do link Simulador Brasilprev.

Em resumo, o PGBL é aberto a quem já paga INSS, e adequado a quem preenche o formulário completo do IR, no qual se pode deduzir até 12% dos rendimentos brutos para investimento nesse tipo de fundo.  A tributação pelo IR ocorre apenas na época do resgate, tanto sobre os valores aportados como sobre seus rendimentos. Para auferir as vantagens fiscais na declaração do IR de 2014 só valem as aplicações realizadas até 30/12/2013. O VGBL é para quem é isento de IR ou usa o formulário simplificado, onde não há deduções específicas, e também para quem preenche o formulário completo e quer investir acima dos 12% citados.  No VGBL, o valor investido já passou pela tributação ou foi isento. E a tributação só ocorrerá no resgate e apenas sobre os rendimentos auferidos no período de acumulação. O VGBL pode ser feito a qualquer tempo, mas para um mesmo valor aplicado regularmente o acumulado será tanto maior quanto mais cedo esse tipo de aplicação tiver início.
 
Tanto um como outro plano também podem ser feitos em nome de filhos, sobrinhos e netos com idade inferior a 21 anos. Para eles será também um bom exercício de educação financeira, pois poderão acompanhar os extratos de movimentação desses fundos.
Ainda quanto ao planejamento tributário em dezembro, pratico e recomendo outro procedimento para quem usa o formulário completo do IR, o de  aproveitar o mês para checapes, tratamentos dentários e coisas do tipo, pois tais despesas são dedutíveis do rendimento bruto e de forma integral. Dezembro é o mês deste ano mais próximo de abril do ano que vem, quando a dedução será realizada. Gastos como esses não devem ser adiados, e fazendo-os em dezembro o proveito da dedução virá mais rápido.

Quanto a essas e outras despesas dedutíveis, outro lembrete é a necessidade de comprovação. Para gastos de maior vulto a Receita Federal costuma pedir não só os recibos como documentação adicional que comprove o efetivo pagamento, como cópias dos cheques depois de compensados, o que dá trabalho e toma tempo do contribuinte.  Recomendo os pagamentos dessas despesas por transferências via internet, cujo comprovante é aceito como prova de pagamento.

Também importantes: previsões e provisões para gastos do início de 2013
Todo ano começa com várias despesas mensais típicas de seu início, como as de matrícula escolar, compras de uniformes, livros e outros materiais escolares. Também há o IPTU reajustado  – sei que na cidade de São Paulo o reajuste será bem acima da inflação –,  e o IPVA e suas taxas acessórias. E há também o seguro de veículos, cuja conta poderá tardar, mas virá ao longo do ano.

E mais: pensar num balanço patrimonial e de resultados
Quem lida com administração de empresas ou acompanha o desempenho de uma ou mais delas, sabe que nesta época do ano estão muito ocupadas em fechar o seu balanço anual, que envolve uma avaliação do seu patrimônio e dos resultados anuais em termos de lucros ou prejuízos.

Defendo a idéia de que nas suas linhas gerais esse procedimento seja realizado também pelas pessoas. Seu primeiro item seria um levantamento patrimonial, incluindo imóveis, participações empresariais, disponibilidades financeiras inclusive valores a receber, descontadas dívidas e outras obrigações em aberto.  Na minha pregação, investimentos em educação e em saúde são também tratados no sentido patrimonial.

O objetivo é analisar como o patrimônio pessoal ou familiar evoluiu de um ano para outro. Se aumentou, houve poupança e investimentos. Se caiu, seria lamentável, pois houve aquilo que os economistas chamam de “despoupança”, um sacrifício de patrimônio para cobrir despesas acima das receitas. Em finanças pessoais, isso só é válido em circunstâncias excepcionais, como doenças ou acidentes, ou no caso de pessoas idosas, que estejam sacrificando patrimônio para manter ou melhorar suas condições de vida.  Afinal, um dos objetivos da poupança é o de atender necessidades como essas. Um segundo aspecto é o de examinar receitas e despesas, para refletir como aumentar aquelas e, se necessário, cortar gastos para ampliar a poupança. 

E, finalmente, mas muito importante, se o balanço recomendado mostrar que o hábito de poupar para prosperar não está solidamente arraigado, há que implantar esse hábito de forma definitiva. Se para isto a pessoa já tiver que começar com um fim de ano mais moderado nos gastos de consumo, em compensação irá terá anos novos financeiramente mais felizes.
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Roberto Macedo, CFP® (Certified Financial Planner), é economista formado pela USP com Mestrado e Doutorado na Universidade Harvard (EUA).  Foi Secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Fazenda e Planejamento, funcionário do Banco Central e do Banco do Brasil. E-mail: imprensa@bb.com.br. Este texto reflete a opinião do autor e não necessariamente a do BB; tem caráter apenas informativo, e não deve ser tomado como recomendação de subscrição, tomada de créditos, compra ou venda de ativos, decisões estas de responsabilidade exclusiva dos investidores.

13º salário: o que outras pessoas pretendem fazer - 18.11.2013
Nesta época do ano quem lê jornais regularmente encontra vários artigos e reportagens que têm como tema o quê fazer com o 13º salário. Especialistas sobre finanças pessoais costumam escrever ou serem perguntados sobre o assunto, o qual também já foi objeto de artigos meus neste espaço do site do BB igualmente na mesma época.

Desta vez, em lugar de repetir o mesmo procedimento, recorrerei a uma reportagem que em lugar de fazer recomendações ou entrevistar pessoas isoladas focou numa pesquisa de opinião envolvendo amostra de consumidores. O levantamento foi realizado entre os dias 21 e 31 do mês passado, com várias perguntas sobre o uso que eles pretendiam dar à primeira metade do 13º deste ano, usualmente paga no início de novembro. Várias alternativas foram oferecidas como resposta, como dar presentes, viajar ou poupar.

O 13º atrai interesse geral, tanto das muitas pessoas que o recebem como de comerciantes que veem nele uma oportunidade de expandir seus negócios e de bancos que buscam expandir as aplicações financeiras de seus clientes. E como representa um salário mensal adicional, é importante que as pessoas reflitam sobre o quê fazer com o dinheiro que recebem a esse título.
Os números sobre o 13º e seus beneficiários justificam esse interesse. Segundo o DIEESE (Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Sócio-Econômicos), 82,3 milhões de brasileiros receberão o 13º em 2013. Ele terá um valor médio de R$1.740,00 por trabalhador, totalizando R$143 bilhões à disposição dessas pessoas. Para uma ideia do que esse valor representa, ele é equivalente ao de  sete programas Bolsa-Família, que individualmente custa cerca de R$20 bilhões por ano. Ou seja, é dinheiro para ninguém botar defeito, e são muitas as partes envolvidas no que gira em torno do 13º.

No que se segue explicarei a natureza da referida pesquisa e suas conclusões. Mas, antes de prosseguir repetirei recomendações que usualmente faço quanto ao uso do 13º salário. São elas: (1) pagar dívidas, em particular as de juros mais elevados e de curto prazo; (2) a quitação parcial ou total de dívidas de longo prazo e de juros mais baixos, como as de financiamentos habitacionais, não devem constituir prioridade, exceto para pessoas que estiverem com o orçamento muito apertado em razão delas; (3) realizar um curso, um programa de aperfeiçoamento profissional ou um tratamento médico ou dentário adiados por falta de recursos;  (4) poupar dinheiro para recompor ou constituir um fundo para despesas imprevistas capazes de prejudicar a gestão do orçamento mensal, fundo esse com valor em torno de uns três salários mensais, que deve ficar numa aplicação de liquidez imediata como a caderneta de poupança, ou fundos de investimento, CDBs e  outras aplicações com idênticas características, desde que com rendimentos líquidos superiores às da referida caderneta; (5) se a pessoa dispuser de crédito de fácil acesso a juros baixos para atender a essas emergências, como o crédito consignado, tal fundo poderá ser menor ou mesmo dispensado; (6) poupar para investir com objetivos de prazo mais longo, como para dar entrada num financiamento habitacional, e custear a educação própria e dos familiares.

A pesquisa sobre o uso da primeira parcela do 13º  
Ela é realizada anualmente pela Associação Comercial de São Paulo (ACSP) com a colaboração do Ipsos, um instituto especializado em pesquisas de opinião. 2013 foi o quinto ano consecutivo de realização da pesquisa, feita por amostragem de cobertura nacional.

O levantamento mostrou os resultados apresentados na tabela a seguir, conforme publicados pela ACSP, inclusive no seu jornal, o Diário do Comércio.
 
Respostas de consumidores quanto ao uso da 1ª parcela do 13º salário
Por tipo de uso, segundo participação no total de respostas, em %

Resposta
2009
2010
2011
2012
2013
Pagar dívidas
31,7
27,2
28,9
32,6
24,5
Dar presentes
29,3
24,0
17,8
18,7
18,4
Poupar
14,6
18,2
18,8
16,3
20,4
Viajar
4,9
9,1
7,8
9,3
6,1
Reformar/construir moradia
4,9
2,3
5,6
4,7
4,1
Comprar roupas
2,4
2,3
2,2
-(*)
2,0
Comprar carro
-
2,3
-
-
-
Alimentos/festas
4,8
0
2,2
2,3
2,0
Móveis
-
-
1,1
-
-
Não sabe
7,4
14,6
15,6
16,1
22,5
Fontes: ACSP e IPSOS. (*) As células da tabela com este traço estavam em branco na reportagem, a qual não esclareceu se as respectivas porcentagens seriam zero ou se as perguntas não constaram pesquisa. De qualquer forma, nesses casos os valores das respostas foram de pequena magnitude nos demais anos, e a análise do texto se limitou apenas às respostas de maior porcentual.

Olhando as linhas onde as porcentagens são maiores, os principais resultados da tabela foram: (1) em 2013 a redução da parcela de pessoas que pretende usar o 13º para pagar dívidas e o aumento da porcentagem das que revelam disposição de poupar; segundo a reportagem, a redução da primeira estaria ligada à redução da inadimplência, com a ACSP dispondo de dados a respeito; (2) a porcentagem das respostas que indicam a disposição de presentear mostra tendência de queda, e a mesma ACSP atribuiu isto à queda da confiança do consumidor avaliada com seu índice que a mede, bem como à “desaceleração da massa salarial”, ou seja, do crescimento dela. Creio que após a crise de 2008-2009 e com o crescimento econômico mais fraco que sobreveio desde 2011, as pessoas estão mais cautelosas no gastar. Assim, essa redução da inadimplência e a maior disposição a poupar mostra que as pessoas estão percebendo por si mesmas a necessidade de fazer isto, ajustando seu comportamento. (3) Verifica-se que é relativamente e vem aumentando a proporção de pessoas que no final de outubro ainda declararam não saber o que fazer com a primeira parcela do 13º, o que indica falta de planejamento financeiro e o risco de gastos decididos sem maiores cuidados.

Mas, e se a economia melhorar?
A maior disposição de pagar dívidas e de poupar mais é comum quando o desempenho da economia de um país demonstra dificuldades ou está difundida a perspectiva delas no futuro.  Isto pode até contribuir para agravar crises econômicas, se as famílias reduzirem com vigor sua disposição de consumir ou de investir em ativos reais, como imóveis, pois a produção sofrerá a redução correspondente. Contudo, na gestão das finanças pessoais o ideal é que as pessoas aproveitem os períodos de melhor desempenho da economia e de suas finanças para poupar mais sem sucumbir então às tentações do consumo exagerado. É mais fácil poupar nessas circunstâncias, o que permite acumular recursos para também contar com eles em tempos de dificuldades. Se estes não vierem, ótimo; se vierem, a travessia deles não será tão difícil.
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Roberto Macedo, CFP® (Certified Financial Planner), é economista formado pela USP com Mestrado e Doutorado na Universidade Harvard (EUA).  Foi Secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Fazenda e Planejamento, funcionário do Banco Central e do Banco do Brasil. E-mail: imprensa@bb.com.br. Este texto reflete a opinião do autor e não necessariamente a do BB; tem caráter apenas informativo, e não deve ser tomado como recomendação de subscrição, tomada de créditos, compra ou venda de ativos, decisões estas de responsabilidade exclusiva dos investidores.

A consultoria de finanças pessoais massificada via internet - 11.11.2013
Nos EUA houve o fechamento, de uma consultoria de finanças pessoais via internet, a Nestwise, voltada para a classe média mediante pagamento, pouco mais de um ano após iniciar suas atividades. Este artigo examinará a natureza da Nestwise, suas dificuldades e razões do fechamento. Referência será feita a outras consultorias similares e ativas, e avaliadas as perspectivas dessa atividade, inclusive no Brasil.

A Nestwise, suas virtudes e dificuldades
A internet pode servir como tecnologia para difundir a educação financeira, para praticá-la e para obter consultoria nessa área. O nome da Nestwise era chamativo. Em inglês,  “nest” quer dizer ninho, e no sentido figurado o termo é usado em finanças pessoais onde “nest egg”, ou ovo no ninho, diz respeito a uma quantia de dinheiro poupada para uso futuro. “Wise” é adjetivo que significa ter bom senso e capacidade para compreender um assunto e decidir acertadamente quanto a ele. Adjetivando “nest”, este já com significado financeiro, significa que o serviço era oferecido a clientes interessados em atuar com essa sabedoria.

Era uma plataforma de uma corretora de valores, a LPL, que ao fechá-la afirmou que os recursos nela utilizados poderiam ser usados com melhores resultados em outras áreas de seus negócios. Ou seja, não era rentável para a LPL.

O jornal Valor do dia 29/10/13 mostrou entrevista de uma executiva da LPL sobre a Nestwise.  Entre outros aspectos afirmou que: (a) a maioria das consultorias existente nos EUA é voltada para pessoas com mais de 250 mil dólares para aplicar, que representam parcela pequena da população; (b) em geral tais consultorias procuram assegurar maiores rendimentos, o que leva a maiores riscos, enquanto que o pequeno investidor é menos propenso a se arriscar e quer resultados mais previsíveis; (c) continua acreditando na idéia de um atendimento massificado e pago via internet, combinado com conversas por telefone, mas ainda não está claro como virá esse serviço; (d) a plataforma ensinava conhecimentos financeiros a seus clientes e também a praticá-los, com um programa composto de vídeos, e-mails e outras atividades, e seus consultores seguiam os progressos de seus clientes; (e) quanto ao preço, e usando uma taxa de R$2,30 por dólar, cobrava R$575 por um roteiro de planejamento financeiro para o cliente a partir das informações recebidas dele, e R$1.323 por ano pela consultoria contínua nesse período, pagos de uma vez só ou em prestações; (f) a entrevistada achava os valores acessíveis para a clientela dos EUA, mas esta se mostrava mais propensa a ter apenas o roteiro citado do que a consultoria em caráter contínuo; (g) sobre sites de consultoria que oferecem serviços usando modelos matemáticos alimentados pelas informações de clientes num processo que automaticamente fornece as recomendações, ela se mostrou cética, pois acha que as pessoas se dispõem a usar a internet, mas querem conversar sobre o assunto; (h) a questão está em ajudar as pessoas dessa forma e a um custo baixo.

Um teste de consultorias
Quanto a isto encontrei outra reportagem interessante, mas disponível apenas em inglês.* Aproveito para mais uma vez recomendar que o aprendizado dessa língua é um bom investimento cultural, com benefícios também financeiros. Sem ele ficam fechadas as portas de acesso a um  imenso conjunto de conhecimentos só disponível nessa língua.

A reportagem foi publicada pelo Wall Street Journal em 28/10/12, na sua versão para a internet. Foi elaborada por uma jovem jornalista, que usou suas próprias características financeiras para analisar serviços de três sites: LearnVest.com, planandact.com e o ainda então existente nestwise.com. As características da repórter eram bem simples: solteira, na faixa dos 20 anos, poupadora habitual, mas sem fazer orçamentos e sem dívidas. Exceto a do cartão de crédito, na maioria das vezes quitada totalmente a cada mês. E com dois objetivos principais, ampliar seu fundo para emergências e poupar para adquirir um apartamento.

Não tenho espaço nem seria cabível repetir tudo que ela escreveu, o que será resumido nuns poucos aspectos dos dois primeiros sites da lista da repórter. LearnVest.com é voltado para mulheres, cobrava então R$205 para um pacote simples de planejamento, R$803 para um de cinco anos e R$1.378 para orientar investimentos, mas sem dizer por quanto tempo. Ela ficou apenas com o primeiro, alimentado com informações como seu saldo bancário e gastos pessoais. E teve o direito de consultar com um planejador financeiro, com o qual falou por 40 minutos em dois dias. Teve também acesso a uma plataforma para acompanhar seu progresso.

O site enfatiza o hábito de poupar, e produziu um plano em que, no máximo, 50% do salário líquido de impostos iriam para gastos essenciais, como alimentação. E, também no máximo, 30% para gastos de escolha pessoal, como em shoppings e refeições fora de casa. O restante deveria ir para a poupança ou quitar débitos.      

No planandact.com ela optou por um pacote de R$458, mais caro que o escolhido na LearnVest, e recebeu um com dezenas de páginas, inclusive sobre planos de aposentadoria. Mas, entre outros aspectos, achou o pacote inadequado à sua limitada condição financeira, embora com algumas recomendações úteis, mas outras em linguagem e gráficos difíceis de entender. E principalmente, sem ter a quem recorrer para buscar explicações.      

Conclusão, inclusive para o Brasil
O uso da internet para prover tecnologias e práticas de planejamento financeiro mediante pagamento ainda está nos seus primórdios mesmo nos EUA, e não surpreende que um dos serviços lá oferecidos tenha sido interrompido. Aqui no Brasil, desconheço tentativas de oferecê-los com pagamento pelos clientes.  Se algum leitor souber de um ou mais desse tipo, favor informar pelo e-mail indicado ao final deste artigo.

Acho temerário alguém adentrar um desses sites sem uma base de educação financeira e no Brasil a principal questão hoje é a de disseminá-la. Quanto a isto, creio que a internet é uma ferramenta útil, mas neste estágio será muito mais eficiente se seguir na forma de cursos online semipresenciais, que combinam a internet com encontros dos alunos com seus professores. Tudo indica que as pessoas querem conversar tanto para aprender mais como para ter a segurança de que há um ser humano a quem recorrer para obter outros conhecimentos e dirimir dúvidas.

O custo de um site com esse atendimento pessoal seria alto e o preço cobrado desencorajaria muitos usuários potenciais.  Uma saída seria sustentá-lo com  doações de filantropos ou patrocínios institucionais, estes não acoplados à recomendação de seus próprios produtos financeiros, pois isto poderia afastar potenciais interessados.
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Roberto Macedo, CFP® (Certified Financial Planner), é economista formado pela USP com Mestrado e Doutorado na Universidade Harvard (EUA).  Foi Secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Fazenda e Planejamento, funcionário do Banco Central e do Banco do Brasil. E-mail: imprensa@bb.com.br. Este texto reflete a opinião do autor e não necessariamente a do BB; tem caráter apenas informativo, e não deve ser tomado como recomendação de subscrição, tomada de créditos, compra ou venda de ativos, decisões estas de responsabilidade exclusiva dos investidores.
*www.online.wsj.com/news/articles/SB10000872396390444897304578044463495332232


Educação financeira da teoria à prática - 04.11.2013
Há várias formas de passar por essa educação, mas ficar só no aprendizado não basta. É preciso firmar na cabeça das pessoas a ideia de que uma boa educação não envolve apenas ensinamentos a mais, às vezes ignorados na prática ou esquecidos. Como, por exemplo, alguns que aprendemos nas escolas na infância e na juventude, como as equações do segundo grau e os sistemas de equações simultâneas ensinados nos cursos de Matemática.

Quem ensina precisa abordar tanto a teoria como a prática da educação financeira e ressaltar a utilidade do que está ensinando. Quem está a aprender deve absorver e praticar permanentemente os ensinamentos no seu dia a dia, sem o que serão esquecidos e essa utilidade será prejudicada.

O texto a seguir começa esclarecendo a relação entre teoria e prática, tanto em termos gerais como no campo das finanças pessoais, e explicita novamente a opção deste autor pela teoria das finanças comportamentais.  Em seguida, dentro dessa opção enfatiza a importância do “uso da teoria na prática” para reforçar a importância prática de teorias, pois são frequentemente abominadas por estudantes e pessoas em geral, como algo abstrato e inútil.

Ao final, argumenta-se  que as pessoas devem ter uma boa visão do lado teórico das finanças pessoais, e na prática focar em aspectos específicos de suas decisões, como as de poupar, de buscar um financiamento imobiliário e de usar cartões de crédito. Fazendo isto perceberão melhor a utilidade da teoria, aprenderão mais ao praticá-la, e estarão sempre utilizando e reciclando seus conhecimentos para não esquecê-los.

Teoria e prática em geral e nas finanças pessoais
Teoria e teórico são termos que têm vários significados, que incluem até uma visão negativa ou pejorativa. Meu dicionário ocupa dois terços de uma página de 25 por 20cm com letrinhas miúdas a falar de teorias e do teórico. Antes de descer ao detalhes de teorias disto ou daquilo, a página apresenta 11 significados para o termo teoria enquanto tomado isoladamente. O primeiro define-o como um “conjunto de regras ou leis, mais ou menos sistematizadas, aplicadas (ênfase nossa) a uma área específica”. Note-se que essa definição já embute uma noção de aplicação,  e deixa claro que não existe uma teoria para tudo. A teoria de nosso interesse é a aplicada às finanças pessoais.

Dentre os demais conceitos de teoria há este da filosofia grega: “conhecimento de caráter estritamente especulativo, desinteressado e abstrato, voltado para a contemplação da realidade em oposição (ênfase nossa) à prática e a qualquer saber técnico ou aplicado”. Vale mencionar essa visão porque deve ter influenciado a percepção negativa ou defensiva que muitos têm de teorias. Ao passar ao termo teórico, um dos nove significados é o do “individuo que baseia sua prática na teoria, no conhecimento abstrato”. Seguem-se conceitos que dão caráter pejorativo a teórico: “indivíduo que exagera nessa tendência”, e aquele que se guia por utopias.

Sigo o primeiro significado de teoria inicialmente citado, sempre com a preocupação de cotejá-la com o que é observado na realidade, tendo como objetivo  buscar lições capazes de levar a uma melhor gestão das finanças pessoais.

Quanto às teorias voltadas para essa área, nosso artigo anterior mostrou, com mais detalhes, que há a teoria tradicional, que vê o ser humano sempre a tomar decisões racionais, e a teoria comportamental. Esta última, a de preferência deste economista,  argumenta que a racionalidade humana é limitada, com freqüência levando a pessoa a tomar decisões inconvenientes para si mesma. Um exemplo clássico ocorre quando o comportamento leva a pessoa a sucumbir às tentações do consumo sem racionalmente fazer a adequada provisão para viver dignamente quando idosa e aposentada. 

O uso da teoria das finanças comportamentais na prática
Tomando-se esse mesmo exemplo, a lição é que essa provisão deve ser feita, cabendo mudar o comportamento pessoal para alcançar esse objetivo. Passando a regras com essa finalidade, sugere-se, entre outras,  que as pessoas se inscrevam em sistemas de previdência social oficiais, como o INSS, e que busquem também planos de previdência privada como os oferecidos por algumas empresas a seus empregados e por instituições financeiras ao público em geral. Ou, ainda, que de alguma outra forma ampliem seu patrimônio para beneficiar-se dele nessa fase da vida.

Noutro exemplo de comportamento irracional, quem aposta em loterias deveria examinar racionalmente a probabilidade matemática de ser premiado. Tomando-se como exemplo a Mega Sena, essa probabilidade é de apenas uma entre 53 milhões para a aposta de apenas seis números. Mas, as pessoas usualmente pensam simplesmente que “se fulano ganhou eu também posso ganhar”, quando o racional seria perceber que “milhões perderam eu também devo perder”, pois apenas um ou pouquíssimos apostadores são premiados em cada sorteio com o prêmio maior.  Se houvesse essa percepção, as pessoas apostariam menos, ou pelo menos optariam mais por “bolões” onde sua probabilidade de ganhar continua mínima, mas maior do que nas apostas de apenas seis números.

Aprender em situações específicas e praticar sempre
Em princípio, é possível aprender só pela prática, observando-se os sucessos e fracassos de cada experiência. Mas, isto toma mais tempo, a realidade é complexa, e as pessoas podem continuar sem entender as razões de uma coisa ou outra. No caso das finanças pessoais, fracassos significam prejuízos e suas abomináveis conseqüências.

Assim, é melhor refletir sobre como as decisões são tomadas e quais serão as suas consequências. Isto, antes de tomá-las. É isso que uma teoria, como essa das finanças comportamentais, procura fazer.  Assim, é recomendável aprender sobre o assunto por meio de livros, artigos, cursos, palestras, internet e outros meios que fornecem conhecimentos a respeito.  Além disto, é preciso recolher informações sobre cada objeto de decisão, para conhecê-lo detalhadamente, seja na escolha de um aparelho eletrodoméstico, ou na aquisição de um financiamento imobiliário.

Assim, para não esquecer o aprendizado, para reforçá-lo e buscar as melhores decisões,  o recomendável é que a pessoa esteja sempre a refletir teoricamente, a absorver conhecimentos como esses da teoria das finanças comportamentais. E aplicá-los de forma segmentada nas várias decisões financeiras tomadas no dia a dia, como ao poupar, consumir, e investir. E tudo no detalhe, como ao examinar os recursos disponíveis, ir ao supermercado, aos shoppings, pagar impostos, usar o cartão de crédito ou o de débito, tomar empréstimos e financiamentos examinando especificidades como a capacidade pessoal de pagamento e os juros, nessas e noutras decisões financeiras que as pessoas estão sempre a fazer.  
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Roberto Macedo, CFP® (Certified Financial Planner), é economista formado pela USP com Mestrado e Doutorado na Universidade Harvard (EUA).  Foi Secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Fazenda e Planejamento, funcionário do Banco Central e do Banco do Brasil. E-mail: imprensa@bb.com.br. Este texto reflete a opinião do autor e não necessariamente a do BB; tem caráter apenas informativo, e não deve ser tomado como recomendação de subscrição, tomada de créditos, compra ou venda de ativos, decisões estas de responsabilidade exclusiva dos investidores.

Interesse por finanças comportamentais cresce entre planejadores financeiros - 28.10.2013
Conforme meu último artigo neste espaço, mais uma vez participei,  nos EUA,  do encontro anual de planejadores financeiros que têm a certificação internacional conhecida como CFP® - Certified Financial Planner (Planejador Financeiro Certificado). Trata-se da maior reunião internacional e anual desses profissionais.

Um dos aspectos marcantes do encontro foi a ampliação do interesse pelo enfoque analítico conhecido como de finanças comportamentais. No que se segue, de forma resumida explicarei a natureza peculiar desse enfoque e relativamente ao tradicional. E falarei sobre a ampliação do interesse pelas finanças comportamentais.   

Finanças comportamentais e a visão tradicional
Começando pela visão tradicional, ainda dominante, particularmente no meio acadêmico, ela se baseia na concepção de que o ser humano é racional, bem informado, sempre a fazer cálculos corretos em busca de tirar o máximo proveito dos recursos de que dispõe. E opera em mercados financeiros que funcionam sem distorções.

Economistas praticantes dessa visão acreditam na lógica com que ela descreve o comportamento econômico do ser humano. E, também, que na prática se revela robusta para prever esse como ele se comporta em suas escolhas.

Como contraponto, surgiu em meados do século passado a visão da economia comportamental. E, dentro dela, a versão financeira, conhecida como finanças comportamentais, a seguir referida como o enfoque das FCs.  Ele questiona a hipótese de racionalidade humana. Foi desenvolvido por psicólogos isoladamente ou em conjunto com economistas. E estes, como no meu caso, recorrendo a ensinamentos da psicologia para entender melhor o comportamento financeiro das pessoas.

O enfoque das FCs não chega ao absurdo de argumentar que as pessoas são irracionais, o que seria negar a própria existência do ser humano. Contudo, com base em teorias e experimentos, seus formuladores argumentam que a racionalidade do ser humano é limitada. Ao explicar isto, aponta-se que o ser humano pensa segundo dois sistemas: um instintivo, automático e mais rápido, herdado da sua condição de animal, e assim nem sempre provido de racionalidade. O outro sistema veio com o desenvolvimento do ser humano e é mais lento, analítico, deliberado e racional.

Um exemplo da diferença entre os dois enfoques
Tome-se a poupança, cuja necessidade é central na gestão das finanças pessoais. Dentro do pressuposto de racionalidade, ao longo da vida uma pessoa deveria poupar o suficiente para atender às suas necessidades quando idosa e aposentada. Mas, frequentemente isto não ocorre. Entre as razões está o fato de que muitas pessoas sucumbem às tentações do consumo, em decisões onde predomina seu sistema instintivo de agir.  Percebendo isto os governos de muitos países criaram sistemas compulsórios de previdência social, como o nosso INSS. Com suas contribuições para esses sistemas, as pessoas foram obrigadas a poupar de forma a garantir rendimentos nas fases mais avançadas da vida. Para estimulá-las a fazer isto, os governos também contribuem para manter sistemas desse tipo.

Noutra demonstração de racionalidade limitada, pesquisas realizadas nos EUA mostraram que diante da oportunidade de se associarem a planos de previdência privada com contribuições de empregados e empregadores –  para o que era necessário uma manifestação pessoal –, muitas pessoas procrastinavam sua adesão a eles, perdendo assim o benefício da contribuição dos empregadores. Percebeu-se também que a adesão aos planos aumentava bastante quando a regra de adesão passou a ser a de que a pessoa que não se manifestasse em contrário estaria automaticamente inscrita.

O enfoque das FCs no encontro anual referido inicialmente
Três sessões recorreram especificamente a esse enfoque. Uma delas teve como título “Tornar mais fácil para os clientes (dos CFPs®) o entendimento de como se comportam economicamente”. O objetivo, para que tomem melhores decisões.

Na mesma linha, houve a palestra intitulada “Outra dimensão do risco: o risco comportamental”. Como risco comportamental, o palestrante, Jay Mooreland, identifica o caso de investidores que afirmam uma coisa ao preencherem formulários com seus perfis de risco, mas fazem outra completamente diferente. Como consultor, ele se dispõe a ajudar  CFPs® a identificar distorções comportamentais dos investidores com o objetivo de  entendê-los melhor,  e de oferecer-lhes investimentos que atendam às suas necessidades específicas. Mooreland tem uma empresa de consultoria com o nome de “O investidor emocional”, o que dá uma idéia das questões de que se ocupa. Conversando com ele após a palestra, recebi seu cartão de visita onde se identifica como Economista Comportamental. Foi a primeira vez que vi alguém explicitando essa condição, o que indica a existência de mercado para o serviço que oferece.

Outra palestra que seguiu o enfoque das FCs foi a de uma analista de um fundo de investimento, divulgando os serviços que ele presta,  e revelando que esse enfoque também é adotado por instituições que atuam no mercado financeiro. O título: “Mudando o enquadramento: ajustando a arquitetura de escolha para ajudar os clientes.” A palestrante partiu de uma percepção do enfoque das FCs, pela qual as pessoas tendem a fazer uma “contabilidade mental”, separando diferentes quantias de dinheiro para diferentes objetivos. No enfoque tradicional, este comportamento é visto com restrições, pois a racionalidade desse enfoque implica em atuar no sentido de tirar o melhor proveito possível de seus ativos, tomados como um todo e alocados em aplicações de modo a alcançar esse objetivo. Mas, como o enfoque das FCs constata que as pessoas se sentem confortáveis com sua “contabilidade mental”, recomenda-se que façam isto separando, por exemplo, recursos para adquirir casa própria, educação dos filhos, aposentadoria e emergências, e buscando a melhor alocação em cada caso.

Em síntese...
Pelo que percebi no evento, hoje o enfoque das FCs é visto com naturalidade, e não como uma novidade encarada com ceticismo, como nos seus primórdios.  Além disto, também já é evidente sua utilidade prática, como em serviços de consultoria e na formulação de produtos financeiros oferecidos por instituições do mercado.

Ao lado da fundamentação teórica e dos experimentos científicos do enfoque das FCs, aconteceu algo muito importante que também serviu para consolidá-lo como uma visão alternativa à tradicional, atraindo atenção e utilização. Foi a crise que com epicentro nos EUA eclodiu nos mercados financeiros mundiais em 2008, pois na sua gestação e no seu surgimento evidenciaram-se comportamentos nada racionais por parte de investidores e de instituições financeiras atuantes no mercado.
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Roberto Macedo, CFP® (Certified Financial Planner), é economista formado pela USP com Mestrado e Doutorado na Universidade Harvard (EUA).  Foi Secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Fazenda e Planejamento, funcionário do Banco Central e do Banco do Brasil. E-mail: imprensa@bb.com.br. Este texto reflete a opinião do autor e não necessariamente a do BB; tem caráter apenas informativo, e não deve ser tomado como recomendação de subscrição, tomada de créditos, compra ou venda de ativos, decisões estas de responsabilidade exclusiva dos investidores.
O encontro anual de planejadores financeiros da FPA - 21.10.2013
De novo participei,  nos EUA,  do encontro anual de planejadores financeiros que têm a certificação internacional conhecida como CFP® - Certified Financial Planner (Planejador Financeiro Certificado). Foi promovido pela Financial Planning  Association (Associação de Planejamento Financeiro - FPA), que reúne os CFP®s dos EUA, onde a certificação teve origem e há o maior número de certificados.

Tenho essa certificação conforme consta do meu mini-CV no final deste artigo. O Banco do Brasil a exige de quem escreve artigos como este no seu site. Inicialmente, vou explicar mais uma vez a natureza dela.

CFP®: o que é a certificação
Há instituições certificadoras em 24 países. No Brasil quem faz isto é o IBCPF (Instituto Brasileiro de Certificação de Planejadores Financeiros), ligado à Anbima (Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiros e de Capitais). Fundado há uma década, neste ano atingiu a marca de 1.300 CFP®s.

Mundialmente há cerca de 150 mil e o Brasil é o país onde ocorre a maior taxa de crescimento. A certificação é conferida a pessoas de nível educacional superior, de qualquer área, desde que passem pelo exame exigido. Por exemplo, sei de dois médicos que têm a certificação e no Brasil trabalham em cooperativas de crédito que têm médicos como sócios. Para maiores informações sobre a certificação, pode-se consultar o site www.ibcpf.org.br.

A certificação é pessoal. Nos EUA um grande número de CFP®s presta consultoria financeira a pessoas. No Brasil, os CFP®s trabalham predominantemente em instituições financeiras.  Mas, um número crescente deles também já presta serviços a indivíduos. A certificação precisa ser atualizada a cada dois anos. Para tanto, o profissional precisa demonstrar que passou por programas de educação financeira continuada, entre outros requisitos.

O evento nos EUA
Uma característica do encontro anual da FPA é o seu grande tamanho, tanto pelo local em que se realiza, como pelo número de participantes que atrai, e pelo conteúdo e qualidade do programa e dos palestrantes. Desta vez o local foi um enorme centro de convenções em Orlando, no estado da Flórida, e o congresso teve cerca de 2.000 participantes, entre eles dezenas de participantes vindos de 20 outros países.  Um dos auditórios tinha capacidade de 2.675 pessoas, e esteve quase cheio numa das sessões de interesse geral.

Quanto ao conteúdo, nas duas sessões desse tipo a primeira teve como tema “Vender é Humano”, apresentado por Dan Pink, um autor que tem se destacado em estudos sobre as mudanças no mundo do trabalho. Em 2011 a Revista de Negócios da Universidade Harvard o apontou como um dos 30 maiores pensadores mundiais nessa área. Entre outros aspectos, ele ponderou que todos nós somos vendedores ao oferecer alguma coisa em troca de alguma recompensa. E argumentou também que os consumidores têm hoje um acesso muito maior a informações. Assim, o foco dos negócios deve ser não tanto no comprador como no passado, mas no vendedor que precisa estar mais capacitado para convencer seus clientes.

A  segunda palestra de interesse geral focou no tema “A média deixou de valer”. Foi apresentada por Tyler Cowen, professor de Economia da universidade  George Mason University. A revista The Economist o colocou entre os mais influentes economistas da década. Ele mostrou que as forças econômicas, demográficas e financeiras vão definir países perdedores e ganhadores em áreas tão diferentes como educação, energia e mercados globais, com o que o desempenho médio perderá significado. Mostrou-se cético com relação ao futuro da zona do Euro e entre os ganhadores apontou EUA, China, Índia, Colômbia e Brasil.

As demais sessões
As demais 75 sessões concentraram-se em temas ligados às atividades típicas dos CFP®s e como parte de seu programa de educação continuada. Cada participante tinha um crachá lido eletronicamente na entrada de cada sessão, registrando sua presença e atribuindo-lhe pontos a serem usados ao renovar a certificação.

Entre os temas abordados, houve os ligados à prestação de serviços pelos CFP®s, como marketing e regras legais de suas atividades, e a serviços para clientelas e necessidades específicas, como jovens, idosos, planejamento de aposentadoria, sucessão empresarial e casos de herança, entre outros.

Chamou-me a atenção o fato de que um dos temas predominantes, com quatro sessões, foram questões financeiras de famílias com pessoas em estágios avançados e terminais de doença, ou de clientes nessa condição. Provavelmente isto ocorreu porque os EUA estão se tornando um país com maior porcentagem de idosos, e há também a dificuldade de que muitos não têm assistência médica adequada. Este é um assunto em que o Presidente Obama tem se empenhado em aliviar, mas enfrenta forte oposição política, principalmente na Câmara dos deputados, dominada pelo partido de oposição. 

Casados do mesmo sexo e relações matrimoniais estáveis também receberam atenção específica, bem como negócios familiares da comunidade latina e divorciados. Tudo isto reflete aspectos do quadro social do país. Com tantos CFP®s nos EUA muitos procuram se especializar em nichos específicos de mercado.

Um desses nichos é o dos divórcios. Nele atua o Instituto de Analistas Financeiros de Divórcios (Institute for Divorce Financial Analysts). Ele teve um stand no evento para divulgar sua certificação, conhecida como CDFA (Analista Financeiro de Divórcios Certificado). Fundado há 20 anos atrás já credenciou 5 mil profissionais.

Dados meus interesses e o “cardápio” oferecido pelo evento, concentrei minha atenção em temas como economia comportamental, gestão de risco e o que se passa na China. Houve também diversas sessões em que empresas e outras instituições expunham seus serviços.  Fizeram-no também numa feira com 103 estandes individuais, onde apresentavam suas ofertas, como softwares de planejamento financeiro pessoal, fundos de investimentos e programas educacionais. Quanto a estes, de novo percebi a presença de universidades que oferecem bacharelados em planejamento financeiro e alguns programas de pós-graduação na mesma área, alcançando até o doutorado.

Desta vez o tema educação financeira da população não teve o destaque recebido no evento de 2012. Mas, isto não significa que perdeu importância. Aliás, o foco do evento é a educação financeira continuada. Ainda que dirigida aos CFP®s, estes estão sempre a difundir seus conhecimentos. São tantos os temas de interesse deles e de seus clientes que a pauta de cada ano tem que ser flexível e tratar sequencialmente de vários temas.
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Roberto Macedo, CFP® (Certified Financial Planner), é economista formado pela USP com Mestrado e Doutorado na Universidade Harvard (EUA).  Foi Secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Fazenda e Planejamento, funcionário do Banco Central e do Banco do Brasil. E-mail: imprensa@bb.com.br. Este texto reflete a opinião do autor e não necessariamente a do BB; tem caráter apenas informativo, e não deve ser tomado como recomendação de subscrição, tomada de créditos, compra ou venda de ativos, decisões estas de responsabilidade exclusiva dos investidores.

Os riscos de ser avalista ou fiador - 14.10.2013
Às vezes uma pessoa recebe pedidos de aval ou fiança vindos de parentes e amigos. É mais assediada a que tem um ou mais imóveis quitados com escrituras definitivas e rendimentos pessoais também adequados à garantia solicitada. As mais comuns são para fiança de aluguel de imóveis, aval de empréstimos e de  financiamentos de bens duráveis.    

Há quem atenda solicitações desse tipo sem maior avaliação da natureza dos contratos e dos riscos financeiros envolvidos. Alguns contratos, mesmo os mais simples, têm letras miúdas e uma linguagem jurídica de difícil compreensão pelo cidadão comum.  Mesmo compreendendo-os, muitos fiadores e avalistas não fazem avaliação cuidadosa do risco de inadimplência da pessoa a quem prestam um favor “assinando em baixo”, como se diz usualmente.  Concretamente, não conhecem bem a renda, o patrimônio e muito menos as demais operações em que essa pessoa já assinou em cima, com ou sem outros fiadores e avalistas, pois são informações de difícil obtenção.

Como não conhecem, há avaliações focadas apenas na personalidade do solicitante. Como esta: “fulano sempre pagou suas dívidas, é honesto, trabalhador, é meu amigo (ou  parente), e não me faria uma coisa dessas, de eu ter que pagar seus compromissos.” 

Vou apontar riscos envolvidos com maior atenção na fiança de aluguel, na qual tenho experiência, pois já fui fiador algumas vezes. Numa delas, tive que pagar alguns meses de aluguel, despesas de condomínio e outras. Quanto ao aval, no meio social em que circulo notei que com a expansão do crédito consignado os pedidos de aval praticamente desapareceram.  Mas, surgiu um fato novo, de pessoa que pede a um parente ou amigo fazer “um consignado”, e passar a ela o dinheiro, comprometendo-se a pagar as prestações mensais a quem tomou o empréstimo. Algumas das ponderações que se seguem também se aplicam a este caso.
   
As consequências podem ser terríveis
Mesmo se a pessoa que recebe a garantia seja 100% correta, há a possibilidade de que venha a ficar seriamente doente ou mesmo falecer, sem que seus responsáveis ou herdeiros necessariamente tenham ciência de seus compromissos com o garantidor. E mesmo se souberem, poderão não honrá-los, e a dívida ficará com o avalista ou fiador.

Os casos mais comuns, entretanto, são de vivos, ou até muito vivos, que não pagam.  Aí o que pode falecer é a amizade que levou à solidariedade no débito.  E há até parentes que não mais se olham. Meu prejuízo foi com um amigo de quatro décadas. Fui seu fiador, mas ele deixou de pagar o aluguel, e tive que assumir seus débitos. Mas, pelo menos deixou o apartamento após alguns meses reduzindo o ônus que me coube. Em seguida sumiu, sem responder meus e-mails de cobrança.

Nos casos mais graves, a inadimplência do avalizado ou afiançado pode levar também à do avalista ou do fiador.  A má notícia pode vir com um telefonema de quem recebeu o favor, dizendo que não deu para pagar por essa ou aquela razão, e que conta com a compreensão do interlocutor, sem explicitar que conta mesmo é com o dinheiro dele.  Mesmo não contando, há o credor que vem atrás.     Outras vezes, há o aviso de um serviço de proteção ao crédito.  Dependendo do contrato, vêm também protestos, intimações judiciais e outros inconvenientes.

E há coisas piores, quando as perdas do garantidor se tornam insuportáveis e alcançam até o seu patrimônio, em parte ou no todo, o que é mais comum entre pessoas mais pobres. Todos esses cenários abomináveis são para advertir quanto aos riscos de uma assinatura mal pensada.
 
Receita: evitar ou avaliar o risco suportável
Escapar do pedido é o caminho mais seguro. Há casos, porém, em que o aval ou a fiança se justifica.  Mas, conforme já assinalado, é difícil avaliar o status de crédito, presente e futuro, da pessoa que receberá o favor. E há circunstâncias imprevisíveis, como morte ou doença dela. Por isso mesmo, sugiro uma regra simples, que serve para recusar pedidos que não se enquadram nela, caso em que a resposta seria: “Sinto muito, mas não tenho condições”.

A regra consiste em pensar no pior cenário e só assinar “em baixo” quase como se tivesse assinando em cima.  Ou seja, avaliar se terá condições de arcar com o ônus total previsto, mas apenas com uma parte suportável de sua renda e não com seu patrimônio, se vier a inadimplência do avalizado ou afiançado. Com o prejuízo que tive, perdi a amizade, mas como trabalhei com essa regra, o ônus foi suportável.

Na fiança de aluguel, há também uma saída que consiste em responder uma pergunta com outra.  Quando ouvir “Você poderia ser meu fiador?” sugiro responder: “Por que V. não faz uma caução em dinheiro ou um seguro de aluguel”?

Há gente que nem sabe que estas coisas existem. Quem quiser saber detalhes, pode procurar o significado desses termos nos sites de busca da internet. No caso do seguro de aluguel, encontrei até um simulador de seu custo e o alimentei com as seguintes informações conforme solicitadas: local: Brasília-DF; aluguel mensal: R$1.500,00; condomínio: R$350,0; IPTU mensal: R$100,00; consumo de luz: R$70,00; consumo de água e gás: incluído no valor do condomínio; mais coberturas adicionais de danos ao imóvel, multa por rescisão e pintura interna. O custo estimado foi de R$3.334,22 ou quatro prestações mensais de R$833,56. Dentro desta regra de cautela, seria o caso de o assediado considerar também a hipótese de cobrir logo esse custo, com o que já teria feito uma provisão para o ônus de uma inadimplência.

O simulador que examinei não pediu o prazo de vigência do seguro, o que precisaria ser esclarecido.  De qualquer forma, não o considero recomendável, pois o dinheiro não volta, mesmo que a pessoa pague em dia. Já a caução em dinheiro fica numa caderneta de poupança, que pode ser conjunta em nome do locador e do locatário. Conversei com uma administradora de imóveis que só cuida de contratos em que essa conta fica em nome da própria administradora, pois em caso de inadimplência sua movimentação é mais rápida.

Como gato escaldado, será difícil alguém me convencer a ser fiador de novo. Poderei até ajudar na formação dessa caução em dinheiro, mas já sabendo da perda em que posso incorrer, conforme a regra sugerida, e sem o compromisso de reconstituir a garantia.

Em síntese, aval e fiança envolvem riscos que poderão se materializar. Assim, é melhor não dar essas garantias. Se isto não for possível, se vier a má notícia deve-se ficar apenas com um ônus suportável, sem um sério comprometimento da renda e muito menos do patrimônio.  A saúde financeira pessoal agradecerá se preservada com a regra sugerida.
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Roberto Macedo, CFP® (Certified Financial Planner), é economista formado pela USP com Mestrado e Doutorado na Universidade Harvard (EUA).  Foi Secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Fazenda e Planejamento, funcionário do Banco Central e do Banco do Brasil. E-mail: imprensa@bb.com.br. Este texto reflete a opinião do autor e não necessariamente a do BB; tem caráter apenas informativo, e não deve ser tomado como recomendação de subscrição, tomada de créditos, compra ou venda de ativos, decisões estas de exclusiva responsabilidade do investidor.

Pobreza dificulta decisões financeiras - 07.10.2013
Um artigo científico publicado recentemente pela famosa revista Science (30-8-2013) testa e confirma a hipótese de que a pobreza dificulta a capacidade de raciocinar e de absorver conhecimentos, chamada de capacidade cognitiva. Em outras palavras, conclui-se que a condição de pobreza consume recursos mentais e deixa menor parte deles para outras funções cerebrais.

O artigo foi escrito por dois economistas e dois psicólogos, pesquisadores de universidades internacionalmente conhecidas: Harvard e Princeton, dos EUA, e Columbia Britânica, do Canadá. A revista citada é muito procurada por cientistas, tanto para ler como para publicar nela. Para se ter uma idéia da densidade do artigo, ele abrange dois estudos, tem apenas quatro páginas em letras miúdas e 44 referências bibliográficas.

Trabalhos realizados em conjunto por economistas e psicólogos se tornaram comuns com o desenvolvimento da chamada economia comportamental nos últimos 30 anos. Na sua essência esse enfoque rejeita o tradicional da analise econômica, inclusive financeira, o de que o ser humano sempre age racionalmente. Mas, a economia comportamental obviamente não poderia cair no outro extremo, e afirmar que o ser humano é irracional. Argumenta que ele tem uma racionalidade limitada, entre outras razões por comportamentos que remontam ao seu passado no reino animal, como ao seguir instintos. Tem também outras dificuldades, como a de expressar suas preferências de forma coerente, e ao decidir em condições de incerteza.

O que se segue é um breve resumo desse artigo que por natureza já é condensado. Serão destacadas questões conceituais e características dos dois estudos de que trata o artigo. Ao final me arriscarei a tirar dele uma implicação que não consta do seu texto.

Questões conceituais
O artigo se concentra nos processos mentais conforme afetados pela pobreza.  Aponta que a capacidade de raciocínio humano é limitada, e argumenta que preocupações com problemas financeiros exigem muito dessa capacidade deixando-a com menos recursos para orientar suas escolhas e ações. É muito importante esclarecer que no artigo a pobreza é definida como a diferença entre as necessidades pessoais e os recursos disponíveis para satisfazê-las. Com essa definição o artigo é focado em saber como as preocupações financeiras ampliadas com o aumento dessa diferença absorvem a referida capacidade. Note-se que  essa definição de pobreza deixa de lado a questão de saber se ela deve ser definida em termos relativos ou absolutos em comparações interpessoais. Como se verá no segundo estudo, essa definição se aplica inclusive às mesmas pessoas quando contempladas com o aumento dessa diferença ao longo do tempo.

O primeiro estudo
Do tipo conhecido como “de laboratório”, um grupo de pessoas de diferentes níveis de renda tiveram sua capacidade de raciocínio expostas a uma situação financeira tida como fácil e outra considerada como difícil.  Como resultado, os pobres se comportaram como os ricos diante da situação considerada como fácil. Mas, na situação difícil, os pobres tiveram desempenho pior que os ricos, em termos de comprometimento de sua capacidade de raciocínio. Mas, como em todo experimento desse tipo surge a questão de saber se seus resultados seriam também válidos fora do laboratório, ou seja, em condições reais e não simuladas.

O segundo estudo
Foi baseado no comportamento de 464 cidadãos indianos voltados para a agricultura de cana-de-açúcar, com renda obtida apenas na colheita. Como demonstram dificuldade de consumir de forma homogênea tanto nessa fase como antes dela, ficam mais pobres perto da colheita e menos depois dela. E o comprometimento de sua capacidade cognitiva foi analisado nesses dois períodos. Na pesquisa, foram tomados os cuidados necessários para fazer com que apenas o efeito da condição de pobreza pré e pós-colheita objeto de análise.

Os resultados confirmaram os obtidos no primeiro estudo, pois os agricultores revelaram menor capacidade cognitiva antes da colheita do que depois dela.

Implicações da pesquisa realizada
Ela coloca a pobreza dentro de outra perspectiva. Ou seja, ser pobre significa não apenas uma carência de dinheiro, mas também uma carência da capacidade cognitiva. E isto vale não apenas para pobres em geral, mas para qualquer pessoa que passe pela condição de pobreza. De novo vale repetir, conforme a definição citada.

Para situar melhor a conclusão, os autores apontaram que a atenção concentrada num problema financeiro tem, sobre a capacidade cognitiva, um efeito comparável ao de uma noite sem dormir.

Quanto ao que fazer, os autores propõem que formuladores de políticas públicas devem evitar impor aos pobres o que chamam de imposto sobre sua capacidade cognitiva, como ao serem  submetidos a longas entrevistas, decifrarem novas regras e outros procedimentos que absorvam essa capacidade. No caso de agricultores, coisas como essas ou outras igualmente exigentes de sua mente deveriam ser levadas a eles apenas no período pós-colheita. Citando outro artigo, os mesmos autores apontaram que decisões quanto à aquisição de fertilizantes deram maior retorno quando realizadas logo após a colheita do que bem mais à frente no ciclo agrícola.

Concluo com uma conjectura minha, sobre um assunto não tratado pelos autores do artigo sob análise.  De acordo com a definição de pobreza adotada nele e práticas de pagamentos adotadas no Brasil, em princípio as pessoas estariam mais pobres antes de receberem seus rendimentos, em geral nos últimos dias do mês ou nos primeiros do seguinte, do que logo em seguida ao seu recebimento. Com isto, sua capacidade cognitiva estaria prejudicada no período antes de recebê-lo e aliviada logo em seguida.

É importante assinalar que embora inspirada pelo estudo aqui examinado, esta é apenas uma hipótese que precisaria ser testada por estudos específicos à maneira dessa análise que envolveu psicólogos e economistas. Em particular, vale notar que na minha conjectura o intervalo mensal entre pagamentos é muito menor do que aquele entre colheitas agrícolas. Mas, enquanto esses outros estudos não são realizados, não custa nada refletir mais sobre a conveniência ou não de tomar decisões importantes em períodos em que a pessoa está financeiramente apertada ou mais pobre, em face da maior diferença entre suas necessidades e os recursos com que conta para atendê-las.  Em particular, cabem maiores reflexões sobre as decisões de tomar empréstimos ou financiamentos, mais cogitadas nessas circunstâncias.
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Roberto Macedo, CFP® (Certified Financial Planner), é economista formado pela USP com Mestrado e Doutorado na Universidade Harvard (EUA).  Foi Secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Fazenda e Planejamento, funcionário do Banco Central e do Banco do Brasil. E-mail: imprensa@bb.com.br. Este texto reflete a opinião do autor e não necessariamente a do BB; tem caráter apenas informativo, e não deve ser tomado como recomendação de subscrição, tomada de créditos, compra ou venda de ativos, decisões estas de exclusiva responsabilidade do investidor.
Finanças pessoais de 26 a 70 anos ou mais anos de idade - 30.09.2013
Na semana passada tratei das finanças pessoais na fase de zero a 25 anos de idade, que para ser bem sucedida depende muito de cuidados dos pais ou responsáveis. Com investimentos nas crianças e jovens de que cuidam, devem assegurar-lhes as condições de vida indispensáveis para seu desenvolvimento físico e intelectual até a idade adulta.

Se tudo correu bem, a pessoa concluirá os 25 anos preparada para trabalhar, o que pode ter ocorrido antes dessa idade, dependendo das condições da família e dos interesses pessoais. Um caso comum, ainda que infelizmente não dominante, é aquele em que a pessoa nessa idade já completou ou está muito próxima de completar um curso superior. E está nos primeiros anos da carreira que escolheu para trabalhar. Mais comum ainda, principalmente entre as famílias de poucos recursos, é quando a pessoa já trabalha há mais tempo, às vezes com sacrifício de um projeto educacional.

Para prosseguir, vou supor que a pessoa trabalha e já tem rendimentos próprios ao começar o período que analisarei. E que na primeira subfase  a que vamos nos referir, de 26 a 35 anos de idade, já constituiu família.  De novo usarei uma tabela para apontar aspectos relevantes das finanças pessoais ao longo de todo o período analisado 


Uma tabela síntese

Finanças pessoais ao longo da vida – o que enfatizar segundo suas
etapas

26 a 35 anos
Aqui se pressupõe que a pessoa já teve alguma experiência de trabalho, efetivo ou como estagiário, e que está numa fase em que seus rendimentos vêm da carreira profissional escolhida e usualmente consolidada nesta fase. Mas, deve continuar investindo em educação, seja num curso de pós-graduação que leva ao mestrado ou ao doutorado, seja nos chamados mestrados executivos, em geral com aulas à noite ou em tempo integral num ou dois dias por semana incluindo o sábado,  como os que levam à titulação de MBA. Em inglês traduzido, Mestre em Administração de Empresas. Mas, nos EUA, de onde veio este título, em geral os cursos correspondentes exigem dedicação integral.  Ou, ainda, recorrendo ao autodidatismo e/ou a cursos de especialização, estes mais específicos por áreas É um período também adequado para redefinição da carreira profissional, caso haja interesse ou necessidade disto. Ainda nos cuidados pessoais, é fundamental ter um plano de saúde, nesta idade mais baratos, e também um seguro de vida se a pessoa já tiver dependentes e a pensão prevista nos planos previdenciários que tiver não for suficiente para manter o status econômico da família. Nas questões estritamente financeiras,  é uma fase fundamental para dar início à constituição de um patrimônio, pois sem família ou com filhos ainda pequenos,  o espaço para poupar é maior. Ao investir a poupança, além dessa visão patrimonial, cabe também um montante de menor dimensão como reserva para necessidades imprevistas. Quanto ao patrimônio, sou conservador e entendo que um imóvel próprio se recomenda, mas de tamanho crescente com o tamanho da família. Lembro-me de ter começado como solteiro e com uma quitinete. Também é recomendável um plano de previdência privada, pois quando se começa cedo é mais fácil constituir um fundo de maior valor, ainda que com aportes menores no início da carreira. Maiores conhecimentos sobre como poupar e investir são altamente recomendáveis nesta fase.
36 a 50 anos
Este é usualmente o período em que a capacidade de trabalho da pessoa chega ao auge, num processo em que a experiência se somou à competência no uso das capacidades inatas ou adquiridas. Estas, como a educação e o treinamento, que usualmente levam a maiores rendimentos. Na gestão financeira a pessoa deve avançar nas questões tratadas na fase anterior, consolidando uma posição patrimonial. Mas, quem constituiu família verá nesta fase os filhos avançando pela adolescência ou pelos estágios iniciais da fase adulta. Isto eleva a pressão por maiores gastos com eles em função de necessidades ampliadas, sejam as educacionais ou as que emergem do contexto familiar e social em que se vive, alcançando desde roupas de moda a produtos eletrônicos precocemente sucateados pela evolução tecnológica, passando também pelo onipresente anseio de um automóvel próprio.  É uma fase em que o orçamento doméstico fica sob pressão e não se pode sucumbir a ela. Cabe enfatizar para a família a necessidade do equilíbrio entre a limitada disponibilidade de recursos e o atendimento de infinitas necessidades, inclusive a de poupar,  que precisam ser enquadradas numa escala de prioridades cortada no ponto em que as disponibilidades se tornam comprometidas.  Não é recomendável já nesta fase o sacrifício patrimonial, ressalvado o que foi acumulado para dispêndio nela, como reservas para gastos em educação dos jovens.   
51 a 60 anos
Nesta fase as pessoas começam a refletir mais  sobre sua próxima condição de idosos. E, assim cabe enfatizar o planejamento para a fase seguinte, reexaminando se os proventos de aposentadoria estão adequados e como fica o plano de saúde, cujos custos tendem a aumentar com a idade. Em compensação, costuma surgir espaço orçamentário adicional pelo fato de que em muitas famílias os filhos já começaram a trabalhar. Quando isto ocorre, se saem de casa outro espaço orçamentário pode vir da opção por um imóvel residencial menor. Profissionalmente, é época de pensar ou mesmo já decidir por outra carreira profissional pós-aposentadoria na carreira ainda em andamento, pois a expectativa de vida vem aumentando e sabe-se que a inatividade precoce não é saudável. E há também o atrativo financeiro de uma renda adicional além da que veio ou virá da aposentadoria oficial e/ou privada. 
61 a 70 anos
Salvo casos excepcionais, nesta os filhos já estão em fase adulta e pelo menos em parte financeiramente independentes. Em parte, pois sei que muitos estão sempre a precisar de alguma coisa e recorrendo aos pais. Quanto a poupar, isto depende muito dos rendimentos, estado de ânimo, de saúde e de preferências pessoais. Mas, quanto aos investimentos não é época para aqueles de maior risco e de rentabilidade que depende do momento de saída, como as ações, pois esse momento pode tardar muito, o que não é compatível com as idades mais avançadas. Assim, recomenda-se maior ou total participação daqueles em renda fixa, ressalvada, entre outras, a perspectiva de iniciar ou de se envolver ainda mais em atividade empresarial de baixo risco e de retorno adequado e viável no curto prazo.
De 71 em diante
Nesta fase, questões como rendimentos, estado de ânimo, de saúde e preferências pessoais, já referidas anteriormente, passam a pesar ainda mais. Enquanto a saúde o permitir, o ideal é tocar a vida de forma independente e estritamente segundo as preferências pessoais. Quando a idade passar a pesar mais e a saúde se fragilizar, o conforto e a dignidade pessoais são as questões mais relevantes, e envolvem itens que pode ir de um simples aparelho de audição até cuidados pessoais, às vezes diurnos e noturnos. Pode caber também a indicação de alguém para gerir as finanças pessoais. Se as fases anteriores garantiram os recursos necessários para cobrir os custos desta fase, tudo bem. Se não, será o caso de cortar gastos, de mudar para cidades e bairros de custo menor onde a assistência pública for mais adequada, como costuma ser a médica na vizinhança de bons hospitais públicos. Se o patrimônio acumulado foi além do necessário, ou não se pretende vender todos os ativos nesta fase, cabe também planejar a sucessão. Há quem recomende repartir em vida para receber enquanto nela o reconhecimento dos herdeiros. E, também, para  evitar que famílias se desagreguem ao discutir sobre quem fica com isto ou aquilo. Até aqui não me referi à questão do lazer, na qual reconheço que posso não ter muitos seguidores.  Sou contra o lazer passivo e contemplativo, sem atividade física e mental, e o que toma tempo integral.  Pratico esporte e gosto de praia, da natureza, do lazer cultural, mas sempre em movimento. E com tempo para meu trabalho usual, o de ler, estudar, debater e escrever. Gosto tanto dele que o vejo também como uma forma de lazer.

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Roberto Macedo, CFP® (Certified Financial Planner), é economista formado pela USP com Mestrado e Doutorado na Universidade Harvard (EUA).  Foi Secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Fazenda e Planejamento, funcionário do Banco Central e do Banco do Brasil. E-mail: imprensa@bb.com.br. Este texto reflete a opinião do autor e não necessariamente a do BB; tem caráter apenas informativo, e não deve ser tomado como recomendação de subscrição, tomada de créditos, compra ou venda de ativos, decisões estas de exclusiva responsabilidade do investidor.


Finanças pessoais de zero a 25 anos de idade - 23.09.2013
Ao longo da vida uma pessoa passa por diferentes fases. Delas, uma visão muito comum é a que se refere à infância, à adolescência, aos adultos e aos idosos. Muito do que as pessoas fazem na vida é diferente em cada um desses períodos. Entre outros casos, isto ocorre na educação, no trabalho e na dependência ou não de outras pessoas.  

Nas finanças pessoais também há diferentes etapas de vida que são marcadas por um ou mais aspectos importantes. A poupança, por exemplo, deve integrar a educação financeira desde a infância, e é mais praticada na fase adulta. Entre outros objetivos para que a pessoa tenha como se sustentar quando idosa. Questões como essas são tão importantes que levam a análises em busca de lições compartilhadas com quem percebe a necessidade delas. Ainda recentemente, no dia 10 deste mês o jornal Valor publicou artigo com sugestões de como lidar com as finanças pessoais em cada década do ciclo de vida.

No que se segue, tentarei fazer uma periodização não tão detalhada e procurando enfatizar questões peculiares ao Brasil, como as situações de pobreza e a dificuldade de planejar o futuro e de poupar.

Recorrerei a uma tabela. Como são muitas questões a tratar, começarei hoje pelas fases até os 25 anos de idade. Noutro artigo virão aquelas entre 26 e 70 anos ou mais.

Uma tabela síntese
Ela se baseia numa visão do ser humano, a de que para desenvolver todo o seu potencial ele requer investimentos que aprimorem suas várias capacidades. Em especial, a de gerar renda para assegurar boas condições de vida para si e sua família.

Finanças pessoais ao longo da vida – o que enfatizar segundo suas
etapas

0 a 4 anos
Pais ou outros responsáveis devem investir em nutrição. E em condições de higiene que evitem diarréias e parasitas.  Caso contrário a capacidade intelectual da pessoa será prejudicada por toda a vida. O médico Drauzio Varella ensina que no recém-nascido o cérebro consome 87% das calorias ingeridas,  44% aos cinco de idade, 34% aos dez e cerca de 25% nos adultos.  Assim, haverá um dano irreparável se não ingerir essas calorias ou se estas se perderem pelas razões apontadas. Além disto, dos 18 meses aos quatro anos tem velocidade máxima a maturação da área do cérebro responsável pelas funções mais complexas.  Quem cuida deve realizar conversas, brincadeiras, ler histórias e outros recursos que ajudem na construção das conexões necessárias para o pensamento bem articulado.  Um ambiente doméstico conturbado pode prejudicar esse processo (*). Ao final desta etapa a criança deve ser exposta à origem, finalidade e uso do dinheiro,  incluindo um cofrinho para aprender a poupar.
5 a 10 anos
Nesta fase a escolaridade adquire papel fundamental, mas não se deve deixar a criança só por conta da escola. A família deve suplementar sua educação, inclusive na questão financeira, usualmente negligenciada no sistema de ensino. A importância econômica  da educação deve ser realçada, com exemplos mostrando que quem estuda mais em geral ganha mais. O aprendizado da língua inglesa deve começar o mais cedo possível. Com uma mesada ou semanada, deixar que a criança faça algumas compras. Ela também deve ser levada a supermercados,  shoppings e lojas isoladas para que aprenda a escolher em questões que envolvem qualidade, preço, peso, tamanho ou volume, pois isto ensina a boa administração do dinheiro. E sempre enfatizando que ele vem do trabalho, inclusive com referência ao período em que diariamente os pais ou responsáveis passam fora de casa para ganhá-lo.  A prática de esportes deve ser incentivada em linha com os cuidados com a saúde. E como forma de interação social que estimula o esforço e a competitividade pessoal e de grupos.
11 a 14 anos
É uma fase que usualmente coincide com o segundo ciclo do ensino fundamental. Nela o jovem já está em condições de avançar mais em questões financeiras,  como ao fazer mais compras por si mesmo, agora também para a família, e  ter conta em banco, inclusive uma para poupança, explicando-se  também porque ela rende juros.  Como nessa idade começam divertimentos fora de casa, cabe pregar os riscos do álcool e das drogas. E passar ao conhecimento do sistema educacional e do mercado de trabalho, pois há a questão de escolher uma formação mais concentrada em humanas, exatas ou biológicas para a fase seguinte, do ensino médio. Ou de escolher um ensino profissionalizante capaz de mais cedo abrir portas para o trabalho.  Cabem também referências às atividades empresariais, artísticas e esportivas como ocupações também capazes de gerar rendimentos. Os jovens devem ser instruídos a observar pessoas trabalhando nas mais variadas atividades, pois este é um dos caminhos que ajudam a identificar vocações profissionais.  Também nesta fase cabem noções sobre os impostos, incluindo sua natureza, cobrança, incentivos e o que fazem os governos com os recursos arrecadados. No Estado de São Paulo há o  Programa Nota Fiscal Paulista que devolve aos consumidores uma parte do imposto conhecido como ICMS recolhido pelos estabelecimentos onde suas compras são realizadas. Para receber o dinheiro os consumidores devem exigir nota fiscal com seu CPF, e também concorrem a prêmios em dinheiro. Sugiro que os pais deixem por conta de seus filhos a administração de sua participação em programas como este. Não gera muito dinheiro, mas é bastante útil como educação financeira.
15 a 19 anos
Nesse período, o jovem está passando pelo ensino médio, ansioso por superar a barreira dos 18 anos para ter maior liberdade de ações, inclusive na gestão financeira, podendo a partir dos 16 também realizar outro sonho, o de  ter um cartão de débito/crédito, que deve ser autorizado pela família. Mas, com um limite muito baixo para crédito,  sempre ressaltada a importância de pagar a fatura no vencimento. Então, já se pode esclarecer a presença dos juros nas operações de crédito, as diferenças entre elas em seus vários tipos, e a existência de investimentos que geram rendimentos além daqueles do trabalho. Cabe também um acesso mais intenso à orientação profissional, eventualmente com a ajuda de profissionais especializados,  para a pessoa conhecer melhor a si mesma e melhor identificar caminhos profissionais. Alguma experiência de trabalho, às vezes necessária para assegurar rendimentos próprios e/ou ajudar a família, é recomendável, seja de trabalho efetivo ou voluntário.
20 a 25 anos
Este período costuma coincidir com a realização de um curso superior. Mas cursando-o ou não, uma experiência de trabalho então se torna indispensável, seja efetiva ou como estagiário. Nada contra trabalhar e estudar ao mesmo tempo, inclusive em cursos noturnos, mas é importante que o trabalho não prejudique os estudos, não indo além de seis horas por dia. Nesta fase, surgindo rendimentos próprios, começa um período crucial na gestão financeira. Qualquer que seja o valor do rendimento, uma parte deve ser poupada, para constituição de um patrimônio, que inclui também investimentos em educação e treinamento profissional. Iniciada a poupança, cabe examinar as alternativas de investimentos e a rentabilidade, liquidez e o risco que apresentam. Há vários livros a respeito, e às segundas-feiras vários jornais oferecem artigos específicos nessa área. Para não ficar só na teoria e evitar maiores riscos, pode-se também simular uma carteira de investimentos. Por exemplo, uma que inclua a caderneta de poupança, fundos de investimentos, de renda fixa e variável, papéis do Tesouro Direto e uma carteira de ações. Também importante é o preenchimento da declaração anual do Imposto de Renda de Pessoas Físicas e mais conhecimentos quanto aos demais impostos, além do ICMS já citado.

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Roberto Macedo, CFP® (Certified Financial Planner), é economista formado pela USP com Mestrado e Doutorado na Universidade Harvard (EUA).  Foi Secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Fazenda e Planejamento, funcionário do Banco Central e do Banco do Brasil. E-mail: imprensa@bb.com.br. Este texto reflete a opinião do autor e não necessariamente a do BB; tem caráter apenas informativo, e não deve ser tomado como recomendação de subscrição, tomada de créditos, compra ou venda de ativos, decisões estas de exclusiva responsabilidade do investidor.
(*) Conforme Drauzio Varella, no artigo Inteligência e indigência. Folha de S. Paulo, 23-9-13, p. E14.

Riqueza de rendimento e/ou de patrimônio - 16.09.2013
Quando se diz que uma pessoa é rica, usualmente a referência é à riqueza patrimonial dela e/ou ao valor de seus rendimentos. As duas situações nem sempre coincidem. Há gente que ganha bem, mas sem um bom patrimônio acumulado. E há quem tenha este último, mas com rendimentos que não chamam a atenção pelo seu tamanho.  Na administração das finanças pessoais é importante que a pessoa tenha noção clara da sua situação atual, daquela a que quer chegar e também daquela a que pode ser levada ao compartilhar patrimônio e rendimentos de outra pessoa na condição de herdeira.
 Neste artigo serão examinadas quatro combinações de riqueza patrimonial e de rendimentos, com essas duas variáveis assumindo valores baixos ou altos em cada caso.

Quatro combinações de riqueza e de rendimentos...
    São mostradas na tabela que se segue.


Patrimônio
Pequeno
Patrimônio
Grande
Rendimentos
Baixos
(1)
(4)
Rendimentos
Altos
(3)
(2)

Obviamente é mais difícil a situação (1), trivial no Brasil, onde rendimentos e patrimônios assumem valores baixos, ou mesmo muitíssimo baixos. Para sair dela, toda uma estratégia precisa ser delineada e praticada. Um conjunto de alternativas deve ser buscado em termos educacionais, profissionais  e ocupacionais, com o objetivo de gerar maiores rendimentos e, mesmo quando ainda pequenos, poupar deles o máximo possível. Cabe repensar a situação da família como um todo, em questões como o trabalho do cônjuge e a colaboração que pode ser dada aos filhos, ou recebida deles. E buscar tudo o que houver disponível gratuitamente como serviço ou apoio público, nas áreas de saúde, educação e programas governamentais de transferência de renda, como o Bolsa-Família,  ou de subsídios, como o Minha Casa, Minha Vida. Esses programas governamentais se consolidaram e vêm ampliando sua cobertura de mais pessoas e famílias, com maior volume de recursos.

Passando ao outro extremo...
Na situação (2), riqueza e rendimentos têm valores altos. Aparentemente, é a situação mais cômoda. Mas, rico, rico mesmo, é quem tem um patrimônio que lhe garante boa renda sem ter que trabalhar. Há pessoas ricas que têm bons rendimentos, mas estes não se manteriam se elas não continuassem trabalhando nos seus empregos, ou como empresárias ou profissionais liberais. Aí, para manter o fluxo de rendimentos para gastos usuais seria necessário vender patrimônio, com o risco até de cair na pobreza.

Pessoas nessa situação precisam se precaver para que mesmo na sua ausência seus negócios continuem andando, com um patrimônio e outras fontes de renda que independam do seu trabalho.    Sei de famílias que passaram a ter dificuldades e de negócios que foram à falência na ausência de quem conduzia a geração da renda. Ademais, o  processo sucessório em famílias desse tipo costuma ser complicado, com filhos que se metem nos negócios sem saber tocá-los, e outros mais propensos a dilapidar patrimônio do que em mantê-lo ou aumentá-lo.

Os demais casos
Pode parecer estranho o caso (4), de renda baixa e patrimônio alto, mas não é incomum principalmente entre pessoas herdeiras de um patrimônio.  Nos casos que conheço, ele veio de gente do caso (2), e da situação já apontada, em que havia uma pessoa que era o motor da riqueza acumulada e da geração de renda.  Com sua morte, ou outro impedimento, a renda ficou seriamente prejudicada.  Aí as alternativas são as de reduzir o padrão de vida, fazer o patrimônio render mais, ou vendê-lo paulatinamente. Mas, não é simples. Sei de viúvas que herdaram um grande apartamento, mas sem renda suficiente para pagar o condomínio e outras despesas pessoais, pois o marido não deixou essa renda, embora a tivesse enquanto vivo.  Isto mostra que as pessoas que contam com herança de patrimônio e renda adequados precisam se antecipar e buscar garantias de que isto de fato virá, examinando, entre outros aspectos, se uma pensão e outras formas de rendimentos estarão asseguradas no futuro. Se não estiverem, será preciso garantir que os arranjos correspondentes sejam realizados no presente.

O caso (3) é comum particularmente entre pessoas jovens ou de média idade, gente cujo patrimônio ainda é pequeno, mas que já têm um bom rendimento, do seu trabalho como empregado ou em outras atividades.  É um grupo em situação intermediária. Seu grande risco é o da perda de renda, por morte, problemas de saúde, desemprego ou aposentadoria mal planejada. A renda ou grande parte dela se vai, e não há um patrimônio gerador de rendimentos de mesma magnitude, pois a família não é rica.  E aí, como fica?

Se houver esse desenlace, a família vai se dar mal, inclusive o responsável por ela.  Quem está nessa situação não pode viver apenas do momento, usufruindo o conforto de uma boa renda.  Sem um planejamento voltado para enfrentar as situações de risco já apontadas, o bom padrão de vida poderá naufragar.

Nessa linha, cabem as recomendações de praxe, que se estendem à família: manter e aprimorar qualitativamente a capacidade de trabalhar, poupar para dificuldades eventuais como o desemprego, para ter um bom plano de saúde, e para constituir um patrimônio e uma adequada aposentadoria. E pensão também adequada para o cônjuge sobrevivente e para filhos ainda não adultos. Um seguro de vida é particularmente necessário se o esquema previdenciário de que a pessoa dispõe não garante uma pensão adequada em caso de morte ou invalidez antes que os filhos se tornem adultos e venham a trabalhar.

Fazendo tudo isso, além de evitar uma queda própria e/ou da família para a situação (1), a pessoa tem a chance de caminhar na direção de (2) e de ter menor  risco de cair na situação (4), pois seria um patrimônio construído a partir da renda e não de um herdado ou construído sem rendimentos adequados.   Esta é a vantagem de quem começa de baixo, só com rendimentos.  Quem começa de cima, já com patrimônio herdado, pode até continuar subindo, mas é mais sujeito ao risco de queda de status, se não há a continuidade dos rendimentos na aposentadoria ou para familiares em caso de falecimento.
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Roberto Macedo, CFP® (Certified Financial Planner), é economista formado pela USP com Mestrado e Doutorado na Universidade Harvard (EUA).  Foi Secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Fazenda e Planejamento, funcionário do Banco Central e do Banco do Brasil. E-mail: imprensa@bb.com.br. Este texto reflete a opinião do autor e não necessariamente a do BB; tem caráter apenas informativo, e não deve ser tomado como recomendação de subscrição, tomada de créditos, compra ou venda de ativos, decisões estas de exclusiva responsabilidade do investidor.

Calculadoras financeiras do Banco Central e do BB - 09.09.2013
Muitos cálculos financeiros envolvem uma dimensão temporal, pois dizem respeito ao futuro onde aplicações de recursos geram rendimentos. No futuro também há pagamentos de dívidas sobre as quais incidem juros. Em geral, rendimentos de aplicações ou juros de dívidas são calculados de forma composta, explicada a seguir.

Rendimentos e juros compostos
São contados com taxas calculadas sobre os valores já investidos ou devidos, respectivamente. Nos rendimentos as taxas incidem sobre o capital mais os rendimentos acumulados no passado.  Diz-se então que estes últimos foram capitalizados para cálculo de cada novo rendimento, o que segue o princípio dos juros compostos. 

Como exemplo dele, um depósito na caderneta de poupança terá rendimentos sob a forma de juros de 0,5% no primeiro mês, mas a partir do mês seguinte esta taxa será contada sobre o valor do depósito mais os juros auferidos no mês anterior, e assim por diante. Com isto, ao fim de 12 meses, o rendimento acumulado desses juros será de 6,17% e não 6% (12 X 0,5%) que seria a taxa no mesmo período se os juros fossem contados apenas sobre o capital inicial. Neste caso os juros são chamados de simples enquanto que no anterior há juros sobre juros que são os juros compostos.

Nas dívidas, os saldos devedores incluem taxas de juros também aplicadas cumulativamente no período em que se estende a dívida. Por exemplo, num financiamento imobiliário, as taxas costumam ser anuais e sobre o saldo devedor. A prestação mensal cobre uma parcela a título de amortização e outra de juros.

Como calcular?
Os cálculos compostos são complexos. Muito longe no passado eram feitos manualmente por especialistas. Para facilitar o acesso dos interessados aos resultados, surgiram tabelas impressas que combinavam diferentes valores do capital ou da dívida, prazos e taxas para chegar aos valores de parcelas a receber ou devidas. Uma tabela é conhecida até hoje, a Tabela Price.  Depois vieram  calculadoras mecânicas operadas manualmente, seguidas pelas eletromecânicas. Mais recentemente, as digitais e os computadores.  

Nos últimos dois casos há softwares internos com  várias fórmulas de cálculo, o que facilita enormemente o trabalho. E com a internet vieram calculadoras e simuladores financeiros em sites, como o do Banco Central (BC)  e o do BB.

A calculadora do BC...
Oferece quatro opções: valor futuro de um capital, financiamento com prestações fixas, aplicação com depósitos regulares e correção de valores. Nos três primeiros trabalha-se com quatro variáveis, entrando-se com valores de três delas para obter o valor da quarta.

Como exemplo, será tomado o valor futuro de um capital. O acesso é pelo link:
https://www3.bcb.gov.br/CALCIDADAO/publico/
exibirFormCalculoValorFuturoCapital.do?method=
exibirFormCalculoValorFuturoCapital

Aberto o link, no canto superior esquerdo, abaixo da referência ao BC, há o link Calculadora do Cidadão. Passando-se o cursor em cima dele, há o acesso aos outros três tipos de cálculos citados.    Para o cálculo do valor futuro de um capital, pede-se o número de meses do período de capitalização, a taxa mensal de juros em porcentagem, e o capital atual ou inicial. Clicando-se no link Calcular, chega-se ao valor futuro procurado.   Há exemplos de como chegar a esse valor futuro, mas também se pode chegar ao capital atual ou inicial a partir de um valor futuro pretendido, informando-se também o número de meses e a taxa de juros mensal. E pode-se chegar ao número de meses ou a esta taxa isoladamente a partir dos três outros itens.

Pode-se também usar o cálculo para outras finalidades. Uma é saber qual a taxa em 12 meses produzida por uma taxa mensal acumulada, como no caso dos juros da poupança. Para tanto, entro com 12 meses, a taxa de 0,5% ao mês, um capital hipotético de 100 e o resultado será 106,17, indicando que a taxa em 12 meses anual correspondente, de 6,17%.

Outro uso é o de saber a taxa mensal média de inflação, medida pelo IPCA, que leva ao alcance do centro da meta do BC, de 4,5% ao ano. Aí entro com 12 meses, um capital atual ou inicial de 100 e um valor futuro de 104,5. O resultado responde a questão colocada: 0,367481% ao mês, ou 0,37% com arredondamento.

Quanto aos demais cálculos oferecidos pelo BC, é particularmente interessante o do financiamento com prestações fixas, já que os brasileiros recorrem muito a ele sem saber a taxa de juros, em geral muito alta, que estão a pagar.  Também é muito útil o link para correção de valores, com quatro opções: por índices de preços, como IPCA, IGP-M e outros, pela TR, pelos juros mais TR da poupança, pela Selic e pela remuneração do CDI (Certificados de Depósito Interfinanceiro).  Por exemplo, no caso da correção da poupança pelos juros mais TR, vi que do dia 4 deste mês até o dia 4 do próximo a remuneração total será de 0,54% nesse período.

O simulador de investimentos do BB...
Esse simulador opera como uma calculadora e pode acessado pelo link:
http://www.bb.com.br/portalbb/jsp/home/inst/
popupSimulador.jsp?codigoMenu=1092&codigoRet=9850&bread=13_1.

Há três opções:   avaliar quanto se pode acumular no futuro,  quanto tempo é necessário para atingir o valor que deseja e o valor que se deve investir mensalmente para atingir o valor desejado.  Com essas três opções, parece tratar-se do que na calculadora do BC está disponível com outros nomes, ou seja, o valor futuro de um capital, no caso da primeira do BB,  e a aplicação com depósitos regulares, no caso da terceira do BB.  Mas, o simulador do BB vai além ao permitir que nas suas três opções haja também um capital inicial com valor diferente dos depósitos regulares.  Por exemplo, tenho R$1.000 e, na primeira opção do BB,  quero saber quanto acumularei em 12 meses fazendo aplicações adicionais de R$100,00, dada uma taxa de juros de 0,5%. Ou seja, entram quatro informações ao invés de três como na calculadora do BC. Como é comum a disponibilidade de um capital inicial, de valor maior ou menor que os aportes mensais, o simulador do BB completa a calculadora do BC ao incluir esse capital nos cálculos.

Seja na calculadora do BC ou no simulador do BB, é preciso praticar para entender melhor como funcionam.     Num futuro artigo examinarei o simulador que no site do BB faz cálculos relacionados com planos de previdência oferecidos pela Brasilprev. Para quem pretende tomar conhecimento dele imediatamente o link é:
https://www2.bancobrasil.com.br/aapf/seguro/
brasilprev/BPZA.jsp
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Roberto Macedo, CFP® (Certified Financial Planner), é economista formado pela USP com Mestrado e Doutorado na Universidade Harvard (EUA).  Foi Secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Fazenda e Planejamento, funcionário do Banco Central e do Banco do Brasil. E-mail: imprensa@bb.com.br. Este texto reflete a opinião do autor e não necessariamente a do BB; tem caráter apenas informativo, e não deve ser tomado como recomendação de subscrição, tomada de créditos, compra ou venda de ativos, decisões estas de exclusiva responsabilidade do investidor.












Poupança nova volta a render como a antiga - 02.09.2013
Isto aconteceu em face da última decisão do Conselho de Política Monetária (Copom), do Banco Central (BC), que elevou a taxa básica de juros da economia para 9% ao ano. Essa taxa é também conhecida como Selic, que com essa decisão deixou de servir como parâmetro para a caderneta de poupança nova, que assim passou a ter a  mesma remuneração da antiga.

O texto a seguir começará revendo o que é poupança antiga e poupança nova e a relação desta última com a taxa Selic. Em seguida ressaltará que a desigualdade de remuneração entre as duas poupanças poderá retornar em algum momento no futuro. Quanto ao presente, o texto apontará implicações para o investidor tanto da igualdade agora estabelecida para os dois tipos de poupança, como do novo valor da Selic e de suas perspectivas no futuro que se pode contemplar. 

Poupança antiga e poupança nova

A poupança antiga é a constituída pelos saldos existentes em 3 de maio de 2012 na sua parte não sacada desde então. A nova é a dos depósitos realizados a partir do dia 4 de maio do mesmo ano e que permanecem como saldos para contagem de remuneração.  A regra de ganhos da poupança antiga tem como parâmetro uma taxa fixa de 0,5% ao mês que acumulada leva a um total de 6,17% a cada 12 meses, mais a chamada taxa referencial (TR), que por vários meses recentes ficou em zero. 

Quanto à poupança nova, sua regra básica e que não foi alterada é a de que a remuneração é constituída por 70% da Selic fixada pelo Copom, mais a TR, com a ressalva que se seguirá no parágrafo seguinte. Com esta regra, a parte mais importante da remuneração da poupança nova passou a variar proporcionalmente à Selic. Ou seja, tornou-se variável e não fixa como a mesma parte no caso da poupança antiga.

Mas, o que é muito importante, esta regra só vale se a taxa Selic ficar igual ou abaixo de 8,5% ao ano.  Caso supere esse valor, adota-se na poupança nova a mesma regra da poupança antiga quanto à parte mais importante da remuneração, ou seja, uma remuneração fixa de 0,5% ao mês. Tanto num como noutro caso permanece o ganho adicional dado pela TR, desde que maior que zero.

Ora, como resultado da última reunião do Copom a Selic passou de 8,5% a 9% ao ano. Com isto a remuneração da poupança nova passou a ser a mesma da antiga.

Poupança nova pode voltar a ser proporcional à Selic 

Coloquei esta observação para destacar que a regra geral da poupança nova continua válida. E porque no futuro a taxa Selic pode voltar a um valor igual a 8,5% ao ano ou mesmo abaixo disto, como aconteceu no passado recente.

Na mesma linha desta observação, vale lembrar que as pessoas ou instituições que têm tanto conta ou contas antigas e também uma ou mais das novas só podem unificar suas contas se fizerem isto na poupança nova.  Mas, não há vantagem nisto. Pelo contrário, a poupança nova rende, como agora, o mesmo que a antiga. E pode render menos caso a taxa Selic volte a 8,5% ao ano ou a uma taxa abaixo deste valor.

Exemplificando: quando a Selic estava em 8,5% ao ano, a correspondente parte da remuneração da poupança nova (70% da mesma taxa) estava em 5,95% ao ano e, portanto, inferior à remuneração da poupança antiga, de 6,17% ao ano, conforme já dito.  Valores da Selic abaixo de 8,5% ao ano trariam novamente à poupança nova uma remuneração ainda menor do que a da poupança antiga.

Implicações para investidores

Quem se acostumou à poupança antiga e passou a ter também uma ou mais contas da nova, talvez tenha achado ótimo o retorno da igualdade entre as duas. Mas, bom mesmo para o investidor seria um cenário em que fosse mantida a proporcionalidade de 70% da Selic.  Com esta última alcançando 9% ao ano, esse componente da remuneração teria alcançado 6,3% ao ano, superando o mesmo componente da poupança antiga.

O governo, contudo, não deixou que isto acontecesse. A primeira razão é que em termos financeiros não se recomenda avançar na rentabilidade de aplicações que têm grande liquidez e risco baixíssimo, como a caderneta de poupança. A segunda é que os recursos da poupança vão principalmente para financiamentos imobiliários. Assim, se os investidores passassem a dar uma forte preferência à poupança isto restringiria a disponibilidade de recursos para outros financiamentos, inclusive o da própria dívida pública. Ela se sustenta em parte com recursos dos fundos de investimentos em renda fixa, inclusive aqueles cujo padrão de remuneração guarda correspondência com a Selic.

Isto nos leva à mais importante implicação do que foi dito. Ou seja, a Selic passou a 9% e analistas do mercado financeiro prevêem que passará a 9,5% na próxima reunião do Copom.

Assim, o cenário é propício para garimpar oportunidades oferecidas pelos fundos de investimentos, sempre tendo em mente que neles o Imposto de Renda é cobrado, o que não acontece na poupança de pessoas físicas.  E, ainda, cobra-se uma taxa de administração. Mas, quando a remuneração desses fundos começou a se aproximar de cima para baixo do ganho da poupança, várias instituições financeiras reduziram essas taxas, com vários fundos tendo taxas próximas de 1%, e passaram a exigir valores menores para as aplicações iniciais.  Agora que a taxa Selic passa a se distanciar da poupança  numa direção ascendente, essa garimpagem se torna recomendável, pois mais fundos e também CDBs poderão oferecer remunerações líquidas maiores do que a poupança.

Cabe uma observação final. Numa análise que vi num jornal sobre uma comparação desse tipo, o autor supôs que a TR permanecia zero, como vinha acontecendo há muito tempo. Mas, recentemente ela passou a mostrar valores positivos, ainda que alternando com nulos. Como incorporar a TR nos cálculos? Sugiro consultar o site do BC, no qual o link abaixo leva a uma calculadora, que incorpora a TR:
https://www3.bcb.gov.br/CALCIDADAO/publico/corrigirPelaPoupanca.do?method=corrigirPelaPoupanca

Nessa calculadora no item data inicial da aplicação coloquei 28/8/2013, a última disponível para cálculo no sábado passado.  E vi que um mês depois, em 28 de setembro, a poupança antiga terá um rendimento de 0,5372%, indicando uma TR de 0,0372.  Ora, com esse valor, se repetido por 12 meses e conforme  calculo noutro  link, o mencionado abaixo, o rendimento seria de 6,64%, ou seja, quase 0,5% superior aos 6,17% com TR zero. Mas, não há garantia que a mesma TR se repetirá diariamente na contagem futura dos rendimentos das contas. 
https://www3.bcb.gov.br/CALCIDADAO/publico/
exibirFormCalculoValorFuturoCapital.do?method=
exibirFormCalculoValorFuturoCapital

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Roberto Macedo, CFP® (Certified Financial Planner), é economista formado pela USP com Mestrado e Doutorado na Universidade Harvard (EUA).  Foi Secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Fazenda e Planejamento, funcionário do Banco Central e do Banco do Brasil. E-mail: imprensa@bb.com.br. Este texto reflete a opinião do autor e não necessariamente a do BB; tem caráter apenas informativo, e não deve ser tomado como recomendação de subscrição, tomada de créditos, compra ou venda de ativos, decisões estas de exclusiva responsabilidade do investidor. 
O minimalismo e as finanças pessoais - 26.08.2013
Fala-se muito do consumismo, o hábito que algumas pessoas têm de sempre consumir mais, sem necessidades bem caracterizadas. Pode levar a dificuldades nas finanças pessoais, em particular se acompanhado de endividamento inconsequente.  Em contraposição, há quem pregue o minimalismo, uma filosofia assentada na proposição de que “menos é mais”.  Vou iniciar o texto tratando do consumismo e seus sintomas, passando em seguida ao minimalismo.

O consumismo
Como o próprio nome indica, o consumismo é usualmente associado a bens de consumo. É o consumo em excesso desses bens, por impulso e, como já foi dito,  sem necessidades bem identificadas. Ele pode, por exemplo,  manifestar-se na alimentação levando a problemas de sobrepeso e de saúde, no presente ou no futuro. E pode ir além dos bens de consumo, como no caso de residências suntuosas.

Alcoolismo e as drogas levam a problemas ainda mais complicados. Outros ocorrem em bens de consumo duráveis, como eletroeletrônicos, semiduráveis, como roupas, e objetos pessoais, como sapatos, joias, relógios e óculos. Pode também alcançar serviços, como os de salões de beleza,  turismo e esportes caros, como a equitação. 

Outro traço marcante é que o consumismo é característica pessoal, alcançando  simultaneamente vários desses bens e serviços. Por exemplo, uma pessoa pode beber ou comer demais, mas sem que seus excessos sejam generalizados. No primeiro caso, essa pessoa poderá ser identificada como alcoólatra, mas não consumista.

A residência de um consumista costuma ser mais relevadora de seus traços. Guarda-roupas lotados onde é até difícil encontrar uma ou outra peça, excesso também de móveis, eletroeletrônicos, objetos decorativos e utensílios de cozinha.

Nos EUA, onde o consumismo é forte, a residência familiar padrão é uma casa com garagem para dois carros. É comum encontrar uma dessas garagens entulhada de objetos que vêm da própria casa e onde não há mais espaço. Há famílias que periodicamente fazem o que lá chamam de “garage sale”, uma liquidação do que está nela. Na frente da garagem, também colocam móveis, roupas e outros objetos retirados da própria casa. Uma ‘garage sale” costuma atrair vizinhos e outros interessados nas pechinchas oferecidas.

Mas, há também os consumistas que seguem no seu hábito passando adiante o que vai sobrando, doando para parentes e amigos ou a instituições de caridade, com o que seu comportamento consumista fica algo dissimulado.

O minimalismo
Segue na direção oposta e é também um habito pessoal abrangente, não podendo ser identificado apenas por um aspecto, como no caso de uma pessoa que usa bicicleta para se locomover, mas noutras atividades não se comporta como minimalista. Ele não é praticado só por necessidade, pois alcança também gente que tem muito dinheiro.

Trata-se de filosofia incorporada a várias áreas do conhecimento. Além do comportamento do consumidor, está presente, entre outras, na arquitetura, na fotografia, na construção de sites na internet, na arte e na decoração. O minimalismo é um estilo despojado, tudo na linha do “menos é mais”.  Pode estar também associado a um voto de pobreza, como o dos franciscanos, monges budistas e outros religiosos.

Há também um minimalismo de elite, sofisticado, de pessoas que buscam viver sem muitas posses materiais, mas com alto padrão de vida em outros aspectos.  Assim, há quem busque mais atividades culturais, enquanto outros preferem viagens a lugares remotos e integrados à natureza.  O traço comum é que esses minimalistas de elite não dão muito valor a carrões, casarões e coisas do tipo.

Na opção pelo minimalismo, há também questões de conveniência. Por exemplo, sei de pessoas ricas que no Brasil buscam o minimalismo por razões de segurança.  Num carro de marca famosa importado ou numa casa luxuosa a probabilidade de assalto é maior.

Quando o minimalismo sai caro
O minimalismo de elite não é necessariamente barato, pois algumas de suas atividades são caras.  Se você, por exemplo, quiser ir até países longínquos aprender práticas minimalistas com monges budistas, isto irá lhe custar uma nota. Se assim é, segue-se que do ponto de vista econômico o minimalismo pode, paradoxalmente, ser também uma variante do consumismo, pois há muito onde gastar no minimalismo de elite. Ou seja, há os “consumistas do minimalismo.”

O minimalismo traz boas lições
Para as pessoas comuns, que buscam objetivos triviais, como ter casa própria e a família vivendo confortavelmente, os filhos recebendo boa educação, uma renda  suficiente também para proteger a saúde e para assegurar uma poupança, alcançar tudo isso já não é pouco.  Nesse contexto, para que serviria o minimalismo? 

Para responder, o relevante é observar que do ponto de vista econômico a essência do minimalismo é o questionamento quanto à posse ou consumo de bens materiais em excesso.  Ou seja, os minimalistas estão sempre se perguntando: preciso realmente disso? desse alimento, dessa roupa, desse carro, de um carro adicional, de uma casa desse tamanho, ou desse “home theater” todo incrementado?

Tais perguntas devem ser sempre formuladas quando pensamos em comprar algo a mais. Se feitas, o resultado será bom para o planejamento financeiro e para a poupança. Elas funcionam como freio ao consumo.  E havendo moderação nele e no acúmulo de bens materiais, a poupança agradecerá. Esta é minha visão: apoiar-se no minimalismo para maximizar a poupança.  Mas, não por si mesma. Mais à frente,  se bem aplicada permitirá até um consumo maior do que aquele ao qual se renunciou no presente.

Na mesma linha, outra lição dos minimalistas, franciscanos ou elitistas, é que em qualquer caso está presente a disciplina indispensável para resistir às tentações usuais que fustigam quem não opta por uma linha ou por outra, preferindo o consumo e a acumulação de bens materiais. Essa disciplina é, assim, outra lição importante do minimalismo.  Sem ela não há planejamento financeiro que resista, nem poupança que se acumule.
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Roberto Macedo, CFP® (Certified Financial Planner), é economista formado pela USP com Mestrado e Doutorado na Universidade Harvard (EUA).  Foi Secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Fazenda e Planejamento, funcionário do Banco Central e do Banco do Brasil. E-mail: imprensa@bb.com.br. Este texto reflete a opinião do autor e não necessariamente a do BB; tem caráter apenas informativo, e não deve ser tomado como recomendação de subscrição, tomada de créditos, compra ou venda de ativos, decisões estas de exclusiva responsabilidade do investidor.

A pontuação na avaliação do crédito pessoal - 19.08.2013
Com a adoção do cadastro positivo no Brasil, a avaliação das pessoas que usam o crédito deverá ter um sistema de pontuação ou de notas.  Em inglês o termo utilizado é “score”. Na mesma língua, se um jogador de futebol marcou um gol, é dito que ele “scored” um gol. No caso, quem toma crédito será avaliado pelos pontos que marcar, conforme explicado abaixo. Aqui algumas instituições financeiras já adotam internamente um sistema de pontos, mas no sistema em implantação, de caráter mais amplo, a própria pessoa terá que permitir a consulta ao cadastro positivo e a qualquer momento poderá saber como está sua pontuação.

Como esse sistema só recentemente passou a ser implantado, é interessante saber como é estruturado e utilizado em outros países. Como exemplo, este artigo abordará um adotado nos EUA, o da agência FICO de avaliação de crédito.

Tudo começa com um cadastro pessoal, aqui chamado de positivo, conforme explicado no artigo postado neste espaço em 5/8/13.

O cadastro pessoal
Nos EUA ele é chamado de relatório de crédito (“credit report”). Não tem formato único, mas em geral inclui as seguintes informações: identificação pessoal, operações de crédito realizadas conforme o seu tipo (cartão de crédito, financiamentos imobiliários, de automóveis etc.), datas em que ocorreram, o limite ou valor de cada crédito e seu saldo devedor. Isto forma o histórico  de pagamentos do cadastrado. Quando este pede um empréstimo em dinheiro ou o financiamento de alguma coisa, é preciso autorizar quem irá conceder o crédito a ter acesso ao cadastro pessoal, e este também lista quem teve acesso a ele.  Informações de fontes oficiais são também incorporadas no cadastro, como as de cartórios de protestos.

A agência FICO e como sua pontuação é calculada
FICO parece um nome em português, mas não é. Em inglês, no qual a pronúncia é “faico”,  veio de uma empresa de análise de crédito fundada em 1956, com o nome  de Ferr, Issac  & Company. Mas, depois a empresa recebeu o nome de FICO, que veio da junção das primeiras letras, F e I, dos dois nomes iniciais, os de seus sócios, mais as duas primeiras de Company.

A nota da FICO é calculada a partir do conteúdo do cadastro pessoal e para isso suas informações são agrupadas em cinco categorias. Entendo que cada uma delas recebe notas padronizadas para permitir a avaliação do conjunto, o que é feito por meio de média ponderada, onde os pesos são:
(1) o histórico de pagamentos:35%;
(2) o total devido:30%;
(3) a duração do histórico de crédito:15%;
(4) a tomada de novos créditos:10%;
(5) tipos de crédito utilizados:10%.

No histórico de pagamentos o que se analisa é a pontualidade. O montante já devido também tem um peso importante, mas não significa que a pessoa não tenha direito a créditos adicionais. A duração da história de crédito, ou seja, por quanto tempo a pessoa vem utilizando o crédito, também conta ainda que bem menos. Por exemplo, se parou de tomar crédito por muito tempo, isto não quer dizer que perdeu a chance de tomar um novo, dependendo das demais informações consideradas. Entre os tipos de crédito estão os cartões de crédito em geral inclusive os fornecidos pelas próprias lojas, bem como pagamentos de prestações de financiamentos imobiliários. Quanto aos novos créditos, o que se procura saber é se a pessoa vem tomando muitos num curto período de tempo curto,  o que aumenta seu risco, especialmente para quem também têm uma história de crédito também curta.

Quando se avalia a decisão de conceder o crédito, quem empresta também costuma olhar a renda, a estabilidade no emprego e o tipo de crédito solicitado, informações estas que não são incluídas na nota FICO.

O site da FICO (www.myfico.com), no qual o leitor encontrará mais informações, mostra como variam as notas com um medidor em formato de meia-lua parecido com o usado para medir combustível num tanque de automóvel, tendo também um ponteiro.  A menor e pior nota é 300 e a maior e melhor nota é 850, e nesse medidor há cores que mudam de vermelho para verde à medida que o ponteiro caminha do primeiro para o segundo valor. O amarelo fica no meio. Sempre segundo o site da empresa,  sua nota é usada em mais de 90%  nas decisões de empréstimos.

Quais são as vantagens da pontuação? Incluem rapidez na concessão de crédito, decisões mais justas e com menos erros por parte de quem concede, ampliação do próprio crédito da pessoa com boas notas, que significam menores riscos e trazem menores taxas de juros, pois reduzem as perdas de crédito. As taxas também caem porque o uso da pontuação torna a concessão menos onerosa para quem empresta que, assim, também pode passar parte desse ganho para seus clientes na forma de juros menores.

Outra questão interessante é como a nota muda. Empresas que a calculam dizem que são atualizadas uma vez por mês, mas isso não necessariamente muda a nota. Pela experiência, constatou-se que num período de três meses apenas uma pessoa em cada quatro tem uma mudança na nota de valor igual a 20 pontos. A nota pode variar também ao longo do tempo à medida que a pessoa passa a fazer pontualmente seus pagamentos. Os mais antigos afetam menos a nota.

Como uma pontuação como a da FICO ficaria no Brasil
Como se percebe, a pontuação envolve muitas informações e critérios de avaliação.  Para os brasileiros ela pode parecer confusa, e a razão está no fato de estarmos acostumados apenas com o cadastro negativo. Para cair nele basta a inadimplência.  Assim, é fácil registrar o mau pagador. Quando aos que estão fora desse grupo, há uma variação muito grande entre eles, o que exige muito mais informações.

Tomando-se as cinco categorias de informações que compõem a pontuação, conforme já explicada inicialmente, uma pessoa pontual que deve um pequeno valor e que há muito tempo opera regularmente crédito sem exagerar nos novos pedidos, e também não demonstra maior apego aos cartões de crédito, acaba levando uma nota melhor do que quem não tem essas características. Isto faz sentido, e reafirma o que já foi dito: o risco dos devedores em geral depende de um maior número de informações, enquanto que para identificação dos inadimplentes basta saber que estão nessa condição.
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Roberto Macedo, CFP® (Certified Financial Planner), é economista formado pela USP com Mestrado e Doutorado na Universidade Harvard (EUA).  Foi Secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Fazenda e Planejamento, funcionário do Banco Central e do Banco do Brasil. E-mail: imprensa@bb.com.br. Este texto reflete a opinião do autor e não necessariamente a do BB; tem caráter apenas informativo, e não deve ser tomado como recomendação de subscrição, tomada de créditos, compra ou venda de ativos, decisões estas de exclusiva responsabilidade do investidor. * McCullough, B.R., Bonnie’s Household Budget Book, N.York, St. Martin’s Griffin, 1995, p.45.


O uso adequado do endividamento - 12.08.2013
No artigo aqui postado no dia 15 do mês passado, ressaltei a importância de manter o endividamento dentro de um limite, definido pela porcentagem dos rendimentos disponíveis tomada pelos gastos com o endividamento, na forma de amortização e juros. Argumentei que um limite recomendável é proceder de tal forma que esse comprometimento fique entre 15% e 20% dos rendimentos.

Mas, mesmo dentro de um limite como esse há que distinguir o bom do mau endividamento. Quanto a isto, as questões a considerar podem ser divididas em dois grupos. O primeiro diz respeito à natureza do que vai ser adquirido, ou seja, da decisão de comprar em si mesma. Um segundo grupo é o das características do financiamento,  também por si mesmo.  Esses dois grupos de questões interagem dentro de um mesmo conjunto. Uma decisão excluindo a compra elimina também o financiamento dela. E se a natureza do financiamento não recomendar que seja tomado, a decisão de compra deve ser abandonada.

I - Aspectos a ponderar na aquisição
No mesmo artigo citado fiz também uma incursão no exame do que comprar com endividamento, começando por não recomendá-lo para os gastos usuais de consumo, como o de alimentação dentro e fora do domicílio, que devem ser totalmente cobertos pelos rendimentos próprios. Na outra ponta, faz sentido o endividamento voltado para aquisição de casa própria, pois seu valor é alto relativamente aos rendimentos mensais e ela se adiciona ao patrimônio pessoal ou familiar. Ou seja, o dinheiro não some.

O mesmo vale para o endividamento para a educação e cuidados com a saúde. Dentro do conceito econômico segundo o qual a pessoa também pode ser vista como um “capital humano”, gastos como esses são uma forma de investimento que preserva ou aumenta o valor desse capital e sua capacidade de produzir rendimentos.

Um caso intermediário costuma ser fonte de muitos problemas, os bens duráveis de consumo, como automóveis, barcos, aparelhos eletrodomésticos, móveis e semiduráveis como o vestuário. A atração exercida por esses bens é muito forte, agravada por novidades e modismos. E até questões psicológicas, como o desejo de mostrá-los em busca de prestígio no meio social em que a pessoa vive. Um aspecto muito importante é que esses bens perdem valor ao longo do tempo.

O que fazer? Antes de decidir pela aquisição, é preciso levar em conta vários aspectos. Vários envolvem simples questões de bom senso, mas frequentemente ignoradas por consumidores que não refletem suficientemente sobre o ato de comprar. Assim, compram por impulso, sem considerar a efetiva necessidade do que vai ser comprado. Às vezes, há a sensação de uma necessidade, como nos casos em que a aquisição dá status perante amigos e parentes, ou porque se acha que o que se tinha ficou obsoleto em face de novidades e modismos, conforme já apontados.

Registre-se também o apego a marcas específicas, também consagradas no meio social,  sem que o consumidor reflita bem sobre o valor intrínseco daquilo que ostenta a marca. Outras vezes, sem maiores reflexões as pessoas se dobram a argumentos de vendedores com grande poder de persuasão. E diuturnamente muito mais treinados para vender do que os consumidores para comprar, pois só ocasionalmente se deparam com vendedores.  
Há também a atração exercida por liquidações e outras formas de descontos, embora se saiba de lojas que antes de oferecê-los aumentam os preços que cobram. Assim, mesmo diante uma liquidação é preciso comparar preços entre lojas. 

II – Aspectos a ponderar no endividamento
De novo são vários. Começo pela capacidade de pagamento, ou seja, de obedecer a um seguro limite de endividamento, conforme abordei no artigo inicialmente citado. Aí cabe perguntar: tenho condições de pagar o compromisso adicional da dívida sem prejudicar outros gastos e sem comprometer o orçamento pessoal ou familiar?  Imaginar-se ultrapassando esse limite e refletir sobre as respectivas consequências, inclusive a do seu caso extremo, a insolvência, serve como desestímulo à tomada de riscos quanto a este aspecto.

Outra pergunta cabe a quem pensa em assumir numa dívida: examinei e comparei custos e prazos das várias alternativas de financiamento disponíveis? Além da compra por impulso, há outro movimento deste tipo muito perigoso, aquele que leva as pessoas a recorrer ao cartão de crédito sem maiores reflexões. E para seu pior uso, aquele em que o saldo da fatura não é pago no vencimento, com o que se incorre nos juros mais altos encontrados no mercado de crédito, muitas vezes com taxas acima de 10% ao mês.

Acabo de olhar as taxas cobradas por um desses cartões. A taxa mensal é próxima de 15%(!) ao mês, levando a taxas perto de 450%(!!) ou mesmo 500%(!!!) ao ano, neste último caso para financiamento de saques em dinheiro. E há quem se disponha a se financiar a essas taxas, seguindo o caminho de um desastre financeiro.

Outro impulso na hora de financiar leva a altas taxas que também devem ser evitadas. O de usar cheques ou cartões de débito de uma forma que leva a saldos negativos em conta corrente, no sistema conhecido como cheque especial. 
Nos bancos há várias alternativas de menor custo do que financiamento via cartão de crédito ou cheque especial,  com destaque para o crédito consignado, o tomado com a garantia de imóvel próprio e o crédito pessoal.

III – Combinando I e II: uma pergunta interessante
Um autor americano, Bonnie McCullough*, além de focar em aspectos que abordei e outros, entre estes sugere um particularmente interessante e também na forma de uma pergunta: aquilo que pretendo comprar ainda poderá ser usado depois que eu quitar o financiamento?

Note-se que esta pergunta é voltada tanto para a natureza da compra, a durabilidade do bem, como para uma das condições do financiamento, o seu prazo. Pensando nas respostas a casos concretos, num extremo fica claro que faz sentido um financiamento de longo prazo para adquirir um imóvel, mas não faz maior sentido financiar bens de consumo não duráveis, qualquer que seja a forma de financiamento.
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Roberto Macedo, CFP® (Certified Financial Planner), é economista formado pela USP com Mestrado e Doutorado na Universidade Harvard (EUA).  Foi Secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Fazenda e Planejamento, funcionário do Banco Central e do Banco do Brasil. E-mail: imprensa@bb.com.br. Este texto reflete a opinião do autor e não necessariamente a do BB; tem caráter apenas informativo, e não deve ser tomado como recomendação de subscrição, tomada de créditos, compra ou venda de ativos, decisões estas de exclusiva responsabilidade do investidor. * McCullough, B.R., Bonnie’s Household Budget Book, N.York, St. Martin’s Griffin, 1995, p.45.


Avança o cadastro positivo de crédito - 05.08.2013
Este artigo apresentará um breve histórico do cadastro negativo. Em seguida, mostrará problemas que ele apresenta e vantagens do cadastro positivo. Estas, tanto para bons pagadores como para inadimplentes, estimulando estes a sair desta condição.

O momento é oportuno para refletir sobre o assunto, pois a partir deste mês bancos, financeiras e administradoras de leasing passaram a abastecer o cadastro positivo com dados creditícios de seus clientes. E, vale ressaltar, desde que estes as autorizem a fazê-lo. Consórcios aderirão em junho de 2014. São passos importantes para consolidação desse cadastro, dada a enorme quantidade de clientes e respectivas informações que essas instituições dispõem.

Histórico do cadastro negativo
Ele é praticado há cerca de duzentos anos no Brasil. Conhecendo a centenária Associação Comercial de São Paulo (ACSP), aprendi que nos primórdios desse cadastro havia reuniões de comerciantes para trocar ideias sobre o status de seus devedores na praça. Meu dicionário diz que praça também significa mercado, o termo hoje mais usado. E “pôr na praça” é sinônimo de pôr à venda ou lançar um produto ou serviço.  Hoje se fala mais em pôr ou colocar no mercado.

Com o crescimento da economia mais o avanço das instituições financeiras e das tecnologias de informação, as conversas entre comerciantes sobre seus clientes evoluíram para cadastros formais e troca das respectivas informações sem presença física. Esses cadastros estiveram na origem de muitas associações comerciais que surgiram no país.  A ACSP, por exemplo, surgiu em 1894. A do Rio de Janeiro é a mais antiga e remonta a 1820.  Em 1834 uma organização precursora dela adotou o nome de Sociedade dos Assinantes da Praça, a qual recebeu em 1867 o nome de Associação Comercial do Rio de Janeiro.

Associações como essas instituíram formalmente serviços de proteção ao crédito (SPC) onde as informações sobre devedores inadimplentes são cadastradas e abertas à consulta de comerciantes. E, também, de instituições financeiras e outros interessados em ter acesso a essas informações.  Com as tecnologias inicialmente disponíveis, era mais fácil e envolvia menor custo registrar apenas os inadimplentes ou “negativados”, felizmente até hoje uma minoria. Se assim cadastrados, a eles o crédito passava a ser negado.

Problemas do cadastro negativo e vantagens do positivo
Pela sua natureza o cadastro negativo apresenta problemas que o positivo procura contornar. Um deles é que o negativo não permite identificar o total que uma pessoa,  empresa ou outra instituição qualquer já deve a seus vários credores, mesmo sem ter sido “negativada”. Essa informação é importante para avaliar o risco de uma inadimplência futura e para prevenir-se contra ela.

O negativo também não permite identificar o histórico dos bons pagadores. Ora, os juros envolvem um componente de risco. Quanto maior o risco de inadimplência do devedor, maior a taxa cobrada dele. Isto faz sentido, mas como conhecer os bons pagadores, para favorecer estes últimos com taxas menores?

Sem essa informação, a instituição que concede o crédito acaba fixando essas taxas de juros levando em conta somente a avaliação que isoladamente faz do desempenho, só com ela,  do devedor em operações passadas.

Muitas fazem uma avaliação pelo risco médio do grupo em que o cliente está inserido e da natureza da operação com ele realizada. Por exemplo, no crédito consignado, como há desconto em folha, o risco é menor.  Se ele é para funcionários públicos ou para trabalhadores de empresas com vínculo empregatício mais estável, o risco é menor ainda. Nesses casos os devedores se credenciam a juros menores do que, por exemplo, em operações de crédito pessoal. Neste, a forma de pagamento voluntária e o perfil médio dos tomadores já denota um risco maior do que no consignado.

Na outra ponta, em cartões de crédito e no crédito na própria conta corrente –  o chamado cheque especial –, o próprio recurso a empréstimos desses tipos já revela um devedor que toma maiores riscos. E a disponibilidade desses créditos, particularmente dos  cartões,  também torna seus portadores mais vulneráveis às tentações do consumo. Alguns reúnem vários cartões, tanto das bandeiras mais abrangentes como os oferecidos pelas próprias lojas.

No conjunto das operações de crédito, entretanto, exceto por esta divisão por grupos de risco, os bons devedores não são beneficiados, pois falta consolidar o cadastro positivo, que mostrará o desempenho de cada um deles. Mesmo dentro desses grupos há bons e maus pagadores. 

Em síntese, pode-se dizer que havendo apenas o cadastro negativo os devedores justos também acabam pagando pelos riscos dos pecadores. Com o cadastro positivo o crédito fluirá mais para os bons pagadores. Um estudo realizado pelo Banco Mundial revelou que a inadimplência caiu em até 43% em países que adotaram o cadastro positivo. Neles também aumentou o acesso ao crédito.

Na prática e o ainda longo caminho à frente
Sou a favor da adesão ao cadastro positivo. Feito isto, o cadastro poderá ser acessado por lojas, bancos e outras instituições financeiras, e pelo próprio cadastrado. E este, se tiver ficha limpa, poderá barganhar por melhores condições de crédito.

Mesmo os inadimplentes devem se cadastrar se tiverem dispostos a sair dessa condição e mostrar isto ao mercado. Soube que na empresa Boa Vista, que administra o SPC da ACSP, cada cadastrado recebe uma pontuação, que é maior para os bons pagadores. E os inadimplentes terão sua pontuação ampliada à medida que forem limpando suas fichas.

Vale lembrar, contudo, que os resultados do cadastro positivo não serão imediatos, pois tomará tempo até ele alcançar um volume de inscritos que o consolide como fonte de informações para operações de crédito. Além disso, será preciso uma mudança da cultura das instituições que oferecem o crédito, envolvendo seus proprietários, diretores e funcionários. Isto, para que os bons pagadores sejam efetivamente beneficiados com taxas menores do que as cobradas dos que não cuidam de seu prestígio como devedores.
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Roberto Macedo, CFP® (Certified Financial Planner), é economista formado pela USP com Mestrado e Doutorado na Universidade Harvard (EUA).  Foi Secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Fazenda e Planejamento, funcionário do Banco Central e do Banco do Brasil. E-mail: imprensa@bb.com.br. Este texto reflete a opinião do autor e não necessariamente a do BB; tem caráter apenas informativo, e não deve ser tomado como recomendação de subscrição, tomada de créditos, compra ou venda de ativos, decisões estas de exclusiva responsabilidade do investidor.

Aumentos recentes da Selic e o quadro da renda fixa - 29.07.2013
A taxa básica de juros da economia, também conhecida como Selic, definida periodicamente pelo Conselho de Política Monetária (Copom), do Banco Central (BC), atingiu seu último pico em julho de 2011, quando esse conselho a fixou em 12,50% ao ano.

A partir do mês seguinte a Selic iniciou uma sequência de quedas que a trouxe para 7,25% ao ano em outubro do ano passado, seu menor valor desde que foi criada em março de 1999. Então o BC passou a fixá-la no contexto de sua política monetária, voltada para alcançar metas de inflação. Atualmente a meta está no intervalo de 2,5% a 6,5% ao ano, que tem 4,5% como centro.  A partir de abril deste ano, o BC voltou a aumentar a Selic, que atualmente se encontra em 8,5% ao ano, valor fixado na última reunião do Copom, concluída no dia 11 deste mês.

A queda da Selic e mesmo suas taxas mais recentes geraram desconforto entre investidores em renda fixa, pois se levada em conta a tributação do Imposto de Renda(IR) e as taxas de administração cobrados em várias aplicações que têm sua remuneração ligada à Selic, em vários casos os ganhos nominais se revelaram e ainda se revelam insuficientes para cobrir a inflação. Ou seja, para cobrir a queda do poder aquisitivo da moeda nacional.

Este artigo examinará se a retomada de aumentos da Selic já aliviou substancialmente esse quadro e as perspectivas futuras do mesmo. Também mencionará algumas aplicações que isentas do IR e/ou de taxas de administração que auxiliam o investidor na busca de uma remuneração capaz de permitir um ganho real ou pelo menos de reduzir de modo significativo as perdas ligadas à inflação.  Também será feita referência específica ao caso da caderneta de poupança.

A inflação e o crescimento do período recente
A tabela abaixo mostra, de julho do ano passado até junho deste ano, as taxas do IPCA e da Selic, e previsões para as mesmas taxas em julho e dezembro de 2013, conforme detalhes que a tabela esclarece.

IPCA no mês, em 12 meses  e Selic anual no fim do mês
Julho de 2012 a Julho de 2013 e previsões para julho de 2013 e dezembro de 2013 – em %
Taxa
Jul 12
Ago 12
Set 12
Out 12
Nov 12
Dez 12
Jan 13
Fev 13
Mar 13
Abr 13
Mai 13
Jun 13
Jul 13(*)
Dez 13 (*)
Mês
0,43
0,41
0,57
0,59
0,60
0,79
0,86
0,60
0,47
0,55
0,37
0,26
0,05
(***)
12 m
5,20
5,24
5,28
5,45
5,53
5,84
6,15
6,31
6,59
6,49
6,50
6,70
(**)
5,75
Selic
8,00
7,50
7,25
7,25
7,25
7,25
7,25
7,25
7,25
7,50
8,00
8,00
8,50
9,525
Fonte: BC e IBGE. (*) Previsões de inflação mensal e em doze meses e da Selic no fim do ano são do Relatório Focus do BC (Expectativas de Mercado), em 19-7-13. (**) Esse relatório não fornece essa previsão, mas essa taxa deverá cair em julho, particularmente em face da prevista para o mesmo mês. (***) a esta distância do mês de dezembro, fica difícil uma previsão específica para o mês, em face da instabilidade das taxas mensais. Contudo, a previsão do mercado para o final do ano, indica implicitamente que o mercado trabalha com uma taxa mensal que não comprometeria esse resultado final.
   
Recorde-se que para que o IPCA fique bem perto da meta de inflação, de 4,5% ao ano, é necessário que sua taxa média mensal fique em 0,37% ao mês. Mas, na tabela, até abril deste ano as taxas mensais ficaram todas acima desse valor, duas vezes superando até o dobro dele. Com isso, como se nota nas linhas seguintes, as taxas em 12 meses foram se agravando até ficarem muito próximas da Selic, com destaque para o mês de março deste ano, quando a diferença entre as duas foi de apenas de 0,66 ponto percentual (p.p.).

Ora, supondo um fundo de renda fixa que rendesse a Selic, o que muitas vezes não acontece, com os ganhos nominais brutos ficando abaixo dela, essa diferença seria mais que absorvida pelo IR e pela taxa de administração, por menores que fossem os seus valores. E é essa proximidade entre a Selic e a inflação anual que incomoda os investidores em renda fixa de um modo geral.

Olhando à frente...
Note-se que a partir de abril a Selic começou a subir, e que de maio em diante as taxas mensais de inflação começaram um ciclo de queda. Para julho a previsão é de uma taxa próxima de zero, enquanto que para agosto a previsão é de outra taxa bem favorável, de 0,26%. Com isso, o mercado prevê uma reversão também da taxa em 12 meses, que terminaria o ano em 5,75%, enquanto que as previsões são de novos aumentos da Selic em pelo menos duas das três reuniões do Copom que ocorrerão até o final do ano, com o que ela  chegaria a 9,5% no final do ano.

Assim, com a Selic e a inflação nesses níveis, haveria margem para a primeira assegurar ganhos superiores à inflação, ainda que não com muita folga, dependendo dos valores da alíquota do IR e da taxa de administração quando cobradas. E de novo haveria que levar em conta se o valor integral da taxa da Selic seria recebido pelo investidor.

Em qualquer caso, essas visões do fim do ano são estimativas que podem se confirmar ou não, inclusive porque o governo também poderá voltar atrás no aumento da Selic. O que me parece certo mesmo é que o governo não abdicou da sua decisão de trazer a Selic para valores mais baixos relativamente ao passado em que ela garantia remunerações reais líquidas muito satisfatórias. Ou seja, bem acima da inflação e cobrindo o IR e a taxa de administração, quando cabíveis.  Assim, permanece um cenário em que o investidor que busca maiores ganhos deverá mover-se para aplicações de maior risco.

Em qualquer caso, não sem razão aumentou o interesse do investidor por papéis e fundos isentos de imposto de renda, como as Letras de Crédito Agrícola, as de Crédito Imobiliário e os fundos deste último tipo. E quanto à proteção contra a inflação, entre os papeis indexados à inflação há as Notas do Tesouro Nacional-Série B, que pagam o IPCA + juros definidos no momento da compra, rendimentos esses garantidos desde que compradas no lançamento e resgatadas no seu vencimento. Mas, os preços dessas notas podem oscilar de preços e sua negociação antes do vencimento pode trazer prejuízos para o investidor.

Quanto à caderneta de poupança, a perspectiva é de que com o aumento da Selic a poupança nova, a dos depósitos realizados a partir de 4/5/12, passe a render o mesmo que a poupança antiga, ou seja, 6,17% ao ano mais a TR (taxa referencial). Ou seja, reforçando ainda mais os atrativos da poupança, conforme realçados no nosso último artigo. Acrescente-se que se a inflação de fato chegasse aos 5,75% previstos para o final do ano, a poupança, isenta de IR e de taxas de administração, também teria seus rendimentos integralmente protegidos contra inflação, pelo menos por algum tempo.
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Roberto Macedo, CFP® (Certified Financial Planner®) e economista formado pela USP com Mestrado e Doutorado pela Universidade Harvard (EUA), é pesquisador da FIPE-USP.  Foi Secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Fazenda e Planejamento, funcionário do Banco Central e do Banco do Brasil.  E-mail: imprensa@bb.com.br. Este texto reflete a opinião do autor e não necessariamente a do BB; tem caráter apenas informativo e não deve ser tomado como recomendação de subscrição, compra ou venda de ativos, decisões estas de responsabilidade exclusiva dos investidores.   

Poupança mantém charme mesmo com nova regra de remuneração - 22.07.2013
Desde março de 2012 até o mês passado, um período de 16 meses, a captação líquida mensal das contas  de poupança foi sempre positiva. Antes disso, entre janeiro de 2011 e fevereiro de 2012, um período de 14 meses, houve cinco de captação negativa. E os montantes aportados às contas de poupança têm sido consideráveis (R$50 bilhões em 2012 e R$28 bilhões no primeiro semestre de 2013). E isto aconteceu depois de alterada a remuneração para depósitos feitos a partir de 4 de maio de 2012, o que até aqui deu-lhes um ganho menor do que o das contas existentes antes da mesma data.

Para situar o leitor quanto ao que se passa com as contas de poupança, o texto a seguir começará revendo as regras que atuam sobre  a poupança antiga (a dos saldos existentes em 3 de maio de 2012 na sua parte não sacada desde então), e a poupança nova (a dos depósitos realizados a partir do dia 4 de maio que permaneceram como saldos para contagem da remuneração).

Em seguida serão examinados dados que em parte esclarecem a renovada atratividade das contas de poupança.

Revendo as regras das contas de poupança
A regra de ganhos da poupança antiga, estabelece a taxa de 0,5% ao mês que, acumulada,  leva a um total de 6,17% a cada 12 meses, mais a chamada taxa referencial (TR), que é de magnitude pequena e por vários meses recentes ficou em zero.

Quanto às contas da nova poupança, a remuneração  é constituída por 70% da taxa básica de juros ou Selic fixada pelo Banco Central (BC), mais a TR, desde que a Selic fique igual ou abaixo de 8,5% ao ano.  Caso supere esse valor, será aplicada a remuneração da poupança antiga; se isto acontecer, e depois a Selic voltar a 8,5% ao ano ou abaixo disso, prevalecerá de novo a regra de 70% da Selic mais a TR. 

O que pode acontecer na próxima reunião do Copom que examinará a Selic
Hoje a Selic está exatamente em 8,5% ao ano, mas seu valor voltará a ser examinado na próxima reunião do Conselho de Política Monetária (Copom), do BC, a ser concluída no dia 28 do próximo mês de agosto.

Quanto ao que acontecerá então, o  mercado financeiro, por seus operadores e analistas, está predominantemente prevendo que a Selic será aumentada  em mais 0,50 ponto percentual (p.p.), passando a 9% ao ano. Ora, 70% de 9% em princípio elevariam a remuneração da poupança  para 6,3% ao ano, mais a TR. Mas, o governo federal não quer isto, e assim a remuneração ficaria nos mesmos 6,17% mais a TR, da poupança antiga. Um cenário também cogitado é o da elevação da Selic em  0,25 p.p., para 8,75% ao ano. Tomando-se 70% desta taxa, isto aumentaria a remuneração da poupança nova a 6,13% + TR. Como a diferença deste último valor relativamente à remuneração da poupança antiga é pequena, a regra governamental optou por neste caso também aplicar o critério da poupança antiga, de uma remuneração de 6,17% ao ano mais a TR.

Em síntese, a se confirmarem um desses cenários para a Selic, ou de qualquer outro valor acima de 8,5% ao ano, as contas antigas e novas terão a mesma remuneração, mas estas últimas continuarão correndo o risco de ter uma remuneração abaixo daquela da poupança antiga se a Selic voltar a 8,5% ao ano ou menos.
 
Números da Selic, da inflação, de aplicações na poupança e de fundos DI
Há tempos a Selic vinha caindo de magnitude, mas desde meados do ano passado passou a ficar muito próxima da taxa de inflação. A grande queda dessa diferença entre a taxa Selic e a de inflação representou nos últimos tempos o fato mais marcante do mercado de aplicações com remuneração ligada à Selic.

A tabela abaixo mostra a redução da diferença entre as duas taxas, a partir de avaliações  mensais que cobrem o período julho de 2011 a julho de 2013.

     Selic, inflação e a diferença de suas taxas - Em %
Data
Selic nova em % anual (A)
Inflação em 12 meses até o final do mês (B)
 Diferença    (A) - (B)
21.07.11
12,50
6,87
5,63
11.10.12
7,25
6,70
0,55
18.04.13
7,50
6,49
1,01
30.05.13
8,00
6,50
1,50
06.07.13
8,50
6,70(*)
1,80
Fonte: Banco Central - (*) dado de junho de 2013

A diferença de 5,63% na primeira linha da última coluna lembra os bons tempos da renda fixa ligada à Selic, pois tal diferença era suficiente, no caso de fundos,  para cobrir o Imposto de Renda (IR) na fonte a uma alíquota de, digamos, 20% mais uma taxa de administração de fundos de 1 a 2% ao ano, e ainda garantir um ganho real (acima da inflação) para a aplicação, desde que esta recebesse rendimento idêntico à taxa Selic. Mas, na segunda linha, a diferença caiu para 0,55%, que não cobriria o IR nem a taxa de administração mesmo que às alíquotas mais baixas. Com os aumentos da Selic partir de abril, a diferença voltou a subir, mas sem garantir um ganho real.

Esses cálculos se complicariam contra o pequeno investidor se levado em conta que suas aplicações em fundos ligados à Selic não a recebem integralmente.

Na nossa percepção esses fundos constituem o exemplo mais marcante de perda de atratividade após a queda da Selic retratada na tabela acima. O caso típico é o dos fundos DI, assim chamados porque a negociação de taxas se faz em termos da taxa média dos CDI (Certificados de Depósito Interfinanceiro), muito próxima da Selic. No primeiro semestre deste ano, captação líquida desses fundos foi de apenas R$1,2 bilhão, enquanto na poupança essa captação alcançou R$28,2 bilhões!

Assim, essas informações sugerem que no forte avanço das captações líquidas das contas de poupança um fator importante não foi tanto a sua própria atratividade em termos absolutos, até prejudicada com as regras da poupança nova. Foi mais a perda de atratividade de fundos DI, mais prejudicados pela redução da diferença entre a Selic e a inflação conforme a tabela apresentada. Outro fator que parece ter pesado foi que em face da perspectiva de menor rendimento na poupança nova ou em outras aplicações, muitos investidores optaram por não sacar o que tinham na antiga.

Há que lembrar também que tanto a antiga como a nova poupança continuam com os atrativos de sempre, a saber: taxa de administração inexistente; tributação do IR nula para pessoas físicas e para jurídicas sem fins lucrativos; garantia do Fundo Garantidor de Crédito, que os fundos não têm; e o fácil aprendizado, pois as contas são movimentadas como uma conta corrente, exceto cheques,  e também permitem o uso de cartões para essa finalidade.
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Roberto Macedo, CFP® (Certified Financial Planner), é economista formado pela USP com Mestrado e Doutorado na Universidade Harvard (EUA).  Foi Secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Fazenda e Planejamento, funcionário do Banco Central e do Banco do Brasil. E-mail: imprensa@bb.com.br. Este texto reflete a opinião do autor e não necessariamente a do BB; tem caráter apenas informativo, e não deve ser tomado como recomendação de subscrição, tomada de créditos, compra ou venda de ativos, decisões estas de exclusiva responsabilidade do investidor.

Muito cuidado ao comprometer rendimentos com dívidas - 15.07.2013
Se o leitor já tomou ou cogitou de tomar crédito consignado ou financiamento imobiliário, deve saber do limite de comprometimento da renda com pagamentos de dívidas. No crédito consignado, por exemplo, há o limite de 30%.

Tenha ou não dívidas onde há limites como esse, é muito importante que o próprio devedor avalie quanto do que recebe mensalmente está comprometido dessa forma. Uma razão é que algumas formas de crédito, como o oferecido pelas próprias lojas e os cartões, embora adotem alguns controles, como o limite de gastos dos cartões, são muito menos rígidas ao estabelecê-los, ficando o controle por conta do próprio usuário.

Bancos e outras instituições financeiras gostariam de saber o endividamento total de seus clientes efetivos ou potenciais relativamente a seus rendimentos, mas ainda não há no Brasil dados que consolidem com segurança essa informação. Fala-se do cadastro positivo, que faria esse papel, mas ainda está em implantação. Ademais, pode haver também o endividamento informal com amigos, parentes e até mesmo agiotas.

No fundo, é uma questão de bom senso, e é fácil perceber a sua importância. Como a pessoa irá pagar as prestações que vencem sem que o orçamento fique muito apertado com o pagamento delas? E as despesas usuais, de alimentação, habitação, educação, vestuário, transportes e outras, como ficarão? Neste artigo o limite de comprometimento da renda com compromissos da dívida será examinado para destacar que ele é um indicador da saúde financeira pessoal, e assim deve ser avaliado pelo próprio devedor.

A gravidade do problema depende muito da natureza das dívidas, em particular se foram tomadas para adquirir serviços e bens de consumo, mesmo que duráveis, ou se foram usadas para investimentos como imóveis, bem como em educação e saúde. Como fazer então uma avaliação e quais os parâmetros aceitáveis? 
   
O foco do interesse: a dívida que não corresponde a poupança e investimentos
As pessoas têm seus ativos ou bens pessoais que incluem: (1) dinheiro vivo  e outros ativos de alta liquidez, como depósitos bancários e fundos financeiros; (2) outros investimentos, de menor liquidez, como ações, planos de aposentadoria etc; (3) ativos reais, como casa-própria, lotes e propriedades rurais;  (4) dívidas referentes a educação e saúde; (5) participações em empresas bem sucedidas; (6) outros ativos pessoais, como automóveis, barcos, aparelhos eletrodomésticos, móveis,  roupas etc.    

As dívidas referentes a esses outros ativos pessoais, chamados de bens de consumo duráveis (como geladeiras) ou semi-duráveis (como roupas), é que devem ser objeto de maior atenção, juntamente com as de gastos e consumo, estas a serem radicalmente evitadas.   Se o leitor observar os demais grupos, são poupança ou investimentos que constituem o patrimônio e podem gerar rendimentos, ou evitam despesas, como a de aluguel, no caso de quem tem casa própria.  Já esses outros ativos pessoais, os do item (6) acima, eles perdem valor ao longo do tempo. Em algum momento, precisam ser repostos. E ao comprá-los, é preciso ponderar sobre a sua efetiva necessidade.

Nessa linha, deve ficar claro que uma pessoa não deve ir comprometendo seus rendimentos com esse grupo de ativos pessoais, nem com o consumo, além do necessário. Não é, contudo, o que muita gente faz, pois há quem assuma dívidas desse tipo com forte comprometimento da renda, prejudicando a poupança e a formação de patrimônio na forma dos itens (1) a (5) da lista de ativos apresentada acima. .
   
Avançando na análise
Passando ao cálculo da relação entre os pagamentos de dívidas e os rendimentos disponíveis, tudo deve ser avaliado em bases mensais, e abrangendo só dívidas voltadas para o item (6) da mesma lista, e as do abominável financiamento do consumo.

Nas receitas mensais, devem-se incluir salários e todos os demais rendimentos mensais, inclusive 1/12 do décimo-terceiro salário, comissões, gratificações, rendimentos financeiros, aposentadorias, aluguéis recebidos etc. Quem quiser ser mais rigoroso no cálculo, pode deixar fora os rendimentos derivados de investimentos, desde que usados para ampliar a poupança e os investimentos. Nas despesas mensais com dívidas, cabem os gastos com cartões de crédito (em média mensal), prestações pagas a instituições financeiras e lojas, e as relativas a empréstimos informais, como os já citados.

O passo seguinte consiste em dividir (a) o total dos pagamentos de dívidas dos tipos citados, por (b) o total dos rendimentos.  E multiplicar o resultado por 100, se preferir trabalhar com porcentagens, caso em que o resultado deve dar um número entre zero e 100%. Se der mais, ou mesmo próximo de 100%, é  caso de falência pessoal.

Avaliando com parâmetros
No Brasil, parâmetros legais adotados pelas instituições financeiras, como no crédito consignado, dão uma idéia de como elas e o governo pensam o assunto. Mas, não há uma regra rígida. Vou dar a minha própria opinião, que é próxima de parâmetros que já vi em análises do mesmo assunto nos EUA, e respectivos graus de risco. São eles:

    (Gastos com dívidas) ÷ (rendimentos disponíveis)    Grau de risco
    Menor que 15%                                                    Baixo
    Entre 15% e 20%                                                 Luz amarela
    De 21% a 39%                                                     Luz vermelha   
    40% ou mais                                                        Próximo do desastre
   
O que fazer?
Se o leitor está no grau baixo, parabéns, mas não é para avançar.  Fique por aí e vá engordando os demais ativos. Para quem está na faixa amarela, já é hora de retroceder. Quem avançou na terceira, cabe frear rapidamente, e também engatar uma marcha à ré. Na última faixa, a situação se complica muito, mas ainda assim há como enfrentá-la. Entre os caminhos, os seguintes: (1) parar com novas dívidas do tipo; (2) reestruturá-las, ampliando prazos e substituindo-as por outras de juros menores; (3) negociar descontos e prazos maiores com os devedores; (4) se o problema for da família, discutir com ela as soluções.

Tudo é mais difícil para quem tem rendimentos menores, e cabe também pensar em como aumentá-los. Em qualquer caso, cabe muita disciplina e força de vontade, o que pode exigir até o recurso a psicólogos e outros analistas.  Economistas como eu param por aqui.
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Roberto Macedo, CFP® (Certified Financial Planner), é economista formado pela USP com Mestrado e Doutorado na Universidade Harvard (EUA).  Foi Secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Fazenda e Planejamento, funcionário do Banco Central e do Banco do Brasil. E-mail: imprensa@bb.com.br. Este texto reflete a opinião do autor e não necessariamente a do BB; tem caráter apenas informativo, e não deve ser tomado como recomendação de subscrição, tomada de créditos, compra ou venda de ativos, decisões estas de exclusiva responsabilidade do investidor.

Como a inflação é medida e dicas para se defender dela - 08.07.2013
Na sexta-feira da semana passada, vieram boas e más notícias sobre a inflação. As más, de alta, dizem respeito à inflação acumulada nos últimos 12 meses, ou seja, estão confirmadas. As boas, de queda, dizem respeito apenas à inflação no mês passado, e assim não bastam para garantir tendência nessa direção.

Antes dos últimos números da inflação serão apresentadas características dos principais índices que a medem (IPCA - Índice de Preços ao Consumidor Ampliado, INPC - Índice Nacional de Preços ao Consumidor e IGP-M – Indice Geral de Preços, de Mercado). Isto, para o leitor saber qual é o índice ou índices de seu maior interesse. Eles não apenas medem a inflação, mas são usados em questões concretas. Por exemplo,  o IPCA para definir a meta de inflação que o Banco Central (BC) procura alcançar, o INPC para reajustes coletivos e anuais de salários, e o IGP-M para reajustes de aluguéis. Ao final serão apresentadas algumas dicas para a defesa contra a inflação.

IPCA, INPC e IGP-M
Os dois primeiros índices são do IBGE, enquanto o terceiro é da Fundação Getúlio Vargas (FGV). A análise será focada na sua avaliação mensal e em 12 meses.

Quanto ao uso do IPCA pelo BC, a meta anual é atualmente de 4,5% como valor central, admitido um intervalo de dois pontos percentuais para mais ou para menos. Ou seja, é preciso que a inflação anual fique entre 2,5% e 6,5%. O ideal é ela seja de 4,5% ou menos.  Quando a taxa do IPCA, medida em 12 meses, começa a subir e se aproxima do teto da meta, o BC costuma elevar a taxa básica de juros, conhecida como Selic, com o objetivo de desestimular a demanda de bens e serviços na sua pressão sobre os preços. Juros maiores afetam expectativas de inflação ao tornar os financiamentos mais caros, e induzir pessoas físicas e jurídicas a dirigir parcela maior de seus recursos para aplicações financeiras e não para a compra de bens e serviços. 

Tanto o INPC como o IPCA têm como base pesquisas de orçamentos familiares que avaliam os pesos ou porcentagens que os diversos bens e serviços têm nesses orçamentos, para chegar a esses índices por meio de médias que ponderam as variações de preços conforme esses pesos.

Os diversos bens e serviços e seus preços são também agregados por grupos de despesas. Nos dois índices os grupos são: alimentação, transportes, habitação, saúde e cuidados pessoais, despesas pessoais, vestuário, comunicação, artigos de residência e educação. 

O IPCA abrange famílias com rendimentos mensais entre 1 e 40  salários-mínimos, qualquer que seja a fonte de rendimentos, residentes nas áreas urbanas das regiões metropolitanas onde há o levantamento (Belém, Fortaleza, Recife, Salvador, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, São Paulo, Curitiba e Porto Alegre, Brasília e o município de Goiânia).  Nelas, o INPC cobre famílias com rendimentos mensais entre 1 e 5  salários-mínimos, cujo chefe é assalariado em sua ocupação principal.

Como se percebe, o INPC é limitado a assalariados e de rendimentos menores do que os do  grupo coberto pelo IPCA.  Por isso o INPC é mais usado em reajustes salariais. No nome IPCA, esse A final indica que o índice é ampliado, tanto no valor dos rendimentos familiares como no que diz respeito à fonte deles.

Como a faixa de rendimentos do INPC é menor do que no IPCA, o peso da alimentação é maior no INPC (26,27%) do que no IPCA (23,12%). O contrário ocorre, por exemplo, no peso do item comunicação: no INPC é 2,78%  e  no IPCA é 4,06%. 

O IGP-M é calculado de tal forma que seu resultado sai antes do final do mês a que se refere, e não depois. É dado pela média aritmética ponderada de três outros índices: Índice de Preços ao Produtor Amplo (IPA),  Índice de Preços ao Consumidor (IPC) e Índice Nacional de Custo da Construção (INCC), com pesos de 60%, 30% e 10% respectivamente.

Os números de junho - em %
São os apresentados na tabela a seguir, que tem como fontes o IBGE e a FGV.

Índice
No mês
Em 12 meses
IPCA
0,26
6,7
INPC
0,28
7,0
IGP-M
0,75
6,3

A taxa do IPCA de junho foi muito boa, pois seu valor ficou bem abaixo de 0,37%, valor médio necessário para se chegar a 4,5% ao ano. Tudo indica, contudo, que foi uma taxa excepcional. Foi a menor taxa desde junho do ano passado.  Além disto, nesse mês a taxa em 12 meses voltou a superar o teto da meta. Segundo o IBGE, um fator que pesou em junho foram as manifestações de rua, que inibiram compras. Com isto, vendedores ficaram com mais estoques e menos espaço para aumentos de preços, em particular de alimentos, que subiram apenas 0,04% em junho contra 0,31% em maio.

O INPC mostrou taxas maiores do que o IPCA tanto no mês como em 12 meses, mas a diferença não foi grande, e se explica principalmente porque nesse período o preço dos alimentos estiveram pressionados,  e eles pesam mais nesse índice.

Assim, não se pode afirmar que a menores taxas desses dois índices em junho já são o prenúncio de uma inflação que irá persistir abaixo do teto da meta. Pelo contrário, a taxa do IGP-M de junho foi muito alta, resultante sobre tudo da pressão de preços no atacado, seu principal componente. Quando os preços sobem no atacado, a perspectiva é de que esse movimento alcance preços futuros no varejo, onde são feitos os levantamentos do IPCA e do INPC. Em julho, ambos estarão sujeitos a duas forças atuando em sentido contrário. Para menos, a redução ou cancelamento de reajustes de tarifas de ônibus; pra mais, a recente alta do dólar. 

O que fazer?
Com uma inflação alta e sem perspectiva de voltar ao centro da meta ou abaixo dele, cabe empenho maior em se defender de aumentos de preços. Algumas dicas para isto: (1) manter mínimo o dinheiro em espécie, para evitar sua corrosão pela inflação; (2) mesmo que uma aplicação financeira, como a poupança, não renda a inflação, é melhor ter essa proteção parcial do que nenhuma; (3) observando-se com mais cuidado os preços dos bens e serviços, cabe reduzir a participação no orçamento doméstico dos itens cujos preços sobem mais; é como se o consumidor estivesse administrando seu próprio índice de inflação, pois no caso dos índices citados os pesos dos produtos não se alteram;  mudando o orçamento dessa forma o índice de preços de quem fez isto estará crescendo menos do que os índices citados.
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Roberto Macedo, CFP® (Certified Financial Planner), é economista formado pela USP com Mestrado e Doutorado na Universidade Harvard (EUA).  Foi Secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Fazenda e Planejamento, funcionário do Banco Central e do Banco do Brasil. E-mail: imprensa@bb.com.br. Este texto reflete a opinião do autor e não necessariamente a do BB; tem caráter apenas informativo, e não deve ser tomado como recomendação de subscrição, tomada de créditos, compra ou venda de ativos, decisões estas de exclusiva responsabilidade do investidor.

O que se passa no mercado de ações? - 01.07.2013
No último sábado as manchetes principais dos cadernos econômicos de dois importantes jornais deram a mesma notícia sobre o Ibovespa, índice que sintetiza o valor das ações negociadas na Bolsa de Valores de São Paulo (Bovespa), revelando assim o destaque dado ao assunto. A notícia foi a de que, ao fechar o primeiro semestre de 2013 em 47.457 pontos, o Ibovespa revelou a maior queda semestral desde 2008,  ano em que eclodiu a mais forte crise financeira mundial recente. A queda foi de 22,14%, e um desses jornais disse que foi também o pior resultado para o primeiro trimestre desde 1972.

Farei um breve retrospecto do Ibovespa desde o seu último recorde, examinarei as razões de sua queda mais recente, as perspectivas dos investimentos em ações, e os riscos e oportunidades que apresentam, em particular no momento atual.

Breve retrospecto do Ibovespa
Depois de atingir seu recorde histórico de 73.516 pontos em 20/5/2008, poucos meses depois, quando a referida crise atingiu o Brasil, o Ibovespa despencou, e chegou ao seu “fundo do poço” após esse recorde, fechando em 29.435 pontos em 27/10/2008.  Conforme a tabela abaixo, o Ibovespa saiu rapidamente desse fundo, superando os 40 mil pontos em novembro do mesmo ano, os 50 mil em maio de 2009, os 60 mil em setembro e os 70 mil em 4 de janeiro de 2010. 

A tabela também mostra o seu retrocesso relativamente às barreiras de 70 mil a 50 mil pontos, esta no dia 14 do mês passado.

Ibovespa - Datas, índices e Barreiras Superadas na Recuperação
  pós-Crise de 2008 e no Retrocesso que se acentuou em 2013
Data
Índices
                          Recuperação
Barreira Superada (*)
28/10/2008
33.387
30 mil
04/11/2008
40.255
40 mil
04/05/2009
50.405
50 mil
16/09/2009
60.410
60 mil
04/01/2010
70.045
70 mil

Retrocesso
Barreira Superada (**)
21/01/2011
69.133
70 mil
03/04/2012
64.284
65 mil
04/02/2013
59.444
60 mil
29/05/2013
54.364
55 mil
14/06/2013
49.332
50 mil
                    Resumo - Ibovespa - Variação Anual em %                  
2008
- 41,2
2009
+82,7
2010
+1,0
2011
-18,1
2012
+7,4
2013
-22,1

Fontes: Ipeadata. (*) Pela primeira vez; (*) pela última vez.

A queda e suas razões                              
Como se percebe da tabela apresentada, o retrocesso que levou aos 47.457 pontos da sexta-feira passada foi particularmente acentuado em 2013 e do final de maio para cá. Entre razões se destaca o mau humor que tomou conta dos mercados acionários de países emergentes como o Brasil, em face de vários sinais de recuperação da economia dos EUA, o que pode levar à reversão dos estímulos monetários com que seu banco central  procurou estimular a economia do país em decorrência da mesma crise já citada. 

Em face dessa perspectiva disseminou-se outra, a de que lá os juros irão subir quando esse processo for iniciado. Ora, como o mercado procura se antecipar aos fatos, isso provocou internacionalmente um movimento na direção do dólar, valorizando-o como aconteceu no Brasil nesse mesmo período em que se acentuou a queda do Ibovespa. O elemento comum foi a saída de dólares do mercado de ações, o que levou à compra dessa moeda valorizando-a ao mesmo tempo em que o Ibovespa caia.

Também contribuíram para a queda do Ibovespa o mau humor quanto às ações da Petrobras, em parte ligado a dificuldades operacionais e também à valorização do dólar que agrava seus custos. A Vale também sofre, pois se conjectura que o crescimento da economia da China, seu maior cliente, também poderá ser afetado com esses desdobramentos ligados ao dólar. E,  ainda, pelo novo rumo dado à economia do país por seus dirigentes, com redução da taxa de investimentos relativamente a seu PIB. Também pesou a forte desvalorização das ações do grupo EBX liderado pelo empresário Eike Batista, bem como as movimentações de rua e a notícia de que a agência de classificação de risco Standard & Poor’s poderá rebaixar a nota brasileira.  E há também o fraco desempenho da economia nacional.

O cenário adiante para investidores...
Além do nível baixo, o Ibovespa passa por um momento de volatilidade  alta. No meio da semana passada, por exemplo, veio a notícia de que o PIB dos EUA cresceu abaixo do esperado no primeiro trimestre de 2013, alimentando a expectativa de que o fim dos incentivos monetários poderá ser retardado. Com isto, o índice subiu, terminando a semana com um pequeno aumento.

Predomina, contudo, um quadro cinzento, alimentado por fatores que estão longe de garantir uma recuperação bem sustentada.  Mas, vale lembrar que o momento é de baixa, e pela regra de comprar na baixa e vender na alta seria uma oportunidade para compras. Mas, o risco é alto.  Entrar na Bolsa é para gente que tem objetivos de longo prazo, grande propensão ao risco, capaz de aguardar um momento de alta para sair, e com disponibilidade de recursos para se submeter a esse risco, sem lamentações caso ele se materialize.  Quanto a ficar, há quem permaneça, e se o fazem é porque também têm essa perspectiva de longo prazo e propensão ao risco. Creio que alguns têm também na sua história um passado recompensador, com destaque para momentos como o do “fundo do poço” inicialmente citado, quando quem comprou teve boas oportunidades de ganho.
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Roberto Macedo, CFP® (Certified Financial Planner®) e economista formado pela USP com Mestrado e Doutorado pela Universidade Harvard (EUA), é pesquisador da FIPE-USP.  Foi Secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Fazenda e Planejamento, funcionário do Banco Central e do Banco do Brasil.  E-mail: imprensa@bb.com.br. Este texto reflete a opinião do autor e não necessariamente a do BB; tem caráter apenas informativo e não deve ser tomado como recomendação de subscrição, compra ou venda de ativos, decisões estas de responsabilidade exclusiva dos investidores.


Entendendo o aumento recente da taxa de câmbio - 24.06.2013
A taxa de câmbio é o preço de uma moeda medido por outra.  Como há muitas moedas, há várias taxas de câmbio para a mesma moeda. No Brasil, a taxa mais usada  é definida com relação ao dólar americano, na forma de reais por dólar.  Entre outros aspectos, a taxa de câmbio influencia preços de bens e serviços que são objeto de transações no mercado externo, como o petróleo e o  turismo fora do país.  Com isto, muitas decisões levam em conta a cotação do dólar.

A seguir apontarei fatores que atuam no mercado de moeda estrangeira, sempre com foco no preço do dólar em reais. A análise focará também no seu movimento mais recente, no qual a taxa comercial subiu cerca de 10% do final de abril de 2013 até a sexta-feira passada. No final, o texto apresentará dicas quanto à compra de dólares para viagens.

O mercado do dólar em reais
Há dois mercados principais, que se distinguem pela natureza de suas operações.  O do dólar livre ou comercial e o do dólar turismo. O primeiro é voltado para transações comerciais e financeiras, predominantemente de pessoas jurídicas, mas também de pessoas físicas, com valores em geral bem mais altos do que no de dólar turismo.  Instituições que operam nesses mercados executam operações de compra e venda. A cotação de compra é sempre inferior à de venda, pois essas instituições teriam prejuízo se atuassem de outra forma. Algumas cobram também tarifas específicas pelo seu trabalho.

Entre os fatores que influem nas cotações, estão o estado da economia do país e de suas contas externas, a taxa de inflação, a política de juros e sua situação política. Também atuam o que se passa no país da outra moeda tomada como referência, o momento especulativo vivido pelo mercado financeiro, e o montante de cada operação. Idealmente, cabe pesquisar as taxas oferecidas, mas isso toma tempo.

O dólar fechou a semana passada em R$2,242 para compra e R$2,244 para venda no mercado livre. São valores médios das operações realizadas. As mesmas taxas do dólar turismo terminaram em R$2,140 e R$2,410, e a maior diferença entre os dois números se explica, entre outras razões,  pelo maior número de transações para turismo e seu menor valor, tendo assim maiores custos em relação aos valores envolvidos.

A volatilidade recente da taxa cambial
Em abril deste ano, o dólar comercial oscilou pouco e bem perto de R$2,00 na ponta da venda.  Assim ficou no início de maio, mas a partir da segunda quinzena do mesmo mês começou a subir, e no final dele estava em R$2,132; em junho, no dia 14 estava em R$2,137. Na semana passada teve novo impulso, e fechou no citado valor de R$2,244.

O movimento veio mais do dólar do que do real.  Com a crise financeira que eclodiu em 2008, os EUA criaram vários estímulos monetários para sua economia, reduzindo a sua taxa básica de juros, e também injetando dinheiro, com seu banco central, conhecido como Fed, emitindo dólares para comprar títulos do governo em poder do mercado.

Em parte por conta desses estímulos, mas também porque é uma economia muito grande, flexível e responde a eles, os EUA vinham mostrando sinais de recuperação, que se firmaram em 2013.  Com isso, o mercado passou a especular que em algum momento o Fed iniciaria um processo de retirada desses estímulos, apontando para uma subida de juros no país.   Ora, isto provocou uma reação no mercado financeiro mundial, alcançando também o Brasil. Na semana passada, o presidente do Fed fez um discurso dizendo que vai fazer isso começando ainda este ano, o que acentuou a reação do dólar.

Aqui, ela se manifestou mediante uma saída de dólares do Brasil, como aconteceu no caso da Bovespa, em direção dos EUA atraídos pelas perspectivas de rendimento maior lá. Isto, ponderado pelo risco, que é menor naquele país do que no Brasil. O governo brasileiro deu indícios de que aceitava uma taxa de câmbio perto de R$2,15, porque quer estimular as exportações, mas também demonstrou que não a quer acima disto, preocupado com a inflação que está no limite da meta do Banco Central (BC), de 6,5% ao ano.  Assim, entre outras medidas o BC passou a intervir no mercado vendendo dólares a partir de suas reservas, que são muito altas. E, também, eliminou o Imposto sobre Operações Financeiras  (IOF) de 6%, incidente sobre ingresso de capitais para aplicação em renda fixa no Brasil.

Implicações para quem pretende viajar
Uma situação como essa gera incertezas na aquisição de pacotes de viagem e de dólares para gastos fora do país. Minha recomendação quanto a isto é influenciada pelas experiências de viagens internacionais. A pior foi quando a taxa subiu muito inesperada e rapidamente, e eu estava no exterior usando cartão de crédito.  Ao chegar me deparei com uma dívida em reais bem maior do que a imaginada ao partir. A viagem não chegou a ser totalmente “estragada”, mas tampouco foi a que esperava se o dólar não tivesse subido.

Hoje faço o seguinte: 1) decido se tenho condições de suportar o custo da viagem antes de fazê-la, comprando as passagens e os dólares necessários, no valor em que se encontram quando decido; 2) não uso cartão de crédito lá fora, mas carrego um para emergências; 3) levo dinheiro em espécie e a maior parte sob a forma de um cartão pré-pago, com um  valor fixo de dólares para gastar; 4) decidida a questão, por uns tempos evito olhar a cotação do dólar para não mais refletir sobre a conveniência ou não da viagem em termos de custo.  Torna-se um assunto liquidado. A preferência pelo cartão pré-pago também se justifica porque seu IOF, de 0,38%, é muito menor que o hoje incidente sobre compras externas com cartão de crédito (6,38%).

Quanto a viagens no fim deste ano, o último boletim Focus do Banco Central, que  semanalmente publica as expectativas do mercado financeiro, no dia 14/6 previa para essa época uma taxa de R$2,10 de venda no segmento comercial, a qual era de R$2,02 quatro semanas antes (a taxa do turismo costuma ser de 5 a 10% acima do comercial). Portanto, a previsão se ajustou em face do estado do mercado, mas só na segunda feira desta semana será possível verificar se o mercado promoveu novo ajuste. Em qualquer caso, é um cenário a se confirmar ou não.  A nova previsão do relatório Focus poderá ser consultada na sua página 2 por meio do link www.bcb.gov.br/?FOCUSRELMERC. 

Aí cabem três alternativas: 1) fechar a compra à taxa atual; 2) deixar a compra para mais perto da viagem; 3) comprar dólares até a viagem em parcelas, de modo a fazer um preço médio, em face do risco de oscilações para cima ou para baixo. Todas essas alternativas têm seus riscos. Mas, é bom refletir sobre elas. É melhor conhecer os riscos, e tomar uma decisão consciente deles,  do que ser surpreendido por imprevistos.
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Roberto Macedo, CFP® (Certified Financial Planner), é economista formado pela USP com Mestrado e Doutorado na Universidade Harvard (EUA).  Foi Secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Fazenda e Planejamento, funcionário do Banco Central e do Banco do Brasil. E-mail: imprensa@bb.com.br. Este texto reflete a opinião do autor e não necessariamente a do BB; tem caráter apenas informativo, e não deve ser tomado como recomendação de subscrição, tomada de créditos, compra ou venda de ativos, decisões estas de responsabilidade exclusiva dos investidores.
A garantia de depósitos bancários dada pelo FGC - 17.06.2013

A solidez de um sistema financeiro depende muito da confiança de quem nele deposita dinheiro. Na crise financeira que eclodiu em 2008, mais uma vez isto ficou evidente, pois uma de suas causas, nos EUA, foi a disseminação de operações financeiras fora do sistema regulado e garantido pelo Sistema Federal de Reserva, que naquele país desempenha o papel de banco central.

O sistema brasileiro tem sido muito elogiado internacionalmente, entre outras razões por não permitir que operações como depósitos sejam feitas fora dele. Além disso, garante depósitos até um determinado valor, recentemente ampliado de modo significativo.

Este artigo mostrará como é feita essa garantia. É muito importante que o leitor a conheça, inclusive para ampliar seus depósitos no sistema financeiro. Sem utilizá-lo, fica excluído de seus benefícios, como os de ter um lugar seguro para deixar dinheiro, usar cheques e operações pela internet, e também ter acesso ao crédito em suas várias formas.

O texto resume informações disponíveis no site do próprio FGC (www.fgc.org.br), onde outros aspectos poderão ser consultados.

O que é o FGC
Foi criado em 1995 por autorização do Conselho Monetário Nacional. É uma associação sem fins lucrativos, com personalidade jurídica de direito privado. As instituições associadas ao FGC contribuem para mantê-lo. Elas incluem os bancos em geral, a Caixa Econômica Federal, as sociedades de crédito, financiamento e investimento, as sociedades de crédito imobiliário, as companhias hipotecárias e as associações de poupança e empréstimo. Para que instituições como essas sejam autorizadas a funcionar no Brasil é indispensável que sejam associadas ao FGC. O BB é um dos bancos associados. Não são associadas as cooperativas de crédito e as seções de crédito de cooperativas em geral.

Como seu nome indica, o FGC atua prestando garantia de créditos contra instituições dele associadas. Depositar dinheiro numa dessas instituições significa ter um crédito contra elas. Em outras palavras, elas devem aos seus depositantes.

O FGC atua em casos de decretação da intervenção ou da liquidação extrajudicial de instituição associada ou quanto há o reconhecimento, pelo Banco Central, do estado de insolvência de uma delas.  Essa é uma atuação caso a caso, mas o FGC também pode atuar preventivamente, via assistência ou suporte financeiro às instituições associadas.
Os créditos ou depósitos cobertos pelo FGC
Incluem depósitos em geral, como em conta corrente ou de poupança. E depósitos a prazo, como CDBs, letras de câmbio, imobiliárias, hipotecárias, de crédito imobiliário, e de crédito do agronegócio, além de outros listados no referido site. Esse esclarecimento é particularmente interessante, pois muitas pessoas não vêem essas letras como depósitos, quando de fato o são.  Entre os casos não cobertos, destacam-se os fundos de investimentos financeiros. O mesmo site explica por que a garantia não é oferecida nesse caso.

O FGC e seus limites de cobertura ordinária
Chegamos aqui a um dos aspectos que mais interessam aos depositantes, pois dizem respeito aos valores da cobertura. De novo, vale lembrar que o site do FGC tem muito mais informações do que as aqui resumidas. Nesse caso dos limites, o FGC apresenta não apenas as regras das garantias, mas também seus valores e exemplos que incluem os casos de depósito em nome de mais de uma pessoa física ou jurídica.

Começando pelas regras, a fonte das informações assim as sintetiza: “O total de créditos de cada pessoa contra a mesma instituição associada, ou contra todas as instituições associadas do mesmo conglomerado financeiro, será garantido até o valor de R$ 250.000,00 (duzentos e cinquenta mil reais), limitado ao saldo existente.” Esse valor era de R$70.000,00 até o final de abril deste ano. Ou seja, houve um aumento considerável.

Para identificar a pessoa beneficiada e como agregar seus créditos dentro do limite de garantia, o FGC segue os seguintes critérios: a) titular do crédito é aquele em cujo nome o crédito estiver registrado na escrituração da instituição associada ou aquele designado em título por ela emitido ou aceito; b) devem ser somados os créditos de cada credor identificado pelo respectivo CPF ou CNPJ contra todas as instituições associadas do mesmo conglomerado financeiro.

Nas contas que reúnem duas ou mais pessoas, o valor da garantia é limitado ao número citado, “(...) ou ao saldo da conta quando inferior a esse limite, dividido pelo número de titulares, sendo o crédito do valor garantido feito de forma individual”.

São ilustrativos os exemplos dados pelo FGC: a) conta conjunta de 2  titulares: A e B saldo de R$ 280.000,00; valor garantido: R$ 250.000,00 ÷ 2 = R$ 125.000,00 para cada titular. b) conta conjunta de 3  titulares: A, B e C saldo de R$ 280.000,00; valor garantido: R$ 250.000,00 ÷ 3 = R$ 83.333,33 para cada titular. E assim por diante, sempre com a divisão do limite pelo número de titulares.

Particularmente interessante é o exemplo em que uma pessoa, A, mantém 4 contas conjuntas separadamente com B, C, D e E, cada uma com o saldo de R$280.000,00. Como o limite do FGC é de R$250.000,00 por conta e por pessoa, em cada uma delas e num primeiro cálculo o resultado é de R$125.000,00 por pessoa. Assim, B, C, D e E terão direito à cobertura de R$125.000,00 individualmente, mas embora participando de todas as contas A só terá direito ao valor de R$250.000,00, pois este é o limite por pessoa.

As indenizações: milhões de pessoas receberam um total que alcança bilhões de reais
As estatísticas do FGC revelam que, desde seu início de operação em 1996 e até 11/6/13, 4,2 milhões de clientes receberam indenizações. Até 19/2/13 elas totalizaram R$5,6 bilhões em valores históricos, ou seja, sem atualização por conta da inflação.   Dos 4,2 milhões de indenizados, 3,9 milhões eram do Banco Bamerindus. Os demais casos foram de bancos de médio e pequeno porte, principalmente os últimos.

Bancos grandes têm menor risco, e seu próprio tamanho mostra que são histórias de sucesso. No caso do BB, que existe há mais de 200 anos, e seu maior acionista é o governo, não vejo risco algum. Mas, é bom saber que a proteção do FGC se estende ao sistema como um todo, que ela se ampliou recentemente de modo significativo, que contribui para o fortalecimento da confiança dos depositantes nesse sistema, e que vem cumprindo seu papel quando acionada.
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Roberto Macedo, CFP® (Certified Financial Planner), é economista formado pela USP com Mestrado e Doutorado na Universidade Harvard (EUA).  Foi Secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Fazenda e Planejamento, funcionário do Banco Central e do Banco do Brasil. E-mail: imprensa@bb.com.br. Este texto reflete a opinião do autor e não necessariamente a do BB.

A capitalização como poupança - 10.06.2013
Sou um dos poucos economistas (aliás, não sei de outro) que recomenda planos de capitalização. E vez por outra compro um deles com pagamento mensal. Atualmente tenho três. A restrição de economistas também alcança muitos jornalistas quando escrevem sobre o assunto. Contudo, essa restrição ocorre porque em geral eles vêem a capitalização como um investimento, enquanto eu a vejo como poupança. Vou explicar o porquê desse meu enfoque, e adicionar outras observações sobre os planos de capitalização.

No que se segue estarei focando apenas na capitalização puramente financeira, ou seja, como a oferecida pelo BB, voltada para produzir um capital ao final do plano, e não a ligada a sorteios de imóveis e de outros bens ou serviços.
 
O que é capitalização?
Como o próprio nome indica, é voltada para formar um capital. Ou seja, é uma ação que produz um valor acumulado ou capitalizado ao final do plano, ou mesmo antes. Conforme explicarei mais adiante é recomendável levá-lo até o final.

Vista dessa forma, a capitalização é um mecanismo de poupança, pois esta também leva a um capital, e o fundamental é constituí-la. Mas, no caso da capitalização é importante saber que só uma parcela do valor pago, a cota de capitalização, irá formar o saldo ou capital final. Por exemplo, no plano Multi Sorte 24 meses, do BB, essa cota é de 10% no 1º mês e 97,771% do 2º ao 24º mês. A outra parte vai para o custeio de despesas operacionais e sorteios.

Esses percentuais das parcelas pagas são capitalizados e atualizados mensalmente, para gerar o valor de resgate do título. Tudo é descrito no documento Condições Gerais de cada plano. Por exemplo, no Ourocap Reserva, está escrito que: “A Reserva de Capitalização será constituída (...)  por  um percentual de cada parcela paga (...) atualizada mensalmente na data de aniversário pela TR  aplicada à caderneta de poupança (...) e capitalizada à taxa de juros de 0,5% a.m., gerando o valor de resgate do Título.” Esse valor poderá ser então utilizado para investimento ou para consumo.

Entendo que poupar é a maior dificuldade do brasileiro na gestão de suas finanças pessoais. Para quem consegue poupar, são amplas as alternativas para consumir e de investir. E usualmente recomendo esta última opção, pois em geral as pessoas não prosperam sem poupar e investir.

O leitor poderá argumentar que há formas de poupar que são também investimentos. De fato existem, e o exemplo clássico é a caderneta de poupança, onde o dinheiro aplicado também produz um rendimento.  Mas, mesmo com os atrativos dela, ou seja, rendimento com isenção do Imposto de Renda de pessoas físicas, liquidez imediata e risco praticamente inexistente, para muitas pessoas esses estímulos não são suficientes. Podem até ter a conta, mas seus aportes nela ficam limitados ou são sacados pela dificuldade de poupar.

Assim, é como outra forma de poupança que a capitalização pode se tornar interessante. Como argumentarei em seguida, ela atende às condições de um público específico, mas de grande dimensão.

Para quem a capitalização é particularmente adequada?
É para pessoas que têm determinadas características. Em primeiro lugar, são marcadas pela chamada motivação lúdica, ou seja, apreciam o jogo. O melhor seria não jogar, pois a probabilidade de ganho é muito baixa. Mas, o brasileiro gosta e muito de jogar, como o demonstra a proliferação de casas lotéricas oferecendo jogos de todo o tipo. E também os pontos do jogo do bicho.

Ora, se é para jogar, a capitalização é melhor opção, pois pelo menos o dinheiro não se perde. E a parte que é capitalizada tem uma atualização conforme nos termos que mencionei acima. Mas, hoje a TR está zerada e uma capitalização a 0,5% ao mês, como no exemplo citado, não vem cobrindo a inflação. Assim, esta impõe uma perda ao corroer o poder aquisitivo do saldo capitalizado. Mas, a caderneta de poupança também tem essa perda. Ainda assim, ela é muitíssimo menor que a do jogo puro, usualmente total. De qualquer forma, por essa questão da inflação, entendo que os planos de duração mais curta, de 24 ou 36 meses, são mais interessantes, pois minimizam o efeito corrosivo dela até o resgate.

Uma segunda característica de pessoas com perfil adequado à capitalização é quando têm grande dificuldade de poupar. Tentam fazê-lo, mas logo sucumbem à tentação de consumir e gastam o dinheiro poupado. Ora, neste caso a capitalização funciona como um compromisso efetivo, quase compulsório, com a poupança. E há até como que uma punição para quem rompe esse compromisso, e deixa de levar o plano até o fim. Nesse caso, ela receberá proporcionalmente menos do que os que não fazem isso.

Uma terceira característica é a que leva pessoas como eu a ter planos de capitalização. Adquiro um, e praticamente me esqueço dele, deixando os pagamentos mensais para  débito em conta. Quando vem o resgate, a sensação é muito boa, pois é uma soma muito mais vultosa que os pagamentos mensais. Aliás, costumo planejar que o plano chegue ao resgate no final do ano, quanto a pressão por gastos é mais forte. De quebra, posso até ser premiado, mas meu atrativo principal é essa sensação de um bom dinheiro a mais.  Mas, se premiado não irei reclamar...

Outras observações
Examinando o elenco de planos oferecidos pelo BB, notei que os planos de pagamento mensal podem ser encontrados em vários valores a partir de R$30, adequando-se assim às disponibilidades do interessado. Há também planos de pagamento único. Ou seja, o interessado já entra com o capital integralizado. Assim, já conseguiu poupá-lo, e plano deixa sua característica de formação de capital.

Nesse caso o efeito da inflação é mais forte, pois incide sobre esse valor único, e do princípio ao fim do plano. Quando há o pagamento mensal, o efeito da inflação se dilui ao longo dos meses e é relativamente menor.  De qualquer forma, a capitalização continua valendo a pena relativamente à alternativa de jogos, nos quais só em raríssimas ocasiões o prêmio vem.
  
Em qualquer caso, antes da aquisição o interessado deve consultar atentamente o documento Condições Gerais de cada plano, que contém detalhadamente todas as suas características.

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Roberto Macedo, CFP® (Certified Financial Planner), é economista formado pela USP com Mestrado e Doutorado na Universidade Harvard (EUA).  Foi Secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Fazenda e Planejamento, funcionário do Banco Central e do Banco do Brasil. E-mail: imprensa@bb.com.br. Este texto reflete a opinião do autor e não necessariamente a do BB.

Pensando na declaração do Imposto de Renda de 2014 - 03.06.2013
Talvez o título deste artigo surpreenda o leitor, principalmente se for um dos 26 milhões de brasileiros  que entregaram dentro do prazo legal (30/4/13) a declaração do Imposto de Renda (IR) devida em 2013, referente ao ano-calendário de 2012.  Para que esquentar a cabeça com uma tarefa que só será exigida em 2014?

Esta tarefa é por si mesma uma questão formal exigida legalmente. Mas, seu conteúdo se baseia em fatos corridos no ano anterior ao da declaração.  Assim, a de 2014 será baseada no que se passou com o contribuinte em 2013.  E, como já estamos na metade dele, é bom refletir sobre o assunto, em particular para tomar providências que permitirão reduzir o IR apurado na declaração de 2014. E, eventualmente, até gerar ou aumentar uma restituição de IR. É parte daquilo que os especialistas chamam de planejamento tributário. Quem não o pratica está cometendo um equívoco que pode trazer prejuízos.

Vou detalhar as razões para evitá-los, e dar algumas dicas quanto ao que antecipar quanto à declaração de 2014, além de uma observação sobre a vantagem de poupar dada uma característica típica do regime tributário brasileiro.

Razões ligadas a recursos poupados e investidos...
Como já foi dito, a principal razão para pensar antecipadamente na declaração de 2014 é que ela será baseada nos rendimentos recebidos e nas despesas realizadas em 2013. Assim, para  pagar menos IR é preciso trabalhar ainda este ano.

Um dos aspectos mais importantes é dos incentivos fiscais concedidos aos que se inscrevem em planos de previdência privada. Há empresas que oferecem a seus empregados seus próprios planos de previdência, com suas regras de contribuições e benefícios. Como são da própria empresa, são conhecidos como planos de previdência privada fechados. Mas, há os abertos para os cidadãos em geral, e mesmo para quem contribui para um plano fechado pode ser conveniente fazer um aporte adicional.

Os planos abertos mais conhecidos são o PGBL (Plano Gerador de Benefício Livre)  e o VGBL (Vida Gerador de Benefício Livre).   O PGBL e os planos fechados têm as mesmas regras para fins de incentivo fiscal. Assim, para o cálculo do IR devido as contribuições anuais tanto para um como para outro plano, ou ambos (neste caso somadas), podem ser deduzidas num valor de até 12% da renda bruta. Outra restrição é que o PGBL é restrito aos que contribuem para o INSS e preenchem o formulário completo do IR. Exemplo: quem tem uma renda bruta anual de R$80 mil e usa esse limite, para fins de tributação na declaração essa renda será reduzida a R$70,4 mil. O IR sobre a diferença de R$9,6 mil só será pago quando o dinheiro for resgatado com os ganhos do investimento.

Quanto ao VGBL, ele é para quem é isento de IR ou usa o formulário simplificado, onde não cabem deduções específicas, e serve também para quem preenche o formulário completo, e quer investir acima dos 12% citados.  No VGBL, o valor investido já passou pela tributação ou foi isento. E o IR só será aplicado no resgate e apenas sobre os ganhos auferidos no período de acumulação.

É bom saber a diferença entre o VGBL e o PGBL, para não confundir as coisas. Por exemplo, soube de uma pessoa que tinha rendimentos isentos de tributação, mas investiu parte deles num PGBL. Assim, inadvertidamente, entregou essa parte para tributação futura, tanto do valor investido como dos respectivos ganhos.  Deveria ter colocado num VGBL, onde apenas os ganhos seriam tributados.

Em qualquer caso, se a pessoa não se programar para realizar as contribuições ainda em 2013, ela não se beneficiará dos incentivos fiscais do PGBL na declaração no formulário completo do ano que vem. No caso do VGBL, se for para fazer, quanto antes melhor, pois seus rendimentos começam a contar da data aplicação.

Razões ligadas a despesas e outros motivos.
Há muitos outros aspectos a pensar ainda em 2013 com impacto no IR final que será apurado na declaração de 2014. Entre eles, há que ponderar conveniência ou não da declaração em separado do cônjuge, a eventual constituição de uma empresa para quem presta serviços como autônomo ou tem imóveis alugados, e a inclusão de despesas com  cuidados de saúde, inclusive preventivos.

Em artigos anteriores, já abordamos recomendações nessa linha, como a conveniência de consultas médicas ou tratamentos dentários necessários, pois é menor  seu “custo líquido de IR”, ou seja, descontada a redução do IR que vem com a dedução da despesa dos rendimentos brutos tributáveis. 

E, ainda, outro e motivo muito importante, a poupança
Estou colocando-o como o último tema deste artigo, mas não é porque seja secundário. É para que o leitor não se esqueça dele.  E é uma observação que nunca vi mencionada por especialistas em finanças pessoais. 

Refletindo sobre a tributação que se aplica ao consumo relativamente à que incide sobre a poupança no Brasil, minha conclusão é que a da poupança é menor, pois não existe, pelo menos enquanto não for investida ou gasta em bens e serviços.

Explico: no Brasil o governo toma mais dinheiro com impostos indiretos como o ICMS e o IPI, ou seja, aqueles cobrados sobre os preços dos bens e serviços, do que o que arrecada com impostos diretos, que incidem sobre a renda, como o IR, e sobre a propriedade, como o IPTU.  Nos EUA, por exemplo, sei que ocorre o contrário, e isto é uma das razões que atraem os turistas brasileiros em busca de pechinchas, as quais têm um componente tributário.  Assim, por exemplo, quando um desses turistas compra, por exemplo,  um produto eletroeletrônico nos EUA, a porcentagem de impostos envolvida na aquisição é menor lá do que no Brasil.
Dado esse alto peso da tributação indireta no Brasil, quem gastar menos com bens de consumo e serviços pagará menos impostos desse tipo, pois o dinheiro poupado não é tributado depois da tributação do IR sobre rendimentos. Daí para frente, a tributação depende do que se faz com o dinheiro. Se for para uma aplicação financeira, de um modo geral só são tributados os rendimentos que virão com ela, e há aplicações cujos ganhos nem imposto têm, como a caderneta de poupança e fundos imobiliários.

 Em futuros artigos voltarei a este assunto da vantagem tributária envolvida em poupar mais. Foi incluído neste artigo porque se usufruída pelo contribuinte, é outra forma de reduzir sua tributação. Tal como a do IR, que foi o tema central aqui abordado, deve ser uma decisão tomada logo, para que as vantagens sejam maiores.
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Roberto Macedo, CFP® (Certified Financial Planner), é economista formado pela USP com Mestrado e Doutorado na Universidade Harvard (EUA).  Foi Secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Fazenda e Planejamento, funcionário do Banco Central e do Banco do Brasil. E-mail: imprensa@bb.com.br. Este texto reflete a opinião do autor e não necessariamente a do BB.

A importância de refletir sobre nossa expectativa de vida - 27.05.2013
Refletir sobre nossa expectativa de vida é uma das questões mais importantes do planejamento financeiro pessoal.  Começarei por definir o quê é expectativa de vida. Depois mostrarei números sobre o assunto, e que de um modo geral ela vem aumentando. Concluirei argumentando porque é importante refletir sobre a expectativa de vida e suas implicações financeiras. 

Definindo a expectativa de vida
A expectativa de vida é dada pelo número de anos adicionais que, em média, as pessoas de uma determinada faixa etária podem esperar viver.  Por exemplo, segundo os últimos dados, que apresentarei mais detalhadamente abaixo, na idade de 35 anos as mulheres brasileiras tinham em 2011 a expectativa de viver mais 45, ou seja, de chegar aos  80.

O dado mais divulgado é o da expectativa de vida ao nascer, isto é, na idade zero, que para as mulheres era de 77,7 anos, o número de anos até quando, em média, viverão as nascidas em 2011. Este número é menor do que a idade de 80 a que podem chegar as que nesse ano completaram 35, conforme o exemplo dado.  Uma das razões é que as pessoas sobreviventes já superaram dificuldades como a mortalidade infantil. Nesse ano inicial de vida, a criança é muito vulnerável, em particular nos primeiros dias pós-parto. 
   
Passando aos números...
A tabela abaixo mostra a expectativa de vida para algumas idades, já somando-lhes, em cada caso,  os anos adicionais, pois creio que facilita o entendimento.

                                         Brasil
Expectativa de vida somada à idade, por idade e gênero - 2011

Idade em 2011
Homens (A)
Mulheres (B)
(B) - (A)
0 (ao nascer)
70,6
77,7
7,1
5
72,1
79,0
6,9
15
72,3
79,2
6,9
25
73,5
79,6
6,1
35
74,7
60,0
5,3
45
76,1
80,7
4,6
55
78,1
81,9
2,8
65
81,1
83,9
2,8
75
85,3
87,0
1,7
80 ou mais
88,0
89,1
1,1
Fonte: IBGE

Na última coluna coloquei a diferença entre os números das duas anteriores. Nota-se que essa diferença entre homens e mulheres se reduz com o avanço da idade. Uma das razões é que os homens estão mais sujeitos a mortes violentas na juventude, como acidentes de trânsito e homicídios.

De qualquer forma, mesmo nas idades mais avançadas as mulheres tendem a viver mais que os homens conforme indica a mesma tabela, o que também é percebido no meio social em que vivemos.  Em particular, há mais viúvas que viúvos, ainda que grande parte disso se deva ao fato de que os maridos são usualmente mais idosos que suas mulheres.

Se a idade do leitor não consta dessa tabela-resumo, no site do IBGE estão as tabelas completas para homens e mulheres, ano a ano, de zero a 80. Neste último caso as tabelas falam de 80 ou mais anos. O link para consulta é:
www.ibge.gov.br/home/estatistica/populacao/tabuadevida/2011/defaulttab_pdf.shtm.

Entre um levantamento e outro, ao longo do tempo a expectativa de vida vem aumentando nas várias faixas etárias, por conta de melhores condições de vida, como saneamento básico e alimentação, ao lado de avanços na área médica, que vêm reduzindo a mortalidade causada por câncer e doenças cárdio-vasculares, entre outras. No caso da expectativa de vida ao nascer, muito usada para comparar padrões de vida entre países, nos últimos 30 anos no Brasil ela cresceu aproximadamente 10(!) anos para homens e mulheres.

Por que é importante conhecer essa situação e sua evolução?
Ora, se a pessoa vai viver mais, entre outros aspectos é preciso planejar ainda melhor a aposentadoria, em particular o dinheiro para se manter, inclusive para custear um bom plano de saúde.  Quanto a isto é importante lembrar que a medicina avança, mas com isso aumentam também os casos de sobrevivência com seqüelas.  Por exemplo, uma pessoa pode escapar de morrer por conta do coração, mas sobreviver com uma ponte de safena de custo elevado, que também exige avaliações periódicas.  Por isso mesmo, é necessário ter um bom plano de saúde, e conhecer os detalhes de sua cobertura.

Na aposentadoria, costumo dizer que viver só com a do INSS é difícil, e viver com ela ainda mais tempo continua complicado.  O ideal, assim, é viver mais tempo, mas bem, e por isso o planejamento é indispensável. Nesse contexto, essa tabela e sua evolução são elementos indispensáveis no processo de conscientização quanto às necessidades que decorrem do aumento da expectativa de vida, e quanto à conveniência de prover os recursos adequados para atendê-las.

Portanto...
Cada pessoa deve examinar sua posição atual e futura na tabela. É importante saber que em cada idade a tabela indica valores médios. Cada pessoa tem suas especificidades, e uma das mais importantes é a herança genética, indicada entre outros aspectos pelas idades até a qual seus pais sobreviveram, mais um adicional pelo aumento geral de expectativa de vida já abordado. Ou seja, à medida que a pessoa for seguindo abaixo na primeira coluna da tabela a tendência é que os valores da segunda ou terceira coluna irão aumentar. E não só nesse caminho da tabela, mas também quando for reavaliada no futuro.

Ao discutir este assunto, é inevitável refletir sobre doenças e mortalidade, mas ele trata da expectativa de vida, que, felizmente, está  aumentando.  Assim, o objetivo é mais o de refletir sobre a vida que vai restar,  sempre com a preocupação de aproveitá-la melhor. 
Assim, o interesse é na vida boa.  Boa sorte e bom proveito!
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Roberto Macedo, CFP® (Certified Financial Planner), é economista formado pela USP com Mestrado e Doutorado na Universidade Harvard (EUA).  Foi Secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Fazenda e Planejamento, funcionário do Banco Central e do Banco do Brasil. E-mail: imprensa@bb.com.br. Este texto reflete a opinião do autor e não necessariamente a do BB.

Ao escolher uma profissão pense também nas ocupações - 20.05.2013
Começarei discorrendo sobre as diferenças e similaridades entre profissão e ocupação.  Depois, sobre ocupações típicas ou atípicas de uma profissão. Concluirei com duas implicações da análise realizada.

Profissão e ocupação
O primeiro termo é muito mais conhecido e de uso consagrado do que o segundo. Por isto, pouco se fala sobre ocupações nas conversas voltadas para a escolha profissional. Mas, quando chegam ao mercado de trabalho, as pessoas percebem a enorme relevância do mundo das ocupações. Ter uma boa noção dele é fundamental para se obter uma formação educacional que facilite a busca de oportunidades ocupacionais no mercado de trabalho e para fortalecer a disposição de encontrá-las.

De forma simples, profissão é o nome que vem com o diploma de curso superior, ao qual a análise será restrita.  Mas, oportunidades no mercado de trabalho são oferecidas por ocupação, cargo ou função, cuja designação pode ou não coincidir com o nome da profissão. Tome-se, por exemplo, as ocupações de gerente administrativo, diplomata e auditor da Receita Federal. Não há diplomas com essas designações.

Também como exemplo, quem chegar à profissão de engenheiro poderá encontrar emprego como tal, e a profissão coincidirá com o nome da ocupação.  Mas, há muitos que se ocupam como analista financeiro ou auditor da Receita Federal.  Problema? Não. O mundo do trabalho funciona assim, e as pessoas têm que se adaptar a ele.

Para firmar os conceitos, recorrerei a outros termos. Profissão é a titulação alcançada com a formação educacional. Ocupação é o que de fato uma pessoa faz no mundo do trabalho.   Oficialmente, ela é assim definida: “um agrupamento de tarefas, operações e outras manifestações que constituem as obrigações atribuídas a um trabalhador e que resultam na produção de bens e serviços”. Esta definição está numa das edições da Classificação Brasileira de Ocupações (CBO), preparada pelo Ministério do Trabalho e Emprego. Ela é disponível no site desse ministério, por meio da conexão www.mtecbo.gov.br/cbosite/pages/home.jsf.

Meu interesse pela interação entre profissão e ocupação se firmou depois que,  economista por profissão, ocupei-me como pesquisador e escritor para produzir o livro Seu Diploma, Sua Prancha – Como Escolher a Profissão e Surfar no Mercado de Trabalho (São Paulo:Saraiva, 1998). Esse livro está esgotado, mas pode ser encontrado no comércio de livros usados, por meio dos chamados “sebos”.

Ocupações típicas ou atípicas de uma profissão
Há ocupações típicas de cada profissão. Por exemplo, um engenheiro civil ocupado como responsável técnico por construções. Muitas vezes, entretanto, um engenheiro pode trabalhar em ocupações que não são típicas da sua formação profissional, conforme já assinalei. Entre meus colegas economistas, sei de três casos extremos de ocupações atípicas. Um se tornou famoso como fotógrafo profissional, outro é hoje um monge budista, e o terceiro pratica medicina chinesa.  Em casos como esses, pode-se dizer que a pessoa mudou até de profissão após ingressar no mercado de trabalho.

Na metáfora do diploma e da prancha que deu título ao meu livro citado, as pessoas se sustentam no seu diploma como se fosse uma prancha para surfar nesse mercado. As ondas representam as oportunidades de trabalho ou novos interesses ocupacionais que muitas vezes levam a caminhos que não são típicos da profissão original. Em outras palavras, a pessoa sabe a prancha ou diploma que tem, mas não sabe onde irá parar ao surfar no mar do mercado de trabalho e suas ocupações.

Para firmar ainda mais os conceitos de profissão e de suas ocupações típicas ou atípicas, pode-se imaginar uma profissão como o tronco de uma árvore que,  com seus galhos, leva a várias ocupações típicas dessa profissão. Mas, como numa floresta, os galhos se entrelaçam de tal forma que focando o olhar neles é difícil identificar o tronco a que pertencem. Ou seja, há ocupações que podem ser exercidas por diferentes profissionais. Por exemplo, as de analista de comércio exterior, de supervisor de vendas e de auxiliar de crédito e cobrança são típicas tanto de economistas, como de administradores e contadores.

Outras vezes, os troncos profissionais estão dispostos de tal forma que seus galhos ou ocupações típicas não se tocam, ou se tocam muito pouco com os dos demais troncos. Com isso, as ocupações desses troncos são mais típicas das profissões a que correspondem. Este é o caso, por exemplo, dos médicos e dentistas. Só uma minoria deles exerce ocupações que não coincidem com as da titulação profissional. Mas, há também casos em que o entrelaçamento dos galhos ocupacionais é total. Isto é comum em vários concursos do setor público, onde ocupações como a carreira diplomática e as ligadas à tributação são abertas a pessoas formadas em qualquer curso superior.

E daí? Quais são as implicações de perceber esse mundo das ocupações?
Uma delas é que para ter mais oportunidades ocupacionais é preciso ter o interesse e a disposição de buscá-las, e  de procurar uma formação educacional mais adequada para isso. Outra é que os cursos universitários deveriam facilitar esse preparo mediante oferta de ciclos básicos comuns a vários cursos ou  formações profissionais.

Quanto à primeira, estudos mostram que o profissional de maior sucesso, inclusive financeiro,  na captura de oportunidades de trabalho,  é o  “especialista eclético”. Ou seja, é especializado em alguma área, mas capaz de buscar oportunidades em outras.  Para isso, entre outros aspectos ele precisa dominar competências básicas, comuns a várias áreas, como o domínio da linguagem e da comunicação falada e escrita, inclusive noutra língua, em particular o inglês, ter bom raciocínio lógico-matemático, dominar a informática básica (processamento de textos, planilha de cálculos, e apresentações visuais), e interagir bem no meio social, como ao trabalhar em grupos.

Quanto aos cursos, o ideal seria que o de graduação adotasse inicialmente um ciclo básico de um a dois anos, com currículo interdisciplinar, para que os estudantes conhecessem aspectos básicos de outras áreas, o que facilitaria seu ajuste a um mercado de trabalho marcado por grande flexibilidade ocupacional. A formação especifica seria enfatizada mais nos anos finais do curso e na pós-graduação. Esse modelo é mais encontrado em países desenvolvidos, como nos EUA, mas aqui no Brasil algumas instituições de ensino superior já começaram a se mover nessa direção.

Em futuros artigos me estenderei sobre essa percepção de que ao escolher uma profissão é preciso também pensar no que se passa no mundo das ocupações.
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Roberto Macedo, CFP® (Certified Financial Planner), é economista formado pela USP com Mestrado e Doutorado na Universidade Harvard (EUA).  Foi Secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Fazenda e Planejamento, funcionário do Banco Central e do Banco do Brasil. E-mail: imprensa@bb.com.br. Este texto reflete a opinião do autor e não necessariamente a do BB.


Vale a pena ter reservas financeiras - 13.05.2013
Toda pessoa precisa ter reservas em dinheiro,  ou em conta corrente ou de poupança, ou em investimentos de liquidez imediata,  isto é, conversíveis prontamente em dinheiro. E, ainda, a disponibilidade de créditos de fácil acesso, inclusive na forma de cheque especial ou mesmo de um cartão de crédito com o qual se possa sacar dinheiro. Idealmente, deve-se ter todo esse conjunto. São fontes às quais para recorrer se vierem gastos imprevistos por necessidade ou conveniência, distinção que explicarei mais à frente.

Vou detalhar esses e outros aspectos do que chamarei de reservas acessíveis para necessidades ou conveniências inesperadas (RANCIs), com esse “s” minúsculo lembrando que estão no plural todas as palavras assim abreviadas.

O que são as necessidades ou conveniências inesperadas
Quase todas as pessoas carregam algum dinheiro em espécie.  É aquilo que os economistas chamam de “moeda ou dinheiro para transações”.  A renda que recebemos leva a um fluxo de gastos ao longo do tempo, para os quais colocamos dinheiro no bolso, na bolsa, na carteira, ou guardamos em casa. 

De vez em quando, é necessário ir ao banco ou ao caixa eletrônico para reabastecer esse volume de dinheiro para transações. Parte dele fica lá, pois a necessidade de dinheiro vivo diminuiu muito com o uso de cheques e, crescentemente, de cartões de débito e de crédito. Neste último caso, estou me referindo apenas àqueles usados com quitação total da fatura mensal no seu vencimento. O financiamento pelo cartão deve ser sempre evitado.  

Mas, além desse dinheiro para transações, precisamos ter também as RANCIs. Repetindo, para necessidades ou conveniências inesperadas.  Quanto às necessidades, refiro-me a casos como desemprego, desequilíbrios no fluxo de caixa (quando despesas se antecipam relativamente ao recebimento de rendimentos), acidentes com danos pessoais ou materiais que exijam gastos, doenças que impeçam o trabalho, algum problema mais grave na manutenção da residência, sejam envolvendo a própria pessoa ou outras de sua família.

Como se percebe, nesse grupo de necessidades só há ruindades. Distinguem-se de outras necessidades que não se impõem dessa forma, mas cujo atendimento nos convém.  Por exemplo, uma pechincha irresistível, um presente de aniversário,  de casamento ou pela chegada de um bebê de um casal da família ou amigo.  Tanto nas necessidades citadas como nessas conveniências o traço comum é a imprevisibilidade.

A natureza das RANCIs
Não deixam de ser poupança, e algumas podem até ser investidas, mas sem a mesma magnitude de investimentos como uma casa própria. Ou constituídos com a mesma preocupação de rentabilidade e acumulação de patrimônio que tipicamente os orientam, em particular os de prazo mais longo. As RANCIs se posicionam entre o dinheiro para transações usuais e o alocado para investimentos nos quais se admite algum sacrifício da liquidez imediata em troca de uma rentabilidade maior que pode vir do seu maior risco.

Por exemplo, ações não devem integrar as RANCIs.  Mesmo as melhores não têm liquidez imediata. Ainda que transacionadas no mesmo dia da ordem de venda, só três dias depois o dinheiro cairá na conta bancária.  Ademais, se a necessidade da despesa imprevista vier num momento em que as ações estão em queda, a venda poderá trazer prejuízos. 

Portanto, as RANCIs devem estar em contas bancárias, e em investimentos de liquidez imediata como fundos DI e de renda fixa. E, como dito inicialmente, a disponibilidade de crédito também cabe nas RANCIs. É preciso saber ele onde estará, seu grau de acessibilidade e o custo. Mesmo os cartões de crédito são convenientes se usados só para compras com as faturas pagas no vencimento. Fora disso, só em emergência mesmo. E há o cheque especial, ou limite para saldos negativos em contas correntes, que para clientes específicos e por alguns dias alguns bancos não cobram juros.  Por experiência própria sei o BB oferece isto a clientes do programa BOMPRATODOS.
   
Quanto destinar às RANCIs?
Sem contar as disponibilidades de crédito, usualmente mais flexíveis, seu valor depende muito da natureza e do tamanho da renda de cada pessoa, dos riscos a que está exposta, e de outras coberturas disponíveis para proteger-se deles. Por exemplo, se ela  tem um bom plano de saúde, em geral a provisão para gastos desse tipo fica menor. Mas, raramente os planos cobrem remédios e cuidados em casa. Assim, cada pessoa deve avaliar suas características e definir um valor-meta. Pela minha experiência pessoal, vejo as RANCIs como um valor em torno de três salários mensais.

Mas, se a pessoa não tem emprego regular, ou de qualquer forma depende de rendimentos instáveis ao longo do tempo, ora ganhando mais, ora menos ou mesmo nada, suas reservas têm que ser maiores relativamente à sua renda.  Aliás, um economista famoso, Milton Friedman, mostrou que as pessoas com renda desse tipo poupam uma porcentagem maior do que ganham, quando comparadas a outras de renda estável. 

Se a pessoa está num emprego estável, então precisa de um fundo menor, sempre relativamente à renda e às necessidades.  Outra variante ocorre se a renda da família vem dos dois cônjuges, ou também dos filhos ou de outras pessoas que compartilham a residência.  Aí o tamanho das RANCIs fundo pode ser menor em termos individuais.
   
Seguros e outras alternativas
Seguros foram feitos para a proteção contra riscos e sua disponibilidade reduz o tamanho das RANCIs.  Contudo,  há casos em que não são disponíveis, ou custam muito caro, ou a indenização não viria imediatamente. Mas, alguns são indispensáveis, como o seguro-saúde, não se podendo ignorar o que cobre, e onde há o atendimento. E há que carregar a carteirinha. Sem ela haverá que pagar ou deixar um depósito para o atendimento. 

Há quem tenha o seguro-desemprego e o FGTS, mas eles não têm liquidez imediata, e o segundo é de mais fácil acesso só em alguns casos. Garantido o acesso, são muito úteis, podendo servir também para pagar um empréstimo-ponte até que o saque ocorra. O seguro de veículos também é indispensável, mas não cobre despesas de manutenção, que podem ser altas como no caso de um motor avariado, e há também a franquia. 

Para concluir, as RANCIs são como caixa-d’água e para-raios
Se usadas cabe reabastecê-las, para não faltarem.  São como um pára-raios, e têm o seu papel.  Se despesa inevitável cair como um deles, a pessoa estará protegida.
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Roberto Macedo, CFP® (Certified Financial Planner), é economista formado pela USP com Mestrado e Doutorado na Universidade Harvard (EUA).  Foi Secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Fazenda e Planejamento, funcionário do Banco Central e do Banco do Brasil. E-mail: imprensa@bb.com.br. Este texto reflete a opinião do autor e não necessariamente a do BB; tem caráter apenas informativo, e não deve ser tomado como recomendação de subscrição, tomada de créditos, compra ou venda de ativos, decisões estas de responsabilidade exclusiva dos investidores.

Poupar ou ganhar mais? Duas reflexões pós-declaração do IRPF - 06.05.2013
Fui um dos 26 milhões de contribuintes a entregar no prazo a declaração anual do Imp. de Renda de Pessoa Física (IRPF).  Toda vez que faço isto, revejo na tabela do IRPF em que alíquota caiu o valor da minha base de calculo (rendimentos tributáveis menos deduções permitidas).  Ressaltarei a importância de examinar esse aspecto da tabela, lembrando que o programa para preencher a declaração não faz referência a ela. Calcula o imposto automaticamente sobre essa base de cálculo. Mesmo depois do cálculo, ainda cabem outras deduções, a da contribuição para o INSS de empregado doméstico com registro em carteira e doações para as entidades autorizadas conforme a legislação do Estatuto da Criança e do Adolescente.

Nessa linha, destacarei dois aspectos. O primeiro está ligado ao “desconto tributário” que o contribuinte deve considerar ao ponderar sobre o valor de uma despesa dedutível, como uma consulta médica, antes de realizá-la.  Esse desconto existe porque a dedução de despesas como essa implica que seu valor não será tributado, conforme detalharei mais adiante. 

O segundo aspecto é o que chamarei de “incentivo à poupança”, que também será detalhado no texto abaixo: se, por exemplo,  uma pessoa precisar de R$1.000 a mais, o que é melhor? Trabalhar mais e pagar mais imposto ou poupar esses R$1.000 dos rendimentos usuais, sem esse imposto adicional? 

A tabela do IRPF
A tabela progressiva usada para o cálculo do IRPF na declaração entregue este ano foi a que se segue, que envolve quatro alíquotas, além da de isenção (zero).

Base de cálculo
anual em R$
Alíquota %
A deduzir no cálculo
do IRPF - R$
Até 19.645,32
Zero
   --------
De 19.645,33 até
 29.442,00
7,5
1.473,40
De 29.442,01 até
39.256,56
15
3.681,55
De 39.256,57 até
49.051,80
22,5
6.625,79
Acima de
49.051,80
27,5
9.078,38
Fonte: http://www.receita.fazenda.gov.br/Aliquotas/TabProgressiva2012a2015.htm

Suponhamos uma pessoa com base de cálculo igual a R$30 mil,  sujeita, portanto,  à alíquota de 15%, e que deduziu R$1.000 a título de consultas médicas. Seu imposto será R$818,45.  Sem essa dedução, seu imposto seria R$968,45. A diferença é de R$150, que equivalem a 15%, a alíquota em que caiu na tabela, calculada sobre R$1.000.  Ou seja, ela pagou este valor de consultas, mas a dedução lhe permitiu economizar R$150 de IRPF.  É isso que chamo de “desconto tributário”, incidente sobre o valor da despesa deduzida. 

Assim,  ao decidir quanto a uma despesa dedutível no seu valor total ou no limite legal, o contribuinte deve levar em conta esse desconto, que corresponde à alíquota da faixa onde se enquadra sua base de cálculo.  Pessoas que estão na última alíquota têm um desconto de 27,5%, ou quase 30%, e com influência maior, portanto, na sua decisão de realizar ou não a despesa dedutível.  Como pago o IRPJ há décadas, ao examinar a conveniência de realizar uma despesa dedutível da base de cálculo, já me acostumei a fazer esse cálculo do “desconto tributário” a que terei direito se realizar a despesa. É um exercício útil, em particular por me induzir a realizar mais gastos com a saúde.

Trabalhar e pagar mais imposto ou poupar? Um incentivo à poupança
Voltemos à questão inicialmente colocada, ou seja, diante da necessidade de, por exemplo,  conseguir R$1.000 a mais, o que é melhor? Trabalhar mais e pagar mais imposto, ou poupar esses R$1.000 dos rendimentos usuais, sem ter que pagar imposto adicional? Note-se que para conseguir esses R$1.000 e a pessoa estiver na alíquota de 22,5%, e não ultrapassá-la com esse ganho adicional, ela precisará ganhar 1.290 para ter um rendimento líquido de 1.000,  assim pagando R$290 a mais a título de IRPF.   Mas, se poupar 1.000 do que já havia recebido, não haverá esse imposto adicional.

O que se pretende aqui é chamar atenção sobre o efeito da tributação e de novo sobre a importância da poupança.  Em princípio, é melhor poupar. Mas,  discussões como essa só são simples nas aparências, e há mais o que ponderar. Nessa linha, uma questão pertinente é esta: e o imposto sobre o que já foi ganho? Não haveria um truque nessa história?  Não seria o mesmo valor, poupando ou ganhando mais? Não é por aí.  Num determinado momento, sobre o que você já ganhou, de fato o IRPF já foi pago, mas  não há o que fazer, pois não será devolvido.  E se ganhar mais, vai pagar mais imposto.

E há outros aspectos a serem ponderados. Se a pessoa pensar em cortar os R$1.000 das despesas, será importante refletir sobre o que vai cortar. Se seu orçamento já estiver no osso, todo comprometido com despesas inadiáveis, e às quais se atribui importância fundamental, não há o que fazer. Será preciso trabalhar para conseguir o dinheiro e pagar os R$290 de impostos.

Contudo, se há gorduras no orçamento, seria o caso de cortar os R$1.000. Mas, de novo, não é tão simples assim.  A pessoa terá que comparar a satisfação que lhe dão essas gorduras com a satisfação que viria do que fosse adquirido com os R$1.000 adicionais, descontada a insatisfação do trabalho adicional para chegar aos R$1.290. Assim, se a pessoa der grande valor ao lazer, e o que fosse adquirir com os R$1.000 adicionais não trouxesse satisfação que supere esse valor, ela optará pela conveniência de ficar como está.  Mas, se quiser mesmo o que viria com os R$1.000 adicionais e/ou gostar muito de trabalhar, e tiver tempo para tanto, caminhará na direção do trabalho adicional.

Complicado?  Pode ser, mas às vezes tomamos decisões desse tipo, como a de fazer horas-extras, sem refletir sobre o imposto que virá com elas e a alternativa do  recurso à poupança. Assim, cabe a reflexão.

Juntando as duas questões acima...
Vale ressaltar seu aspecto comum, muitas vezes negligenciado em decisões financeiras: o de pensar “na margem”, ou seja, levando em conta a situação em que nos encontramos e decidindo a partir delas.  O aspecto comum está em que as duas questões abordam decisões que levam em conta a situação pessoal quanto ao IRPF envolvido. A primeira, a de um “desconto tributário”;  a segunda, a conveniência de pagá-lo ou não.
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Roberto Macedo, CFP® (Certified Financial Planner), é economista formado pela USP com Mestrado e Doutorado na Universidade Harvard (EUA).  Foi Secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Fazenda e Planejamento, funcionário do Banco Central e do Banco do Brasil. E-mail: imprensa@bb.com.br. Este texto reflete a opinião do autor e não necessariamente a do BB; tem caráter apenas informativo, e não deve ser tomado como recomendação de subscrição, tomada de créditos, compra ou venda de ativos, decisões estas de responsabilidade exclusiva dos investidores.



Educação Financeira para criancinhas - 29.04.2013
Volto a assunto em parte já abordado neste espaço. Mais precisamente, em 4/2/13,  sob o título de “Educação financeira deve começar cedo e em casa”. Por que retorno ao tema?  Num site de investimentos voltado para os EUA, encontrei interessante coletânea de artigos sobre o mesmo assunto, que ensejam considerações adicionais. Foram escritos por Jean Folger uma especialista em negócios, e também no que lá recebe o nome de  “financial literacy” ou alfabetização financeira.  O acesso está indicado ao final deste artigo, e indicado por (*).  A coletânea está em inglês. Para quem não o conhece, é mais uma ocasião para refletir sobre como superar essa barreira, o que considero um ótimo investimento, com retorno cultural, educacional e financeiro. 

Vou apresentar breve comparação das situações nos dois países em termos de educação financeira na escola e fora dela. Concluirei com dicas específicas quanto ao que fazer no caso das criancinhas, já a partir de uma idade em torno dos três anos.

Começando pela comparação...
Folger diz que nos EUA a educação financeira é adotada em metade dos 50 estados do país, na forma de algum requisito educacional ligado ao assunto, com início no ensino fundamental.  Por exemplo, creio eu, o de que conhecimentos básicos sejam ministrados em outras disciplinas, como Matemática. Quatro estados exigem disciplinas específicas de finanças pessoais para jovens. No Brasil, apenas recentemente, em 2009, o governo federal resolveu levar a educação financeira às escolas, lançando então a Estratégia Nacional de Educação Financeira (Enef). Como primeira iniciativa, veio um projeto piloto nas escolas de ensino médio, com duração de dois anos, e  que no ano passado teve seus resultados avaliados. Mostraram melhorias nos conhecimentos financeiros dos jovens que passaram pelo projeto. Será ampliado, mas o alcance do projeto é ainda muitíssimo limitado.

Nos dois países, não conheço qualquer referência à educação financeira na fase pré-escolar que não seja a realizada pelos próprios pais ou responsáveis. E aqui sei que ela ocorre usualmente sem atenção especial, com a criança assimilando o que pode dos pais ou responsáveis, colegas, amigos e outras influências, inclusive o envolvimento em compras de bens e serviços.  Como eu, Jean Folger defende um esforço específico voltado para  baixinhos e baixinhas.

O que fazer?
No Brasil a educação financeira também é muito pouco disseminada entre os próprios pais ou responsáveis, mas eles dispõem de algo que as crianças não têm, mais conhecimento e experiência em lidar com o assunto, o que deve ser compartilhado com elas. Ademais, como pondera a referida autora, se os pais não se engajarem nessa tarefa, elas aprenderão apenas com colegas e amigos. E, acrescento, com suas próprias experiências pessoais. E aí há o risco de aprenderem coisas equivocadas.

Uma delas diz respeito a algo que também percebo no Brasil. Num debate sobre o assunto, soube que entre as famílias mais pobres os meninos sonham muito em ser jogadores de futebol. Ora, é uma carreira de alto risco. Além de talentos pessoais únicos o sucesso nela depende muito de circunstâncias, como a de ter um ambiente adequado para praticar, de conseguir, via intermediários, uma oportunidade em clubes, de ser bem sucedido neles e por aí afora. É uma daquelas carreiras que atraem mais pelo sucesso de uns poucos expoentes do que pelos resultados alcançados pela maioria dos que a praticam. Por isso, leva à crença de que o sucesso depende muito da sorte desses poucos. Ora, um dos aspectos da educação financeira consiste em demonstrar que o sucesso profissional depende mais das próprias pessoas, que devem buscar educação e formação profissional de modo a exercer ocupações melhor remuneradas. É o caminho mais adequado e de menor risco.

Passo agora a  alguns aspectos pontuais do que deve ser transmitido às criancinhas, com o progresso dependendo de como reagem aos ensinamentos:

(1) O que é o dinheiro, o seu valor e sua quantidade limitada – Mães gostam muito de ensinar às crianças como contar, recorrendo aos dedinhos delas. Pode-se estender essa associação às moedas e seus diferentes valores e tamanhos. É mais difícil lidar com as notas, mas já vi suas figuras impressas em papel comum de tamanho menor, e vendidas como “dinheiro de brinquedo”. Com a criança chegando à escola ou mesmo antes, esse aprendizado pode vir junto com o da matemática básica (adição, subtração, multiplicação e divisão). Exemplos de como realizar cada uma dessas operações usando dinheiro são, respectivamente: o valor de uma mais outra(s) moeda(s);  o valor de um conjunto delas quando dele retirada(s) uma ou mais; quanto vale um certo número de moedas de um mesmo valor;  como repartir um conjunto delas entre um certo número de pessoas de tal forma que cada uma receba o mesmo valor.  Outra noção básica é a de que o dinheiro é algo limitado. Não há como ter tudo que se quer. Esse limite é dado pela disponibilidade de dinheiro, pelo uso alternativo que ele pode ter, e também pela necessidade de poupar.

(2) O uso do dinheiro – Poderá ser demonstrado naturalmente levando as crianças às compras, deixando que façam e paguem algumas delas, e transmitindo-lhes a noção de que os bens e serviços que as pessoas desejam mais têm um preço ou valor que exige mais dinheiro na aquisição.

(3) Sobre a origem do dinheiro – A lição relevante é que ele deve vir do trabalho remunerado, como empregado ou não, o que também serve para explicar o que fazem os membros da família que passam boa parte do tempo fora de casa nessa atividade.

(4) Em cena, o cofrinho - Em algum momento do aprendizado é importante introduzir um elemento educacional que considero indispensável, o cofrinho. Ele tem duas finalidades: enfatizar o maior valor do dinheiro juntado ou acumulado, e também a necessidade de poupar para ter uma reserva ou para adquirir bens ou serviços de maior valor do que o montante com que se iniciou uma nova engorda do bichinho. Hoje em dia são comuns em moda os cofrinhos de plástico, a maioria deles de origem chinesa, mas sem uma fechadura para a retirada do dinheiro. Sem isso o cofrinho corre o risco de ser destruído nas retiradas, o que é um absurdo pois implica num desperdício de dinheiro. Deve-se procurar um daqueles com chave, e na ausência da fechadura dela pode-se recorrer a uma caixa qualquer com fechamento e abertura acompanhados pelos pais.

Em síntese, há atividades simples que podem ser desenvolvidas, para desde cedo dar às criancinhas algumas noções de educação financeira, que lhes servirão de parâmetros para determinar seu comportamento por toda a vida.
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Roberto Macedo, CFP® (Certified Financial Planner), é economista formado pela USP com Mestrado e Doutorado na Universidade Harvard (EUA).  Foi Secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Fazenda e Planejamento, funcionário do Banco Central e do Banco do Brasil. E-mail: imprensa@bb.com.br. Este texto reflete a opinião do autor e não necessariamente a do BB; tem caráter apenas informativo, e não deve ser tomado como recomendação de subscrição, tomada de créditos, compra ou venda de ativos, decisões estas de responsabilidade exclusiva dos investidores. (*) http://www.investopedia.com/university/teaching-financial-literacy-kids/?utm_source=financial-edge&utm_medium=Email&utm_campaign=PF-04/16/2013
O pequeno aumento da Selic e a “inflação” do tomate - 22.04.2013
A primeira parte deste artigo explica como a taxa básica de juros, ou Selic, administrada pelo Conselho de Política Monetária (Copom), do Banco Central (BC), atua para conter a inflação de modo a preservar o poder aquisitivo ou valor real da moeda nacional. Essa taxa, junto com outros instrumentos de ação, integra um conjunto conhecido como política monetária. A segunda parte aborda a decisão do Copom na semana passada quando a Selic foi ampliada em 0,25 pontos percentuais (p.p.) passando de 7,25% para 7,50% ao ano. A terceira parte abordará um assunto que chegou às manchetes nos últimos dias, a chamada “inflação” do tomate, e conclui indicando como o consumidor pode se ajustar a aumentos específicos de preços de bens e serviços para melhor preservar seu dinheiro diante desses aumentos.

A inflação e como o BC age diante dela usando a Selic
A inflação é definida como o aumento persistente do nível geral de preços por um período suficientemente longo e numa magnitude tal que gere preocupações quanto a seu impacto negativo sobre o valor real da moeda nacional. Quando a inflação é exagerada, como no Brasil nas décadas de 1980 e 1990, os preços sobem muito e erraticamente, o que dificulta as decisões de empresários e consumidores induzindo-os a uma atitude de muita cautela ao tomá-las. Com isso, o crescimento da economia, que depende muito do consumo e do investimento, fica prejudicado, como aconteceu nesse período. Um caso típico foi o da contratação de seguros, pois o segurado ficava incerto quanto ao prêmio que pagaria à seguradora durante a vigência do contrato e também quanto ao que receberia em caso de sinistro. Por sua vez, a seguradora ficava também preocupada quanto à evolução do valor de suas receitas e de seus compromissos com os segurados. Noutro efeito muito importante, a inflação prejudica muito os rendimentos reais das pessoas de baixa renda que não recorrem ao sistema bancário para realizar suas transações. Ou, quando o fazem, não têm o hábito de realizar aplicações financeiras que pelo menos em parte preservem seu dinheiro da corrosão de valor trazida pela inflação.

Por essas e outras razões o BC procura controlá-la com três instrumentos voltados para reduzir as pressões que vêm do lado da demanda de bens e serviços. O primeiro consiste em atuar sobre o crédito contraindo seus prazos, e com o governo ampliando impostos sobre transações financeiras. O segundo é o de atuar sobre os depósitos compulsórios que os bancos mantêm no BC, ampliando-os para contrair a referida demanda e aumentando o custo do crédito.

O terceiro é a Selic. Seus aumentos levam a juros maiores, encarecem o crédito e induzem consumidores e empresários a reduzir seus gastos em bens e serviços, e a aumentar a parte do seu dinheiro que vai para aplicações financeiras, reduzindo a pressão da demanda sobre os preços em geral. A Selic também procura coordenar expectativas futuras quanto à inflação, pois se esta se acelera isto leva a um movimento de remarcações de preços que lhe dá impulso adicional. Nesse contexto, um aumento da Selic mostra que o BC está atuante, e que essas remarcações poderão se frustrar ou mesmo levar a prejuízos diante de uma demanda que ele procurará conter. Em caso de deflação (queda generalizada de preços), com redução do ritmo de atividade econômica, o BC irá operar esses instrumentos em sentido contrário.
    
A decisão do BC, de aumentar a Selic, tomada na semana passada
Desde outubro de 2002 a Selic estava em 7,25% ao ano. Ao mesmo tempo, as taxas mensais de inflação, conforme medidas pelo IPCA, o índice-meta do BC, mostraram tendência de aceleração entre junho de 2012 e janeiro de 2013, e continuaram em valores ainda elevados. Com isto, em março passado a inflação medida em 12 meses chegou a 6,59% e superou o teto da meta do BC, que é de 6,5% ao ano, conforme expliquei no meu último artigo neste espaço.

Diante desse quadro inflacionário, a imobilidade do BC estava causando danos à sua credibilidade, indispensável para que sua atuação tenha efeito sobre a inflação no presente e sobre as expectativas de inflação futura. Reagindo, na reunião do Copom da semana passada o BC optou por aumentar a Selic, ainda assim revelando cautela, conforme evidenciado pelo pequeno aumento de 0,25 p.p. e pelo comunicado emitido após a  reunião, nestes termos “O Copom decidiu (...) por seis votos a favor e dois votos pela manutenção da taxa Selic (...) (e) avalia que o nível elevado da inflação e a dispersão de aumentos de preços, entre outros fatores, contribuem para que a inflação mostre resistência, e ensejam uma resposta da política monetária. (...) o Copom pondera que incertezas (...) cercam o cenário prospectivo para a inflação e recomendam que a política monetária seja administrada com cautela.”

Esse aumento de apenas 0,25 p.p. por si mesmo pouco significa, pois representa apenas 4% da taxa Selic antiga. Tampouco afeta de modo significativo a dificuldade hoje enfrentada pelos investidores em renda fixa, de conseguir rendimentos líquidos acima da inflação. Contudo, o aumento indica que o BC resolveu agir, e se nas próximas reuniões continuar aumentando a Selic, os aumentos acumulados terão um efeito maior. E, se a inflação cair, essa dificuldade dos investidores poderá ser aliviada, assunto que acompanharei em futuros artigos.

A “inflação” do tomate
O aumento dos preços do tomate se destacou de uns dois meses para cá entre os que mais contribuíram para o aumento do IPCA. Ainda na sexta-feira passada foi divulgado o IPCA-15, medido entre os dias 15/3 e 15/4, e houve aumento de 0,49%. Entretanto, os preços dos alimentos subiram bem mais, 1% no mês. Em particular o tomate ficou 16,62% (!) mais caro depois de já ter subido 9,99% no IPCA-15 de março.

Contudo, não é correto falar de inflação do tomate, pois seu aumento de preço não se enquadra na definição apresentada anteriormente neste artigo. Ou seja, trata-se do aumento de preço de um produto específico, e que deverá refluir nos próximos meses, enquanto que a inflação, de caráter geral, deverá continuar. Voltando à sua definição ela é algo geral e persistente. Aliás, o próprio comunicado do BC fala em “dispersão de aumentos de preços.”

Quanto a aumentos de preços de produtos e serviços específicos, como esse do tomate, o consumidor tem como contorná-los parcialmente. Ainda que com o risco de falar o que deve ser óbvio para muitas pessoas, o que ele deve fazer é reduzir ou cortar  a aquisição dos bens e serviços que mais sobem de preço, substituindo-os por outros onde houve queda ou a elevação foi menor. É como se o consumidor estivesse atuando sobre o seu próprio índice de preços, fazendo-o crescer a taxas menores que o IPCA.

Contudo, com a maioria dos preços aumentando, o espaço para o consumidor fazer isso é limitado. O que também mostra que a inflação é um fenômeno mais amplo que exige a ação do governo e do BC sobre suas causas de alcance geral.
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Roberto Macedo, CFP® (Certified Financial Planner), é economista formado pela USPcom Mestrado e Doutorado na Universidade Harvard (EUA).  Foi Secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Fazenda e Planejamento, funcionário do Banco Central e do Banco do Brasil. E-mail: imprensa@bb.com.br. Este texto reflete a opinião do autor e não necessariamente a do BB; tem caráter apenas informativo, e não deve ser tomado como recomendação de subscrição, tomada de créditos, compra ou venda de ativos, decisões estas de exclusiva responsabilidade do investidor.
 
Aumentar ou não a Selic, eis a questão - 15.04.2013
O Conselho de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC) se reunirá nesta semana e na quarta-feira anunciará sua decisão quanto à taxa básica de juros da economia, ou Selic.  Ela está hoje em 7,25% ao ano, valor mais baixo da sua história, no qual se estacionou desde outubro de 2012 após quedas iniciadas na reunião de agosto de 2011. Vários fatores acirraram o interesse pela reunião. Analisarei três: (1) as muito peculiares circunstâncias de inflação e crescimento do PIB que darão o pano de fundo para a decisão; (2) a dificuldade de decidir nessas circunstâncias, que não constituem as usuais de uma economia; (3) incertezas quanto ao futuro também dificultam o processo decisório.

O artigo concluirá com observações sobre o resultado mais provável da reunião.

A inflação e o crescimento do período recente
A tabela abaixo mostra, em %, as taxas mensais de inflação. E,  em cada mês, a taxa acumulada nos 12 meses passados até o final dele. São do IPCA, o  índice-meta do BC.

 IPCA - Taxas mensais e em 12 meses - em %
Taxa
Jun 12
Jul 12
Ago 12
Set 12
Out 12
Nov 12
Dez 12
Jan 13
Fev 13
Mar 13
Mensal
0,08
0,43
0,41
0,57
0,59
0,60
0,79
0,86
0,60
0,47
12 meses
4,92
5,20
5,24
5,28
5,45
5,53
5,84
6,15
6,31
6,59
Fonte: IBGE

Nota-se que as taxas mensais oscilaram em torno de uma tendência de aceleração entre junho de 2012 e janeiro de 2013. Em seguida houve quedas, mas para valores ainda bem superiores aos da taxa média mensal de 0,37% que levaria a uma anual de 4,5%, a fixada como centro da meta que o BC procura atingir, um valor alto em termos internacionais. Em torno dele o BC admite um intervalo, de 2 pontos percentuais (p.p.) para cima e para baixo. Ou seja, a meta é de uma inflação entre 2,5% e 6,5% ao final do ano.

Quanto a isto a tabela, que abrange 10 meses, tem 9 taxas mensais acima de 0,37%. E no mês passado a taxa em 12 meses superou o teto da meta, ao atingir 6,59%.  Assim, nas suas taxas atuais a inflação é preocupante. O fato de a taxa anual subir mesmo com a inflação mensal caindo em fevereiro e março se explica porque no cálculo da taxa em 12 meses as taxas mensais novas substituíram, nesse cálculo, taxas menores que o deixaram.

Quanto ao PIB, sua taxa anual foi de apenas 0,9% em 2012 e as previsões indicam um valor perto de 3% para 2013. Conforme o índice do BC (IBC-Br), que estima a variação mensal do PIB antes do resultado trimestral calculado pelo IBGE,  2013 começou com resultado bom em janeiro, um inusitado crescimento mensal de 1,4%, ajustado pela sazonalidade.  A taxa foi negativa em fevereiro (-0,5%), mas entendida como um ajuste do excepcional valor de janeiro. Com isso, a economia cresceu 0,9% no bimestre, sem prejudicar a referida previsão de 3% para o ano, já citada.  Outro aspecto singular da economia é que o mercado de trabalho permanece favorável para o trabalhador apesar do fraco crescimento do PIB, registrando as menores taxas de desemprego da série mensal calculada pelo IBGE para as seis maiores regiões metropolitanas do país. Essa situação é um dos fatores a pressionar a inflação, pois contribui para a elevação dos salários.

O que fazer?
A tabela abaixo mostra nas duas primeiras linhas as opções usuais da política monetária, isto é, de Selic e crédito, e da política fiscal, ou seja, de como se comporta o governo. Em seguida mostra o quadro atual e a dificuldade de decidir nele.
                 
 Situações econômicas e opções de política econômica
Situação enfrentadaCrescimento do PIB
Inflação e meta
Política econômica: o que fazer?
  I
Forte
Acima (B)
Selic maior com contenção fiscal e de crédito
  II
Fraco (A)
Abaixo
Selic menor com expansão fiscal e de crédito
  Atual
Fraco; recuperação em curso
Acima
Selic maior atacaria inflação, mas colocaria recuperação em risco

A economia costuma oscilar entre a situação I e a II. O papel da política econômica é reduzir essa instabilidade nos seus excessos, com as prescrições da terceira coluna da tabela nesses dois casos.  A situação atual combina os aspectos A e B da tabela e torna a decisão difícil. Acrescente-se que na tabela anterior a inflação deu sinais de queda nos últimos dois meses. E com o fim das chuvas que  prejudicaram produção de vegetais como o tomate e a entrada da forte safra agrícola de grãos há a perspectiva de que a taxa anual volte a ficar abaixo do teto da meta. Aliás, o boletim Focus do BC revelava em 5/4/13 uma previsão de 5,70 para a taxa anual do IPCA no final de 2013. Mas, é uma previsão e a inflação pode não se comportar como esperado.

Que decisão virá?
Começo com a que entenderia como adequada, uma elevação de 0,25 p.p.. Isto,  para melhorar a confiança no BC, abalada com sua indecisão  diante das circunstâncias. Uma elevação como essa tiraria um pouco da pressão sobre ele, e lhe daria um fôlego de dois meses para examinar se o quadro inflacionário melhora. 

Quanto à decisão, até meados da semana passada predominava a visão de estabilidade da taxa. Na sexta-feira, contudo, o presidente do BC afirmou que “Não há nem haverá tolerância com a inflação”. No mesmo dia, o ministro da Fazenda disse que “Vamos tomar medidas, mesmo impopulares, como o ajuste na taxa de juros”, mas ressalvando que é assunto do BC. Essas declarações ampliaram apostas no aumento da Selic, a ponto de um jornal publicar artigo intitulado “Dúvida agora é se a Selic subirá 0,25 ponto ou 0,5 ponto”. Mas, não vejo necessidade de aumentar 0,5 p.p. e se vier será uma surpresa.

Para o investidor, contudo, um resultado de 0,25 p.p. ou estabilidade não terá maior impacto no quadro atual onde é difícil obter rendimentos superiores à inflação na renda fixa em geral. De qualquer forma, se o BC resolver agir, pode ser o prenúncio de que esse quadro pode se alterar mais à frente, mas sem qualquer perspectiva de que os altos rendimentos do passado voltarão a se repetir.
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Roberto Macedo, CFP® (Certified Financial Planner®) e economista formado pela USP com Mestrado e Doutorado pela Universidade Harvard (EUA), é pesquisador da FIPE-USP.  Foi Secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Fazenda e Planejamento, funcionário do Banco Central e do Banco do Brasil.  E-mail: imprensa@bb.com.br. Este texto reflete a opinião do autor e não necessariamente a do BB; tem caráter apenas informativo e não deve ser tomado como recomendação de subscrição, compra ou venda de ativos, decisões estas de responsabilidade exclusiva dos investidores.   


“Duty free” – o que pode valer a pena - 08.04.2013
Há décadas conheço as lojas “duty free” de aeroportos internacionais, aqui no Brasil com acesso permitido também aos passageiros que chegam, algo inexistente em muitos países. Com a experiência, aprendi a lidar com as tentações dessas lojas.  Aqui vão algumas dicas, começando pelo significado do nome. É preciso entendê-lo, pois é a chave para tirar maior proveito delas.
 
“Duty” significa impostos, mas sua alíquota ou taxa varia conforme o produto
“Duty” é palavra da língua inglesa com vários significados. O que se aplica ao caso é aquele em que “duty” se refere a um imposto, mais especificamente o de importação ou de passagem na alfândega, chamado de “import duty” ou  “customs duty”.  O significado de “free” é mais conhecido, e quer dizer isento ou livre. Neste caso, do imposto.

Por exemplo, se alguém compra um uísque escocês no Brasil fora das lojas “duty free” seu preço sofre o ônus desse imposto ou “duty” de importação. Entre outros impostos essas lojas pagam o de renda, pois auferem lucros.  E as alíquotas do imposto em que ocorre a isenção não são as mesmas para os vários produtos que essas lojas  oferecem.

Portanto, já se pode concluir que...
Quanto maior a alíquota do imposto de um produto, tanto maior é a vantagem de comprar esse produto nessas lojas. Com isso, as maiores vantagens estão em produtos cuja alíquota de importação é alta, como bebidas, perfumes, cigarros e charutos, que vamos chamar de linha A, ou mais tributada fora dessas lojas.  Seus preços nas “duty free” são em geral mais baixos do que nas lojas fora do aeroporto, seja comprando fora do Brasil ou na chegada aqui.

Ao longo do tempo, sem teorizar sobre o assunto, e simplesmente comparando preços nas lojas “duty free” e fora delas, percebi que essa opção era, em geral, a mais vantajosa. E há a vantagem de que se pode comprar também na chegada ao Brasil, sem ter que carregar as compras adquiridas nas mesmas lojas na partida do vôo de retorno ao país.
Bebidas são pesadas para carregar.  Já os perfumes são bem leves, e usualmente têm preços mais altos. Para quem for muito ligado neles, é o caso de olhar os preços das lojas “duty free” na saída do Brasil, para compará-los com os observados nelas lá fora. Às vezes alguns são mais baratos naquelas fora do país. E lá fora os perfumes são encontrados mais baratos até fora delas, como resultado de promoções e volumes de vendas em grande escala que reduzem os preços de aquisição junto ao fabricante.

Outras evidências que comprovam a tese
Portanto, nossa tese é que a maior vantagem está na referida linha A.  Uma evidência de sua validade é que em todos as lojas “duty free” há produtos dessa linha e tomam grande espaço. Sinal de que são muitas as pessoas que os adquirem.

Quanto aos produtos em que é menor o ônus do imposto de importação, vale a pena comprá-los? Nossa resposta é negativa, pois em geral há alternativas melhores.  Tomemos, por exemplo, casos como os de malas, bolsas, mochilas, máquinas fotográficas, relógios, roupas e eletrodomésticos, que chamaremos de Linha B. Só muitíssimo raramente vi vantagem em comprá-los nas lojas “duty free”.

Para entender isso, a tese é a mesma, mas vale insistir: em geral esses produtos pagam imposto de importação com alíquotas menores, e a isenção torna-se menos relevante na composição do preço.  E mais:  essas lojas, como quaisquer outras, visam o lucro. Todas oferecem a linha A e concorrem entre si ao vendê-la, seja na partida ou na chegada do passageiro. Nessas linhas têm que ser mais competitivas e acabam tendo menor margem unitária de lucro, além de ganharem no volume.   Contudo, seu objetivo é lucrar e, assim, procuram fazê-lo noutras linhas, como essa B já citadas. Nos seus produtos, em geral buscam margens de lucro maiores do que as encontradas, por exemplo, nas lojas de departamentos, nas lojas especializadas (por exemplo, em máquinas fotográficas), e nas lojas de fábricas (“factory outlets”) do país visitado.
 
EUA X Europa e outros
Nos EUA, onde o mercado interno é enorme e os ganhos de escala são imensos, isto permite ao comércio trabalhar com margens unitárias de lucro pequenas mesmo na linha B, pois os volumes de venda são altíssimos. Além disso, esse mercado oferece mais alternativas em termos de marcas, produtos e preços. Assim, na linha B, em geral é usualmente mais vantajoso comprar fora das “duty free” do que dentro delas. Já na Europa, em muitos países a escala dos negócios é bem menor que nos EUA, havendo muitas lojas pequenas, que trabalham com maiores margens unitárias de lucro, que podem ser até superiores às das “duty free” na linha B.  Aí é preciso ter vocação para pesquisar preços no detalhe, dentro e fora das lojas “duty free”, com o agravante de que para muitos passageiros seus preços só são conhecidos na hora de comprar nessas lojas.   Assim, há o risco de decisões erradas, por falta de informações.  É preciso buscá-las. Confesso que não uso a internet para pesquisar preços  nas “duty free” e fora delas, mas pode ser uma alternativa.

E mais:
Na linha A, as “duty free” costumam oferecer também muitas opções.  Na B o mesmo não ocorre de um modo geral. Como princípio, portanto, o negócio é ficar mesmo nessa primeira linha.  Mas, mesmo nela, valem ainda alguns lembretes: (a) procurar por ofertas especiais e por produtos que vêm com brindes, como os que oferecem uma bolsa para quem compra bebidas ou perfumes; (b) aliás, ao comprar perfume em viagens e em qualquer loja, pergunte se não vêm com brindes (“gifts”), como na forma de amostras; (c) fique nos produtos de marcas mais conhecidas de produtos dessa linha A, pois é mais fácil comparar preços; (d) cuidado com os vinhos em geral, pois se não entender do ramo poderá comprar e pagar caro por um vinho francês de qualidade inferior e de preços superiores aos de alguns vinhos melhores, nacionais, chilenos e argentinos, comprados fora dessas lojas.
 
Em conclusão...
Há lojas “duty free” que mais parecem um supermercado. Não é pecado ir a uma delas, mas de forma seletiva quanto ao que comprar. E há um limite para compras, o que já impõe alguma disciplina.   E, viajando ou não, na hora de poupar, consumir ou investir há algo em que não se deve economizar: informação em profusão.
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Roberto Macedo, CFP® (Certified Financial Planner®) e economista formado pela USP com Mestrado e Doutorado pela Universidade Harvard (EUA), é pesquisador da FIPE-USP.  Foi Secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Fazenda e Planejamento, funcionário do Banco Central e do Banco do Brasil.  E-mail: imprensa@bb.com.br. Este texto reflete a opinião do autor e não necessariamente a do BB; tem caráter apenas informativo e não deve ser tomado como recomendação de subscrição, compra ou venda de ativos, decisões estas de responsabilidade exclusiva dos investidores.


Um balanço da economia e do mercado financeiro - 01.04.2013
Sinteticamente, um balanço do primeiro trimestre de 2013 mostra a economia avançando para um nível de atividade maior, ao mesmo tempo em que enfrenta uma inflação acima do centro da meta do Banco Central. Dada essa inflação e principalmente pela queda da taxa básica de juros ou Selic para seu valor atual de 7,25% ao ano, ficou difícil obter nas aplicações em renda fixa um rendimento líquido superior à inflação corrente.  Na renda variável, o ainda fraco desempenho da economia, decorrente de fatores internos e externos, como os baixos investimentos no Brasil e a crise na zona do Euro, prejudica resultados empresariais e a confiança do investidor, com o que a Bovespa permanece sem forças para um avanço sustentado.

Vou examinar esse quadro em alguns dos seus detalhes, e ponderar quanto à atitude do investidor em face das atuais circunstâncias.

Como está o PIB
O resultado do PIB em 2012 revelou crescimento de apenas 0,9% no ano. Isto depois de uma taxa também insatisfatória de 2,7%  em 2011.  A esse fraco desempenho o governo respondeu com redução de impostos, desoneração de encargos sociais das folhas de pagamento e redução da Selic. Procura também manter a expansão do crédito para empresas e famílias e tomou a iniciativa de ampliar investimentos mediante concessões de serviços públicos ao setor privado, como na forma de parcerias público-privadas.

Contudo, quando veio a referida taxa anual do PIB em 2012, o noticiário ofuscou o fato de que ao longo do ano as taxas trimestrais de variação do PIB cresceram do primeiro ao quarto trimestre: 0,1%, 0,3%, 0,4% e 0,6%, respectivamente.

Os dados deste início de 2013 indicaram que esse movimento continuou, firmando-se a perspectiva de uma taxa anual perto de 3% no final do ano.  Tampouco será uma taxa satisfatória para o potencial do país, mas é alentadora em face das circunstâncias. 

E a inflação?
No momento, ela é o que mais preocupa os analistas. Tomando-se o IPCA, o índice-meta da política monetária, o centro dessa meta é uma taxa de 4,5% ao ano, o que exigiria uma taxa média de 0,367% ao mês para alcançá-la.  Ora, desde setembro do ano passado as taxas ficaram entre 0,57% no mesmo mês e 0,86%(!) em janeiro de 2013, caindo para 0,60% em fevereiro. Em março, segundo o IPCA prévio, levantado no dia 15 do mesmo  mês, houve nova queda, para 0,49%, como resultado de um melhor desempenho dos preços de alimentos e também de medidas que o governo tomou, como a redução dos preços de energia elétrica para o consumidor e a desoneração de tributos da cesta básica.

Contudo, a inflação se mostra generalizada, e seu combate não pode se limitar a este ou aquele preço. Uma pressão forte vem do mercado de trabalho, onde a taxa de desemprego está nos valores mínimos da série disponível, e pressiona os salários do setor de serviços, onde ocorre a maior expansão do emprego, e daí se dissemina pelos demais.

Para o investidor é fundamental acompanhar essa evolução do IPCA e da taxa Selic. No momento, o Banco Central (BC) está sob forte pressão para elevá-la, mas reluta em fazê-lo.  Hoje, o cenário mais provável é o de um pequeno aumento, de 0,25 ponto percentual nas duas próximas reuniões bimensais do Conselho de Política Monetária (Copom) do BC. Mas, ele poderá também optar por não fazer nada se o IPCA continuar caindo ou por adotar medidas de restrição ao crédito para conter a demanda e suas pressões sobre os preços.
   
E os rendimentos das aplicações no primeiro trimestre de 2013?
Na renda fixa, os rendimentos são balizados pelo índice CDI, muito próximo da Selic. Com esta em 7,25% ao ano, seu equivalente mensal é de 0,585% ao mês. Mesmo quem obteve 100% dessa taxa em suas aplicações perceberá que seus rendimentos brutos, ou seja, sem contar o Imposto de Renda e taxas de administração  quando cabíveis, ficaram inferiores às taxas de inflação acima referidas para os dois primeiros meses de 2013. Só em março essa taxa mensal da Selic terá superado o IPCA, se este ficar próximo da taxa de 0,49% já revelada pelo IPCA-15 no mesmo mês.  Para quem segue o IGP-M, os resultados foram bem melhores, mas já argumentei neste espaço que o IPCA é mais adequado para avaliar o valor real dos rendimentos de pessoas físicas.

Na renda variável, o índice Bovespa teve resultado decepcionante, mostrando uma queda de 5,55% no trimestre, o dólar comercial também caiu 1,12%, e até o ouro, que vinha se saindo bem desde a crise de 2008, também mostrou redução, de 5,48%.

O que fazer?
Independentemente do que o BC decidir nas próximas reuniões e dos rumos da inflação, o importante é perceber que o investidor está diante de um novo cenário da renda fixa, configurando o que um economista chamou de “novo normal”.  Foram-se os  tempos das boas remunerações oferecidas por uma Selic muito alta relativamente à taxa de inflação. E o novo cenário veio principalmente porque o BC optou por uma política de juros mais baixos, sendo muito pouco provável que vá renunciar a essa decisão. Se resolver aumentar a Selic, o mais provável serão pequenos acréscimos como os já citados, e que não terão maior impacto na sua postura quanto à taxa em horizontes mais amplos.

Essa percepção do “novo normal” deve juntar-se à de que excepcional era a situação do passado, onde a renda fixa, de liquidez plena e risco baixíssimo se atrelada a papéis do Tesouro, garantia elevados retornos, não encontrados internacionalmente. Agora, também aqui o que se pode esperar da renda fixa é uma proteção quanto à inflação, e nem sempre completa.  Internacionalmente, retornos maiores da renda fixa ocorrem quando o investidor assume maiores riscos, como em papéis privados ou fundos lastreados neles.

Também internacionalmente, retornos ainda mais altos envolvem riscos maiores, como nas Bolsas.  Como nossa está de mau humor, pode ser até um bom momento para os investidores mais propensos ao risco e capazes de identificar oportunidades.

Um consolo para esse quadro nada estimulante tanto na renda fixa como na variável pode ser encontrado na outra ponta. Não a de quem aplica, mas a de quem busca empréstimos e financiamentos. Nela as taxas estão mais favoráveis para o crédito, em particular nas instituições oficiais, como o BB.  Portanto, o momento é oportuno para quem tem projetos carentes de crédito, seja para um objeto de consumo, um imóvel ou um empreendimento próprio, entre outras alternativas.
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Roberto Macedo, CFP® (Certified Financial Planner®) e economista formado pela USP com Mestrado e Doutorado pela Universidade Harvard (EUA), é pesquisador da FIPE-USP.  Foi Secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Fazenda e Planejamento, funcionário do Banco Central e do Banco do Brasil.  E-mail: imprensa@bb.com.br. Este texto reflete a opinião do autor e não necessariamente a do BB; tem caráter apenas informativo e não deve ser tomado como recomendação de subscrição, compra ou venda de ativos, decisões estas de responsabilidade exclusiva dos investidores.  

O jogo do planejamento financeiro pessoal - 25.03.2013
O planejamento financeiro pessoal pode ser comparado a um jogo de futebol. Nele, cada time joga na defesa e no ataque.  Naquela, para não sofrer perdas. Neste, para vencer e alcançar os objetivos desejados.  Há gente que fica mais na defesa, satisfeita com o zero a zero, ou outro empate.  Para ganhar, é preciso estar mais preparado.

Vou tratar da defesa e do ataque, e de como se armar num e noutro caso.

A defesa contra a inflação, impostos e outras perdas
Mesmo sem se mexer, uma pessoa pode sofrer perdas patrimoniais. Por exemplo, o dinheiro em espécie tem seu valor corroído pela inflação. Um imóvel pode se valorizar, mas pode também depreciar-se com o tempo e uso.  Isto também acontecerá se estiver numa área urbana em decadência. Há também os de lazer, como um sítio ou casa de praia, cuja manutenção custa dinheiro. O valor neles aplicado e esses custos de manutenção poderiam ser destinados a outros fins. Há gente que os utiliza muito pouco ou nada, um caso de custo sem benefício. Um “feliz proprietário” poderá estar pagando pelas suas poucas estadias o equivalente a muitas diárias de um hotel caríssimo. Dá para fazer um cálculo aproximado, mas é bom estar preparado, pois poderá assustar e trazer dores de cabeça. Mas, é preciso enfrentar o problema.

Se há imóveis que se desvalorizam e têm frágil relação benefício/custo, há também os que se valorizam e compensam à luz dessa relação.  É bom passar todos por esses dois crivos, de valorização e benefício/custo, na  linha de defesa quanto a perdas. Se estiverem ganhando o jogo, tanto melhor, como aconteceu nos últimos cinco anos em várias cidades brasileiras, onde ocorreu forte valorização imobiliária.

Outro importante inimigo é a inflação. Já foi muito forte – em 1993 foi de quase 2.500% no ano –, e causou grandes perdas a muita gente.  Nunca me esqueço de um caso que vi ao trabalhar com títulos custodiados num banco. No meio deles havia uns da dívida pública, sem correção monetária, nos quais, antes da invenção desta, um juiz havia mandado converter os imóveis herdados por um órfão, para gerar rendimentos sob a forma de juros.  No final, foram-se os imóveis, os títulos e os juros. Sem a correção monetária, os papéis praticamente não tinham valor.

A inflação é também socialmente injusta, pois penaliza os mais pobres, que não têm aplicações financeiras. Quando a inflação era muito alta, no seu recorde mensal chegou a 82% ao mês(!), em março de 1990, o dinheiro derretia nas mãos deles. O fim da inflação alta foi um elemento importante na melhoria dos rendimentos desse segmento social.

Mesmo a inflação hoje, perto de 6% ao ano, conforme o IPCA do IBGE, pode danificar o patrimônio mantido em dinheiro ou rendendo menos que essa taxa.  Mesmo se fosse menor, seria preciso defender-se dela. É como um juro negativo.  E até taxas pequenas, quando acumuladas por muitos anos, geram perdas consideráveis.  Joga contra o investidor.  E hoje, com a queda da taxa básica de juros, ou Selic, não está fácil empatar com ela. E como é relativamente pequena, é feio perder da inflação.  Fique de olho.

Outra defesa é contra os impostos. No Imposto de Renda, nesta fase de entrega das declarações anuais, é preciso usar todas as deduções permitidas, como as de planos de saúde e contribuição à previdência privada, e sempre pensar na declaração do ano seguinte.   Ao fazer cálculos, deve-se levar em conta a chamada “alíquota marginal”, a maior que uma pessoa paga sobre seus rendimentos.  Se o leitor está na mais alta, lembre-se, por exemplo, que pode fazer um checape de saúde com 27,5% de desconto.

Imprevistos: prevenção e reservas
A defesa deve ser também contra imprevistos: desemprego, problemas de saúde, danos patrimoniais e outros azares.  É preciso manter uma reserva em caixa e fazer seguros adequados.  Novamente, como num jogo de futebol, você pode ter perdas que não vêm de adversários previsíveis, como a de um juiz que marcou um pênalti inexistente. Há acidentes, doenças e outros imprevistos. Há que buscar proteção contra esses riscos, via reservas e seguros.

Agora, o ataque
O objetivo é marcar gols, sob a forma de bons rendimentos.  É preciso desenvolver a capacidade de ampliá-los como, por exemplo, recorrendo à educação e ao treinamento profissional, ou buscando uma atividade empresarial por conta própria.  Nos investimentos, e novamente como no futebol, há quem busque um jogo mais ousado, enquanto outros ficam na retranca.  É importante examinar o seu perfil, sem o que o investidor ficará numa situação incômoda.  Se não gostar de riscos, é o caso de evitar aplicações onde são maiores, para não ter decepções.  Mas, há quem os aprecia. São pessoas que buscam placares do tipo 4 a 1 ou 5 a 4, e que também não se esmorecem diante de um 0 a 3, confiando sempre no próximo resultado.

Mesmo quem não aprecia riscos podem aceitá-los, desde que ganhando na outra ponta, de onde vieram os recursos.  Isso ocorre, por exemplo, quando as aplicações são incentivadas pelo Imposto de Renda, tal como no PGBL e no VGBL, onde o incentivo compensa pelo menos uma parte de eventuais perdas.  Mas, se o perfil pessoal for avesso ao risco, é melhor ficar na retranca, contentando-se em bater times mais previsíveis como a inflação de hoje, para evitar o rebaixamento.

O campeonato financeiro não tem data para acabar
Mesmo aceitando riscos maiores, parte dos ativos pessoais e as reservas para imprevistos devem ficar nos ativos de menor risco.  A razão é que neste caso a comparação com jogos de futebol não vale.  O jogo financeiro não tem fim definido.  Por isso mesmo, nele é importante resguardar uma posição segura, só se arriscando a partir dela quando uma perda aqui e outra acolá não trouxerem maiores preocupações na busca de uma trajetória vitoriosa. A estrutura dos investimentos deve ter uma base sólida e protegida.  Só me aventurei pelo mercado de ações depois de ter casa própria e um tanto em renda fixa.

E então, qual é o seu jogo?  Escolha como jogar, mas não fique sem fazê-lo.  Dinheiro parado perde até da inflação.   
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Roberto Macedo, CFP® (Certified Financial Planner), é economista formado pela USP com Mestrado e Doutorado na Universidade Harvard (EUA).  Foi Secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Fazenda e Planejamento, funcionário do Banco Central e do Banco do Brasil. E-mail: imprensa@bb.com.br. Este texto reflete a opinião do autor e não necessariamente a do BB; tem caráter apenas informativo, e não deve ser tomado como recomendação de subscrição, tomada de créditos, compra ou venda de ativos, decisões estas de exclusiva responsabilidade do investidor.   

Qual é o seu salário? - 18.03.2013
Para assalariados com vínculo de emprego formalizado, a pergunta normalmente é respondida com o valor mensal registrado na carteira profissional ou o recebido no serviço público. Há, contudo, diversos benefícios custeados pelos empregadores e não incluídos nesse valor, cujo conjunto é conhecido como salário indireto. E há também o que se recebe do governo, na forma de serviços, ou de mesmo em dinheiro, sem contribuição específica. É o chamado salário social. 

Tanto o salário indireto como o social são ganhos adicionais, ou despesas custeadas que você não precisa realizar com o próprio dinheiro. Vou tratar desses dois conceitos para que o leitor avalie melhor o valor e a natureza do que recebe do empregador. E, ainda, sugerir uma estratégia para ampliar o salário social.

O salário indireto
A tabela abaixo contém uma lista de benefícios usualmente considerados como salário indireto. Essa lista não tem a pretensão de ser completa, pois pode haver outros. A tabela inclui também um espaço para adicioná-los e uma coluna em branco para quem se dispuser a preenchê-la com valores contratados ou estimados.

Alguns benefícios podem entrar de um lado e sair do outro.  Por exemplo, para um vendedor que usa o carro próprio para essa finalidade, o reembolso de combustível pode não significar nada.

Benefícios ou salário indireto
(sempre a parcela custeada pelo empregador)

Valor em R$ por mês
Café da manhã   
Cesta básica   
Vale refeição
Vale transporte   
Abono, bônus ou prêmio   
Custeio de educação   
Plano de saúde
Previdência complementar    
Bolsa de estudo para filhos   
Estacionamento   
Reembolso de combustível   
Custeio de medicamentos
Custeio de clubes esportivos
Auxílio-moradia
Outros:



A tabela mostra a importância de avaliar o salário indireto, principalmente ao examinar alternativas de emprego e as remunerações oferecidas em cada caso, que não podem ser avaliadas apenas pelo salário direto.

O salário social
O salário social é o valor de serviços como educação e assistência médica gratuita e outros fornecidos pelo governo mais diretamente aos cidadãos e suas famílias, e não genericamente a todos, como uma estrada, a segurança pública e as forças armadas.

Tomei conhecimento desse salário quando vi sindicatos ingleses reclamando do governo que estava, gritavam eles, reduzindo o salário social.  Por exemplo, havia o direito a remédio de graça acima de um certo valor por receita, e o governo aumentou esse valor.

A tabela que se segue lista benefícios governamentais que podem ser considerados como salário social, para preenchimento conforme já sugerido acima.  Neste caso, os valores serão estimativas.  Por exemplo, no caso da assistência médica pode ser o custo de um plano equivalente privado.  E a anuidade cobrada por escolas particulares, na educação.

Benefícios governamentais ou salário socialValor mensal estimado, em R$
Educação pública    

Serviços de saúde regulamente utilizados (se a pessoa só recorre a serviços públicos, é como se tivesse um plano de saúde público, cabendo a estimativa do seu valor; esta também cabível quando utilizados apenas para tratamentos específicos, como hemodiálise)   

Instalações para a prática de esportes

Abono salarial (para inscritos no PIS/PASEP)   

Benefícios  assistenciais do INSS para não contribuintes (idosos, inválidos e trab. rurais)

Bolsa-família e programas congêneres

Remédios de uso regular recebidos gratuitamente (como para hipertensão e diabetes)

Outros:


No Brasil, seria importante adotar esse conceito.  Pela minha experiência pessoal, percebi que o salário social da antiga classe média caiu muito nas últimas décadas, ao mesmo tempo em que aumentou o dos mais pobres. Por exemplo, quando jovem passei por escolas públicas e pela  assistência   médica  então provida por um  dos   antigos  institutos  de aposentadoria e pensões, o dos bancários.  Mais tarde, paguei escolas para minhas filhas e passei a ter planos de saúde privados.  É muito justa a ampliação dos serviços como esses para os mais pobres, mas inegavelmente ela se fez com prejuízo da qualidade, o que afastou desses serviços boa parte da classe média.

Pode-se também pensar numa estratégia para ampliar o salário social próprio, particularmente adequada para idosos, aposentados e outras pessoas com mais tempo para adotá-la. E, eventualmente, em condições de até mudar o local de residência, na mesma cidade ou para outra.  Essa estratégia cabe particularmente no caso da saúde. Embora haja uma queixa geral quanto à qualidade dos serviços públicos, ela varia entre hospitais e postos de saúde e, assim, entre cidades e bairros onde se localizam.  É o caso de perguntar a pessoas que neles foram ou são atendidas quanto à qualidade, e até experimentá-los. E, assim, procurar os melhores e eventualmente até morar perto deles. O melhor atendimento equivaleria assim a um aumento do salário social pessoal.

Em síntese, cabe ficar de olho no salário indireto e no social. Muita gente não percebe o seu valor e a sua importância.
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Roberto Macedo, CFP® (Certified Financial Planner), é economista formado pela USP com Mestrado e Doutorado na Universidade Harvard (EUA).  Foi Secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Fazenda e Planejamento, funcionário do Banco Central e do Banco do Brasil. E-mail: imprensa@bb.com.br. Este texto reflete a opinião do autor e não necessariamente a do BB; tem caráter apenas informativo, e não deve ser tomado como recomendação de subscrição, tomada de créditos, compra ou venda de ativos, decisões estas de exclusiva responsabilidade do investidor.



A declaração do IR na análise das finanças pessoais - 11.03.2013
Como nas empresas, às vezes fazemos, ainda que informalmente, um balanço ou avaliação do nosso patrimônio e outro de nossas receitas e despesas. Aliás, estamos numa época em que as grandes empresas apresentam seus balanços patrimoniais e suas contas de resultados, que tratam de suas receitas, despesas e seu lucro ou prejuízo em 2012. Por que não fazer algo similar nas finanças pessoais?

Há especialistas no assunto que apontam essa necessidade, mas a percepção dela não é ainda bem difundida. Fala-se mais de um levantamento e de um orçamento de receitas e despesas, voltados para o planejamento financeiro pessoal. Esse levantamento é um exercício de contabilidade pessoal, mas o orçamento e o planejamento dizem respeito ao futuro, algo que a contabilidade não registra. Mas, esses exercícios voltados para o futuro ganhariam se tivessem como ponto de partida um levantamento que além de receitas e despesas incluísse também a avaliação do patrimônio pessoal. Isto, tanto para diagnóstico como para orientar ajustes e projetos quanto aos rendimentos que recebemos, às despesas que realizamos e ao patrimônio que já temos.

Tudo isso ressalta a importância de uma contabilidade pessoal. Mas, como fazê-la? A idéia deste artigo é usar para esse objetivo a declaração do Imposto de Renda das Pessoas Físicas (IRPF), a ser entregue até o próximo dia 30 de abril. Com alguns ajustes, é possível tirar dela um balanço e os resultados de nossas finanças em 2012.

Começando pelo balanço
Tanto no formulário completo como no simplificado a declaração anual  do IRPF inclui também uma relação de bens e direitos e outra de dívidas e ônus reais. Ora, na linguagem contábil, bens e direitos correspondem àquilo que a pessoa tem, os seus ativos; dívidas e ônus reais constituem aquilo que ela deve, ou seu passivo.  Ou seja, a declaração fornece elementos para um balanço do ativo e do passivo pessoal.

Um problema com a declaração do IRPF é que um ativo, como um imóvel, entrou nela pelo seu custo histórico, ou seja, o preço de aquisição.  A Receita Federal já permitiu pelo menos uma vez que esses preços fossem atualizados por um índice de preços. Mas, há tempos não repete esse procedimento. Ademais, no caso de imóveis, em geral eles subiram  bem mais que os índices de preços nos últimos cinco anos. Quanto às dívidas, as pessoas nem sempre fazem a atualização delas nem pelos juros que se acumularam, nem pelas prestações que já pagaram.

Dados esses problemas, e tomando um caso comum, o de uma pessoa que tem imóveis, automóveis, dívidas e dinheiro em caixa ou aplicado, o ideal é fazer uma relação complementar tomando todos os itens pelo seu valor ou saldo atual.

Levantado o ativo e o passivo, o normal é que o primeiro supere o segundo, ou seja, a pessoa tem mais do que deve. Se ela deve mais do que tem, o problema é muito sério. Isso aconteceu, por exemplo, na crise do mercado imobiliário que ocorreu nos EUA em 2007 e 2008, com sequelas até hoje. Na ocasião, os preços de muitos imóveis ficaram abaixo do valor da dívida correspondente. Como resultado, muitas famílias procuraram renegociar suas dívidas, e outras até devolveram imóveis às instituições financiadoras.

No mercado imobiliário brasileiro não há notícia de algo semelhante no período recente, mas quem adquiriu imóveis pelos seus preços de pico corre risco de dificuldades semelhantes. Aqui, nos dois últimos anos tivemos uma situação como a dos imóveis nos EUA no segmento de automóveis financiados, pois houve adquirentes que adquiriram automóveis por prazos longos e, assim, maiores juros acumulados. Depois de pagarem as prestações por um período de tempo, perceberam que o valor da dívida era muito superior ao do carro usado que tinham em mãos, e assim procuraram renegociar suas dívidas. Ou se livrarem dela e do próprio carro financiado.

As receitas e despesas e seu resultado final
Na declaração de rendimentos pelo formulário completo, há também espaço para informar algumas despesas. No formulário simplificado nenhuma despesa é relacionada. Mesmo no formulário completo, despesas não dedutíveis que deveriam ser declaradas, como aluguéis pagos, não o são. E há as despesas como alimentação, vestuário e outras, que não cabe declarar. No caso dos rendimentos, há quem não declare rendimentos isentos, como os juros da caderneta de poupança, e usualmente as despesas só incluem as dedutíveis dos rendimentos brutos.

O que fazer? Nas receitas e despesas, o relevante é saber se a pessoa conseguiu poupar e quanto. Ou, se gastou mais do que ganhou no ano. Para responder isso, pode-se fazer uma relação completa de receitas e despesas. Ou, então, olhar apenas o resultado, espelhado no que aconteceu com a evolução patrimonial. Se o patrimônio subiu de valor numa magnitude considerável, e não foi apenas por endividamento, tudo bem, pois a poupança e o investimento dela foram de bom tamanho. Se não, é preciso fazer e cumprir um planejamento financeiro para reverter esse quadro.

Passando à utilização prática
Suponhamos que o leitor se interessou pelo assunto e usou a declaração do IRPF, com os necessários ajustes, para avaliar seu patrimônio e o resultado das receitas e despesas em 2012.  Não se trata de apenas juntar mais números e papelada por mera curiosidade.  A idéia é usar isso para o planejamento financeiro pessoal. Além do que já foi dito, cabem observações adicionais quanto à análise que se pode fazer desses levantamentos.

No caso dos rendimentos e gastos, além de verificar por onde o dinheiro vaza e buscar espaços para poupança, deve-se também ponderar sobre como ganhar mais, buscando uma promoção ou mesmo outro emprego ou trabalho sem vínculo empregatício.

Em conclusão...
Se o leitor acha que uma contabilidade pessoal mais detalhada parece penitência nesta quaresma, lembro que o resultado dessa contabilidade poderá até mostrar erros na avaliação que antes se tinha dos pecados financeiros pessoais. Ou das virtudes.  Assim, continua válida a lição de que um bom diagnóstico é a base de um bom planejamento financeiro, o qual envolve enfrentar problemas e buscar oportunidades até então ignorados.  A contabilidade pessoal é para isso e a declaração do IRPF pode, com alguns ajustes,  ajudar a fazer essa útil contabilidade, pelo  menos uma vez por ano. Há tempos faço isso anualmente, e acho que vale a pena o esforço.
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Roberto Macedo, CFP® (Certified Financial Planner), é economista formado pela USP com Mestrado e Doutorado na Universidade Harvard (EUA).  Foi Secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Fazenda e Planejamento, funcionário do Banco Central e do Banco do Brasil. E-mail: imprensa@bb.com.br. Este texto reflete a opinião do autor e não necessariamente a do BB; tem caráter apenas informativo, e não deve ser tomado como recomendação de subscrição, tomada de créditos, compra ou venda de ativos, decisões estas de exclusiva responsabilidade do investidor.

Diferenças entre preço e valor - 04.03.2013
Sempre nos confrontamos com inúmeros preços de bens e serviços a que correspondem. Há, por exemplo, o preço do leite, da consulta médica, a taxa de câmbio (o preço do dólar) e a taxa de juros (o preço do dinheiro). Um traço comum aos três primeiros é que são expressos em unidades de real, a moeda nacional, que assim presta um de seus papéis, o de meio de troca ou de referência para  transações. Mesmo a taxa de juros, que não é expressa em reais, diz respeito a montantes medidos desta forma.

Passando ao valor, também se diz que uma casa vale tanto, ou que um carro vale outro tanto.  Essa é uma avaliação mais subjetiva.  Mesmo que tenha como referência a venda recente de uma casa semelhante, ou uma tabela de preços de carros usados, esse valor não necessariamente se materializará se o bem em questão for colocado à venda.

Por conta desses usos, estamos acostumados a essas noções de preços e de valores, mas sem refletir muito sobre elas.  Essa reflexão será o tema do texto a seguir. E não se trata apenas de uma questão filosófica. Tem sua utilidade prática, pois nos auxilia a analisar melhor quanto vale o que cogitamos de comprar ou vender.

Mais sobre o valor
Quando vamos às compras, estamos de olho nos preços.  Mas, por traz desse olhar também há uma avaliação de valor, pois mesmo sem explicitamente usar este conceito as pessoas não só comparam preços de um mesmo item entre si, como observam outras características daquilo que pretendem comprar, como a qualidade.

Num carro, por exemplo, há quem atribua valores a outros aspectos dele, que não o de servir como meio de transporte, como a sua marca, modelo e desempenho, o que também influi na sua disposição de adquirir ou não. Ou seja, o preço é uma das variáveis analisadas pela pessoa, e pesa também a avaliação mais subjetiva ligada à noção de valor.

Mais precisamente, o valor diz respeito aos benefícios percebidos na aquisição do bem ou serviço, relativamente ao seu preço.  É como se a pessoa comparasse o que vai receber, esses benefícios, com o que vai entregar, o dinheiro correspondente ao preço. E, quando compra, é porque pensa que o valor do que vai receber é maior ou pelo menos igual ao do preço que vai pagar.

Vou usar esse conceito, mas mesmo no preço há também outros elementos nem sempre bem percebidos, como, por exemplo,  o custo do tempo gasto no processo de comprar, e o de instalação e manutenção, se for o caso de uma máquina ou aparelho. É preciso ficar também de olho neles.

Valor de uso e valor de troca
 Dentro do conceito de valor, há essa outra interessante distinção. Quando, por exemplo, utilizamos nosso carro, ele está nos prestando um serviço de transporte. Assim, dizemos que ele tem um valor de uso. 

Para distinguir esse valor do valor de troca ou de mercado, considere a hipótese de vender um carro usado.  Ao fazer isso, às vezes nos deparamos com a seguinte questão: por que vendê-lo, se  presta o mesmo serviço de transporte de um carro novo que, por sua vez, custa tão mais caro?  É certo que um carro usado tem mais custos de manutenção, mas só isso não explica a diferença.  Um carro zero tem seu próprio charme, tanto no sentido estético como ao incorporar novas tecnologias, ainda que algumas sejam de utilidade discutível. Outras vezes preponderam valores bem abstratos e superficiais, como o status que um carro novo traz no meio social em que a pessoa vive.

Por essas e outras razões, as pessoas preferem um carro zero, dão mais valor a ele e, por isso mesmo, há quem diga que custa caro aquele cheirinho de novo que vem junto. E, na tentativa de se livrarem do carro usado, muitas vezes este acaba tendo no mercado um valor de troca, ou preço,  bem inferior ao seu valor de uso.  Não sem razão, muitas vezes concluímos que é melhor continuar com o carro usado.

Essas diferenças de valor de uso e de valor de troca têm lições práticas, e vamos ilustrá-las de novo com os carros, já que decisões quanto a eles são muito comuns, e envolvem importantes somas de dinheiro.

Por causa da enorme diferença que vejo entre o valor de uso de um carro usado, bem maior que seu valor de troca ou preço no mercado de usados, e este muito abaixo do preço de um carro novo, sou reticente em comprar um carro novo, e quando adquiro um deles costumo usá-lo bastante antes de trocá-lo. Várias vezes optei por seminovos, que me parecem o melhor negócio, desde que o adquirente tenha um mecânico de confiança para avaliar seu estado.  Os muito usados são de alto risco, pois mesmo se funcionam bem no momento, o que faz funcioná-los pode estar em avançado processo de desgaste, e o risco de problemas imediatos é muito mais alto.

E quanto a vender o carro usado no seu mercado?  Prefiro trocá-lo no processo de aquisição de um outro, pois vejo custos no tempo que gastaria saindo por aí a vendê-lo. E até mesmo riscos de segurança pessoal e financeira ao me dispor a receber eventuais interessados depois de publicar um anúncio de venda.  
 
E há outros valores
Deixe agora o carro lá fora, entre na sua casa, contemple os móveis e objetos ao seu redor.  Há várias coisas cujo valor de uso também é maior que o valor de troca, como eletrodomésticos usados.  Por isso mesmo, você os mantém assim, e não se preocupa em renová-los freqüentemente.  Muitos deles chegam ao fim por conta da ferrugem ou de uma quebra mais definitiva, que levaria a um custo de reparo tão alto que se chega à conclusão de que não vale nada.

Observe agora suas coisas pessoais, como o retrato de uma pessoa querida, ou aquela escrivaninha que foi do seu pai.  Têm para você um valor muito específico, porque próprio da sua pessoa, o qual também é chamado de valor de estimação, e muito maior que o valor de troca.  Algumas, a gente até diz que não têm preço.  Ou seja, não haveria um valor de troca, que faria você dispor de uma delas, por mais alto que fosse. 

Olhe agora a sua família e você mesmo.  Quanto valem? Para seres humanos, a conta transcende o valor mensurável pelas grandezas usuais.  E é o valor ao qual os bens e serviços que temos, com seus preços, valores de uso, de troca ou qualquer outro, devem ser subordinados.
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Roberto Macedo, CFP® (Certified Financial Planner), é economista formado pela USP com Mestrado e Doutorado na Universidade Harvard (EUA).  Foi Secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Fazenda e Planejamento, funcionário do Banco Central e do Banco do Brasil. E-mail: imprensa@bb.com.br. Este texto reflete a opinião do autor e não necessariamente a do BB; tem caráter apenas informativo, e não deve ser tomado como recomendação de subscrição, tomada de créditos, compra ou venda de ativos, decisões estas de responsabilidade exclusiva dos investidores.
O retorno do investimento em educação - 25.02.2013
A educação pode ser vista como um investimento no que os economistas chamam de capital humano, pois permite que a pessoa passe a realizar um trabalho de maior valor. Como, por exemplo, ao ter curso superior relativamente a quem tenha só o médio. Em outras palavras, ela incorpora em si, ou em seu capital humano, o valor da educação.

Pode-se assim pensar também na taxa de retorno ou de rendimento do investimento em educação. E há dados que claramente mostram que de um modo geral esse investimento leva a remunerações mais altas para quem tem maior nível de instrução.

E mostram também que o ganho depende muito do curso escolhido. Especificamente, têm maior retorno os cursos que exigem maior dedicação de tempo e esforço. Nas escolas privadas são até mais caros, além de exigirem mais gastos em equipamentos e materiais. Cursos sem essas características estão entre os de menores retornos. No que se segue vou me estender quanto a essas questões.

Mais sobre o valor econômico da educação
Como capital humano, a pessoa é vista pelos seus atributos físicos e intelectuais, e estes últimos crescem de valor pelo aprendizado no trabalho, pela educação formal e pelo ensino técnico, entre outras formas. E a pessoa pode aprender também por iniciativa própria, como nas leituras e exercícios que pode fazer e nas experiências por que passa.

Por essas e outras razões, a demanda por educação é muito forte. Não basta, entretanto, acumular anos de estudo, nem investir outros recursos nessa linha, para que os benefícios venham automaticamente. Vou abordar o ensino superior, e falarei de vantagens econômicas. É claro que não se deve buscar a educação pensando só nisso, pois ela traz ganhos intelectuais importantes. Mas, um rendimento maior é o que muita gente espera, e é bom estar preparado para evitar frustrações. 

A escolha afeta resultados
As pessoas devem fazer aquilo de que gostam, pois assim serão mais felizes.  Há carreiras, contudo, que não se distinguem pelos resultados econômicos, como a de filósofo. A maioria dos que conheço, e não são muitos, se sustenta como professores.  Segundo dados do censo de 2010, apenas cerca de 4% das pessoas que se formaram em filosofia trabalhavam como filósofos ou como professores de filosofia.  Na outra ponta, cerca de 80% dos que se formaram em medicina e odontologia trabalhavam nessas áreas.(*)

Passando à remuneração, dados da mesma fonte revelam que os formados em filosofia ganhavam em média 70% acima dos que tinham apenas o ensino médio, enquanto que no caso dos médicos essa porcentagem chegava a 400%!  Conclusão: não é bom o retorno econômico de um curso do primeiro tipo, mas ainda assim o ganho relativamente ao ensino médio é considerável.

Como e o que escolher?
Tenho um livro sobre o assunto, e aqui vão algumas de suas lições: (1) faça o que gostar, mas, se for algo de baixo retorno, busque também uma carreira paralela para se sustentar;  (2) mesmo que uma carreira hoje seja recompensadora, amanhã pode não ser, e deve-se estar preparado para mudar;  (3) o profissional mais bem sucedido é o especialista eclético ou generalizante, que combina a especialização em alguma coisa – por exemplo, em engenharia ou economia –, com a capacidade de dominar outros conhecimentos.(**)
 
Mais sobre o especialista generalizante
No mercado de trabalho, a pessoa administra seu lado, o da oferta. As recompensas estão muito ligadas à demanda, às oportunidades que surgem para aquilo que você sabe fazer, ou para outras coisas que precisa saber ou aprender.  O importante é saber aprender a aprender, para sempre saber mais,  em condições de encarar novas oportunidades.

Por exemplo, a maioria dos novos agentes de fiscalização tributária federal, estadual e federal é de engenheiros, embora se trate de uma ocupação mais típica de economistas, contadores, administradores e advogados.  Os engenheiros, com seu raciocínio lógico-matemático bem desenvolvido e sua disciplina de estudo – que vem da natureza do curso e do tempo integral dedicado a ele –, têm melhores condições de disputar um concurso fora de sua área. Aprendem mais facilmente outras coisas. Dado o interesse em passar num concurso para uma ocupação que não é típica de sua profissão, buscam livros e apostilas, estudam por contra própria ou num cursinho preparatório. E acabam se saindo bem. Não é preciso tornar-se um engenheiro, mas seguir comportamento semelhante.

Estudando e trabalhando ao mesmo tempo
Alguns que estejam a ler este artigo talvez estejam a pensar no investimento que fazem na educação dos filhos. Ajude-os com informações, deixe que escolham, advirta-os sobre casos como o  do filósofo – isto, se não puder, ou não quiser, bancar um deles com um “paitrocínio” –, levante o exemplo do especialista generalizante, eventualmente recomende  cursos paralelos, e por aí afora. Cabe facilitar-lhes o acesso à informação e ajudá-los a encontrar o caminho.

Cabe observar também se o tempo que os estudos tomam é um de dedicação integral.  Se não, é recomendável começar logo a trabalhar, seja na forma de um estágio ou mesmo de um emprego.  O trabalho de quatro a seis por dia pode combinar com cursos que tomam só um turno (matutino, vespertino ou noturno). Esse engajamento no trabalho gerará recursos para as despesas pessoais, eventualmente para pagar as anuidades, trará aprendizado, experiência, desinibição, maior relacionamento social, maturidade e antecipará retornos do investimento.  E quem está “só” trabalhando deve pensar também em completar sua educação, com um curso regular ou complementar.

Enfim, continua valendo a pena estudar, e muito. Mas é preciso estudar também a própria educação que estamos buscando, seus custos, benefícios, ou seja, como encará-la, e tirar melhor proveito dela.
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Roberto Macedo, CFP® (Certified Financial Planner), é economista formado pela USP com Mestrado e Doutorado na Universidade Harvard (EUA).  Foi Secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Fazenda e Planejamento, funcionário do Banco Central e do Banco do Brasil. E-mail: imprensa@bb.com.br. Este texto reflete a opinião do autor e não necessariamente a do BB; tem caráter apenas informativo, e não deve ser tomado como recomendação de subscrição, tomada de créditos, compra ou venda de ativos, decisões estas de responsabilidade exclusiva dos investidores.
 (*) Estes e outros dados da mesma fonte foram obtidos do texto de Naercio Menezes Filho, da FEA-USP e do INSPER, Apagão de Mão de Obra Qualificada? As Profissões e o Mercado de Trabalho Brasileiro entre 2000 e 2010.  Disponível em: http://www.insper.edu.br/wp-content/uploads/2012/10/Apag%C3%A3o-de-M%C3%A3o-de-Obra-Qualificada-Naercio-Menezes-Filho.docx.pdf
(**) Roberto Macedo, Seu Diploma, sua Prancha – Como escolher a profissão e surfar no mercado de trabalho. São Paulo, Saraiva, 1998.


Tempo é dinheiro. Vale o ditado - 18.02.2013
Há muitas pessoas obcecadas com a passagem do tempo, sempre a consultar calendários e relógios.  Lembram o Coelho, personagem de Alice no País das Maravilhas, que porta um relógio, e parece sempre atrasado para alguma coisa.  E há gente que também percebe o tempo de outra forma, para levar a vida numa boa, afirmando que não vale a pena acelerar o ritmo. E aí quem vem à mente é Zeca Pagodinho a cantar:  “E deixa a vida me levar, vida leva eu...”.

Como há diferentes formas de perceber o tempo, ele ocupa a cabeça de muitos filósofos.  Minha perspectiva é a econômica, e abordarei o assunto ressaltando aspectos de interesse do leitor que atua na economia vários papéis relacionados com uso do tempo.

O ditado “tempo é dinheiro” é um bom começo. Para os economistas ele tem dois significados muito importantes, um no chamado lado real da economia, ou produtivo de bens e serviços,  e outro no financeiro, o mundo que gira em torno do dinheiro.

No lado real ou produtivo
No lado real da economia, bens e serviços são vistos pela ótica da produção física, que ocorre por unidade de tempo. Assim, é comum dizer, por exemplo,  que um operário produz tantas peças por dia, ou que um cabelereiro faz um corte em tantos minutos, ou que o PIB (Produto Interno Bruto) que mede a produção de bens e serviços de um país,  é,  de tantos bilhões de dólares por ano, depois de avaliado em dinheiro.

À produção avaliada por unidade de tempo e por fator de produção, dá-se o nome de produtividade. Assim, entre outras avaliações, há a produtividade do trabalho, de uma máquina e da terra. Para medi-la, há conceitos mais específicos, como o que procura determinar a primeira por homem-hora, definindo melhor a medida do trabalho.

O progresso tecnológico é também considerado um fator de produção, pois ele aumenta a produtividade dos fatores citados ou do conjunto deles. Por exemplo, escrever este artigo num computador toma menos tempo do que numa máquina de escrever, como eu fazia antigamente.  O envio do texto por correio eletrônico é mais rápido do que via fax, além de também poupar tempo na colocação do artigo neste portal. Se enviado via fax, teria que ser digitado novamente. Aliás, o fax parece-me uma espécie em extinção.

O ideal econômico, de maior produção de bens e serviços para  maior consumo e bem-estar das pessoas, passa pelo aumento da produtividade.  Quando se diz que noutro país o PIB por habitante é maior que no Brasil, isso significa que naquele país seus habitantes são, em média, mais produtivos que os brasileiros.

Essencialmente, o que se busca com o aumento da produtividade é produzir mais no mesmo tempo, ou diminuir o tempo para produzir a mesma quantidade. Portanto, na produção de bens e serviços o tempo é uma variável crucial.

O tempo financeiro e os juros
No lado financeiro, é igualmente fundamental.  Os empresários, ao perceberem a perspectiva de lucro num negócio, procuram logo realizar o investimento nele, pois se não o fizerem não virá o lucro. E este será tanto maior quanto essa perspectiva se prolongar. Como dizem, perder tempo é perder dinheiro.  De sua parte, os consumidores estão interessados em antecipar o consumo, pela satisfação que traz.  E há também o governo, que procura antecipar obras e serviços, por pressão dos cidadãos e dos políticos.

Em qualquer caso – empresários, consumidores e governo – o dinheiro é finito.  Assim, buscam recursos adicionais, e estão dispostos a pagar juros a quem lhes antecipa  o dinheiro para seus objetivos.  E o que é o juro?  É como um aluguel do dinheiro por um período de tempo. Por isso mesmo há quem chame os juros de preço do tempo.    E para o investidor que provê os recursos para esses empréstimos os juros correspondem ao rendimento ou retorno pelo investimento do seu capital.

Há também os compostos, como na caderneta de poupança. Na antiga, rendem 0,5% ao mês, mas isso não quer dizer que o rendimento anual por conta dos juros é 12 X 0,5%, ou 6%. Quando os juros que o depositante recebe num mês se incorporam ao saldo que tem na conta, no mês seguinte, se o dinheiro não for retirado, os juros serão de 0,5% sobre o saldo inicial do mês anterior mais os juros nele contados. Como resultado, a poupança rende 6,17% ao ano, que é o resultado dos juros assim compostos, e não os citados 6%, que seriam o resultado da conta dos juros simples, sem juros sobre juros.

Portanto, para o dinheiro do tempo é evidente.  Como tomador, você precisa ficar de olho nele, pois, dada uma taxa de juros, o custo total deles é maior com o tempo.   Como poupador e investidor, mais se ganha com a passagem dele. 

Encurte ao trabalhar, estique ao poupar
Tudo isso em lições de enorme significado.  Para quem trabalha, o ideal é realizar as tarefas no menor tempo possível. Pode-se ganhar mais, fazendo mais no mesmo tempo.  Se a pessoa trabalha para si mesma, a vantagem é evidente.  Se  empregada, a maior produtividade serve para se credenciar a um aumento de salário, embora esse ganho não seja automático.  

Se uma pessoa teve condições, e preferiu utilizar o tempo dedicado ao trabalho há outras atividades que, fora dele, levam a ganhos com significado econômico. Por exemplo, ela pode estudar ou aprender mediante treinamento buscando efeitos positivos sobre sua produtividade e rendimentos futuros..

E há outras formas de poupar tempo. Se o leitor usar a internet para sua movimentação bancária, em princípio só precisará ir ao banco ou a um caixa eletrônico para pegar dinheiro em espécie. E o montante que se carrega em dinheiro dessa forma pode ser minimizado com uso de cartões de débito e de crédito.

Se no trabalho ou em atividades como essas o negócio é poupar tempo, quanto à gestão financeira o sucesso está em esticá-lo.  Por causa dos juros e de sua acumulação, quanto antes a poupança e o investimento começarem, e quanto mais tempo forem deixados a render, tanto melhor.

Em síntese, tempo é realmente dinheiro, pois a passagem dele afeta como a pessoa ganha e usa o dinheiro de que dispõe, inclusive quando o toma emprestado ou o investe nas várias alternativas disponíveis.
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Roberto Macedo, CFP® (Certified Financial Planner), é economista formado pela USP com Mestrado e Doutorado na Universidade Harvard (EUA).  Foi Secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Fazenda e Planejamento, funcionário do Banco Central e do Banco do Brasil. E-mail: imprensa@bb.com.br. Este texto reflete a opinião do autor e não necessariamente a do BB; tem caráter apenas informativo, e não deve ser tomado como recomendação de subscrição, tomada de créditos, compra ou venda de ativos, decisões estas de responsabilidade exclusiva dos investidores.

Peculiaridades femininas nas finanças pessoais - 13.02.2013
Quando donas de casa, as mulheres têm papel importante nas finanças familiares, ao cuidar de parte dos gastos. Contudo, se limitadas a essa condição costumam ficar alheias à gestão do restante do dinheiro da família, em especial no que diz respeito à poupança e ao destino que lhe é dado. E, ainda, quanto ao seu próprio futuro em termos financeiros.

Com o aumento da parcela de mulheres que trabalham, essa situação vem mudando. E há outras razões que justificam preocupação e envolvimento maiores  das mulheres com a gestão financeira pessoal.  Muitas, contudo, só acordam para o assunto tarde demais, por força de problemas financeiros que então passam a enfrentar, sem estarem adequadamente preparadas para encará-los. 

Vou tratar das mulheres isoladamente e do caso usual de união entre pessoas, o de mulher e marido com o maior rendimento vindo do homem, e muitas vezes apenas dele.  Mas, com ajustes adequados, a análise também poderia ser aplicada a outras formas de união, inclusive de parceiros do mesmo sexo. Numa união, a questão financeira central, quando ocorre,  é a dependência de uma pessoa relativamente à outra.

Alguns aspectos peculiares às mulheres
Para começar, há mais mulheres que homens.  No Brasil, o último censo, realizado em 2010, registrou uma população de 190,8 milhões de pessoas, e uma relação de 96 homens para cada 100 mulheres, como resultado de um excedente de 3,9 milhões (!) de mulheres em relação ao número total de homens. Assim, muitas mulheres permanecerão sós, inevitavelmente tendo que cuidar de suas finanças nessa condição.

Casando ou não, outra peculiaridade é que as mulheres vivem mais que os homens.  Segundo os últimos dados disponíveis do IBGE (2011), ao nascerem a expectativa média de vida das mulheres é de 74,1 anos, contra 70,6 dos homens. Aos 60 anos, uma idade em que são comuns as aposentadorias, essa expectativa é de 82,8 anos para as mulheres e 79,5 para os homens. Como um aspecto do planejamento financeiro pessoal envolve a provisão para rendimentos e cuidados nessa fase da vida, para as mulheres esse planejamento têm um horizonte mais longo, e envolve mais recursos. 

E mais: a legislação permite que as mulheres se aposentem mais cedo que os homens.  O planejamento financeiro também deve levar isto em conta, inclusive no que diz respeito à eventual busca de outra ocupação nessa fase da vida.
 
A dependência e seus problemas
Há mulheres cujos maridos são os responsáveis pelo seu sustento, um caminho que tem duas variantes.  Na primeira, a união se mantém até à viuvez, só que, em geral, os maridos,  mais idosos  e com menor expectativa de vida, se vão primeiro. Com isso, a proporção de viúvas é maior que a de viúvos, conforme se percebe entre parentes e amigos.  Ou seja, em algum momento elas terão que administrar bens e rendimentos que herdarem.

A maioria não se prepara para essa fase, onde podem surgir várias complicações, como a de a pensão e/ou  herança não ser suficiente para garantir o padrão de vida desejado ou aquele da fase anterior.  Outra surge quando os filhos e/ou outros herdeiros acham que a viúva não mostra pendor para a administração financeira e/ou estão preocupados em defender seus próprios interesses. Aí, se metem no assunto, gerando uma situação com enorme potencial para conflitos, perda de autonomia e auto-estima por parte da viúva, ou mesmo malversação de recursos.

Na segunda variante, por alguma outra razão rompe-se o casamento, o que vem acontecendo em escala crescente, com o aumento do número de separações e divórcios.  Aí há o problema dos bens e rendimentos pós-rompimento, outra situação para a qual as mulheres dependentes raramente estão preparadas.

Por essas razões, em algum momento de suas vidas, casando ou não, e dependentes ou não, as mulheres têm inevitavelmente que assumir a gestão do seu dinheiro.   Nos EUA, estimava-se no final do século passado que isso acontecia com 80 a 90% das mulheres (*). Mesmo que o assunto seja delegado a cônjuges, filhos, outros parentes e pessoas, é preciso dominá-lo, pois a delegação pode não funcionar a contento.

Caminhos e escolhas
De um modo geral, as análises e recomendações apresentadas neste espaço se referem a pessoas, sem distinguir se são homens ou mulheres. Suponho que todas buscam se aprimorar como seres humanos e como profissionais, têm ou buscam rendimentos, e tentam poupar para garantir um bom padrão de vida hoje e no futuro.

Nessa linha, minha pregação é a de que as mulheres devem cuidar da própria vida, buscar o aprimoramento pessoal, desenvolver suas carreiras profissionais, e gerir adequadamente suas finanças pessoais. Há quem escolha outros caminhos, como esse da dependência.  E há também o de ir vivendo a vida, sem se preocupar com o futuro, fazendo escolhas apenas no momento em que se apresentam.  É a opção do “não estou nem aí”, como dizem certas pessoas.

Cada pessoa deve fazer suas próprias escolhas e ser responsável por elas.  As escolhas, contudo, dependem de informações, e percebe-se que particularmente as mulheres dependentes não estão bem informadas sobre o que as espera nessa questão do dinheiro. É preciso buscar essas informações. Sem elas, freqüentemente tomarão decisões equivocadas, em particular por não esclarecerem com a pessoa de quem dependem como ficará sua situação em caso de morte dessa pessoa ou de um rompimento da relação. É preciso buscar esse esclarecimento e, se a solução for insatisfatória, procurar fazer com que deixe de ser.

Assim, a idéia é contribuir para que as escolhas sejam mais bem informadas e pensadas.  E mais: quando falo do que o futuro reserva para as mulheres na área financeira, é bom lembrar que ele é coberto de incertezas, mas a vida fica mais tranquila quando elas são esclarecidas e, caso necessário, resolvidas.

Em qualquer caso, uma coisa é certa, a de que a grande maioria das mulheres terá, mais cedo ou mais tarde, que lidar com a gestão do seu dinheiro. Por isso mesmo, suas escolhas, hoje e sempre,  não podem deixar de levar isso em consideração.   
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Roberto Macedo, CFP® (Certified Financial Planner), é economista formado pela USP com Mestrado e Doutorado na Universidade Harvard (EUA).  Foi Secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Fazenda e Planejamento, funcionário do Banco Central e do Banco do Brasil. E-mail: imprensa@bb.com.br. Este texto reflete a opinião do autor e não necessariamente a do BB; tem caráter apenas informativo, e não deve ser tomado como recomendação de subscrição, tomada de créditos, compra ou venda de ativos, decisões estas de responsabilidade exclusiva dos investidores.
(*) Neale S. Godfrey, Making Change. New York: Fireside Books, 1997, p.33. Não encontrei dados sobre esse assunto no Brasil nem uma fonte mais recente nos EUA, mas trata-se de questão estrutural que não se altera muito em prazos curtos. Na minha percepção, se houve alteração foi para um número maior.


Educação financeira: começar cedo e em casa - 04.02.2013
Em que idade uma pessoa deve ser iniciada em educação financeira em geral e na cultura da poupança em particular?  No Brasil só muito excepcionalmente esses temas são discutidos nas escolas de qualquer nível de ensino. Soube que o governo federal iniciou um projeto piloto para levar a educação financeira às escolas de ensino médio. É um avanço, mas vai demorar até que a experiência se torne generalizada. E não há garantia de que será um sucesso. E mesmo que seja não se pode depender apenas dela para levar adiante esses ensinamentos, pois o papel educacional dos pais é indispensável na formação das pessoas e tais ensinamentos devem começar já na fase pré-escolar.

Em síntese, o quadro que se contempla hoje é um em que eles são providos pela família ou pela experiência de vida, inclusive por erros evitáveis. Ou, então, nunca se aprende, nem com os erros que por isso mesmo se tornam ainda mais inevitáveis.

No que se segue vou defender a idéia que intitula este artigo. Por circunstâncias da vida tive acesso a esses ensinamentos em casa, e foi em cima dessa base que me interessei por outros do mesmo tipo e saí a buscá-los.  Foram até estimulantes da minha vocação e da minha profissionalização como economista. 

Como foi
Minha iniciação no assunto foi  natural, pois nasci em cima de uma agência bancária da qual meu pai era gerente, com o segundo andar funcionando como residência da família. Depois, mudamos para outra cidade e residência do mesmo tipo. Por volta dos 5 anos já entrava pela agência e aos 7, já alfabetizado e “numerizado”  passei a lidar com máquinas de escrever e de calcular, estas então apenas mecânicas, movidas a manivelas.

Com isso, fui logo tomando contato com o dinheiro e coisas do ramo, no qual passei a trabalhar formalmente, ainda como adolescente.   Hoje, tendo observado minhas filhas quando passavam pelas escolas, percebi que dali não vinha quase nada em termos de educação financeira.     Mas, com essas características, minha experiência foi única em face das circunstâncias que a cercavam, muito favoráveis a uma educação financeira. E não acredito que possa ser generalizada.

Como e o quê, então, ensinar em casa às crianças?
Esse ensino deve ter um modo natural, ligado ao dia-a-dia delas com os pais, irmãos  e com o mundo fora de casa. As noções básicas são a do valor dos bens e serviços, do dinheiro que custeia tudo, e a de que depois será preciso se esforçar e trabalhar para obtê-lo.

Uma das importantes lições que tive em casa, e ligada a essa questão do valor,  foi a de uma atitude contra o desperdício, fundamentada inicialmente no caso dos alimentos.  Jogá-los fora, enquanto ainda utilizáveis, era considerado um absurdo. Um pecado, como então se afirmava.  Na cidade havia o costume de as pessoas muito pobres pedirem as chamadas “sobras de comida”, nas residências de quem tinha mais recursos. Assim, o  que sobrava mesmo era guardado para esses pobres e dado com um reforço adicional. E a percepção da necessidade deles atuava como um freio ao desperdício da minha parte e de meus irmãos. Depois veio a noção de que tudo custava dinheiro,  e que era preciso trabalhar e se esforçar para obtê-lo, o que também passou a funcionar como freio do mesmo tipo.

Outra noção básica é a dos limites à aquisição de bens e serviços, mesmo sem desperdícios.  Não se pode ter tudo, e o limite é dado pela disponibilidade de dinheiro, pelo uso alternativo que ele pode ter e também pela necessidade de poupar. Como minha família era grande e a renda restrita, o orçamento familiar era bem apertado. Em compensação, não havia tantas necessidades e “necessidades” como hoje, dadas por padrões culturais,  tecnológicos, de renda e de crédito da sociedade moderna em que as crianças se inserem.

Carro próprio era coisa para ricos, roupas eram apenas as necessárias para o dia-a-dia, com uma ou outra de melhor qualidade, para serem usadas “no domingo”. Havia a tradição de as pessoas se vestirem melhor nesse dia, em particular para ir à missa dominical, um costume então disseminado.

Hoje as crianças e principalmente os adolescentes ampliaram muito suas demandas,  convencionadas que são pelo seu meio social. Entre outras, há as de roupas de moda e de grife, os shows, as baladas e toda uma parafernália eletroeletrônica em contínua evolução.  E um carro ou moto depois dos 18 anos. O crédito se tornou mais acessível, inclusive por meio do temerário cartão.  Com isso, é mais difícil gerir o orçamento familiar, pois há essa pressão maior para gastar combinada com a disponibilidade de crédito. Mas, não há o que fazer. Ou há limites ou não há prosperidade se a poupança é comprometida pelo consumo. 

Do cofrinho em diante
O cofrinho permanece imbatível para facilitar o entendimento do papel do dinheiro e da importância de poupar. Em muitos países é parte da cultura e da educação para a poupança. Aqui, com a inflação muito alta, por vários anos os cofrinhos sumiram do mercado de brinquedos educativos, pois era um desastre guardar dinheiro em espécie com a altíssima inflação que tivemos. Agora ela é civilizada, as moedas voltaram a ser utilizadas, e o cofrinho de novo se viabilizou.

Tive vários quando criança. Hoje estão novamente à venda, até por camelôs. Comprei um antigo por nostalgia. Serve como enfeite e costumo mostrá-lo em palestras. Tem chave e também um buraco redondo para guardar notas. A chave é indispensável, pois quebrar um cofrinho para abri-lo é também um desperdício.

Mas, há muito mais por ensinar: mostrar de onde vem o dinheiro, levar as crianças às compras – isso, se os pais forem suficientemente educados para a poupança – com uma calculadora pequena e barata, deixar que busquem o produto mais “em conta” e com a mesma qualidade, mostrar-lhes contas e outros pagamentos mensais, deixar-lhes a ida aos bancos para essa finalidade, instituir a mesada ou semanada – logo que possível com movimentação bancária  – , estimulá-las a ganhar algum dinheiro via trabalho – ainda que em casa ou ajudando os pais –  mostrar-lhes documentos financeiros e discuti-los, ensinar noções sobre  juros,  instruir exaustivamente sobre a necessidade e os objetivos da poupança. E várias outras alternativas que o leitor poderá imaginar acompanhando a origem de seus próprios rendimentos, seus gastos de consumo, e o que vai para a poupança.

“É de pequenino que se torce o pepino”, diz o ditado.  Para evitar caminhos tortos na vida econômica e financeira de cada um, outra rima pode seguir na mesma linha: “É de criança que se educa a poupança”.     
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Roberto Macedo, CFP® (Certified Financial Planner), é economista formado pela USP com Mestrado e Doutorado na Universidade Harvard (EUA).  Foi Secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Fazenda e Planejamento, funcionário do Banco Central e do Banco do Brasil. E-mail: imprensa@bb.com.br. Este texto reflete a opinião do autor e não necessariamente a do BB; tem caráter apenas informativo, e não deve ser tomado como recomendação de subscrição, tomada de créditos, compra ou venda de ativos, decisões estas de responsabilidade exclusiva dos investidores.


Aposentadoria? Tô fora! - 28.01.2013
Muitas pessoas decidem continuar trabalhando, mesmo se já recebem rendimentos mensais como aposentadas, numa situação que chamarei sinteticamente de “aposentadoria”. As aspas se justificam, pois há uma contradição quando se fala de uma pessoa aposentada que trabalha. Afinal, está aposentada ou não? A resposta é que está porque recebe seu rendimento como tal,  e também não está porque segue trabalhando. Esse tipo de “aposentadoria” é comum no Brasil.

No que se segue apontarei razões que levam a isso, ressaltando a necessidade de um rendimento maior. Mas há outras razões que recomendam a “aposentadoria”, mesmo quando essa necessidade não é a predominante.

A “aposentadoria” por necessidade econômica
O tema deste artigo foi definido na quinta-feira da semana passada. No dia seguinte, foi publicada no jornal O Estado de S. Paulo uma reportagem intitulada “Só 5% dos aposentados não voltariam a trabalhar”. Ela forneceu dados como esse, sem os quais eu talvez tivesse que recorrer a considerações não baseadas numa pesquisa como essa.

Ela foi realizada pela empresa Vagas Tecnologia entre novembro e dezembro do ano passado, a partir de uma amostra de 476 profissionais, entre os quais 82% de aposentados.  Coloquei sem aspas, pois presumivelmente estavam à procura de trabalho. A amostra não é grande, mas além de seu próprio potencial estatístico as respostas correspondem àquilo que se sabe pelo senso comum. E também por minha experiência pessoal, que abrange a percepção do contexto social em que vivo. 

Entre esses aposentados foram admitidas respostas múltiplas, e 53% declararam buscar uma nova ocupação porque gostam de trabalhar, enquanto que 49% se sentiriam mais ativos, e 47% afirmaram buscar trabalho por necessidade de renda extra.

Focando nesta última razão, sei que ela se desdobra em outras. Entre elas, a de que a maioria das aposentadorias, as do INSS, tem como valor predominante  o salário mínimo. Mesmo quando acima dele não garantem, em geral,  um padrão de vida satisfatório. Ou seja, o rendimento baixo é fator importante na decisão de se “aposentar”.

Não há garantia, contudo, que essa decisão se concretizará, pois a pessoa poderá não encontrar ocupação.  Contudo, é sabido, e a pesquisa confirma, que o mercado de trabalho encontra-se hoje numa fase de desemprego muito baixo, falando-se até de escassez de mão-de-obra.  E a pessoa que falou em nome da empresa disse que é forte a demanda por aposentados, em face da experiência que acumulam. Eu adicionaria que em geral têm também maior senso de responsabilidade.

A “aposentadoria” por outras razões
Entre estas, como já foi visto, a pesquisa mencionou o gosto pelo trabalho e a percepção de que é preciso manter-se ativo, o que é um comportamento saudável.

E há quem, como eu,  combina essas duas razões. Gosto demais do meu trabalho, e os médicos sempre recomendam que a pessoa se mantenha ativa, física e mentalmente, o que procuro fazer. Ou seja, a “aposentadoria” faz bem à saúde. Costumo discutir esta questão com amigos que realmente se aposentaram e, quando muito, se dedicam a atividades físicas, como a prática de esportes. Tento convencê-los a seguir minha rotina, que envolve uma jornada normal de trabalho, ou até mais, inclusive em fins de semana. Mas, o leitor deve saber que sou criticado por não “aproveitar a vida”.

Eu acho que aproveito, pois além de não descuidar de atividades físicas gosto demais de um trabalho que essencialmente envolve ler, manter-me informado quanto ao que se passa na minha área profissional, escrever, debater com colegas e dar palestras. Tudo isso me faz usar também a cabeça.  Não mais dou aulas regulares, como as de uma disciplina num curso de graduação ou pós, pois isso exige uma rotina de horários e traz impedimentos de viagem, e não estou mais disposto a aceitar essas exigências. 

Ou seja, meu compromisso com a “aposentadoria” envolve trabalho prazeroso e sem horários rígidos. Sei que é difícil conseguir isso, mas há também quem não procura.

O exemplo de um recordista
Com 69 anos, tenho 54 de trabalho, pois meu primeiro emprego com registro em carteira veio aos 15 anos. Com este currículo, sem falsa modéstia acho que sou um trabalhador digno desse nome. Mas, na semana que passou, mais precisamente no dia 24, vi no jornal (Folha de S. Paulo) uma reportagem sobre uma pessoa que foi bem mais longe, o catarinense Walther Orthmann. Com 90 anos continua trabalhando, depois de se “aposentar” há  35 anos atrás. Também começou aos 15, e já tem mais tempo de trabalho do que eu de vida. 

Afirmou que continua a trabalhar porque gosta do que faz, e também porque acha que trabalhar faz bem à saúde. Nas suas palavras: “Se me aposentar, não vivo mais. Meus amigos que se aposentaram não estão mais comigo. Trabalhar é saúde. Se ficar em casa, você fica doente, (e)... no trabalho, você não pode ficar nervoso. É preciso trabalhar com alegria e fazer o que gosta.”

Recebeu o título de “funcionário com maior tempo de registro trabalhista numa só empresa”, num livro de recordes brasileiros. Vejo-o como um ótimo exemplo, e de novo vale enfatizar que uma boa “aposentadoria” requer trabalho prazeroso e saudável. Não é o caso, por exemplo, de fazer carvão no meio do mato ou pegar pesado na enxada. Quem trabalha assim pode até mesmo não chegar à aposentadoria. É preciso algo condizente com a idade e um horário de trabalho mais flexível.

Pondero também que o exemplo do Sr. Orthmann não pode ser generalizado, pois ele deve ter também uma combinação única de genes ao lado de condições de vida muito favoráveis, como as de habitação, alimentação e assistência médica, entre outras. Mas, tampouco o objetivo de uma pessoa deve ser o de chegar aos 90 e aos 75 anos de trabalho. O importante é ter uma vida boa enquanto durar, e quanto a isto não recuo da percepção de que o trabalho enquanto aprazível e possível contribui para alcançá-la.
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Roberto Macedo, CFP® (Certified Financial Planner), é economista formado pela USP com Mestrado e Doutorado na Universidade Harvard (EUA).  Foi Secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Fazenda e Planejamento, funcionário do Banco Central e do Banco do Brasil. E-mail: imprensa@bb.com.br. Este texto reflete a opinião do autor e não necessariamente a do BB; tem caráter apenas informativo, e não deve ser tomado como recomendação de subscrição, tomada de créditos, compra ou venda de ativos, decisões estas de responsabilidade exclusiva dos investidores.

O consumo compulsivo e seus males - 21.01.2013
O consumo compulsivo é doença que ataca as finanças pessoais, e pode estar associado a distúrbios psíquicos, como a ansiedade e a depressão, e mesmo a tristezas passageiras.  Tais distúrbios são assunto típico de psicólogos e psiquiatras, mas hoje há entre eles os que desenvolvem trabalhos com economistas, dada a  dimensão também financeira desses fenômenos. Assim, há interesse comum desses profissionais pelas causas, processos, conseqüências e formas de alívio do consumo compulsivo.

Juntando psicologia com  economia, ele pode levar também à poupança deprimida. E pode fazer agravar outra doença financeira, a dívida, quando ampliada sem os devidos controles, sem noção de sua necessidade, de seu custo e de suas conseqüências.

Começarei com uma introdução de caráter mais geral sobre o assunto, envolvendo questões como ansiedade e depressão e seus efeitos consumistas,  seguida de outra voltada especificamente para a tristeza. Também integram o texto observações sobre como identificar o estado doentio e o que fazer.

Aspectos gerais
O estado de ansiedade é um dos que podem levar à compulsão para gastar exageradamente em consumo. Soube de um caso em que a ansiedade que provocou a aventura consumista foi sucedida por uma depressão quando o excesso foi percebido. Mas pode haver também o ciclo inverso.  Uma pessoa deprimida por outras razões pode buscar o consumo como alívio, e depois pode sobrevir uma dívida que agravará sua depressão.

Contemplando o consumismo, estamos acostumados a chamar de gastadoras as pessoas que o praticam, com conotação até pejorativa, e a tomar os poupadores como bom exemplo.  Aliás, eu achava que ele fosse uma questão de escolha, de manter a disciplina, no meio de tantas forças empurrando para o consumo.  Algo como definir o exagero deste como pecado, e a prática da poupança como virtude. Mas, às vezes o comportamento pode estar ligado a problemas de natureza psíquica  a exigir a atenção de especialistas.  

De qualquer forma, os inconvenientes do consumo compulsivo são claros. Ele é deletério não apenas do ponto de vista das finanças pessoais ou familiares. Além de comprometer a renda, pode destruir fortunas, e gerar desajustes familiares entre quem ganha e quem gasta, entre outras dificuldades.

Como identificar e evitar?
Mas, onde está o limite, mesmo que nebuloso, entre o normal e a doença?  Para evitar a ida aos  consultórios, o ideal é que  a própria pessoa faça avaliação de seu consumo como doença ou não, se seu estado ainda lhe permitir essa avaliação. No plano econômico, pensei numa avaliação em que a pessoa se compara com outras, e não se limita a uma introspecção pessoal sem um balizamento. Consiste em verificar se, no meio social onde vive, seu consumo e sua capacidade de poupança são comparáveis aos de outras pessoas com renda e tamanho familiar semelhante. Isto deve levar também em conta a faixa etária dos filhos, já que esta tem também influência. Quando entram na idade da adolescência,  e até se tornarem adultos e independentes, os gastos aumentam muito.

Assim, se outras pessoas, nas mesmas condições, já têm o seu pé-de-meia, enquanto a percebe que o seu está vazio ou o dinheiro some pelos buracos, a avaliação não é boa. Ainda assim ela pode estar apenas “zerada”. O desequilíbrio mais sério é o que entra por crônicos saldos bancários negativos e pela dívida “cartonária”, a dos cartões, que também podem estimular a percepção do problema.  Tal percepção deve se estender à ilusão de felicidade que vem com o consumo compulsivo, pois logo depois há o contrário, na forma de ansiedade,  insônia, a depressão e outras inconveniências, num processo que pode levar a um círculo vicioso ampliando ainda mais o consumo.

E há outro teste, coisa deste economista que já trabalhou em bancos, lidou com clientes aflitos, e soube de muitas histórias. Consiste em perceber se o atendente da agência continua ou não resolvendo os problemas financeiros da pessoa.  Se suas visitas se tornarem mais  freqüentes em busca do crédito para consumo, inclusive com pedidos de prorrogações de prazo e  ampliação de limites, e o atendente já não a recebe tão amistosamente como no passado, respondendo com evasivas, é um indício de que é preciso colocar o pé no breque do consumo, ou até mesmo o caso de procurar um consultório.

O estado de tristeza e seu impacto no consumo
O tema deste artigo foi definido há duas semanas atrás, e seu texto já estava próximo do final quando me deparei com um artigo muito interessante no jornal Valor, no seu suplemento do último fim de semana. O artigo teve como ponto central um estudo recente realizado por psicólogos das universidades de Harvard e Columbia, nos EUA, voltado para a relação entre o estado de tristeza e o das finanças pessoais. O texto completo está em: http://www.valor.com.br/cultura/2974626/tristeza-nao-tem-fim-dinheiro-sim.

O texto traz a definição de tristeza pelos psicólogos: “um estado temporário, como numa morte ou separação, sendo ligada a sensações de desamparo e perda.”  Comparado com outros estados a que me referi acima, um traço marcante é esse aspecto temporário.

O estudo identificou o que seus autores chamaram de “miopia da tristeza”, ao constatarem que esta torna as pessoas mais impacientes e menos racionais em decisões sobre o uso do seu dinheiro. Em particular, buscando uma satisfação imediata pelo consumo para compensar a  tristeza. Particularmente interessante foi a percepção de que as pessoas testadas pelo estudo também se dispunham a vender por preços baratos o que já tinham.  Ou seja, tanto na compra como na venda elas viram uma oportunidade de mudar circunstâncias ligadas à sua tristeza.

Tendo a tristeza essa característica temporária, seu efeito me parece mais fácil de superar conscientemente. O próprio conhecimento dele, obtido pela experiência ou mediante um processo de educação financeira, adverte a pessoa quanto a seus males. Em outras palavras,  como a tristeza é passageira, logo em seguida a pessoa poderá se prevenir contra repetições de seus males financeiros no futuro.

Quanto a isto, outra dica recorre ao título da reportagem, “Tristeza não tem fim, dinheiro sim”, tomado da música de Vinicius e Jobim que diz “Tristeza não tem fim, felicidade sim”, e evidentemente muito chamativo. Mas, em desacordo com referida definição de tristeza que a apresenta como temporária.  Assim, minha opção seria por outro título: “Tristeza tem fim, mas o do dinheiro pode vir antes”.
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Roberto Macedo, CFP® (Certified Financial Planner), é economista formado pela USP com Mestrado e Doutorado na Universidade Harvard (EUA).  Foi Secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Fazenda e Planejamento, funcionário do Banco Central e do Banco do Brasil. E-mail: imprensa@bb.com.br. Este texto reflete a opinião do autor e não necessariamente a do BB; tem caráter apenas informativo, e não deve ser tomado como recomendação de subscrição, tomada de créditos, compra ou venda de ativos, decisões estas de responsabilidade exclusiva dos investidores.


A moeda e seu importante papel - 14.01.2013
O tema deste artigo é a moeda ou dinheiro, seja sob a forma de papel-moeda, de moedas mesmo e da moeda escritural que circula em contas do sistema financeiro numa quantidade imensa de transações como depósitos, saques e transferências bancárias.

Vamos examinar as três principais funções da moeda: (1) servir de meio de troca; (2) de padrão ou referência para pagamentos futuros; e (3) de reserva de valor. Haverá rápida referência à evolução histórica das trocas até chegar ao uso da moeda, e trataremos do maléfico efeito da inflação sobre o valor da moeda e de como defender-se dele.

Como tudo começou
Nas organizações humanas mais primitivas, como as de índios isolados da civilização, a moeda não existe,  e a atividade econômica é comunitária. Ou seja, cada pessoa compartilha seu trabalho com os demais membros da comunidade e assume responsabilidades dentro dela.

Mudança importante aconteceu quando pessoas e grupos passaram a trocar entre si, inclusive entre comunidades diferentes,  o que produziam ou colhiam da natureza. Mas, essas trocas envolviam dificuldades, entre elas a avaliação de valores em cada troca e do troco em trocas de bens com diferentes valores.

Em face disso, como precursores da moeda moderna passaram a ser usados alguns bens que entre outras características não eram perecíveis. E que podiam ser divididos em partes ou porções pequenas, como o sal e metais preciosos.

Outro passo importante foi quando governos passaram a emitir papel moeda, ou seja, um papel reconhecido como tal, inicialmente com lastro em metais e depois simplesmente aceito como moeda pela comunidade que a utiliza. Completando a evolução, vieram as instituições financeiras e a moeda escritural.

As importantes funções da moeda
Imagine o leitor se as notas e moedas que estão no seu bolso ou seus saldos em conta bancária não fossem aceitos como meio de troca numa transação qualquer. A moeda perderia sua utilidade e a pessoa ficaria em apuros para realizar suas transações.

Imagine também se a moeda perdesse rapidamente  seu valor ao longo do tempo. Nesse caso, como, por exemplo, tomar e pagar um empréstimo?  Qual seria o valor dele no futuro? Assim, a moeda passaria a funcionar mal como referência para pagamentos futuros. Isso também comprometeria a moeda como reserva de valor se guardada sem uso.

A perda de valor vem usualmente da inflação, que é o aumento generalizado e persistente dos preços de bens e serviços ao longo do tempo. Se ocorre de forma muito acelerada, no caso extremo chega-se à hiperinflação, uma situação caótica, em que a moeda perde muito valor dentro de um dia ou mesmo em poucas horas. Quando isso aconteceu em alguns países, houve o retrocesso às trocas de bens e serviços entre as pessoas, e também a substituição da moeda por metais e até maços e unidades de cigarros.

A correção monetária não resolve o efeito da inflação
 No Brasil, quando a inflação ficou muito acelerada, foi criada a chamada correção monetária já na década de 1960.  Com ela o valor monetário de muitos bens, serviços, impostos, e ativos financeiros e outros valores passou a ser atualizado por índices que medem a inflação. Mas, só parcialmente isso aliviava o efeito da inflação. Índices tomam tempo para serem construídos, e quando a inflação se acelera a correção fica atrasada, pois eles medem a inflação passada que se revela menor que a inflação do momento da correção. A correção gera também enorme discussão sobre o índice a  ser utilizado em cada caso.

Aqui se  percebeu também que a presença da correção monetária era  pretexto para não se combater  o problema da inflação e suas causas. Com o Plano Real, que fez isso, a correção monetária passou a ser proibida por prazos inferiores a um ano, como nos contratos de aluguel, pois percebeu-se também que realimentava a inflação.

Em retrospecto, a experiência brasileira confirmou a lição de que a moeda estável com a inflação baixa e sob controle, bem como a dissipação de incertezas quanto ao seu valor futuro, são elementos indispensáveis  às transações econômicas.

E a defesa contra a inflação que está aí?
2012 fechou com uma inflação anual de 5,84% medida pelo IPCA. O ideal seria uma taxa abaixo de 2%. A nossa é considerada alta, pois leva a uma deterioração importante do valor da moeda, particularmente se repetida ao longo dos anos.

Nos últimos três a inflação do IPCA, que é o parâmetro adotado pelo Banco Central, ficou acima de 5% ao ano. Além dos 5,84% de  2012,  ficou em 6,50% em 2011 e 5,91% em 2010. Com isso, o real perdeu 16,23% do seu poder aquisitivo nesses três anos. Esta foi a perda, por exemplo, de quem deixou seu dinheiro em conta corrente ou cofre.

Em geral o brasileiro é escolado em termos de inflação, e busca proteger-se dela. Mas, desde 2012 com uma ainda inflação alta, a queda da taxa básica de juros ou Selic, que remunera as aplicações financeiras, e com o atrelamento da remuneração da caderneta de poupança a essa taxa, isso está cada vez mais difícil. Por exemplo, em 2012 a poupança antiga rendeu 6,47%,  ainda  superando a inflação. Mas, a poupança nova terminou 2012 rendendo apenas 5,08% em base anual, ainda assim uma boa proteção, ainda que parcial, contra a inflação.

Atualmente, a proteção contra a inflação que tem se revelado mais eficaz para o pequeno investidor são os papéis do Tesouro que pagam o IPCA mais uma taxa de juros, se carregados até o vencimento para contornar riscos de oscilação de preços. Ou fundos lastreados nesses papéis ou títulos indexados do setor privado que levem a uma remuneração compensadora. Como rendimentos maiores costumam estar associados a riscos mais altos, o investidor interessado em ganhar mais terá também que aceitar esses riscos. Mas, é preciso estar ciente deles, e ter a disposição de aceitar perdas, sem o que a busca de maior risco trará também o risco das lamentações correspondentes.

E pode-se também conceber um plano próprio de proteção contra a inflação, pesquisando melhor os preços. Por exemplo, eles têm subido bastante no caso dos alimentos, mas estes podem ser trocados entre si para chegar a refeições mais baratas. E até mais leves, servindo também para colocar em prática aquela dieta alimentar tão adiada.
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Roberto Macedo, economista formado pela USP, com Mestrado e Doutorado pela Universidade de Harvard, é pesquisador da FIPE-USP e professor da Universidade Presbiteriana Mackenzie.  Foi Secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Fazenda e Planejamento,  funcionário do Banco do Brasil e do Banco Central.  E-mail: imprensa@bancobrasil.com.br


Dicas para o planejamento financeiro de 2013 - 07.01.2013

Esta fase do ano é de reflexão sobre o ano que passou e o que se pretende alcançar no que começou.  Quanto ao passado, no nosso artigo de 3-12-12 sugerimos, entre outros aspectos, pensar em fazer dele, como nas empresas, um balanço patrimonial, e de resultados. O primeiro seria um levantamento do patrimônio ou riqueza pessoal, incluindo imóveis, participações empresariais e disponibilidades financeiras inclusive valores ou créditos a receber, descontadas dívidas e outras obrigações. O segundo examinaria receitas e despesas, bem como da diferença entre as duas, para assim examinar se resultado permitiu ou não um acréscimo de patrimônio.

Quanto a 2013, cabe planejá-lo financeiramente, o que deve se seguir a esse exercício, pois o objetivo do planejamento será consolidar uma situação financeira boa ou ajustar uma insatisfatória para que fique boa. Se o leitor não fez o exercício quanto a 2012, seria o caso de fazê-lo.  Mas, isto será menos relevante se tiver noção clara de sua situação atual e de aonde quer chegar em 2013. Quem não tem essa noção, fica sem rumo financeiro e poderá chegar a destinos indesejáveis, como a inadimplência.

Vamos apresentar algumas dicas para realizar esse planejamento e executá-lo.

Há muito o que planejar
Para o bem ou para o mal, a vida moderna oferece muito mais alternativas de escolha do que no passado. Ficando apenas em aspectos da gestão financeira, e lembrando-me dos meus tempos de jovem, nessa época o financiamento habitacional era limitadíssimo, a aquisição de automóveis era privilégio de poucos, não havia televisão, a educação básica da escola pública era de boa qualidade, preferida pela classe média tradicional e até mesmo por famílias ricas. Planos de previdência privada e de saúde complementar eram raríssimos. Viagens, férias e entretenimento, muito limitados. E ainda mais limitados eram os instrumentos para investimentos ou aplicações financeiras, como fundos, CDBs e ações. Tampouco havia cartões de crédito.

Hoje, as escolhas são muitíssimas e financeiramente elas nos podem levar tanto ao sucesso como a dificuldades, estas principalmente pela exacerbação do consumo e descuidado com a poupança. Assim, o planejamento financeiro é indispensável.
  
Segue-se uma lista de situações que demonstram a relevância de planejar: (1) aquisição de casa própria; (2) compra, renovação e manutenção de automóvel(is); (3) aquisição e renovação de eletroeletrônicos, inclusive computadores que se tornam ultrapassados; (4) educação dos filhos, principalmente quando em escolas privadas; (5) plano de saúde para garantir assistência melhor que a dos serviços públicos; (6) aposentadoria complementar à do INSS;  (7) adequado gerenciamento das dívidas, como as dos cartões de crédito;  (8) escolha de aplicações financeiras, dentre as muitas disponíveis; (9) amplo espectro de bens e serviços de consumo, nas áreas de alimentação, aluguéis, transporte, vestuário e serviços domésticos, entre outras; (10) grifes e modas que pressionam o orçamento familiar; (11) maior demanda de férias e entretenimento; (12) cuidados com a forma física, seja em clubes, academias ou em casa, em vários casos exigindo roupas e equipamentos adequados; (13) o número de filhos é bem menor, não se podendo contar tanto com o apoio deles nas idades mais avançadas, como acontecia com as famílias antigas; (14) defender-se da inflação, um dragão domado, mas ainda com calor suficiente para causar prejuízos; (15) lidar com o grande número de impostos e seu peso, procurando amenizá-los.

Consumo X poupança: o grande dilema
Pode-se agrupar os itens dessa lista em dois grupos: a) bens e serviços de consumo, ou seja, aqueles cuja utilidade se esgota com seu uso, não se acrescentando ao patrimônio pessoal ou familiar; b) poupança financeira, na forma de cadernetas de poupança, fundos financeiros e outras, ou investida em ativos reais, como imóveis, atividades empresariais, um computador para uso no trabalho e outros itens.  Gastos em saúde, inclusive em planos desse tipo, e educação também são investimentos, pois eles mantêm a capacidade de gerar rendimentos e, no caso da educação, a ampliam.

Na fase da vida em que a pessoa trabalha, o planejamento financeiro deve se voltar para gerar mais rendimentos. E, recebidos estes, para ampliar a poupança e o investimento, e conter dentro do necessário as despesas de consumo.  A dificuldade maior é que as pessoas frequentemente sucumbem às tentações do consumo e não poupam para ter uma vida mais prospera, inclusive ampliando esse consumo no futuro.

Para conseguir isso...
É preciso ter objetivos e estabelecer metas ou objetivos mais claramente definidos, inclusive numericamente. Por exemplo, quanto poupar em 2013. E cumprir o planejado.  Em tese, é simples, mas na prática, muitas pessoas não conseguem isso.

Para gerar mais rendimento, um caminho é o da educação, o que segui. À medida em que progredia na educação, meus rendimentos foram aumentando, procurei poupar bastante, e fui também evoluindo patrimonialmente.  Mas, não é único caminho. Ao longo da vida, vi muita gente prosperar, por exemplo, por meio de atividades empresariais, começando um pequeno negócio que depois evoluiu em tamanho e rentabilidade.   Mas, mesmo nesse caso a educação também é importante, pois o sucesso nos negócios depende muito de a pessoa se informar sobre eles, o que exige domínio da linguagem e de números, entre outros aspectos.

Definir metas para ganhos é mais difícil, pois depende de empregadores ou de clientes. A meta deve ser a de ganhar mais e de desenvolver esforços nessa direção. Obtidos os rendimentos, e idealmente crescentes, a poupança e o investimento de uma parte importante deles leva também a mais rendimentos, e assim por diante, num círculo virtuoso e de diâmetro crescente.

É preciso disciplina, inclusive auto-imposta

Minha prescrição usual procura facilitar o trabalho dos que revelam disciplina e mesmo de quem não a tem. É a de amarrar-se a um compromisso com a poupança. O que é isso? É algo que faz a pessoa poupar automaticamente. A forma que vejo mais forte é comprar um imóvel a prestações, com o que a pessoa vai poupando e investindo uma parte dos seus rendimentos, ficando para o consumo o que sobrar.  Outra é o débito automático mensal de uma transferência para a conta de poupança, conforme se pode fazer numa conta corrente do BB.  Mas, feita a transferência, é preciso ter a disciplina para não sacar o saldo. E há outras formas na mesma linha, inclusive um plano de capitalização, que envolve até uma punição para quem não leva o plano até o fim, pois nesse caso não se recebe nem a restituição do que foi pago.

Em síntese, planejamento financeiro é poupar e investir. Insista e não desista!

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Roberto Macedo, CFP® (Certified Financial Planner), é economista formado pela USP com Mestrado e Doutorado na Universidade Harvard (EUA).  Foi Secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Fazenda e Planejamento, funcionário do Banco Central e do Banco do Brasil. E-mail: imprensa@bb.com.br. Este texto reflete a opinião do autor e não necessariamente a do BB; tem caráter apenas informativo, e não deve ser tomado como recomendação de subscrição, tomada de créditos, compra ou venda de ativos, decisões estas de responsabilidade exclusiva dos investidores.


Perspectivas da economia e dos investimentos em 2013 - 31.12.2012

Nesta época do ano, é comum que as pessoas se ponham a imaginar o que esperar do ano seguinte. A expectativa assim formulada serve para orientar atitudes e ações que serão tomadas no mesmo, definidas também a partir de objetivos pessoais.

Com os investidores não é diferente. Os jornais impressos, televisivos, blogs e outros meios de comunicação apresentam cenários da economia para 2013, falam dos investimentos financeiros, e apresentam recomendações a respeito.

Este artigo segue essa linha. Começa com um cenário da economia brasileira e em seguida foca nos juros e dos investimentos em renda fixa em geral, junto com observações sobre a renda variável, especificamente sobre as ações. O artigo usa vários conceitos econômicos e do mercado financeiro, mas são triviais dentro desse mercado e o investidor, efetivo ou candidato, precisa se familiarizar com eles.

Perspectivas da economia em 2013
O PIB (Produto Interno Bruto) mede a produção de todos os bens e serviços da economia num determinado período de tempo, como um ano ou trimestre. Os preços dos bens e serviços são também juntados em índices, como o IPCA.  E há preços específicos, de alcance geral, como a taxa básica de juros, ou Selic.

O que o governo federal busca é a maior taxa para o PIB e a menor para a inflação. Em 2012 reduziu a Selic para diminuir o custo de sua dívida, e estimular o consumo e o investimento produtivo. E houve várias medidas cambiais, de desoneração tributária e outras creditícias para estimular a produção.

Os resultados não foram satisfatórios. O PIB deve fechar 2012 com um crescimento muito baixo, perto de 1%, e no final do ano a inflação estava em alta, prevendo-se para o IPCA uma taxa anual de 5,7%, para uma meta centrada em 4,5%.

Mas, resultados melhores são esperados para o PIB de 2013, em larga medida ainda como efeito dos estímulos já referidos.  Assim, o mercado financeiro chegou ao final do ano prevendo uma taxa de 3,3% para o PIB em 2013, e uma inflação mais contida em suas taxas mensais. Novas reduções da Selic não são esperadas, nem tampouco seu aumento.  Se a inflação incomodar, o mais provável é que o governo recorra a controles de crédito e a desonerações tributárias e tarifárias.

Nesse cenário, como fica o investidor em renda fixa?
Na renda fixa em geral, a Selic tem papel muito importante, em particular nos fundos e CDBs referenciados à taxa DI, que caminha junto com ela, e na nova poupança ligada diretamente a ela.  Mas é preciso ficar também de olho na taxa de inflação, pois dada uma taxa DI é essa taxa que determina se os ganhos serão reais ou não. Isto é, descontado o efeito da inflação que “come” parte dos rendimentos nominais. E há ainda o Imposto de Renda sobre rendimentos e taxas de administração quando cabíveis.

Com a queda da Selic, e dados esses ônus adicionais, os rendimentos referenciados à taxa DI vêm decepcionando os investidores brasileiros, que por muitos anos contemplaram uma Selic muito elevada relativamente à inflação.    Mas, é preciso encarar essa nova realidade da Selic mais baixa, pois tudo indica que veio para ficar. E vale lembrar que esse é o padrão normal de uma economia. Ou seja, um em que as aplicações de curto prazo, com alta liquidez e baixo risco levam a ganhos que, se tanto, cobrem a taxa de inflação. Há também o mercado de títulos privados de renda fixa, que em geral rendem mais que os títulos públicos, considerados os de menor risco.

Um problema que mais tipicamente afeta o investidor brasileiro em renda fixa é que aqui a taxa de inflação é relativamente mais alta em termos internacionais. Assim, com a queda da Selic e a presença dessa inflação, 2012 foi marcado pela busca de maior proteção contra a inflação. Tal proteção existe mesmo para investidores com poucos recursos, pois há, por exemplo, papéis indexados ao IPCA mais uma taxa de juros, como títulos do Tesouro Nacional, do chamado Tesouro Direto, como o papel conhecido como NTN-B (Notas do Tesouro Nacional-Série B).

Há também fundos de renda fixa cuja rentabilidade não guarda relação direta com a Selic, constituídos de papéis públicos e privados com rentabilidade pré-fixada, às vezes com rendimento maior que a inflação.   E há também fundos com papéis indexados a um índice de preço e a uma taxa de juros, como a referida NTN-B.

Em 2012, de um modo geral esses papéis e fundos não referenciados à taxa Selic ou DI em média tiveram remuneração maior que os referenciados a essa taxa (11,34% no primeiro caso e 8,18% no segundo, conforme a Folha de S. Paulo de 29/12/2012).

Um fundo que se destacou em 2012 foi o BB Renda Fixa LP Índice de Preço 20 mil,  que rendeu 21,7% nos últimos 12 meses.  Mas, como a descrição do fundo esclarece, tem risco alto, pois seus papéis podem sofrer oscilações de preço. Em 2012 o preço subiu porque a busca de refúgio contra a inflação que fez aumentar a demanda desses papéis.

E na renda variável?
Essa observação final com relação aos fundos de renda fixa já indica também que nas circunstâncias atuais de menor Selic o investidor que pretender rendimentos maiores deve também aceitar que estão associados a maior risco.

Ora, esse maior risco é mais típico ainda na renda variável. Olhando as ações, não foi um bom ano para a Bolsa, cujo índice, o Ibovespa, cresceu 7,4%, mas oscilando em torno dos 60 mil pontos e distante dos 70 mil ou mais pontos que já teve no passado.

Vale observar que o desempenho da Bolsa depende mais do PIB. Se este cresce mais leva a maiores lucros para as empresas e seus acionistas.   Assim, se a economia de fato mostrar recuperação mais acentuada em 2013, é provável que a Bolsa tenha melhor desempenho. Já vi analistas a conjecturar sobre uma volta aos 70 mil pontos em 2013. Mas, quem apostar nisso deve estar consciente dos maiores riscos desse mercado.

Em síntese...
O momento é de transição para o investidor que estava focado numa Selic alta. Dado o menor rendimento nominal que ela passou a trazer, e a persistência de uma inflação alta que o corrói, a prioridade no momento é buscar proteção contra a inflação. Isto pode levar também a riscos maiores, exceto em títulos como as NTN-B se mantidos pelos seus adquirentes diretos até o vencimento, pois nesse caso não há que se preocupar com oscilações de preços do papel, como nos fundos que os mantêm em carteira.  Os riscos são ainda mais acentuados na Bolsa.  Assim, antes de sair em busca de alternativas, cabe ao investidor reexaminar seu perfil de risco para saber se está disposto a aceitar esses riscos sem maiores frustrações caso eles se materializem. 
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Roberto Macedo, CFP® (Certified Financial Planner), é economista formado pela USP com Mestrado e Doutorado na Universidade Harvard (EUA).  Foi Secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Fazenda e Planejamento, funcionário do Banco Central e do Banco do Brasil. E-mail: imprensa@bb.com.br. Este texto reflete a opinião do autor e não necessariamente a do BB; tem caráter apenas informativo, e não deve ser tomado como recomendação de subscrição, tomada de créditos, compra ou venda de ativos, decisões estas de responsabilidade exclusiva dos investidores.


A poupança como proteção a riscos - 17.12.2012
Os riscos que uma pessoa e sua família enfrentam são muitos. Felizmente, vários têm reduzida probabilidade de ocorrência.  Em qualquer caso, quando se materializam, alguns trazem danos econômicos que podem ser vultosos.

Este artigo trata de riscos e danos desse tipo. Cabe proteger-se deles, e o seguro é um instrumento importante, pois a combinação de baixa probabilidade de ocorrência individual com um grande número de pessoas buscando proteção reduz muito o seu custo para todos. Ou seja, todos os segurados pagam os custos de um pequeno grupo que sofre os danos ou sinistros, reduzindo os custos médios para o primeiro grupo.

Os seguros também podem ser considerados uma “poupança contingencial”, ou seja, é como se uma pessoa constituísse um fundo para a eventualidade ou contingência de um sinistro. Com o seguro, ela não precisa que essa poupança tenha um valor capaz de cobrir o custo total de eventuais perdas.  Assim, é como se alugasse essa proteção. O custo desse aluguel, ou seja, o prêmio que se paga pelo seguro, não é restituível. Ele irá compor as reservas da seguradora que assumiu os riscos, mais o que ela cobra por essa responsabilidade, o que envolve custos administrativos e seu lucro.

Assim, riscos específicos devem ser cobertos com seguros. Mas, como isso não alcança todos os risos e nem sempre a cobertura é adequada - como nos planos ou seguros de saúde que deixam fora alguns tratamentos -, a poupança e os investimentos pessoais ou familiares também devem ser vistos como uma forma de seguro.

No que se segue serão descritos vários tipos de risco e ressaltada a importância do patrimônio pessoal ou familiar na proteção contra eles.

Riscos são muitos
Um relatório do Banco Mundial classificou os riscos em três grupos, citados a seguir com alguns exemplos ilustrativos: individuais e familiares (doença, ferimento), grupais ou comunitários (epidemias e poluições diversas), e regionais ou nacionais (convulsão social, hiperinflação). Numa segunda classificação, os riscos foram agrupados conforme a origem: os da natureza (inundação), de saúde (doença e os que vêm com a velhice), sociais (crime, violência doméstica), econômicos (desemprego, quebra de safra), políticos (desordens, golpes de estado), e ambientais (poluição). (*)

Assim, risco é o que não falta. Intuitivamente fazemos uma avaliação da nossa proximidade deles, e buscamos uma proteção individual ou familiar, como no caso de um plano ou seguro de saúde, ou deixamos essa proteção para o governo ou para a sociedade como um todo, como no caso do Sistema Único de Saúde (SUS). Ou, ainda, os ignoramos ou desprezamos ao atribuir a riscos uma probabilidade nula de ocorrência. Ou, também, porque se ocorressem alguns deles não haveria o que fazer, como no caso de terremotos no Brasil, ou mesmo as previsões do fim de mundo, como a que foi anunciada para esta semana, mais precisamente no dia 21, atribuída ao povo Maia.

Da percepção à proteção e o papel da poupança
O que se recomenda é que a avaliação dos riscos deixe de ser intuitiva. Cabe ter conscientemente a percepção deles, bem como as atitudes de prevenção e de busca de proteção adequada pelo menos quanto aos mais sérios. E sem esquecer daqueles a que estão sujeitos nossos familiares.

Além da falta de percepção, muitas vezes as pessoas são pouco cuidadosas na prevenção, só a adotando após passar por experiências e riscos desagradáveis. Há o sábio ditado popular de que prevenir é melhor que remediar, mas na prática muitos não o seguem, o mesmo acontecendo quanto à busca de proteção.

Quanto a esta, os riscos afetam mais os segmentos mais pobres dada a sua carência de recursos para proteção. No Brasil, contudo, muita gente de classe média ou mesmo rica descuida da proteção, e enfrenta com dificuldades a realidade de vários riscos. E, de um modo geral, são muitos os idosos com problemas mais sérios para contornar adversidades nessa fase da vida. Moro numa região onde eles são muitos, e sei de casos de pessoas ricas que enfrentam dificuldades por falta de rendimentos adequados, pois o que têm é um patrimônio imobilizado, como um grande apartamento, do qual não querem sair para um menor, ou há herdeiros que às vezes dificultam essa mudança.

Um caso que frequentemente escapa à tríade PPP (percepção, prevenção e proteção) é o do seguro não obrigatório de automóveis, tanto do veículo como de danos pessoais, próprios ou alheios. Outro é o de pessoas que têm dependentes, usualmente cônjuge e filhos não adultos, e que não têm seguros de vida e de acidentes pessoais, seja de forma explícita ou por contarem com esquemas de aposentadoria por invalidez e de pensão por morte satisfatórios. Outra falha comum é a das muitas pessoas têm seus riscos de saúde cobertos apenas pelo sistema público, com seus maiores riscos de atendimento insatisfatório. Ou optam por planos de saúde privados, mas ignoram as limitações de sua cobertura, o que só é percebido quando o tratamento não coberto é buscado.

A poupança e o patrimônio como proteção
Precisamente por essas falhas na percepção e na prevenção de riscos específicos, e também de outros de alcance geral, cabe a proteção por meio de um patrimônio pessoal acumulado pelo hábito de poupar. E com alguns itens de liquidez imediata ou em pouco tempo, como não é o caso de imóveis como o citado acima no caso dos idosos.

Ou seja, deve-se dispor de patrimônio que combine ativos reais e financeiros, e estes últimos convenientemente aplicados, como em planos de remuneração futura, a exemplo dos de aposentadoria e pensão, ou de recebimento contingencial, como os de saúde. Sem esquecer, também, que os riscos econômicos afetam o próprio patrimônio, que precisa estar sempre protegido, como dos efeitos corrosivos da inflação e da desvalorização de imóveis em decorrência de sua má localização e/ou falta de manutenção.

Em síntese, os riscos existem, são muitos e cabe seguir a tríade PPP para administrá-los. Mas, mesmo seguindo essa tríade com proteções específicas, elas podem não se revelar suficientes em determinados casos.  Por isso, há que dispor de um patrimônio pessoal também como proteção de alcance mais amplo, o que mais uma vez ressalta a importância de poupar e investir parcela importante de nossos rendimentos, particularmente nas fases da vida onde temos maior capacidade de obtê-los.

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Roberto Macedo, CFP® (Certified Financial Planner), é economista formado pela USP com Mestrado e Doutorado na Universidade Harvard (EUA).  Foi Secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Fazenda e Planejamento, funcionário do Banco Central e do Banco do Brasil. E-mail: imprensa@bb.com.br. Este texto reflete a opinião do autor e não necessariamente a do BB; tem caráter apenas informativo, e não deve ser tomado como recomendação de subscrição, tomada de créditos, compra ou venda de ativos, decisões estas de responsabilidade exclusiva dos investidores.


Consumismo infantil e educação financeira - 10.12.2012
O Ministério do Meio Ambiente divulgou  uma cartilha intitulada Consumismo infantil: na contramão da sustentabilidade, que aborda problemas e riscos desse consumismo. É voltada para questões ecológicas, mais especificamente do desenvolvimento sustentável. Este, segundo a Wikepédia, é o  “desenvolvimento que procura satisfazer as necessidades da geração atual, sem comprometer a capacidade das gerações futuras de satisfazerem as suas próprias necessidades;  significa possibilitar que as pessoas, agora e no futuro, atinjam um nível satisfatório de desenvolvimento social e econômico e de realização humana e cultural, fazendo, ao mesmo tempo, um uso razoável dos recursos da terra e preservando as espécies e os habitats naturais.”

Metodologicamente, a cartilha procura recorrer a brincadeiras e outras formas de aprendizado atraentes para ensinar as crianças a que se destina. Também inferi do seu texto uma dimensão ligada à educação financeira, a qual também enseja ensinamentos, tanto para crianças como para seus pais.

No que se segue farei uma breve descrição da cartilha,  abordarei essa outra dimensão  e concluirei com informações sobre como acessá-la, inclusive para impressão e distribuição às crianças. Tem um conteúdo de apenas sete páginas.

1.  Do que trata a cartilha
Na linha do desenvolvimento sustentável, começa argumentando que o consumo deve respeitar os limites e períodos de regeneração dos recursos naturais além de reduzir a quantidade de lixo gerado.     E que o caminho desse desenvolvimento deve ser trilhado desde a infância.

Assim, “desde pequenas, as crianças devem ser instigadas a descobrir que cada uma de suas ações tem impacto no coletivo e que, no que diz respeito ao cuidado com o meio ambiente, isso não é diferente”.  E que se deve “reforçar a relação entre o consumo e o meio ambiente tratando do impacto de nossas escolhas no planeta e no dano que nosso atual modelo consumista já causou”. E continua a causar.

Hoje em dia as crianças têm mais poder na definição daquilo que consomem, pois recebem muitas informações externas à família, com as quais acabam influenciando aquilo que seus pais irão comprar. E com suas mesadas elas mesmas escolhem. Em qualquer caso,  há recurso frequente a produtos industrializados, como alimentos, que também levam à escola ou nesta são oferecidos. E há o bombardeio da mídia que enfatiza bens de consumo. E, acrescento, há também modismo, que traz a obsolescência precoce de itens como o vestuário. Assim, as crianças são instigadas ao consumismo, precisam ser orientadas para perceberem isso e os danos decorrentes dele.

A cartilha ressalta que as crianças brasileiras “estão entre as que mais assistem a televisão no mundo, com uma média impressionante de mais de 5 horas por dia, segundo o levantamento do IBOPE em  2011”. Outra pesquisa revelou que os fatores que mais influenciam o consumo de produtos infantis em geral são: 1) a publicidade na TV; 2) personagens famosos; 3) embalagens.

Passando as recomendações, mais ao final da cartilha são indicadas algumas delas a partir dos seguintes títulos: 1) “Vamos invadir as ruas de brincadeiras?”,  em particular para desligar um pouco a TV;  2) “Ganhou, doou!”, para que armários não fiquem cheio de coisas inúteis; 3) na mesma linha de preocupação com a TV, há o item “Desligue os botões, entre em contato com a natureza”, com a recomendação de  buscar praias, bosques, parques, trilhas, lagos e rios; 4) “Vamos tentar dar um final mais feliz para as embalagens?”, procurando reutilizá-las e também separá-las para reciclagem; 5) “Sabia que lanches mais saudáveis podem gerar menos lixo”,  pois produtos naturais não vêm em embalagens, além de serem mais saudáveis que os industrializados.
 
2. Educação ambiental e financeira
Duas recomendações adicionais me chamaram a atenção, pois têm também ingredientes de educação financeira. São elas:
1) “Eu quero ou eu preciso?” Esta é uma questão fundamental na gestão das finanças pessoais, pois muitas pessoas compram por impulso sem refletir bem quanto à necessidade do que se está comprando. Para evitar isto, a cartilha recomenda combinar antes o que será comprado quando se passar por um shopping ou supermercado. Isso está em consonância com o que recomendam especialistas em finanças pessoais, ou seja, não se deve deixar as crianças soltas em lugares como esses, pegando ou querendo isto ou aquilo por impulso, e se mostrando contrariadas quando não são atendidas. Muito corretamente, o texto também sugere fazer uma economia junto com os pais “para comprar algo que queremos muito ou escolher uma data bem especial para esse presente”.

2) “Trocar pode ser mais divertido do que comprar...”. O Brasil não tem uma tradição disso, mas certa vez visitei uma feira de trocas em Caruaru-PE. O texto fala que elas são mais comuns fora do Brasil, e recomenda que sejam tentadas aqui, inclusive nas escolas, com as crianças levando o que têm interesse em trocar. Evidentemente, é uma forma de economizar dinheiro, pois adquire-se uma coisa dispondo-se de outra,  sem recorrer a ele.

Essas duas recomendações podem ser entendidas como de educação financeira pois significam o uso mais consciente dos recursos que a família e a própria criança dispõem.  No fundo, essa educação consiste essencialmente em mostrar que o consumo mal planejado e não moderado compromete as finanças pessoais e familiares, pois acaba reduzindo aquela parte dos recursos que deve ser poupada e destinada a investimentos, como numa casa própria. Sem isso, não há como alcançar a prosperidade pessoal familiar ou nacional.

Assim, ao recomendar  moderação do consumo enfatizar questões como essa da troca, a cartilha também está, ainda que não explicitamente, caminhando nessa linha. Idealmente,  a importância de poupar e investir também deve ser explicitada desde a infância, mas mesmo sem focar também nisso a cartilha é muito útil, e deve ser levada às crianças, a seus professores e a seus pais.

3. Como acessar a cartilha
Para quem quiser conhecê-la melhor, e fazer com que as crianças de seu relacionamento tenham acesso ao texto, ele pode ser encontrado por meio do link:
http://www.mma.gov.br/publicacoes/responsabilidade-socioambiental/category/90-producao-e-consumo-sustentaveis.

A cartilha objeto deste artigo é a primeira publicação que aparece para acesso, e clicando-se o link Visualizar, logo abaixo e à direita, ela surge no formato pdf que pode ser gravado e/ou impresso.   
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Roberto Macedo, CFP® (Certified Financial Planner), é economista formado pela USP com Mestrado e Doutorado na Universidade Harvard (EUA).  Foi Secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Fazenda e Planejamento, funcionário do Banco Central e do Banco do Brasil. E-mail: imprensa@bb.com.br. Este texto reflete a opinião do autor e não necessariamente a do BB; tem caráter apenas informativo, e não deve ser tomado como recomendação de subscrição, tomada de créditos, compra ou venda de ativos, decisões estas de responsabilidade exclusiva dos investidores.


Dezembro: um mês de ajustes financeiros - 03.12.2012
Dezembro chegou e é um mês importante para o planejamento financeiro pessoal.   Há ações que se não tomadas neste mês poderão criar dificuldades futuras e, em alguns casos, até prejuízos financeiros. Vamos listar algumas dessas ações que estão entre as mais importantes.

1.  Como nas empresas, pensar num balanço patrimonial e de resultados
Quem lida com administração de empresas ou acompanha o desempenho de uma ou mais delas, sabe que nesta época do ano estão muito ocupadas em fechar o seu balanço anual, que envolve uma avaliação do seu patrimônio e dos resultados anuais em termos de lucros ou prejuízos. Como esses resultados são particularmente importantes, são também detalhados numa demonstração em separado, que lista as receitas, despesas e o resultado anual, este antes e depois da tributação pelo Imposto de Renda (IR).

Defendo a idéia de que nas suas linhas gerais esse procedimento deve ser realizado também pelas pessoas. Seu primeiro item seria um levantamento patrimonial, incluindo imóveis, participações empresariais, disponibilidades financeiras inclusive valores a receber, descontadas as dívidas e outras obrigações em aberto.  Na minha pregação, investimentos em educação e em proteção à saúde também devem ser tratados no sentido patrimonial.

O objetivo seria analisar como o patrimônio pessoal ou familiar evoluiu de um ano para outro. Se aumentou,  terá sido porque houve poupança e investimentos que levaram a esse acréscimo. Se caiu, seria lamentável, pois houve aquilo que os economistas chamam de “despoupança”, um sacrifício de patrimônio para cobrir despesas acima das receitas. Em finanças pessoais, isso só é considerado válido em circunstâncias excepcionais, como doenças ou acidentes, ou no caso de pessoas idosas, que estejam sacrificando patrimônio para manter ou melhorar suas condições de vida.  Afinal, um dos objetivos da poupança é o de atender necessidades como essa.

O segundo item seria o exame das receitas e despesas, bem como da diferença entre as duas, para assim examinar se resultado permitiu ou não um acréscimo de patrimônio. 

Para facilitar esse exercício, ele pode tomar como base a declaração do IR no formulário completo, pois este permite uma avaliação tanto patrimonial como de resultados. Voltaremos ao assunto mais perto da época em que essa declaração é feita, pois é outra oportunidade para realizar esse balanço anual.

Também é época de planejamento tributário
As empresas fazem regularmente esse planejamento, que equivale a um procedimento legal para pagar menos impostos. Ele também cabe às pessoas físicas e para isso dezembro é um mês importante, pois nele ainda é possível reduzir a carga tributária que será aferida na declaração do IR no ano seguinte.

Quanto a isso, usualmente se recomenda o investimento em fundos de previdência conhecidos como PGBL e VGBL.  Se o leitor ainda não conhece esses planos, deve procurar se informar com seu gerente de atendimento no BB, inclusive quanto às taxas cobradas, uma de administração e outra chamada de carregamento. De forma sintética, o PGBL é aberto a quem já paga INSS, e adequado a quem preenche o formulário completo do IR, no qual se permite deduzir até 12% dos rendimentos brutos para investimento nesse tipo de fundo.  A tributação fica adiada para a época do resgate, e incidirá tanto sobre os valores aportados como sobre seus rendimentos. Para auferir as vantagens fiscais do PGBL na declaração do IR de 2013 só valem as aplicações realizadas até o fim deste mês.

O VGBL é para quem é isento de IR ou usa o formulário simplificado, onde não cabem deduções específicas, e também para quem preenche o formulário completo e quer investir acima dos 12% citados.  No VGBL, o valor investido já passou pela tributação ou foi isento. E a tributação só será aplicada no resgate e apenas sobre os rendimentos auferidos no período de acumulação.

Se a pessoa aumentar suas aplicações num ou noutro plano, sua poupança agradecerá, e ambos podem ser feitos também em nome de dependentes. Em especial para os mais jovens, será também um bom exercício de educação financeira, pois poderão acompanhar a sua poupança pelos extratos de movimentação desses fundos.

Ainda quanto ao planejamento tributário em dezembro, eu pratico e recomendo outro procedimento para quem usa o formulário completo do IR, o de  aproveitar o mês para checapes, tratamentos dentários e coisas do tipo, pois tais despesas são dedutíveis do rendimento bruto e de forma integral. E sua realização em dezembro leva a um valor dedutível que em termos reais é o que menos cai de valor devido à inflação até a sua contagem na declaração do IR do ano seguinte.  Mas, cuidado com a comprovação, pois sei por experiência própria que particularmente em gastos de maior vulto a Receita Federal costuma pedir não só os recibos como alguma documentação adicional que comprove o efetivo pagamento, como cópias dos cheques depois de compensados, o que dá trabalho e toma tempo do contribuinte.  Depois disso, passei a fazer os pagamentos por transferências bancárias, cujo documento impresso serve como comprovante do efetivo pagamento.

Provisões para gastos do início de 2013
Há gente que se ilude com os maiores rendimentos no fim do ano, em virtude do 13º salário e de gratificações de desempenho funcional, entre outras fontes, ignorando que o início do ano seguinte vem com várias despesas extraordinárias, como as de matrícula escolar. Elas aumentam de valor de um ano para outro o mesmo acontecendo com as respectivas mensalidades. Também há o IPTU reajustado e o IPVA pode ser salgado. Os de carros usados caem de valor, mas sempre constituem um pagamento extraordinário, para o qual é preciso fazer uma provisão adequada. E há também o seguro de veículos, cuja conta poderá tardar, mas virá ao longo do ano.

E há outras provisões necessárias...
Mas que costumam ser negligenciadas, como reservas para imprevistos, e para o pagamento de um plano de saúde e de um seguro de vida e de acidentes pessoais. Um seguro desse tipo cabe principalmente para famílias cujos filhos ainda não chegaram à fase adulta, as quais não tenham assegurado um rendimento adequado se não se puder contar, temporária ou definitivamente, com a renda paterna ou materna.

E, finalmente, mas muito importante, se o balanço inicialmente recomendado mostrar que o hábito de poupar para prosperar não está solidamente arraigado, há que implantar esse hábito de forma definitiva. Se para isto a pessoa já tiver que começar com um fim de ano mais moderado nos gastos de consumo, em compensação ela irá vislumbrar anos novos financeiramente mais felizes.
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Roberto Macedo, CFP® (Certified Financial Planner), é economista formado pela USP com Mestrado e Doutorado na Universidade Harvard (EUA).  Foi Secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Fazenda e Planejamento, funcionário do Banco Central e do Banco do Brasil. E-mail: imprensa@bb.com.br. Este texto reflete a opinião do autor e não necessariamente a do BB; tem caráter apenas informativo, e não deve ser tomado como recomendação de subscrição, tomada de créditos, compra ou venda de ativos, decisões estas de responsabilidade exclusiva dos investidores.

Dicas para gastos de viagens - 26.11.2012
Com a chegada das festas de Natal e Ano Novo, mais o verão e as férias usuais nessa época, intensificam-se as viagens, que levam a gastos além dos triviais ao longo do ano. Nada contra. Afinal o dinheiro também deve servir às necessidades de lazer e de bom relacionamento entre familiares, entre outras às quais uma viagem pode atender.  

O brasileiro está viajando mais, em particular para o exterior.  Neste caso há estatísticas, como as que vieram do Banco Central(BC) na semana passada. Até outubro deste ano, revelaram que as despesas de viajantes brasileiros foram de US$18,4 bilhões (!), um novo recorde. Devem superar US$ 21 bilhões até o final do ano.

Mas, é preciso que os gastos sejam feitos com cuidado tanto no seu valor como para tirar o maior proveito possível deles. Isto, para que as viagens sejam avaliadas não apenas pela satisfação pessoal que trazem por si mesmas, mas também por não deixarem más lembranças pelo seu lado financeiro.

Para apresentar dicas sobre o assunto, é preciso definir o contexto em que a viagem será realizada, pois as alternativas são muitas. Assim, vou ficar no caso de uma viagem de lazer, por via aérea, para o exterior e com hospedagem em hotel.  Como freqüento aeroportos e aviões, sei de muita gente nessas condições. E vejo isso também no âmbito da família, de amigos e de outros conhecidos.

Pacotes turísticos têm as suas vantagens, mas ...
Se possível, cabe escolher dentro deles só as partes mais interessantes. As tarifas aéreas e diárias de hotel são bem mais baratas quando são de um pacote, pois para grupos de pessoas as agências obtêm preços com descontos, tanto nos das passagens como nos dos hotéis. Mesmo assim, é sempre bom comparar o preço de um pacote entre agências e com os de empresas aéreas e pelos hotéis em casos individuais.

Toda essa comparação será facilitada se a viagem for planejada com antecedência e da mesma forma definidas e contratadas as despesas mais importantes. Reservas de última hora costumam sair mais caras.  E é menos arriscado fechar com uma agência que tenha grande experiência e boas referências, como as que obtemos com amigos e outras pessoas de nosso relacionamento.

Os pacotes também costumam incluir traslados aeroporto-hotel-aeroporto, por “vans” ou ônibus, e mais baratos que taxis.  Mas, no local de destino talvez seja preciso recorrer a estes, e é importante conhecer o sistema adotado em cada caso, se por taxímetro ou preço combinado. Nunca se deve tomar taxis e outros veículos oferecidos por pessoas que abordam passageiros quando estes chegam. Há o risco de problemas de preços e de segurança pessoal. Cabe buscar apenas os credenciados e no ponto de onde saem.  Se não há traslados, outra alternativa é o ônibus até o centro da cidade e a partir daí o táxi até o hotel.

As excursões nos pontos de destino
É nessas excursões que já tive os maiores problemas com pacotes turísticos. Por essa razão, em geral costumo optar por só uma no primeiro dia, do tipo conhecido em inglês como sightseeing que dá um giro pela cidade de destino, passando pelos pontos de interesse, mas sem parar neles, ou gastando pouco tempo numa parada. Servem para identificar pontos para um retorno posterior conforme a conveniência pessoal.  E usualmente é possível comprar localmente excursões apenas para esses pontos.

Fazendo todas as excursões em grupo, problemas costumam aparecer. Há gente que se atrasa na saída dos hotéis e nas paradas, entre outros inconvenientes, e numa viagem o tempo é precioso. E, no caso de compras, guias costumam levar apenas às lojas em que recebem comissões.  Os mesmos problemas podem ocorrer também nas refeições em grupo. Por isso, ao adquirir um pacote costumo ficar apenas nas passagens aéreas, no hotel e nos traslados aeroporto-hotel-aeroporto, fazendo os passeios locais por conta própria.

Compras?  Há outras variáveis além das pechinchas
Essas variáveis são tão mais importantes quanto maior for o objetivo de compras. Por exemplo, sei de pessoas que andam viajando só para compras no exterior, até de enxovais, como para bebês que virão.  E se gabam das pechinchas que conseguem. De fato, particularmente nos EUA os preços são muito atrativos. Mas, é preciso incluir o custo da viagem na avaliação de preços. E, vale repetir,  essa inclusão será tão mais importante quanto maior for a preponderância do objetivo de comprar.

Taxa de câmbio
Olhando a situação do momento, na semana passada soube que o Banco Central interveio no mercado quando o dólar ameaçou chegar próximo de R$2,10.  Tudo indica que o governo está mirando algo dentro da faixa que tem esse teto e R$2,00 como piso.  Mas, sempre há incertezas. E no passado de grandes oscilações da taxa já peguei um grande e inesperado aumento que trouxe aborrecimentos, pois usei o cartão de crédito e ele veio depois dos gastos em dólar e antes do pagamento em reais.

Por isso, hoje defino o que vou gastar na viagem, compro a moeda estrangeira antes de sair, um pouco em espécie e o restante usando um desses cartões em que se paga um montante antecipado, o cartão fica “carregado” por ele, e pode-se gastar até o limite desse valor.  É um substituto dos antigos cheques de viagem e seu uso vem se expandindo, o que é sinal da sua conveniência.

Presentinhos e aquisições solicitadas por parentes e amigos
Os primeiros devem fazer jus ao sufixo “inho”, tanto em tamanho, como peso e preço. As segundas devem ser evitadas ao máximo, pois tomam tempo, espaço na bagagem, e envolvem a responsabilidade de transportar sem danos.  Tem gente que divulga que vai viajar e pergunta: “Você quer que eu traga alguma coisa de lá?”. Acho melhor o silêncio, em particular quanto a esse tipo de pergunta.

Em síntese...
Como qualquer bem ou serviço, a viagem tem custos e benefícios, só que mais difíceis de analisar previamente. Há sempre um grau de incerteza quanto ao que virá de fato na viagem. Assim, a busca de informações prévias é crucial para reduzir custos e/ou ampliar benefícios. Sempre há opções. Viaje por elas antes de embarcar.
Quando partimos, recebemos votos de boa viagem. Será boa mesmo se, ao voltar e tudo ponderado, pudermos dizer a nós mesmos: foi ótima!  Isto, pelo que de bom ela trouxe, e não pelo que levou de dinheiro a mais para chegar a tanto, ou mesmo para trazer arrependimentos.
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Roberto Macedo, CFP® (Certified Financial Planner), é economista formado pela USP com Mestrado e Doutorado na Universidade Harvard (EUA).  Foi Secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Fazenda e Planejamento, funcionário do Banco Central e do Banco do Brasil. E-mail: imprensa@bb.com.br. Este texto reflete a opinião do autor e não necessariamente a do BB; tem caráter apenas informativo, e não deve ser tomado como recomendação de subscrição, tomada de créditos, compra ou venda de ativos, decisões estas de responsabilidade exclusiva dos investidores.

O investimento em saúde - 19.11.2012
A análise econômica tradicional sempre enfatizou o capital no sentido de dinheiro, investimentos financeiros e os chamados ativos reais, como imóveis, e outro aspecto do capital é que ele é capaz de produzir rendimentos. Avançando essa visão do capital, em meados do século passado surgiu o conceito de capital humano.

Nele o ser humano é visto como um detentor de um capital intrínseco à sua pessoa e capaz de produzir bens e serviços, bem como rendimentos de seu trabalho, manual e intelectual.  Veio também a visão de que o capital humano pode ser ampliado, via educação no sentido amplo, incluindo treinamento profissional e acumulação de conhecimentos científicos e tecnológicos. Esse capital também deprecia se não  houver cuidados com sua manutenção como, por exemplo, mediante educação continuada.

A saúde também é parte integrante do capital humano, e cabe mantê-la e fortalecê-la. Contudo, talvez pela obviedade dessa percepção quanto à saúde, na literatura econômica ela é menos enfatizada do que a educação.  Mas, parece que essa obviedade não tem percepção generalizada, pois há muita gente que não cuida bem da saúde, inclusive comprometendo-a com maus hábitos como o sedentarismo, além de vícios diversos, como fumo, o alcoolismo e drogas.

Dadas essas percepções, minha pregação de boas práticas financeiras sempre ressalta a necessidade de investir em educação e saúde.  E mais: a ausência desse cuidado pode prejudicar a ampliação da capacidade de produzir rendimentos, ou mesmo reduzi-la.  E, em particular no caso da saúde, levar a despesas que comprometam a poupança e outros investimentos, já realizados ou por realizar.

No que se segue serão abordados outros aspectos do investimento em saúde.

O investimento em saúde
Para investir em saúde é necessário poupar recursos específicos para essa finalidade, ou que esses recursos venham de outras fontes. O primeiro passo é ter a percepção dessa necessidade e da prioridade de atendê-la, pois há quem coloque em primeiro plano a saúde ou vitalidade da poupança financeira e de outros investimentos.

Segue-se uma lista de cuidados ligados ao investimento em saúde.
1. Fazer periodicamente um checkup da saúde – Assim como uma pessoa acompanha o saldo de suas aplicações financeiras e outros componentes de seu patrimônio econômico, é preciso fazer o mesmo com a saúde de seu capital humano. Um checape de saúde periódico tem como objetivo principal o de eventualmente identificar problemas nos seus estágios iniciais, o que facilita o tratamento. Quando mais graves, os riscos que trazem são maiores, e o tratamento tem custo mais alto. Se  identificados problemas, não postergar o tratamento, pois isso também aumenta riscos e custos. E há um incentivo fiscal para o checape, já que seu custo é dedutível da renda tributável na declaração anual do Imposto de Renda (IR). Quanto a esse incentivo, esta época do ano é particularmente adequada para checape, pois o gasto estará mais próximo da época de dedução, dado que o prazo de entrega da declaração é abril do ano seguinte.

2. Mas, e os recursos próprios para investir em saúde? A necessidade deles depende do que se pode contar de outros recursos, em particular os providos pelo setor público. Quanto a isso, apesar de seus avanços, em geral o Sistema Único de Saúde (SUS) ainda não provê um atendimento rápido e satisfatório para todos que o procuram. Não sem razão, quem tem recursos usualmente recorre a um plano de saúde provido por empresas privadas e organizações não-governamentais, tema que será abordado no item seguinte. Mas, tampouco cabe desprezar o SUS. Cada pessoa deve examinar a disponibilidade e a qualidade dele para si e sua família na localidade onde vive, visitar hospitais, postos de saúde e outros locais de seu atendimento, e fazer perguntas a quem passa ou passou por ele, bem como buscar informações entre amigos e outras pessoas. É nesse “boca a boca” que se conseguem muitas informações. E há também o fornecimento gratuito de alguns medicamentos.  Recentemente, em alguns locais por onde circulo, soube de alguns casos de atendimento de boa qualidade pelo SUS, inclusive em zona rural.

3. A importância de um plano de saúde  - Como já foi dito, quem pode custear um desses planos, em geral faz essa opção. Ela equivale a realizar  um investimento a cujos recursos se pode recorrer em caso de necessidade. Mas, nem todos os planos fornecem atenção de boa qualidade e a um custo razoável. Novamente é preciso recorrer a informações das mais variadas fontes, entre elas o já referido “boca a boca”. Sei que mesmo um plano que cobre várias cidades e regiões pode apresentar atendimento cuja qualidade varia entre elas.

4. Cuidar de si mesmo -  Esse cuidado é o que custa menos em termos de dinheiro, mas exige muito de esforço pessoal, pois a negligência com relação a ele é comum.  Além de custar menos, pode até significar poupança, pois alguns cuidados exigem restrições ao consumo exagerado de alimentos e de bebidas, que implicam em gastos, juntamente com os que vão para vícios como fumo e uso de drogas.  Nesses cuidados, há muitas questões a abordar, e vou me concentrar em duas fundamentais, o sedentarismo e a obesidade, cuja importância foi ressaltada em matéria recente, publicada pelo jornal O Estado de S. Paulo, em 2/11/12.  Segundo essa notícia, um estudo internacional, em que um dos co-responsáveis foi um instituto de medicina esportiva dos EUA, mostrou que no Brasil os níveis de atividade física caíram 6% num período de apenas  cinco anos, de 2002 a 2007. E que numa previsão para o período de 2001 a 2018 a queda será de 34%. Especialistas brasileiros comentaram o estudo. Um, da Sociedade Brasileira de Cardiologia, disse que a associação do sedentarismo com a obesidade é o fator mais preocupante. E observou que 49% dos brasileiros são sedentários, e que 64% estão com excesso de peso. E, para  animar quem está nesse conjunto a sair dele,  disse que quem deixa a situação de sedentário para pouco ativo (com 30 minutos de exercícios em cinco dias da semana), reduz em 66% o risco cardiovascular. Assim, também é preciso poupar tempo para investir na própria saúde.

Em síntese...
Hoje as pessoas passaram a ter uma expectativa de vida maior que seus pais, em larga medida devido aos avanços da medicina, da melhor alimentação e das condições de saneamento.  Mas, ao mesmo tempo, passaram a ser mais sedentárias em função de comodidades que vieram com o progresso material, como o automóvel que reduz a necessidade de caminhar.  Segundo o mesmo estudo, há o risco de que gerações futuras poderão viver menos que seus pais dados os riscos associados ao sedentarismo. O que de novo demonstra que não tem sentido buscar a prosperidade econômico-financeira e o conforto material e, ao mesmo tempo, descuidar da própria pessoa, o patrimônio maior de um ser humano. 
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Roberto Macedo, CFP® (Certified Financial Planner), é economista formado pela USP com Mestrado e Doutorado na Universidade Harvard (EUA).  Foi Secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Fazenda e Planejamento, funcionário do Banco Central e do Banco do Brasil. E-mail: imprensa@bb.com.br. Este texto reflete a opinião do autor e não necessariamente a do BB; tem caráter apenas informativo, e não deve ser tomado como recomendação de subscrição, tomada de créditos, compra ou venda de ativos, decisões estas de responsabilidade exclusiva dos investidores.




A importância de ter casa própria - 12.11.2012
Defendo a idéia de que ter um imóvel residencial é um investimento prioritário, mas há quem pense o contrário. Em particular jovens que atuam no mercado financeiro,  e que acreditam ser melhor juntar dinheiro, obter rendimentos dele e fazê-lo crescer. E, enquanto isso, pagar aluguel ficando a aquisição da casa para depois.

Vou argumentar que essa alternativa é arriscada, e não serve para a maioria das pessoas. Abordarei também a minoria que pode ter sucesso nessa outra linha, suas características e condições em que esse sucesso pode ocorrer.

As vantagens de ter casa própria
Desde o tempo das cavernas ou outras habitações precárias, e ainda nos seus estágios primitivos, o ser humano sempre procurou um abrigo onde pudesse se proteger, preparar e guardar alimentos, dormir e atender a outras necessidades ligadas à sua sobrevivência.  E a melhoria das condições habitacionais foi também um elemento importante na evolução da humanidade.

Mas, passando ao mundo moderno, que tem como um dos traços mais importantes o desenvolvimento dos mercados, uma pessoa pode optar por adquirir sua casa ou outro tipo de habitação própria. Ou, então, deixar de fazer isso, e pagar aluguel pelo uso de uma habitação de propriedade alheia.

Ora, creio que a maioria das pessoas que paga aluguel faz isso porque ainda não teve condições de adquirir seu próprio imóvel. Ou, então, teve essas condições, mas não soube aproveitá-las. Quem paga aluguel mesmo podendo adquirir um imóvel, e deixa de comprar por uma razão justificável, deve ser mesmo um grupo minoritário. Isso já indica que o desejo de ter um imóvel é uma vontade que predomina entre a população.  Não sei de pesquisas sobre isso, mas entre as pessoas com quem convivo ou convivi no passado essa vontade sempre predominou.

E há boas razões para isso, algumas até não percebidas explicitamente por quem cultiva essa idéia.  E são tantas que vou citar várias, mas sinteticamente, como segue.
1) a propriedade de um imóvel residencial dá sensação de segurança econômica, e é um ingrediente importante do bem-estar de quem o possui e de sua família;
2) esse imóvel não fica imobilizado em termos de rendimento, pois o produz na forma do aluguel que se deixou de pagar. E pela valorização do imóvel quando ocorre, e também pelo fato de que ele se constitui numa proteção contra a deterioração de dinheiro diante do efeito da inflação; por isso mesmo, na aquisição de um imóvel é importantíssimo considerar as perspectivas de valorização ou não do imóvel em decorrência de sua localização, qualidade da construção e outros aspectos;
3) para as pessoas de menor poder aquisitivo e/ou com dificuldades de obter financiamentos imobiliários, quando é uma casa o imóvel pode ser adquirido progressivamente, a partir do lote, seguido de uma construção inicial, sua ampliação e sucessivas reformas, um procedimento comum nas zonas periféricas dos grandes centros urbanos, como percebo em São Paulo e constatei em outras cidades em que vivi;
4) a propriedade de um imóvel melhora as condições pessoais de acesso ao crédito para as mais variadas finalidades, dada a garantia que significa para quem o concede; melhora também a condição de seu proprietário como avalista ou fiador, mas vale a advertência de que tanto ao tomar crédito como ao avalizar ou afiançar, tudo deve ser feito com extremo cuidado para evitar o risco de perda do imóvel;
5) fechando essa lista de vantagens, destaco uma muito importante que sempre integra minha lista de recomendações para a prosperidade econômico- financeira pessoal e familiar: a aquisição de imóveis no processo seqüencial citado e, em qualquer caso, mediante financiamento, estimula a poupança para quitá-lo; com isso, há um efetivo compromisso com o ato de poupar e investir, pois quem adquire um imóvel dessa forma é levado a separar dinheiro para pagá-lo; ademais, a necessidade de fazê-lo impede que esse dinheiro vá para gastos de consumo, impondo assim uma eficaz disciplina orçamentária.
Minha experiência pessoal seguiu essa idéia de, ao lado da educação,  priorizar a aquisição da casa própria, e fiz isso aos 19 anos, dando uma pequena entrada para adquirir uma quitinete cuja construção estava por começar, com financiamento da própria construtora. Era uma época de inflação, houve reajustes imprevistos do valor das prestações e a construção se atrasou. Mas, foi uma experiência valiosa, em particular pelo que me impôs de disciplina para poupar. E, depois que me mudei para o imóvel, deixei de pagar aluguel, passando a poupar mais. Em poucos anos, vendi a quitinete e mudei-me para um imóvel maior, e assim sucessivamente.

A alternativa de deixar para depois
Avançando nessa linha que segui inicialmente, depois passei a investimentos em renda fixa, e só posteriormente aos de maior risco, como as ações, não me arrependendo dessa sequência.
Mas, convivendo com estudantes de curso superior nas áreas de economia e administração que depois encontram ocupações no mercado financeiro, no qual conheço também outros profissionais,  várias vezes encontro quem defenda um caminho inverso, começando pelos investimentos de maior risco. Creio que em parte isso se justifica porque várias dessas pessoas têm a proteção de suas famílias e a perspectiva de herdar recursos na forma de um imóvel próprio ou outros que permitam adquiri-lo.  Mas, há aqueles que mesmo sem essa origem acreditam na possibilidade de que os investimentos que realizaram trarão um retorno mais que compensador dessas vantagens da aquisição da casa própria, a qual, assim, ficaria para depois.

Mas, note-se que são pessoas intrinsecamente ligadas ao mercado, conhecem mais de perto as alternativas de investimentos, não são assalariados típicos, recebendo também bônus que semestralmente seus empregadores distribuem por desempenho na gestão de recursos de terceiros.

Também entendo que pessoas que trabalhem em atividades empresariais e serviços profissionais que exigem investimentos, como consultórios médicos e odontológicos, estão corretas em primeiro investir dinheiro para expandir essas atividades em lugar de imobilizar recursos em imóveis. Portanto, é preciso avaliar caso a caso, e vários deles podem levar a essa conclusão.

Mas, para o cidadão comum que vive de salário, e não ligado a oportunidades como essas e outras, a prioridade da casa própria está consagrada pela própria preferência revelada pela população, não só aqui como internacionalmente, como pude verificar nos demais países em que vivi e pelo que também já li sobre o assunto.
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Roberto Macedo, CFP® (Certified Financial Planner), é economista formado pela USP com Mestrado e Doutorado na Universidade Harvard (EUA).  Foi Secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Fazenda e Planejamento, funcionário do Banco Central e do Banco do Brasil. E-mail: imprensa@bb.com.br. Este texto reflete a opinião do autor e não necessariamente a do BB; tem caráter apenas informativo, e não deve ser tomado como recomendação de subscrição, tomada de créditos, compra ou venda de ativos, decisões estas de responsabilidade exclusiva dos investidores.




O investidor e a defesa contra a inflação - 05/11/2012


Entre as aplicações financeiras de maior interesse dos investidores, as de renda fixa passam hoje por uma fase de transição, com a acentuada queda da Selic.  Até a poupança teve sua tradicional remuneração de 6,17% ao ano, mais TR, reduzida para novos depósitos.  Quanto às ações, o compasso é de espera para ver como fica, pois a Bovespa vive há tempos uma fase ruim, sonhando com um avanço além dos 60 mil pontos que mais à frente a levasse aos 70 mil pontos, barreira já superada no passado.  Há meses chega aos 60 mil, ou mesmo um pouco mais, e recua, como no mês passado.

Como fica o investidor nesse cenário?  Responderei baseado em dados do Brasil e informações dos EUA. Em larga medida vêm de lá as teorizações e evidências empíricas que servem de parâmetros para investidores de qualquer nacionalidade, sempre preocupados com a liquidez, o rendimento e o risco de seus investimentos.

No Brasil sempre houve uma preocupação adicional, a defesa contra a inflação. Embora o Plano Real a tenha trazido para níveis civilizados, ela ainda é bem superior à de países desenvolvidos. Ademais, vive uma fase de aumento. Assim, examinarei se essa defesa vem sendo bem sucedida.

Rendimentos no Brasil: uma visão do ano até outubro de 2012
Para esse mês e esse período, a tabela abaixo mostra rendimentos brutos de aplicações em renda fixa e em ações, neste caso medidas pela evolução do Ibovespa. Para fins de comparação mostra também a Selic, o parâmetro dos papéis referenciados aos Certificados de Depósito Interbancário, conhecidos como DI. E também o IPCA, um índice de preços ao consumidor usado pelo Banco Central como medida oficial da inflação. Especificamente, o IPCA-15, já disponível para outubro, pois que avaliado até a metade de cada mês.

Rendimentos brutos das aplicações abaixo, Selic e IPCA-15 - Em 10/02 e em 12 meses  – Em %

Investimentos e IPCA-15
Em outubro
Em 12 meses
Poupança antiga
0,50
6,64
Poupança nova
0,4134Não se aplica
Fundos DI
0,537,34
Fundos Renda Fixa
0,79
9,59
CDBs0,58
9,10
Ibovespa-3,50-2,18
Selic0,619,14; No fim do mês, a.a, 7,25
IPCA-150,655,56

Fontes: IBGE e tabelas do jornal Valor Econômico, edição de 1/11/12.

Antes de prosseguir, deve ser observado que a inflação de 0,65% medida pelo IPCA-15 em outubro esteve bem acima das taxas que vinham sendo observadas, mesmo de uma inflação em alta. Com base nessa taxa, verifica-se que todas as aplicações, com exceção dos Fundos de Renda Fixa, teriam perdido para ela em termos brutos, sem contar taxas de administração e Imposto de Renda (IR) quando aplicáveis.  Tomando-se a taxa média mensal (0,45%) que levou à inflação de 12 meses mostrada pela tabela (5,56%),  observa-se que ela foi um pouco inferior à da poupança antiga, que hoje vem tendo TR nula. Já a poupança nova claramente perdeu dessa inflação média mensal.

Nas demais aplicações em renda fixa, destacam-se como ganhadores dessa inflação os Fundos de Renda Fixa, provavelmente porque costumam ter papéis indexados à própria inflação que também devem ter subido de preço com o aumento desta.  Os demais componentes desse grupo superam um pouco a referida inflação média, mas deve ser lembrado que sofrem também a tributação do IR e no caso dos fundos há taxas de administração.  A Bolsa teve resultado ruim conforme o padrão citado no início deste artigo, seja em base mensal ou em 12 meses.

Nos demais resultados deste último tipo, no qual a volatilidade das taxas mensais tem impacto muito menor, e onde pequenas diferenças entre taxas mensais de rendimentos e de inflação se acumulam, de um modo geral os rendimentos superam mais claramente a inflação, inclusive os da poupança, os quais não têm taxa de administração e não sofrem a incidência do IR  no caso das pessoas físicas e das jurídicas sem fins lucrativos.  Com esta incidência e aquela taxa, no caso dos fundos, e sem a mesma taxa no caso dos CDBs, esse ganho nominal fica bem menor ou poderá deixar de existir dependendo das taxas desses encargos. Vale também lembrar que os levantamentos da tabela costumam supor que os rendimentos ficam próximos de 100% quando DI referenciados, o que só vale para aplicações de maior porte.

Em resumo, fica claro que na situação atual há a dificuldade de os rendimentos de aplicações em renda fixa ganharem da inflação, dificuldade essa mais acentuada no caso dos rendimentos líquidos. A razão básica é que rompeu-se um histórico em que predominavam taxas Selic bem mais altas que a atual, e mesmo os rendimentos líquidos a superavam.  Houve também anos que mesmo a poupança antiga, rendendo 6,17 ao ano mais TR, superou claramente a taxa de inflação, como quando esta ficou abaixo de 4% ao ano.

A experiência dos EUA
Ao lado das características já apontadas de seu mercado financeiro, dois aspectos sintetizam essa experiência: 1) num mercado em que há maior participação de papéis privados que no Brasil, os rendimentos nominais de fundos de renda fixa são menores que os do mercado brasileiro hoje, mas costumam superar por pequena margem a inflação no país, onde é comum que as contas de poupança tenham dificuldade de vencê-la; 2) o padrão usual do mercado é um em que os investimentos de maior risco como as ações e as atividades empresariais em geral, avaliados em períodos longos, batem a inflação e também os rendimentos em renda fixa.

Em conclusão...
Esse padrão dos EUA é internacionalmente considerado o normal de um mercado financeiro.  Por décadas, o Brasil esteve fora desse padrão e com a queda da Selic desde agosto de 2011 deu passos importantes na direção de alcançá-lo.

Supondo que esse padrão se consolide em caráter definitivo, e já começando na fase de transição atual, o investidor brasileiro terá que se acostumar a ele.  Ou seja, o de que as aplicações em renda fixa dão um rendimento menor condizente com sua maior liquidez e menor risco, e nem todas sempre cobrindo a taxa de inflação.  Com isso, quem quiser rendimentos maiores terá que buscar investimentos de maior risco. E se o Brasil caminhar para uma situação de crescimento sustentado capaz de assegurar bons rendimentos para as ações em geral, estas se revelarão uma alternativa mais consolidada.  Mas há outras que também podem se revelar atraentes, como imóveis e empreendimentos empresariais de iniciativa própria dos investidores.

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Roberto Macedo, CFP® (Certified Financial Planner®) e economista formado pela USP com Mestrado e Doutorado pela Universidade Harvard (EUA), é pesquisador da FIPE-USP.  Foi Secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Fazenda e Planejamento, funcionário do Banco Central e do Banco do Brasil.  E-mail: imprensa@bb.com.br. Este texto reflete a opinião do autor e não necessariamente a do BB; tem caráter apenas informativo e não deve ser tomado como recomendação de subscrição, compra ou venda de ativos, decisões estas de responsabilidade exclusiva dos investidores. 


Dicas para gastar e poupar com o 13º salário - 29.10.2012
O 13º salário completa 50 anos neste ano, instituído que foi pela Lei nº 4.090, de 13/7/1962. Até aqui não vi nenhuma comemoração desse cinqüentenário, mas todo ano a chegada do 13º, como é conhecido, é comemorada por todos que o recebem.

E são muitos, dezenas de milhões, pois ele alcança todos os trabalhadores formalmente assalariados, mais aposentados e pensionistas, na forma de um ganho adicional correspondente ao valor do rendimento mensal que recebem normalmente.

Conforme o Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos (DIEESE), cerca de 80 milhões de brasileiros receberão o 13º em 2012. O valor total atingirá R$131 bilhões, uma enormidade.  Para os 47,4 milhões de trabalhadores do  setor formal da economia, o valor médio do 13º será de R$ 1.926,00.  Para o total de beneficiados, esse valor  deve ser um pouco menor, pois no restante deles predominam aposentados,  pensionistas e outros que recebem benefícios mensais do INSS, que na maioria são de um salário-mínimo por mês.

Para quem recebe do INSS, metade do 13º veio em setembro. Entre os demais, há também quem já recebeu uma parte com as férias, mas a maioria dos trabalhadores ativos deve receber o pagamento em duas parcelas, uma em novembro e outra em dezembro, as quais respondem pela maior parte dos R$131 bilhões acima citados.

Portanto, é hora de pensar e agir sobre o que fazer com esse dinheiro extra. E tanto quem já pensou e quem ainda vai pensar precisam verificar se seus planos seguem os caminhos da boa gestão das finanças pessoais. Com isto em mente, apresento algumas dicas para quem quiser segui-los, sempre dentro da minha pregação habitual que enfatiza a necessidade de poupar e de investir, sem o que não há prosperidade pessoal, familiar, comunitária ou nacional.

1.   Tratar o 13º como um dinheiro extra, para finalidades específicas
Ele deve ser tratado diferentemente dos 12  salários que vêm mensalmente, e já comprometidos com gastos usuais como os de habitação, alimentação e cuidados pessoais, entre outros, junto o dinheiro que também mensalmente deve ser destinado à poupança e a investimentos. Não se deve esquecer essa prática habitual, pois o 13º é mais uma e não a única oportunidade de poupar.  De qualquer forma, ele pode ser usado com maior flexibilidade, e é importante fazer bom uso dela.

2. Reduzir ou eliminar dívidas
Em geral, são mais caras as contraídas mediante cartões de crédito, cheques especiais e crédito ao consumidor oferecido pelas lojas. Depois vem o crédito pessoal. De custo mais baixo são as de crédito consignado e de financiamentos imobiliários.  Uma regra geral é a de escolher para liquidação total ou parcial as dívidas com juros e outros encargos superiores aos rendimentos que seria possível obter com investimentos financeiros realizáveis com o dinheiro do 13º.  Nas condições do mercado financeiro atual, essa regra aponta para a conveniência de liquidar total ou parcialmente qualquer dívida, mas sempre começando pelas de custos mais elevados.

Contudo, não vejo recomendável fazer isso com a dívida decorrente de financiamento imobiliário, a menos que suas prestações estejam pesando muito mensalmente. É uma dívida de longo prazo, seus custos financeiros estão entre os mais baixos, e no curto e médio prazo outras prioridades costumam se recomendar, como a que vem em seguida, inclusive porque algumas delas constituem prioridades que não se medem apenas por custos financeiros.

3. Investimentos pessoais e familiares indispensáveis, mas adiados
Há quem negligencie investimentos indispensáveis à saúde pessoal e também de aprimoramento educacional.  São investimentos porque os economistas veem as pessoas como que dotadas de um capital produtivo, intrínseco à sua condição humana, que exige investimentos para ampliação e manutenção.  Um tratamento dentário necessário e um curso para aprimorar a capacidade profissional se incluem entre esses investimentos.

4. Guardar para gastos específicos de inicio do ano
Esse início é marcado por despesas típicas, como o pagamento de IPTU e IPVA. E ainda, de material escolar e outras despesas de pessoas da família que estão passando pelo sistema de ensino.  Tais despesas costumam sobrecarregar os gastos nessa época do ano, e é conveniente fazer uma provisão adequada para a sua realização.

5. Poupar, poupar, poupar!
Uma parte do 13º, a maior possível, em particular para pessoas mais jovens e casais com filhos ainda pequenos, deve ser reservada à poupança e suas várias finalidades.  Citamos pessoas nessas condições porque pela minha experiência elas têm mais condições de poupar. Quando os filhos chegam à adolescência, suas “necessidades” -  entre aspas porque algumas não são de fato necessárias -, se multiplicam, e seus pais passam a ter maiores dificuldades de poupar. 

Nos seus estágios iniciais os caminhos da poupança de um assalariado típico sem heranças familiares costumam passar pela caderneta de poupança, em seguida pelos fundos de renda fixa e CDBs. Depois vêm os investimentos de maior risco, como as ações. Quanto ao que fazer com recursos assim aplicados e outros disponíveis, a linha que segui foi a de ter casa própria e de sempre ter planos de saúde e de aposentadoria adequados. Quem não tem esses planos garantidos no seu próprio emprego deve pensar em si e na família, e ter também seguro de vida e um plano de previdência complementar adequados. É também indispensável ter uma reserva líquida, aplicada em renda fixa, para eventualidades.

6. Consumir um pouco mais no final e na virada do  ano não é pecado
Neste caso, são típicas as pressões de gastos ligados ao Natal, às festividades do Ano Novo e às férias de verão.  A adequada gestão das finanças pessoais não critica essas despesas, mas insiste na sua moderação de tal forma que não se sacrifique o objetivo maior de seguir construindo um patrimônio como fundamento da prosperidade pessoal e familiar. Tome-se o caso dos presentes natalinos, por exemplo.  Não há por que não dá-los, mas sem exageros. Hoje há inúmeras alternativas que permitem encontrar algo interessante de boa qualidade a preço razoável.  Em particular, carece de sentido se endividar para presentear.

Financeiramente, o melhor presente deve ser para si mesmo. Ou seja, as prioridades devem ser presentear-se poupando para investir, e evitar desperdícios e dívidas decorrentes de extravagâncias consumistas. Quem seguir por esse caminho verá realizados, hoje e no futuro,  os votos de Boas Festas formulados por parentes e amigos.   
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Roberto Macedo, CFPTM (Certified Financial PlannerTM) é economista formado pela USP com Mestrado e Doutorado pela Universidade Harvard (EUA).  Foi Secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Fazenda e Planejamento, funcionário do Banco Central e do Banco do Brasil. E-mail: imprensa@bb.com.br. Este texto reflete a opinião do autor e não necessariamente a do BB; tem caráter apenas informativo e não deve ser tomado como recomendação de subscrição, tomada de créditos, compra ou venda de ativos, decisões estas de responsabilidade exclusiva dos investidores.

Aplicações de recursos da Comissão de Formatura e outros investimentos para jovens - 22.10.2012
Meu artigo anterior abordou a conta Comissão de Formatura. Como antecipei no mesmo artigo, fiquei de escrever outro sobre as aplicações ou investimentos de valores que permanecem nessa conta, o que faço agora.

Como os recursos da conta são dos formandos, quem faz a gestão deles deve buscar investimentos de menor risco. Quem se interessar pelos de maior risco, deve investir apenas seus recursos pessoais. Pensando nesse grupo,  tratarei também de investimentos desse tipo, exemplificando com dois fundos que o Banco do Brasil oferece para jovens.

Por quê e como investir recursos da conta Comissão de Formatura
A arrecadação desses recursos costuma começar nos dois últimos anos do curso. Por sua vez, os gastos são mais concentrados no final desse período. Com isso, a conta tende a acumular saldos, e há quem deixe esse dinheiro parado na conta.

Isto não é correto, pois o dinheiro perde poder aquisitivo ao longo do tempo, dado o efeito corrosivo que vem do persistente aumento dos preços de bens e serviços ao longo do tempo, conhecido como inflação. Atualmente, conforme o índice que o governo usa para medi-la, o IPCA, essa inflação foi de 5,28% nos 12 meses compreendidos entre outubro de 2011 e setembro de 2012. 

Portanto, não se pode deixar o dinheiro parado sem ter alguma proteção, mesmo que não total, contra a inflação. E, além disso, cabe aplicá-lo em investimentos de baixo ou nenhum risco, para evitar que parte do dinheiro seja perdida no processo de investir.

Os investimentos de menor risco, em ordem decrescente de complexidade
O mais simples e muito apreciado pela população em geral é a caderneta de poupança.  Para contas abertas a partir de 4/5/12, ela tem como rendimento principal 70% de uma taxa conhecida como Selic, fixada pelo Banco Central, e que atualmente é de 7,25% ao ano.  Assim, esse rendimento básico garante um rendimento  de 5,08%  em 12 meses, bem perto da inflação.   Em cima disso, há outra taxa, conhecida como TR, que vinha caindo para um valor irrisório, e atualmente é nula.  Portanto, hoje o rendimento é contado à taxa de 0,4134% ao mês, que leva a esses 5,08% em 12 meses.

Quanto ao risco, o governo garante depósitos até o valor de R$70.000 por CPF, mas no BB vejo esse risco inexistente. A conta é movimentada como conta corrente, inclusive com cartão de débito, mas sem uso de cheques, e pode ser aberta com o mesmo número e sem necessidade de documentação adicional dos responsáveis. Não há Imposto de Renda (IR) para pessoas físicas (os responsáveis pela conta), nem taxa de administração (TA), o que torna mais simples a avaliação do rendimento. Mas há cobrança de IR ou de TA + IR nas duas aplicações mencionadas a seguir, uma delas tendo também outro imposto que mencionarei oportunamente.

Na mesma linha de baixo risco, e de idêntica garantia governamental, há também o CDB (Certificado de Depósito Bancário). Por meio dele, o investidor deixa um valor aplicado por determinado prazo, mas que pode ser resgatado a qualquer tempo,  e há duas opções de rendimento. Uma pré-fixada, que no momento da aplicação o investidor fica sabendo quanto é; outra, que é uma proporção, negociada com o banco,  de uma taxa, conhecida como CDI, que guarda estreita correspondência com a Selic já citada. Nos CDBs esses rendimentos têm uma taxa que cresce com o valor da aplicação. E há a cobrança de IR, com taxas que diminuem com o prazo em que o dinheiro ficou efetivamente aplicado.  Por conta dessas taxas, os rendimentos dos CDBs antes do IR são em geral maiores que os da poupança. Mas, depois do IR isto pode não acontecer, principalmente para aplicações de prazo mais curto, em que o IR é maior. Ainda nos CDBs, devem ser evitadas aplicações e resgates de prazo até 30 dias, que também sofrem a incidência de outro imposto, conhecido como IOF.

Uma terceira aplicação são os fundos de renda fixa, que não têm a garantia governamental citada, mas têm a segurança do BB. O investidor se torna cotista de um fundo que aplica o dinheiro em títulos do governo ou de empresas, cujos rendimentos são repartidos com os cotistas, que pagam IR como no caso dos CDBs, e ainda a TA.  Assim, para comparar o rendimento desses fundos com os da poupança e CDBs também é preciso levar em conta essa taxa, o que torna a aplicação mais complexa.  Mas, é bom aprender como funciona. Neste caso, como também no dos CDBs, cabe uma conversa pessoal com um dos atendentes que cuidam do assunto nas agências do BB.  

Investimentos de maior risco, inclusive fundos para jovens
Realizar investimentos é muito importante para que o jovem possa conhecê-los, experimentá-los e agregá-los ao seu patrimônio pessoal. Passando aos de maior risco, também é importante saber como funcionam.

Neste caso, o investimento típico são as ações. São partes do capital de uma empresa, e negociadas na bolsa de valores, a Bovespa. Uma ação tem como rendimentos os chamados dividendos, que vêm dos lucros das empresas e pagos periodicamente.  Mas, o preço de uma ação pode se valorizar ou se desvalorizar. Assim, depois de comprada, o mais conveniente é vendê-la quando o preço está mais alto. Mas, para isso é preciso aguardar o momento adequado.  Por esta razão, é um investimento que deve contemplar prazos mais longos. E, assim, costuma atrair pessoas mais jovens, que podem aguardar essa oportunidade.

Quem investe em ações poderá escolher por si mesmo uma ou várias delas. Ou investir em fundos de ações, como os oferecidos pelo BB, que para essa finalidade compra e administra conjuntos de ações que formam vários fundos.  E há também fundos mistos, de ações e renda fixa, chamados de multimercados. Para os jovens o BB oferece especificamente um desse tipo e outro só de ações, que também atendem a quem quer se engajar em questões socioambientais. Esses fundos têm valores de movimentação a partir de apenas R$15 e destinam 20% da TA para a Fundação Banco do Brasil - Programa Água Brasil, voltado à preservação de bacias hidrográficas brasileiras. Para mais informações, os links de acesso a esses fundos são:

BB Multimercado Balanceado LP Jovem

BB Ações Índice de Sustentabilidade Empresarial Jovem

Para concluir: questões como as abordadas acima só muito excepcionalmente os jovens aprendem em colégios e faculdades.  De início podem parecer complicadas, mas nisto estão muito longe de questões de vestibulares que só enfrentamos numa fase da vida. Já ter conta em banco, aprender a poupar e a investir são coisas que permanecem com a gente e indispensáveis à nossa prosperidade hoje e sempre.
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Roberto Macedo, CFP® (Certified Financial Planner), é economista formado pela USP com Mestrado e Doutorado na Universidade Harvard (EUA).  Foi Secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Fazenda e Planejamento, funcionário do Banco Central e do Banco do Brasil. E-mail: imprensa@bb.com.br. Este texto reflete a opinião do autor e não necessariamente a do BB; tem caráter apenas informativo, e não deve ser tomado como recomendação de subscrição, tomada de créditos, compra ou venda de ativos, decisões estas de responsabilidade exclusiva dos investidores.

A conta Comissão de Formatura - 15.10.2012
Como professor universitário, diretor de faculdade e pai de estudantes que passaram por esse nível de ensino, segui a evolução das formaturas nas suas solenidades e festividades. Vi que cresceram em tamanho e em importância para seus participantes.

Elas envolvem dinheiro e o empreendimento que gira em torno delas pode ser comparado a uma microempresa com duração determinada. Impõe-se, portanto, uma gestão cuidadosa e eficaz, para que o resultado final seja um sucesso.

Um elemento crucial é como administrar o dinheiro recolhido da turma, e uma conta bancária é recomendável para essa finalidade. Vou mostrar as vantagens dessa conta, bem como as grandes responsabilidades envolvidas.

E não vou ficar só na teoria, pois aprendi muito com uma filha minha que geriu uma dessas contas com colegas. Obviamente, não faltei à festa. E vi que foi um sucesso.

Como funciona a conta Comissão de Formatura
A conta oferecida ao público universitário pelo BB é do tipo conta corrente e serve para movimentar e administrar os recursos destinados a despesas com a formatura, arrecadados pela comissão que conduz o processo durante o curso. Uma pessoa nunca deve usar sua própria conta para recursos de formatura que não sejam os seus.

Outras características são: a) mínimo de 2 e no máximo 4 titulares; b) movimentada por cheque e cartão de débito; c) desconto na tarifa do pacote de serviços; d) permite depósito identificado, débito automático, aplicações financeiras programadas e resgate automático.

Para abri-la é necessário que os responsáveis compareçam a uma agência do BB, com documentos de identidade (RG, CPFs, comprovantes de residência emitidos nos últimos 90 dias) e documentação comprobatória de que são universitários (declaração da instituição de ensino, comprovante de matrícula ou carteira estudantil). Terão também suas assinaturas colhidas para a movimentação da conta, e poderão obter outras informações, como a de emissão de boletos para cobrança das mensalidades dos estudantes.

Vantagens da conta e de participar da sua administração
Serve como registro das transações – O extrato mensal exibirá todos os recebimentos e pagamentos, e qualquer dos titulares poderá pedir esses ou outros extratos. Poderão surgir questionamentos de colegas, e será preciso guardar todos os comprovantes de pagamentos, como notas fiscais e outros. Os responsáveis não devem incluir essa conta na sua declaração do Imposto de Renda, mas poderão ser chamados pela Receita Federal para explicar seu envolvimento com ela. Se isso ocorrer, deve ser dito que é ou era para movimentação específica e isolada de recursos para formatura. Também para essa eventualidade, toda a documentação relativa ao movimento da conta deve ser guardada por cinco anos.

Funciona como aprendizado – Para alguns estudantes essa conta poderá ser a primeira que movimentarão, e para outros certamente será a primeira em que farão as aplicações financeiras como as que se seguem.

As aplicações ou investimentos financeiros – A prioridade deve ser pagar os serviços contratados, mas não integralmente antes de sua entrega. As aplicações dos saldos em conta devem ser voltadas principalmente para defender o seu valor da inflação. Ou seja, do movimento geral de aumento de preços, que hoje ocorre a uma taxa perto de 5% ao ano, conforme o índice oficial conhecido como IPCA. Assim, cabe buscar aplicações cujos rendimentos cubram essa inflação ou pelo menos estejam muito próximos dela. Ao mesmo tempo, dada a natureza do empreendimento, são recomendáveis as aplicações de menor risco, onde se destaca a caderneta de poupança. Uma conta desse tipo pode ser aberta com o mesmo número da conta corrente de formatura e sem necessidade de documentação adicional. Os rendimentos dessa caderneta são isentos de Imposto de Renda (IR).

Há outras aplicações de baixo risco conhecidas como fundos de renda fixa e CDBs (Certificados de Depósitos Bancários), bem como as de renda variável e de maior risco, dentre as quais se destacam as ações e seus fundos. Tais aplicações estão sujeitas ao IR e junto outras específicas para jovens serão tema de um próximo artigo, que detalhará também os rendimentos da caderneta de poupança.

Serve como item do currículo – A participação em comissão de formatura e na gestão de suas contas costuma ser levada em conta nas seleções para estágios, “trainees” e mesmo para emprego efetivo. Indica experiência de gestão e de liderança.

Liberdade de escolha – Se a gestão da formatura é feita pelos próprios estudantes, eles terão maior liberdade de escolha em várias questões. Há quem prefira delegar tudo a uma empresa contratada, mas além de seu custo fica mais difícil influenciar escolhas como as do salão de festas, buffet, conjuntos musicais, “barman”, DJs etc.. Como exemplo, minha filha deu o da escolha de vinhos e destilados, que disse ser de grande interesse dos participantes, pois seu custo é mais alto, e há muitas alternativas.  Quando uma empresa organiza tudo, a regra usual é que os formandos não podem levar suas próprias bebidas desses tipos, e quando levam há a taxa conhecida como “rolha”. Nesse exemplo, foi acordado com o buffet que haveria água, refrigerantes e cerveja à vontade, mas poderiam ser levadas garrafas de vinho e de destilados sem pagar essa taxa, e muitos fizeram isso. A ideia também acomoda o interesse de quem não aprecia esses dois tipos de bebida, mas mesmo assim teria que arcar com as despesas dos demais se incluídas no que pagaram pela festa. Também houve liberdade para a escolha do fotógrafo, da filmagem do evento, e permitido que os estudantes levassem suas próprias câmeras.

Agora, as responsabilidades
A boa gestão do empreendimento e de suas contas é crucial, pois se espera que a comissão e o grupo responsável pela Conta de Formatura façam um trabalho cuidadoso e honesto. A maioria dos formandos ficará só observando, mas só excepcionalmente não haverá quem critique um ou outro aspecto do trabalho. Então é preciso também pensar nisso, de tal forma para que as críticas sejam minimizadas. Quando acontecerem, em lugar de brigas deve-se discutir racionalmente a questão. Se for o caso, reconhecer erros por parte dos próprios gestores.

Em síntese, o trabalho em comissões de formatura e, em particular, na gestão da respectiva conta bancária, traz consigo uma experiência de gestão administrativa e financeira também de grande utilidade nos planos pessoal, familiar, social e profissional. Ela envolve também grandes responsabilidades, mas não há como ser bem sucedido na vida sem assumi-las.

A todos os que irão fazer isso meus votos de sucesso, e que tenham com sua turma uma bela solenidade e ótimas festividades.
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Roberto Macedo, CFP® (Certified Financial Planner), é economista formado pela USP com Mestrado e Doutorado na Universidade Harvard (EUA).  Foi Secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Fazenda e Planejamento, funcionário do Banco Central e do Banco do Brasil. E-mail: imprensa@bb.com.br. Este texto reflete a opinião do autor e não necessariamente a do BB; tem caráter apenas informativo, e não deve ser tomado como recomendação de subscrição, tomada de créditos, compra ou venda de ativos, decisões estas de responsabilidade exclusiva dos investidores.

Um congresso de planejadores financeiros - 08.10.2012
Participei recentemente, nos EUA, do congresso anual de planejadores financeiros que têm a certificação internacional conhecida como CFP® - Certified Financial Planner (Planejador Financeiro Certificado), conferida pelo FPSB - Financial Planning Standards Board (entidade privada que estabelece padrões de conduta para os profissionais certificados), também do mesmo país.

O congresso teve também a participação de CFP®s de outros países. Tenho essa certificação, conforme consta do meu mini-CV no final deste artigo. O Banco do Brasil a exige de quem escreve artigos como este no seu site.

Vou explicar a natureza dela, quem a confere no Brasil, o número dos que a detêm aqui e internacionalmente, e destacar alguns aspectos importantes do congresso.

CFP®: do que se trata
Há instituições certificadoras em 24 países. No Brasil a certificação foi delegada ao IBCPF (Instituto Brasileiro de Certificação de Planejadores Financeiros), ligado à Anbima (Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiros e de Capitais). Aqui começou há poucos anos, e pelo último número que vi alcançava 775 profissionais. Soube que deve chegar a mil no início de 2013.

Mundialmente havia 140 mil em 31/12/11.  E o Brasil é o país onde se verifica a maior taxa de crescimento. A certificação é conferida a profissionais de nível superior, de qualquer área, que passem pelo exame. Por exemplo, conheço dois médicos aprovados no Brasil, que se dedicam a cooperativas de crédito que têm seus colegas como sócios. Para maiores informações, o site do IBCPF é www.ibcpf.org.br.

A certificação é pessoal. A grande diferença entre o Brasil e os EUA, além de o número de profissionais lá ser muito maior, é que naquele país há muitos CFP®s  que prestam consultoria financeira a pessoas. No Brasil, estão trabalhando predominantemente para instituições financeiras. Contudo, sei de vários que são consultores pessoais e de outros que estão se iniciando no ramo.

O evento nos EUA
Dele se pode dizer que foi gigantesco tanto pelo local em que se realizou, como pelo grande número de participantes que atraiu, e pelo conteúdo e qualidade que envolveu. O local foi um enorme centro de convenções em San Antonio, Texas, e o  congresso teve cerca de 1.800 participantes.

Quanto ao conteúdo, as diversas sessões ocorreram em quatro grupos: 55 de natureza educacional, com temas voltados para a educação continuada dos participantes, um dos requisitos para a renovação bianual da certificação profissional; 25 sessões de discussão de outros temas de interesse e três sessões gerais, estas num auditório enorme em que se reuniam todos os presentes. E, ainda, diversas sessões em que empresas e outras instituições que expunham seus serviços em estandes individuais, totalizando 117, apresentavam suas ofertas, como softwares de planejamento financeiro pessoal, fundos de investimentos e programas educacionais. Quanto a estes, lá conheci universidades que oferecem bacharelados em planejamento financeiro e alguns programas de pós-graduação na mesma área.

Com tantas sessões, várias delas simultâneas, quem participa precisa ser seletivo. Dados meus interesses, concentrei minha atenção em dois temas, o do estado da economia dos EUA, que repercute no Brasil, e educação financeira. Esta é um  tema do qual nosso país é muito carente, e ligado à pauta sobre a qual escrevo neste espaço. No que se segue, vou focar a atenção apenas neste segundo tema.

Educação financeira
Apesar de os EUA serem considerados um país bem desenvolvido, grande parte de sua população é carente de educação financeira, conforme revelado pela última crise financeira, que eclodiu naquele país em 2008. No processo que levou a ela muitos tomadores de financiamentos imobiliários adquiriam imóveis que não tinham condições de pagar, demonstrando sua incapacidade de resistir a ofertas que lhes eram apresentadas ou buscavam por iniciativa própria.

Relativamente ao Brasil, lá já existe uma percepção bem mais forte da necessidade de educação financeira, e várias iniciativas são tomadas nessa direção. No congresso o assunto apareceu em algumas sessões, com destaque para duas.

A primeira foi uma em que se assinalou que os CFP®s têm naturalmente uma inclinação para trabalhar com clientes de maior poder aquisitivo, com maiores condições de remunerá-los. Com isso, a partir da classe média para baixo o atendimento dado pelos CFP®s é bem menor, e na sessão foram discutidas idéias de contornar essa dificuldade, inclusive um empenho maior dos profissionais.

A segunda ocasião foi na palestra que me pareceu a mais interessante do evento, ministrada por Anna Escobedo Cabral, uma pessoa da comunidade latina,  que começou a ganhar a vida como trabalhadora agrícola na Califórnia.  Mas, superando dificuldades, chegou à educação superior, que concluiu na universidade de Harvard. O momento culminante de sua carreira foi quando se tornou Tesoureira do país, um alto cargo do Ministério do Tesouro –, que lá equivale ao nosso da Fazenda –, e responsável pela emissão da moeda americana, o dólar.  Enquanto exercia o cargo, a assinatura dessa senhora constava de todas as notas emitidas do país, conforme constatei ao examinar algumas que tinha na carteira. 

Marcante foi sua colocação de que a educação financeira – que nos seus aspectos básicos lá é também chamada de alfabetização financeira –,  deve levar em conta não apenas que há carência dela, mas que para ensiná-la é preciso saber se comunicar com pessoas de todos os estratos sociais, inclusive por idade e étnicos, e vivendo em comunidades especificas. Nessa linha, os ensinamentos devem ser apresentados de forma adequada aos vários e diferentes grupos que se queira alcançar.

Como exemplo, ressaltou que se alguém for ensinar a um grupo de jovens não deve entrar direto no assunto, e logo falar de tecnicalidades como juros simples e compostos, que eles verão como uma chatice. Sugeriu começar por um exercício em que esses jovens exporiam suas aspirações na vida, para em seguida serem levados a refletir sobre o papel do dinheiro para alcançá-las, até se convencerem por si mesmos quanto à necessidade de entender do assunto, particularmente de questões relevantes como a necessidade de poupar.

Com essa abordagem, mais sua forte personalidade, a própria história e suas credenciais profissionais, a palestrante foi também fonte de inspiração. No meu caso, de interesse por alguma atividade voluntária em que eu pudesse ensinar a jovens de comunidades mais pobres, o que agora está nos meus planos para o futuro.
Entre eles, está também o propósito de compartilhar neste espaço, em outros artigos, uma parte do que aprendi nesse congresso de CFP®s.
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Roberto Macedo, CFP® (Certified Financial Planner), é economista formado pela USP com Mestrado e Doutorado na Universidade Harvard (EUA).  Foi Secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Fazenda e Planejamento, funcionário do Banco Central e do Banco do Brasil. E-mail: imprensa@bb.com.br. Este texto reflete a opinião do autor e não necessariamente a do BB; tem caráter apenas informativo, e não deve ser tomado como recomendação de subscrição, tomada de créditos, compra ou venda de ativos, decisões estas de responsabilidade exclusiva dos investidores.

Inteligência financeira - 01.10.2012
O estudo das finanças pessoais tem um enfoque no qual a contribuição de psicólogos é muito forte. Esse enfoque é conhecido como finanças comportamentais. Como esse nome indica, é centrado no comportamento do ser humano. Em particular, estuda como nossa mente processa as decisões em geral e, em particular, as ligadas a questões econômico-financeiras.

Esse estudo não é feito por mera curiosidade. Na medida em que se conheça melhor o nosso processo decisório, o objetivo é fazer com que o ser humano busque decisões melhores e, em particular, evite as equivocadas.

Em artigos anteriores, já me referi ao psicólogo Daniel Kahneman que por suas muitas contribuições ao entendimento das decisões econômico-financeiras recebeu um prêmio Nobel de Economia.  Neste artigo, vou falar de outro Daniel, de sobrenome Goleman, que se tornou famoso pelo seu livro Inteligência Emocional, que com este título foi traduzido para o Português, e editado no Brasil.

A inteligência emocional: do que se trata
Goleman analisa a interação dinâmica entre duas partes do cérebro, uma que atua de forma racional e outra onde predominam as emoções.  Dada essa interação, ele diz que a inteligência emocional se manifesta quando a parte racional consegue dominar, ou pelo menos moderar bastante, os impulsos que vêm das emoções. Ele também argumenta que a inteligência emocional pode ser aprimorada, na medida em que a pessoa perceba essa interação, suas consequências, e se esforce no sentido de controlar as emoções, não deixando se guiar por elas.  

Nessas condições, um dos traços da inteligência emocional é o autocontrole.  Na minha leitura, entre outras implicações isso significa que para alcançar alguma coisa é preciso sacrificar outra. Tome-se, por exemplo, o caso de um estudante que se prepara para o exame vestibular, o que exige muitas e muitas horas de estudo para ser bem sucedido. Assim, se esse estudante não sacrificar horas de lazer, como as das baladas que tanto atraem os jovens, o risco de fracasso será alto.

A inteligência financeira como manifestação da inteligência emocional
No que se segue, vou estender o conceito de inteligência emocional às finanças pessoais, cuja administração criteriosa é indispensável para que a pessoa prospere no plano financeiro.

Ora, para alcançar essa prosperidade é indispensável que a pessoa consiga aumentar sua renda, e que no processo de ampliá-la uma parte seja destinada à poupança, de forma regular e persistente. Sem isso, a prosperidade pessoal não será alcançada, pois ela se consegue por meio da constituição de um patrimônio.  Por exemplo, na forma de uma casa própria e de outros investimentos que também contribuam para ampliar a renda pessoal e o bem-estar que esta enseja.

Na visão dos economistas, a educação também é parte do patrimônio pessoal, pois de um modo geral ela faz com que as pessoas se credenciem a rendimentos que crescem com o aumento da escolaridade.

Mas, poupar não é fácil, principalmente para pessoas que têm dificuldades de resistir às tentações do consumo. Em particular, há as dificuldades de distinguir vontades de necessidades, cedendo às primeiras por decisões próprias. Ou influenciadas, entre outros aspectos, por propagandas, modismos, marcas e o desejo que pessoas têm de se afirmarem no seu círculo social mediante ostentação daquilo que passaram a consumir, como uma roupa em moda ou que tenha marca de prestígio.

Há também a dificuldade de aceitar um sacrifício hoje em troca de uma recompensa ou gratificação futura. Essa troca está implícita na decisão de renunciar ao consumo de toda a renda hoje,e de destinar parte dela para a poupança de uso futuro. E a dificuldade de fazer essa troca persiste, mesmo que essa parte seja aumentada pelos rendimentos que virão dos investimentos da poupança assim constituída.

Nessas condições, para muitas pessoas poupar é um sacrifício que não estão dispostas a fazer, o que indica que suas decisões financeiras não estão dominadas pela racionalidade, sucumbindo às emoções.

Como sair dessas dificuldades?
O passo inicial é percebê-las, e entender o mecanismo mental que as constrói, bem como os problemas a que leva. Em casos extremos, há dívidas e uma carência crônica de recursos, em particular nas idades mais avançadas, pois a provisão de recursos para aposentadoria também costuma ser sacrificada no processo.   Um exercício que levasse a percepções desse tipo certamente deveria integrar o aprendizado dos aspectos básicos da gestão financeira pessoal, dentro daquilo que a literatura em língua inglesa sobre o assunto chama de “alfabetização financeira”.

Percebida as dificuldades decisórias e suas consequências, o passo seguinte será o de evitá-las. Quanto a isso, minha pregação usual é a de que o esforço de poupar de modo significativo somente será bem sucedido se a pessoa se comprometer efetivamente com uma meta ambiciosa de poupança, com o consumo se ajustando a essa meta. Ou seja, o que sobrar da renda depois de assegurado o cumprimento dessa meta é que irá para o consumo. Quando se deixa para a poupança o que sobra de um consumo mal controlado, costuma não sobrar nada.

Vale insistir na percepção da dificuldade de poupar diante dos amplos incentivos ao consumo. Tal como vemos ao passear por um “shopping”, ou viajar por lugares onde o consumidor é bombardeado por novidades e preços atraentes, dispondo de um ou mais cartões de crédito. A satisfação trazida pelo consumo poderá ser grande, mas o dano à poupança terá idêntico tamanho. Não sem razão, há quem veja um “shopping center”, onde há gente com cartões de crédito, como o local onde as pessoas compram o que não precisam com o dinheiro que não têm.

Portanto...
Dado esse quadro, e para de novo enfatizar quão importante é a poupança, entendo que a inteligência financeira se manifesta quando a pessoa é capaz de não sucumbir à tentação do consumo exagerado, dominando-a com o apego a uma meta de poupança que a conduza pelo caminho da prosperidade, adicionando assim essa dimensão financeira à inteligência emocional de que fala Goleman. Em síntese, o compromisso efetivo com a poupança é sinal de que uma pessoa é financeiramente inteligente.
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Roberto Macedo, CFP® (Certified Financial Planner), é economista formado pela USP com mestrado e doutorado na Universidade Harvard (EUA).  Foi Secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Fazenda e Planejamento, funcionário do Banco Central e do Banco do Brasil. E-mail: imprensa@bb.com.br. Este texto reflete a opinião do autor e não necessariamente a do BB; tem caráter apenas informativo, e não deve ser tomado como recomendação de subscrição, tomada de créditos, compra ou venda de ativos, decisões estas de responsabilidade exclusiva dos investidores.


Comprar ou poupar em tempo de liquidações? - 24.09.2012
Liquidação rima com tentação. E esta costuma ser forte ou quase irresistível para muitas pessoas. Mas, é preciso resistir, mas nem sempre evitar, pois a liquidação pode ser mesmo uma boa oportunidade para comprar.

O que se recomenda é uma análise prévia e criteriosa da decisão a ser tomada. Numa liquidação ou não, não se deve comprar nada por impulso, embora o desconto também ajude na impulsão. Para tratar dessa e de outras questões ligadas a liquidações, algumas dicas são apresentadas a seguir.

1. Preciso desse produto em liquidação ou é apenas a vontade de ter?
Diante de uma liquidação, as pessoas devem fazer sempre esta pergunta. A razão é que muitas vezes ficam entusiasmadas com os descontos oferecidos.  Mas, o desconto não pode ser um atrativo por si mesmo. Cabe focar a atenção no produto, se seu preço é razoável, e indagar se atende a uma necessidade efetiva, e se será convenientemente utilizado.  Vejamos dois exemplos em que fica evidente a importância dessa indagação.

Como primeiro exemplo, não sei de quem tenha comprado uma geladeira sem ser para usá-la. Mas, quando é comprada para substituir uma antiga, é preciso ponderar sobre a necessidade dessa substituição.

Num segundo exemplo, o do vestuário, o risco de nenhuma ou pouca utilização é bem maior, em particular para quem já tem muitas roupas. Nessa condição, a pessoa pode até deixar de usar uma nova, esquecida que ficou no meio de tantas outras dentro de armários e guarda-roupas já lotados, e é até difícil memorizar o que se tem lá dentro. E encontrar uma peça que veio à mente.

2. Marcas
Com suas marcas, os produtores e comerciantes procuram criar um mercado cativo para seus produtos.  As marcas costumam se firmar por fatores objetivos, como a qualidade do produto e o seu design.  Mas, há também fatores subjetivos que atuam por meio da propaganda. Por exemplo, procurando convencer o consumidor com a ideia de que o uso de uma determinada marca irá fazer com que ele seja mais admirado no meio social em que vive. É para se mostrar, como se diz na linguagem popular.

Assim, não se pode ser escravo de marcas. Mas, quando de fato incorporam elementos de qualidade e durabilidade, não devem ser desprezadas. O preço alto costuma ser uma dificuldade, mas que pode ser superada dependendo do desconto na liquidação. Aliás, sei de gente que para contornar o preço alto procura indagar nas lojas de marcas quando virá a próxima liquidação, inclusive pedindo para ser avisada. 

3. Moda ou estilo?
A moda é uma questão que afeta particularmente as mulheres e nas questões de vestuário, inclusive acessórios como sapatos, joias, semi-joias, relógios e bijuterias. Para os homens, também há modas, mas são menos perceptíveis.

A grande lição que tive sobre modas não foi de um economista. Veio ao assistir a uma peça teatral, com a atriz Marília Pera interpretando a estilista Madame Chanel.  Num dado momento, pessoas que trabalhavam com ela perguntaram se não se preocupava com concorrentes que estavam em moda. E ela respondeu que não, que não trabalhava com moda, mas com um estilo próprio, e que até hoje perdura.

A lição me pareceu clara.  Estilos clássicos, como o dela, nunca caem de moda, ou seja, não mudam tanto, e os produtos correspondentes são utilizados por um período maior, o que corresponde a um benefício econômico. Nas liquidações também é possível buscar estilos, mesmo sem marcas. Não sou do ramo, mas acho que os homens seguem mais estilos clássicos, como terno e gravata, ou combinações como um paletó de uma cor e a calça de outra, o que muda muito pouco.  Com isso, de um modo geral gastam menos que as mulheres em vestuário.

4. Desconfiar do desconto oferecido
Na literatura de finanças pessoas há quem trate o desconto como um possível caso do chamado efeito ancoragem. Trata-se da situação em que ao tomar uma decisão a pessoa às vezes se fixa ou se ancora num valor que não tem a relevância que imagina.

Assim, nas liquidações a pessoa foca no desconto relativamente ao preço de etiqueta, se ancorando neste e confiando no desconto oferecido, de 30%, 50% etc.  Mas, os preços de etiquetas podem ter sido alterados para cima apenas para criar a ilusão de um desconto maior. É preciso olhar o valor intrínseco do que está sendo comprado, e em comparação com outras lojas, entre outras atitudes de cautela.

5. Para quem viaja, as liquidações no hemisfério norte
As liquidações surgiram principalmente em países onde as estações do ano são nitidamente diferentes entre si, como na Europa e nos EUA. Neles, em geral não vale a pena um comerciante guardar o que não foi vendido numa estação para vender um ano depois, pois isso empata capital e exige espaço para guardar. Assim, a liquidação gera dinheiro para comprar os produtos da estação seguinte. Nesse contexto, em geral as liquidações são mais autênticas. E são particularmente adequadas para quem do Brasil viaja ao hemisfério Norte, pois dentro de um ano as estações ocorrem antes lá. Por exemplo, nos EUA recentemente houve liquidações de verão, e os brasileiros que nelas compraram roupas poderão usá-las no nosso verão que está próximo de chegar.

5. Sempre de olho nas finanças e na poupança
Por mais que tentadora, uma liquidação será sempre uma contingência do mercado e conveniente ou não para o consumidor, que nunca deve perder de vista sua condição de poupador.  Minha pregação usual é a de que as pessoas devem ter metas rígidas de poupança, e o que sobrar é que deve ir para o consumo.  Esse plano não pode sair dos trilhos mesmo diante de uma liquidação realmente atrativa.

Como compatibilizar as duas coisas?  A opção de comprar deve vir com a decisão de que, digamos, dentro de dois ou três meses, o valor usado na compra inesperada será compensado com renúncia de valor igual dentro do montante alocado para consumo futuro. Ou, melhor ainda, se a pessoa planejava gastar X com esse produto no futuro, e com a liquidação gastou X-Y, a diferença deve ir para a poupança.

Também cabe referência ao financiamento da aquisição. O ideal é pagar à vista. Se houver juros, é bom tomar cuidado, pois se forem os altíssimos juros de cartões de crédito, o desconto obtido na liquidação poderá ir para o ralo na medida em que for absorvido ou mesmo superado com esses juros.  O mesmo acontecerá se os juros forem baixos, mas o prazo de pagamento for muito longo.
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Roberto Macedo, CFP® (Certified Financial Planner), é economista formado pela USP com mestrado e doutorado na Universidade Harvard (EUA).  Foi Secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Fazenda e Planejamento, funcionário do Banco Central e do Banco do Brasil. E-mail: imprensa@bb.com.br. Este texto reflete a opinião do autor e não necessariamente a do BB; tem caráter apenas informativo, e não deve ser tomado como recomendação de subscrição, tomada de créditos, compra ou venda de ativos, decisões estas de responsabilidade exclusiva dos investidores.

Sobrou dinheiro - e agora? - 17.09.2012
Pessoas que se deparam com alguma “sobra” de dinheiro inesperada costumam fazer essa pergunta. Coloquei aspas em sobra, pois não acho certo tratar dinheiro dessa forma. É preciso ter sempre em mente uma finalidade para todo dinheiro de que dispomos, ou de que vamos dispor.     No que se segue vou refletir sobre o dinheiro como “sobra”, e responder à pergunta-título deste artigo com dicas mais voltadas para o pequeno poupador.

Metas de poupança em lugar de “sobras” sem destinação planejada
Na gestão das finanças pessoais o aumento dos rendimentos é a meta mais importante. Mas, esse sonho muitas vezes não é realizado, em particular imediatamente,  e seguimos vivendo com o dinheiro que recebemos usualmente. O caso típico é do trabalhador assalariado que recebe uma remuneração mensal, e assim toca a sua vida.

A boa gestão financeira recomenda praticar uma bem definida meta mensal de poupança, que alcance o maior valor possível. A razão é que a poupança é a base da prosperidade econômica construída com dinheiro continuamente poupado, e aplicado de forma rentável.

Deduzida dos rendimentos a meta de poupança, o que sobrar – e aí então não cabem aspas – é que deve ser utilizado nas despesas de consumo usuais de bens e serviços. A vantagem dessa estratégia é que dá prioridade à poupança, que fica em segundo lugar após os rendimentos, e não relegada à terceira posição depois das despesas de consumo. E, ainda mais, tratada com desprezo, como “sobra”. Quando isso é feito, é comum não sobrar nada.

Portanto, minha resposta para a questão que intitula este artigo é que o dinheiro deve ser poupado, e que daí em diante a pessoa se comprometa com uma meta mensal de poupança, e esta deve também absorver algum ganho extraordinário que venha a ser recebido. 

Mas, o  que fazer com o dinheiro assim poupado?
O pequeno poupador deve contemplar as alternativas que se seguem.
1. Pagar dívidas – Esta deve ser a prioridade, pois é difícil encontrar uma forma de aplicar dinheiro que renda mais do que os juros cobrados sobre as dívidas que assumimos.

2. Constituir uma reserva para imprevistos  - Quem ainda não tem uma deve criá-la.  Na vida sempre há imprevistos financeiros e a disponibilidade de reservas é importante, pois evita o desgaste da falta de dinheiro e o recurso a dívidas apressadas e caras, como as de cartões de crédito. A alternativa seguinte é particularmente conveniente para uma reserva.

3. Caderneta de poupança – É a forma de poupar preferida pelos brasileiros em geral, e suas vantagens são de tal natureza que mesmo poupadores de médio e pequeno porte são atraídos por ela. É de fácil entendimento, e pode ser operada como uma conta corrente com saques e depósitos conforme a conveniência do dono da conta. A segunda vantagem é que seus rendimentos não são tributados pelo Imposto de Renda das pessoas físicas. A terceira é que as cadernetas de poupança são garantidas pelo governo até o limite de R$ 70.000,00 por CPF. 

4. Poupar e investir ao mesmo tempo, inclusive na própria pessoa – Por experiência pessoal e das pessoas com quem convivo, o mais difícil é poupar. Para aplicar o dinheiro economizado há muitas alternativas, e estas dependem muito dos objetivos do dono do dinheiro e do  total já economizado. Se for de reduzida magnitude, o melhor é juntar dinheiro na caderneta de poupança até que atinja um valor considerável. Que, então,  possa ser aplicado, por exemplo, como entrada para aquisição de um lote, ou numa reforma da casa própria,  ou como entrada num financiamento habitacional.
Também é recomendável pensar num tratamento de saúde, como um dentário, que tenha sido adiado. Problemas de saúde não ou mal resolvidos costumam gerar complicações futuras em que gastos e riscos acabam sendo bem maiores. Esse tipo de gasto deve ser considerado um investimento. É como se a pessoa preservasse o valor de si mesma entendendo-se como um patrimônio valioso – aliás, o mais valioso –, que precisa ser bem cuidado. Na mesma linha há o investimento em educação, inclusive em cursos de curta duração para adquirir uma especialização que permita ampliar os rendimentos pessoais.

5. Para quem gosta de apostar: plano de capitalização – Há muita gente que critica a capitalização porque ela não produz rendimentos nem mesmo como a caderneta de poupança. Tenho outra visão, baseada no fato de que há muitas pessoas que apostam em loterias e outros jogos, o que é comum particularmente entre os segmentos mais pobres da população, que sonham em resolver sua falta de recursos dessa forma. Mas, ignoram que a probabilidade de ganhar é muito pequena, e em geral acabam perdendo o dinheiro apostado. Para essas pessoas, a capitalização pode ser conveniente. Ela também envolve sorteios, mas o dinheiro aplicado não se perde. Há planos em que ele volta integralmente no final do período de capitalização. Mas, se a pessoa não pagar até esse final, ela receberá menos que pagou e a porcentagem do dinheiro que não volta é maior nos estágios iniciais do plano. Isso estimula as pessoas a pagar todas as prestações, o que firma o compromisso com a poupança que o plano enseja.

Portanto...
    Fazer da poupança uma prioridade é a melhor e automática resposta para a pergunta inicialmente formulada. Em outras palavras, a própria pergunta nem precisará ser feita, pois a pessoa já saberá antecipadamente o que fazer com o dinheiro.
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Roberto Macedo, CFP® (Certified Financial Planner), é economista formado pela USP com Mestrado e Doutorado na Universidade Harvard (EUA).  Foi Secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Fazenda e Planejamento, funcionário do Banco Central e do Banco do Brasil. E-mail: imprensa@bb.com.br. Este texto reflete a opinião do autor e não necessariamente a do BB; tem caráter apenas informativo, e não deve ser tomado como recomendação de subscrição, tomada de créditos, compra ou venda de ativos, decisões estas de responsabilidade exclusiva dos investidores.

Crediário: sonho ou pesadelo? - 11.09.2012
Crediário é o sistema de venda a crédito, geralmente de bens de consumo duráveis, realizado especialmente por grandes estabelecimentos comerciais que financiam em parcelas o pagamento daquilo que foi adquirido.

O pagamento pelo devedor é feito por carnês, cheques pré-datados, e modernamente há também lojas que oferecem seus próprios cartões de crédito.

Dívidas não são problemas por si mesmas. Desde jovem recorro a dívidas, e foram muito úteis, pois me permitiram ter antecipadamente bens que na ausência delas tomariam muito tempo para conseguir se a única forma de comprá-los fosse juntar dinheiro. Dessa forma, dívidas permitem tornar sonhos em realidades antecipadas.

Contudo, essa realização pode virar pesadelos reais se quem toma o caminho do crediário não se prevenir contra os riscos que ele envolve. Tais riscos podem trazer desde arrependimentos quanto ao crediário tomado até uma situação em que a pessoa não consegue pagá-lo. Isto, a ponto de comprometer seus rendimentos e o que já acumulou em termos de patrimônio pessoal e familiar.
Como toda decisão financeira, é preciso pensar sobre o que será feito e suas conseqüências.  Para prosseguir, sugiro ao leitor imaginar-se tomando o caminho do crediário. Uma estrada bem sinalizada mostra riscos à frente, como uma sequência de curvas fechadas ou a existência de obras. E impõe limites de velocidade adequados ao percurso.   No que se segue vamos colocar vários sinais desse tipo para que o leitor coloque sua atenção neles quando pensar em tomar o caminho do crediário.
Na estrada do crediário

É o caminho certo?  – A decisão de recorrer ao crediário vem junta com a de adquirir isso ou aquilo.  Portanto, é preciso examinar as duas decisões ao mesmo tempo.

Assim, imagine-se primeiro diante de um entroncamento, com um dos caminhos levando ao crediário, outro à compra à vista e outro a dívidas mais baratas. Há também uma placa que indica o retorno, ou seja, nenhuma dessas alternativas.

Cabe então perguntar: preciso mesmo do que pretendo comprar? É necessidade ou é só um desejo?  vale o preço? examinei alternativas de aquisição e seus preços? e os juros que pagarei não serão muito altos? será que não vou me arrepender da compra? não estaria traindo meu compromisso com a meta de poupança que estabeleci? 

Os juros ou pedágio a pagar – o dinheiro que alimenta o crediário vêm de pessoas ou instituições que optaram por não usar para si mesmas o dinheiro que tinham, deixando esse uso para o futuro. Ao emprestarem, cobram um preço de quem toma o dinheiro, na forma de juros.

Assim, cabe examinar se esse custo não é muito alto. Muitas pessoas ignoram isso, inclusive porque às vezes são atraídas com ofertas enganosas, de que o pagamento não exige juros, às vezes escondidos no valor da prestação.

Quem pergunta quanto aos juros não deve se iludir com porcentagens ao mês, pois são menores.  É preciso perguntar pelas porcentagens ao ano, pois as mensais se acumulam ao longo do tempo. Com isso são pagos juros sobre juros de saldos devedores, e a taxa anual mostra evidencia melhor quando são muito caros.

Para mostrar isso, recorde-se que o juro é uma porcentagem da dívida contraída, e que porcentagem quer dizer por 100.  Quem toma R$1.000 a 5% ao mês para pagar um ano depois irá pagar R$50 de juros no primeiro mês, mas no segundo acumulará mais R$52,50 de juros com os R$2,50 a mais representando os 5% que incidiram também sobre os R$50,00 pagos no mês anterior. E, assim, sucessivamente. No final de um ano, a dívida será de R$1.795,86, com juros anuais de R$ 795,86 ou 79,59%! E depois de 15 meses a pessoa estaria pagando só de juros um valor superior ao da dívida original.

Do lado de quem empresta, ninguém deixa de cobrar juros.  Do lado de quem toma, há quem faça o papel de tolo até mesmo sem saber, pois não olha os juros. E às vezes há outros custos como taxas de cadastro e de abertura de crédito.
E se eu atrasar os pagamentos? – Também é importante perguntar pela penitência, pois é costume haver multas e juros ainda maiores quando o atraso ocorre. Esse costuma ser um dos ingredientes usuais de dívidas caríssimas ou até mesmo impagáveis.
 
E as alternativas ao crediário? – Não haveria outras mais baratas nos seus juros e outros encargos? Em particular, é sabido que os juros do crediário são bem mais altos do que os de alternativas de crédito nos bancos, como o consignado e o pessoal.

Quanto a isso, um dos problemas do crediário é que a pessoa está na loja, diante das tentações que oferece. E às vezes não resiste, pois não pensa adequadamente na dívida que virá. E mesmo sabendo de alternativas mais baratas, acha incômodo procurá-las.  E pela minha experiência sei que as informações recebidas no crediário das lojas são em geral menos claras que as obtidas nos bancos.
Controlando a velocidade e a distância percorrida no crédito – Num automóvel, mede-se as duas. É preciso fazer coisa parecida com o crédito, seja do crediário ou não. Uma delas é calcular o valor das prestações de todas as dívidas em cada mês como porcentagem do salário e/ou de outro(s) rendimento(s) recebido(s) mensalmente. E verificar se ela está alta e/ou em aceleração, comprometendo necessidades cruciais de alimentação, habitação, educação, saúde, transporte e outras.

Outra medição envolve somar as dívidas por pagar num prazo mais longo, como de um ano ou dois, e ver o quanto representa do total de rendimentos esperados nesse prazo maior. Uma razão que impõe essa visão mais longe é que algumas lojas têm também ofertas do tipo “comece a pagar daqui a tantos meses”.  Nesses meses o devedor não estará amortizando a dívida, e com isso pagará mais juros.

E nunca se esquecer que é preciso poupar para aquisições de valores mais altos, como a de uma casa própria, e de prover outros recursos para o futuro, como para a educação dos filhos e a fase de aposentadoria.  
Em síntese...

A tentação das lojas combinada com a fácil disponibilidade de crédito a um custo em geral mais alto e nem sempre bem entendido pelo consumidor pode fazer da realização de sonhos um pesadelo real.  É preciso pensar muito antes de tomar esse caminho. Para quem não resiste a essa tentação nem examina custos os custos e as alternativas ao crediário, é o caso de passar longe das lojas que o oferecem.

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Roberto Macedo, CFP® (Certified Financial Planner), é economista formado pela USP com Mestrado e Doutorado na Universidade Harvard (EUA).  Foi Secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Fazenda e Planejamento, funcionário do Banco Central e do Banco do Brasil. E-mail: imprensa@bb.com.br. Este texto reflete a opinião do autor e não necessariamente a do BB; tem caráter apenas informativo, e não deve ser tomado como recomendação de subscrição, tomada de créditos, compra ou venda de ativos, decisões estas de responsabilidade exclusiva dos investidores.


A importância do ensino superior na vida das pessoas, o FIES e o PROUNI - 03.09.2012
Não é a primeira vez que escrevo aqui sobre a importância da educação em geral. Neste artigo vou insistir que ela deve alcançar até o ensino superior completo.

Para os jovens, cabe lembrar isso repetidas vezes, pois em geral é nessa fase da vida que eles passam pelo sistema educacional.  E quem nessa época não colecionou diplomas até o de nível superior deve correr atrás do prejuízo, pois é grande.

Que prejuízo?  Uma pessoa que não faz essa coleção sofre em geral uma perda de duas dimensões.  A primeira é porque ao longo da história a educação foi o caminho que as pessoas buscaram para se aprimorarem como seres humanos. Nesse caminho, recebem conhecimentos e a capacidade de adquirir outros por si mesmas, dentro de um conjunto que, numa tradição que vem da Grécia antiga, deve abranger a ciência, a arte e a ética. Não seguir longe nesse caminho é uma perda irreparável para o ser humano.

No que se segue, tratarei da segunda dimensão do prejuízo. Ela ocorre porque de um modo geral os salários ou outros rendimentos das pessoas de maior nível educacional são maiores do que os das pessoas sem instrução ou de nível educacional mais baixo.  A razão é que a educação aumenta nossa capacidade de produzir bens e serviços, tanto em maior quantidade como de maior qualidade, e mais valorizados nos mercados onde são vendidos. E isso leva a pessoa a ganhar mais dinheiro, seja como trabalhador, empresário, autônomo ou profissional liberal. 

Nessas condições, a educação significa um investimento, ou seja, algo que produz também ganhos adicionais sob a forma de dinheiro. Em geral esses ganhos compensam o dinheiro que as próprias pessoas e o governo –  este atuando em nome da sociedade que paga impostos –  investem ou aplicam em educação. Compensam também o tempo que as pessoas dedicam à educação, pois nesse caso tempo é dinheiro, pois elas poderiam usar esse tempo para trabalhar e ganhar dinheiro.

Vou mostrar com números os ganhos adicionais que a educação traz. E também falar do FIES (Fundo de Financiamento Estudantil) e do PROUNI (Programa Universidade para Todos), ambos do Ministério da Educação, para enfatizar a importância dos dois para o acesso a instituições de ensino privadas.

O investimento em educação e seus ganhos adicionais
Ainda que sem revelar explicitamente essa visão da educação como investimento, mesmo as pessoas de menor ou nenhum grau de instrução percebem o valor da educação, com afirmações do tipo “eu ganho pouco porque não tive estudo.”

Na outra ponta, pessoas como eu, que já estudei muito, completando até cursos de pós-graduação, digo que a educação foi o melhor investimento que já fiz em toda a minha vida, pois os ganhos que obtive dele superaram o de qualquer outro. E aliás, só comecei a fazer outros investimentos com os ganhos que vieram da educação.

São muitas, sólidas e universais as evidências de que mais anos de escolaridade estão associados a maiores rendimentos do trabalho. Para perceber isso basta observar pessoas a trabalhar. Nota-se que as que trabalham quase que só usando o esforço físico, como ao varrer ruas ou atuar como carregadores, têm pouca escolaridade e baixos rendimentos. Na outra ponta, há médicos, dentistas, engenheiros, administradores e outros cujas atividades exigem nível educacional mais elevado, e que sabidamente têm rendimentos maiores do que os do primeiro grupo citado.

Passando aos números, entre outras evidências há a mostrada pela tabela abaixo, também confirmando que de um modo geral a educação  eleva  os rendimentos do trabalho no Brasil, e que os ganhos correspondentes são substanciais.

Diferenças de Rendimentos do Trabalho por Nível de Escolaridade
Comparação de Valores Médios dos Períodos 1992-1998 e 2002-2008

Nível educacional relativo1992-98
2002-08
(1) Médio/1º ciclo do fundamental
+ 80%
+ 60%
(2) Superior/médio
+160%
+150%
Fonte: Naércio Menezes Filho (professor de Economia da USP e do Insper), jornal Valor (21/5/10,p.A15), com  dados do IBGE.

A linha (1) mostra que as pessoas com ensino médio completo no primeiro período tinham então, em média, rendimentos do trabalho 80% superiores aos das pessoas que na mesma época haviam completado apenas os primeiros quatro anos do ensino fundamental. No período seguinte, essa diferença caiu para 60%, queda associada à ampliação do número dos que completaram o ensino médio que, assim, se tornaram relativamente menos escassos  no mercado de trabalho.

Na linha (2) verifica-se que a maior diferença surge na comparação entre os que têm o ensino superior e os que não avançaram além do médio.  E a queda dessa enorme diferença foi bem menor que no caso da linha (1). Os últimos dados alcançam 2008, mas os contrastes que mostram podem ser aliviados, mas nunca revertidos, e o maior é claramente o da linha (2).  Portanto, quanto a rendimentos a lição é clara: cabe ir até o curso superior e completá-lo.

Ressalte-se, contudo,  que os dados correspondem a médias para segmentos populacionais com os níveis de escolaridade analisados.  Dentro de cada um, há grande variância de rendimentos dependendo da natureza e da qualidade dos cursos realizados.
             
Sem dinheiro para mensalidades?  Conheça o FIES e o PROUNI
O programa FIES financia o estudo em cursos superiores que receberam avaliação positiva nas avaliações periodicamente conduzidas pelo governo federal. Os juros, de 3,4% ao ano, não cobrem nem a inflação, hoje em 5,2% em doze meses, conforme o índice IPCA que o Banco Central usa para medi-la. Com isso, o valor real da dívida tende a cair ao longo do tempo.  Ademais, durante o curso o estudante pagará apenas até R$50,00 de juros trimestralmente, valor esse que continuará pagando nos 18 meses após a conclusão de curso, após a qual o saldo devedor poderá ser dividido em até 13 anos. Não sei de outro financiamento em condições tão favoráveis.

Para mais detalhes, o portal do FIES pode ser acessado pela conexão bb.com.br/portalbb/home16,19351,19351,21,0,1,1.bb, onde o leitor também poderá conhecer várias ofertas do BB para os jovens, inclusive a contratação do FIES. 

O PROUNI dá bolsas de estudos integrais ou parciais a estudantes cujas famílias tenham renda máxima, por membro da família, de três salários mínimos por mês. Outro critério é o resultado obtido no ENEM (Exame Nacional do Ensino Médio), pelo interessado. Mais detalhes estão no portal prouniportal.mec.gov.br/.

Portanto ...
Mesmo a falta de recursos já é um obstáculo que muitos estudantes vêm superando a cada semestre recorrendo a esses dois importantes programas que facilitam o acesso a cursos superiores oferecidos por instituições privadas.
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Roberto Macedo, CFP® (Certified Financial Planner), é economista formado pela USP com Mestrado e Doutorado na Universidade Harvard (EUA).  Foi Secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Fazenda e Planejamento, funcionário do Banco Central e do Banco do Brasil. E-mail: imprensa@bb.com.br. Este texto reflete a opinião do autor e não necessariamente a do BB; tem caráter apenas informativo, e não deve ser tomado como recomendação de subscrição, tomada de créditos, compra ou venda de ativos, decisões estas de responsabilidade exclusiva dos investidores.


Estou endividado. Como sair dessa? - 27.08.2012
Estar endividado não é necessariamente um mal. Pelo contrário, pode ser muito bom e até ótimo para a pessoa. Muitas não têm condições de adquirir um bem ou um serviço pagando à vista um valor muito elevado relativamente ao dos seus rendimentos mensais, mesmo usando também recursos acumulados no passado, como numa caderneta de poupança.

Dentro da minha pregação usual de um efetivo comprometimento com o hábito de poupar, o endividamento é também uma forma de firmar esse compromisso, dependendo da dívida assumida.  Por exemplo, num financiamento para aquisição de casa própria, ao pagar as prestações o devedor estará fazendo ao mesmo tempo uma poupança e adquirindo um imóvel, o que é também um investimento.  E é compromisso difícil de romper, pois há o contrato assinado, a posse do imóvel e a pressão familiar em contrário, entre outros obstáculos. Assim, seria o caso de entrar nessa e não de sair dela.

Neste artigo vou tratar de dívidas que são um problema, de gente que se endivida além de sua capacidade de pagamento, às vezes só por conta de gastos de consumo, levando a uma situação difícil, inclusive para pagar despesas usuais e outras contas, além das prestações com os juros da dívida.

Um caso trágico
Certa vez fui chamado a um programa de televisão para opinar sobre o caso de um jovem  que tinha um trágico problema de endividamento, pois seu salário não cobria nem mesmo os juros da dívida que acumulou. Sua carteira estava recheada de cartões de crédito fornecidos por lojas em que comprava.

Comecei dizendo que ele estava financeiramente quebrado. Mesmo se pagasse mensalmente uma parte da dívida com todo o seu salário, o problema continuaria, pois a dívida continuaria a crescer.  Afirmei que o caso deveria servir de exemplo para quem via o programa, para não entrar numa como essa.

Indaguei se poderia recorrer à ajuda de parentes e amigos, e a resposta foi negativa.  Perguntei também se tinha alguma coisa que pudesse vender para levantar dinheiro, como uma moto ou outra coisa de valor, e veio outro não.  Sugeri, então,  que tentasse renegociar suas dívidas caso a caso, obtendo um desconto, que alguns credores costumam dar em casos como esse, diante da alternativa de não receberem nada.  

Em síntese, certo mesmo é não entrar numa dessa. O resultado é trágico, pois a pessoa pode tornar-se ficha-suja permanente nos registros de maus pagadores.

Os casos mais comuns
Felizmente, não são tão trágicos.  A pessoa fica apertada, mas não quebra como no caso citado. Para encarar o problema, deve-se começar com um diagnóstico, relacionando cada dívida, o valor e número das prestações por pagar e os juros em cada caso, para priorizar a solução das dívidas onde eles são mais caros.

Mencionaremos a seguir vários caminhos para eliminar ou aliviar o endividamento, mas ressaltando logo de início que é preciso impedir também que o problema se repita no futuro. Em outras palavras, o problema não é apenas de sair dessa, mas também o de não entrar noutra do mesmo tipo.

O aperto como solução – quando uma pessoa diz que está apertada com o pagamento de dívidas, pode ser que isso aconteceu porque foi folgada ao gastar. O aperto da dívida seria conseqüência, e a solução pode estar em apertar esse outro lado. Ou seja, mediante exame das despesas e sua contenção, de modo a liberar mais recursos para pagar a dívida agravada, e evitar a repetição do problema no futuro.

Usar dinheiro poupado – há quem pratique o estranho hábito de ter dinheiro aplicado e, ao mesmo tempo, ter dívidas de cartões de crédito e de cheque especial, pagando juros mais altos do que o recebido nas aplicações. É melhor aplicar o dinheiro no pagamento das dívidas.
   
Aumentar a renda - por exemplo, mediante horas extras, um segundo emprego e o trabalho de familiares não ocupados em atividades com rendimentos.

Recorrer a amigos e parentes – é preciso cumprir o trato para não perder a amizade do novo credor. E para não causar constrangimentos para si mesmo em reuniões familiares onde ele estiver presente. Há também o risco de levar broncas na hora do pedido, mesmo se atendido.

Trocar dívidas caras por outras mais baratas – muitos brasileiros costumam praticar outro mau hábito, o de ter dívidas de juros mais elevados do que os de um endividamento alternativo disponível. Entre as primeiras se destacam as de cartões de crédito. Há também as dos cheques especiais, onde os bancos admitem saldos devedores nas contas correntes, os quais se transformam em empréstimos.

Para realizar essa troca é preciso se informar quanto a dívidas mais baratas, como as de crédito pessoal e de crédito consignado. Aliás, o momento é oportuno para conhecer alternativas, inclusive para quem não deve nada, e esteja à procura de crédito com taxas de juros e outras condições favoráveis. Por conta de uma iniciativa governamental, as taxas de juros de operações de crédito caíram em vários bancos, em particular nos oficiais, como no BB.

Neste mesmo site o interessado poderá se informar quanto a prazos e condições por meio do link  www.bb.com.br/portalbb/home15,19377,19377,21,0,1,1.bb, que dá acesso a oito outros links na faixa logo abaixo do título da página.

Esse título é BOMPRATODOS, um programa do BB de empréstimos a juros mais baixos. O primeiro desses oito links (o Bom pra Todos), mostra esses juros em várias linhas de crédito, e o sexto tem uma tabela mais detalhada das linhas que tiveram  taxas reduzidas. O segundo explica como funciona a promoção BOMPRATODOS.

O quinto (Assessoria Financeira), também integrante desse programa, funciona como ferramenta de educação financeira. Dá orientação quanto ao uso consciente do crédito, via mensagens para o celular do cliente. Entre as mensagens possíveis, são particularmente interessantes as que avisam o cliente se ele atingir 70% do limite do cartão de crédito,  se alcançar 5%, 50%, 75% ou 100% do limite do cheque especial, e se usar esse limite por 20 dias consecutivos.

Ou seja, além de dívidas mais baratas como um dos caminhos para sair dessa, quem deve ao BB, e está no BOMPRATODOS, pode também receber avisos para não agravá-la, e mesmo evitar outra do mesmo tipo. Tais avisos cabem também aos que estão começando uma dívida, precisamente para que não se excedam ao tomá-la.

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Roberto Macedo, CFP® (Certified Financial Planner), é economista formado pela USP com Mestrado e Doutorado na Universidade Harvard (EUA).  Foi Secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Fazenda e Planejamento, funcionário do Banco Central e do Banco do Brasil. E-mail: imprensa@bb.com.br. Este texto reflete a opinião do autor e não necessariamente a do BB; tem caráter apenas informativo, e não deve ser tomado como recomendação de subscrição, compra ou venda de ativos, decisões estas de responsabilidade exclusiva dos investidores.  

Cenário da Selic pós-restauração parcial do compulsório


Na semana passada, o Banco Central (BC) tomou medida importante e da qual se esperam impactos sobre a taxa Selic e os juros em geral.  Nessa decisão, foi restaurada parte dos depósitos compulsórios que os bancos são obrigados a fazer no BC,  e que este lhes havia liberado para contornar a falta de liquidez que veio com a crise econômico-financeira desencadeada em setembro de 2008.

Vamos examinar a natureza dessa decisão, esses impactos e também o que dela podem esperar os investidores.

O que fez o BC

A liberação dos depósitos compulsórios alcançou a cifra de R$121 bilhões, e a partir deste mês R$71 bilhões retornarão ao BC. Para essa restauração parcial, o BC ampliou de 13,5% para 15% a proporção que os bancos recolhem dos depósitos a prazo que recebem. Além disso, a alíquota extra sobre os mesmos depósitos, que havia caído para 4%,  voltou a 8%, e a incidente sobre depósitos à vista, que estava reduzida a 5%,  também passou a essa taxa maior.

Como se percebe, o valor restaurado é de expressiva magnitude, mas antes de passar ao impacto sobre os juros vale lembrar que não se trata de uma contração de  liquidez qualquer, mas sim do enxugamento de um excesso para trazê-la para um nível que o BC entende como adequado. Conforme declarações do presidente do BC, foi percebido esse excesso, tanto de uma forma generalizada, identificada no sistema financeiro como um todo, como na forma de colchões de liquidez mantidos por instituições financeiras  específicas.

Para investidores,  esse excesso começou a ser percebido também em notícias do tipo “...bancos reduzem captações em CDBs”, pois não viam necessidade de recursos adicionais para atender às suas operações de crédito.

Implicações para os juros em geral

No BC a questão dos juros se insere na sua política de metas de inflação e, assim,  as alterações que faz da Selic procuram atender aos propósitos dessa política. Em tese, ele trata os compulsórios de forma separada, neste caso de olho na liquidez do mercado. Em declarações à imprensa, um diretor do BC chegou a afirmar que o aumento do compulsório seria neutro do ponto de vista do seu impacto sobre os juros.

Entretanto, se a liquidez é reduzida, pode haver um impacto que eleva os juros, o que depende muito de como se comportam a oferta e a demanda de recursos. Se a demanda estava sendo atendida, e ainda assim sobrava liquidez que o BC  decidiu reduzir, pode ser que algumas instituições decidam não aumentar os juros que cobram de seus clientes.  Noutras, entretanto, as condições de demanda podem ensejar oportunidades para um aumento das taxas nas novas operações que realizarem.

Mesmo não se sabendo com precisão o impacto final, nossa visão é a de que algum aumento deverá acontecer, em particular porque com a recuperação da economia a demanda de crédito está crescendo, e não encontrará a mesma disponibilidade de recursos que encontrava antes de a decisão do BC ser tomada.

O Impacto sobre a Selic

Neste caso, um impacto que nos parece provável é que com a restauração parcial do compulsório o BC poderá ganhar algum tempo antes de optar por um aumento da Selic, talvez pelo menos mais uma reunião antes de fazer isso. A razão é que se houver esse impacto sobre os juros em geral, o que o BC terá condições de aferir, eles já estariam aumentados sem necessidade de ocorrer a um aumento da Selic para essa finalidade.

Nessas condições, o cenário que se afigura como mais provável é um em que na sua reunião deste mês o Comitê de Política Monetária (Copom) do BC refletirá sobre o impacto  da restauração parcial do compulsório sobre os juros em geral, e ponderará isso na sua decisão. Como achamos que haverá impacto sobre a taxa de juros, ele poderá não realizar o aumento da Selic que alguns analistas já vinham prevendo para essa reunião.  Aliás, depois da decisão de restaurar parcialmente os depósitos compulsórios, parte dessas apostas de um aumento da Selic em março se deslocou para o mês de abril.

É claro que o BC examinará o andar da inflação tanto no passado com nas projeções que faz para o futuro. Pode acontecer também que o Copom se divida a respeito do assunto,  e tenhamos decisões não unânimes antes que esse comitê opte por mudar o curso da Selic, repetindo um processo que já aconteceu algumas vezes no passado.

Implicações para investidores

A decisão do BC deve ser vista com naturalidade, pois é uma medida clássica de enxugamento de liquidez, cujo excesso já se tornava evidente, tanto pelas  medições do BC como na referida referência aos CDBs. Aliás, voltando a esse assunto, ainda que o BC possa adiar um pouco o aumento da Selic, em algumas instituições o enxugamento feito pelo BC pode levar a uma maior necessidade de recursos de investidores, e aumentar as taxas oferecidas por esses papéis. 

Quanto às aplicações mais diretamente referenciadas à Selic, como foi dito a restauração parcial do compulsório pode postergar a decisão de aumentá-la. Mas, por outro lado, essa restauração é também indicativa de que o BC permanece preocupado com a inflação, pois ao enxugar a liquidez reduziu o espaço para crescimento da demanda de crédito, dessa forma reafirmando que a perspectiva de aumento da Selic não saiu do seu radar.

Em suma, para o investidor a decisão mantém o cenário de aumento das remunerações de renda fixa, desde já no caso dos CDBs de algumas instituições, e sem alterar a perspectiva também de aumento da Selic, mesmo que um pouco mais tarde. Em particular porque o cenário de aquecimento da economia e de pressões inflacionárias está se consolidando à medida em que bons resultados de vários indicadores de seu desempenho vêm surgindo, cenário esse que não foi alterado pela decisão tomada quanto aos depósitos compulsórios.

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Roberto Macedo, CFP® (Certified Financial Planner®) e economista formado pela USP com Mestrado e Doutorado pela Universidade Harvard (EUA), é pesquisador da FIPE-USP.  Foi Secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Fazenda e Planejamento, funcionário do Banco Central e do Banco do Brasil.  E-mail: imprensa@bb.com.br. Este texto reflete a opinião do autor e não necessariamente a do BB; tem caráter apenas informativo e não deve ser tomado como recomendação de subscrição, compra ou venda de ativos, decisões estas de responsabilidade exclusiva dos investidores.  

Cenário atualizado da Selic

Ganhou impulso o debate sobre a inflação, as perspectivas de aumento da Selic e quando isto ocorreria. A discussão é estimulada por taxas de inflação maiores e por sinais de que a economia se recuperou da crise por que passou entre os últimos trimestres de 2008 e de 2009, e voltou a crescer com vigor.

Nossa visão da crise abrange esse período porque, embora se recuperando desde o segundo trimestre de 2009,  até o final do terceiro trimestre do mesmo ano a economia brasileira ainda não havia retomado seu patamar pré-crise, segundo dados do PIB trimestral divulgados pelo IBGE. Essa retomada deve ter acontecido no quarto trimestre de 2009 ou nos primeiros meses de 2010, superando assim a fase de crescimento praticamente nulo pela qual passou em 2009, segundo a maioria das previsões.

Vamos examinar dados mais recentes da inflação, mostrar a natureza do referido debate, acrescentar um dado muito importante sobre a recuperação da economia, e concluir com implicações para investidores.

A inflação recente e a discussão em torno dela

A tabela abaixo contém dados mensais de inflação de setembro do ano passado a janeiro de 2010, relativos aos três índices mais acompanhados pelo mercado: o IPCA – índice-meta seguido pelo Copom –,  o IGP-M e o IGP-DI. Em cada mês, a tabela mostra também a taxa de inflação acumulada em doze meses.


Indicadores de Inflação - Últimas Taxas Mensais e Acumuladas em 12 Meses
Setembro de 2009 a Janeiro de 2010 – em %

Índices de Inflação

Setembro de 2009

Outubro de 2009

Novembro de 2009

Dezembro de 2009

Janeiro de 2010

Taxas Mensais

IPCA

0,24

0,28

0,41

0,37

0,75

IGP-M

0,05

0,10

0,10

-0,26

0,63

IGP-DI

0,42

0,05

0,07

-0,11

1,01

Taxas de 12 meses
IPCA

4,34

4,17

4,22

4,31

4,59

IGP-M

-0,40

-1,31

-1,46

-1,71

-0,67

IGP-DI

-0,65

-1,76

-1,33

-1,44

-0,45

Fontes: IBGE e  FGV.

Quanto ao IPCA, recorde-se que para atingir uma inflação anual de 4,5% o centro da meta do Banco Central (BC), a taxa mensal precisa gravitar em torno de um valor médio de 0,367481 ao mês.  Observando a tabela, até dezembro a taxa mensal preenchia esse requisito, pois a acumulada ficava abaixo de 4,5%. Mesmo num mês em que a taxa superou aquele valor, como em novembro, isso foi compensado por taxas menores noutros meses, como em setembro e outubro.

Contudo, 2010 trouxe 0,75% em janeiro, claramente incompatível com 4,5% ao ano. Conforme também mostra a tabela, bastou essa taxa mensal para elevar para 4,59% a taxa em 12 meses do IPCA em janeiro.  Mas, em tese não se pode dar 4,5% em 2010 como um objetivo perdido, pois ainda faltam 11 taxas mensais até o final do ano, as quais poderiam voltar a valores coerentes com o alcance de 4,5% no ano, alguns menores do que a média mensal que leva a essa taxa, para compensar esse descolamento em janeiro.

Nessa linha, uma minoria de analistas argumenta que a inflação observada em janeiro não pode ser tomada como referência para esses outros meses, pois janeiro costuma ter inflação mais alta, devido a aumentos que todo ano nele ocorrem e relativos, entre outros itens, a tarifas de ônibus e preços de materiais escolares, que usualmente sobem nesse mês.    Em 2010,  em janeiro houve também preços mais altos de alimentos “in natura”, devido às fortes chuvas que prejudicaram a sua oferta.

Mais recentemente, a taxa de câmbio, que vinha subindo (em janeiro, a comercial de compra passou de R$1,7412 no final de dezembro para R$1,867 no dia 28, mas desde então caiu), fechou a semana passada mais baixa, em R$1,805, aliviando em parte suas pressões inflacionárias, sobretudo nos preços por atacado. Elas são também evidentes nos números do mês passado mostrados pelo IGP-M e IGP-DI, na mesma tabela. 

A maioria dos analistas, contudo, pondera que a retomada do crescimento vem se mostrando acelerada,  e assim pressionará os preços, o que impediria que a inflação voltasse a se mostrar bem comportada, a ponto de levar ao alcance da taxa anual de 4,5%, a menos que o BC passasse a subir a Selic, e sem mais demora.

Quanto à atividade econômica, na semana passada um indicador atraiu grande atenção dos analistas, pois mostrou aumento vigoroso em janeiro. Foi  o emprego formal avaliado pelo Ministério do Trabalho, e que revelou, nesse mês, as admissões superando os desligamentos em 181.419 empregos. E mais: foi um valor recorde no mês, superando em 27%(!)  o anterior, de janeiro de 2008 (+142.921).  Nessa expansão do emprego, merece destaque a que veio na indústria de transformação (+68.920), pois era o setor que vinha mostrando taxa mais lenta de recuperação, mas que teve também recorde no mês, pois o anterior era de 59.045, também em janeiro de 2008.

Como reagirá o Copom?

Dado esse quadro, houve até quem sugerisse uma saída alternativa à usualmente seguida pelo Copom, de elevar a Selic: aceitar uma inflação um pouco acima do centro da meta, já que a rigor ela envolve um intervalo de dois pontos de porcentagem para cima e para baixo desse centro. Contudo, a maioria do mercado não crê nessa alternativa,  e o último boletim Focus do BC, do dia 12 de fevereiro, mostrava o mercado apostando numa Selic de 11,25% ao ano no final de 2010.

Recorde-se, também, que a última reunião do Copom, em janeiro, reforçou a perspectiva de um aumento da Selic, conforme nosso artigo de 1/2/10. 

Implicações para investidores

Nessas condições, o cenário mais provável permanece um de aumento da Selic, numa das duas próximas reuniões do Copom, elevando assim os ganhos nominais das aplicações em renda fixa. Dado seu valor já atraente, particularmente se avaliado em termos internacionais, e a volatilidade maior que a renda variável vem registrando, a renda fixa revela-se como refúgio adequado à atualidade do mercado financeiro.

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Roberto Macedo, CFP® (Certified Financial Planner®) e economista formado pela USP com Mestrado e Doutorado pela Universidade Harvard (EUA), é pesquisador da FIPE-USP.  Foi Secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Fazenda e Planejamento, funcionário do Banco Central e do Banco do Brasil.  E-mail: imprensa@bb.com.br. Este texto reflete a opinião do autor e não necessariamente a do BB; tem caráter apenas informativo e não deve ser tomado como recomendação de subscrição, compra ou venda de ativos, decisões estas de responsabilidade exclusiva dos investidores.  

Por que poupar é importante


No plano da prosperidade pessoal, familiar e até mesmo nacional, a poupança é tão relevante que se pode falar dela de modo comparável ao de um evangelho, no caso o da poupança. Ele é pregado pelos que como eu acreditam piamente nas inegáveis virtudes que ela tem, e precisa ser repetido exaustivamente para atrair novos fiéis a essa crença, inclusive os incrédulos, e os que por essa ou outras razões não poupam. Na mesma linha, poderíamos chamá-los de pecadores. 

Os jovens, em particular, precisam dar ouvidos a esse evangelho, pois é na sua idade que as pessoas firmam muitas das convicções que irão orientar toda a sua vida.  Falando de minha própria experiência, foi nessa fase que meu pai me convenceu de quão importante era a poupança, e passei a praticá-la logo que comecei a trabalhar com registro em carteira, aos 15 anos. E só tenho a agradecer por essa orientação.

Foi como que um curso de educação financeira, algo que o leitor deve tratar de fazer, seja buscando cursos ou aprendendo por contra própria. Era um termo até então desconhecido, e hoje em moda, a ponto de o governo federal estar desenvolvendo um projeto para levar a educação financeira ao ensino básico.  Entre os adultos, também virou moda falar de planejamento financeiro pessoal, mas posso dizer que com a pregação de meu pai comecei a fazer tal planejamento, ainda que sem esse nome, há mais de cinqüenta anos atrás.

A importância de poupar

Na minha própria pregação da poupança, que neste espaço já havia começado e pretendo repetir com freqüência, no dia 3/8/09 publiquei artigo intitulado “Poupar: o melhor é começar enquanto jovem”.  Nele escrevi sobre o conceito de poupança, discorri sobre sua importância, ressaltando que não se trata  de acumular o dinheiro pelo dinheiro – como o Tio Patinhas às vezes demonstra fazer –, apontei várias razões para poupar,  e ressaltei a necessidade de começar cedo, em particular mostrando o papel que os juros compostos têm  no crescimento da poupança. Se o leitor quiser ler ou reler este artigo, poderá fazer isso diretamente por intermédio do “link” que se segue: http://www.bb.com.br/portalbb/page251,116,2232,1,1,1,1.bb?codigoMenu=1092&codigoNoticia=18648.

Hoje vou adicionar duas histórias verídicas para ilustrar como poupar é importante para alcançar e manter a prosperidade.

Duas histórias de poupança

A primeira é a do Bill Gates, principal acionista da Microsoft, e considerado um dos homens mais ricos do mundo, senão o mais rico. Ele era aluno de graduação na famosa universidade de Harvard (EUA), mas já era fanático por computadores e com alguns colegas com igual interesse passou a desenvolver “softwares” que permitiram o enorme desenvolvimento dos computadores de mesa (os “desktops”) e, mais tarde, dos portáteis (os “laptops” ou “notebooks”, e mais recentemente os “netbooks”, tudo caminhando agora para aparelhos do tipo multimídia que integram também telefonia, música, leitura de livros e outros itens). O  sucesso de Bill Gates foi tal que ele abandonou o curso, mas é muito querido em Harvard, pois em lugar de nela estudar passou a ser um grande doador de recursos.

O que Bill Gates fazia com o dinheiro que ganhava? Mesmo que pensasse em gastá-lo no seu todo ou em grande parte, não poderia fazer isso se quisesse levar adiante seus projetos na Microsoft, pois estava sempre precisando de mais dinheiro para desenvolver novos softwares, contratar gente, comprar instalações, equipamentos e tudo mais que fosse necessário para fazer crescer a empresa.  Do contrário, seria superado pelos concorrentes que logo surgiram na esteira do seu sucesso. Lições básicas: (1) se você quiser começar um negócio, e fazê-lo crescer, precisará poupar boa parte do que ganhou; (2) se você herdar um negócio da família, para mantê-lo em andamento precisará poupar parte substancial dos lucros, pois terá que enfrentar a concorrência e a depreciação do capital do empreendimento, como suas máquinas, equipamentos  e outras instalações.

Outro exemplo interessante é o da Intel, marca famosa de processadores usados nos vários tipos de computadores e outros equipamentos eletrônicos.  Para não ficar para trás, num ramo em constante processo de inovação, ela precisa sempre poupar grande parte dos lucros para investir nos processadores mais modernos que coloca no mercado em intervalos de tempo que se medem em meses.

É certo que esses exemplos são casos de enorme sucesso empresarial.  Mas, pensando agora no mundo mais comum às pessoas, que é tipicamente o de ocupações assalariadas, trata-se de um mercado em que elas precisam se inserir, e que disputarão com outras pessoas. Ademais,  precisam viver dignamente como seres humanos, tendo onde morar e como cuidar do sustento próprio e da família, de seu “progresso científico e tecnológico” (em particular, via educação), além de pensar na aposentadoria e em problemas de saúde que inevitavelmente virão. E a lista de necessidades poderia  prosseguir, incluindo as culturais, de lazer e outros itens.

Não há como ter sucesso nesse destino, sem fazer a própria poupança. E para quem disser, como desculpa para não poupar, que terá uma boa herança, vale lembrar que se trata de poupança alheia, pois poupança não cai do céu. E que será necessário pelo menos não “despoupar”, um movimento de sentido inverso à poupança, que trará o risco de dissipar a que foi herdada.

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Roberto Macedo, CFP® (Certified Financial Planner®) e economista formado pela USP com Mestrado e Doutorado pela Universidade Harvard (EUA), é pesquisador da FIPE-USP.  Foi Secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Fazenda e Planejamento, funcionário do Banco Central e do Banco do Brasil.  E-mail: imprensa@bb.com.br. Este texto reflete a opinião do autor e não necessariamente a do BB; tem caráter apenas informativo e não deve ser tomado como recomendação de subscrição, compra ou venda de ativos, decisões estas de responsabilidade exclusiva dos investidores.

Receita para ser especialista  10 mil horas de prática


É isso mesmo. 10 mil horas que equivalem a 1.250 dias de oito horas de trabalho e a cerca de três anos e meio assim praticando, e seriam mais se fossem descontados fins de semana e férias. Tudo isso desempenhando sempre a mesma atividade em que se busca a especialização. Vamos falar de gente que defende essa receita, dar alguns exemplos e buscar lições.

De onde vem o número

Ele costuma ser citado em artigos voltados para administração de empresas, em particular na área de recursos humanos. Dentro desta, nas discussões sobre aprendizagem e treinamento.

Para entendê-lo, vejamos primeiro o que se entende por um especialista a necessitar de tantas horas de prática. Na literatura anglo-saxônica, esses especialistas costumam ser referidos como “experts”. A tradução em Português é experto, mas é preciso pronunciar essa palavra com bastante cuidado, enfatizando o “x”, para evitar que seja confundida com esperto, que tem  conotações as vezes até pejorativas. Há  quem diga que no Brasil há muitos espertos e poucos expertos.

No caso, especialista não é ser experto em, digamos, colocar e apertar porcas em parafusos. São profissões ou ocupações mais exigentes em termos de habilidade e treinamento, e algumas também requerem extensa formação educacional. Nesse sentido, podemos falar de artistas, esportistas, cirurgiões, dentistas e quaisquer outros profissionais que atuem em áreas muito exigentes em termos de competência, para quem quer chegar ao topo delas. Alguns desses profissionais são também considerados autoridades num assunto, pessoas que se destacam naquilo que fazem, com competência inclusive para fazer avaliações de outros profissionais do ramo e de questões a ele pertinentes, avaliações essas que são valorizadas por seus pares e pelo público em geral.

Alguns exemplos

Vamos citar alguns casos de amplo conhecimento, mas há também os que são conhecidos apenas na área em que atuam e junto daqueles a que servem. No Brasil, dentro do primeiro grupo e sem vacilar poderíamos citar o craque Pelé, o compositor e maestro Villa-Lobos, o cirurgião Adib Jatene e o arquiteto Oscar Niemeyer. Aprendemos sobre esses nomes pela sua notoriedade que alcança o público em geral. Mas, vale insistir que há esse outro grupo dos que não têm tanta fama, que raramente surgem nos meios de comunicação, mas que são também expertos dignos do nome, e constituem a maioria deles.

É esse grupo que um jovem deve mirar como modelo para se tornar um especialista. Em geral tomamos conhecimento dos que o integram quando estudamos um assunto a fundo ou precisamos de um profissional e saímos a buscar informações sobre, digamos, um especialista em determinada doença, um bom dentista ou um contador de prestígio. Muitas informações vêm do chamado boca-a-boca, e se avançarmos nessa linha veremos que elas costumam convergir para os nomes de algumas pessoas. 

Voltando a alguns exemplos entre os mais notórios, e buscando também figuras no campo internacional, é costume citar os “Beatles”,  cuja  banda tocou cerca  de sete anos antes de alcançar enorme sucesso. Na história desse período pré-sucesso costuma haver referência a um período em que os “Beatles” tocavam em casas noturnas de Hamburgo, na Alemanha,  num regime de oito horas por noite.

Outro exemplo muito citado é o de Bill Gates, criador da Microsoft, que ainda no ensino médio já era ligado aos computadores de forma obsessiva. Quando abandonou seu curso de graduação em Harvard para iniciar essa empresa, certamente já havia ultrapassado essas 10 mil horas de dedicação a um assunto.

Lições

10 mil horas é um número para ser pensado, mas não se trata de ir contando as horas uma a uma. É preciso vê-lo no seu significado mais amplo, de que nada se consegue, salvo raríssimas exceções, sem um enorme esforço. É verdade que dois sortudos levaram cada um cerca de R$70 milhões na Mega-Sena do dia 31/12/09, com apostas de apenas seis números num jogo onde a probabilidade de acertar é de uma em 50 milhões, jogando dessa forma. Tente acertar com um dado. Nele, a probabilidade de acerto é de uma em seis,  e você verá que errará na maioria (cinco entre seis) vezes se repetir a experiência um grande número de vezes.

No caminho trivial, a vida exige muito empenho e dedicação, mas é menos arriscada para as pessoas que para ganhar a vida e se realizarem profissionalmente procuram ser competentes naquilo que fazem. Assim, escolha o que você quer fazer como profissional, investigue as oportunidades de trabalho na área escolhida, mude de rumo se necessário, mas mantenha o esforço em busca da competência, fixando-se nos exemplos,  notórios ou não, dos muitos que a conseguiram.

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Roberto Macedo, CFPTM (Certified Financial PlannerTM) e economista formado pela USP com Mestrado e Doutorado pela Universidade Harvard (EUA), é pesquisador da FIPE-USP.  Foi Secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Fazenda e Planejamento, funcionário do Banco Central e do Banco do Brasil.  E-mail: imprensa@bb.com.br. Este texto reflete a opinião do autor e não necessariamente a do BB. 
 

O Ibovespa de novo acima de 70 mil pontos

Com vários fatores a estimulá-la, a Bovespa superou logo no seu primeiro pregão de 2010 a barreira dos 70 mil pontos, aproximando-se do seu recorde histórico de 73,4 mil pontos em 19/5/2008. No processo, superou também, pelo menos em parte, o obstáculo do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF),  de 2%,  criado pelo governo federal a partir do dia 20 de outubro do ano passado, sobre o ingresso de recursos de estrangeiros para aplicações nos mercados financeiro e de capitais.

Resumiremos a evolução do Ibovespa desde seu valor mais baixo depois que a crise econômico-financeira eclodiu em setembro de 2008 (29.435 pontos em 27/10/08), apontando fatores estimulantes que reverteram essa queda. Em seguida, examinaremos as perspectivas para 2010, realçando os fatores de estímulo adicional. E, ainda, os que trazem riscos para continuidade dessa boa fase, bem como a ocasião em que terão maior probabilidade de se manifestar. Concluiremos com lições e implicações para investidores.

A evolução do Ibovespa
Depois de alcançar o recorde histórico de 19/5/08, cerca de cinco meses depois o Ibovespa havia despencado para apenas 29.435 pontos.   Dados do Ibovespa a partir de então são apresentados na tabela abaixo.

Ibovespa, em Pontos
Datas, Índices  e Valores de Barreiras Superadas  nessas Datas,  a Partir do Valor mais Baixo Pós-crise (29.435 pontos, em 27/10/08) e
 Número de Dias (Pregões) de Duração das Barreiras Ultrapassadas

Data

Índice

Valor da Barreira Superada

Dias de Duração da Barreira

28/10/2008

33.387

30 mil

1

04/11/2008

40.255

40 mil

7

04/05/2009

50.405

50 mil

121

16/09/2009

60.410

60 mil

96

04/01/2010

70.045

70 mil

73


Logo depois de cair para esses 29.435 pontos, note-se que em apenas oito pregões o Ibovespa superou 40 mil pontos. Esse período será registrado na história do mercado de ações do Brasil tanto pela forte queda que veio antes como por ter representado grande oportunidade de ganhos, dentro de uma das regras que os investidores procuram seguir, a de comprar na baixa, embora muitos deixem passar oportunidades como essa, acreditando que a queda vai continuar.

Recorde-se que a economia havia entrado numa recessão, e ainda então sem qualquer perspectiva de saída, mas houve investidores que se convenceram de que as ações ficaram muito baratas e foram às compras, levando a um rápido impulso do índice. Como a recessão continuou, a cautela voltou a prevalecer e só depois de 121 pregões, em cerca de seis meses, é que a barreira dos 50 mil pontos foi rompida. Aí, já no segundo trimestre de 2009, surgiam evidências de que a economia havia voltado a crescer, encerrando sua fase recessiva, mas a ciência disso ainda não era disseminada.  Dados do PIB confirmaram isso em agosto, já no terceiro trimestre, e logo ao final dele foram superados os 60 mil pontos.   No início do quarto trimestre veio o IOF postergando o passo seguinte, dos 70 mil pontos, só assegurado no primeiro pregão de 2010.

Na quarta-feira passada o Ibovespa chegou a  70.729 pontos, sua melhor marca desde o pregão de 5/6/2008, quando fechou com 71.209 pontos, e já agora novamente não muito longe do recorde histórico de 73,4 mil pontos. Na quinta e na sexta, com duas pequenas quedas, o Ibovespa mostrou resistência nos 70 mil, fechando a semana com 70.262 pontos.

No processo que o trouxe até esse valor, ocorreu tanto essa percepção de melhoria da economia brasileira como a de que nos países desenvolvidos, onde a crise foi mais forte, o pior cenário foi evitado, mas com ela ainda mostrando seus efeitos.  Nesse contexto, o Brasil passou a ser visto como atrativo também para os investidores desses países, que fortemente contribuíram para a recuperação do Ibovespa, num movimento desestimulado - mas não revertido -,  pela imposição do IOF de 2%.

O que pode manter ou prejudicar crescimento do Ibovespa 
Do lado favorável, há o cenário de um bom desempenho da economia brasileira em 2010, com reflexos positivos nos balanços empresariais, atraindo investidores nacionais e estrangeiros, estes ainda vendo um cenário nada encorajador em seus países.

Quanto ao que pode atrapalhar, o mercado espera que em algum momento os países desenvolvidos avançarão na recuperação, o que dará confiança a seus governos para reverter  estímulos fiscais e monetários dados às suas economias, levando também a  aumentos de suas taxas de juros, e tornando seus mercados financeiros mais atraentes.

A expectativa predominante, contudo, é que esses movimentos previstos lá fora só ocorreriam no segundo semestre deste ano e não seriam suficientes para conter os estímulos da recuperação brasileira e o que ela enseja de atrativos para os investidores estrangeiros. Mas, há também o que advertem que os riscos de novas tempestades vindas de fora são consideráveis, ainda que sem a intensidade das que precipitaram a crise.

Lições e implicações para investidores
Boas oportunidades, como a dos oito dias do início da tabela, são raras e é preciso estar alerta. Bem mesmo se saíram os que venderam no pico e compraram no vale dos 30 mil ou mesmo nos 40 ou 50 mil pontos. Em segundo lugar, os que não venderam na alta, e agora vêm recuperando as perdas. Pior mesmo se saíram os que compraram na alta e venderam na baixa.

Quanto aos que ficaram de fora, foi mais um período a ensinar que o mercado de ações é para quem tem disposição e recursos para arriscar. Os jornais recentes mostraram várias matérias em que predominaram análises otimistas de analistas do mercado e números como 80 ou mesmo 85 mil pontos até o fim do ano. É mesmo um cenário para pessoas com essas características.

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Roberto Macedo, CFPTM (Certified Financial PlannerTM) e economista formado pela USP com Mestrado e Doutorado pela Universidade Harvard (EUA), é pesquisador da FIPE-USP.  Foi Secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Fazenda e Planejamento, funcionário do Banco Central e do Banco do Brasil.  E-mail: imprensa@bb.com.br. Este texto reflete a opinião do autor e não necessariamente a do BB; tem caráter apenas informativo e não deve ser tomado como recomendação de subscrição, compra ou venda de ativos, decisões estas de responsabilidade exclusiva dos investidores. 

Balanço de aplicações financeiras em 2009


A virada do ano é época de balanços, e vamos também fazer um deles para as aplicações financeiras que mais atraem os investidores. Apesar da crise econômico-financeira que prejudicou seriamente o PIB de 2009 – a ponto de levar a uma previsão próxima de zero para o seu crescimento no ano –,  de um modo geral os que seguiram poupando e aplicando não têm do que se queixar, pois os ganhos reais na renda fixa, inclusive na poupança,  foram consideráveis, em termos absolutos e em comparações internacionais. Ademais, o mercado de ações voltou a liderar a corrida dos rendimentos apresentando os maiores ganhos das várias aplicações cujos números serão analisados.
Concluiremos com o cenário para 2010 e implicações para investidores.   


Os números

A tabela abaixo mostra as taxas de rendimentos nominais de sete aplicações financeiras que respondem pela maior parte das aplicações dos investidores. Os números alcançam o mês de dezembro e o ano como um todo conforme detalhes nas notas acrescentadas à tabela. Para fins de comparação, à tabela foram acrescentadas variações da Selic, do CDI, do IPCA e do IGP-M registradas ou estimadas para os mesmos períodos.

Rendimento Nominal(*) em dezembro (**) e no ano até esse mês – Em %

Aplicação

Dezembro

No ano até dezembro

Selic/CDI

0,73/0,72

9,93/9,88

Fundos Referenciados DI

0,58

10,02

Fundos Renda Fixa

0,62

10,32

CDBs(**)

0,69

10,02

Poupança (***)

0,55

6,92

Ibovespa

2,30

82,66

Dólar Comercial Mercado

-0,63

-25,32

Ouro BM&F-Bovespa – Spot

-10,57

-4,61

IPCA-IBGE

0,34

4,28

IGP-M-FGV

-0,26

-1,72

Fonte:  jornal  Valor (30/12/09), baseado  em  informações   do   mercado, colhidas até o dia anterior; Ibovespa atualizado até o dia 30; índices de preços correspondem a números definitivos do IGP-M  e projeções para o IPCA do Relatório Focus, do Banco Central (BC). No caso dos fundos e CDBs há  diferenças relativamente a outras fontes,  derivadas  de  critérios de levantamento, além de a remuneração de cada investidor e de suas aplicações dependerem muito de especificidades, como valor aplicado, fundos escolhidos, taxas de administração, alíquota aplicável do Imposto de Renda (IR) e negociações caso a caso.
(*) salvo menção em contrário, rendimento bruto, sem desconto do IR e taxas de administração, se cabíveis;  (**)  taxa  para  aplicações  no  primeiro  dia do  mês; (***) rendimento mensal de contas com vencimento no primeiro dia útil do mês.

Todas as aplicações com taxas positivas bateram por larga margem o IGP-M, que tanto em dezembro como no ano registrou taxas negativas, sendo que no último caso significa a primeira deflação desde 1989.  No ano passado, esse índice havia subido 9,81%, o que evidencia o bom comportamento da inflação em 2009, refletido também no IPCA que se prevê abaixo do centro da meta fixada pelo BC. O mercado financeiro sempre apreciou comparações com o IGP-M na avaliação dos rendimentos reais, mas com esses números desse índice em  2009 talvez prefira deixar essas comparações de lado. Contudo, mesmo relativamente ao IPCA os ganhos são relevantes, o que se ressalta também em comparações internacionais, pois particularmente nos países desenvolvidos as taxas de juros nominais e reais são muito inferiores às brasileiras.
Na renda fixa um destaque cabe aos números da poupança. Com a queda da Selic para 8,75% ao ano (a tabela mostra taxas Selic/CDI de 0,73/072% em dezembro, que  em janeiro estavam em 1,05/1,04), os rendimentos da poupança, isentos de taxas de administração e de IR para as pessoas físicas, foram consideráveis se comparados aos dos fundos que são sujeitos a esses custos, particularmente aqueles de menores limites mínimos de aplicação, cujos rendimentos líquidos são hoje frequentemente batidos pelos da poupança. Na renda variável, o destaque foram as ações, que mostraram forte recuperação, com o Ibovespa fechando o ano em 68.588 pontos, já bem próximo do recorde de 73,4 mil pontos, alcançado em 19/5/08.

Olhando a frente: o cenário para 2010
Tudo indica que o novo ano será bom tanto para poupar como para aplicar. Depois de um ano em que o crescimento do PIB deve ter registrado um número próximo de zero, os analistas estimam um crescimento próximo de 5% em 2010, o que deverá contribuir para gerar mais rendimentos em geral (salários, lucros empresariais e  honorários profissionais, entre outros), o que permitirá poupar mais.
Do lado das aplicações, a renda fixa tem um cenário atraente, pois não há previsões de novas quedas da Selic. Ao contrário, com a retomada do crescimento, é provável que o Conselho de Política Monetária (Copom) do BC se antecipe ao efeito de pressões inflacionárias e aumente essa taxa, num movimento que ao final de 2010 poderia levá-la a 10,75% ao ano, se confirmada a última previsão do Relatório Focus do BC. Assim, o cenário é particularmente favorável para investidores que conseguirem remuneração bruta bem próxima da Selic e papéis sem taxas de administração ou fundos com taxas desse tipo bem baixas. Note-se que há esse cenário de a Selic subir em 2010 com uma inflação ainda bem comportada, que o mesmo relatório prevê em 4,5%, garantindo assim uma ampliação dos ganhos reais.  Com essa taxa de inflação, também a poupança continuará atraente.
Quanto à renda variável, as atenções estarão concentradas no Ibovespa. Há corretoras prevendo que poderá ultrapassar tanto os 70 mil como os 80 mil pontos em 2010, mas os riscos são altos, e isso deve ser ponderado principalmente pelos que só agora pensam em entrar no mercado. Do lado positivo, há essa perspectiva de crescimento do PIB que costuma favorecer o Ibovespa, tal como acontecia antes da crise.
Tudo isso ponderado, de um modo geral o cenário hoje é estimulante tanto para ganhar mais, como para poupar, aplicar ou mesmo investir em outros ativos que costumam reagir positivamente ao crescimento do PIB, tais como imóveis e atividades empresariais.  Em qualquer caso, nossa pregação continua a mesma, pois não depende de crises: todos devem continuar poupando e aplicando, e é o que desejamos a todos neste alvissareiro início de 2010.

Roberto Macedo, CFPTM (Certified Financial PlannerTM) e economista formado pela USP com Mestrado e Doutorado pela Universidade Harvard (EUA), é pesquisador da FIPE-USP.  Foi Secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Fazenda e Planejamento, funcionário do Banco Central e do Banco do Brasil.  E-mail: imprensa@bb.com.br. Este texto reflete a opinião do autor e não necessariamente a do BB; tem caráter apenas informativo e não deve ser tomado como recomendação de subscrição, compra ou venda de ativos, decisões estas de responsabilidade exclusiva dos investidores.

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Cenários de 2010 para reflexão de investidores


O ano de 2009 está chegando ao fim. Isso ocorre num momento em que o Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro retorna ao seu nível pré-crise, e avança no sentido de superar esse nível. Também é um momento em que economistas, empresários e analistas econômicos em geral se mostram confiantes de que a economia terá um feliz Natal e um próspero Ano Novo.

Vamos examinar os argumentos que sustentam essas expectativas e os números correspondentes no caso de variáveis macroeconômicas importantes. Examinaremos também o que os cenários que apontam significam para investidores num momento em que seu olhar se volta para o ano que chega.

O quadro atual da economia 

Com a crise que veio em setembro de 2008, o PIB caiu 3,4% no último trimestre do ano passado, mais 1,0%  no primeiro trimestre de 2009, totalizando uma queda de  4,37%.  Esse movimento para baixo foi interrompido no segundo trimestre deste ano, com um aumento de  1,9%,  caracterizando o fim da recessão iniciada no último trimestre de 2008, pois os economistas convencionaram que uma recessão ocorre quando o PIB de uma economia cai por dois trimestres consecutivos.

Contudo, esse aumento não significou o fim da crise, no sentido de o PIB voltar ao nível que se encontrava antes dela.  Do ponto a que chegou no segundo trimestre deste ano, seria necessário que o PIB houvesse subido 2,62% no terceiro para marcar o fim da crise.

Quando concluíamos este artigo, os dados desse trimestre ainda não eram disponíveis, mas é pouco provável que essa taxa tenha sido alcançada, pois significaria que a economia estaria crescendo a uma taxa anualizada de mais de 10%.  Se isso aconteceu, ótimo, mas realisticamente o mais provável é que a saída da crise só se consolide neste final de ano, no trimestre corrente.

Nesse caso, sabe-se que a economia está se recuperando a uma velocidade que deverá permitir o fim da crise neste trimestre, começando o Ano Novo com seu PIB com seu valor real já um pouco acima daquele em que estava quando veio a tempestade.

Vários indicadores apontam nessa direção. Entre eles, os de produção física e de utilização de capacidade da indústria, os de vendas do comércio varejista, os de crédito aos consumidores e de inadimplência dos que se endividaram, e os de emprego e desemprego.

A inflação se mantém bem comportada. Conforme avaliada pelo IPCA, o índice-meta da política monetária, seu passado recente revela que se mantém abaixo do centro da meta (4,5% ao ano), e as estimativas quanto à inflação de 2010 mostrada pelas últimas atas do Comitê de Política Monetária (Copom), do Banco Central (BC) também indicam que ela se comporta conforme o propósito dessa política.

Quanto ao mercado financeiro, a Selic teve seu valor reduzido para 8,75% ao ano, o nível mais baixo a que chegou depois que a política de metas de inflação foi instituída, significando uma taxa real próxima de 4,50%. É  ainda distante do ideal, mas bastante razoável para uma economia como a brasileira, com sua história inflacionária e ainda resquícios institucionais desse período, como os juros de 6% ao ano atribuídos às contas de poupança.

O Ibovespa também mostrou recuperação considerável, fechando a semana passada em 67.082 pontos, com o que revelou recuperação de mais de 100% relativamente ao seu ponto mais baixo depois da crise (29.435 pontos, em 27/10/09).

A mesma crise provocou inicialmente uma subida da taxa de câmbio em reais por dólar, mas essa subida se revelou temporária. Com sucessivas quedas, essa taxa no comercial estava em R$1,743 na sexta-feira passada, próxima de seu valor pré-crise, colaborando significativamente para aliviar as pressões inflacionárias. 
 
As expectativas do mercado financeiro para o final de 2009 e para 2010

As expectativas que examinaremos são as levantadas toda sexta-feira pelo BC, e incluídas no Boletim Focus divulgadas na segunda-feira seguinte. A tabela abaixo mostra números do levantamento feito no dia 20/11/09, divulgados no dia 23/11/09, para PIB, inflação medida pelo IPCA, Selic e taxa de câmbio.


Expectativas de Mercado para Valores de
Variáveis Macroeconômicas Selecionadas - 2009 e 2010

Variável

2009

2010

PIB (% de crescimento)

0,21

5,00

IPCA (variação anual - %)

4,26

4,43

Selic (fim de ano - %a.a.)

8,75

10,50

Tx. de câmbio (fim de ano - R$/US$)

1,70

1,74

Fonte: Focus – Relatório de Mercado – 20/11/2009


Quanto a 2009, elas revelam o quadro acima apontado, ou seja, o PIB saindo da crise, a inflação dentro da meta, a Selic no ponto a que chegou (sem previsão de variação até o fim do ano) e a taxa de câmbio próxima do seu valor mais recente. Para 2010 o quadro se mantém nos casos da inflação e da taxa de câmbio.  Quanto ao PIB, a previsão é de que a recuperação deverá levar um crescimento de 5%, com pressões inflacionárias que fariam o Copom subir a Selic para 10,5% até o final do ano.

Implicações para investidores

Antes de prosseguir vale lembrar que os números da tabela relativos a 2009 devem coincidir com os efetivamente realizados (no caso da Selic), ou serão próximos deles, pois já estamos bem perto do final do ano. Quanto a 2010, são previsões sujeitas a erros maiores, pois refletem as expectativas atuais para um futuro mais longínquo e sujeito à influência de fatores imponderáveis neste momento.

Dado esse cenário, os investidores também têm razões para estar confiantes e ampliar suas aplicações. Com a inflação prevista, a Selic continuará trazendo uma remuneração real positiva e ímpar em termos internacionais para investidores que alcançarem ganhos próximos dela. E há ainda a perspectiva de aumento da Selic em 2010. Como tudo indica que foi abandonada a idéia de tributar a poupança das pessoas físicas, e como ela oferece 6% de juros mais TR, sua atratividade, recuperada em 2009, deverá se manter em 2010. Enquanto isso, o dólar permanece sem atrativos.

Em que pesem os seus muitos riscos, a perspectiva para a Bolsa é favorável, pois costuma acompanhar o crescimento da economia, e há forte interesse de investidores estrangeiros, que o governo vem procurando conter com o IOF sobre as aplicações desses investidores, num movimento que representa mais um no elenco dos que afetam o mercado acionário.

Roberto Macedo, CFPTM (Certified Financial PlannerTM) e economista formado pela USP com Mestrado e Doutorado pela Universidade Harvard (EUA), é pesquisador da FIPE-USP.  Foi Secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Fazenda e Planejamento, funcionário do Banco Central e do Banco do Brasil.  E-mail: imprensa@bb.com.br. Este texto reflete a opinião do autor e não necessariamente a do BB; tem caráter apenas informativo e não deve ser tomado como recomendação de subscrição, compra ou venda de ativos, decisões estas de responsabilidade exclusiva dos investidores.

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Poupança versus fundos e o dilema do governo: tributar ou não a poupança

A julgar pela manchete principal da Folha de S. Paulo do último sábado, o presidente Lula desistiu de submeter ao Imposto de Renda (IR) os rendimentos de contas de poupança com saldo mensal superior a R$50 mil, mesmo na segunda e mais simples versão do projeto elaborado pela equipe econômica do governo.  A reportagem esclarece que a decisão ainda poderá ser repensada, se houver insistência do ministro da Fazenda, Guido Mantega. Mas, realisticamente, hoje são pequenas as chances de o projeto ser enviado ao Congresso com efetivo apoio do governo e de sua base política.

Examinaremos as razões que estariam a sustentar essa decisão, os dados da movimentação recente da poupança e dos fundos, e implicações para os investidores.


Em baixa a cotação da idéia

A lógica da idéia era a de que a Selic em queda traria o risco de uma fuga substancial de recursos da poupança para fundos de renda fixa.  Isto porque a primeira tem um rendimento fixo de 6,17% ao ano, mais a TR, ambos isentos de IR (para pessoas físicas e para pessoas jurídicas sem fins lucrativos), enquanto que sucessivas quedas da Selic levaram-na para 8,75% ao ano, em tese tornando a poupança claramente atrativa. Simulações de rendimentos desses fundos baseadas no recebimento integral da Selic, com um IR de 20% e taxas de administração próxima de 1% mostram isso. A tributação de rendimentos da poupança contribuiria para reverter esse quadro.

Acontece que na prática ainda não se verificou uma fuga preocupante para a poupança, conforme dados que mostraremos mais à frente.  Várias razões explicariam isso: (1) instituições financeiras reduziram taxas de administração de fundos; (2) houve também as que modificaram carteiras desses fundos, procurando ampliar seus rendimentos, inclusive acima da Selic; (3) investidores estariam em compasso de espera, aguardando decisões governamentais quanto ao IR da poupança e, eventualmente, até de redução do IR sobre os fundos; (4) nestes, a maior parte dos investimentos vêm de pessoas jurídicas com fins lucrativos, que já são tributadas na poupança, com um IR de 20% sobre os rendimentos; (5) pequenos investidores, que constituem a maioria dos que aplicam na poupança, conhecem bem suas fáceis regras, e apreciam sua facilidade operacional próxima de uma conta corrente, não tendo maior interesse pelos fundos mesmo com a Selic atual, dado que não dominam bem as suas regras e entendem que eles não têm essa mesma facilidade; (6) o mercado hoje aposta numa subida da Selic em 2010, na esteira da recuperação da economia, o que levaria a pressões inflacionárias e a uma reação do Banco Central, aumentando  a taxa básica de juros e a atratividade dos fundos.

E há vários argumentos políticos que também estão a minar a idéia: (1) sua impopularidade agravada porque há quem fale de uma “mexida na poupança”, procurando associá-la ao bloqueio de depósitos no início do governo Collor, em 1990; (2) o temor de repercussões negativas para o governo, particularmente porque seria instituída às vésperas de um ano eleitoral; (3) o receio de que a discussão no Congresso prejudicaria o andamento dos projetos do Pré-sal, tidos como prioritários pelo governo.

Tudo isso explica porque o governo se inclina por deixar as coisas como estão.


Os dados da movimentação dos fundos e da poupança

São apresentados a seguir, cobrindo o patrimônio líquido (PL) em setembro de 2009 dos cinco maiores fundos, e sua captação líquida no mês e no ano até esse mês. Para a poupança, o saldo das contas no final do mesmo mês e essa captação.


Fundos de Investimentos com maior PL no Final de Setembro de 2009,  e Captação Líquida no Mês e no Ano até o Mês – Valores em R$ bilhões


Tipo do FundoPL em 30/09/2009

Captação líquida

em setembro

Captação líquida no

ano até setembro

Referenciado DI

191,9

1,4

-5,1

Renda Fixa

362,8

-2,0

6,6

Multimercados

323,1

9,3

31,5

Previdência

137,9

6,2

15,9

Ações

152,0

-0,1

0,9

Total de Fundos (*)

1.305,3

9,0

72,6


 Fonte: ANBID – Boletim Fundos de Investimentos – Setembro, 2009.
(*) Inclui fundos de Curto Prazo, Cambial, Dívida Externa, FIDC, Imobiliário e Participações.  Não inclui os fundos “off-shore”. (www.anbid.com.br)

Cadernetas de Poupança (*) –   Saldo das Contas em Setembro de 2009, Captação Líquida no Mês e no Ano até o Mês -  Valores em R$ bilhões


Saldo das contas em

30/09/2009

Captação líquida

em setembro

Captação líquida

no ano até setembro

299,9

3,5

15,7


 Fonte: Banco Central – Relatório sobre a Poupança – Setembro, 2009. (*) Inclui SBPE e Rural


Quanto aos fundos, relativamente ao seu patrimônio percebe-se que os DI e de renda fixa propriamente dita têm apresentado uma baixa captação no ano (negativa no caso dos fundos) se comparada à dos fundos multimercados e de previdência. Contudo, não se trata necessariamente de uma fuga para a poupança, pois os dois últimos fundos também têm componentes de renda fixa.

Quanto à poupança, verifica-se que sua captação no ano, em reais e  relativamente ao saldo das contas, superou a dos fundos DI e de renda fixa, mas isso pode ter representado tanto uma saída destes como recursos novos atraídos pela renovada atratividade da poupança e/ou à espera da decisão do governo.  Essa atratividade também transparece de outra forma, pois se sabe que desde abril a captação líquida da poupança tem sido positiva, não mostrando oscilações anteriormente comuns.

Contudo, como foi visto essa atração ainda não se revelou suficiente para induzir maiores movimentos em termos absolutos e relativos na direção da poupança, a ponto de levar o governo a insistir com a idéia de tributar os rendimentos da poupança.


Implicações para os investidores

Já estamos em meados de outubro, e para vigorar em 2010 a tributação de rendimentos da poupança precisaria ser aprovada até o fim do ano. Confirmada a ausência de alterações, esse será o melhor cenário para o investidor, pois terá preservada a poupança como alternativa, ao mesmo tempo em que nos fundos se beneficiará de vantagens que as instituições financeiras passaram a oferecer aos investidores, como as reduções de taxas de administração e a reestruturação de carteiras para assegurar maiores rendimentos. Quem não sabe dessas novidades deve conversar com seu Gerente de
Relacionamento para conhecê-las.

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Roberto Macedo, CFP® (Certified Financial Planner(R)®) e economista formado pela USP com Mestrado e Doutorado pela Universidade Harvard (EUA), é pesquisador da FIPE-USP.  Foi Secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Fazenda e Planejamento, funcionário do Banco Central e do Banco do Brasil.  E-mail: imprensa@bb.com.br. Este texto reflete a opinião do autor e não necessariamente a do BB; tem caráter apenas informativo, e não deve ser tomado como recomendação de subscrição, compra ou venda de ativos, decisões estas de responsabilidade exclusiva dos investidores.  

Cenário pós-ata do Copom de setembro de 2009


A ata da reunião, concluída no dia 2 deste mês, na qual o Comitê de Política Monetária (Copom), do Banco Central (BC),  decidiu manter a Selic, ou taxa básica de juros em  8,75% ao ano, foi bastante elucidativa quanto às razões que levaram à decisão.

Vamos examiná-las no que significam para um futuro que alcança 2010, bem como inferir da ata o que indica quanto aos próximos movimentos da Selic. Concluiremos com implicações para investidores.

Ata,  atitude e futuro da Selic

Lendo a ata, a atitude do Copom parece comparável à de um médico que fez um diagnóstico, aplicou  o remédio em que é especialista,  conforme as dosagens que lhe pareceram adequadas, e viu o paciente reagindo favoravelmente. Agora viu com tranqüilidade os bons resultados que, na sua avaliação, novos exames clínicos vêm revelando, e optou por não fazer qualquer alteração no tratamento.

Recorde-se que no seu atual ciclo de atuação o Copom foi chamado a intervir quando sobreveio, no último trimestre de 2008, a recessão desencadeada pela crise econômico-financeira internacional. Observando a economia prostrada, recorreu ao tratamento de sua especialidade, reduzindo a Selic de 13,75% ao ano para 8,75% ano, esta última dosagem na reunião de julho, o que levou uma queda total de cinco  pontos percentuais, ou 36,4% da taxa que prevalecia no início do processo.

O que viu na reunião do início deste mês? Olhando a inflação do IPCA, concluiu que, em síntese, “o conjunto das informações disponíveis sugere que a aceleração inflacionária observada no ano passado vem sendo superada”, o que também confirmou ao analisar os resultados dos IGPs.

Passando à atividade econômica, constatou que “o comportamento da série da indústria geral, e de seus componentes, sugere que o piso da produção ocorreu em dezembro-janeiro, sendo seguido por gradual recuperação”. Mas, acrescentou que, observados os indicadores de utilização de capacidade compilados pela CNI e pela FGV, “... as evidências sugerem que seguem reduzidas as pressões de demanda sobre a capacidade produtiva da indústria...”.  E que “o mercado de trabalho parece tender a um comportamento mais favorável, no qual aspectos de resiliência predominariam em relação a sinais de perda de vigor.”

Quanto ao comércio, concluiu que “os dados ... vêm desde o início do ano evidenciando recuperação influenciada, principalmente, pela alta nas vendas de veículos, em resposta a incentivos setoriais concedidos pelo governo e à melhora no acesso ao crédito automotivo.

Na frente externa, encontrou sinais de que “...a tendência de diminuição da aversão ao risco e da escassez de fluxos de capitais, bem como certa preocupação entre os investidores quanto à situação fiscal nos EUA, continuou ensejando movimento de recuperação de moedas, de economias emergentes e maduras, ante o dólar americano.” Ou seja, de valorização do real, que alivia pressões inflacionárias.

Com esses elementos e outros, como sua visão da taxa de câmbio, dos preços do petróleo, da questão fiscal e das expectativas do mercado financeiro, passou à inflação futura, que é a mais relevante para o seu processo decisório. Aí constatou que no que chama de cenário de referência, “a projeção para a inflação de 2009 reduziu-se em relação ao valor considerado na reunião do Copom de julho e se encontra abaixo do valor central de 4,50% fixado como meta...”. No que chama de cenário de mercado, “...a projeção de inflação para 2009 também se reduziu em relação ao valor considerado na última reunião do Copom e também se encontra abaixo do valor central da meta para a inflação. Para 2010, no cenário de referência, a projeção se elevou e se encontra em torno da meta; ao passo que recuou no cenário de mercado, mas permanece em torno da meta.”  Ou seja, uma visão também tranqüilizante.

Sendo assim, por que não uma nova queda da Selic?

Mais ao final da ata, o Copom enfatizou novamente que “...a perda de dinamismo da demanda doméstica gerou ampliação da margem de ociosidade da utilização dos fatores, ocasionando redução das pressões inflacionárias”, mas que no curto prazo, “os riscos para a consolidação de um cenário inflacionário benigno derivam ... da atuação de mecanismos de reajuste que contribuem para prolongar no tempo pressões inflacionárias observadas no passado, como evidencia o comportamento dos preços dos serviços,  e ... uma eventual elevação dos preços de commodities. No médio prazo, o risco advém dos efeitos, cumulativos e defasados, da distensão das condições financeiras e do impulso fiscal sobre a evolução da demanda doméstica, levando-se em conta a dinâmica do consumo e do investimento, em contexto de retomada da utilização dos fatores de produção.”

Nessa linha, ressaltou, mais uma vez, que há defasagens importantes entre a implementação da política monetária e seus efeitos tanto sobre o nível de atividade como sobre a inflação. E que “... tais considerações ganham ainda mais relevância em momentos cercados por mais incerteza.” E mais: “Nessas circunstâncias, ... o Copom avalia que a política monetária deve manter postura cautelosa, com vistas a assegurar a manutenção da convergência da inflação para a trajetória de metas.

Ou seja, está tudo bem, mas agora é preciso ter cautela,  aguardar novas reações do paciente, e só eventualmente atuar sobre a dosagem da Selic.

Como não vemos perspectivas de esse quadro se alterar no horizonte imediato, a perspectiva para as reuniões do Copom que ainda se realizarão este ano, a serem concluídas em 21 de outubro e 9 de dezembro, é de estabilidade da taxa. Tampouco vemos maiores alterações para 2010, talvez um pequeno aumento se a economia se recuperar mais fortemente e os preços reagirem com algum vigor. Com os esclarecimentos da ata, uma queda se tornou agora menos provável.

Implicações para investidores

Com essa perspectiva de uma Selic estável, investidores terão melhores condições de reexaminar as alternativas de aplicação, levando-se em conta seus elementos fundamentais, a liquidez, o risco e a rentabilidade. De novidade, deverá vir a decisão final do governo quanto à tributação da caderneta de poupança, pois exigiria aprovação até o dezembro, parecendo-nos hoje que deixará as coisas como estão.

Insistimos novamente que muito importante, e particularmente neste momento em que a Selic se estabiliza,  são as conversas com os Gerentes de Relacionamento, para saber o que se passa com os vários fundos de renda fixa disponíveis, pois sua remuneração se alterou na sequência de reduções das taxas de administração e de mudanças na composição da sua carteira de títulos, buscando elevar essa remuneração.
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Roberto Macedo, CFPTM (Certified Financial PlannerTM) e economista formado pela USP com Mestrado e Doutorado pela Universidade Harvard (EUA), é pesquisador da FIPE-USP.  Foi Secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Fazenda e Planejamento, funcionário do Banco Central e do Banco do Brasil.  E-mail: imprensa@bb.com.br. Este texto reflete a opinião do autor e não necessariamente a do BB; tem caráter apenas informativo e não deve ser tomado como recomendação de subscrição, compra ou venda de ativos, decisões estas de responsabilidade exclusiva dos investidores.

Balanço da crise econômica mundial e no Brasil

Roberto Macedo


Como a crise econômica permanece, examinaremos seu estágio atual. Vamos ver o que se passa lá fora e os desenvolvimentos no Brasil, de olho em informações recentes e concluindo com implicações para  investidores.


A crise lá fora

No caso da economia mundial, em particular a dos EUA, essas informações revelam uma economia bastante combalida pelos efeitos da crise, mas pelo menos não se agravando e mostrando alguns sinais de recuperação.

Assim, na semana passada nos EUA foram anunciadas melhorias nos indicadores de seguro-desemprego, e um novo crescimento do indicador relativo ao início de construção de moradias e do de permissões para novas construções, estes dois últimos particularmente importantes, dado o impacto que a crise teve nesse setor.

Na economia global, a melhoria foi refletida pelo fato de que o Fundo Monetário Internacional (FMI) recentemente reviu para cima suas projeções do crescimento econômico mundial neste e no próximo ano. Na média, houve um aumento de meio ponto percentual nas projeções divulgadas trimestralmente, a última em julho, relativamente às de abril.

Particularmente boa foi na semana passada a de que o PIB da China cresceu 7,9% no segundo trimestre, acima do resultado do primeiro (6,1%), e das previsões dos analistas (6,1%), o que no Brasil repercutiu favoravelmente sobre as ações da Vale e de empresas do setor siderúrgico.


E no Brasil?

Dado esse contexto mundial onde a China começa a mostrar maiores sinais de reativação, mas sem ter condições de arcar sozinha com a recuperação, no Brasil permanece ainda prejudicado o estimulo que vinha de fora para dentro para o crescimento do nosso PIB, mediante ampliação das nossas exportações. Entretanto,  o segundo motor da economia, o seu crescimento interno, vem dando sinais claros de uma recuperação,  ainda que sem retomar a velocidade que tinha antes da crise.

Assim, nos últimos dias vieram do IBGE os dados do comércio varejista que em maio surpreenderam os analistas subindo 0,8% relativamente a abril, e 4% acima de maio de 2008.

Contudo, esses dados do comércio, que aqui não mostrou uma queda sensível como efeito da crise, devem ser tomados com cautela porque na sua base preponderam  informações dos supermercados, um setor dominado pela demanda de bens de consumo não duráveis, a qual se sustenta melhor mesmo em períodos de crise,  em face da prioridade dada a esses bens pelos consumidores.

No caso do crédito merece destaque um novo indicador nacional produzido pelo Serviço Central de Proteção ao Crédito (SCPC),  de São Paulo. Também divulgado na semana que passou, ele cobre dados desse SCPC e de entidades congêneres em 2200 municípios do país,  abrangendo cerca de 20 milhões de consultas mensais a esses serviços quanto aos clientes que procuram lojas e instituições financeiras. Esse índice apresentou variação de 0,5% em junho com relação a maio,  registrando aumento pelo segundo mês consecutivo, e indicando que o credito ao consumidor está em fase de recuperação. Ademais, o índice mostra-se fortemente correlacionado com a produção industrial, pois diz respeito principalmente à demanda de bens duráveis e semi-duráveis que constituem parcela importante da produção industrial. Com isso, o resultado do índice nacional SCPC é também um indicador da melhoria desse setor.

De forma correspondente, na indústria a produção líquida do efeito sazonal mostrou em maio um aumento de 1,3% sobre o mês anterior. Conforme o IBGE, foi o quinto resultado mensal positivo e consecutivo, acumulando uma variação de 7,8% desde dezembro de 2008. Contudo, a produção permanece bem abaixo de seus maiores níveis anteriores,  pois o  indicador acumulado de janeiro a maio ficou 13,9% inferior ao resultado do mesmo período do ano passado. Mas, em compasso de melhoria,  pois no período janeiro-abril esse indicador havia revelado uma queda de 14,6%.

Registre-se também que na semana passada o Ministério do Trabalho anunciou que em junho último o saldo de admissões e desligamentos de empregados formais foi positivo em 119,5 mil trabalhadores, o melhor resultado deste ano, e até aqui já revelando recuperação de metade do número de empregos  perdidos durante a crise.

Olhando esse conjunto de indicadores, eles sustentam a expectativa de que os dados do PIB relativos ao segundo trimestre de 2009 já deverão mostrar uma melhoria quando divulgados,  fazendo com o que o PIB possa mostrar uma pequena taxa positiva. Se não nesse trimestre, pelo menos no terceiro, superando assim os dois trimestres negativos, o ultimo de 2008 e o primeiro de 2009, que tecnicamente caracterizaram uma recessão no Brasil.


Implicações para investidores

No mercado financeiro, o impacto dessas informações da semana passada foi o de nova alta da Bovespa,  de 5,8% na semana,  voltando a superar os 50 mil pontos e concluindo-a com 52.072. Mas, note-se que no início de junho ela havia já havia chegado a 54.48l pontos, mas depois não resistiu a uma onda de más notícias levando-a a 49.177 pontos no dia 8 de julho.
 Essa permanece a característica do mercado de ações, que sobe e desce ao sabor das notícias,  estando ainda longe de marcar uma tendência que inspire maior confiança aos investidores. Há, contudo, espaço para escolhas seletivas daqueles que garimparem informações, mas sempre atentos aos desenvolvimentos nacionais e internacionais, em particular a entrada ou não de recursos externos.

Nesse contexto,  e apesar da queda da sua remuneração, a renda fixa brasileira  permanece um refúgio seguro e rentável, com sua  remuneração ainda entre as maiores do mundo. 
 Nesta semana, a expectativa dos analistas é de uma nova, mas menor queda da Selic, o que deverá esquentar novamente o debate em torno do temor governamental de uma fuga dos fundos para a poupança, e da sua propalada intenção de tributar os rendimentos dessa aplicação e de aliviar a dos fundos. Com o governo esperando para ver a reação dos investidores, a movimentação mais interessante é a das próprias instituições financeiras, ao reduzirem  direta ou indiretamente as taxas de administração dos fundos, um assunto que os investidores devem acompanhar com grande atenção.

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Roberto Macedo, CFPTM (Certified Financial PlannerTM) e economista formado pela USP com Mestrado e Doutorado pela Universidade Harvard (EUA), é pesquisador da FIPE-USP.  Foi Secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Fazenda e Planejamento, funcionário do Banco Central e do Banco do Brasil.  E-mail: imprensa@bb.com.br. Este texto reflete a opinião do autor e não necessariamente a do BB; tem caráter apenas informativo e não deve ser tomado como recomendação de subscrição, compra ou venda de ativos, decisões estas de responsabilidade exclusiva dos investidores. 

Cenário pós ata do Copom de abril de 2009

Roberto Macedo

O Comitê de Política Monetária (COPOM), do Banco Central (BC), divulgou a ata da reunião de abril na qual reduziu a taxa básica de juros ou SELIC em um ponto percentual (p.p.), trazendo-a de 11,25 para 10,25% ao ano. A ata veio bastante esclarecedora, não só quanto às razões que justificaram a decisão, mas também ao dar uma visão bem clara da disposição do Copom em continuar reduzindo a taxa além da própria percepção que o mercado financeiro tinha até então. O Copom foi mais longe, pois na ata procurou até mesmo mudar essa percepção do mercado. Vamos examinar trechos importantes do documento, inclusive o que fala da necessidade ajustar a remuneração líquida dos fundos de renda fixa e da poupança com o objetivo de garantir a competitividade dos primeiros no processo de redução da Selic. Concluiremos com implicações para investidores.

Trechos importantes da ata

Resumindo o diagnóstico que levou a decisão, como de hábito o Copom reviu os dados da inflação passada, que apresentaram um quadro favorável à decisão. Reviu também as condições da economia, que a mostraram ainda prostrada pela queda que sofreu no ultimo trimestre de 2008, e com alguns indícios de recuperação, mas ainda longe de sair de sair desse nível a que caiu. Como sempre mais preocupado com a inflação futura, o Copom apresentou suas tradicionais estimativas quanto a isso nos dois cenários que usualmente utiliza. Sua conclusão foi a de que em ambos dos cenários as previsões para 2009 “... encontram-se sensivelmente abaixo do valor central de 4,50% para a meta fixada pelo Conselho Monetário Nacional (CMN)”. Para 2010, o mesmo diagnóstico foi encontrado para um dos cenários. No outro, as projeções ficaram em torno desse valor. O trecho mais interessante fala da disposição do Copom de continuar o processo de redução da Selic, redigido nestes termos: “O Comitê entende que o desaquecimento da demanda, motivado pelo aperto das condições financeiras e pela deterioração da confiança dos agentes, ainda que nos dois casos se observe alguma melhora na margem, bem como pela contração da economia global, criou importante margem de ociosidade dos fatores de produção que não deve ser eliminada rapidamente (grifo nosso) em um cenário de recuperação gradual da atividade econômica. Esse desenvolvimento deve contribuir para conter as pressões inflacionárias, mesmo diante das consequências do processo de ajuste do balanço de pagamentos e da presença de mecanismos de realimentação inflacionária na economia, abrindo espaço para flexibilização da política monetária.” Recorde-se que essa questão da demanda sempre preocupou o Copom e foi o aquecimento dela nos três trimestres iniciais de 2008 que o levou a um ciclo de aumentos da taxa de juros, depois substituído pelo atual, de reduções, que sobreveio na sequência da presente crise econômico-financeira. Ademais, as notícias de que a economia havia dado sinais de melhora haviam levado muitos analistas a imaginar que o Copom interromperia mais cedo o processo de redução, percepção essa refletida no ultimo relatório Focus, o de 30 de abril, o qual previu que essa taxa ficaria em 9,25% no final do ano, ou seja, admitindo apenas mais 1 p.p. de redução, e que voltaria a subir em 2010, ao final do qual chegaria a 9,50. A propósito, o trecho citado deixa claro que hoje o Copom admite que a oportunidade de reduzir a Selic vai mais longe do que imaginava o mercado, e a ata deve afetar as expectativas que se evidenciarão nesta e nas próximas semanas por meio do relatório Focus. Sob esse aspecto, o Copom foi ainda mais explicito ao dar um recado ao mercado, afirmando que: “ ... entende também que a melhora do cenário prospectivo para a inflação em 2009 e em 2010 não foi, até o momento, incorporada na estrutura a termo da taxa de juros.” No mesmo dia em que veio a ata, o mercado logo promoveu um ajuste da curva de juros futuros, iniciando um movimento para trazê-los para níveis mais condizentes com essas expectativas agora reformuladas pela ata. Na esteira desse recado, também foram negativamente afetadas as expectativas de que o Copom necessariamente irá subir a Selic em 2010.

Rendimentos dos Fundos X Rendimentos da Poupança

Como outros analistas, há tempos insistimos que o governo precisa resolver o problema de que novas reduções da Selic acabariam por tornar mais atrativa a aplicação na poupança relativamente aos fundos de renda fixa, criando dificuldades para o próprio governo, pois esses fundos são fundamentais para o financiamento da divida pública. Trata-se de problema muito sensível para o governo, pois tem implicações políticas muito fortes, e ele vem tratando do assunto com bastante cautela. Com relação a isso, ainda que implicitamente, e também com muita cautela, a ata deu à necessidade de resolver o problema um senso de urgência ao afirmar que “... o Comitê entende que a continuidade do processo de flexibilização monetária torna premente (grifo nosso) a atualização de aspectos, resultantes do longo período de inflação elevada, que subsistem no arcabouço institucional do sistema financeiro nacional.” Para o mercado, essa referência ao “arcabouço institucional” significa uma referência às regras da poupança e o trecho grifado denota esse senso de urgência. No mesmo dia em a ata foi divulgada, voltaram a esquentar as notícias de que o Governo se aproxima de resolver esse assunto. No momento a hipótese mais verossímil é a de que passará a ser cobrado Imposto de Renda (IR) também das pessoas físicas nas aplicações em poupança, a partir de um saldo de valor ainda não determinado, numa medida eventualmente combinada com redução do IR sobre rendimentos dos fundos.

Implicações para o investidor

Fica claro, portanto, que na renda fixa as duas questões mais relevantes do momento são essas da pendência que envolve os fundos e a caderneta de poupança, e a perspectiva, agora reforçada, de novas reduções da Selic. Quanto a essa pendência, o investidor pode ficar tranqüilo, pois o governo não iria prejudicar a indústria de fundos, pois precisa dela. Além disso, a poupança de pequeno valor deverá ser preservada de medida governamental redutora de sua remuneração, a qual só seria adotada se a Selic chegasse muito perto do ganho da poupança, o que ainda não está no horizonte. Agora, está também mais claro um cenário de queda tanto da remuneração nominal quanto real dos fundos de renda fixa, pois a inflação está se estabilizando em torno da meta enquanto a remuneração nominal acaba de cair e deverá sofrer novas quedas, ressalvada uma alteração do cenário atual. De qualquer forma, ainda são remunerações atrativas em termos internacionais e, ainda, particularmente nesta época de crise onde outros agentes econômicos estão perdendo rendimentos, tanto de salários que se vão com empregos perdidos e de lucros que caem na esteira da crise.
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Roberto Macedo, CFPTM (Certified Financial PlannerTM) e economista formado pela USP com Mestrado e Doutorado pela Universidade Harvard (EUA), é pesquisador da FIPE-USP. Foi Secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Fazenda e Planejamento, funcionário do Banco Central e do Banco do Brasil. E-mail: imprensa@bb.com.br. Este texto reflete a opinião do autor e não necessariamente a do BB; tem caráter apenas informativo e não deve ser tomado como recomendação de subscrição, compra ou venda de ativos, decisões estas de responsabilidade exclusiva dos investidores.

Cenário pós-redução da Selic em abril de 2009

            O Comitê de Política Monetária (Copom), do Banco Central (BC),  na sua reunião concluída na quarta-feira da semana passada, decidiu reduzir a Selic, ou taxa básica de juros, em l ponto percentual (p.p.), fixando-a em 10,25% ao ano. A redução veio sem nenhuma surpresa, pois a esmagadora maioria dos analistas, inclusive este, havia apostado nesse número.

            Vamos examinar o comunicado da decisão e razões que a explicam, as quais poderão ou não coincidir com as da ata a ser divulgada nesta semana. Além disso, vamos apresentar algumas considerações sobre o que pode acontecer na próxima reunião, e buscar implicações para os investidores, sempre tendo como pano de fundo o estado da economia nesta fase da crise.

 

O comunicado e a decisão

O comunicado com que o Copom anunciou a redução da Selic veio em termos bem simples, dizendo apenas que  “Avaliando o cenário macroeconômico e visando ampliar o processo de distensão monetária, o Copom decidiu reduzir a taxa Selic para 10,25% a.a., sem viés, por unanimidade.”

Em particular, não veio referência à redução como “parte relevante do processo de ajuste”, como já aconteceu no passado, o que dava claramente a entender que novas reduções viriam, e provavelmente de magnitude menor do que a realizada.

Note-se, entretanto, que o Copom afirmou que há um “processo de distensão monetária” em curso, e não disse que foi encerrado com a decisão, mantendo assim a perspectiva de novas reduções. De qualquer forma, a menos que a ata venha com termos mais esclarecedores, ficou mais difícil o trabalho dos analistas quanto ao que virá na próxima reunião. Um dos motivos, como veremos abaixo, é que a economia está mostrando alguns sinais de reação.

            Quanto à redução da Selic em si, ela veio porque a economia continua em crise e os indicadores de uma inflação em queda a justificam. Conforme mostramos no nosso artigo de 20 de abril, tanto o IPCA como o IGP-M e o IGP-DI vinham caindo desde janeiro deste ano até março, tanto nas suas taxas mensais como nas  de 12 meses, sendo que esses dois IGPs mostraram deflação em março e o segundo desde fevereiro.

            Em abril, o IGP-10, apurado até esse dia voltou a mostrar deflação, caindo 0,71%, enquanto que o IGP-M do mês, divulgado no dia 29, também mostrou queda, de 0,15%. Já o IPCA-15 acelerou sua taxa para 0,36%, bem acima da taxa de março (0,20), mas ao que tudo indica por questões sazonais. Em particular, um aumento médio de 1,82% nos salários das empregadas domésticas, na esteira do reajuste do salário mínimo, e uma forte elevação dos preços dos cigarros (6,62%), puxado pelo maior IPI fixado no início do mês de abril para esse produto.

Quanto à inflação futura, o Copom deve ter feito seus exercícios usuais, que predominantemente devem ter apontado para uma inflação em queda se também avaliada dessa forma, conforme deverá ser esclarecido pela ata do encontro.

            É sobre a evolução da economia que há mais novidades. Conforme nosso artigo da semana passada, tanto na indústria como na agricultura e no comércio, a situação da economia é que houve uma queda na virada do ano, mas ela não vem se agravando, mostra alguma melhora  e pelo lado do crédito também estamos longe do aperto ocorrido nos países mais atingidos pela crise.

            Na semana passada vieram novos indícios na mesma linha, conforme a sondagem conjuntural da FGV junto a empresários, em abril, a qual mostrou indicadores também sensivelmente abaixo dos  do mesmo período do ano anterior, mas com alguma recuperação relativamente a março tanto da utilização da capacidade instalada e principalmente da confiança dos empresários.

            Cabe, entretanto, a pergunta: por que 1 p.p. e não novamente 1,5 p.p?  Uma das razões deve ter sido esse estado da economia, mais animador.  Outra seria que o Copom permanece sob pressão para fazer reduções maiores,  e deve ter entendido conveniente não gastar muita munição em mais uma delas, reservando alguma para o futuro e assim alongar o tal “processo de distensão monetária.”     

 

O cenário à frente para a Selic

            Para a próxima reunião, com final em 10 de junho, vamos começar com uma previsão novamente de 1 p.p.  O valor seria esse porque apesar dos sinais de alguma recuperação da economia eles ainda são fracos, e até a reunião economia ainda deverá continuar prostrada pelo baque que sofreu na virada do ano.

            Também como já assinalamos em artigos anteriores, um elemento importante a ser agregado no exame desse assunto é que a diminuição da Selic reduz as vantagens dos fundos de renda fixa relativamente à caderneta poupança. Isso é um problema para o governo, e a solução não veio na semana anterior à da reunião, conforme chegou a ser anunciado. Mas, virá em algum momento, pois o Copom não pode continuar reduzindo a Selic sem que o governo resolva essa pendência. O investidor deve estar atento, e o cenário mais provável é um em que será mantida a atratividade da caderneta para o pequeno investidor e dos fundos para os demais.

            É bem provável que o assunto se decida antes da próxima reunião do Copom, pois essa última redução da Selic deve ter agravado o problema.

 

Implicações para o investidor

            Quem está nos fundos e agora pensa na poupança deve acompanhar o desfecho dessa pendência, mas desde já sabendo que o governo não irá prejudicar a indústria de fundos, pois precisa deles para financiar sua dívida. Quanto à remuneração deles e, de um modo geral, das aplicações direta ou indiretamente ligadas à Selic, ela deverá continuar caindo em termos nominais, mas com isso compensado em parte pela queda da inflação, daí decorrendo remunerações atrativas em termos reais, particularmente se comparadas às disponíveis em outros países.

            Em situações de queda da Selic, aplicações pré-fixadas, inclusive em fundos concentrados em papéis desse tipo, costumam se destacar, pois o rendimento real tende a subir com a queda da inflação ao mesmo tempo em que a taxa nominal é mantida, e não cai como a das aplicações ligadas à taxa básica de juros.

            Com o alento que a economia vem mostrando, aqui e lá fora, a Bovespa também o segue, tendo superado os 45 mil pontos e mostrado sustentação.  Riscos de queda e de volatilidade permanecem, e quem optar por ela deve estar ciente desses riscos, e ter disposição para assumi-los, bem como condições de enfrentar eventuais perdas.

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Roberto Macedo, CFPTM (Certified Financial PlannerTM) e economista formado pela USP com Mestrado e Doutorado pela Universidade Harvard (EUA), é pesquisador da FIPE-USP.  Foi Secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Fazenda e Planejamento, funcionário do Banco Central e do Banco do Brasil.  E-mail: imprensa@bb.com.br. Este texto reflete a opinião do autor e não necessariamente a do BB; tem caráter apenas informativo e não deve ser tomado como recomendação de subscrição, compra ou venda de ativos, decisões estas de responsabilidade exclusiva dos investidores.

Cenário das aplicações após rendimentos de fevereiro de 2009

No mês de fevereiro, como em janeiro,  o ouro liderou as aplicações quando avaliadas nos seus rendimentos. Na renda fixa, a queda da Selic em janeiro, de 13,75% para 12,75% ao ano, aliada ao menor número de dias úteis, fez com que em fevereiro os rendimentos das aplicações dentro da categoria geral de renda fixa fossem menores do que em janeiro. Em cada mês, o Ibovespa ficou nos extremos, mostrando entre as aplicações analisadas o pior desempenho em fevereiro, depois de ser o melhor de janeiro.

Como a inflação bem comportada e a Selic ainda bem alta, os rendimentos de aplicações direta ou indiretamente ligados a essa taxa se saíram bem em ambos os meses superando claramente a inflação medida pelo IGP-M, que teve variação negativa em janeiro e abaixo de 0,30 em fevereiro. E, também,  a do IPCA, este com taxas positivas em ambos os meses, mas abaixo da Selic. A poupança também ganhou do IGP-M, mas perde do IPCA previsto para fevereiro.

Vamos examinar números desses dois meses e o cenário que vislumbramos à frente com as implicações para os investidores.

 

Os números do primeiro bimestre de 2009

A tabela abaixo apresenta para os meses de janeiro e fevereiro os rendimentos das sete aplicações financeiras que atraem o maior interesse dos investidores.   Inclui também os números da taxa Selic e dos dois índices de inflação mais levados em conta pelo mercado, o IPCA e o IGPM. O rodapé contém as fontes e notas técnicas relevantes para entender o significado desses números.

 

Taxa Selic, Rendimentos Nominais(*) de Aplicações e Índices de Inflação (IPCA e IGP-M) em Janeiro e Fevereiro de 2009 – Em %

Selic, Aplicações e Índices de Inflação

Janeiro

Fevereiro

Taxa Selic

1,10

0,90

Fundos Referenciados DI

1,06

0,95

Fundos Renda Fixa

1,05

0,92

CDBs(**)

1,01

0,81

Poupança (***)

0,68

0,55

Ibovespa

4,66

-2,84

Dólar Comercial

-0,69

2,24

Ouro BM&F – Spot

5,55

3,70

IPCA(****)

0,48

0,59

IGP-M

-0,44

0,26

Fontes:  Informações publicadas  por  jornais  na virada dos meses, baseados em  informações de instituições do mercado.    Nos casos  dos  fundos e dos CDBs há diferenças entre as fontes derivadas de  critérios de levantamento. Em razão disso, e de algumas observações que se seguem, o investidor deve examinar os  próprios rendimentos que obteve. (*) Salvo menção  em  contrário, rendimento bruto,  sem  Imposto de  Renda(IR) quando aplicável  e  taxas  de  administração, se  cabíveis;  (**)  taxa para o primeiro dia  do mês;  (***) rendimento  relativo às contas  com   vencimento no primeiro dia útil  do mês  seguinte; (****) IPCA  de fevereiro conforme previsão do boletim  Focus-Relatório de Mercado, de  20/2/09.

 

 

            Além dos aspectos já abordados inicialmente, a tabela também mostra o dólar com variação negativa em janeiro e positiva em fevereiro, mas sem subir muito ou despencar, com os dados diários indicando uma variação entre R$2,20 e R$2,40 por dólar nesses dois meses.

            O ouro liderou as aplicações em dois meses, descolando-se das variações do dólar, e indicando um movimento típico de crises financeiras, em que investidores buscam refúgio nesse metal  buscando preservar o valor de seu patrimônio,  e também obter ganhos com a valorização do ouro.

                       

O cenário à frente

            A tabela abaixo mostra o cenário que contemplamos no momento. As aplicações em renda fixa têm um horizonte em torno de três meses, exceto a poupança, de cenário que alcança o meio do ano.  Este também vale para Ibovespa e o câmbio, dado que o cenário previsto para os dois deve se estender por um período de tempo maior.

 

Cenários para as principais aplicações financeiras em 2008

Aplicação

Cenário

Fundos DIRemuneração nominal em queda, dadas as perspectivas quanto às próximas decisões do Copom, mas com os ganhos reais mais firmes, tendo em vista que a inflação vem caindo.
Fundos de renda fixaMesmo cenário dos fundos DI. Fundos específicos de renda fixa poderão mostrar maiores rendimentos, pois podem ser favorecidos com a “marcação a mercado”  de papéis pré-fixados que tendem a se valorizar em momentos de queda da Selic.
CDBsEssa queda também pode oferecer boas perspectivas para os CDBs pré-fixados. Tanto nesse caso como nos pós-fixados, o rumo das operações de crédito dos bancos poderá afetar sua disposição de oferecer taxas bem atrativas nas negociações caso a caso, como aconteceu em 2008.
PoupançaCom a queda da Selic, deverá diminuir a diferença de remuneração que usualmente favorece os fundos DI e de renda fixa. Dada a ausência do IR para pessoas físicas e de taxa de administração, para as aplicações menores a poupança poderá aumentar sua atratividade relativamente a esses fundos, mas se esse movimento for forte o governo poderá mudar o cálculo da TR e os bancos reduzirem suas taxas de administração.
IbovespaDepois de chegar perto dos 30 mil pontos reagiu, mas vem mostrando dificuldades de superar efetivamente os 40 mil pontos, onde bate e volta. Em torno desse nível tem mostrado uma volatilidade menor, mas riscos de queda permanecem como evidenciados no mês de fevereiro. Como sempre, exige propensão ao risco e a seletividade adquire importância cada vez maior, conforme demonstram os maus resultados de muitas ações lançadas sob a forma de oferta pública inicial.
DólarValorização ocorrida no último trimestre do ano passado vem sendo contida com medidas do Banco Central para compensar as dificuldades de obtenção de crédito externo, medidas essas que se apóiam no grande volume de reservas. Evolução recente sugere que a taxa se acomodou entre R$2,20 e R$2,40.
OuroEm momentos de crise ganha atratividade, mas envolve o duplo risco do preço do metal e o da taxa cambial, exigindo conhecimentos mais amplos por parte do investidor e propensão para assumir esses riscos.

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Roberto Macedo, CFPTM (Certified Financial PlannerTM) e economista formado pela USP com Mestrado e Doutorado pela Universidade Harvard (EUA), é pesquisador da FIPE-USP.  Foi Secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Fazenda e Planejamento, funcionário do Banco Central e do Banco do Brasil.  E-mail:. Este texto reflete a opinião do autor e não necessariamente a do BB; tem caráter apenas informativo e não deve ser tomado como recomendação de subscrição, compra ou venda de ativos, decisões estas de responsabilidade exclusiva dos investidores.  

Próximo Copom: cairá a Selic mais um ponto percentual?

            Aproximando-se a reunião de 11 de março do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC), intensificaram-se as especulações quanto ao que decidirá na ocasião. Isso, depois que na sua última reunião, em janeiro, a Selic foi reduzida de 13,75% para 12,75% ao ano, marcando o início de um ciclo de quedas, pois a ata do encontro deixou claro que foi iniciado  “um processo de flexibilização da política monetária realizando de imediato parte relevante (grifo nosso) do movimento da taxa básica de juros...” .             Ou seja, se foi dito que era uma parte, isso indica que virão outras. Quanto a ser “parte relevante”, não significa muito no que tange ao que virá, apenas que não haverá excessos.

            Contudo, desde a reunião de janeiro a situação da economia deteriorou-se ainda mais, e a maioria dos analistas trabalha hoje com a expectativa de que virá outra queda de igual magnitude, ou seja, um ponto percentual ou 100 pontos-base.

            Vamos analisar as razões que sustentam essa hipótese a partir dos últimos dados sobre o desempenho da inflação e da economia, bem como apontar as implicações para os investidores.

 

Os dados mais recentes

            A tabela abaixo mostra dados de inflação de dezembro e janeiro, relativos a três índices acompanhados pelo mercado, o IPCA, de preços ao consumidor e cobertura nacional, que é o índice-meta seguido pelo Copom, o IGP-DI, também de cobertura nacional, no qual predominam os preços no atacado, e o IPC-FIPE, outro de preços ao consumidor, tendo como base a região metropolitana de São Paulo.

 

Indicadores de Inflação - Últimas Taxas Mensais e em 12 Meses

Dezembro de 2008 e Janeiro de 2009

Índices de inflação

Dezembro de 2008

Janeiro de 2009

    Indicadores de Inflação – Taxas Mensais

 

 

        IPCA

0,28

0,48

        IGP-DI

-0,44

0,01

        IPC-FIPE

0,16

0,46

      

 

 

    Idem, em 12 meses

 

 

         IPCA

5,90

5,84

         IGP-DI

9,10

8,05

         IPC-FIPE

6,16

6,11

                      Fontes: IBGE, FGV e FIPE.

 

            Esses três índices tiveram vários traços comuns no seu desempenho recente. Primeiro, vinham caindo desde outubro até dezembro do ano passado, num processo que acompanhamos em artigos anteriores.  Segundo, como se pode observar pela tabela, em janeiro experimentaram aumento das taxas mensais.  Terceiro, mesmo com esse aumento, as taxas em 12 meses registraram queda, significando que as mensais de janeiro de 2008 eram maiores que as de janeiro de 2009.

            Os analistas não deram maior importância a essa subida em janeiro, seja porque os números relativos a 12 meses mostraram decréscimo, seja porque viram nos aumentos do mês alguns acontecimentos com impacto apenas nele, como elevações dos preços de produtos agrícolas decorrentes  de problemas climáticos,  aumentos de tarifas de serviços de transporte coletivos e de mensalidades escolares.

Quanto aos dados relativos à atividade econômica, eles demoram mais a sair e os janeiro só recentemente passaram a ser divulgados.  Quanto ao que até então mostravam, desde o final do ano passado vários indicadores, como os de produção industrial, utilização de capacidade e emprego formal passaram a revelar uma economia em desaquecimento.  Na semana passada, causou grande impacto a notícia de que dados do Caged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados), revelaram novo resultado negativo em janeiro, com a perda de 101 mil empregos. O impacto veio também porque foi a primeira vez em 10 anos que o mês teve variação negativa do número de empregos.

Já em fevereiro, também gerou grandes manchetes a decisão da Embraer, de despedir 4.200 trabalhadores de um total de 21.400 mil que empregava. É uma notícia emblemática das dificuldades que algumas empresas exportadoras estão encontrando para colocar seus produtos num mercado mundial que passa por desaquecimento.

 

Na avaliação do mercado financeiro...

            Esse quadro da inflação com tendência de queda e não alterado pelos dados de janeiro, mais as más notícias sobre atividade econômica, alteraram significativamente a expectativa quanto ao que o Copom fará na próxima reunião.   Isso fica claro dos dados do Relatório Focus do BC, que levanta semanalmente as expectativas desses analistas, nesse caso com relação à taxa Selic no final de março, ou seja, após a reunião que o Copom realizará nesse mês.

            Assim, a mediana dessas previsões evoluiu de uma taxa de 12,50% ao ano no levantamento realizado 16/1/09, para 12%, em 6/2/09 e para 11,75%, em 13/2/09, mostrando assim que convergiu para uma queda de um ponto percentual, dado que a taxa atual é de 12,75% ao ano. Se a queda for menor será porque o Copom terá entendido que a maior inflação de janeiro não foi transitória e se prolongou em fevereiro, e/ou porque optou por diluir o ciclo de queda da Selic num número maior de etapas.   

 

Implicações para os investidores

            Conforme vimos assinalando em nossos artigos com a queda da inflação o ganho real das aplicações direta ou indiretamente ligadas a uma Selic de 13,75% ao ano passou a crescer. Assim, desde janeiro a queda já ocorrida e a prevista para essa taxa afetará apenas um pouco a remuneração que os investidores vinham recebendo antes dessa queda.  Portanto, não há por que deixar essas aplicações. Para quem quiser fazer isso, uma possibilidade que pode ser interessante é a das lastreadas em papéis pré-fixados, que costumam ficar mais atraentes quanto a perspectiva é de redução da Selic.

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Roberto Macedo, CFPTM (Certified Financial PlannerTM) e economista formado pela USP com Mestrado e Doutorado pela Universidade Harvard (EUA), é pesquisador da FIPE-USP.  Foi Secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Fazenda e Planejamento, funcionário do Banco Central e do Banco do Brasil.  E-mail: imprensa@bb.com.br. Este texto reflete a opinião do autor e não necessariamente a do BB; tem caráter apenas informativo e não deve ser tomado como recomendação de subscrição, compra ou venda de ativos, decisões estas de responsabilidade exclusiva dos investidores.  

Cenário dos juros pós-ata do Copom de janeiro-2009

           A ata mostrou o que levou o Comitê de Política Monetária (Copom), do Banco Central (BC), a iniciar um ciclo de redução da taxa básica de juros (Selic) na reunião concluída no dia 21, após a qual a taxa passou de 13,75% para 12,75% ao ano.

            Exceto quanto à sua magnitude, o movimento foi bem antecipado pelos analistas e a ata não trouxe maiores novidades quanto às percepções que levaram à decisão. Contudo, os analistas e o noticiário sobre o assunto enfatizam informações passadas, em particular as de inflação e de desempenho da economia.  Por sua vez, o Copom também faz exercícios quanto a inflação futura.  Como é ela que está na sua mira, esses exercícios são particularmente importantes.

Quanto ao futuro da Selic, a ata confirmou que o Copom deverá realizar outras reduções, mas não deu uma indicação de sua magnitude.  Ou melhor, disse que a redução de um ponto percentual é “parte substancial” do ajuste que realizará, mas isso não significa muita coisa, pois tudo depende de como o quadro evoluirá.

Vamos examinar alguns aspectos da ata, em particular os que dizem respeito ao futuro, e concluir com implicações para os investidores.

 

O olhar sobre o passado

            Observando o índice-meta de sua política monetária, o IPCA, o Copom iniciou a ata constatando que a inflação “...recuou de 0,36% em novembro para 0,28% em dezembro. Note-se que, ao contrário dos trimestres anteriores, no último trimestre de 2008 a inflação acumulada (1,09%) foi sensivelmente inferior àquela registrada em igual período de 2007 (1,43%).”

            Ainda a respeito desse índice assim concluiu: “Em síntese, o conjunto das informações disponíveis sugere que o ciclo inflacionário observado nos últimos trimestres tende a ser superado, gradativamente... . ”

            O IGP-DI também recebeu a atenção usual do Copom, pois é importante ao refletir principalmente os preços no atacado, os quais podem repercutir no IPCA no futuro. Além disso, o IGP-DI recebe grande influência da taxa cambial, cujas variações podem ter forte impacto sobre vários preços.

            Nesse caso, o Copom concluiu que ... “ ... não obstante os efeitos da depreciação cambial ocorrida desde agosto, tanto os preços agrícolas no atacado quanto os industriais têm registrado deflação na margem.”  Por deflação devem ser entendidas taxas de inflação negativas, como a registrada pelo mesmo índice em dezembro.

Quanto ao nível de atividade econômica, como de praxe o Copom examinou dados de produção industrial e de vendas do comércio varejista (do IBGE), e de uso da capacidade instalada na indústria (do IBGE e da CNI), também encontrando quedas na margem recente das séries desses dados.  Só no mercado de trabalho viu um quadro ambíguo, com redução de empregos formais nas pesquisas junto aos empregadores e estabilidade do índice de desemprego conforme avaliado nas famílias. Entretanto, os especialistas no assunto apontam que janeiro já deverá mostrar um quadro agravado deste último índice, pois no fim do ano há maior  emprego sazonal e muitas pessoas não procuram trabalho nessa época, deixando assim de serem contadas como desempregadas.

De qualquer forma, olhando o conjunto de informações a conclusão do Copom não mostrou ambigüidade. Textualmente, foi a de que “Em síntese, as evidências sugerem que ocorre redução das pressões de demanda sobre a capacidade produtiva da indústria”.  A propósito, registre-se que, conforme demonstrado nas atas das três últimas reuniões, essas pressões de demanda eram a grande preocupação do Copom e tinham forte papel na sua relutância em iniciar então um processo de redução da Selic.

 

Olhando o futuro do IPCA ...

            No que chama de cenário de referência (que supôs a manutenção da taxa de câmbio em R$2,35 e da taxa Selic ainda em 13,75% ao ano em todo o horizonte),  o Copom concluiu que “...a projeção para a inflação em 2009 recuou em relação ao valor considerado na reunião ... de dezembro e se situa abaixo do valor central de 4,50% para a meta ... . No cenário de mercado, que leva em conta as trajetórias de câmbio e de juros apuradas ... junto a analistas no período imediatamente anterior à reunião do Copom, a projeção ... para 2009 recuou ligeiramente em relação ao valor considerado na última reunião do Copom, mas ainda permanece ao redor do valor central para a meta de inflação. Para 2010, a projeção de inflação, segundo o cenário de referência, recuou em relação ao valor considerado no “Relatório de Inflação” de dezembro e se encontra sensivelmente abaixo do valor central de 4,50%, e no cenário de mercado, sofreu ligeira elevação e se encontra em torno do valor central de 4,50%.”

            Ou seja, um quadro que demonstra a inflação retornando a esse centro da meta que o Copom procura atingir.

            Também olhando o futuro  o Copom disse entender “...que a consolidação de condições financeiras restritivas por período mais prolongado deve exercer efeito contracionista significativo sobre a demanda e, ao longo do tempo, desempenhar pressão desinflacionária importante.”

            Sobre a taxa de juros no futuro, como no comunicado da reunião a ata diz que foi iniciado  “um processo de flexibilização da política monetária realizando de imediato parte relevante (grifo nosso) do movimento da taxa básica de juros...” . Contudo, isso apenas diz que o processo deve continuar e que o mercado não deve esperar, por exemplo, que a taxa irá cair logo à frente e abaixo, digamos, de 10% ao ano.

 

Para o investidor...

            Entretanto, essa atitude cautelosa significa muito, pois assegura que no horizonte que se pode contemplar as aplicações direta ou indiretamente ligadas à Selic continuarão atrativas. Isso porque se a inflação anual cair para 4,5%,  e mesmo com a Selic caindo para 10%,  a taxa real permanecerá praticamente a mesma e muito atrativa em termos absolutos e relativamente ao que se passa no âmbito do sistema financeiro internacional.  Evidentemente, só as aplicações maiores terão condições de obter rendimentos mais próximos dessa taxa, o que evidencia essa vantagem de ampliar a poupança.

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Roberto Macedo, CFP® (Certified Financial Planner®), economista formado pela USP com Mestrado e Doutorado pela Universidade Harvard (EUA), é pesquisador da FIPE-USP.  Foi Secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Fazenda e Planejamento, funcionário do Banco Central e do Banco do Brasil.  E-mail: imprensa@bb.com.br. Este texto reflete a opinião do autor e não necessariamente a do BB; tem caráter apenas informativo e não deve ser tomado como recomendação de subscrição, compra ou venda de ativos, decisões estas de responsabilidade exclusiva dos investidores.

 

Economia enfraquecida e inflação menor prenunciam queda da Selic

            A semana passada mostrou novos dados de indicadores econômicos todos eles confirmando tanto o desaquecimento da economia como a queda da inflação, reforçando assim dados anteriores que apontavam nessa direção. Com isso acontecendo bem perto da reunião que o Comitê de Política Monetária (Copom), do Banco Central (BC) realizará esta semana, aumentou a