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Reguladora de serviços financeiros prega o uso de finanças comportamentais
Roberto Macedo

Trata-se da Autoridade de Conduta Financeira (Financial Conduct Authority, ou FCA), do Reino Unido(RU). Seu papel é assegurar que os mercados financeiros do RU funcionem bem. Nessa linha, procura proteger os clientes das instituições financeiras, assegurar a solidez do sistema financeiro local e estimular a competição entre os provedores de serviços financeiros.

No relacionamento com os clientes a FCA recomenda que sejam muito bem informados sobre os serviços disponíveis, o que exige que a comunicação com os clientes tenha muita eficácia. E ao perceber que isso não necessariamente “empodera” os clientes, a FCA inova ao recorrer à moderna visão de como eles tomam suas decisões, visão essa conhecida como finanças comportamentais.

Começarei ressaltando a importância da informação bem comunicada aos clientes, resumirei a natureza dessa visão das finanças comportamentais e adicionarei comentários quanto a adotar essa visão numa instituição financeira brasileira.

A comunicação com os clientes

Quanto a isto, a FCA afirma que as informações podem sobrecarregar, confundir e distrair o consumidor, até mesmo impedindo que ele faça escolhas adequadas. Sobre o mesmo assunto, uma consultoria de investimentos, de nome Bigrock, recomenda ser preciso limitar ao essencial o conjunto de informações transmitidas aos clientes.  E até se refere a estudos de psicologia que demonstram ser limitada a capacidade cerebral de processar informações com a chamada memória de curto prazo, a envolvida na tomada de decisões.  Se essa memória é sobrecarregada, a pessoa tende a adotar soluções simplificadas baseadas em crenças ou experiências, e não na análise mais cuidadosa das informações recebidas.

Essa sobrecarga depende também do conhecimento prévio que a pessoa tem, tanto o que vem de sua educação financeira em geral como particularmente o ligado ao assunto a decidir. Se ela já tem um bom conhecimento, o quê conversando com ela o atendente poderá identificar, então poderá absorver mais informações. Se não tiver, as informações em cada conversa devem ser limitadas. Uma saída é ter um maior número de reuniões de menor duração no processo de decidir sobre um assunto, como um financiamento imobiliário, em lugar de uma única reunião mais alongada.

Onde entra a análise das finanças comportamentais

A análise tradicional se baseia na hipótese de racionalidade do ser humano e supõe que antes de tomar uma decisão ele procura se cercar de todas as informações necessárias, faz isto num mercado sem distorções como a presença de preços que não correspondem efetivo valor do que está sendo transacionado, e procura tirar o melhor proveito dos recursos de que dispõe.

As finanças comportamentais argumentam que ao tomar decisões as pessoas recorrem a dois sistemas de raciocínio. O primeiro é instintivo, rápido e influenciado por crenças e hábitos acumulados. O segundo é mais lento, analítico e racional.  A implicação é que as decisões financeiras devem passar também e necessariamente pelo segundo sistema, sem o que correm um maior risco de se revelarem equivocadas.

O excesso de informações é também um dos elementos que podem estressar a pessoa, e levá-la a uma decisão mais rápida e mais induzida pelo primeiro sistema do que pelo segundo. Outro elemento que pode levar pelo mesmo caminho é o estado emocional, pois a pessoa pode estar feliz, deprimida, calma, excitada, se frustrada.

Levando em contas esses e outros aspectos, a já citada Bigrock recomenda que ao oferecer um produto e suas variantes, como no caso de um financiamento imobiliário, o atendente de uma instituição financeira deve seguir o caminho de uma “venda consultiva”. Inicialmente, ela deve procurar uma empatia com o cliente, entendendo o que o faz mover, o que o inspira e o que ele espera do futuro. Isto antes de lhe oferecer alternativas de produtos condizentes com o seu perfil.

Mais especificamente, um conjunto de passos é recomendado para entender melhor o cliente. O primeiro consiste em levantar os aspectos usuais dos cadastros de instituições financeiras, como sua renda, seus ativos e suas dívidas. O segundo inova ao também incorporar elementos como sua carreira, sua família, estilo de vida e em que ambiente de negócios a pessoa se situa. Eu também colocaria ênfase na sua idade. O terceiro é ainda mais inovador ao incorporar questões mais ligadas a elementos enfatizados pelo enfoque das finanças comportamentais, buscando identificar seus vieses ou preconcepções a respeito do setor financeiro, da instituição da qual é cliente e de outras com as quais ela compete, experiências prévias com produtos financeiros e a influência que recebe de outras pessoas, entre outros aspectos.

Seriam essas ideias aplicáveis no Brasil?

Para responder recorro inicialmente a um dos ensinamentos básicos das finanças comportamentais. Suponhamos que os gestores de uma instituição financeira se reunissem para decidir quanto a seguir ou não pelos caminhos apontados.  Recorrendo ao primeiro sistema decisório, poderiam se sentir instintivamente inclinados a fazê-lo por razões como estas: as ideias vêm de países mais desenvolvidos, são modernas e fazem sentido.  Ou desprezá-las por argumentos desse tipo: são bobagens, coisas de psicólogos e não de especialistas em finanças, e muito sofisticadas para o Brasil.

Passando ao segundo sistema decisório, mais racional, percebe-se que, independentemente de suas propostas mais ousadas, as referidas ideias envolvem temas de interesse atual. Entre eles: é preciso enfatizar a educação financeira de clientes e funcionários para melhor entendimento dos produtos financeiros no diálogo entre esses dois lados, e um maior conhecimento, pelos funcionários,  de como os clientes decidem; informações transmitidas a clientes precisam ser claras, concisas e sem exageros, para reduzir o risco de decisões mal pensadas e de ressentimentos com instituição onde foram tomadas; um melhor conhecimento pessoal do cliente, como no segundo passo citado, deve gerar maior empatia entre as partes e fidelização mais forte da clientela; usualmente no Brasil, um cliente entra numa instituição financeira, e logo lhe são oferecidos um ou mais produtos financeiros, ou ele busca apenas aquilo em que está interessado, mas em qualquer caso sem notar maior interesse da instituição em conhecê-lo como ser humano, sendo razoável acreditar que esse interesse agregaria mais valor à instituição e seus serviços; quanto ao terceiro passo, o mais ousado, caberia estudá-lo em profundidade, mantendo-o no radar de opções futuras, eventualmente até testando-o em algumas agências, antes de qualquer movimento de maior alcance para adotá-lo.

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Roberto Macedo, CFP® (Certified Financial Planner), é economista formado pela USP com Mestrado e Doutorado na Universidade Harvard (EUA).  Foi Secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Fazenda e Planejamento, funcionário do Banco Central e do Banco do Brasil. E-mail: imprensa@bb.com.br. Este texto reflete a opinião do autor e não necessariamente a do BB; tem caráter apenas informativo, e não deve ser tomado como recomendação de subscrição, tomada de créditos, compra ou venda de ativos, decisões estas de responsabilidade exclusiva dos investidores.

A evolução do estudo de finanças pessoais


Roberto Macedo

A partir da minha própria experiência, mostrarei como segui essa evolução adquirindo mais conhecimentos.  Ela também teve implicações para quem trabalha com planejamento financeiro pessoal e familiar, individualmente ou constituindo empresas de consultoria para essa finalidade. Ou, também, trabalhando como funcionários de instituições financeiras no relacionamento destas com seus clientes, na oferta de produtos e serviços financeiros ou como conselheiros de poupança e de investimentos.

Isso começou no exterior, em particular nos EUA, onde essa prática profissional é mais difundida. Mas, repercutiu também no Brasil, onde ganhou impulso a certificação profissional conhecida como CFP® (Certified Financial Planner, ou Planejador Financeiro Certificado), que neste ano ultrapassou a marca de 2.147 profissionais que já a obtiveram, num período próximo de 10 anos.

Como evoluiu minha visão das finanças pessoais

Quando comecei a escrever para o BB neste espaço, focava em temas específicos, como os de como poupar, a importância de poupar e a poupança “tijolo” (a da casa própria), baseado apenas no meu conhecimento e experiência sobre cada assunto abordado.

Mas não tinha ainda uma visão de planejamento financeiro que integrasse o conjunto dos temas abordados. Havia e ainda há, é claro, a visão dada pela minha formação em Economia. Mas, faltava um conhecimento mais profundo de como as pessoas tomam suas decisões financeiras. Posteriormente, evoluí para uma visão sistêmica do assunto, recorrendo à literatura especializada.

Primeiro, reexaminando a visão tradicional integrante dessa formação educacional, assentada na racionalidade do ser humano. Essa visão baseia-se na premissa de que o ser humano é racional, bem informado, sempre a fazer cálculos para tirar o máximo proveito dos seus recursos. E opera em mercados financeiros que funcionam sem distorções.

Em seguida, incorporei também a visão conhecida como economia comportamental, cujos primórdios remontam a meados do século passado, mas seu desenvolvimento maior ocorreu nos últimos 15 anos. Dentro dela há a versão financeira, conhecida como finanças comportamentais.

 Essa visão questiona a hipótese de racionalidade humana. Foi desenvolvida por psicólogos isoladamente ou em conjunto com economistas, pois a Psicologia é indispensável para entender melhor o comportamento financeiro das pessoas, definido pela forma como pensam, pois em geral suas crenças determinam esse comportamento.

Passo a um exemplo que mostra a diferença dessas visões. A visão tradicional argumenta que as pessoas devem tratar seus recursos financeiros como um só conjunto, alocando-os a diferentes aplicações conforme suas preferências de liquidez, rentabilidade e risco, de modo a obter o melhor retorno. A visão comportamental, contudo, percebe que muitas pessoas apreciam separar sua poupança em partes voltadas para fins específicos, como os de adquirir um imóvel, custear a educação própria ou dos filhos, ou fazer uma viagem de lazer. Percebendo que com essa alocação essas pessoas se sentem mais felizes consigo mesmas, e até motivadas a poupar mais, uma implicação prática é que as instituições financeiras devem aceitar que seus clientes façam essa compartimentação, e até oferecer produtos específicos para essa finalidade.

O “papa” das finanças comportamentais é o psicólogo Daniel Kahneman que por suas contribuições nessa área foi premiado com o Nobel de Economia em 2002. Em 2011 ele publicou nos EUA um livro que sintetiza essas contribuições, cuja versão em português saiu no ano passado (Rápido e devagar: duas formas de pensar. São Paulo: Editora Objetiva, 2014). O título do livro representa um argumento central de sua análise, o de que o ser humano pensa segundo dois sistemas: um instintivo, automático e mais rápido, e assim nem sempre provido de racionalidade. O outro sistema veio com o desenvolvimento do ser humano e é mais lento, analítico, deliberado e racional. É preciso deixar que uma decisão seja também submetida ao crivo do segundo sistema.

            Tornei-me um adepto dessa visão, mas sem deixar de lado ensinamentos importantes da análise tradicional, como os voltados para a alocação de recursos entre aplicações de diferentes riscos e rentabilidades, e nessa linha a necessidade de reexaminar periodicamente a distribuição de recursos entre aplicações.

 

A profissão de planejador financeiro e sua certificação

                A certificação de CFP® é originariamente da Financial Planning Association (FPA), nascida nos EUA e hoje de alcance internacional. Essa certificação é outorgada no Brasil pelo Instituto Brasileiro de Certificação de Profissionais Financeiros (IBCPF), entidade ligada à Anbima (Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiros e de Capitais). A certificação depende da aprovação em exame, e precisa ser renovada a cada dois anos mediante comprovação de desempenho da atividade. Maiores informações podem ser obtidas em www.ibcpf.org.br. O BB exige essa certificação de quem escreve artigos sobre finanças pessoais.

Segundo o IBCPF, no último exame 272 candidatos foram aprovados nas provas completa e modular, e a taxa de aprovação do exame completo foi de 32%. Essa aprovação credenciou os aprovados a seguir no processo de certificação, no qual devem comprovar experiência em atividades relacionadas ao planejamento financeiro pessoal, aderir ao Código de Ética do IBCPF e associar-se ao mesmo instituto.

E a educação financeira, como está?

            A referida certificação e seu avanço demonstram o interesse pela educação financeira, inclusive do ponto de vista profissional. Quanto a essa educação, também vale lembrar que ela se tornou uma política pública do governo federal, por meio da Estratégia Nacional de Educação Financeira (ENEF), criada em 2010 e que desenvolve uma série de atividades que podem ser conhecidas em www.vidaedinheiro.gov.br.

            Sou um entusiasta da educação financeira, mas pelo que sei de pesquisas sobre o assunto, não basta fazer cursos e estudar o assunto, pois as pessoas tendem a esquecer o que aprenderam. Assim, também é necessária uma ênfase na prática de tomar boas decisões financeiras, até que isso se firme como um hábito permanente. Também é recomendável que diante de uma decisão específica e de maior impacto, por exemplo, a de financiar um imóvel, a pessoa estude previamente e com detalhe o assunto, para estar preparada caso a caso em decisões mais importantes como essa. Confiar apenas na educação financeira recebida no passado pode ser arriscado.

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Roberto Macedo, CFP® (Certified Financial Planner), é economista formado pela USP com Mestrado e Doutorado na Universidade Harvard (EUA).  Foi Secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Fazenda e Planejamento, funcionário do Banco Central e do Banco do Brasil. E-mail: imprensa@bb.com.br. Este texto reflete a opinião do autor e não necessariamente a do BB; tem caráter apenas informativo, e não deve ser tomado como recomendação de subscrição, tomada de créditos, compra ou venda de ativos, decisões estas de responsabilidade exclusiva dos investidores.
Mudança de residência na aposentadoria e seus determinantes
Roberto Macedo

Várias razões explicam essa mudança que pode ocorrer dentro da mesma cidade, ou para outra no mesmo país, ou, ainda, para outro país. Este artigo examinará essas razões.
Adicionalmente, examinará o comportamento de cidadãos americanos que buscam outros países nessa mudança. Nesse caso, é interessante examinar porque há países que atraem aposentados, o que ajuda a perceber as razões dos que optam por eles.

Nos EUA esse assunto da mudança de residência é muito mais discutido lá do que aqui, entre outras razões porque lá a proporção de aposentados é maior e os americanos tem em média um maior nível de renda e de patrimônio que os brasileiros, o que abre um leque maior de opções. Pesa também uma questão importante, pois idosos que vivem em regiões de inverno rigoroso têm nisso uma de suas razões para mudar.  

O que recomenda a mudança

Começo pelas razões econômicas, pois é um assunto ligado às finanças pessoais, tema em que estão focados meus artigos neste espaço. Para prosseguir, suponhamos o caso típico de um casal de aposentados, cujos filhos constituíram suas próprias famílias ou deixaram os pais sós por outras razões. Se de fato tanto o marido como a mulher estão aposentados ou um dos cônjuges é dependente do que se aposentou, isto abre espaço para o casal refletir sobre uma mudança de residência.

Na semana passada conversei com um amigo que está em vias de se aposentar. Sem que eu perguntasse, disse que está examinando a conveniência de mudar de residência. Explicou que com a saída dos filhos o apartamento em que morava ficou grande para as necessidades habitacionais do casal, e a taxa de condomínio é elevada. Assim, está pensando em vendê-lo, e comprar um menor para residir, eventualmente aplicando a diferença de valores para obter um rendimento, ou gastando-a conforme seus interesses, como o de buscar mais lazer, inclusive em viagens. Alternativamente, também pensa em alugar seu apartamento, e alugar outro menor, ganhando com a diferença entre o valor do aluguel recebido e o do aluguel pago.

Este aspecto do imóvel próprio tem importância que precisa ser ressaltada. Grande parte das pessoas que se aposentam ou estão planejando a aposentadoria costuma se preocupar apenas com os rendimentos que vai receber de seus planos previdenciários, públicos ou privados, e de outras aplicações financeiras que realizaram pensando na aposentadoria. Entretanto, adicionalmente deve ser levado em conta o que fazer com o imóvel residencial, frequentemente o maior patrimônio com que conta a família.

Outros aspectos econômicos ou não também pesam na mudança.  Na mesma cidade pode haver áreas de menor custo residencial ou próximas de conveniências de interesse. Entre outras, a proximidade da residência de um ou mais dos filhos, de um clube e de atendimento à saúde. Da última vez que me mudei na cidade de São Paulo, optei por um local vizinho de um clube e de uma futura estação do Metrô. Só depois descobri que estava também muito perto de vários hospitais e de centros de saúde, o que me deixou mais tranquilo quanto a essa questão.
 
Essa, então, é uma combinação que recomendo: a proximidade de transporte urbano rápido, de um bom atendimento à saúde e de um clube. Também busquei um prédio com maior número de apartamentos, o que trouxe uma taxa de condomínio bem menor.
 
Passando à mudança de cidades, as menores têm em geral um custo de vida menor. Mas, se forem muito pequenas e distantes de cidades de tamanho médio ou grande, o atendimento à saúde costuma ser precário. No estado de São Paulo, há várias cidades de tamanho médio onde esse atendimento é bem melhor, o que vale tanto para o atendimento público como o privado. Mas, seu tamanho já recomenda pensar em questões como a proximidade do atendimento médico e a mobilidade urbana.

A mudança de país

Nessa opção há mais fatores a considerar, embora os de natureza econômica sejam essencialmente os mesmos, com destaque para o custo residencial e o acesso ao atendimento à saúde. Mas há outros de natureza econômica e de muita importância:  o custo de vida em geral no país de destino e, ainda, a taxa de câmbio entre a moeda dos rendimentos do aposentado e a moeda local. E não só a taxa de câmbio do momento, como também a sua perspectiva futura não só em valor como em estabilidade, para não se constituir em uma preocupação a mais para o aposentado.

A forma com que os americanos escolhem outros países para viver sua fase de aposentadoria é ilustrativa dos fatores que levam em consideração.  Examinei-os a partir de uma matéria jornalística publicada na internet, listando 10 países considerados os “melhores lugares para viver a aposentadoria no exterior”.(*)

Antes de examinar o que a matéria informa, abordarei o que ela não ressalta, pois são fatores ligados às condições dos EUA, e não cabem numa matéria voltada para a atratividade específica de cada um desses países.  Entre os fatores do lado dos americanos, sua moeda é o dólar, a de maior prestígio internacional, facilmente conversível em outras, e que tem um valor cambial em geral forte e estável.  Também é importante o fato de que os americanos falam inglês, a língua de maior uso internacional.  Um terceiro aspecto, é que por essas e outras razões e pela atratividade oferecida por outros países, em alguns deles a presença de americanos é suficientemente forte para criar uma comunidade local, facilitando seu convívio social. Também vale lembrar que a renda média dos americanos é cerca de quatro vezes a dos brasileiros.

Passando à lista dos 10 países mais atraentes, eles são, em ordem decrescente de atração: Equador, França, Panamá, Espanha, México, Nicarágua, Nova Zelândia, Irlanda, Uruguai e Malásia. Na análise que a reportagem faz de cada país, predomina de um modo geral o interesse pelos seus custos. Em alguns casos o país é acessível mesmo a americanos de classe média baixa. Tome-se o Equador, visto como um país de custos muito baixos, inclusive uma assistência à saúde de boa qualidade. Numa de suas cidades, um apartamento mobiliado pode ser alugado por US$600 ao mês, cerca de R$2.000, um pequeno apartamento pode ser adquirido por US$40.000, cerca de R$120.000, e uma casa na praia por US$150.000, perto de R$450.000. Esses preços podem ser muito baratos para os americanos, mas não para brasileiros em geral.

A França atrai como um país charmoso na sua geografia, na sua história e na sua cultura, inclusive a gastronômica. Nesse caso a matéria não dá os custos, mas pelo que sei é para americanos de maior poder aquisitivo. Passando a dois do final da lista, um é vizinho do Brasil, o Uruguai, mas é mais caro do que o Equador, que está muito longe. A matéria diz que se pode viver no Uruguai com US$1.200 a US$1.800 por mês, se a pessoa tiver um imóvel, e que o sistema público de saúde atende também a estrangeiros.

A Malásia surge como o lugar mais barato, pois entre outras coisas um jantar num restaurante pode custar US$3 e um apartamento mobiliado, de três quartos, pode ser alugado até por US$250 por mês. A matéria também ressalta a qualidade do sistema de transporte e do sistema de saúde. Mas, é muito longe.

Em vários casos, o fator clima é ressaltado, particularmente o de países ensolarados, de muito interesse dos americanos.  A combinação da proximidade com o clima, mais os menores custos locais, respondem pela presença de cinco países latinoamericanos na lista. E por que o Brasil não está nela? A matéria não diz, mas é tido como um país caro, com carências de infraestrutura e um sistema público de saúde insatisfatório, além de problemas na área de segurança pública. É uma pena, pois receber aposentados para viver no país é um bom negócio. 

Em conclusão...

A aposentadoria no exterior ainda não está na cultura nem no orçamento dos brasileiros.  Na questão cultural pesa também uma língua de pouco trânsito internacional. E clima ameno temos de sobra por aqui. Até onde sei os aposentados brasileiros no exterior são um grupo constituído majoritariamente de gente que saiu daqui ainda jovem para outros países, lá trabalharam e muitos já são também cidadãos do país de destino. Alguns vêm viver sua aposentadoria aqui. Quem sai na fase aposentadoria são pessoas de maior poder aquisitivo que prefere lugares como Miami. No meio acadêmico em que também atuo, tenho notado nos últimos anos um interesse em morar em Portugal, que não aparece na referida lista, mas também tem seus atrativos em termos de custos residenciais e de vida, principalmente no interior do país.

Mas, ninguém deve se guiar por uma lista como essa. É preciso incluir nos planos de uma eventual saída os de uma viagem para ver tudo de perto, conversar bastante, e até mesmo os de uma permanência experimental por alguns meses. É uma daquelas escolhas em que o erro pode custar muito caro.

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Roberto Macedo, CFP® (Certified Financial Planner®) e economista formado pela USP com Mestrado e Doutorado pela Universidade Harvard (EUA), é pesquisador da FIPE-USP.  Foi Secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Fazenda e Planejamento, funcionário do Banco Central e do Banco do Brasil.  E-mail: imprensa@bb.com.br. Este texto reflete a opinião do autor e não necessariamente a do BB; tem caráter apenas informativo e não deve ser tomado como recomendação de subscrição, compra ou venda de ativos e tomada de crédito, decisões estas de responsabilidade exclusiva dos investidores. (*)
(*) retireplan.about.com/od/planningbythedecade/tp/Best-Places-to-Retire-Abroad.htm?utm_source=cn_nl&utm_medium=email&utm_
term=Money%20Channel%20Newsletter&utm_campaign=moneysl&utm_content=20150628.
Balanço das finanças pessoais? Aprenda com as empresas

Nesta época do ano empresas constituídas como sociedades anônimas vêm publicando nos jornais seus balanços patrimoniais e outras demonstrações contábeis e financeiras relativas a 2014. Entre estas se destaca a do resultado obtido que mostra receitas, despesas, lucro ou prejuízo, impostos sobre o lucro e lucro líquido sem impostos.

A ideia deste artigo é a de usar em linhas gerais esses mesmos procedimentos para avaliar o status das finanças pessoais. E mostrar que a declaração de ajuste anual do Imposto de Renda de Pessoas Físicas (IRPF) segue roteiro similar a esse das empresas, só que de forma mais simples e noutra ordem. Primeiro vêm os resultados a partir de rendimentos e gastos. Depois o balanço sem este nome, onde são listados bens, direitos, dívidas e ônus reais. Há similaridades e também diferenças que o artigo esclarecerá.

Começarei pelo balanço patrimonial, que nas empresas envolve seu ativo e seu passivo. Aprender o que significam esses conceitos é importante para a educação financeira, pois também costumam ser usados no plano pessoal em análises e discussões sobre questões financeiras.  Dominá-los ajudará a entender o que significa dizer, por exemplo, que “os ativos e passivos de fulano indicam que ele é rico”, ou a razão pela qual “os recursos próprios também aparecem no passivo das empresas”. Depois serão abordadas as contas de receitas, despesas e seu resultado final, tanto empresarialmente como no plano pessoal. O trecho final tratará da relação entre esses procedimentos e a declaração do IR.

Ativo e passivo

Na apresentação do balanço o ativo fica à esquerda e o passivo à direita. A soma dos valores de um lado é sempre igual à soma dos valores do outro. O ativo inclui bens e direitos, como um imóvel, dinheiro em caixa ou em bancos, e créditos a receber. No sentido estrito, o passivo se compõe de obrigações, como dívidas contraídas.  Mas, se no final o valor total do ativo é igual ao do passivo, o patrimônio da empresa estaria sempre zerado?

Aí é que há um aspecto que costuma confundir os leigos, o de que o patrimônio líquido (PL), ou seja, os ativos menos as obrigações típicas, como dívidas – obrigações essas que constituem seu passivo no sentido estrito –, entra no lado do passivo para fazê-lo igual ao passivo. Isto faz sentido na visão de que o passivo também deve incluir as obrigações da empresa com seus acionistas ou donos do seu capital.  Noutra visão, o ativo mostra onde todos os recursos do lado do passivo, inclusive o capital da empresa, foram colocados como, por exemplo, em imóveis, instalações e equipamentos, dinheiro em caixa e contas a receber. Creio que essas visões ajudam a firmar os dois conceitos.

Passando ao plano pessoal, o interessado no balanço poderá até dispensar a separação na forma de ativos e passivos de valores idênticos, concentrando seu foco no conceito de patrimônio líquido. Para explicá-lo, suponhamos alguém que adquiriu um imóvel por R$600 mil, dando R$100 mil de entrada com recursos próprios, e tomando um financiamento de R$500 mil. Supondo que não tenha outros ativos de valor relevante, essa pessoa terá um imóvel de R$600 mil, mas um patrimônio líquido de apenas R$100 mil (R$600 mil menos R$500 mil de dívida, não levando em conta os juros).  Se depois de cinco anos a dívida cair para R$400 mil, seu patrimônio líquido passará a R$200 mil. 

A conta de resultados

Na empresa inclui receitas e despesas de todo o tipo, a exemplo das ligadas ao funcionamento operacional da empresa, ou decorrentes de investimentos financeiros ou resultantes de empréstimos tomados. Aí se chega ao resultado bruto e, após os impostos, ao resultado líquido, usualmente um lucro.

No plano pessoal, usualmente esse “funcionamento operacional” significa rendimentos do trabalho, mas cabe contar outros rendimentos, tributáveis ou não. Nas despesas, cabe também contar todas, inclusive impostos, para saber se houve ganhos ou perdas líquidas. Tudo isto exigiria muita papelada para quem tem rendimentos de várias fontes e fosse listar todas suas despesas. Mas, há uma alternativa indireta para saber esse resultado, tomando-se o patrimônio líquido do ano anterior e verificando se aumentou ou caiu no ano em que se concentra a análise. Se cresceu, houve poupança e investimento; se caiu, pode-se dizer que “despoupou” ou desinvestiu.

Passando à declaração do IR  

Pode-se argumentar que a ideia do balanço patrimonial e da conta de resultados exigiria papelada adicional e mais tempo tomado com o assunto. Mas, para as informações necessárias são essencialmente as que a pessoa usa na sua declaração de ajuste anual do IRPF, seja no formulário completo ou no simples. É verdade que após levantados os rendimentos, os declarantes costumam focar mais nas despesas dedutíveis, e em geral não guardam informações sobre gastos triviais, como os de alimentação e transporte. Ter informações sobre todas as despesas ajudaria numa avaliação detalhada do destino dado aos rendimentos. Mas, no aspecto que vejo mais relevante, a variação do patrimônio líquido de um ano para outro, a pessoa poderá obtê-la indiretamente, conforme indicado acima. E, vale repetir, as informações básicas são as exigidas pelas declarações de bens e direitos e de dívidas e ônus reais a serem entregues à Receita Federal.

Em conclusão...

Seja elaborando um balanço mais a conta de resultados, ou ficando apenas na declaração anual do IRPF, a realidade das finanças pessoais será sempre a mesma quanto ao seu passado. Mas, a julgar pelo comportamento de pessoas do meu relacionamento social e profissional, quando fazem anualmente a declaração de ajuste do IRPF elas se concentram nos rendimentos, nas despesas dedutíveis e no imposto a pagar ou a restituir. Assim, a lógica da declaração é a de um olhar mais focado nos tributos.

A questão patrimonial, vale repetir, de bens e direitos e de dívidas e ônus reais, fica para o fim e em geral recebe menos atenção do declarante.  O que estou sugerindo é um olhar também patrimonial inspirado pelas práticas empresariais, e que tanto pode vir na linha dessas práticas, como examinando a declaração do IRPF pelo seu lado patrimonial e de como o valor do patrimônio líquido variou a cada ano. Isto se traduzirá num exame do que foi ou não poupado e investido, um aspecto central das finanças pessoais, ensejando também uma reflexão sobre medidas a serem adotadas no futuro, se houver a percepção de que o caminho adotado no passado não foi o que leva à prosperidade.
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Roberto Macedo, CFP® (Certified Financial Planner®) e economista formado pela USP com Mestrado e Doutorado pela Universidade Harvard (EUA), é pesquisador da FIPE-USP.  Foi Secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Fazenda e Planejamento, funcionário do Banco Central e do Banco do Brasil.  E-mail: imprensa@bb.com.br. Este texto reflete a opinião do autor e não necessariamente a do BB; tem caráter apenas informativo e não deve ser tomado como recomendação de subscrição, compra ou venda de ativos, decisões estas de responsabilidade exclusiva dos investidores.

Viúvas sofrem mais adversidades financeiras que viúvos

Nota publicada pelo Centro de Pesquisa sobre Aposentadoria, da universidade de Boston (Boston College), dos EUA, aponta essa  conclusão de estudo  sobre  o  assunto,  realizado  pela New  York  Life, uma  seguradora. Cheguei  também à  versão que ela publicou. As informações que se seguem  vieram dos dois textos (*).

O  que se  segue resumirá  a natureza do  estudo e alguns de seus resultados, as razões que apresenta  para  a  conclusão que  intitula  este  artigo  e as  recomendações  que   faz  para aliviar o problema. Também refletirei quanto  à pertinência  de de suas conclusões no caso brasileiro. Não tenho notícia que que estudo semelhante foi realizado no Brasil.



A natureza da pesquisa e alguns de seus resultados


A  pesquisa  teve  como  base  uma  amostra  de  897 viúvas e viúvos com idade acima de 18 anos, cujos cônjuges faleceram em algum momento nos últimos dez anos. As questões foram formuladas  para  saber  se  a  perda  do cônjuge trouxe consequências financeiras durante  o primeiro ano que se seguiu a essa perda.

Entre as questões estavam as seguintes,  sendo  que as  porcentagens  de  respostas,   mencionadas    também  a  seguir, estão em valores aproximados, já que lidas a partir de um gráfico onde os números estão apenas na escala: (1)  houve  mudança negativa no estilo de vida? 40%  das  viúvas e  24% dos viúvos  responderam  afirmativamente;  (2) está  muito preocupado(a) com o atendimento de necessidades básicas? 28% e 17%, respectivamente; (3) não tem mais condições de manter uma casa para lazer? 30% e 4%, respectivamente; (4) as preocupações financeiras tornaram a perda do cônjuge mais difícil de suportar? 39% e 17%, respectivamente; (5) as perspectivas financeiras para o futuro são declinantes? 37% e 26%, respectivamente.

Sintetizando  esses  números  a  conclusão é que a média das espostas afirmativas das viúvas foi 35% enquanto  que  a  dos viúvos foi 18%.  Assim, o número de  viúvas  que responderam afirmativamente revelou-se o dobro do observado no cas o dos viúvos.

Outras mudanças ligadas a questões financeiras são apresentadas na tabela abaixo e também indicam  que  viúvas enfrentavam mais dificuldades que viúvos.



Mudanças nas finanças em seguida à perda do cônjuge

MudançasViúvasViúvos
Ajustamento à mudança no nível de renda55%34%
Restrição orçamentária a apenas uma renda46%32%
Cortes de despesas não imprescindíveis38%24%
Impossibilidade de custear férias22%13%
Idem, de poupar adequadamente para a aposentadoria21%10%














Razões apontadas para essa diferença



Uma delas é que dois terços das viúvas informaram renda anual menor que US$35.000, enquanto que a maioria dos viúvos ganhava mais do que isto. Assim, a sabida superioridade de rendimentos no trabalho também se traduz numa desigualdade de mesma natureza na viuvez.
Regras adotadas nos EUA quanto às pensões devidas a cônjuges sobreviventes também influíram nesses resultados. Pelo que entendi da descrição das regras da instituição que lá corresponde ao nosso INSS, se o casal recebe dois benefícios, após o falecimento de um dos cônjuges o sobrevivente recebe apenas o benefício maior, o que reduz o rendimento total do domicílio. Este, contudo, permanece essencialmente com as mesmas despesas fixas, como o imposto predial, serviços públicos e despesas de manutenção.

Outra razão apontada é que no caso de outros planos de previdência, com benefícios definidos, os homens têm maior probabilidade de ter um deles, e se sobreviver à mulher, continuará recebendo o seu benefício. Todavia, no caso mais comum, em que a mulher sobrevive ao homem, ela receberá como viúva apenas uma parcela do rendimento do falecido, o que pode reduzir esse rendimento em até 50%. 

O que fazer?

As respostas apresentadas na tabela acima já indicam o que foi feito, com a predominância de cortes de despesas. Mas, é preciso pensar no que poderia ter sido feito para aliviar o problema antes que ele se manifestasse. Assim,    a pesquisa também perguntou aos entrevistados qual seria a sua “lista de desejos”, ou seja, do que deveriam ter feito para se prepararem melhor para a perda do cônjuge.  Essa lista inclui:  ter um ou mais seguros de vida em benefício do cônjuge, ter poupado mais, discutido detalhadamente com o cônjuge o que poderia acontecer no caso da perda de um deles, adotado um melhor planejamento financeiro para a eventualidade, e ter organizada e bem localizada a papelada financeira relativa ao casal.

Essa lista faz sentido, mas quanto ao seguro de vida pondero que é mais importante e adequado para casais jovens, que não tenham ainda assegurado um benefício permanente e satisfatório em caso de falecimento de um dos cônjuges. Outra razão é que nessa fase da vida o custo de um seguro desse tipo é muito mais barato do que no caso de idosos. Neste caso, é preciso chegar a essa fase da vida já com a adequada provisão para uma vida digna, segundo os padrões da pessoa ou do casal.

Aí cabe a recomendação usual de que é preciso planejar e concretizar os diversos instrumentos de poupança e investimento necessários, como aposentadorias e pensões públicas e privadas, e um plano de saúde adequado. E, também, na forma de ativos como investimentos financeiros e um imóvel próprio, que eventualmente possa ser vendido para ocupação de um menor. E, no caso dos EUA, possa ser objeto da chamada “hipoteca invertida”, já abordada nesse espaço, em que esse imóvel é vendido a uma instituição financeira em troca de um pagamento mensal vitalício.

As conclusões do estudo servem de lição para o Brasil?

Questões financeiras como essa, das diferentes condições enfrentadas por viúvas e viúvos, têm caráter universal.  Entre as razões apontadas, a disparidade salarial entre homens e mulheres se manifesta dessa forma. E, em termos relativos, as dificuldades aqui encontradas podem ser até mais graves. Entre outros aspectos, os níveis de renda e de riqueza médios por habitante são aqui bem menores, no caso da renda cerca de um quarto do observado nos EUA. Ou seja, nossas viúvas e nossos viúvos têm menor renda média que naquele país. E a disseminação de planos de previdência complementares também tem menor alcance no Brasil. Ademais, a participação feminina na força de trabalho também é menor, aspecto este que se reflete numa menor disponibilidade de rendimentos próprios das viúvas e dos benefícios deles decorrentes.
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Roberto Macedo, CFP® (Certified Financial Planner®) e economista formado pela USP com Mestrado e Doutorado pela Universidade Harvard (EUA), é pesquisador da FIPE-USP.  Foi Secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Fazenda e Planejamento, funcionário do Banco Central e do Banco do Brasil.E-mail: imprensa@bb.com.br. Este texto reflete a opinião do autor e não necessariamente a do BB; tem caráter apenas informativo e não deve ser tomado como recomendação de subscrição, compra ou venda de ativos, decisões estas de responsabilidade exclusiva dos investidores.
(*)http://squaredawayblog.bc.edu/squared-away/widows-face-more-financial-adversity/       e http://www.newyorklife.com/about/widows-under-stress, respectivamente.
O exame PISA-2012 de alfabetização financeira
O exame PISA, cujos resultados frequentam o noticiário educacional, é organizado pelo Programa de Avaliação Internacional de Estudantes. A sigla PISA é do nome desse programa em inglês (Programme for International Student Assessment). Trata-se de iniciativa da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico), uma entidade internacional com 34 países membros. O Brasil não é um deles, mas junto com vários outros países participa em programas que a OCDE desenvolve, inclusive o PISA.

Esse exame procura saber como os estudantes de países que participam dele se comparam numa avaliação internacional de seus conhecimentos. Examina jovens com 15 anos de idade, ou seja, na fase em que completam o ensino fundamental. O Brasil não costuma se sair bem nesse exame e no último realizado, em 2012, nossos estudantes deixaram nosso país em 38º lugar entre 44 países participantes.

No mesmo ano houve a inclusão do tema alfabetização financeira para um conjunto de 18 países, mas sem a participação brasileira. Mas, no próximo exame, em 2015, nossos estudantes também serão examinados quanto a esse aspecto.

Este artigo trata da estrutura do teste PISA de alfabetização financeira, e apresenta algumas das questões do exame de 2012, para dar ao leitor uma ideia do que é avaliado pelo teste e de como é construída essa avaliação. Os interessados em se aprofundar no assunto poderão consultar o amplo relatório que a OCDE preparou sobre o exame de 2012, onde estão também disponíveis mais exemplos de questões(*).  Infelizmente, não há desse relatório uma versão em português, e a referência no final deste artigo é da versão em inglês que consultei.

A estrutura do teste de alfabetização financeira

Trata-se de um teste de duas horas abrangendo 80 questões, ou seja, 40 por hora. Abrange quatro áreas cujo conhecimento e entendimento são tidos como essencial na alfabetização financeira: dinheiro e transações, planejamento e gestão de finanças, risco e recompensa, e a “paisagem” ou contexto financeiro.

Dinheiro e transações: essa área é a base da alfabetização financeira e abrange a percepção das formas e finalidades do dinheiro, bem como a realização de transações financeiras simples, como os pagamentos cotidianos, gastos, a busca de valor em troca de dinheiro, cheques, cartões, contas bancárias e diferentes moedas (euro, dólar etc.).

Planejamento e gestão de finanças: inclui essas habilidades pessoais, de realizar essas duas ações de olho tanto no curto como no longo prazo, em particular monitorando renda e despesas, e usando a renda para fortalecer o bem-estar financeiro.

Risco e recompensa: trata-se de saber como administrar, equilibrar e cobrir riscos (inclusive por seguros e poupança), e de compreender o potencial de ganhos ou perdas envolvidos em produtos e contextos financeiros, como num financiamento com uma taxa de juros variável ao longo do tempo, e nas várias opções de investimentos.

“Paisagem” ou contexto financeiro: diz respeito à natureza e aos aspectos do mundo das finanças, cobrindo direitos e responsabilidades dos consumidores no mercado financeiro e no seu meio-ambiente, e as principais implicações dos contratos financeiros. Também incorpora o entendimento das consequências de mudanças nas condições econômicas e políticas públicas, como alterações nas taxas de juros, de inflação, de tributação e na seguridade social.

Três exemplos de questões

A página 35 do relatório citado lista como exemplos 10 questões das duas primeiras áreas, das quais selecionamos três para conhecimento dos leitores. Seu grau de dificuldade cresce da primeira para a terceira, e pelo que entendemos a pontuação no exame é maior para as perguntas mais difíceis.

Na primeira, da área de dinheiro e transações, a personagem Sarah recebe da empresa Breezy um “invoice”, que equivale no Brasil a uma fatura, de aquisição de algumas roupas somando 130 “zeds” (uma moeda hipotética), valor sobre o qual incide um imposto de 10% e uma postagem de 10 “zeds”, totalizando 153 zeds. E pergunta-se se o documento foi enviado a Sarah para (a) que ela pague esse valor à Breezy; (b) para que esta pague a Sarah; (c) porque Sarah já pagou à Breezy; e (d) porque Breezy já pagou a Sarah.  A pergunta é de fácil resposta (a) e é a de menor pontuação na lista. Seu objetivo é testar se o estudante conhece o que significa o documento, e há outras perguntas sobre o mesmo.

Na segunda, da mesma área, uma figura mostra que, num mercado, tomates podem ser comprados ao preço de 2,75 “zeds” o quilo, ou em caixas de 10kg ao preço de 22 “zeds” por caixa. Segue-se outra figura com a seguinte afirmação: “A caixa de tomates representa um maior valor pelo dinheiro que custa do que os tomates vendidos por quilo.” E pergunta-se se a afirmação é válida ou não e por qual razão. As respostas certas de uma forma ou outra dizem que sim, como esta: “Na caixa, o preço por quilo de tomate é apenas 2,2 “zeds” por quilo.” É um pouco menos fácil do que a primeira questão, e recebe aproximadamente 10% de pontos a mais. 

A terceira tem uma pontuação 84% maior que a primeira, e é assim formulada: “A sra. Jones deve 8.000 “zeds” a uma financeira, pagando juros de 15% ao ano, uma prestação de 150 “zeds” por mês, e depois de um ano deve 7.400 “zeds”.  Então uma outra financeira lhe oferece um empréstimo de 10.000 “zeds” à taxa de 13% ao ano, com pagamento mensal também de 150 “zeds” por mês. Também é dito que se ela tomar este novo empréstimo o anterior será quitado.   Pergunta-se pelos benefícios da transação para a sra. Jones.  A resposta certa é que os juros serão menores e que ainda terá mais 2.600 “zeds” para utilizar. 

Note-se que esta questão é mais difícil, pois envolve conhecer o papel dos juros e porque quem responde são de jovens com 15 anos. E note-se que o teste precisa ser respondido rapidamente, pois são 80 questões em 120 minutos. 

Quanto aos resultados, em primeiro lugar ficaram os estudantes da China (província de Shangai), seguidos pelos da Bélgica, Estônia, Austrália, Nova Zelândia, República Checa e Polônia. Os estudantes dos EUA vieram depois destes, em 8º lugar. Noutro trecho do documento, é dito que os resultados no exame são positivamente correlacionados com os dos testes de leitura e matemática do PISA tradicional. Como o Brasil usualmente se sai mal nesse último teste, e não houve fortes avanços desde 2012, não se pode esperar bons resultados dos nossos estudantes nem no exame tradicional nem no de alfabetização financeira que farão em 2015.  Mas, é bom que façam esses testes, pois isso enfatizará mais uma vez a necessidade de aprimorar a educação brasileira em geral, e também colocará no mesmo status a de desenvolver no país a alfabetização financeira, hoje ainda nos seus primeiros passos.
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Roberto Macedo, CFP® (Certified Financial Planner®) e economista formado pela USP com Mestrado e Doutorado pela Universidade Harvard (EUA), é pesquisador da FIPE-USP.  Foi Secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Fazenda e Planejamento, funcionário do Banco Central e do Banco do Brasil.E-mail: imprensa@bb.com.br. Este texto reflete a opinião do autor e não necessariamente a do BB; tem caráter apenas informativo e não deve ser tomado como recomendação de subscrição, compra ou venda de ativos, decisões estas de responsabilidade exclusiva dos investidores.
(*)http://www.oecd-ilibrary.org/education/pisa-2012-results-students-and-money-volume-vi_9789264208094-en . Esse site também dá acesso para suas versões em francês e alemão.

Perspectivas da economia brasileira em 2015 - 15.12.2014
Um hábito cultivado pelo ser humano é o de refletir sobre o ano seguinte ao final do que se encerra. Assim, o momento é oportuno para analisar essas perspectivas. A reflexão que se segue abordará a economia como um todo, dentro do enfoque conhecido como macroeconomia.

Ela vê a economia no seu conjunto, como se fosse uma imensa empresa.  Como tal, tem sua produção, medida pelo Produto Interno Bruto (PIB), e os seus preços em geral com evolução avaliada por meio de índices, onde se destaca o IPCA, de preços ao consumidor, adotado como meta pela política monetária do Banco Central (BC). A macroeconomia tem dois preços peculiares muito importantes, em face de suas repercussões sobre os demais e também sobre as atividades econômicas em geral: a taxa de câmbio, usualmente medida em reais por dólar, e a taxa básica de juros, ou Selic, que serve de base para as demais taxas de juros da economia. Alguns autores adicionam a essa lista o que chamam de taxa de salários, avaliada ao longo do tempo pela média de seus valores. É também um preço importante, tanto pelo que significa de custos como pelo seu alcance social.

Outros indicadores muito relevantes dizem respeito à atuação do governo nos seus vários níveis (federal, estadual e municipal), pois ele é a instituição de maior peso na economia, onde cobra impostos e realiza gastos. Internacionalmente, governos acumulam déficits e ampliam sua dívida pública, e uma das justificativas é que ele realiza gastos e investimentos que beneficiarão gerações futuras que, assim, deverão responder por parte desse endividamento adicional. Mas, este não pode crescer além de limites razoáveis, para evitar o próprio comprometimento da capacidade governamental de se endividar, entre outros impactos. Assim, o déficit e o endividamento governamentais exigem atenção especial.

Cabe também destacar a situação das contas externas, que têm como um dos indicadores mais importantes o balanço de transações correntes. Quando deficitário, como no Brasil, ele define a maior ou menor necessidade de buscar empréstimos, financiamentos, investimentos diretos estrangeiros e outros recursos para cobri-lo.

No que se segue, abordarei três aspectos:  como a economia termina 2014, a recente reorientação da política macroeconômica, as perspectivas para 2015 e como fica o investidor dentro delas.  Os dados mais utilizados serão os do boletim Focus, do BC, que semanalmente coleta a previsão de analistas financeiros. Para previsões mais detalhadas, sua última edição pode ser acessada conforme referência ao final deste artigo, juntamente com outra que indica como assiná-lo gratuitamente (*). 

A economia neste fim de ano
A previsão é de que o PIB deve crescer muito pouco, a uma taxa perto de 0,2% no ano, que é baixíssima tanto em termos da história econômica do país como da experiência internacional.     A inflação deve ficar inadequadamente próxima do teto (de 6,5% ao ano) da meta visada pelo Banco Central (BC), de 4,5% ao ano. Contas governamentais estão com déficit final perto de 5% do PIB, bem acima do limite de 2,5% aceitável internacionalmente. O balanço de transações correntes está perto de 4% do PIB. Ainda que sua cobertura por investimentos externos seja robusta e o Brasil disponha de grandes reservas, impõe-se conter essa sangria de recursos, para evitar crises cambiais no futuro.

Quanto à política monetária,  por meses ela ficou tolhida, sem o BC aumentar a Selic para combater a alta inflação. E não teve a indispensável colaboração da política fiscal, pois uma política monetária, em tese restritiva, fica inconsistente com a política fiscal expansionista praticada pelo governo com seu elevado déficit.

Esse panorama, em particular o déficit governamental, gerou um clima de desconfiança refletido, do lado das famílias,  em maior cautela ao consumir e investir. E, também, uma atitude contida dos empresários na realização de seus investimentos. Estes é que dão o maior impulso a um crescimento econômico sustentável. Mais investimentos levam à expansão do emprego e a mais compras de bens de capital e insumos produtivos, expandindo a renda da economia. Como resultado, os trabalhadores terão mais dinheiro para consumir e investir, sem recorrer tanto ao endividamento, como vinha acontecendo e comprometendo a renda das famílias.

A reorientação da política econômica...
Aconteceu logo após as eleições de outubro. O BC voltou a subir a Selic, e o economista  Joaquim Levy foi indicado para assumir o Ministério da Fazenda, e liderar a nova equipe econômica.  Tem larga experiência em controle fiscal, foi bem sucedido como Secretário do Tesouro Nacional, e de Finanças da Prefeitura do Rio de Janeiro, e tem prestígio nos meios financeiros. Anunciou que o governo vai reverter, a partir de 2015, os maus resultados que as contas fiscais vêm apresentando.

Como fica 2015?
Essa mudança da política econômica criou perspectivas de um ano melhor. Mas, mesmo se ela for bem sucedida, 2015 será um ano de transição de uma política econômica para outra, e não se deve esperar resultados imediatos. Hoje a previsão ainda é de um crescimento do PIB inferior a 1%, e se chegar próximo dessa taxa já será um bom avanço. Correções de preços administrados, como o da energia, ainda poderão dificultar um sucesso maior no caso da inflação. Mas, como já foi dito, já se espera uma redução do déficit governamental no próximo ano, o que é uma questão chave. Também se espera uma melhoria do balanço de transações correntes com o exterior em 2015. No mesmo ano o mais importante será ver a política econômica movendo-se na nova direção que tomou, com perspectivas de melhores resultados nos anos seguintes.

E o investidor, como fica?
Se as incertezas quanto a um futuro melhor se dissiparem e a economia retomar  o caminho de um maior crescimento, o  mercado de ações também receberá estímulos positivos, mas sempre com os maiores riscos típicos desse mercado. Quanto às aplicações ligadas direta ou indiretamente à Selic, reafirmamos o que foi dito em artigo anterior. Elas ganharam em atratividade com o aumento dessa taxa para com 11,75%, mas esse aumento deverá ser revertido quando a inflação cair para uma taxa mais confortável em relação à meta e seu teto. Contudo, essa queda não virá abruptamente, e as aplicações referenciadas à Selic devem permanecer atrativas pelo menos no primeiro semestre do próximo ano,  ou mesmo depois, para investidores que obtenham rendimentos brutos próximos dela e taxas de administração e de tributação que levem a rendimentos líquidos também interessantes se comparados aos de outras aplicações.
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Roberto Macedo, CFP® (Certified Financial Planner®) e economista formado pela USP com Mestrado e Doutorado pela Universidade Harvard (EUA), é pesquisador da FIPE-USP.  Foi Secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Fazenda e Planejamento, funcionário do Banco Central e do Banco do Brasil.E-mail: imprensa@bb.com.br. Este texto reflete a opinião do autor e não necessariamente a do BB; tem caráter apenas informativo e não deve ser tomado como recomendação de subscrição, compra ou venda de ativos, decisões estas de responsabilidade exclusiva dos investidores.
(*) www.bcb.gov.br/pec/GCI/PORT/Readout/R20141212.pdf.
Para assinatura grátis:  www4.bcb.gov.br/?FOCUSINCL.  

Selic a 11,75 aumenta atratividade de aplicações ligadas a essa taxa - 08.12.2014
Na sua reunião do dia 4 deste mês o Conselho de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC) aumentou em meio ponto percentual (p.p.) a taxa básica de juros da economia, conhecida também como Selic, passando-a de 11,25 para 11,75% ao ano.

Esse aumento foi mais forte que o realizado na reunião anterior desse Conselho, em 29 de outubro deste ano, quando a Selic passou para 11,25% ao ano, depois de ficar estacionada em 11% por mais de seis meses, desde a reunião de 2 de abril.

Esse aumento mais forte da SELIC já refletiu uma reorientação da política econômica, por razões que serão explicadas no texto que se segue. Em seguida, será ressaltado que, com a Selic a 11,75%, de um modo geral aumenta a atratividade de aplicações ligadas a essa taxa, o que pode alcançar até o pequeno investidor. Mas, para identificar vantagens, os investidores em geral precisam avaliar que porcentagem dessa taxa é oferecida como remuneração bruta por aplicações alternativas, bem como taxas de administração e de tributação pelo Imposto de Renda (IR), se incidentes em cada caso.

As razões de um aumento maior da Selic
O Brasil enfrenta hoje uma situação difícil na economia. Entre as principais dificuldades estão o fraco desempenho do Produto Interno Bruto (PIB), que neste ano deverá crescer a uma taxa perto de 0,20%, segundo estimativas do mercado financeiro recolhidas  no dia 28 do mês passado pelo Relatório Focus do BC.  Ao mesmo tempo a inflação se situa próxima do teto (6,5% ao ano) da meta de inflação buscada pelo governo federal (4,5% ao ano), às vezes superando esse teto em sua evolução mensal. 

Outra preocupação do governo e dos analistas que seguem o desempenho dele na área fiscal _ a qual envolve questões ligadas a receitas, despesas, déficits ou superávits e endividamento _, é que suas contas vêm revelando um déficit final perto de 5% do PIB e um resultado primário (receitas  menos despesas exceto juros) próximo de zero, o que faz com que o endividamento, também como proporção do PIB, cresça acima de padrões considerados como razoáveis. Internacionalmente um déficit final de 2,5% do PIB é aceitável como um valor limite para esse resultado.

Com a inflação batendo no teto da meta e um déficit final desconfortável, sobreveio um clima de desconfiança quanto ao futuro da economia, pois o governo federal é a maior instituição que nela atua. Tal clima repercute negativamente na propensão a consumir e a investir das famílias, e empresários ficam em compasso de espera nas suas decisões de investir. Resultado: o PIB cresce menos.

Nesse contexto, ao aumentar a Selic o BC sinaliza que vai combater a inflação com maior vigor, ao mesmo tempo em que a nova equipe econômica já indicada se comprometeu a gerar um superávit primário maior e um déficit final menor de 2015 em diante, mostrando assim disposição para dissipar esse clima de desconfiança.

Outra medida importante foi anunciada no dia 4 de dezembro último, quando o governo federal decidiu baixar para 0,8% sua previsão de crescimento do PIB em 2015. Importante porque essa previsão serve de base para a estimativa de crescimento de arrecadação tributária no mesmo ano, a qual é tomada como parâmetro para o orçamento das despesas.  Um dos problemas da gestão fiscal em 2014 foi o otimismo na previsão de crescimento do PIB e, assim, também das receitas, com o orçamento incorporando um maior aumento destas. Mas, esse não ocorreu, e mesmo assim as despesas se materializaram, agravando o déficit final do governo.   
  
Como examinar a atratividade das aplicações ligadas à Selic
Para prosseguir será tomado um caso bastante usual, o da aplicação num fundo de investimento com remuneração atrelada direta ou indiretamente à Selic, com rendimentos sujeitos ao IR, a uma taxa que depende do seu prazo de aplicação, havendo também uma taxa de administração cobrada pelo fundo.  Neste estágio, também se admitirá que tal fundo oferece 100% do valor da taxa Selic de 11,75% como remuneração bruta, ou seja, antes dessas taxas. E, ainda, que a aplicação será feita por um ano, o que levará a um IR de 20% sobre a remuneração bruta.

Segue-se então que:
1) a remuneração bruta de 11,75% passa a uma remuneração líquida de  9,4% ao ano com o IR de 20%; 2) essa remuneração líquida cai para 7,4% ao ano com taxa de administração de 2% no mesmo período; essa taxa de 7,4% corresponde a 0,60% ao mês; 3) tomando-se a caderneta de poupança como base de comparação, atualmente o valor dos seus juros (0,50%  mês), mais a TR  (que está muito próxima de 0,10), produzem um rendimento de 0,60% ao mês, e não tem IR nem taxa de administração;

Conclusão: com esses rendimentos brutos e valores do IR e da taxa de administração,  os rendimentos líquidos desse fundo e da poupança se equivalem; para maiores taxas de IR e de administração a poupança é mais vantajosa.

Certificados de Depósito Bancário (CDBs) não têm taxas de administração, o que simplifica o cálculo dessa comparação; Letras de Crédito do Agronegócio (LCAs) e Letras de Crédito Imobiliário (LCIs)  também não têm essa taxa e tampouco o IR, trazendo neste caso uma vantagem que tem levado muitos investidores a procurá-las, conforme já relatado noutro artigo neste espaço.

E o futuro da Selic, como fica?
Quanto a isso vale lembrar que o aumento da Selic  para seus níveis atuais deve ter caráter provisório, e deverá ser revertido quando a inflação cair para uma taxa mais confortável em relação à meta e seu teto. A razão é que uma Selic maior eleva também a conta de juros da dívida governamental. E, ainda, aumenta outras taxas de juros, encarecendo assim o crédito, induzindo  investidores a maiores aplicações financeiras em lugar de consumir e/ou investir em ativos reais, como imóveis e fábricas, o que prejudica o crescimento do PIB.

Mas, no horizonte que se pode completar, pode acontecer até um novo aumento, ainda que com a parcimônia referida pelo BC no comunicado sobre a última reunião. E, quando a Selic cair, sabe-se pela experiência passada que essa queda não virá de forma abrupta, mas diluída em várias reuniões.

Portanto, o cenário para o primeiro semestre de 2015,  é um de Selic elevada, capaz de propiciar bons rendimentos para investidores que consigam rendimentos brutos próximos dela e taxas de administração e de tributação que levem a rendimentos líquidos também interessantes se comparados com outras aplicações. Em particular a caderneta de poupança, que constitui um dos parâmetros mais utilizados pelos investidores para essa comparação. 
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Roberto Macedo, CFP® (Certified Financial Planner®) e economista formado pela USP com Mestrado e Doutorado pela Universidade Harvard (EUA), é pesquisador da FIPE-USP.  Foi Secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Fazenda e Planejamento, funcionário do Banco Central e do Banco do Brasil.  E-mail: imprensa@bb.com.br. Este texto reflete a opinião do autor e não necessariamente a do BB; tem caráter apenas informativo e não deve ser tomado como recomendação de subscrição, compra ou venda de ativos, decisões estas de responsabilidade exclusiva dos investidores.

Adesão automática a planos de previdência empresariais - 01.12.2014
Matéria recente do jornal Valor (13/11/14) diz que essa adesão é discutida pelo Conselho Nacional de Previdência Complementar (CNPC) há um ano, mas ainda não se decidiu pela proposição de medidas legislativas sobre o assunto.   Nas empresas que hoje oferecem esses planos, seus empregados têm que se inscrever formalmente, se optarem pela adesão.  Economicamente, ela é recomendável, pois a empresa paga uma parte da contribuição. Ou seja, se não aderir, o empregado perde esse benefício.

Mas, há os que não aderem por várias razões, como a negligência que leva à procrastinação decisória, falta de educação financeira e outras.  Na adesão automática, a inscrição ocorre logo que o empregado é contratado ou o plano é constituído. Mas, a pessoa pode cancelar a inscrição a qualquer tempo.  A proposta da adesão automática é típica da análise das finanças comportamentais, que mostra como traços do comportamento pessoal podem levar a decisões financeiras inconvenientes.

Começarei revendo a natureza desse enfoque, já abordado e defendido noutros artigos neste espaço. Prosseguirei com as vantagens da adesão automática, e concluirei que embora válida ela não é um remédio que garante o compromisso do trabalhador com um plano desse tipo, pois há outras armadilhas no seu caminho. A educação financeira continuada ensina a compreender as vantagens da adesão ao plano, seja voluntária ou automática, ao lado de preveni-lo quanto a quedas nessas armadilhas.
 
O enfoque das finanças comportamentais e sua visão do assunto
Esse enfoque é ramificação, no plano financeiro, da análise científica do comportamento humano. Ficando no plano econômico, onde está o financeiro, e também outros aspectos das decisões econômicas, como a de consumir, antes do avanço da visão comportamental no final do século XX  o enfoque predominante era o que via o homem agindo de forma sempre racional.  Ou seja, a partir das informações disponíveis estava apto a tomar as decisões que lhe trariam os maiores benefícios.

Estudos do seu processo decisório, em particular via experimentos conduzidos por psicólogos, mostraram, contudo, que esse não era o caso.  Um desses psicólogos, Daniel Kahneman,  mostrou  que o ser humano tem dois  sistemas para pensar e decidir. O primeiro, rápido e instintivo, que outros cientistas dizem remontar às origens do homem no reino animal, faz com que as pessoas não reflitam muito sobre as consequências de suas decisões. Por exemplo, um animal quando confrontado com um alimento atraente, trata logo de consumi-lo até satisfazer-se, não se preocupando em guardar um tanto para uso futuro, salvo casos excepcionais, como o das abelhas.  No segundo sistema, resultado de sua evolução como ser humano, o homem, com mais cuidado e num tempo mais longo, reflete sobre as várias dimensões de sua decisão, e assim fica mais próximo de um comportamento racional.

Já nas finanças comportamentais e na previdência, a experiência internacional mostrou que muitas pessoas têm dificuldades de reservar recursos para se prevenirem quanto ao futuro, preferindo usar seus rendimentos para gastos que tragam satisfação imediata.  Por esta razão que os governos instituíram sistemas oficiais e compulsórios de previdência social, como o nosso INSS e os próprios dos funcionários públicos.  E observe-se que nesses casos a adesão é ao mesmo tempo automática e compulsória.

Depois se percebeu que os limitados benefícios dos sistemas oficiais nem sempre satisfaziam às necessidades de determinados segmentos sociais.  Veio então a previdência complementar, mas esta sem adesão automática e não compulsória. Mas, na complementar também se percebeu que alguns grupos de pessoas, ainda que minoritários, mas nem sempre de pequena magnitude, não se interessavam pelos planos oferecidos, embora custeados em parte pelo empregador. Nessas condições vale repetir que o que se discute no CNPC é a adesão automática, mas sem caráter compulsório, ou seja, o empregado pode desistir dessa inscrição.

As vantagens da adesão compulsória
A mais importante é a de efetivamente garantir benefícios previdenciários futuros custeados em parte pelo empregador. Se não aderir, o empregado perde esse custeio, que equivale a uma remuneração indireta além da que normalmente recebe. Os planos também se beneficiam, pois o aumento de sua escala reduz custos de administração por associado. E também ganham musculatura para investir seu dinheiro, pois é sabido que pessoas ou instituições com maiores recursos credenciam-se a uma remuneração maior, ao mesmo tempo em se amplia a margem para diversificar aplicações e reduzir  riscos.

Outra evidência da predominância das vantagens é que nos países onde foi adotada a adesão automática ela levou a uma ampliação significativa das inscrições em planos. Já sabia que isso havia ocorrido nos EUA e no Reino Unido, e a referida matéria do jornal Valor também cita a Nova Zelândia e a Irlanda.

Além disso, também se aponta que no Brasil a adesão automática é uma reivindicação da Associação Brasileira das Entidades Fechadas de Previdência Complementar (Abrapp). E foram consultados três grandes fundos de previdência empresarial brasileiros, e dois deles se manifestaram favoráveis à adesão automática. O terceiro disse que no seu caso ela não teria maior significado, pois a adesão já alcançou um nível muito elevado (94,8%), como resultado, entre outros aspectos, da disseminação das vantagens do plano para os funcionários da empresa, o que entendi como uma forma de educação financeira, cujo papel merece ser ressaltado.

O papel da educação financeira
Conforme venho apontando noutros artigos, esse papel é fundamental no contexto da educação pessoal.  Na adesão aos fundos de previdência empresariais, essa educação garante a adesão de mais beneficiários mesmo se voluntária.

Voluntária ou não, essa adesão não  é uma panaceia que resolve outros obstáculos ou armadilhas que se antepõem a quem participa desses fundos.  Note-se que mesmo com a adesão automática a pessoa pode desistir dela imediatamente ou ao longo do tempo. Outro risco é que essa adesão não impede o saque de recursos acumulados nesses fundos, e esse risco é maior quando o trabalhador é demitido ou muda de emprego por inciativa própria, ocasião em reflete sobre os valores que acumulou no fundo da empresa em que estava.

Ou seja, tentações estão sempre no caminho das pessoas ao administrarem suas finanças pessoais, em processos decisórios cuja racionalidade pode sucumbir na sua passagem pelo primeiro sistema mencionado por Kahneman.  Assim, a educação financeira deve estar presente e de forma contínua, pois pode ser vista como uma forma de reforçar o papel do segundo sistema, o de maior racionalidade, com que tomamos decisões, financeiras ou não.
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Roberto Macedo, CFP® (Certified Financial Planner®) e economista formado pela USP com Mestrado e Doutorado pela Universidade Harvard (EUA), é pesquisador da FIPE-USP.  Foi Secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Fazenda e Planejamento, funcionário do Banco Central e do Banco do Brasil.  E-mail: imprensa@bb.com.br. Este texto reflete a opinião do autor e não necessariamente a do BB; tem caráter apenas informativo e não deve ser tomado como recomendação de subscrição, compra ou venda de ativos, decisões estas de responsabilidade exclusiva dos investidores.

Feirões de dívidas e outras formas de renegociá-las - 24.11.2014
Dívidas são parte da vida e em princípio não constituem um problema. Algumas são até recomendáveis, como os financiamentos imobiliários de longo prazo, sem os quais a aquisição de casa própria seria inviável para a maioria das pessoas.

Esse tipo de dívida passa por uma das regras básicas do endividamento, a de não tomá-la para adquirir bens que duram menos que o prazo de financiamento. O financiamento imobiliário passa por essa regra, pois os imóveis duram até bem mais que as próprias pessoas financiadas e costumam ser deixados como herança. No outro extremo, financiar a alimentação é longe de recomendável, embora muitas pessoas recorram a empréstimos de vários tipos para cobrir rombos no orçamento doméstico onde ela está incluída, inclusive comprando alimentos com cartões de crédito e não zerando o cartão na data do seu vencimento mensal. Outra regra básica é que as dívidas não podem superar a capacidade de pagamento de quem se endivida.

Seja pela violação de uma dessas regras ou por outros motivos, há quem ultrapasse os limites do razoável no endividamento. O primeiro sintoma vem quando um devedor sente que o seu orçamento está apertado, pois os pagamentos da dívida (amortização, juros e outros encargos) passam a absorver uma parcela maior dos rendimentos comprometendo outros objetivos a que estes se destinam, de despesas triviais a outras menos ou não triviais, como diversões e viagens de lazer. E, pior ainda, também se compromete a necessidade de poupar e o objetivo de investir.

Distinguirei quatro etapas desse processo em que as dívidas se tornam inconvenientes, das etapas menos para as mais graves.

Etapa I – Sinal amarelo: o aperto que não exige dívida adicional
Ocorre quando o orçamento se torna apertado pelas dívidas, mas ainda sem a necessidade de tomar novas para equilibrar as contas. Neste caso uma prescrição usual é a de examinar a natureza das dívidas e substituir a dívida mais cara por outras mais baratas. Há pessoas que não refletem sobre o assunto e acumulam dívidas de saldos devedores em conta bancária ou mesmo em cartões de crédito, usualmente as mais caras, com juros que chegam a ultrapassar 10% ao mês. Isto, quando podem recorrer ao crédito consignado, com taxas próximas de 2%, ou ao crédito pessoal de bancos, onde são comuns operações na faixa de 4 a 5% ao mês. Esses números são valores aproximados e podem ser maiores ou menores, cabendo a pesquisa por estes últimos. Reduzir esse custo equivale a uma renegociação. Mas, se as trocas de dívidas não resolvem o problema, outra alternativa é conter mais gastos para não cair na etapa II.

Etapa II – Sinal vermelho: dívidas adicionais para pagar dívidas já existentes
Aí coisa se complica, pois o endividamento se torna crônico, indicando  que os rendimentos são insuficientes para cobrir o orçamento de outras despesas e permitir amortização da dívida. Mesmo presumindo-se que o orçamento já foi apertado, e que os encargos da dívida já são os menores possíveis, ainda há alternativas para não chegar ao desastre da inadimplência, a etapa seguinte. Cabem medidas de maior profundidade, como vender um ativo, como eletrodomésticos e mesmo um dos carros ou até o único disponível,  mudar para um imóvel mais barato, passar para escolas públicas os filhos que estiverem nas que cobram mensalidades, e recorrer à ajuda de amigos e parentes.

Etapa III – O desastre da inadimplência com inscrição nos registros de devedores
Esta etapa é um desastre porque implica em comprometer o próprio nome da pessoa, seu maior patrimônio, além de ficar privada de mais crédito no mercado financeiro.  Ou pior, há instituições especializadas em conceder crédito às pessoas chamadas de “negativadas” nos serviços de proteção ao crédito, mas presumo que são obtidos a taxas que podem até agravar o problema.  Mas, não se pode perder a esperança de um acerto, e cabe passar à etapa seguinte.

Etapa IV – Negociação direta com os credores ou via registros de devedores
Sei que nos EUA é possível pedir concordata pessoal, com o que a questão passa a ser discutida por meio de advogados e no âmbito do Judiciário, tal como ocorre com empresas que se tornam inadimplentes no Brasil. Numa concordata, em geral se discutem saídas como ampliação de prazo e uma redução do valor do débito, que o credor concede na tentativa de salvar pelo menos uma parte do seu dinheiro.

Sem falar de concordata e recorrer ao Judiciário, no Brasil há alternativas que envolvem negociações desse tipo. Individualmente o devedor pode procurar o credor, explicar sua situação, e propor essas alternativas típicas de uma concordata.

Contudo, é importante institucionalizar,  simplificar e difundir  essa alternativa, pois muitos devedores se sentem inibidos de buscá-la ou ignoram a sua existência. E os credores necessitam sistematizar e simplificar procedimentos de recuperação de dívidas, os quais são ingredientes naturais dos seus negócios.

A boa notícia é que essa institucionalização e simplificação vem caminhando no Brasil, facilitada também por avanços nas tecnologias de informação e comunicação, como a internet. Vou me referir aqui a duas instituições de registro negativo de devedores, ambas com serviços de renegociação, a Boa Vista e a Serasa.

A Boa Vista, tem no site www.acertandosuascontas.com.br vários caminhos para a renegociação por meio de conexões que informam sobre mutirões online, mutirões presenciais, postos itinerantes, posto móvel e balcões e atendimento, inclusive seus locais em várias cidades.  Há também outras conexões disponíveis. Destaco a de Educação Financeira, que entre outros itens oferece uma Cartilha do Consumidor que pode ser baixada pelo interessado. Para consulta de débitos e acerto de contas é necessário fazer um cadastro com os dados pessoais. 

Na Serasa, o ponto de partida é o site www.serasaconsumidor.com.br, que para consultas sobre dívidas e renegociações online também pede um cadastro antes de prosseguir com consultas. As presenciais são chamadas de feirões, e  ambas são apresentadas na conexão Limpar meu Nome, que leva a várias etapas do processo de renegociação.    Também é oferecida uma conexão para Educação Financeira. Entre suas opções oferece gratuitamente o software Jimbo que ajuda “a se lembrar de suas datas de pagamentos e organizar as contas para deixar seu bolso em dia.” E, também, na conexão Guias e Publicações, dentro dela a conexão Gibi, uma história em quadrinhos para crianças sobre o tema “Dinheiro não é brincadeira”.

Os dois sites dão a entender que a renegociação é possível com as instituições credoras conveniadas com essas instituições ou que de outra forma participam de suas atividades,  como os mutirões da Boa Vista.    

Mas, melhor mesmo é não seguir pelas etapas descritas. Mesmo sem seguir por elas o leitor pode ajudar caminhantes efetivos ou potenciais com orientações como essas, contribuindo para levá-los a uma situação financeira equilibrada.
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Roberto Macedo, CFPTM (Certified Financial PlannerTM) é economista formado pela USP com Mestrado e Doutorado pela Universidade Harvard (EUA).  Foi Secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Fazenda e Planejamento, funcionário do Banco Central e do Banco do Brasil. E-mail: imprensa@bb.com.br. Este texto reflete a opinião do autor e não necessariamente a do BB; tem caráter apenas informativo e não deve ser tomado como recomendação de subscrição, tomada de créditos, compra ou venda de ativos, decisões estas de responsabilidade exclusiva dos investidores.

Rascunho para a declaração do IRPF de 2015 já está disponível - 17.11.2014
Desde o último dia 3 a Receita Federal disponibilizou no seu site a novidade de um formulário online para servir de rascunho da declaração do Imposto de Renda das Pessoas Físicas (IRPF) de 2015. Segundo a Receita Federal, o objetivo é “permitir que o que o contribuinte registre os eventos à medida em que aconteçam, facilitando o preenchimento e a entrega da declaração.”

O acesso a esse rascunho pode ser feito pela conexão indicada ao final deste artigo.(*)  Ela leva a um texto com informações preliminares. Ao final dele, a conexão “clique aqui”, indica outra com mais informações, entre elas o requisito de uma palavra-chave ou senha criada pelo próprio usuário, que será solicitada para recuperação das informações incluídas no rascunho. No final dessa última conexão pode-se prosseguir em duas direções: “Ver Orientações” e “Fazer rascunho”. 

Examinarei a natureza desse rascunho avançando por esses dois caminhos, chamando-o de RIRPF-2015.

As orientações quanto ao RIRPF-2015
São bastante abrangentes e envolvem os seguintes itens: (a) diferença entre Exercício e Ano-calendário (b) o que é o rascunho? (c) período de utilização; (d) quem pode utilizá-lo; (e) como funciona; (f) como preencher; (g) o que pode ser informado; (h) palavra-chave ou senha; (i) poderei usar essas informações na declaração do IRPF de 2015?; (j)  depois RIRPF-2015 vou poder começar o rascunho de 2016?

Em cada um desses itens há os detalhes correspondentes.  Não vou repeti-los aqui, exceto em dois casos, que dizem respeito ao passo inicial, ou seja, o de decidir quanto à utilização ou não do RIRPF-2015. O primeiro é que há um prazo para isto, pois no item (c) acima é dito que: “O aplicativo Rascunho IRPF poderá ser utilizado até o lançamento do programa gerador da declaração IRPF (PGD IRPF 2015) em março de 2015. Após essa data, somente será permitida a recuperação e transporte das informações já armazenadas para a declaração IRPF 2015 (grifos nossos)”.

Ou seja, o RIRPF-2015 é para ser usado enquanto o programa da própria declaração não estiver disponível.  Quando isso acontecer, esse mesmo programa poderá ser utilizado como rascunho até que a versão final da declaração seja enviada à Receita. Assim, não tem sentido fazer um rascunho em separado a partir de março de 2015. De qualquer forma, quem o elaborou antes poderá transportar para a declaração as informações já acumuladas no rascunho.

Um segundo aspecto é que o RIRPF-2015 poderá ser utilizado tanto em microcomputadores como em dispositivos móveis, conforme se explica no item (e).
   
Fazendo o rascunho
Voltei à conexão “Fazer Rascunho” mencionada no segundo parágrafo deste artigo. Acessada, ela pede o CPF do interessado, e que seja clicado um código de segurança digitando-se uma sequência de números e letras que aparecem uma numa figura. Isto feito, chega-se ao RIRPF-2015.

É composto de cinco itens: (a) identificação (como já foi informado o CPF, aparece o nome da respectiva pessoa e pede-se a data de nascimento); (b) dependentes e alimentandos; (c) rendimentos (tributáveis e não); (d) pagamentos realizados; (e) bens e dívidas; (f) resumo (que abrange rendimentos tributáveis e deduções).

Não avancei com o preenchimento das minhas informações além do item (a). Mas, deixei o documento gravado no site da Receita, para eventualmente voltar a ele. A gravação é feita na conexão “Salvar rascunho” que fica no canto superior direito do item (e), o de bens e dívidas, ou seja, antes do item resumo.  Fiz o salvamento, quando então se pede uma senha pessoal que digitei.

O RIRPF-2015 não tem comando de impressão do conjunto, mas pode-se imprimir cada página pelo programa de acesso à internet. Entendo que se quer evitar seu uso como comprovante de alguma coisa como, por exemplo, de disponibilidade de rendimentos.  Todas as páginas dizem que é um resumo.

Como procedimento final, saí do programa e resolvi testar a recuperação do arquivo, repetindo o processo desde o início. Aí, ao começar pela identificação, coloquei o meu CPF e veio, além do meu nome, um local para colocar a senha, fiz isto, e ao prosseguir vi estava disponível o RIRPF-2015 que havia iniciado.
 
Vale a pena usar o RIRPF-15?
Para responder, começo com duas observações adicionais. Como era de se esperar, o RIRPF-2015 é mais próximo do formulário completo do que do formulário resumido, com dedução de 25% a título de despesas.  E até o ponto a que cheguei não leva a uma previsão do imposto a pagar.

Outra observação é a de que para determinar rendimentos e deduções, e tomando-se o caso dos assalariados, o contribuinte precisará realizar um trabalho adicional, levantando seus comprovantes mensais de pagamento/recebimento dos salários e os vários documentos de pagamentos realizados. E, e a partir desses documentos fazer uma projeção dos valores anuais. Ou, então, no caso dos salários, fazendo essa previsão a partir dos valores observados no ano de 2014, corrigidos, digamos, por um índice de inflação como o IPCA, mais uma estimativa de ganhos reais no período.

É louvável a iniciativa da Receita Federal de ofertar esse rascunho. Vejo-o como particularmente útil para quem vai fazer a declaração pela primeira vez, ou para pessoas que tiveram modificações importantes nas suas fontes de rendimentos ou nas suas despesas a declarar.  Serve, também, para exercícios de educação fiscal e financeira em programas de ensino ou aprendizado por conta própria voltados para o assunto.

Entretanto, para quem não prevê maiores alterações na sua declaração de 2015 relativamente à de 2014, sua utilidade é menor. Para contribuintes nessa situação, creio que é suficiente aguardar o recebimento dos comprovantes que costumam ser enviados pelas fontes logo no início do ano, e utilizar como rascunho o próprio formulário que será disponibilizado pela Receita a partir de março de 2015, recuperando os dados da declaração de 2014.

Entendo também que para adiantar o trabalho do início de 2015 um caminho alternativo ou complementar é o de tomar a cópia dessa declaração do ano passado como uma lista para checar documentos que precisarão ser arregimentados para a nova declaração. E, também, para examinar e aproveitar o quê de despesas dedutíveis poderia ser adicionado este ano para atender a necessidades pessoais ou familiares, como de saúde e educação. E, ainda, para verificar se investimentos dedutíveis, como em planos de previdência privada fechados ou abertos, estão sendo realizados.    Ou
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Roberto Macedo, CFPTM (Certified Financial PlannerTM) é economista formado pela USP com Mestrado e Doutorado pela Universidade Harvard (EUA).  Foi Secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Fazenda e Planejamento, funcionário do Banco Central e do Banco do Brasil. E-mail: imprensa@bb.com.br. Este texto reflete a opinião do autor e não necessariamente a do BB; tem caráter apenas informativo e não deve ser tomado como recomendação de subscrição, tomada de créditos, compra ou venda de ativos, decisões estas de responsabilidade exclusiva dos investidores.
(*)www.receita.fazenda.gov.br/AutomaticoSRFsinot/2014/11/04/2014_11_03_15_02_40_1035121595.html. 

Teste sua educação financeira - 10.11.2014
Passou recentemente pelo Brasil a economista ítalo-americana Annamaria Lusardi, professora da Escola de Negócios da universidade George Washington, nos EUA. Entre outras atividades, ministrou uma palestra em São Paulo, e concedeu entrevista ao jornal Valor Econômico.

A especialidade de Lusardi é a educação – que chama de alfabetização – financeira. Mas, é mais que isso. É também uma apaixonada pelo assunto.  Pesquisando sobre o que faz, vi que sua pregação envolve frases como esta: “A alfabetização financeira é uma qualificação básica e essencial para viver no século XXI. Ela é o que ler e escrever significou para as gerações passadas; quem não pudesse ler e escrever não tinha condições de participar integralmente da sociedade, assim como hoje quem não é educado financeiramente não pode participar integralmente da economia moderna.” 

Ao pesquisar sobre os trabalhos de Lusardi, encontrei um artigo em co-autoria com Olivia Mitchell, outra economista, esta da Universidade de Boston (Boston College), também nos EUA. Nesse artigo as duas autoras propõem um teste bem simples e de apenas três questões para num primeiro estágio avaliar o status da educação financeira das pessoas(*).  O teste proposto mede o conhecimento financeiro básico quanto a taxas de juros, ao efeito da inflação e ao conceito de diversificação de risco, e será apresentado a seguir para que os leitores façam a sua própria avaliação.

As respostas corretas são apresentadas ao final deste artigo(**). É óbvio, mas vale lembrar que essas respostas só devem ser consultadas após a realização do teste.

A natureza do teste
Com pequenos ajustes ao caso brasileiro, a estrutura do teste é apresentada na tabela a seguir, onde suas três questões são apresentadas conforme o seu tipo e o que se pergunta em cada caso.

Teste de educação financeira de Lusardi e Mitchell

Tipo de questão
Pergunta
Taxa de juros
(1) Suponha que você tivesse R$100 numa conta de poupança cuja taxa de juros fosse 6,15% ao ano. Depois de 5 anos, quanto você acha que teria na conta se tivesse deixado esse mesmo dinheiro nela: (a) mais de R$106,15; (b)  exatamente R$106,15, (c) menos de R$106,15.
Inflação
(2) Imagine que a taxa de juros na sua conta de poupança fosse 6,15% ao ano e que a inflação fosse 8,5% ao ano. Depois de um ano, com o saldo dessa conta, você poderia: (a) comprar mais bens e serviços do que poderia ter comprado antes do transcurso desse ano; (b) comprar menos bens e serviços; (c) comprar exatamente a mesma quantidade de bens e serviços.
Diversificação de risco
3. Você acha que a afirmação “Comprar ações de uma única companhia usualmente gera um retorno mais seguro do que comprar quotas de fundos de ações” é: (a) verdadeira; (b) falsa.

Observando as perguntas acima, minha percepção é de que a mais difícil é a terceira, pois exige um conhecimento mais sofisticado.  A pergunta de resposta mais fácil é a segunda, pois as pessoas estão sempre a fazer compras, e sabem que preços mais altos absorverão parcela maior do seu dinheiro. A primeira pergunta fica numa situação intermediária, pois embora simples envolve juros compostos, cujo entendimento costuma apresentar dificuldades para muitas pessoas.

Resultados do teste nos EUA
Em 2007 esse teste foi aplicado nos EUA a um grupo de adultos na faixa etária de 51 a 56 anos de idade conforme levantamento realizado em 2004,  separadamente para homens e mulheres. Os resultados são apresentados na tabela a seguir.

Educação Financeira na Faixa Etária de 51 a 56 Anos de Idade, por Gênero
Porcentagem de Respostas Corretas, Incorretas e de Não Sabe a Resposta

                                             % de Corretas            % de Incorretas          % de Não sei
Tipo de Questão
Homens
Mulheres
Homens
Mulheres
Homens
Mulheres
Taxa de juros
74,8
61,9
18,5
24,7
6,1
11,6
Inflação
82,2
70,6
11,4
14,5
5,7
12,8
Diversificação de Risco
59,2
47,6
14,8
12,0
25,0
39,6

Dada a natureza simples das perguntas o estudo conclui que os resultados mostram que a educação financeira das pessoas pesquisadas é deficiente. Pondero, também, que na idade dessas pessoas elas já passaram por muitas experiências de vida onde poderiam ter aprendido com a própria prática dessas experiências.

Passando a detalhes, e começando por não fazer distinções entre as respostas de homens e mulheres, conforme esperado a porcentagem de respostas corretas foi a maior no caso da segunda pergunta e menor no que diz respeito à terceira. Além disto, esta última pergunta também teve destacadamente uma proporção maior de pessoas que indicaram não saber como respondê-la. Ainda quanto a essa proporção, ela não apresenta grandes diferenças entre as respostas à primeira e à segunda pergunta.

Quanto às diferenças das respostas entre homens e mulheres, a evidência foi de que estas apresentam maiores deficiências em matéria de educação financeira. Mas, não se pode concluir que se trata de algo intrínseco à sua condição feminina.  Nos EUA como no Brasil, seus maridos costumam deixá-las à margem de decisões financeiras, o que impede que aprendam pela experiência de praticá-las.

Outras constatações do estudo
Recorrendo à literatura sobre o assunto, entre outros aspectos o estudo adiciona que: (a) carências de educação financeira são encontradas internacionalmente; (b) essas carências aumentam com a idade, o que agravavam o seu impacto, pois em geral as pessoas continuam tomando decisões financeiras mesmo em idades mais avançadas; (c) tais carências caem com o aumento da escolaridade; (d) também caem quando o currículo estudado inclui Economia como uma de suas disciplinas. O estudo defende com vigor a ampliação da educação financeira, pois a ausência dela leva a decisões equivocadas que implicam em prejuízos para quem as toma.
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Roberto Macedo, CFPTM (Certified Financial PlannerTM) é economista formado pela USP com Mestrado e Doutorado pela Universidade Harvard (EUA).  Foi Secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Fazenda e Planejamento, funcionário do Banco Central e do Banco do Brasil. E-mail: imprensa@bb.com.br. Este texto reflete a opinião do autor e não necessariamente a do BB; tem caráter apenas informativo e não deve ser tomado como recomendação de subscrição, tomada de créditos, compra ou venda de ativos, decisões estas de responsabilidade exclusiva dos investidores.
(*) Lusardi, Annamaria, e Olivia Mitchell, “Financial Literacy: Evidence and Implications for Financial Education, TIAA-CREF Institute, coleção Trends and Issues, Maio 2009.
(**) Respostas corretas: 1(a), 2(b) e 3(b, pois em geral a diversificação reduz o risco).



Gastos de consumo não podem dobrar com salário duplicado pelo 13º - 05.11.2014
O 13º existe desde 1962. Com a maior formalização do mercado de trabalho e também beneficiando aposentados e pensionistas do INSS, ele alcança coletivamente uma imensidão de pessoas e de recursos. Anualmente nesta época o DIEESE (Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Sócio-Econômicos), publica estimativas dos números envolvidos. Ainda não estão na internet as estimativas deste ano, mas as do ano passado servem para mostrar a enormidade dos números envolvidos.

Assim, em 2013 o DIEESE estimou que 82,3 milhões de brasileiros o receberam, a maior parte (61,4%) constituída por empregados formais, inclusive 2,2% de empregados domésticos com carteira profissional assinada. Aposentados e pensionistas do INSS e do regime próprio da União corresponderam a 38,6%. Quanto aos valores, o total estimado foi de R$143 bilhões e R$1.740 o valor médio por pessoa.  Para uma ideia desse valor total, no mesmo ano ele foi equivalente a cerca de sete vezes o valor anual de todos os pagamentos relativos ao programa Bolsa Família.

Abordarei o quê fazer com esse dinheiro, conforme padrões de planejamento financeiro pessoal entendidos como eficazes por especialistas no assunto.

1. O 13º deve ser tratado como dinheiro extra – Ele equivale a um salário que se adiciona ao usual, e é usualmente pago em duas parcelas, uma em novembro, outra em dezembro. Mesmo que venham juntas com os salários de cada um desses meses, é preciso separar o 13º mentalmente. Ou passando o valor para uma conta em separado, que pode ser a de poupança, até que receba sua destinação final.  Ter uma conta de poupança além da conta corrente é recomendável tanto pela própria utilidade daquela, como para separações desse tipo para quem tem dificuldades de fazê-las mentalmente, e de ter disciplina para cumprir o que pensou a respeito.

Assim, o salário usual é uma coisa; o 13º é outra coisa. Por quê? Ele não deve cobrir despesas triviais, como alimentação, habitação, transporte, serviços públicos (água, eletricidade, telecomunicações etc.). Tais despesas devem ser cobertas pelo salário recebido mensalmente, e se a pessoa conta com o 13º para tapar buracos deixados por essas despesas, já é um mau sinal de que não administra bem seu orçamento. O 13º deve ir para outras finalidades, como as que se seguem.

2. Ele vem numa época de despesas extraordinárias
São as das comemorações do Natal e da virada de ano. Elas não precisam ser evitadas, a não ser em casos críticos de dificuldades orçamentárias. Seria uma frustração tremenda não dar presentes de Natal nem comemorar a chegada do Ano Novo. É só não exagerar, a ponto de comprometer outras finalidades a que o 13º deve se destinar e sem cujo atendimento há o risco de outras frustrações e insatisfações futuras.

Assim, é conveniente fazer uma provisão para gastos que virão logo no início do ano seguinte, e que são extraordinários em termos do fluxo usual de caixa, como IPVA, IPTU, taxas de matrícula e material escolar, e outros gastos cujos pagamentos são únicos ou em poucos meses, e então apertariam o orçamento (como o seguro de automóvel). 

Quanto a presentes, para parentes mais próximos, sugiro dar-lhes algum dinheiro, exceto para crianças que ainda não tenham uma boa noção do valor dele. Penso como economista. Além de não ter que especular quanto ao quê dar de presente em cada caso, nem de gastar tempo com compras, entendo que ao receber dinheiro a pessoa irá tirar maior satisfação do uso dele conforme sua conveniência. Ou seja, sem que se esse uso seja definido por quem dá o presente de outra forma. E como ficaria aquela cena sonhada por muitos, de colocar os presentes debaixo da árvore de Natal?  Ora, dinheiro também cabe em caixinhas e envelopes coloridos.

Outras despesas comuns nessa época são viagens para visitar parentes na época do Natal ou para festas ligadas ao chamado réveillon.  Creio que as primeiras têm justificável prioridade; as segundas, principalmente quando envolvem hotéis e passagens aéreas de maior custo nessa época, são para quem tem um orçamento capaz de acomodá-las, respeitados também os dois objetivos mencionados a seguir.

3. Lembrar gastos postergados por negligência ou falta de recursos
Destaco os relativos a tratamentos dentários ou de saúde em geral, bem como os correspondentes a necessidades educacionais específicas, como os de treinamento ou reciclagem profissional, de aprendizado de língua estrangeira e cursos de pós-graduação, inclusive os de duração mais curta, como os de especialização.

Esse destaque dos citados tratamentos é  porque envolvem uma vantagem que já mencionei noutros artigos. Aqueles pagos bem próximo do fim do ano, e dedutíveis na declaração do Imposto de Renda das Pessoas Físicas para quem usa o formulário completo, terão nessa época o seu maior valor real para fins dessa dedução, pois que foram realizados o mais próximo do prazo da declaração (30 de abril do ano seguinte).

Por exemplo, um tratamento dentário de mesmo preço, digamos, R$1.500,00, pago em janeiro de 2014 terá um valor real menor em abril de 2015 do que se pago em dezembro de 2014. É provável que esse preço tenha aumentado do início para o fim do ano, mas neste caso se poderia argumentar que se nesse início os R$1.500,00 fossem aplicados, digamos, numa conta de poupança, poderiam gerar rendimentos próximos da inflação. E o preço maior do tratamento também levaria a maior dedução na declaração.

4. Reduzir a “despoupança” sob a forma de dívidas e ampliar a poupança
Este item ficou para o final, mas é o mais importante, e precisa ser pensado antes dos demais. Outra razão de estar nesta posição é que ele compõe a mensagem final deste texto, e assim com maior probabilidade de ser lembrada pelo leitor.

Uma dívida que ampliou o consumo é uma “despoupança”, pois indica que o consumo ultrapassou o rendimento disponível.  Usualmente, é dívida que envolve juros mais altos. Já um financiamento imobiliário é uma forma de poupar já acoplada a um investimento. O 13º deve ser usado prioritariamente para pagar dívidas do primeiro tipo.  O resgate das do segundo tipo só é conveniente se não for possível obter, com o dinheiro disponível, um rendimento maior do que os juros do financiamento, em geral menores. Ou se o dinheiro tiver outras prioridades, como recompor reservas exauridas.

Para concluir repito a receita deste praticante e pregador das virtudes da poupança. É preciso pensar sempre em ampliá-la exceto nas idades mais avançadas, quando será hora de tirar proveito dela. Assim, pessoas mais jovens e casais com filhos ainda menores, devem refletir sobre vida naquelas idades e constituir paulatina e persistentemente um patrimônio que lhes assegure viver dignamente mais à frente.

Ou seja, trata-se de assegurar “Natais” e Anos Novos efetivamente felizes por toda a vida. São estes os votos que antecipadamente apresento aos que leem meus artigos e cuja atenção muito agradeço.
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Roberto Macedo, CFP (Certified Financial Planner) é economista formado pela USP com Mestrado e Doutorado pela Universidade Harvard (EUA).  Foi Secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Fazenda e Planejamento, funcionário do Banco Central e do Banco do Brasil. E-mail: imprensa@bb.com.br. Este texto reflete a opinião do autor e não necessariamente a do BB; tem caráter apenas informativo e não deve ser tomado como recomendação de subscrição, tomada de créditos, compra ou venda de ativos, decisões estas de responsabilidade exclusiva dos investidores.

A importância da Lei do Imposto na Nota, em vigor desde 6/10/14 - 27.10.2014
Depois de alguns adiamentos,  no início deste mês passou a vigorar a Lei nº 12.741, de 8/12/2012, conhecida como Lei do Imposto na Nota. Ela pode ser consultada no site do Palácio do Planalto, conforme indicado ao final deste artigo(*).

Examinarei detalhes dessa lei, e também a dificuldade de calcular rigorosamente o valor, incluído em cada nota fiscal, de todos os impostos a que ela se refere. Mas, estou convencido de sua utilidade e importância, por razões que também apresentarei.

O que diz a Lei do Imposto na Nota
Ela veio cumprir a Constituição de 1988 que no Parágrafo 5º do seu Artigo 150 diz que: “... lei determinará medidas para que os consumidores sejam esclarecidos acerca dos impostos que incidam sobre mercadorias e serviços.”

E não há como realizar esse esclarecimento sem referência ao valor total de desses tributos. Assim, no seu Artigo 1º determina-se que: “Emitidos por ocasião da venda ao consumidor de mercadorias e serviços, em todo território nacional, deverá constar, dos documentos fiscais ou equivalentes, a informação do valor aproximado (grifo meu)  correspondente à totalidade dos tributos federais, estaduais e municipais, cuja incidência influi na formação dos respectivos preços de vendas.”

O parágrafo 5º do mesmo artigo determina que deverão ser computados o valor total aproximado (de novo, grifo meu)  de até (idem) oito tributos federais, estaduais e municipais que estão embutidos nos preços finais de bens e serviços.

A lista é uma densa sopa tributária que inclui: I - Imposto sobre Operações relativas a Circulação de Mercadorias e sobre Prestações de Serviços de Transporte Interestadual e Intermunicipal e de Comunicação (ICMS); II - Imposto sobre Serviços de Qualquer Natureza (ISS); III - Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI); IV - Imposto sobre Operações de Crédito, Câmbio e Seguro, ou Relativas a Títulos ou Valores Mobiliários (IOF); V - Contribuição Social para o Programa de Integração Social (PIS) e para o Programa de Formação do Patrimônio do Servidor Público (Pasep) - (PIS/Pasep); VI - Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social (Cofins); VII - Contribuição de Intervenção no Domínio Econômico, incidente sobre a importação e a comercialização de petróleo e seus derivados, gás natural e seus derivados, e álcool etílico combustível (Cide); VIII – Imposto de Importação.

Essa lista por si mesma indica a complexidade da estrutura tributária brasileira. Mas, conforta um pouco saber que nem todos incidem simultaneamente, como é o caso do Imposto de Importação, restrito a produtos importados. Por isto grifei acima o termo até na referência aos oito tributos passíveis de menção e valoração total nas notas fiscais. Também grifei aproximado ao referir-me ao valor total desses impostos.  Esse cálculo aproximado é particularmente importante para simplificar e permitir a aplicação da lei.

Como funciona na prática?
Examinei nota fiscal que recentemente recebi ao comprar numa loja de uma grande rede de supermercados.  Sobre um total de R$163,00, o valor total dos impostos declarado na nota foi de R$46,31, ou 28,41%. Já a nota de um pequeno restaurante, sobre seu valor de R$41,47 incidiu um total de R$8,14, ou 19,63% de impostos.

Ambas taxas são elevadas em termos internacionais, e também é grave o fato de que esses impostos são pagos por qualquer pessoa, independentemente de seu nível de renda, ou capacidade contributiva.  Mendigos, por exemplo, usualmente não freqüentam restaurantes, mas se comprassem algo num supermercado estariam sujeitos à referida e alta incidência de impostos.  Por isto se diz que esses impostos,  chamados de indiretos ou cobrados sobre os preços de bens e serviços, e não diretamente sobre a renda ou a propriedade das pessoas, são regressivos. Ou seja, tendem a absorver uma parcela maior de rendimentos pessoais menores do que de rendimentos pessoais maiores, já que no primeiro caso é maior a proporção de rendimentos destinada à aquisição de bens como esses adquiridos em supermercados.  Pessoas de maiores rendimentos gastam uma proporção menor, inclusive porque poupam parcela maior dos seus rendimentos.

Como chegar aos referidos números?

Uma grande rede de supermercados dispõe de um grande aparato de tecnologias de informação e comunicação e faz isto sem maiores dificuldades.  Por sua vez, pequenos estabelecimentos podem recorrer, entre outras fontes, a serviços disponibilizados pelo governo que facilitam o cálculo do valor total aproximado dos impostos incidentes sobre o que vendem a cada consumidor.

Por exemplo, o site do Serviço Brasileiro de Apoio à Micro e Pequena Empresa (Sebrae), disponibiliza no seu site uma planilha Excel que funciona como uma calculadora que serve a esse propósito. O acesso é indicado no final deste artigo(**). 

Nessa planilha, o interessado entra com as seguintes informações: a unidade da federação onde está estabelecido, o segmento de atividade mais próximo do seu, o regime de tributação (pelo Simples ou Lucro Presumido) e a faixa de receita anual. Depois clica-se no link “Calcular Tributo” e vem o resultado. Há também o link “Gerar Cartaz” para que seja afixado em local visível aos consumidores ou disponibilizado da mesma forma por meio eletrônico.

Fiz dois exercícios nessa planilha, para o estado de São Paulo, no segmento industrial, e duas faixas de receita anual, a primeira entre R$180.000,01 e R$360.000,00, com tributação pelo Simples Nacional, e a segunda entre R$540.000,01 e R$720.000,00, com tributação pelo sistema de Lucro Presumido. No primeiro caso, o resultado foi uma alíquota total de 5,97%, sendo 4,11% da União e 1,86% do Estado; no segundo, a alíquota total foi de 19,93%, sendo 10,93% da União e 9,00% do Estado.  O consumidor interessado poderá fazer várias simulações para entender melhor como as alíquotas são calculadas, e saber em que condições pagará menos impostos.

Por que o Imposto na Nota é importante
Entre outros impactos, espera-se que conhecendo o custo dos impostos os cidadãos passarão a acompanhar com maior atenção as tentativas de aumentá-los. E se tornarão mais exigentes quanto à contrapartida desses impostos, na forma de obras e serviços públicos. 

Mas, para alcançar esse objetivo, será preciso conscientizar o consumidor quanto à necessidade de pedir e examinar as notas fiscais correspondentes às suas compras de bens e serviços.
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Roberto Macedo, CFP® (Certified Financial Planner), é economista formado pela USP com Mestrado e Doutorado na Universidade Harvard (EUA).  Foi Secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Fazenda e Planejamento, funcionário do Banco Central e do Banco do Brasil. E-mail: imprensa@bb.com.br. Este texto reflete a opinião do autor e não necessariamente a do BB; tem caráter apenas informativo, e não deve ser tomado como recomendação de subscrição, tomada de créditos, compra ou venda de ativos, decisões estas de responsabilidade exclusiva dos investidores.
(*)  http://www.planalto.gov.br/CCIVIL_03/_Ato2011-2014/2012/Lei/L12741.htm.
(**) http://www.sebrae.com.br/sites/PortalSebrae/noticias/Lei-do-Imposto-na-Nota:-valor-dos-impostos-deve-constar-na-nota.

Como a casa própria pode gerar renda na aposentadoria - 13.10.2014
Uma cartilha para cidadãos dos EUA sugere duas formas de fazer isto. Uma pode ser aplicada no Brasil. É a de vender o imóvel próprio, comprar um de menor valor,  e aplicar a diferença para obter rendimentos. 

A segunda opção é chamada de  “hipoteca invertida” nos EUA. Já a abordei num artigo postado neste espaço em 24-2-14.  A ideia é hipotecar o imóvel próprio, mas como que vendendo-o para uma instituição financeira, e passando a receber dela as prestações pela venda, sem desocupá-lo. Na sucessão, o imóvel é vendido; se houver alguma dívida remanescente, é coberta por um seguro. Se sobrar dinheiro, fica para os herdeiros.
Como esta opção já foi abordada, dedicarei maior atenção à primeira.

O que diz a cartilha(*)
Foi publicada pelo Centro de Pesquisa sobre Aposentadoria da Boston College, uma prestigiosa universidade da mesma cidade, nos EUA. Na apresentação da cartilha, foi dito que americanos com 62 anos de idade ou mais possuíam, no primeiro trimestre deste ano, imóveis residenciais cujo valor total alcançava a enorme cifra de US$ 3,4 trilhões. Para uma ideia do tamanho deste valor, ele era então superior àquele que esses americanos acumularam em toda a sua vida para usufruir  aposentadorias complementares, similares às dos nossos planos de previdência privada fechados ou abertos, nestes últimos se incluindo os conhecidos como PGBL e VGBL. Os fechados são aqueles instituídos dentro de uma única empresa ou outro tipo de entidade.

Mas, toda essa riqueza imobiliária só gera uma renda implícita, de cada imóvel um valor equivalente ao do aluguel que seu dono teria que pagar se não tivesse o próprio. E há também os custos associados com o imóvel, que crescem com o seu valor.  Em particular, nos EUA o equivalente local do Imposto Predial e Territorial Urbano (IPTU) brasileiro é bem mais caro do que o nosso. Uma das razões é que também cobre despesas com a polícia e o judiciário municipal, os quais respondem pela segurança pública local. Aqui no Brasil essa tarefa compete aos governos estaduais.

A cartilha estima que esses custos habitacionais absorvem 30% das despesas dos casais na faixa etária entre 65 e 74 anos de idade. Tais custos incluem  impostos, serviços públicos (água, saneamento, eletricidade e gás, estes dois últimos também altos em fase do disseminado uso de aquecedores e aparelhos de ar condicionado naquele país), e gastos de manutenção, entre outros.  Essa parcela de 30% é uma das maiores no conjunto das despesas desses casais. As demais parcelas citadas pela cartilha são: alimentação, vestuário e transporte (35%), despesas médicas (10%) e outras  (25%).

A ideia, então, é a de reduzir o tamanho da residência e o dos custos a ela associados,  vendendo-a e adquirindo um imóvel de menor valor.

O exemplo dado pela cartilha
É o de uma pessoa com 65 anos idade e possui um imóvel que vale US$ 250.000, que venderia para comprar outro no valor de US$ 150.000. Ao fazer isto, essa pessoa irá gastar usualmente 10% do valor do imóvel vendido, ou seja, US$ 25,000, com despesas ligadas à venda (impostos e custos de transferência), que também são elevados naquele país, valor esse que também inclui as despesas de mudança. Assim,  sobrarão US$ 75.000 para investir e gerar rendimentos.  A cartilha estimou que seria possível obter desse dinheiro uma renda de 4% ao ano, protegida da inflação, ou seja, de US$3.000 por ano.

Outros ganhos viriam da redução das despesas relativas ao imóvel com a sua troca pelo de menor valor.  Essas despesas são estimadas em 3,25% do valor do imóvel em termos anuais, e assim cairiam  de US$8.125 para US$4.875, gerando ganho anual de US$ 3.250.     No final, o ganho de rendimentos totalizaria US$6.250 por ano. Parece pouco para todo esse trabalho de vender, comprar e mudar. Mas, em cinco anos, o ganho total seria de US$31.250; em dez anos, de US$62.500, o que não é pouco.

Outras vantagens
A cartilha também pondera que, ao se mudar, a família terá menor espaço para cuidar e poderá ajustá-lo às conveniências das pessoas idosas. Como uma residência típica americana é uma casa de dois andares, adiciono  que seria melhor passar para uma de andar único, para evitar o risco de quedas que para idosos costumam trazer complicações mais sérias.

Outra possibilidade interessante, seria a possibilidade de escolher um local que oferece coisas de maior interesse para o casal, como uma área ligada à natureza, proximidade de familiares e fácil acesso a compras, diversões e cuidados médicos. Entendo que esse procedimento também pode ser acompanhado de mudança de cidade, para outra onde o custo de vida e dos imóveis seja menor, e o atendimento público à saúde seja melhor.

Tudo isto faz sentido numa avaliação guiada apenas pelo bom senso.  Sem ler sobre o assunto, na última vez em que me mudei, optei por um apartamento menor, mas o que pesou mais foi a questão do local: escolhi um perto de um clube onde fiz novos amigos, pratico esporte e que fica também perto de uma futura estação de metrô que deverá facilitar a minha mobilidade urbana, um termo hoje muito comum. 

E a opção da hipoteca invertida?
Já descrevi no artigo citado a natureza desse financiamento. Além de disponibilizar dinheiro mensalmente, outra vantagem é que sua quitação só ocorre se o devedor decidir vender o imóvel ou vier a falecer.  O governo oferece um seguro tanto para quem hipoteca seu imóvel – caso deixe de receber os pagamentos devidos pelo financiador –, como para este último se na quitação o valor em aberto do empréstimo se revelar maior que o do imóvel. Para ter acesso a esse tipo de financiamento e com seguro garantido pelo governo federal, é preciso ter 62 ou mais anos de idade. 

Com ele, não é necessário mudar de casa (mas, o valor dela para o proprietário cai ao longo do tempo), o endividamento fica limitado ao valor do imóvel, é um empréstimo, e assim não se paga imposto sobre o valor recebido mensalmente. O custo de transação é menor (3,3% do valor do imóvel). Usando os mesmos dados do exemplo anterior a cartilha conclui que ela gera uma renda maior  (US$ 8,600) por ano do que na operação de venda casada com a compra de um imóvel de menor valor.  Mas, essa renda não é ajustada pela inflação. 

Como esse tipo de hipoteca inexiste no Brasil, essa comparação é um tanto abstrata.  De concreto, fica a sugestão de adotá-lo também no Brasil.
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Roberto Macedo, CFP® (Certified Financial Planner), é economista formado pela USP com Mestrado e Doutorado na Universidade Harvard (EUA).  Foi Secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Fazenda e Planejamento, funcionário do Banco Central e do Banco do Brasil. E-mail: imprensa@bb.com.br. Este texto reflete a opinião do autor e não necessariamente a do BB; tem caráter apenas informativo, e não deve ser tomado como recomendação de subscrição, tomada de créditos, compra ou venda de ativos, decisões estas de responsabilidade exclusiva dos investidores.
(*) http://crr.bc.edu/special-projects/books/using-your-house-for-income-in-retirement/.

Investimento para aposentadoria tem peculiaridades - 04.10.2014
Apresentarei algumas dessas peculiaridades, dentro da minha pregação usual de que é central no planejamento financeiro pessoal o objetivo de garantir recursos para uma aposentadoria digna.

Tratarei de três delas.  A primeira se refere à composição dos investimentos entre renda fixa e variável à medida que a idade for avançando; a segunda, de como utilizá-los na aposentadoria; e a terceira enfatiza a necessidade de garantir rendimentos permanentes de valor sustentável, reajustáveis pelo menos pela inflação, e vitalícios.

Mas, antes de adentrar esses assuntos cabe referência a uma questão importante. A pessoa que esteja a refletir sobre o lado financeiro de sua aposentadoria precisa ter uma estimativa, tão precisa quanto possível, de suas necessidades nessa fase futura da vida, para que possa fazer uma estimativa de mesma natureza quanto aos rendimentos com que então precisará contar. Essas duas estimativas devem ser consolidadas num orçamento para a aposentadoria, que pode começar com um esboço e sucessivos aperfeiçoamentos. É conveniente fazê-lo em base mensal.

O que esse orçamento deve conter
Começando pelas despesas, muita gente pensa em gastos futuros similares aos que realiza no momento, mas as necessidades das pessoas mudam ao longo da vida. Por exemplo, gastos com saúde tendem a aumentar consideravelmente nas idades mais avançadas, enquanto que os de transporte para o trabalho irão desaparecer quando a pessoa de fato se aposentar.    Assim, é preciso pensar nas necessidades futuras.

Também é conveniente separar as despesas em: (a) essenciais, como alimentação, habitação (espero que sejam apenas as de manutenção de um imóvel próprio; aposentar ainda pagando aluguel é um cenário assustador), vestuário, transporte e saúde; (b) este último item deve ser enfatizado, pois é mais difícil de prever, e o ideal é ter um plano de saúde com cobertura bem ampla; (c) despesas anuais a serem convertidas em mensais, ou seja, dividindo-as por 12, como IPVA, seguro de automóvel, habitacional e imposto de renda, este contado como despesa ou descontado dos rendimentos; (d) nas despesas devem ser marcados itens que poderão ser cortados em caso de necessidade (por exemplo, TV a cabo, assinaturas de jornais e revistas, mensalidades de clubes e outros), lembrando que nessa fase da vida será mais difícil aumentar rendimentos, em razão do que cortar despesas poderá ser a única opção para ajustar o orçamento.  Ainda quanto às despesas, também é conveniente deixar um espaço para alguns desejos quanto ao que fazer na aposentadoria: viagens, lazer e outros itens, que ficarão na contingência da disponibilidade de rendimentos para tanto.

Passando aos rendimentos, em geral envolvem bem menos itens do que as despesas, devendo ser listados todos aqueles com que se pode contar na fase de aposentadoria: valor a ser recebido do INSS ou de outras fontes governamentais, de fundos ou planos de previdência privada, aluguéis e outros rendimentos.

Depois, deve-se calcular a diferença entre rendimentos e despesas. Se positiva, ótimo; se não, será preciso pensar em cortes de despesas, mas o melhor é pensar em como aumentar as receitas futuras com mais investimentos enquanto a pessoa for ativa. Outra opção é estender a idade de aposentadoria, como muitos vêm fazendo no Brasil.

Passando aos investimentos...
Vários jornais, programas de televisão, livros, consultores e atendentes de instituições financeiras tratam desse assunto, fazendo suas recomendações. Como são muitas as possibilidades, não é uma questão simples. Em geral se ensina que é preciso poupar,  e buscar aqueles investimentos com maior rendimento, mas sempre ponderadas as questões do risco e da liquidez em cada caso. Outro ensinamento é que os investimentos tidos como de renda fixa, como poupança, fundos de investimentos atrelados à Selic e papéis do Tesouro Nacional programados para resgate no vencimento, têm forte liquidez e menor risco. Na outra ponta, de liquidez mais baixa e de risco claramente mais alto, destacam-se as ações.  Para prosseguir esses dois tipos de investimentos serão chamados de renda fixa e de renda variável.

Como escolher a distribuição dos recursos entre eles ao longo do tempo pensando na aposentadoria e como utilizá-los nessa fase? Aí a literatura aponta várias alternativas, das quais selecionei duas que são populares entre consultores de finanças pessoais nos EUA, mas ainda muito pouco conhecidas no Brasil.

A primeira é que a porcentagem destinada à renda variável deve seguir a fórmula (100 menos idade) X 100.  Assim, a quem tiver 40 anos essa regra sugere que 60% fiquem em renda variável e 40% em renda fixa.  E quem tiver 60 anos ficaria com 40% em renda variável e 60% em renda fixa. Ou seja, a proporção destinada à renda fixa aumentaria com a idade.  Um dos argumentos por trás dessa regra é que em períodos mais longos o investimento em renda variável costuma produzir melhores resultados do que a renda fixa, mas é preciso escolher um bom momento, digamos, do mercado de ações, para o movimento de saída dele. Nas idades mais avançadas, o tempo à frente pode não ser suficiente para aguardar esse momento. De um modo geral, as pessoas tornam-se mais avessas ao risco com a idade.

A segunda diz respeito a quanto gastar anualmente usando o valor acumulado, e é chamada de regra dos 4%. Ela sugere que um recém aposentado poderia retirar 4% a cada ano dos recursos que acumulou, sem ficar sem dinheiro antes do falecimento. Ora, essa regra depende muito de como o dinheiro foi investido e de seus rendimentos. Vi simulações no caso dos EUA, de que se forem acumulados com base numa aplicação mínima 55% a 70% em renda variável, e dados os padrões históricos dos rendimentos desse tipo de investimento naquele país, inclusive na sua cobertura da inflação,  a regra se sustentaria como válida. Aqui no Brasil, não sei de simulações como essa.

Mesmo sem avançar por outras regras, minha conclusão é que em qualquer caso a pessoa precisa ter na aposentadoria um bom plano de saúde e um ou mais rendimentos básicos e de baixíssimo ou nenhum risco, além de protegidos da corrosão pela inflação. Pode ser a aposentadoria do INSS, ou da condição de funcionário público estatutário ou de um sólido plano de previdência privada, fechado ou aberto, com a opção por também usufruir desses planos um rendimento vitalício. Além desses fundamentos, se a pessoa quiser acumular mais, será preciso ponderar novamente as questões de rendimento, risco e liquidez, analisando várias alternativas, entre as quais se incluem as não financeiras, como investimentos em imóveis e empreendimentos próprios.

Adicionalmente, em algum momento será preciso refletir sobre qual o momento de parar, ou seja, de deixar de somar recursos mediante investimentos, e mudar para subtrair paulatinamente o que precisa para viver, respeitadas também as opções sobre o que deixar de herança ou não. 
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Roberto Macedo, CFP® (Certified Financial Planner), é economista formado pela USP com Mestrado e Doutorado na Universidade Harvard (EUA).  Foi Secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Fazenda e Planejamento, funcionário do Banco Central e do Banco do Brasil. E-mail: imprensa@bb.com.br. Este texto reflete a opinião do autor e não necessariamente a do BB; tem caráter apenas informativo, e não deve ser tomado como recomendação de subscrição, tomada de créditos, compra ou venda de ativos, decisões estas de responsabilidade exclusiva dos investidores.

O encontro anual de planejadores financeiros da FPA - 29.09.2014
Novamente participei do encontro anual de planejadores financeiros que têm a certificação internacional conhecida como CFP® (Certified Financial Planner ou Planejador Financeiro Certificado). O evento ocorreu nos EUA, e foi organizado pela Financial Planning Association (Associação de Planejamento Financeiro – FPA), que reúne os CFP®s daquele país, onde a certificação teve origem e há o maior número de profissionais que a têm.
Tenho essa certificação e o Banco do Brasil a exige de quem escreve artigos como este no seu site. Inicialmente, vou explicar resumidamente a natureza dessa certificação. Obtê-la pode ser de interesse do leitor.

CFP®: o que é a certificação
Há instituições certificadoras em 24 países. No Brasil quem credencia é o IBCPF (Instituto Brasileiro de Certificação de Planejadores Financeiros). Fundado há uma década, já tem perto de 1.500 CFP®s. Mundialmente há cerca de 150 mil. A certificação é conferida a pessoas de nível educacional superior, de qualquer área, desde que passem pelo exame exigido. Para maiores informações: www.ibcpf.org.br.

A certificação é pessoal. Nos EUA um grande número de CFP®s presta serviços a pessoas. No Brasil, eles trabalham predominantemente em instituições financeiras.  Mas, um número crescente deles já presta serviços a indivíduos ou famílias. A certificação precisa ser renovada cada dois anos. Para tanto, o CFP® precisa demonstrar que passou por programas de educação financeira continuada, entre outros requisitos.

O evento nos EUA
Uma característica do encontro anual da FPA é o grande número de participantes atraídos pelo amplo conteúdo e qualidade do programa e dos palestrantes. Desta vez foi em Seattle, no estado de Washington, no Noroeste dos EUA. É um lugar pouco conhecido dos brasileiros, mas famoso, entre outras razões, porque lá se localizam as sedes de empresas importantes, como Microsoft, Boeing e Starbucks.  De novo o congresso teve perto de 2.000 participantes, entre eles dezenas vindos de outros países.  Vou tocar em aspectos do evento que vi como mais interessantes.
1) Lições de ética – Um CFP® assume com a entidade certificadora o compromisso de seguir um código de ética,  e nas reuniões anuais uma das sessões mais importantes, com duração de duas horas, aborda o tema Desafios Éticos. O apresentador tem sido o mesmo, um especialista em questões de ética ligadas a práticas financeiras. Ele faz uma exposição intercalada por perguntas à audiência para serem respondidas como num teste de múltiplas escolhas em cada caso, e logo sai na tela a tabulação das respostas à medida que vão chegando. Exemplo de uma regra típica desse código é a proibição de que o profissional CFP® atuando independentemente como consultor ofereça a seus clientes produtos de cuja venda receba uma comissão.
2) O aspecto profissional – Várias sessões são dedicadas ao aperfeiçoamento das práticas profissionais, conforme exemplificado pelo título de uma delas (tradução): “Estratégias para Posicionar sua Firma para Ter Sucesso na Guerra por Colaboradores Talentosos”.
3) Planejamento para Aposentadoria –  Foi um dos temas de maior destaque do evento, confirmando minha percepção de que o planejamento financeiro pessoal é essencialmente voltado para essa fase da vida.  Quanto a isto, foi ressaltado no evento que os EUA estão passando por uma fase em que a geração dos “baby boomers” chegou à fase de aposentadoria. Esse termo refere-se aos nascidos entre 1946 e 1964, um período marcado por um forte aumento (“boom”) na taxa de nascimentos (número de bebês por 1000 habitantes) que se seguiu ao fim da II Guerra Mundial. Foi estimulado pelas perspectivas otimistas quando ao período de paz e prosperidade que se seguiria.  Essa geração entrou em 2006 na fase dos 60 anos. Quanto a isso, foi ressaltado no evento que os CFP®s do país estão diante de uma oportunidade para expandir seus negócios, para assessorar os sessentões tanto na sua fase de aposentadoria, como no processo sucessório da riqueza que essa geração acumulou. E, também, para assessorar os herdeiros dessas heranças.
4) Atenção aos clientes mais jovens – Este tema também teve destaque, tanto pelas implicações do item anterior no caso de heranças, como pelo fato de que as novas gerações têm comportamento diferente dos “baby boomers”, pois entre outros aspectos são mais liberais no aspecto social, e recorrem muito a meios modernos de comunicação, que incluem aparelhos como os notebooks e telefones celulares, e o recurso às chamadas mídias sociais (Twitter, Facebook, LinkedIn e outras). Tudo isso exige dos CFP®s um ajuste nas suas formas de comunicação com seus clientes, em particular os mais jovens.
5) Atenção às mídias sociais – Pelas razões apontadas no parágrafo anterior, várias sessões do evento dedicaram-se a este assunto. Recorde-se que o termo diz respeito ao  processo de interação social entre pessoas no qual elas criam, compartilham ou trocam informações e idéias nas comunidades virtuais e nos seus networks (redes de contatos pessoais), num processo em que a internet desempenha um grande papel. Como esse processo têm alcance extraordinário, uma das apresentações recomendou até uma “dieta” na sua utilização, a qual entre outros itens recomenda não se precipitar quanto à aquisição de novidades que vão surgindo nessa área, cabendo perguntar a si mesmo se são efetivamente necessárias.
6) Rebalanceamento de carteiras – Tema também abordado em várias seções, argumentando-se pela sua necessidade, pois muitos investidores relutam em recorrer a esse procedimento e, quando o fazem, às vezes incorrem em erros de avaliação. Como, por exemplo, ao evitar vender ações que passaram por perdas na expectativa de que estas serão recuperadas.  Isto se explica pela análise das finanças comportamentais a qual ensina que as pessoas tendem a lamentar mais as perdas do que os ganhos de mesmo valor.  Aliás, o tema das finanças comportamentais continuou a atrair atenção, seja em palestras específicas, como a intitulada (tradução) “Modelos Mal Comportados: o Papel da Economia Comportamental no Planejamento Financeiro”, seja por meio de menções de seus ensinamentos em outras discussões.
6) Planejamento financeiro no taxi (extra-evento) – Vi na televisão o anúncio de uma instituição financeira, na forma de um vídeo que mostra alguns de seus clientes como convidados para receber gratuitamente conselhos de planejamento financeiro pessoal numa corrida de taxi também gratuita durante o que parecia ser o trajeto do cliente para o trabalho. O objetivo óbvio é atrair clientes, mas pode-se presumir que há um mercado para os mesmos, o que demonstra o avanço desse interesse  por parte da população em geral. O acesso ao vídeo pode ser feito pela conexão indicada ao final deste artigo.(*)
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Roberto Macedo, CFP® (Certified Financial Planner), é economista formado pela USP com Mestrado e Doutorado na Universidade Harvard (EUA).  Foi Secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Fazenda e Planejamento, funcionário do Banco Central e do Banco do Brasil. E-mail: imprensa@bb.com.br. Este texto reflete a opinião do autor e não necessariamente a do BB; tem caráter apenas informativo, e não deve ser tomado como recomendação de subscrição, tomada de créditos, compra ou venda de ativos, decisões estas de responsabilidade exclusiva dos investidores.
(*) http://www.businessinsider.com/sc/principal-financial-group-free-cab-rides-2013-9.


Orientação financeira no Reino Unido – o caso do endividamento
Roberto Macedo

A necessidade de educação financeira para os cidadãos em geral tem caráter universal. No Brasil já se tornou objeto de política governamental, com a criação da Estratégia Nacional de Educação Financeira (ENEF), a qual tem um site com várias informações, e recomendo que seja visitado(*).  Mas, há países que já avançaram mais que o Brasil, como é o caso do Reino Unido. Para quem não sabe, ele engloba a Grã-Bretanha (Inglaterra, Escócia e País de Gales) e a Irlanda do Norte.

Lá existe o Serviço de Aconselhamento Financeiro (Money Advice Service), que se apresenta como “gratuito, imparcial e estabelecido pelo governo”(**).  Seu site, que aborda vários aspectos das finanças pessoais, também oferece um serviço de consulta por telefone de segunda a sexta. E, inclusive aos domingos, um serviço de conversa on line, ou seja, o interessado digita perguntas e recebe respostas da mesma forma.

O site contém uma quantidade enorme de informações. Abordarei, como exemplo, o aconselhamento para o endividamento, que se desdobra nos seguintes temas: antes de tomar dinheiro emprestado, controlando o endividamento, problemas de hipotecas e aluguel, ajuda com relação a empréstimos,  e cartões de crédito e notas (“ratings”) de crédito. Cada um desses temas se desdobra em subtemas, que são 16, 23, 7, 17 e 23, respectivamente, totalizando 86(!). Para não fazer uma análise superficial, vou tomar apenas um deles, o da dívida boa versus dívida má. Eventualmente voltarei a abordar outros no futuro.

Se o leitor sabe inglês e gostaria de praticá-lo aprendendo também sobre finanças pessoais, sugiro examinar o site com detalhe. Se não sabe, recomendo que aprenda, pois é um bom investimento cultural e financeiro. Foi um dos melhores da minha vida.

Tema: Antes de tomar dinheiro emprestado; subtema: dívida boa versus dívida má

1.  O que é uma dívida boa? É “um investimento sensato no futuro financeiro pessoal e que não deve ter impacto negativo no conjunto da situação financeira da pessoa”. Comentário: note-se que essa definição de dívida boa coloca a dívida como investimento. Segue-se que a dívida para consumo não é uma boa dívida. Outra forma de dizer isto é que a duração do bem objeto do endividamento deve ser maior do que o prazo da dívida.

    Prosseguindo, o site diz que uma dívida boa pressupõe que “você deve ter uma razão clara e específica para assumi-la e um plano realista para quitá-la o mais rápido possível, ou numa sequência de pagamentos suportáveis (por exemplo, para um financiamento imobiliário).” Comentário: deve-se pensar primeiro se a dívida servirá para um bom objetivo e o pagamento dela não pode se tornar um ônus insuportável, que no limite poderá gerar um endividamento adicional sem outro propósito que não o de aumentar a própria dívida, esse mesmo ônus e assim sucessivamente.

    Ainda sobre uma dívida boa, é dito que o tomador “deve ter selecionado a forma mais barata de assumi-la. Isto deve ser feito buscando o método de endividamento, uma taxa de juros, o montante do crédito ou empréstimo, seus termos e encargos, de tal forma  que sejam os mais adequados. Em alguns casos, isto significará um negócio com a menor taxa de juros possível, mas em outros pode não ser o caso como, por exemplo, se a menor taxa de juros vier acompanhada de elevados encargos adicionais ou penalidades.”

2. Exemplos de dívida boa: (a) um empréstimo estudantil, porque o ensino superior conduz, em geral, a uma remuneração maior para os que o têm, relativamente aos que não o possuem; (b) financiamento de imóvel com hipoteca, pois significa uma casa para morar que, depois de paga, se torna um grande ativo financeiro, com possibilidade de aumentar de valor, além do que o pagamento do financiamento pode ser mais barato que o aluguel; (c) para
investir no próprio negócio, desde que o tomador tenha um plano sensato e realista, que se der certo terá um valor bem maior que o da dívida original; (d) para comprar um carro, se for essencial para ir trabalhar ou ganhar a vida, mas é importante que o tomador possa suportar, com seus rendimentos,  os custos da dívida e os do uso do carro.

3. O que é uma dívida má? “...são as que drenam a riqueza do devedor, não cabem no orçamento e não oferecem a perspectiva de que ‘se pagarão por si mesmas’ no futuro. Ela usualmente vem sem planos de pagamento realistas,  e são frequentemente ampliadas quando as pessoas compram por impulso algo de que não precisam, ou tomam dinheiro emprestado para pagar contas triviais (como aluguel e de serviços públicos, acrescento). Se você não tem condições de tomar o dinheiro emprestado (por exemplo, se não está seguro quanto à sua capacidade de realizar os pagamentos mensais), é certamente uma dívida má.”

4. Exemplos de dívidas más: a) para viajar num “feriado de luxo”, que “pode ser a viagem da sua vida, mas é melhor evitá-la se for acompanhada de uma vida endividada”; b) um carro novo desnecessário; d) para pagar contas triviais e outras dívidas. Em seguida, o site orienta sobre “aonde ir para obter aconselhamento gratuito quanto a dívidas”.

5. Dicas para evitar más dívidas.     Vêm na forma de perguntas. Se a resposta a uma delas for não, a dívida provavelmente é má. São elas: a dívida melhorará minhas finanças no longo prazo? eu procurei tomá-la nas melhores condições? e da forma mais barata possível? se os juros forem variáveis terei condições de suportá-los se a taxa subir no futuro? poderei suportar confortavelmente os pagamentos mensais? entendo todos os termos e condições da dívida que vou assumir? e os riscos e o que pode acontecer se algo der errado com a dívida?

6. E tem mais
    O site prossegue com mais duas questões: o quanto tomar emprestado e o respectivo plano de pagamento.  E outras que abrangem os demais 15 subtemas do tema aqui abordado. Conclui pedindo a opinião do usuário sobre as informações dadas, abrindo-lhe  espaço para uma questão técnica, e dando-lhe orientação para aconselhamento financeiro.

Em conclusão...
Foi o melhor site de finanças pessoais que já visitei, e mostra que o Brasil ainda tem muito a avançar no atendimento das suas necessidades nessa área.
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Roberto Macedo, CFP® (Certified Financial Planner®) e economista formado pela USP com Mestrado e Doutorado pela Universidade Harvard (EUA), é pesquisador da FIPE-USP.  Foi Secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Fazenda e Planejamento, funcionário do Banco Central e do Banco do Brasil. E-mail: imprensa@bb.com.br. Este texto reflete a opinião do autor e não necessariamente a do BB; tem caráter apenas informativo e não deve ser tomado como recomendação de subscrição, compra ou venda de ativos, decisões estas de responsabilidade exclusiva dos investidores.
(*) http://www.vidaedinheiro.gov.br/                    (**) https://www.moneyadviceservice.org.uk/en  

Por que os americanos poupam tão pouco e lições para o Brasil
Roberto Macedo

Um vídeo apresentado no site de uma revista dos EUA, a The Atlantic, respondeu esta questão de forma bem simples e didática, mas mesmo assim ensejando reflexões importantes quanto ao tema e à pertinência das mesmas respostas no caso brasileiro(*). O conteúdo do vídeo citado será resumido a seguir.

Os mais pobres poupam muito pouco

    O vídeo ressalta que nos anos 1970 a poupança nos EUA equivalia a 12% da renda das famílias, número este que caiu para 5% em 2014. Este último número é particularmente baixo, conforme dados da Organização para a Cooperação Econômica e o Desenvolvimento (OCDE), que reúne um grupo de países onde predominam os mais ricos e principalmente os europeus. Ela apresenta uma tabela onde é mostrada a previsão para a poupança líquida, ou seja, exceto impostos, como proporção da renda familiar para 23 países(**). Os EUA aparecem com 4%, mas só sete países têm taxa menor. Para os 15 países da zona do euro, a taxa média é 7,9%, quase o dobro da americana.

    Segundo um estudo do nosso Banco Central publicado em janeiro de 2013, a taxa líquida de poupança familiar no Brasil mostrou o valor médio de 5,5% entre 2008-2009, um valor inferior à media do período 2002-2003, que foi de 6,1%(***). Ou seja, a do Brasil também é muito baixa, mas os EUA chamam a atenção por se tratar de um país bem mais rico.

    Razões teóricas e evidências empíricas apontam que a poupança cresce com o nível de renda das pessoas. Ou seja, quanto menor a renda maior é a dificuldade de poupar. No limite dos valores mais baixos, há pessoas que apenas sobrevivem com o que ganham, nada poupando. O vídeo fala de dados segundo os quais os 40% mais pobres do país poupam em média menos de 1% de sua renda, enquanto os 1% mais ricos poupam 50% do que ganham. Já vi pobre sendo definido como a pessoa que não poupa, e dados como esses sustentam essa definição.

    Mas, o que explicaria por que no Brasil a taxa de poupança é um pouco mais alta do que nos EUA, embora os habitantes daquele país sejam em média muito mais ricos? Quando se fala que a poupança cresce com a renda, isto vale dentro de um país, como foi mostrado no caso dos EUA, pois a poupança está muito sujeita a aspectos culturais e às instituições locais. Na China, por exemplo, essa taxa líquida de poupança alcançou 38% da renda em 2012, uma das razões sendo que lá os serviços públicos de saúde e de previdência social são muito precários, com as próprias famílias tendo que responder pelas suas necessidades nessa área, como a de cuidar de seus idosos(****).

Os mais ricos influenciam os padrões de consumo dos mais pobres   

    Do ponto de vista social, os EUA são marcados por uma forte desigualdade de renda entre as pessoas. Em geral, os ricos não escondem seu melhor padrão de vida, e o vídeo aponta que na tentativa de imitar alguns aspectos desse padrão as pessoas de rendimentos mais baixos expandem o seu consumo a ponto de comprometer seu empenho em poupar.

    Quanto a isto o apresentador do vídeo recorre a uma expressão muito popular nos EUA. Em inglês, “keep up with the Joneses”. Traduzindo, quer dizer “manter-se no mesmo padrão dos Joneses”, um casal de pessoas com de sobrenome Jones, muito comum nos EUA. Jones é um nome genérico para vizinhos. Adiciono que o padrão residencial mais disseminado nos EUA é de uma casa isolada dos vizinhos apenas por uma cerca baixa de madeira ou por arbustos. Não há muros como no Brasil e isto abre espaço para que as pessoas de uma comunidade estejam atentas ao que se passa com seus vizinhos.

    No Brasil a aspiração de um padrão de vida no limite das posses e em prejuízo da poupança também se faz presente.  Mas, não me parece que ela se manifeste apenas dessa forma, de olhar ao lado para ver o que fazem os outros. Parece-me que o impulso mais forte venha da disseminação desses padrões mais altos pelos meios de comunicação, como televisão e suas novelas, fazendo com que as pessoas sintam a necessidade de acompanhá-los, para o que também colaboram as mídias sociais.

Creio que um exemplo disso se evidenciou pelo movimento conhecido como “rolezinhos”, no início deste ano, na capital paulista. Os “rolezeiros” mostraram pendor para o consumo e por andar na moda, valorizando a cultura do prazer, e buscando admiração pelas suas aparências e seu comportamento. E vinham de famílias pobres, da periferia da cidade. O vídeo também ressalta a dificuldade que as pessoas enfrentam para se submeterem a sacrifícios no presente em troca de benefícios futuros, o que é a lógica da poupança. Mas, muita gente não a pratica e também mostram dificuldades noutros aspectos de sua vida, como ao tentar fazer dietas e praticar exercícios físicos.

No fim o apresentador do vídeo dá razão a uma idéia que vem sendo colocada em prática no país, a de tornar automática a inscrição em planos de previdência privada, em lugar de a adesão ficar dependendo da decisão de cada pessoa. Quem quiser sair, pode sair, mas sabe-se que a inscrição automática aumenta a proporção de participantes. É uma forma de impor a disciplina que as pessoas têm dificuldade de adotar.

Aliás, o regime previdenciário compulsório, adotado em muitos países, também tem raízes nessa percepção, ou seja, se as pessoas voluntariamente não provêem recursos para o seu futuro, o governo as obriga a fazê-lo por meio de sistemas como o INSS.

Como lição para o Brasil fica a de que suas famílias vêm poupando pouco, que isso precisa mudar, e que por trás dessa dificuldade estão comportamentos que também ocorrem noutros países.  Por esta razão, mesmo não tendo os dados de que eles dispõem, podemos aprender com eles, e desde logo procurar aliviar o efeito desses problemas no Brasil.

 O remédio, como noutros casos, está no exame dessa vertente comportamental das finanças pessoais. Ela permite identificar traços indesejáveis desse comportamento que na esfera das políticas públicas devem ter sua divulgação disseminada para que as pessoas se previnam quanto aos seus efeitos.  Para os recalcitrantes, pode se tornar inevitável a adoção de medidas mais duras, como essa da previdência social compulsória e a regra já citada de adesão automática a planos de previdência privada adotados no âmbito das empresas, bem como disseminando a adoção desses planos por um número bem maior delas do que o observado no Brasil.
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Roberto Macedo, CFP® (Certified Financial Planner®) e economista formado pela USP com Mestrado e Doutorado pela Universidade Harvard (EUA), é pesquisador da FIPE-USP.  Foi Secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Fazenda e Planejamento, funcionário do Banco Central e do Banco do Brasil. E-mail: imprensa@bb.com.br. Este texto reflete a opinião do autor e não necessariamente a do BB; tem caráter apenas informativo e não deve ser tomado como recomendação de subscrição, compra ou venda de ativos, decisões estas de responsabilidade exclusiva dos investidores.
(*) http://www.theatlantic.com/video/index/379378/why-are-americans-so-bad-at-saving-money/
(**) http://www.oecd-ilibrary.org/economics/household-saving-rates-forecasts_2074384x-table7
(***) http://www.bcb.gov.br/pec/boletimregional/port/2013/01/br201301b2p.pdf
(****) http://www.cnbc.com/id/100526306#.

Custos de aposentadoria de homens e mulheres - 08.09.2014
Nunca soube de alguém analisando e comparando esses custos no Brasil. Mas, vi que um artigo sobre o assunto concluiu que nos EUA as mulheres têm custos maiores que os dos homens nessa fase da vida(*). Isto me fez refletir sobre eventuais diferenças de custos no Brasil, e conclui que diferença de mesma natureza também existe aqui.

Apresentarei várias razões da sua existência e implicações da análise realizada.

Por que custos de aposentadoria de mulheres são maiores do que os dos homens 
A razão mais importante é que em geral as mulheres vivem mais do que os homens, o que implica num custo de vida adicional. Essa maior sobrevivência das mulheres é evidente no âmbito familiar e no meio social que vivemos, onde há mais viúvas do que viúvos, o que o referido estudo mostra para os EUA. Em números: em 2012 constatou-se que apenas 45% das mulheres com 65 anos ou mais de idade estavam casadas, enquanto 75% dos homens na mesma faixa etária ainda permaneciam casados, o que se explica pela maior viuvez entre as mulheres.

Mas, esta percepção de que as mulheres vivem mais que os homens carece de números específicos em cada caso, de modo a lhe dar maior sustentação científica. Quanto a isto o procedimento usual é comparar a expectativa de vida de homens e mulheres, conforme a sua média por faixa etária.  Mas, mesmo aí costumam haver equívocos. Assim, há quem recorra à expectativa média de vida ao nascer. Olhando os últimos dados do IBGE sobre o assunto, os de 2012, nesse ano essa expectativa média de vida dos homens ao nascer era de 71 anos enquanto a das mulheres era de 78,3 anos, ou seja, uma diferença de 7,3 anos favorecendo as mulheres.

Certo?  Não, porque se deve olhar a expectativa de vida nas idades em que as pessoas se aposentam e não ao nascer.  Até a aposentadoria transcorrem décadas, e sabe-se, entre outros aspectos,  que nesse período morrem mais homens do que mulheres na fase da juventude, em razão das chamadas mortes violentas, em particular assassinatos e acidentes de trânsito, o que explica em parte essa grande diferença entre os dois sexos quando avaliada ao nascer.

Olhando a expectativa de vida aos 60 anos, em torno dos quais são comuns as aposentadorias no Brasil,  a expectativa média de vida é de 79,8 anos para os homens e 83,3 para as mulheres.  Note-se que esses dois números são maiores do que os da expectativa de vida ao nascer tanto para homens como para mulheres. A razão é que no período de 60 anos muitos homens e mulheres morrem antes, e sobrevivem os mais saudáveis, outra razão sendo que surgem muitos avanços da medicina que prolongam a vida das pessoas.

Mas, como visto, aos 60 anos a diferença entre a expectativa média de vida de homens e mulheres é menor do que ao nascer e nos dados de 2012 estava em a 3,5 anos, porque fatores como a mortalidade juvenil já deixaram de atuar. Parece uma diferença pequena, mas a conta não para aí, pois se o caso for de um casal há também a diferença de idade entre marido e mulher. Esta, em geral, é mais jovem.

Tome-se então um casal em que o marido tinha 65 anos e a mulher tinha 60 em 2012. Segundo a mesma fonte de dados, o marido tinha nesse ano uma expectativa média de vida  que o levaria a 2030,3; a mulher, até 2037,3, ou seja, de sete anos sem o marido. Se ela não tivesse uma renda própria adequada ou, se não tinha, seu marido não lhe deixou uma pensão satisfatória, seriam sete anos de vacas magras.

Concluindo esta parte da expectativa de vida, lembro que os números que a indicam são médias avaliadas para pessoas de mesmo sexo e de mesma idade. E que a pessoa que olha a tabela do IBGE pensando em si mesma também precisa levar em consideração que subjacentes a essas médias estão probabilidades relacionadas com elas. Ou seja, pode-se viver mais ou menos que as médias que as tabelas mostram, e supondo uma distribuição normal dos números em torno dessas médias, eles estarão mais concentrados perto dela. As tabelas completas, ano a ano, de zero (ao nascer) a 80 anos de idade ou mais, separadamente para homens e mulheres, podem ser examinadas no site do IBGE(**).
   
E há outras causas que pesam nos custos
O mesmo estudo a que me referi apresenta algumas dessas outras causas: (a) mulheres gastam mais que homens em despesas de seu livre arbítrio como roupas, sapatos, alimentos e doações para instituições de caridade; (b) assim, tendem a poupar menos para a aposentadoria do que os homens, o que também ocorre porque em geral ganham menos do que eles enquanto na ativa, o que é agravado porque acumulam menos tempo de contribuição para planos de aposentadoria se deixam a força de trabalho no período em que seus filhos requerem maior atenção; (c) como resultado de (a) e (b), terão rendimentos menores do que os homens na fase de aposentadoria; (d) sua situação também pode ficar agravada pelo fato de que elas gastam mais em despesas com saúde (US$ 5.246 no caso das mulheres, versus US$4.125 no dos homens, em média, no ano de 2012), e o estudo também mostra dados de que elas procuram mais os consultórios médicos, e clínicas e serviços de emergência de hospitais do que os homens. Creio que tais causas também atuam no Brasil.

Duas implicações importantes emergem desse estudo realizado nos EUA. Estudos do mesmo tipo deveriam ser realizados e divulgados no Brasil, para que as próprias mulheres refletissem sobre suas necessidades e respectivos recursos nas idades mais avançadas. E, assim, se preparassem melhor para evitar dificuldades financeiras nessa fase da vida, poupando mais e assegurando os recursos necessários, juntamente com os com que poderão contar de seus cônjuges. Outra implicação é a necessidade de políticas públicas para encorajar essa reflexão das mulheres, bem como para avaliar e eventualmente reformular o atendimento público que recebem no caso de carências maiores. Por exemplo, a Lei 8.742/93 assegura um salário mínimo mensal à pessoas de 65 anos ou mais que não possuir meios de prover a própria manutenção e nem de tê-la provida por sua família,
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Roberto Macedo, CFP® (Certified Financial Planner®) e economista formado pela USP com Mestrado e Doutorado pela Universidade Harvard (EUA), é pesquisador da FIPE-USP.  Foi Secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Fazenda e Planejamento, funcionário do Banco Central e do Banco do Brasil. E-mail: imprensa@bb.com.br. Este texto reflete a opinião do autor e não necessariamente a do BB; tem caráter apenas informativo e não deve ser tomado como recomendação de subscrição, compra ou venda de ativos, decisões estas de responsabilidade exclusiva dos investidores.
(*) http://www.investopedia.com/articles/personal-finance/062014/retirement-costs-men-vs-women.asp?utm_source=financial-edge&utm_medium=Email&utm_campaign=PF-8/19/2014-spark
(**)ftp://ftp.ibge.gov.br/Tabuas_Completas_de_Mortalidade/Tabuas_Completas_de_Mortalidade_2012/pdf/homens_pdf.pdf  (para homens); para mulheres, os dados são encontrados em:
ftp://ftp.ibge.gov.br/Tabuas_Completas_de_Mortalidade/Tabuas_Completas_de_Mortalidade_2012/pdf/mulheres_pdf.pdf   Em cada caso, a tabela mostra idades de zero a 80 anos ou mais e, para cada idade, a “expectativa de vida à idade (x)”, ou anos de vida adicionais.  Assim, esses anos precisam ser somados à idade para chegar a números como os do texto.  Por exemplo, para mulheres com 79 anos, essa expectativa de vida adicional era de 10,2 anos em 2012, com o que em média podiam esperar que alcançariam 89,2 anos. 

Idosos mostram maior crescimento da inadimplência - 01.09.2014
Matéria recente do jornal O Estado de S. Paulo (24/8/14, p.B10) estendeu-se por uma página inteira ao mostrar esse maior crescimento da inadimplência nas faixas etárias mais elevadas, relativamente às dos extratos mais jovens. A matéria baseou-se em pesquisas de serviços de proteção ao crédito e apresentou também três entrevistas com idosos endividados.

É uma constatação preocupante, pois se trata de uma fase da vida em que as pessoas são mais vulneráveis na sua saúde e também financeiramente. O quê fazer? Antes de responder a esta pergunta, serão examinados os números das pesquisas, seguindo-se algumas observações quanto às suas causas.

Os números das pesquisas
Quanto ao crescimento da proporção de idosos entre os inadimplentes, dados vieram da Boa Vista Serviços, administradora do Serviço Central de Proteção ao Crédito (SCPC). Eles revelam que essa proporção no caso de consumidores com mais de 56 anos de idade chegava a 13% no primeiro trimestre do ano corrente, e passou a 17% no segundo trimestre. Em comparação, a proporção dos consumidores com idade até 30 anos caiu de 22% para 19%, e a de consumidores na faixa de 31 a 35 anos diminuiu de 15% para 12% no mesmo período.  Na faixa etária entre 36 e 55 anos de idade verificou-se que sua participação entre os inadimplentes não se alterou.  Ou seja, só na faixa etária onde estão os mais idosos houve um aumento.

Outras informações vieram do SPC Brasil, que também atua na mesma área do SCPC. Neste caso, verificou-se que a variação do número de dívidas dos consumidores em geral aumentou 5,29% entre julho de 2013 e 2014.  No mesmo período, no grupo dos consumidores entre 64 e 84 anos de idade o aumento foi de 9,05%, ou seja, quase o dobro.

Da mesma fonte, informações sobre onde estão concentradas as pendências creditícias deste último grupo etário revelam que 44% delas são com bancos, seguros e planos de saúde, 15% dizem respeito ao comércio, 15% a contas de água, luz, esgoto e gás, 15% a custos de serviços de comunicação, como o de telefonia, e 12% se referem a pendências em outras áreas.

Causas subjacentes
Entrevistando pessoas que trabalham nas duas fontes de dados citadas, a reportagem aponta várias causas.  Uma delas é o fato de que a população vem envelhecendo,  os idosos estão mais ativos economicamente, muitos têm visto sua renda crescer (como no caso dos milhões que recebem da previdência social um benefício de valor igual ao do salário mínimo, acrescento), e se integraram mais ao sistema financeiro, o que lhes abre perspectivas de maior endividamento.  Neste caso, creio que o crédito consignado ganhou papel de destaque, e os idosos costumam ser até estimulados a tomá-los pela propaganda nos meios de comunicação e pessoalmente pelos chamados “pastinhas”. É o nome dado a intermediários que trabalham para instituições financeiras, e que costumam assediar idosos para que assumam esse tipo de empréstimo.

Outra razão é que os idosos têm mais despesas indispensáveis que os mais jovens, como as de medicamentos, ao mesmo tempo em que têm maiores dificuldades de ampliar seus rendimentos com ganhos extras na forma de “bicos”, mudando de emprego ou, acrescento, fazendo horas-extras.  Também foi assinalado que é mais comum entre os idosos do que entre jovens o empréstimo do nome para outra pessoa recorrer ao crédito, motivo de inadimplência apontado por 11% dos idosos entrevistados, enquanto que na média da população em geral esse índice alcança porcentagem menor, de 7%. A propósito, um dos entrevistados pela reportagem disse que: “O meu cartão de crédito em casa todo mundo usava, estava liberado.” E sem compromisso de ajudar no pagamento da dívida, acrescento. Na mesma linha, ainda que em menor proporção, às vezes há nas famílias a pressão de parentes para que os idosos façam compras de interesse dos primeiros, um fator apontado como causa por 2% dos mais idosos, proporção essa que é de 1% para o conjunto dos consumidores pesquisados.  

Quanto ao tipo de dívida, os dados apresentados agregam bancos, seguros e planos de saúde, e seriam mais esclarecedores se esses itens fossem apresentados em separado, em particular os planos de saúde, muito necessários e cujo custo cresce com a idade.  Quanto a esses planos e seu impacto no orçamento, a reportagem se refere a uma pesquisa recente do Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (IDEC). Essa pesquisa mostrou que a média de preços dos planos de saúde individuais ou familiares mais baratos oferecidos na capital paulista compromete cerca de 40% da renda média dos idosos com 75 anos. Mais especificamente, para esse cálculo foi considerada a mensalidade de R$551,04 para uma renda média de R$1.448 para essa faixa etária, conforme dados de renda do IBGE.    Acrescento que por experiência própria sei que o custo dos planos de saúde vêm aumentando mais que a inflação.
                                          
O quê fazer?
Na área de políticas públicas, esse quadro de maiores dificuldades oferece espaço para várias iniciativas. Como de educação financeira, não no sentido de cursos e livros, mas mediante campanhas nos meios de comunicação para advertir quanto a problemas que o recurso ao crédito pode trazer, e sugerir atitudes e hábitos que evitem a inadimplência. Estímulos à contratação de idosos como empregados e serviços de aconselhamento quanto ao crédito também poderiam ajudar, o mesmo acontecendo com informações sobre como se defender de “pastinhas” e, em casos abusivos, até de parentes. Inclusive com recurso à polícia, pois soube de casos em que o abuso por parentes chega a proporções desumanas.  Temo, contudo, que tardarão muito a surgir providências dessa natureza e com alcance e eficácia para que tenham um efetivo impacto no alívio dos problemas apontados.

Mas, o tema também enseja lições para os mais jovens que também precisam ser difundidas e com perspectivas de maior assimilação até  em face do maior tempo que terão para seu aprendizado e prática. Entre elas, as de se prepararem melhor para essa fase da vida, buscando educação financeira e hábitos financeiramente saudáveis como o de começar a poupar desde logo para essa fase, além de cuidar melhor da saúde para reduzir ou pelo menos postergar a fase que em medicamentos, tratamentos, planos de saúde e seus altos custos serão indispensáveis.
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Roberto Macedo, CFP® (Certified Financial Planner®) e economista formado pela USP com Mestrado e Doutorado pela Universidade Harvard (EUA), é pesquisador da FIPE-USP.  Foi Secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Fazenda e Planejamento, funcionário do Banco Central e do Banco do Brasil. E-mail: imprensa@bb.com.br. Este texto reflete a opinião do autor e não necessariamente a do BB; tem caráter apenas informativo e não deve ser tomado como recomendação de subscrição, compra ou venda de ativos, decisões estas de responsabilidade exclusiva dos investidores.

Poupando água, eletricidade e dinheiro - 25.08.2014
O Brasil passa por uma fase difícil em termos de fornecimento de água e de eletricidade.  O último período chuvoso, que coincide com o verão no Sudeste, a região mais afetada, mostrou índices pluviométricos muito fracos. A população ficou contente por tirar maior proveito de praias e piscinas, mas o noticiário já advertia quanto a um futuro de dificuldades que se confirmou, tanto no abastecimento de água como no de energia elétrica.

Neste caso a estiagem prejudicou a geração de eletricidade de origem hídrica, a mais barata, pois as barragens de importantes usinas hidroelétricas não receberam a reposição necessária durante o período chuvoso. Foi necessário recorrer à mais cara geração das termoelétricas, aumentando tarifas com perspectivas de aumentarem ainda mais.

O que fazer? Mostrarei a seriedade da crise e providências que autoridades governamentais vêm tomando, inclusive para incentivar a colaboração do consumidor.  Mas, ajudaria muito se este colaborasse por iniciativa própria. O estímulo estaria no fato de que economizar água e energia elétrica também significa poupar o dinheiro correspondente, além de contribuir para firmar o hábito de poupar, hábito esse indispensável para passar da teoria à prática na conjugação desse verbo tão importante para a prosperidade financeira pessoal e nacional. E mais: poupar água e eletricidade é ecologicamente correto.

A seriedade da crise
Na eletricidade, a atual crise lembra outra que veio em 2001. Naquela ocasião, o governo federal deixou explícito que havia a crise e tomou várias medidas. A população foi instada a colaborar com apelos pelos meios de comunicação e, se não me falha a memória, veio também uma sobretaxa para consumidores de mais de 200 kWh por mês.

Quanto à crise atual, a eletricidade de origem hídrica já vinha passando dificuldades antes. Segundo dados da Empresa de Pesquisa Energética, do governo federal, em 2013 o consumo de energia elétrica cresceu 3,6%, mas o de origem hídrica caiu 5,4%, já indicando então baixos níveis dos reservatórios.

Quanto à água, a região metropolitana de São Paulo é a que mostra a situação mais complicada. O governo estadual, cuja empresa, a Sabesp, responde pelo abastecimento, argumenta que não há racionamento, mas a população de algumas áreas dessa região já reclama de redução da oferta e da menor pressão da água. A Sabesp tem recorrido a anúncios que ressaltam a importância de economizar água. E mais: instituiu desde março deste ano um bônus para estimular um menor consumo. Quem reduz 20% de seu consumo, tendo como base a média dos últimos 12 meses, tem redução de 30% na sua tarifa, mas essa redução será maior se o menor uso levar a uma faixa de consumo em que a tarifação é menor.

Tudo indica que o bônus funcionou. Segundo a última avaliação, publicada na semana passada, a adesão foi de 78% dos clientes da região. Outra evidência da adesão foi que por conta do bônus a Sabesp deixou de arrecadar R$98,9 milhões de março a junho deste ano.

Outros aspectos demonstram a seriedade da crise. No sistema Cantareira, que abastece grande parte da região, a redução do volume disponível foi tão séria que a Sabesp passou a usar o chamado volume morto, a parte da água que fica mais no fundo dos reservatórios, abaixo das comportas. Outro aspecto é que surgiram disputas entre os estados de São Paulo e Rio de Janeiro, sobre a utilização de água do rio Paraíba do Sul, que abastece sistemas dos dois estados. E disputas com companhias de energia elétrica sobre a utilização de rios e represas que se prestam tanto ao abastecimento de água como à produção de eletricidade.

O consumidor diante desse quadro: o quê fazer?
Começando pela água, o referido bônus mostra o interesse da população e o valor envolvido é considerável, ainda que alcançando milhões de consumidores.  Mas, mesmo sem bônus o consumidor consciente deve poupar água e dinheiro fazendo seu próprio programa de contenção. Uma dificuldade é que nos condomínios onde o abastecimento não é individualizado por apartamento o apelo à economia tem pouco ou nenhum alcance. Quando confrontadas com esse problema, autoridades governamentais dizem que ele permanece por resolver. Numa reunião de condomínio a que compareci, falou-se da individualização do abastecimento, mas sairia muito caro por se tratar de prédio antigo e de muitos andares. Soube que em São Paulo prédios novos já terão a exigência de individualização, mas não consegui informações quanto à sua prática e resultados.  Soube também de novos sistemas de descarga de vasos sanitários em que se pode escolher uma descarga mais forte ou mais fraca. Para mais dicas sobre como economizar água, sugiro consultar a página 2 do texto disponível em http://site.sabesp.com.br/uploads/file/asabesp_doctos/bonus_cantareira_cartaz.pdf. A página 1 trata do referido bônus. E lembrando-me de notícias internacionais sobre economia de água, em outros países vi até algo insólito, a recomendação, por parte de governos, de não dar descargas no vaso sanitário quando usado apenas para urinar.

Na eletricidade, o uso residencial é sempre individualizado por cliente e as alternativas são mais amplas. Incluem maior atenção com lâmpadas, seja por estarem acesas ou por serem de tipos que envolvem maior consumo. E o maior vilão é o chuveiro elétrico, de uso disseminado pelo Brasil, às vezes descuidado no que tange ao tempo de utilização. Há tempos livrei-me desses chuveiros utilizando modernos aquecedores a gás conhecidos como “de passagem” e sem chama-piloto, onde só é aquecida a água que passa por ele quando de sua utilização, que não precisa se limitar apenas ao chuveiro. Servem também para substituir aquecedores “de tambor”, elétricos ou a gás, onde toda a água armazenada é aquecida.

Outra alternativa é a de evitar a manutenção de vários aparelhos no modo “stand by” ou de espera, para facilitar o religamento. No mundo, centenas de milhões de pessoas fazem isto e o gasto envolvido é vultoso. Recentemente, a Agência Internacional de Energia Elétrica anunciou que em 2013 a conta mundial a este título alcançou US$80 bilhões. É provável que o valor individual não seja grande, mas também são enormes os sistemas de abastecimento de água e eletricidade, com o quê a soma de pequenos esforços individuais leva a grandes impactos sistêmicos.

Em síntese, poupando m3 de água e kWh de eletricidade, o consumidor também poupa R$, adota um comportamento ecologicamente correto e contribui para resolver grandes problemas da comunidade em que vive, mas cuja solução muitas vezes depende de um pequeno esforço individual de todos que a compõem.
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Roberto Macedo, CFP® (Certified Financial Planner®) e economista formado pela USP com Mestrado e Doutorado pela Universidade Harvard (EUA), é pesquisador da FIPE-USP.  Foi Secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Fazenda e Planejamento, funcionário do Banco Central e do Banco do Brasil. E-mail: imprensa@bb.com.br. Este texto reflete a opinião do autor e não necessariamente a do BB; tem caráter apenas informativo e não deve ser tomado como recomendação de subscrição, compra ou venda de ativos, decisões estas de responsabilidade exclusiva dos investidores.

Um indicador de educação financeira e seus resultados (2013-2014) - 18.08.2014

Roberto Macedo

 Trata-se do Indicador de Educação Financeira (IndEF), iniciativa da Serasa-Experian, atuando em conjunto com o IBOPE Inteligência e com o Instituto Paulo Montenegro, esta uma organização atuante em projetos educacionais.

O IndEF foi aplicado pela primeira vez em 2013 por meio de um questionário com questões de múltipla escolha e de perguntas sobre o perfil sociodemográfico dos respondentes.  Em 2014, o questionário foi aplicado novamente, permitindo assim uma comparação dos seus resultados nesses dois anos. A divulgação dos resultados de 2014 ocorreu no dia 7 deste mês e teve repercussão nos meios de comunicação.

Apresentarei características do IndEF e abordarei alguns de seus resultados. Todas as informações anteriores e as que se seguem foram obtidas no site da Serasa-Experian (www.serasaexperian.com.br). No canto superior esquerdo do site, aparece o ícone do IndEF-2014,  em azul, e à sua direita as conexões Testar meu Índice e Acessar o Estudo.  Na primeira, o leitor poderá fazer seu próprio teste do IndEF além de outros sobre questões de educação financeira, o que recomendo. O segundo mostra resultados dos dois levantamentos citados, cujo resumo veio com a divulgação do estudo e está disponível em:  noticias.serasaexperian.com.br/jovens-tem-piora-na-educacao-financeira-em-2014/. Esse resumo realça outros aspectos além dos apresentados em Acessar o Estudo.

A natureza do IndEF
 
Textualmente, ele é “(...) composto por três dimensões relativas às finanças pessoais e familiares dos brasileiros, cada uma com um peso diferente: Atitude (24%), Conhecimento (26%) e Comportamento (50%). O indicador e suas dimensões são mostrados em uma escala de 0 a 10. O subíndice Conhecimento avalia o entendimento de conceitos financeiros, o Atitude avalia como o entrevistado enxerga a sua relação com o dinheiro e, por fim, o Comportamento mede as ações do entrevistado no seu dia a dia (por exemplo, se gasta mais do que ganha, se guarda dinheiro e se planeja o futuro).

 Verifica-se que o valor do IndEf não se alterou de 2013 para 2014, ficando em 6,0 em ambos. É uma nota baixa. Nos três componentes do IndEf também não houve alterações relevantes, mas é interessante comparar os valores que assumiram. Tomando-se o valor médio dos dois anos, os resultados foram: Atitude (6,3), Conhecimento (6,45)  e Comportamento (5,15). Como este último mostrou o menor resultado e tem maior peso no índice, ele puxou o resultado do IndEf para baixo.

 Esses resultados confirmam aspectos-chave de nossa pregação sobre a boa gestão das finanças pessoais. O problema maior, seguindo o enfoque analítico das Finanças Comportamentais, é o comportamento das pessoas. Elas devem buscar conhecimentos e tomar atitudes quanto ao que fazer com seu dinheiro, como a de poupar mais. Mas, para que esses conhecimentos e atitudes funcionem é indispensável adotar um comportamento coerente com o que se aprendeu e com o que se decidiu fazer.   Isto justifica, com razão, o maior peso que a dimensão Comportamento tem no IndEF. E, como se viu pela nota 5,15 alcançada pelos entrevistados, confirma-se que aí reside o maior problema.

Aproveito para repetir outro aspecto-chave ligado à minha pregação: para o bem ou para o mal, o comportamento se consolida pelo hábito de fazer uma coisa ou outra. Assim, é preciso praticar repetidamente ações financeiramente saudáveis, como a de não sucumbir ao consumismo, para que elas se firmem natural e permanentemente como hábito.

Uma síntese de outros resultados da pesquisa

1. Começando pelos apresentados em Acessar o Estudo, o IndEF não mostra diferenças entre notas obtidas por homens e mulheres, seja no valor total, seja nos seus componentes.

2. O valor do IndEF aumenta com a idade, e o componente que mais cresce com ela é a Atitude.  O Comportamento apresenta as notas mais baixas em todas as faixas etárias. Com o avanço da idade, ao crescer menos que as notas do componente Atitude, confirma o que já se sabe de problemas financeiros de idosos, como o mau uso do crédito e particularmente dos cartões de crédito. Mas, os mais jovens é que mostram o pior comportamento.

3. A escolaridade tem efeito positivo no IndEF e aumenta particularmente os valores do item Conhecimento. Mas, de novo revelando fragilidade, as notas do componente Comportamento não crescem significativamente com a escolaridade.

4. O IndEF cresce com o valor da renda pessoal ou familiar que, como a escolaridade, tem maior efeito sobre o Conhecimento.  O Comportamento mais uma vez mostra fragilidade, melhorando bem menos que o Conhecimento. Outro aspecto interessante é que o Conhecimento sobe significativamente quando se passa da faixa de renda de até 1 salário mínimo para a faixa de 1 a 2 salários mínimos, seja em renda pessoal ou média familiar. Pode ser que a maior disponibilidade de renda a partir de valores muito baixos já facilite o aprendizado em lidar com ela. Outra possibilidade é que essa maior disponibilidade de dinheiro tenha vindo com a escolaridade, que como já visto amplia o  Conhecimento.

5. Na análise do IndEF por classes sociais, repete-se o efeito da escolaridade e da renda, maior também sobre o Conhecimento, pois classes, renda e escolaridade são correlacionadas. Da mesma forma, constata-se que as várias classes sociais não se diferenciam muito no que tange ao Comportamento.

6. O estudo também classifica os entrevistados por faixas de valores obtidos no IndEF, constatando, entre outros aspectos,  que 50% tiveram pontuações de 0 a 6, sendo 32% entre os valores 5 e 6.  Nas pontuações acima de 8 encontram-se apenas 3%. Também é apresentada uma análise de variações do IndEF e de suas dimensões entre 2013 e 2014.

7. Conclui o estudo uma análise da relação entre o acesso a serviços financeiros e práticas bancárias e os resultados do IndEF e suas dimensões, controlando-se o efeito da escolaridade. Entre os indivíduos com escolaridade limitada ao ensino fundamental, o resultado do IndEF é maior para os que tem acesso a conta corrente, cartão de crédito e seguro. Para os que têm ensino médio e superior, o aumento do IndEF só se manifesta mais claramente para os que têm seguro.

 A utilidade do estudo decorre tanto do panorama da educação financeira que apresenta, bem como de sua evolução ao longo do tempo, ao mesmo tempo em que reforça, na linha da minha pregação, a ênfase que a questão comportamental deve receber no contexto dessa educação.  Espero que o estudo se repita anualmente. Isto ocorrendo, voltarei a examinar seus resultados.

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Roberto Macedo, CFP® (Certified Financial Planner®) e economista formado pela USP com Mestrado e Doutorado pela Universidade Harvard (EUA), é pesquisador da FIPE-USP.  Foi Secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Fazenda e Planejamento, funcionário do Banco Central e do Banco do Brasil. E-mail: imprensa@bb.com.br. Este texto reflete a opinião do autor e não necessariamente a do BB; tem caráter apenas informativo e não deve ser tomado como recomendação de subscrição, compra ou venda de ativos, decisões estas de responsabilidade exclusiva dos investidores.

O significado do default da Argentina, inclusive para o Brasil - 11.08.2014

Default é um termo de uso corrente em várias línguas, inclusive na nossa, constando do dicionário de português que consulto habitualmente. Num de seus significados, ligado ao mundo das finanças, refere-se a uma situação em que alguém, que pode ser uma pessoa, empresa, outro tipo de instituição ou país, não cumpriu um contrato. Ou, mais especificamente, não pagou uma dívida.

Recentemente o termo chegou às manchetes devido ao que seria um default da Argentina, no pagamento da dívida externa do país. Mas, a questão é mais complicada que um default usual. Ademais, as implicações do problema não se limitam à Argentina.

Este artigo examinará inicialmente as origens do problema e o atual status da negociação entre a Argentina e seus credores. Em seguida, abordará suas implicações internacionais e concluirá com as que já alcançaram ou ainda poderão alcançar o Brasil.

Origens e status atual do problema

    Sete vezes antes na sua história, a Argentina chegou ao default. A sétima está nas raízes do problema atual e ocorreu em 2001 quanto o país interrompeu os pagamentos da sua dívida externa, num default bem caracterizado.

    Por vários anos a negociação com os credores desse default não avançou. Creio que o forte aumento das exportações de commodities, que como no Brasil também aconteceu na Argentina a partir de meados da década passada, ajudou-a a minorar as dificuldades de moeda estrangeira que enfrentava, pois numa situação de default o fluxo de financiamentos externos usuais fica interrompido.

    Mas, as conversas entre as partes prosseguiram e a Argentina conseguiu renegociar sua dívida em duas reestruturações (2005 e 2010), pagando menos que o seu valor de face, cerca de 30 centavos por cada dólar, e estendendo prazos, num movimento que alcançou 93%  dos credores.  Mas, uma minoria, que não quis aceitar o acordo, insistiu em receber o valor integral da dívida que detinham. E alguns fundos passaram seus papéis da dívida a outros fundos com um desconto. Compradores se interessaram apostando na perspectiva de comprar barato e resgatá-los por valores maiores, e eventualmente até o valor de face.

Irritada com o comportamento desses fundos, em particular recentemente, a Argentina passou a chamá-los de fundos “abutres”, que estariam se aproveitando da fragilidade econômico-financeira do país para atacá-lo de forma predatória.  Fosse no Brasil, a designação seria de “urubus”. Por causa da presença desses dois tipos de credores, um que renegociou e outro não, ficando sem receber nada, o imbróglio resultante foi chamado de “default seletivo” por uma agência de classificação de risco.

Há cerca de dois meses atrás, um desses fundos “abutres” conseguiu na justiça dos EUA, sob cuja jurisdição os contratos da dívida argentina foram negociados, uma decisão de que a Argentina teria que pagar-lhe como pretendia. O juiz do caso, Thomas Griesa, tornou-se celebridade internacional com sua decisão de que tais fundos não poderiam ser excluídos dos pagamentos que a Argentina vinha fazendo com relação à dívida negociada com a maioria dos credores. Logo após sua decisão, a Argentina fez um depósito de US$539 milhões num banco dos EUA em pagamento de uma das parcelas devidas a esses credores. Mas, o juiz Griesa bloqueou esse depósito por entender que os “abutres” também deveriam receber suas dívidas.
No contexto do problema ganhou destaque uma cláusula de seus acordos de reestruturação da dívida. Conhecida como cláusula Rufo, abreviação de “direitos sobre futuras ofertas”, em inglês, ela impede a Argentina,  até dezembro deste ano, de oferecer aos “abutres” uma proposta melhor  que a acertada nesse acordo, que como vimos foi de 30% do valor de face, o que dificulta a negociação com os “abutres”. Enquanto ela prevalece, se a Argentina a infringisse haveria risco de todos os credores que aceitaram a reestruturação da dívida pleitearem idêntico tratamento. Mas, tampouco está claro que a Argentina fará essa negociação após a referida cláusula expirar.

    O impasse continua. Na sexta-feira passada, houve nova audiência das partes com o juiz Griesa, sem outro resultado que não um apelo dele à continuidade das negociações.  No mesmo dia, frustrou-se outra iniciativa argentina, a de levar o assunto à Corte Internacional de Haya, pois o governo dos EUA não concordou com esse caminho, um passo indispensável para que essa corte o examinasse.

Implicações internacionais

    A que me pareceu mais importante conheci num artigo no jornal New York Times, publicado no último dia 7.  Segundo seus autores, se mantida a decisão do juiz Griesa, de reconhecer os direitos dos “abutres”, ela dificultaria novos acordos envolvendo dívidas nacionais, pois nesses acordos a concessão de descontos sempre foi praticada,  ao mesmo tempo em que acordos com a maioria eram bem aceitos.

Implicações para o Brasil

    Há tempos a economia argentina sofre de dificuldades ligadas à sua dívida externa, principalmente a escassez de divisas estrangeiras,  e a outras questões internas que prejudicam o desempenho da economia. Para se ter idéia de sua situação atual, um relatório recente da Comissão Econômica para a América Latina, da ONU, publicado no dia 4 deste mês, prevê que o PIB do país crescerá apenas 0,2% em 2014, uma taxa que o coloca em penúltimo lugar de uma lista de 35 países da América Latina e do Caribe. Só a Venezuela, também com uma economia desarrumada, fica em posição inferior.

    Com a economia argentina nessa situação, o país vem reduzindo suas importações do Brasil, em particular a de veículos e autopeças, o que prejudica o PIB brasileiro. Se a situação argentina se agravar ainda mais, esse tipo de efeito será maior.

    Aqui também surgiu também uma perda específica, conforme noticiada também no último dia 7, pela Folha de S. Paulo. A de que o fundo de pensão Postalis, de funcionários dos Correios, teria perdido R$190 milhões, pois tem recursos investidos num fundo dos EUA, gerenciado pelo banco BNY-Mellon,  que comprou papéis da dívida argentina que caíram 51,5% de preços de julho para agosto. A direção do Postalis informou que as regras desse fundo previam que ao menos 80% dos seus recursos seriam aplicados em papéis da dívida externa brasileira, o que não aconteceu, e que pretende processar o gestor do fundo para recuperar esse prejuízo.

    Uma lição de toda essa história é que ela confirma que a inadimplência não vale a pena, seja ela pessoal, empresarial ou nacional.  Outra percepção, como foi visto, é que a inadimplência argentina tem desdobramentos que já alcançaram e ainda podem alcançar vários outros países, inclusive o Brasil, num processo acentuado pelo avanço da globalização, em particular do seu lado financeiro.

Como numa novela, o leitor interessado deve aguardar o próximo capítulo.
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Roberto Macedo, CFP® (Certified Financial Planner®) e economista formado pela USP com Mestrado e Doutorado pela Universidade Harvard (EUA), é pesquisador da FIPE-USP.  Foi Secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Fazenda e Planejamento, funcionário do Banco Central e do Banco do Brasil.E-mail: imprensa@bb.com.br. Este texto reflete a opinião do autor e não necessariamente a do BB; tem caráter apenas informativo e não deve ser tomado como recomendação de subscrição, compra ou venda de ativos, decisões estas de responsabilidade exclusiva dos investidores.
Quanto dinheiro para se aposentar? - 04.08.2014
Para responder a esta pergunta, refleti sobre minha própria condição de “aposentado” que continuou a trabalhar, bem como sobre a situação de parentes e amigos que já se aposentaram, com ou sem aspas. Também li um artigo sobre o assunto,  no qual se enfatiza o óbvio, ou seja, que a resposta depende muito dos objetivos e condições de cada pessoa.(*) Mas, longe do óbvio é que as pessoas precisam refletir sobre o assunto, o que nem sempre ocorre, e este artigo apresentará algumas dicas para realizar esse exercício de reflexão. Adicionalmente, procurará motivar o leitor a fazê-lo. 

Inicialmente serão apontados fatores ou aspectos que devem ser objeto dessa reflexão com foco na realidade brasileira, pois o referido artigo tem como pano de fundo a dos EUA. No final será estimulada a motivação para que as pessoas reflitam sobre o assunto.

Um roteiro para responder a pergunta do título
Esse roteiro deve envolver pelo menos as etapas que se seguem, centradas na questão financeira, por trás da qual há também a influência de outros fatores, alguns dos quais também mencionados nesse roteiro formalizado sob a forma de outras perguntas.
1.    Com o que a pessoa já pode contar? A resposta envolve um diagnóstico do presente em suas implicações para a aposentadoria no futuro. O caso típico é o de um assalariado atuando no setor privado da economia, e contribuindo para o INSS sobre o valor do seu salário, que pode alcançar o teto de contribuição ou não. Essa pessoa deve se perguntar: o valor dessa aposentadoria me será suficiente? Obviamente, para quem tem um salário acima do teto, e quer ir além deste na fase de aposentadoria, será preciso pensar num plano de aposentadoria complementar ou noutro tipo de acumulação patrimonial que propicie os rendimentos desejados. Por exemplo, rendimentos financeiros em geral ou derivados de aluguel de imóveis adquiridos.  Assim, o diagnóstico deve se estender também ao quanto já se avançou nesses complementos ao rendimento do INSS. Quanto a estes últimos, havendo opção exclusiva ou não pela acumulação patrimonial, pode-se também  pensar em vender o patrimônio no todo ou em parte à medida em que a condição de idoso for avançando no tempo. Mas, neste caso haverá que superar uma questão cultural, a de deixar uma herança para familiares, com o que essa venda poderá até sofrer a oposição dos mesmos. Por falar em herança, quem contar com uma boa já terá algo mais a acrescentar na resposta à pergunta com que iniciei este parágrafo.

2.    Foram definidos claramente os objetivos para a fase de aposentadoria? Esta pergunta é um complemento da primeira, e poderia até vir antes dela. Mas, a necessidade dessa definição de objetivos também emerge na resposta à primeira, pois ao identificar com o quê já pode contar a pessoa deve relativizar isto com suas necessidades. Esses objetivos podem ser sintetizados no padrão de vida que a pessoa almeja nessa fase da vida. Eu resumiria isto na expressão viver bem, que depende muito do ambiente socioeconômico em que as pessoas estão inseridas, pois tendem a se comparar com seus vizinhos, familiares e colegas de trabalho. Contudo, em qualquer caso,  inclusive entre as pessoas mais pobres, há a percepção de que viver bem envolve bons cuidados com a saúde. Assim, no Brasil é disseminado o interesse em ter um plano de saúde custeado pela própria pessoa, em face da generalizada insatisfação com o atendimento público. E, também em qualquer caso, é preciso examinar com cuidado a cobertura desse plano.

3.    Em que idade a pessoa se encontra e quando pretende se aposentar? O primeiro aspecto é importante porque se ela é jovem poderá fazer seus planos com menor esforço financeiro, não só porque este será mais diluído no tempo, mas porque o capital que for juntando deverá produzir rendimentos que se acrescentarão à sua acumulação.  A idade de aposentadoria atua no sentido contrário. Quanto mais precoce for, maior será esse esforço para ter um mesmo rendimento, e até este poderá ficar comprometido. No âmbito do INSS a precocidade afeta o valor da aposentadoria por meio do chamado fator previdenciário, que privilegia quem se aposenta mais tarde e prejudica quem se aposenta mais cedo. Na aposentadoria complementar, o rendimento que virá dela também depende da amplitude do tempo em que se acumulam as contribuições.

4.    A pessoa pretende continuar trabalhando depois de se aposentar?  Se a resposta é sim tudo muda de figura, pois dependendo do rendimento que terá ao se “aposentar” e do que for receber ao continuar trabalhando, ela poderá ter um rendimento até maior do que o que ganhava antes de passar a essa “aposentadoria”.  A razão pela qual isto pode acontecer é óbvia: a pessoa passará a ter dois rendimentos, no caso trivial um do INSS e o outro do trabalho em que passará a atuar, que poderá ser até mesmo o que já exercia.  Outro benefício de quem adentra essa situação é que, particularmente quando a pessoa gosta do trabalho que faz, isso costuma fazer bem à saúde física e mental. No primeiro caso porque a pessoa evita a ociosidade e no segundo porque ela terá com que ocupar sua cabeça e um convívio social mais intenso, como no trabalho que realizará.  Mas, encontrar um trabalho nessa idade não é simples.  Naquilo que faz, a pessoa precisa ser um profissional qualificado, experiente e demandado mesmo com idade mais avançada. No meio em que atuo, o exercício do magistério é uma alternativa comum para continuar, porque para quem ensina a própria idade é um indicativo de experiência e sabedoria acumulada.      

Motivação para refletir sobre o assunto não falta
Em duas passagens do texto acima já me referi a algumas questões que servem como motivação para as pessoas refletirem sobre seu status na aposentadoria, quais sejam, a perspectiva de ter um rendimento adicional que pode inclusive aumentar o total que a pessoa recebe se continuar a trabalhar.  Outra motivação, também na mesma perspectiva, é o seu impacto favorável na saúde física ou mental.

Ambas são perspectivas favoráveis.  Agora, vou me referir a uma desfavorável, até um tanto assustadora, mas que pode se revelar uma bênção para quem se motivar e se prevenir contra ela. Tal perspectiva assustadora pode se abrir para aquelas pessoas que adotam o comportamento expresso por um trecho de conhecida música de Zeca Pagodinho: “Deixa a vida me levar, vida leva eu...”.  Com a vida assim levando, a pessoa poderá acordar para a necessidade de refletir sobre a aposentadoria e de planejá-la apenas num momento tardio, quando já não mais será possível uma correção de rumos, mesmo que a necessidade disso se revele indispensável.
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Roberto Macedo, CFP® (Certified Financial Planner®) e economista formado pela USP com Mestrado e Doutorado pela Universidade Harvard (EUA), é pesquisador da FIPE-USP.  Foi Secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Fazenda e Planejamento, funcionário do Banco Central e do Banco do Brasil.  E-mail: imprensa@bb.com.br. Este texto reflete a opinião do autor e não necessariamente a do BB; tem caráter apenas informativo e não deve ser tomado como recomendação de subscrição, compra ou venda de ativos, decisões estas de responsabilidade exclusiva dos investidores.
(*) moneyover55.about.com/od/howmuchtoretire/a/How-Much-To-Save-For-Retirement.htm?nl=1.


O efeito da educação financeira na gestão das finanças pessoais - 28.07.2014
Não se pode apenas presumir que a educação financeira trará uma contribuição positiva, pois isto precisa ser avaliado.  Mas, não é uma tarefa simples.  Uma grande dificuldade é isolar o efeito da educação financeira de outras causas atuantes. Por exemplo, um curso de educação financeira com adesão voluntária tenderá a atrair pessoas mais interessadas pelo assunto e já com algum conhecimento dele, podendo assim mostrar melhor desempenho no curso, e não necessariamente como resultado dele.

Este artigo focará num estudo realizado com estudantes universitários de uma escola de negócios em Singapura que procurou isolar o efeito específico da educação financeira controlando ou isolando esse interesse prévio e outras causas atuantes.

Mas, por que se discute esse efeito?
Com base na intuição e no bom senso, a presunção de um efeito positivo parece óbvia. Afinal, no mundo moderno as questões financeiras se tornaram muito complexas e evoluem rapidamente. No Brasil, há cinco décadas atrás o público em geral desconhecia produtos financeiros como os muitos que existem hoje, tais como cartões de crédito, fundos de investimentos em renda fixa e referenciados DI, ampla disponibilidade de crédito, financiamentos imobiliários de longo prazo, incentivos fiscais para investimentos pessoais, Tesouro Direto, Certificados de Depósito Bancário (CDBs) e similares, operações de leasing, seguros e consórcios de todo o tipo, e outros.

Nessas condições torna-se necessário dominar pelo menos os aspectos básicos dessas e outras opções disponíveis, cuja expansão foi muito facilitada pelo avanço das tecnologias de informação e de comunicação. Assim, a educação financeira traria benefícios.

Mas, ela também custa dinheiro, mesmo que oferecida gratuitamente pelo governo ou outras instituições. E quem decide financiá-las quer saber de que formas ela deve ser provida de modo eficaz, ou seja, se produzirá resultados. Colocada essa questão, e como já apontado no início deste artigo, é preciso isolar o efeito específico da educação financeira relativamente a outros atuantes.

Como essa questão foi abordada num artigo 
Ao final indico como chegar ao texto completo dele por meio da internet.(*) Vou me referir apenas a alguns aspectos metodológicos que me pareceram mais importantes, e enfatizarei também as principais conclusões da pesquisa.

Logo no início o artigo aponta que ela contou com recursos de três instituições, duas mais voltadas para pesquisas acadêmicas. A outra, uma fundação que tem o nome de uma grande instituição financeira internacional privada, fundação essa cujo objetivo é o de “... promover o progresso econômico em comunidades de todo o mundo e focar em iniciativas que ampliam a inclusão financeira.” A educação financeira é uma dessas iniciativas, e ao prover recursos para a pesquisa essa fundação também se revela interessada em se saber se tal iniciativa funciona.

Quanto à metodologia, a principal contribuição do estudo, dentro do seu propósito de isolar o efeito de um curso de educação financeira de outras causas atuantes, foi a de colocar entre estas a ideia de que os estudantes mais motivados a tomar o curso podem demonstrar melhores resultados do que os menos motivados. Mas, como medir e isolar essa motivação? Isto foi permitido pela forma pela qual os estudantes dessa universidade escolhem as disciplinas que vão cursar.  A cada semestre todos recebem um montante fixo de dólares virtuais que utilizam para selecioná-las como num leilão, oferecendo lances maiores para aquelas pelas quais eles têm maior preferência. Isto permitiu que os valores dos lances feitos para escolher educação financeira fossem tomados como indicativos do interesse do estudante, com os lances maiores representando maior interesse e motivação. 

Pesquisas desse tipo procuram proceder como em laboratórios em que, por exemplo, um grupo de camundongos doentes recebe um tratamento que outro grupo doente não recebe, para isolar o efeito específico do tratamento. No caso, técnicas estatísticas sofisticadas, como a análise de regressão, permitem verificar o efeito do curso, medido por resultados de testes de avaliação antes e depois dele, e “descontado” o efeito da motivação. 

O experimento estatístico também procurou distinguir o efeito de outros fatores, como o desempenho geral noutros cursos, indicando a capacidade de aprendizado do aluno, e sexo e idade, na hipótese de que essas variáveis também pudessem ter efeitos nos resultados. E numa versão ampliada, até pela qualidade dos professores.

Os resultados  obtidos
Dentre eles destacamos dois. O primeiro, conforme foi ressaltado pelos autores ao resumirem suas conclusões, foi o de que a educação financeira aprimorou em 11% o conhecimento financeiro dos estudantes, medido antes e depois de cursarem essa disciplina, e em 16% seu desempenho em teste sobre questões de planejamento financeiro.
Uma implicação de ordem mais geral é que a educação financeira nessa fase da vida é particularmente importante, pois outra pesquisa referida no texto mostrou que estudantes, donas de casa, desempregados e aposentados revelam o menor conhecimento financeiro quando comparados a outros segmentos da sociedade. Além disso, constatou-se, em mais um estudo citado pelos autores, que o consumismo é muito alto entre os jovens. Assim, nos EUA, mais da metade dos estudantes universitários em nível de graduação têm quatro ou mais cartões de crédito, com um endividamento médio de US$3.000.  E apenas 21% dos estudantes que têm cartões pagam integralmente seus saldos mensais enquanto 11% pagam menos que o mínimo devido.

Outro aspecto interessante do artigo é que ao seu final ele reproduz o teste que avalia inicialmente o desempenho em 13 questões de educação financeira, indicando as respostas corretas. Talvez interesse ao leitor examinar seu próprio conhecimento. Além disso, informa que os estudantes receberam US$10 pela participação em cada teste.

Para este autor,  também pregador da educação financeira, é estimulante saber que o estudo analisado confirma a necessidade dessa pregação, em particular na fase da juventude e a fim de que maus hábitos financeiros não se instalem por toda a vida.
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Roberto Macedo, CFP® (Certified Financial Planner), é economista formado pela USP com Mestrado e Doutorado na Universidade Harvard (EUA).  Foi Secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Fazenda e Planejamento, funcionário do Banco Central e do Banco do Brasil. E-mail: imprensa@bb.com.br. Este texto reflete a opinião do autor e não necessariamente a do BB; tem caráter apenas informativo, e não deve ser tomado como recomendação de subscrição, tomada de créditos, compra ou venda de ativos, decisões estas de exclusiva responsabilidade do investidor.
(*) Rashmi Barua, Benedict Koh e Olivia S. Mitchell, A Educação Financeira Melhora o Preparo Financeiro? Evidencia de um Experimento de Campo em Singapura (tradução deste autor). Trabalho para Discussão Interna BWP2014-01, do Centro Boettner de Pesquisas sobre Aposentadorias e Pensões (idem), acessível em http://www.pensionresearchcouncil.org/publications/document.php?file=1166.    
   

O planejamento tributário nas finanças pessoais - 21.07.2014
A carga tributária ou de impostos no Brasil é uma das maiores do mundo. E é a maior entre os países que têm um nível de Produto Interno Bruto (PIB) por habitante parecido com o brasileiro, que está próximo de US$10.000 ou de R$22.500 por ano.

Essa carga faz jus ao nome, pois é um peso que a economia e seus habitantes suportam para custear o Estado como um todo, ou seja, tanto a administração federal como as estaduais e municipais. Hoje ela está em torno de 36% do Produto Interno Bruto, e se for medida em termos dos referidos valores do PIB por habitante, isto significa que em média os brasileiros pagam US$3.600 ou R$8.100 de impostos por ano. Deve ser um dos maiores itens de suas despesas, se não o maior em muitos casos.

Nessas condições, é particularmente importante que o contribuinte conheça a estrutura tributária do seu país para decidir como se comportar diante dela, inclusive para ser menos alcançado pela mesma, sem sonegar impostos. No que se segue, serão examinados alguns aspectos da carga tributária brasileira e apresentadas dicas quanto a esse comportamento diante dela.

Aspectos relevantes da estrutura tributária brasileira
Três economistas brasileiros realizaram em 2013 um amplo estudo da estrutura tributária brasileira para o Banco Interamericano de Desenvolvimento usando dados de 2010.(*)  Naquele ano a carga tributária alcançou 34,2% do PIB brasileiro.

Nela se destacam os impostos como o Imposto sobre Produto Industrializados (IPI), o Imposto sobre Circulação de Bens e Serviços (ICMS)  e outros,  chamados de indiretos porque embutidos nos preço de bens e serviços. Tais impostos respondiam então por 45% do total da carga; as contribuições de previdência social, pagas por empregadores e empregados, respondiam por 25,9% do mesmo total, sendo que a parte maior, dos empregadores, 20,3% do mesmo total,  e também tende a ser transferida para os preços dos bens e serviços, pois tais preços incorporam os custos de produção em cada caso. Já os impostos sobre rendas, lucros e ganhos de capital, chamados de diretos, pois alcançam diretamente seus contribuintes, respondiam por apenas 18,6% do total arrecadado. 

Dado esse quadro, o cidadão comum paga, em termos relativos, muito mais impostos incidentes sobre o que gasta com consumo do que com os que são descontados de seus rendimentos.  Assim, é uma situação em que é melhor poupar do que gastar, pois não há impostos sobre o ato de poupar. Além disso, a poupança pode ser aplicada em investimentos financeiros, cujos rendimentos, como no caso da Caderneta de Poupança, são isentos do Imposto de Renda.  E mesmo quando tributados, nos prazos mais longos o Imposto de Renda de Pessoa Física (IRPF) não ultrapassa 15%. É claro que os recursos assim poupados poderão ser lá na frente usados no consumo, sofrendo a tributação correspondente, mas enquanto isto não ocorre os altos impostos incidentes sobre o consumo não serão pagos e gerarão rendimentos quando investidos.

Outra implicação importante: quando brasileiros visitam os EUA, e outros países cujos cidadãos pagam mais impostos sobre a renda e propriedade do que os embutidos nos preços de bens e serviços, esta é uma das razões pelas quais turistas brasileiros percebem que nesses países os preços são em geral bem mais baratos do que no Brasil. E, assim, neles gastam bilhões de dólares por ano comprando o que podem. Nos EUA, soube ser comum que casais brasileiros que aguardam uma criança por nascer visitem o país para comprar todo o enxoval que ela usará, inclusive o carrinho para carregá-la.

Outras dicas para o planejamento tributário
1. Aproveitar  deduções de despesas que reduzem o Imposto de Renda de Pessoas Físicas (IRPF) ou aumentam os valores das restituições a receber após o preenchimento da declaração de ajuste anual até 30 de abril de cada ano. Entre elas, gastos com educação e saúde, inclusive planos de saúde, contribuições de previdência próprias e de um empregado doméstico e de investimentos incentivados como planos de previdência privada fechados, como os empresariais,  ou abertos, como o PGBL.

2. Aproveitar incentivos estaduais e municipais para que o consumidor exija nota ou cupom fiscal nas suas aquisições de bens e serviços, o que ajuda no combate à sonegação de impostos devidos a esses entes federativos. Por exemplo, no Estado de São Paulo há o programa Nota Fiscal Paulista, no qual o consumidor se identifica pelo seu CPF ao exigir nota ou cupom fiscal,  e depois recebe de volta uma pequena parte do imposto que pagou, além de participar do sorteio de somas maiores. Há programas semelhantes noutros estados e também em algumas prefeituras das cidades maiores.

3. Examinar impostos a pagar ao adquirir bens e serviços. Este ano, em junho,  entrou em vigor a chamada Lei do Imposto na Nota que estabelece a menção obrigatória, nas notas ou cupons fiscais, do valor de todos os impostos que incidiram sobre os bens adquiridos. Esta lei ainda está nos primórdios da sua aplicação. Uma de suas dificuldades é que o valor dos impostos é apresentado pelo seu total e não discrimina individualmente os vários tributos incidentes sobre cada mercadoria ou serviço, o que poderia orientar a escolha dos menos tributados. Mas, a informação sobre o total de impostos serve para mostrar o elevado peso dos tributos. Por exemplo, na minha última conta de supermercado o valor total dos tributos embutidos representou 37,2% do total gasto.

No site da Receita Federal há um levantamento da carga tributária por produto e por imposto, para uma lista de produtos de consumo popular. Ela está em:
www.receita.fazenda.gov.br/publico/EducacaoFiscal/PrimeiroSeminario/22CARGATRIBUTARIAPRODUTOSDECONSUMOPOPULAR.pdf. Um dos produtos é o maço de cigarros e percebe-se que ao fumar um de R$1,80 a pessoa estará “queimando” R$1,05 de impostos, ou 58,3% do preço. Assim, deixar o vício é também uma forma de poupar.
Pode-se argumentar que essa alta carga tributária sobre os cigarros tem o efeito de desestimular o vício de fumar.  Mas, tome-se outro caso, o da conta de energia elétrica, onde os impostos representam 39,3% da conta. Aí o mesmo argumento não vale.

4. Ao trabalhar, conforme a natureza do trabalho, às vezes é conveniente a pessoa oferecê-lo como pessoa jurídica, pois dependendo do valor do rendimento, a tributação da pessoa jurídica é menos onerosa do que a da pessoa física.  Há que ponderar sobre o tipo de pessoa jurídica mais adequado, e voltarei ao assunto num futuro artigo.
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Roberto Macedo, CFP® (Certified Financial Planner), é economista formado pela USP com Mestrado e Doutorado na Universidade Harvard (EUA).  Foi Secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Fazenda e Planejamento, funcionário do Banco Central e do Banco do Brasil. E-mail: imprensa@bb.com.br. Este texto reflete a opinião do autor e não necessariamente a do BB; tem caráter apenas informativo, e não deve ser tomado como recomendação de subscrição, tomada de créditos, compra ou venda de ativos, decisões estas de exclusiva responsabilidade do investidor.
(*) José Roberto Afonso, Julia M. Soares e Kleber P. Castro, White Paper on Taxation in Brazil, Trabalho para Discussão IDB-DP-265, Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), Washinton, DC, EUA.   

Balanço semestral de aplicações financeiras - 14.07.2014
Um compasso de espera marcou o primeiro semestre e continua a marcar o atual ciclo do mercado financeiro. Mas, por que isto ocorre? Junto com o fraco ritmo da economia, um olhar na eleição presidencial tem sido fator importante nos últimos meses a afetar tanto a renda fixa como a renda variável.

Na renda fixa, a eleição afasta a perspectiva de aumento da Selic, hoje em 11% ao ano, até que as urnas tragam a definição.  Depois desta, a política monetária dependerá  também de como a inflação estará se comportando. As taxas do IPCA,  o índice meta da política monetária, caíram nos últimos dois meses, de um valor médio de 0,71% no primeiro quadrimestre de 2014 para a média de 0,43% em maio e junho, e a perspectiva é de que as taxas se mantenham mais estáveis nos próximos meses. Com isto, a perspectiva é de boa remuneração da renda fixa em face do valor em que a Selic se encontra.  

Uma das razões desse cenário da inflação é a vagareza da economia que ajuda a aliviar pressões inflacionárias. Quanto à economia, algumas instituições financeiras estão  prevendo que no final de agosto o IBGE poderá anunciar uma variação até negativa do PIB no trimestre recém concluído. 

Na renda variável, e centrando o foco nas ações, o fraco desempenho do PIB, na medida em que prejudica resultados das empresas, também tem um efeito desanimador. Mas, talvez em busca de um derivativo para esse desânimo,  e para a imobilidade associada ao compasso de espera, o mercado acionário passou a especular com resultados de pesquisas eleitorais e com o status da economia e da política econômica dependendo de quem for eleito.  Isto tem afetado o desempenho de ações, particularmente as da Petrobrás. Especulação é um traço típico desse mercado, e é um dos fatores que marcam sua atratividade apenas para investidores mais propensos ao risco, particularmente nas condições atuais.

Olhando os dois mercados, a renda fixa, ao lado de seus próprios atrativos, como a Selic alta, vem se revelando, como de hábito nessas circunstâncias, um porto seguro para os investidores que não querem entrar no jogo acionário em tempos de dificuldades econômicas combinada com especulações eleitorais.  E esses investidores são a maioria, e a comparação dos rendimentos de um e outro mercado também estimula essa preferência.
   
Rendimentos: os números de um balanço semestral

A tabela abaixo mostra rendimentos reais e nominais de várias aplicações. Como referências foram acrescentadas as variações do CDI e  do IPCA nos dois lados da tabela.

Rendimento nominal e real no primeiro semestre de 2014 (*) -  Em %
RENDA FIXA


RENDA VARIÁVEL

Aplicação
Nominal
Real
Aplicação
Nominal
Real
Fundos Referenciados DI
5,05
1,32
Ibovespa
3,22
-0,44
Fundos Renda Fixa
5,77
2,01
Dólar Comercial Mercado
-6,19
-9,53
CDBs(**)
4,84
1,12
Ouro BM&F-Spot
3,87
0,18
Poupança antiga e nova (***)
3,39
-0,28



Referências


Referências


CDI (****)
4,97
1,24
CDI
4,97
1,24
IPCA-SEMESTRE (*****)
3,75

IPCA SEMESTRAL(*****)
3,75


Fontes: jornal Valor (1/7/14), com dados baseados  em  instituições do mercado e outras. Notas: (*) rendimento bruto, sem desconto do IR e taxas de administração, se cabíveis;  (**)  taxas  para  aplicações  no  primeiro  dia do  mês; (***) rendimento mensal de contas com vencimento no primeiro dia útil do mês; (****) a taxa do CDI é usualmente muito próxima da Selic; no semestre, a Selic ficou em 5,02% e a taxa do CDI em 4,97%; (*****) estimado em 0,34% pela fonte para o mês de junho (resultado do IBGE foi 0,40%); Outras informações e o quadro completo mensal e semestral nominal e real, podem ser obtidos da fonte no seu caderno D, p. D1.

A tabela deixa claro que os rendimentos das aplicações em renda fixa, em particular das mais referenciadas direta ou indiretamente à Selic (ou CDI), como os CDBs e os fundos DI,  superaram a inflação do IPCA, garantindo assim rendimentos reais. A caderneta de poupança teve uma pequena perda em termos reais, o que em parte explica a queda de sua captação líquida no primeiro semestre deste ano, relativamente a igual período de 2013.

Quanto à renda variável, a tabela mostra que o Ibovespa também teve pequena redução em termos reais, enquanto o dólar caiu até em termos nominais e também em parte como resultado do aumento da Selic, que atraiu mais dólares do exterior. Mesmo com essa valorização do real, o ouro teve rendimento real positivo em reais, pois o preço do metal superou a queda do dólar e o rendimento nominal superou a inflação.

Mas,

Em que pese o melhor rendimento da renda fixa, vale lembrar que dentro dela o investidor dispõe de alternativas que se evidenciaram nos últimos anos, as quais se tornaram particularmente atrativas, pois não sofrem a incidência do Imposto de Renda (IR). Conforme já realçado em artigos anteriores, as Letras de Crédito Imobiliário (LCIs) e as de Crédito do Agronegócio (LCAs) vêm se destacando entre as aplicações alternativas.

Ambas têm características similares às dos muito conhecidos Certificados de Depósito Bancário (CDBs), que podem ser pré ou pós fixados. Como estes últimos, as LCIs e LCAs rendem uma porcentagem do CDI, mas são isentas do IR. De um modo geral, a porcentagem do CDI oferecida pelos CDBs é maior, compensando parte desse IR. É preciso conhecer esses aspectos para saber a aplicação de maior rentabilidade líquida.

De qualquer forma, a procura por essas alternativas cresceu muito. Dados da Anbima (Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais – www.anbima.com.br) mostram que o estoque de LCIs passou de R$75,28 bilhões em junho de 2013 para R$119,93 bilhões em junho de 2014, o que significou um expressivo aumento de 59%. Para uma idéia da dimensão relativa desse estoque, no final do mês ele já representava cerca de um terço do valor do estoque dos tradicionais e muito conhecidos fundos DI, que então chegou a R$317,6 bilhões.

Em menor magnitude, as LCAs também vêm ganhando espaço.  Entre junho do ano passado e junho deste ano, seu estoque cresceu 22% para R$32,2 bilhões nesse último mês.  O BB oferece esses papéis. Fontes de maiores informações são abaixo indicadas (*).
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Roberto Macedo, CFP® (Certified Financial Planner®) e economista formado pela USP com Mestrado e Doutorado pela Universidade Harvard (EUA), é pesquisador da FIPE-USP.  Foi Secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Fazenda e Planejamento, funcionário do Banco Central e do Banco do Brasil.  E-mail: imprensa@bb.com.br. Este texto reflete a opinião do autor e não necessariamente a do BB; tem caráter apenas informativo e não deve ser tomado como recomendação de subscrição, compra ou venda de ativos, decisões estas de responsabilidade exclusiva dos investidores.
(*)LCIs: bb.com.br/portalbb/page100,116,500239,1,0,1,1.bb?codigoMenu=1092&codigoRet=17998&bread=3        
LCAs: bb.com.br/portalbb/page100,114,32422,6,0,1,1.bb?codigoMenu=901&codigoNoticia=35521&codigoRet=17554&bread=2   


Dicas para economizar em supermercados - 07.07.2014
Compras em supermercados absorvem um bom pedaço do dinheiro das famílias, pois envolvem um conjunto de necessidades importantes, particularmente alimentos e produtos de higiene e limpeza. Como há supermercados ou hipermercados que vendem muito mais coisas, inclusive eletrodomésticos e eletrônicos, este artigo focará apenas em bens não duráveis de consumo, como os citados e outros.

1. Entender como os supermercados vendem
Conheci os antigos armazéns, onde o cliente era atendido diante de um balcão e pedia, por exemplo, um quilo de arroz.  Atrás desse balcão o produto era armazenado em caixas de madeira ou nos próprios sacos em que eram recebidos pelos armazéns, tendo como vizinhos o feijão, farinhas e outros produtos.

Com um recipiente onde em geral cabia um pouco mais de um quilo, o atendente retirava o arroz e o colocava num saco de papel levado à balança, diante do freguês.  Se este pedia latas de alguma coisa, lâmpadas ou sabonetes, tudo ficava em prateleiras também atrás do balcão. Carnes eram compradas em açougues, o leite vinha de fazendas por carroças e entregue casa a casa. Verduras e frutas vinham da mesma forma ou eram encontradas em mercados onde também se vendiam frangos vivos para abate doméstico.

Ora, esse processo envolvia muita mão-de-obra e tomava muito tempo nas suas etapas.  Nos supermercados o próprio cliente é colocado a trabalhar retirando os produtos de gôndolas e geladeiras. O atendimento pessoal é limitado ao caixa e a casos como de peixes e dos produtos fatiados vendidos por peso. A disponibilidade de produtos é hoje infinitamente maior e inadequada ao modelo dos armazéns.

Um aspecto fundamental para o consumidor desprevenido é que nos supermercados tudo é feito para induzi-lo a comprar produtos de cuja aquisição não cogitava, expostos nas gôndolas com embalagens de cores atraentes, e também impulsionados pela propaganda na televisão, nos jornais e outros meios, que enfatizam suas qualidades associadas a marcas específicas. Outra prática é colocar os produtos usualmente mais procurados, como leite e pães, mais no fundo do estabelecimento, para que o cliente tenha que passar pelas alas de gôndolas e suas tentações. As dicas que se seguem são formas de resistir a elas e tirar maior proveito do que é oferecido.

2. Ir menos vezes
Ir ao supermercado toma tempo e envolve custos, como o do uso do automóvel. Se não houver custos adicionais ou se forem muito baixos, é recomendável encomendar por telefone a entrega a domicílio, o que também exige a lista prévia sugerida a seguir. Mas, pedir é preciso ser explícito em termos de marcas,  tamanho de embalagens e outros detalhes. Assim pedindo, o consumidor também evita as tentações do local.

3. Fazer previamente uma lista do que se vai comprar
Supermercado não é lugar para passear procurando não sei bem o quê. Mesmo não sabendo, o supermercado se encarrega de ofertar as tentações. É recomendável ter uma lista prévia daquilo de que realmente se necessita, e se apegar a ela não apenas como propósito, mas criando o hábito de segui-la. Hábitos é que firmam atitudes.
 
4. Comparar preços dentro, entre e fora dos supermercados
Mesmo dentro deles, os preços variam. Por exemplo, por marca e forma das embalagens, e é preciso atenção especial para o peso, volume (por exemplo, em litros ou mililitros) ou unidades  (por exemplo, de pilhas) contidas dentro delas. Não me refiro apenas ao fato de que as embalagens maiores, por exemplo, de detergentes, costumam ter preço menor por litros ou suas frações. Mas, noutro exemplo, como proceder quando desodorantes ou pastas dentais vêm em embalagens que às vezes até aparentam ter a mesma quantidade, mas no detalhe há uma diferença quanto ao que contêm?  Por exemplo, pastas dentais com 70 ou 90g. Diante dessa questão, muitas pessoas não conseguem calcular mentalmente o preço por grama mesmo de forma aproximada. Mas, há calculadoras portáteis que custam muito pouco e pode-se levar uma delas, que também servirá para saber o valor total do que já está no carrinho. A propósito, é melhor evitar os carros grandes e a disposição de enchê-los até o topo, o que pode esvaziar o bolso ou vazar dinheiro pela conta do cartão.

Quanto a comparar preços entre e fora dos supermercados, como em feiras livres, mercadinhos da vizinhança e “atacarejos” (atacadistas que também vendem no varejo), trata-se de tarefa mais complicada. Um recurso útil é informar-se com parentes, amigos e vizinhos, pois os supermercados careiros e os mais baratos costumam ficar conhecidos nesse ambiente social.  Pode-se também usar a internet para essa finalidade, como vi colocando “comparar preços de supermercados” num site de busca.

5. Não se apegar a marcas
Marcas procuram fidelizar consumidores, com as virtudes dos seus produtos alardeadas pela propaganda nos seus vários meios.  Há as que de fato primam pela qualidade, mas o consumidor deve comparar o mesmo produto oferecido por diferentes marcas e formar sua própria opinião.

6. Buscar ofertas inclusive de produtos com prazo de validade próximo
Refiro-me às ofertas reais, e não as que iludem o consumidor aumentando o preço antes de aplicar o “desconto”. E coisas do tipo: compre uma unidade pelo preço normal e a segunda com desconto de 50%.  Se aceitar, a pessoa estará comprando as duas com desconto de 25%.   Quanto às ofertas perto da validade do produto vale lembrar que o que está dentro dele não olha o calendário para se tornar inválido. Dependendo do produto, um ou poucos dias a mais não fazem diferença. Cupons de desconto? Nos EUA sei que os jornais de domingo estão cheios deles, mas parece que aqui a moda não pegou.

7.  Não levar criancinhas; as maiores podem aprender com as compras

Criancinhas são mais difíceis de conter e de modo inconveniente podem se embirrar ou cair em choradeiras quando contrariadas em seus desejos. Alguém me disse que alguns supermercados colocam o que mais atraem o interesse delas em prateleiras mais baixas, mas nunca conferi isto. Sugiro, entretanto, que as já alfabetizadas e “numeralizadas” sejam levadas ao supermercado para aulas de educação financeira, aprendendo o valor do dinheiro, o seu limite, ajudando a encontrar os produtos da lista e a comparar preços na forma indicada, aguçando também seu senso de responsabilidade.

O assunto admite outras reflexões e eventualmente voltarei a ele neste espaço.
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Roberto Macedo, CFP® (Certified Financial Planner), é economista formado pela USP com Mestrado e Doutorado na Universidade Harvard (EUA).  Foi Secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Fazenda e Planejamento, funcionário do Banco Central e do Banco do Brasil. E-mail: imprensa@bb.com.br. Este texto reflete a opinião do autor e não necessariamente a do BB; tem caráter apenas informativo, e não deve ser tomado como recomendação de subscrição, tomada de créditos, compra ou venda de ativos, decisões estas de responsabilidade exclusiva dos investidores.

Por que é importante diversificar os investimentos - 30.06.2014
Diversificar investimentos é uma ideia de fácil compreensão, pois é uma questão de bom senso fazer isto para evitar o risco de concentrá-los num único tipo de ativo, como imóveis ou ações.  Até percepções populares transmitem a ideia, como a de que não se deve colocar num mesmo ninho todos os ovos disponíveis para chocar.

Mas, são muitos os investimentos disponíveis e entre outros também podem ser mencionados a Poupança,  fundos de investimentos, papéis como Certificados de Depósito Bancário (CDBs), Letras de Crédito Imobiliário (LCIs),  dólar,  investimentos em bolsas estrangeiras, ouro etc..  Quando o investidor também quer usar a diversificação para ampliar seus rendimentos ela se torna mais complexa.

Pode-se, também, buscar ativos mais adequados quando a inflação se manifesta de modo mais forte, o que é comum num país como o Brasil.  Este artigo procura examinar a diversificação conforme objetivos priorizados pelo investidor.

Começando do começo
Suponhamos uma pessoa que tenha R$10.000 na sua conta corrente ou mesmo em dinheiro vivo. Se o dinheiro ficar nessa situação a inflação irá reduzir o valor real dele, ou seja, algum tempo depois esse dinheiro terá um poder aquisitivo menor.

Atualmente a inflação está próxima de 6,5% a cada 12 meses, conforme o IPCA do IBGE. Isto significa, por exemplo, que se esse mesmo poupador não tomasse qualquer providência, ao final de 12 meses o poder aquisitivo desse dinheiro cairia para R$9.390. Por que esse número? Com a inflação, um conjunto de bens e serviços que valesse R$10.000 no início do período ao final dele passaria a valer R$10.650. Dividindo-se R$10.000 por R$10.650, essa pessoa só teria condições de pagar 0,939 ou 93,9% do novo valor dessa coisa.

Portanto, é preciso que esse poupador procure algum investimento que pelo menos proteja seu dinheiro dessa corrosão inflacionária.

O primeiro passo na direção da diversificação
Esse primeiro passo deve ser feito antes que esse efeito corrosivo da inflação aconteça. E tal passo já é uma diversificação, pois as pessoas sempre mantêm em dinheiro vivo ou em conta corrente uma parcela do que têm, parcela esta que deve ser a mínima possível diante desse impacto negativo da inflação.

Quanto a isto, a maioria dos poupadores brasileiros – e são dezenas de milhões  –, optou por fazer essa diversificação seguindo o caminho da caderneta de Poupança. Por coincidência, no momento atual a remuneração da Poupança está cobrindo aproximadamente a taxa de inflação,  pois essa remuneração é de 0,5% ao mês de juros, o que leva a 6,17% ao ano, mais a Taxa Referencial (TR). Por exemplo, para as contas com vencimento mensal no dia 1º, no mês de junho a remuneração total foi de 0,5467% sendo 0,0467% de TR, número este que equivale a 6,76% em 12 meses. Ou seja, até  maior um pouco do que a inflação nesse período. Mas vale lembrar que contas como esta podem variar de um mês para outro e até a cada dia, pois a TR tem valor diário.

Um segundo passo: na renda fixa, remunerações maiores são para valores maiores
A Poupança é considerada aplicação de renda fixa, não apenas porque a maior parte dela é fixa (a parcela correspondente a 0,5% ao mês), e também porque mesmo a remuneração total tem maior previsibilidade, ao contrário, por exemplo, das ações, cuja volatilidade de preços e de rendimentos é em geral muito maior.

Mas, mesmo na renda fixa quem dispõe de mais recursos que o pequeno poupador poderá encontrar aplicações que rendem mais que a Poupança, em particular porque há muitas que são direta ou indiretamente ligadas à taxa básica de juros, ou Selic, hoje em 11% ao ano. Essa taxa é também a principal e bem próxima determinante da taxa média dos CDIs (Certificados de Depósitos Interfinanceiros), também indicativa da remuneração das mesmas aplicações. Só que sobre várias delas há incidência de taxas de administração e do Imposto de Renda.  Mas, com a Selic nesse valor, várias aplicações ganham da Poupança, mesmo quando oneradas por esses custos. Um elemento que dificulta o acesso a elas pelos pequenos poupadores é que costumam exigir valor mínimo de aplicação e em geral há um prêmio para as aplicações maiores. Por exemplo, algumas podem render 105% da taxa média dos CDIs.

Na renda fixa a liquidez também é muito alta. Ou seja, em geral pode-se resgatar as aplicações imediatamente. Passando ao risco, ele também é dos menores se comparados com os das aplicações em renda variável, que examinaremos em seguida. 

Ainda na renda fixa, várias aplicações têm também a proteção do Fundo Garantidor de Crédito (FGC). Entre elas a Poupança, os CDBs, as LCIs e as de Crédito do Agronegócio (LCAs). A garantia pode alcançar até R$ 250.000,00, limitada ao saldo existente. Para maiores detalhes, veja-se www.fgc.org, inclusive quanto aos interessantes casos de aplicações realizadas conjuntamente por duas ou mais pessoas.

Terceiro passo: na renda variável ganhos podem ser maiores, mas riscos também
As ações são típicas da renda variável, pois seus ganhos variam muito com os preços que elas assumem no dia-a-dia das bolsas. A volatilidade dos preços costuma ser elevada e os ganhos podem ser altos, mas as perdas também. Em geral, os dividendos variam menos, mas os resultados das ações são mais determinados pelos preços.

Entendo que ações são para pessoas que já têm um certo volume de investimentos noutros ativos de risco bem menor, como imóveis e renda fixa, e estão em condições de até perder algum dinheiro nesse outro mercado. Nele a regra de sucesso é comprar na baixa e vender na alta, mas escolher as ações e os momentos adequados para um ou outro movimento não é simples.

Como investidor individual é preciso aprender e adquirir experiência com pequenas aplicações em ações antes de se arriscar a voos maiores. Ou, então, buscar a assessoria de especialistas. Outro caminho é investir em fundos de ações, cujos gestores assumem esse trabalho, cobrando por isso. E, para reduzir ainda mais os  riscos escolher fundos que envolvem um amplo espectro de ações, alguns focados em índices, como o Ibovespa, replicando a composição dele nas carteiras desses fundos.

E há outras formas de diversificar
Entre elas, o imóvel próprio se destaca, pois é uma aspiração da maioria das pessoas. A dificuldade do imóvel é que em geral sua liquidez é baixa. Para ampliá-la e  preservar ou até ganhar com a valorização, a boa localização é fator fundamental.

E há mais, como imóveis para renda, bolsas estrangeiras e empreendimentos próprios. Em geral, a necessidade de diversificação e a propensão a ela aumenta com a ampliação dos recursos disponíveis.
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Roberto Macedo, CFP® (Certified Financial Planner), é economista formado pela USP com Mestrado e Doutorado na Universidade Harvard (EUA).  Foi Secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Fazenda e Planejamento, funcionário do Banco Central e do Banco do Brasil. E-mail: imprensa@bb.com.br. Este texto reflete a opinião do autor e não necessariamente a do BB; tem caráter apenas informativo, e não deve ser tomado como recomendação de subscrição, tomada de créditos, compra ou venda de ativos, decisões estas de responsabilidade exclusiva dos investidores.

Um balanço semestral das finanças pessoais - 23.06.2014
A próxima segunda-feira marca o fim do primeiro semestre de 2014 e várias razões recomendam fazer um balanço desse tipo. Algumas delas serão esclarecidas neste artigo, que também abordará itens que esse balanço deve incluir.

Fim do primeiro semestre é o meio do caminho
O meio do ano tem um quê de meio do caminho, e é um bom momento para avaliar objetivos, metas e resultados na gestão das finanças pessoais, de modo a refletir sobre o que se passa com elas. Na terminologia do planejamento, objetivos são questões maiores, como as de poupar ou estudar mais. Metas são também objetivos, mas definidos com maior precisão e com prazos estabelecidos. Por exemplo, vou poupar certo montante ou uma porcentagem do meu salário todo o mês, de modo a chegar a uma determinada soma em tantos anos. E a avaliação de resultados é fundamental para examinar se tais objetivos e metas são alcançados.

Nessa linha, costumo recomendar o uso da declaração anual do Imposto de Renda da Pessoa Física (IRPF) como um balanço das finanças pessoais, mas ela é preparada só no início do ano seguinte ao ano-calendário a que se refere, com o prazo final de entrega em 30 de abril.  Essa declaração facilita o trabalho, pois exige o levantamento de dados indispensáveis a um balanço, como rendimentos, alguns tipos de gastos, a listagem dos bens e direitos, bem como das dívidas e outros ônus reais, conforme a linguagem da declaração. 

Contudo, ela diz respeito a um passado que não pode ser modificado. Serve para avaliar o passado e planejar o futuro. Ademais, convenhamos, o período de um ano é muito longo para, entre outros aspectos, permitir ajustes ao longo dele.  Como, por exemplo, para ajustar a composição da carteira de investimentos diante da dinâmica até diária de alguns investimentos, como ações ou das remunerações das aplicações de renda fixa. Ou, ainda, para planejar decisões que necessariamente têm que ser feitas antes do fim do ano-calendário, assunto a que voltaremos mais à frente.

As providências do balanço semestral podem ser agrupadas em cinco grupos.

1. Reunir as informações necessárias 
Quem apresentou a declaração do IRPF, particularmente a do formulário completo, já terá boa parte das informações necessárias, com a dificuldade maior residindo no levantamento de outros grupos de despesas, pois nessa declaração o interesse maior se concentra naquelas dedutíveis dos rendimentos brutos para reduzir o imposto a pagar ou aumentar o  valor da restituição.  Como a declaração referente ao ano anterior foi preparada no primeiro quadrimestre do ano corrente, o status das finanças então avaliado ainda deve estar na memória e a respectiva documentação, junto com a do primeiro semestre do ano corrente, constituirão a base para o balanço semestral. Em síntese, é preciso atualizar o balanço relativo ao ano anterior. Quem não o fez para a Receita Federal, e não o completou com outras informações, como os gastos que não são incluídos na declaração, terá evidentemente maior trabalho a fazer.

2. Reexaminar rendimentos, gastos e o que foi poupado
Retomo aqui minha pregação usual de que o caminho da prosperidade pessoal está em poupar e investir no período que antecede as idades mais avançadas, para que as pessoas tenham então um padrão de vida digno ao enfrentar as dificuldades comuns dessa fase da vida. Em particular as de manter rendimentos adequados quando perdem sua capacidade de trabalho, ou optam por deixá-lo, adequação esta que pode ser comprometida por gastos maiores ligados à saúde.

Este deve ser o objetivo síntese do planejamento financeiro pessoal para a maioria das pessoas.  E para alcançá-lo devem ser estabelecidas e cumpridas metas para a poupança e o investimento ao longo da vida.

Também vale lembrar que poupar não é uma questão que se limita a conter determinados gastos. Eu diria que tão ou mais importante é ampliar os rendimentos, entre outras formas mediante investimento dessa poupança, e reforçando a capacidade pessoal de ampliá-los. Como, por exemplo, com mais investimentos em educação e treinamento e/ou buscando uma atividade empresarial.

3. Realocações dentro da carteira de investimentos
Dependendo do volume de recursos disponíveis, da disposição para buscar maiores rendimentos e da propensão ao risco de cada investidor, pode ser conveniente até um acompanhamento diário dos investimentos.  Mas, mesmo quem não dispõe de muito dinheiro deve seguir de perto pelo menos algumas mudanças básicas que ocorrem no mercado financeiro. Como, por exemplo, a elevação da Selic desde 18/4/13, que a trouxe de 7,25% ao ano para seu valor atual de 11% ao ano, o que aumentou a atratividade de aplicações diretamente ou indiretamente ligadas a essa taxa. Mas, sempre lembrando que a análise dessa atratividade relativamente a outras aplicações, como a Poupança, deve incluir em cada caso a tributação pelo Imposto de Renda, se existente,  e a cobrança de taxas de administrações, quando cabíveis.

A realocação de investimentos em ações é um processo bem mais complicado, pois envolve escolher entre muitos papéis ou entre fundos constituídos deles.  Para o investidor que não se especializou em escolher ações, o recomendável é optar por fundos de ações que automaticamente diluem seus riscos entre várias, e/ou recorrer a recomendações de especialistas no assunto.

4. Planejamento tributário de olho no IRPF
Este é um aspecto particularmente importante, pois há prazos para auferir benefícios fiscais como os que vêm do investimento em planos de previdência privada (PGBL, VGBL e outros). Pode-se também planejar a realização, até o fim do ano, de gastos que reduzirão o imposto a pagar em 2015, como aqueles em educação, seja ampliando-os seja antecipando o pagamento de taxas de matrícula no ano seguinte. E também em saúde, antecipando tratamentos necessários ou realizando o recomendado checape anual mais próximo do fim do ano, pois despesas decorrentes serão logo em seguida aproveitadas para reduzir o ônus tributário.

5. Outros itens inevitáveis e de periodicidade definida

Também é conveniente planejar desde já algumas despesas que costumam estressar o orçamento doméstico no fim e no início do ano, como presentes, férias, gastos educacionais, e impostos típicos desse segundo período (IPVA e IPTU).  E, ainda, o que fazer com o 13º. Este último, apesar do número tido como de mau agouro, premiará quem optar por poupá-lo e investi-lo. 
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Roberto Macedo, CFP® (Certified Financial Planner), é economista formado pela USP com Mestrado e Doutorado na Universidade Harvard (EUA).  Foi Secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Fazenda e Planejamento, funcionário do Banco Central e do Banco do Brasil. E-mail: imprensa@bb.com.br. Este texto reflete a opinião do autor e não necessariamente a do BB; tem caráter apenas informativo, e não deve ser tomado como recomendação de subscrição, tomada de créditos, compra ou venda de ativos, decisões estas de responsabilidade exclusiva dos investidores.

O que se passa com a Caderneta de Poupança? - 16.06.2014
Depois de 25 meses de captação líquida positiva (de março de 2012 a março de 2014), a Poupança teve resultado negativo no último mês de abril. Dados de maio mostraram que a captação líquida voltou a ser positiva. Mas, nos primeiros cinco meses de 2014 a captação líquida foi bem menor do que a do mesmo período de 2013.  

Entre outros, vou mostrar dados dessa captação líquida nesses dois períodos, e apontar fatores que explicam o comportamento desses números.

Os dados dos primeiros cinco meses de 2013 e 2014

Na tabela abaixo estão a captação líquida da Poupança nos primeiros cinco meses de 2013 e 2014, o total dessa captação nesse mesmo período, e o saldo final total das contas, nos mesmos meses de 2014.

Caderneta de Poupança  Captação Líquida  Mensal e Total, de Janeiro a Maio de 2013 e 2014, e Saldo Final do Total das Contas, de Janeiro a Maio de 2014 –R$mil

MêsCaptação Líquida
 2013
Captação Líquida
2014
  Saldo Final do Total
  das Contas - 2014
Janeiro
983.995
710.644
469.922.077
Fevereiro
1.750.970
1.924.730
474.533.768
Março
4.523.538
1.708.836
478.591.135
Abril
1.791.569
-735.675
480.464.916
Maio
4.205.225
2.178.090
485.037.160
TOTAL
13.255.297
5.786.625

Fonte: Banco Central do Brasil – Relatório de Poupança – Maio/2014

Esses números mostram que a captação líquida nos primeiros cinco meses de 2014 foi inferior à observada nos mesmos meses de 2013, com uma única exceção, no mês de fevereiro. Ademais, a captação total nos primeiros cinco meses de 2014 foi 43,7% da verificada no mesmo período de 2013.  Houve, portanto, uma clara redução da captação líquida em 2014.

Contudo, o saldo final do total das contas aumentou em todos os meses  de 2014, o que se explica porque esse saldo recebe mensalmente o acréscimo dos juros de 0,5 mais a TR (Taxa Referencial), o que leva a um acréscimo de aproximadamente R$2.500.000 mil. Assim, o mesmo saldo só não cresceria se a captação líquida se revelasse negativa numa magnitude superior a esse acréscimo de rendimentos.

Vista de outra forma, a evolução do saldo total das contas revela que no seu conjunto os poupadores reduziram seus aportes líquidos, mas não chegaram a reduzir esse saldo total, o que seria um resultado mais forte do que essa redução limitada aos aportes líquidos realizados mensalmente.

Por que caíram esses aportes?
(1) Começando do lado da Poupança, sabe-se também que em contraste com essa queda da captação líquida em 2014, em 2013 tal captação foi recorde, alcançando um total anual de R$54.280.749 mil, o que dá um valor médio de R$4.523.957 mil, que contrasta com os valores bem mais baixos registrados em 2014, conforme a tabela acima.  Em 2013, o crescimento mais expressivo ocorreu no segundo semestre do ano.

Ora, esse sobe-e-desce da captação da Poupança entre 2013 e 2014 coincide aproximadamente com a queda e subida da taxa básica de juros, ou Selic, a cujo valor está atrelada boa parte das remunerações de aplicações de renda fixa alternativas à Poupança, como fundos investimentos financeiros do tipo DI e CDBs.  Esse assunto foi abordado no meu artigo de 14/4/14, publicado neste espaço.

Em síntese, mostrei então que em 21/7/2011 o BC iniciou um ciclo de reduções da Selic que a trouxe de 12,5% para 7,25% ao ano em 11/10/12, e aí ficou até 18/4/13, quando foi iniciado um ciclo de altas. Mas, só em 29/8/13, quando a Selic passou a 9% ao ano é que ela superou o valor de 8,5% ao ano em que se encontrava até o dia anterior. Ora, sabe-se que a atratividade relativa da Poupança se mantém até valores da Selic próximos desta última taxa supondo uma taxa de administração de 1% ao ano e a alíquota do IR em 20% em aplicações alternativas. Foi por esta razão que para manter a atratividade delas o governo instituiu a regra de que para os depósitos realizados depois de 4/5/2012 a remuneração mensal da Poupança passaria ser de 70% da taxa Selic (+TR) se esta fosse igual a ou inferior a 8,5% ao ano.

Ou seja, na maior parte de 2013 a Selic esteve abaixo de 8,5% ao ano, e mesmo depois de 29/8/13, quando ultrapassou esse valor, os depositantes da Poupança podem ter demorado a reagir a esse estímulo às aplicações alternativas, duas das razões sendo que nelas as taxas de administração dos fundos que recebem aplicações menores costumam ser maiores que 1%, e há também a facilidade muito maior de movimentação das cadernetas.  Nessa linha, só em 2014 a reação do investidor teria sido maior, outra razão sendo que a Selic continuou crescendo até alcançar seu patamar atual de 11%.

(b) Do lado dos que usam a Poupança, outra provável causa dos depósitos mais contidos em 2014 é que a inflação tem sido mais elevada, em particular no caso dos alimentos, o que afeta mais os pequenos poupadores, reduzindo suas disponibilidades para novos depósitos.  Com respeito a isto, uma evidência de que o próprio consumo das famílias tem sido objeto de contenção veio dos resultados das Contas Nacionais do primeiro trimestre do ano, que revelaram uma queda desse consumo.

(c) Um terceiro fator importante, e que até agora não vi apontado por outros analistas, é que o crédito habitacional vem se expandindo a taxas muito mais fortes que os empréstimos e financiamentos de outros tipos, como o pessoal, o consignado e outros, e o pagamento das prestações habitacionais estaria reduzindo a disponibilidade de recursos para depósitos na Poupança.  Um relatório a que tive acesso, da Associação Comercial de São Paulo, mostrou que nos 12 meses contados até abril último, relativamente aos 12 meses anteriores, o crédito habitacional cresceu 31,5%, enquanto que outros tipos de crédito à pessoa física aumentaram apenas 6,9%. Ademais, uma apresentação do Ministério da Fazenda mostrou que no terceiro trimestre de 2012 o estoque de crédito às pessoas físicas para adquirir imóveis superou o concedido para comprar bens duráveis. E que em julho de 2013, último mês coberto pela mesma apresentação, o estoque de crédito habitacional alcançou R$306,5 bilhões, um valor de grande magnitude, e já então bem superior ao crédito para bens duráveis, cujo saldo então era de R$225,9 bilhões. Essa apresentação não esclareceu se esses bens duráveis incluíam veículos automotores, o que, se for o caso, enalteceria ainda mais a importância que adquiriu o crédito habitacional nos anos recentes.

É ótima notícia, ao revelar que de modo crescente as pessoas estão poupando e constituindo patrimônio, no caminho da prosperidade, em lugar de enfatizar tanto o consumo, ainda que de bens duráveis. Nenhum deles dura mais que um imóvel.
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Roberto Macedo, CFP® (Certified Financial Planner), é economista formado pela USP com Mestrado e Doutorado na Universidade Harvard (EUA).  Foi Secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Fazenda e Planejamento, funcionário do Banco Central e do Banco do Brasil. E-mail: imprensa@bb.com.br. Este texto reflete a opinião do autor e não necessariamente a do BB; tem caráter apenas informativo, e não deve ser tomado como recomendação de subscrição, tomada de créditos, compra ou venda de ativos, decisões estas de responsabilidade exclusiva dos investidores.

Atitudes, comportamentos e hábitos nas finanças pessoais - 09.06.2014
Este artigo é baseado no enfoque comportamental na análise dessas finanças, o qual argumenta que as pessoas muitas vezes tomam decisões equivocadas. Esse enfoque se contrapõe ao tradicional que se sustenta na visão de que elas são racionais e procuram sempre buscar as melhores decisões.

Mas, mesmo dentro da análise comportamental há também discordâncias e ponderações quanto à necessidade de que determinadas recomendações da análise sejam modificadas.  Assim, entre seus pregadores há os que ressaltam a importância de mudar atitudes, vontades, crenças ou convicções pessoais, de modo a alcançar melhor gestão das finanças pessoais. Por exemplo, convencer-se da necessidade de poupar mais, e tomar a decisão de fazer isto.

Mas, outros analistas da mesa escola, percebendo a dificuldade que muitas pessoas têm praticar o que têm em mente, pregam a necessidade de mudar não apenas atitudes, mas de adotar hábitos capazes de assegurar que objetivos traçados sejam efetivamente cumpridos. E às vezes são as mudanças de hábitos que mudam as próprias convicções na direção desejada. Este artigo se apoiará em lições da psicologia para realçar a importância da mudança de hábitos.

A importância do hábito em firmar ou mudar convicções
Antes de prosseguir, cabe firmar conceitos utilizados neste texto. Atitudes, vontades, crenças ou convicções são o que as pessoas têm na cabeça, e querem fazer.  Comportamento é o que de fato elas fazem.  Hábito é um comportamento repetitivo que condiciona as pessoas de tal forma que passam instintivamente a agir conforme ditado por ele que, assim, se torna trivial.

A visão de que as crenças condicionam o comportamento é tradicional na psicologia. Ou seja, o que está na cabeça das pessoas é que determina o que de fato elas fazem. Mas, há outra visão, a chamada Teoria da Dissonância Cognitiva, atribuída a Leon Festinger. Ele argumenta que as pessoas procuram manter a coerência entre suas várias crenças, bem como entre elas e seu comportamento. E quando este divergir daquelas, pode acontecer que seja mudado.  Mas, também pode ocorrer que a permanência dele, se habitual, ainda que não prevista ou mesmo desejada, faça as pessoas mudar suas convicções, ou criarem novas.

Tenho aplicado essa teoria ao processo de escolha de carreiras profissionais. A teoria usual diz que uma pessoa escolhe uma profissão condizente com sua vocação, e para chegar a ela busca a formação educacional correspondente. Mas, no mercado de trabalho poderá não encontrar uma ocupação típica da profissão escolhida, caindo numa atípica. Por exemplo, um engenheiro que passe a trabalhar como analista financeiro de um banco. Ele poderá continuar buscando um emprego como engenheiro, mas também poderá rever sua vocação, acomodando-a àquilo que faz, e assim assumindo a condição de analista financeiro como se fosse uma profissão.

Em retrospecto, creio que adquiri o hábito de poupar com base noutra crença, a de que cedo na vida deveria comprar uma casa própria. Comecei por uma quitinete em construção, com financiamento de cinco anos.  O pagamento das prestações mensais, que significavam poupança financeira investida num imóvel, restringiu minhas disponibilidades para gastos de consumo, o que criou o hábito de poupar. Como deu bons resultados, depois de pagar essa quitinete, eu a vendi, adquiri um imóvel maior pagando-o também a prestações, e depois repeti o processo mais uma vez. Com isso, por cerca de 10 anos tive meu estressado com pagamento de prestações de imóveis, o que firmou um hábito de poupar que depois se voltou para outras finalidades.  Ou seja, comecei pensando numa casa própria e prossegui como um poupador habitual.

As lições que ficam
Vou estender o processo descrito acima, que foi da teoria à pratica, com alguns casos que facilitam o aprendizado de lições. Eles ajudam a estabelecer em bases firmes as atitudes e o hábito de poupar.

(1) Na época em que adquiri esse hábito, a inflação já era bem alta e inexistiam mecanismos formais de correção monetária, com o que os financiamentos imobiliários, além de muito escassos, tinham prazo muito curto, coisa de três a cinco anos.  Hoje, com um único imóvel, é possível praticar o mesmo hábito por 20 ou mais anos.  Mas, se a pessoa tomou o financiamento ainda jovem, com o crescimento da renda ao longo de sua vida profissional o valor da prestação cairá relativamente aos seus rendimentos, abrindo assim uma folga a ser preenchida com poupança adicional para outras finalidades.

(2) Também cresceu muito a quantidade de instrumentos financeiros que facilitam a poupança, como fundos de todo o tipo e papéis diversos, como os CDBs, as ações e os oferecidos pelo Tesouro Direto. Contudo, com relação ao hábito de poupar, uma dificuldade desses instrumentos é a sua alta liquidez e seu pequeno custo de transação, podendo ser resgatados a qualquer momento, às vezes sucumbindo a pressões consumistas. Por esta razão, é preciso consolidar o hábito de poupar de um modo geral, e não restrito a esse caso dos imóveis onde a liquidez é baixa e o custo de transação é alto, na forma de comissões de corretores, escrituras, impostos de transmissão, sobre lucro imobiliário etc., que desestimulam a venda do imóvel.

(3) Entre os casos de liquidez intermediários aos imóveis e esses fundos e papéis, estão contribuições a planos de saúde, mensalidades escolares próprias ou de membros da família, que também são investimentos. E planos de previdência abertos, como o VGBL, sendo que neste caso a opção por tributação regressiva, que cai com o tempo de aplicação, constitui um estímulo importante para o saque não antecipado.

(4) Planos de previdência fechados, onde além da contribuição própria o associado tem a contribuição do empregador, apresentam dois aspectos que contraindicam interromper pagamentos. Primeiro, isto implicaria na perda dos valores pagos pelo empregador. Segundo, há também a facilidade de que as contribuições próprias são diretamente deduzidas do salário do associado, evitando assim a sua passagem por outro processo decisório, o de pagar ou não a contribuição a cada mês.

(5) Um caso interessante é a capitalização, que muitos analistas apontam como mau investimento, ignorando que tais planos são essencialmente mecanismos de poupança adequados para quem tem dificuldades de poupar, e aprecia jogar algum dinheiro em sorteios, como os desses planos.  Assim, eles estimulam o hábito de poupar mensalmente, e embora usualmente a pessoa não seja sorteada, pelo menos ela não perde tanto dinheiro como nas loterias usuais, como a Mega-Sena e outras. Outro estímulo vem do fato de que tais planos punem as pessoas que resgatam os planos antes do seu vencimento, pois quando isto acontece o dinheiro recuperado é menor do que o total que seria obtido se o plano fosse levado até o fim.
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Roberto Macedo, CFP® (Certified Financial Planner), é economista formado pela USP com Mestrado e Doutorado na Universidade Harvard (EUA).  Foi Secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Fazenda e Planejamento, funcionário do Banco Central e do Banco do Brasil. E-mail: imprensa@bb.com.br. Este texto reflete a opinião do autor e não necessariamente a do BB; tem caráter apenas informativo, e não deve ser tomado como recomendação de subscrição, tomada de créditos, compra ou venda de ativos, decisões estas de exclusiva responsabilidade do investidor.

Aposentadoria adequada é a essência do planejamento financeiro - 01.06.2014
Minha percepção sustentada pela própria experiência pessoal e familiar, bem como ao observar pessoas de meu convívio profissional e social, é a de que uma renda adequada na aposentadoria é o aspecto mais importante do planejamento financeiro pessoal.  Se a pessoa errar nesse aspecto, o dano será imenso e sua percepção poderá vir tarde demais para permitir uma correção.
No que se segue vou elaborar sobre essa importância, mostrar como vem aumentando expectativa de vida ou longevidade dos brasileiros e suas implicações. E concluir com passos a serem tomados na direção de uma aposentadoria adequada.

Por quê ela é tão importante
De um modo geral os planejadores financeiros pessoais enfatizam a importância de poupar para o atendimento de necessidades futuras, em particular a melhoria do padrão de vida da pessoa e de sua família. Enfatizam também a necessidade de um compromisso firme com esse objetivo, o que exige muito empenho e disciplina.

Ora, falar em necessidades futuras e praticar o planejamento para atendê-las envolve necessariamente um olhar sobre uma dimensão temporal que vai do momento atual até o fim da vida.  Nessa linha, um aspecto crucial é que a longevidade das pessoas vem se ampliando, ou seja, esse horizonte temporal se estende, com o que o planejamento financeiro para as idades mais avançadas também precisa ter seu horizonte esticado, o que pode exigir uma ampliação dos recursos necessários.

E mais: a ampliação da longevidade em larga medida se sustenta  pelos avanços da medicina, como técnicas cirúrgicas menos invasivas, mais eficazes e de menor risco. Também surgem medicamentos também mais eficazes. Mas, esses avanços costumam implicar em custos mais altos, tornando-os cada vez mais inacessíveis a quem pode recorrer apenas aos serviços providos gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde.   

A ampliação da expectativa de vida
Tenho diante de mim duas tabelas com números da expectativa de vida para homens e mulheres de diferentes idades em 1980 e 2012.  Tomando o caso dos mais idosos, para quem tinha 50 anos em 1980 a expectativa média de vida era a de chegar aos 72 anos de idade, se homens, e a 75,4, se mulheres.

Mas, as pessoas desse grupo que sobreviveram até 2012, ou seja, 32 anos depois, último ano em que as estatísticas do IBGE sobre o assunto estão disponíveis, tinham então a expectativa de chegar aos 88,2, se homens, e aos 89,7 se mulheres. Outra forma de ver essa ampliação da expectativa de vida é examinar também a de pessoas com 50 anos em 2012, e os aumentos, ainda que também expressivos, são menores:  77,3 para os homens e 81,7 anos para as mulheres.

A considerável diferença entre as duas comparações ocorre porque no primeiro caso as pessoas que sobreviveram além da expectativa que tinham em 1980 são pessoas com saúde acima da média ou que a tiveram melhor cuidada quando enfrentaram enfermidades.  Mas, quem tinha 50 anos em 2012 e ultrapassar a expectativa de vida que tinham nesse ano, chegando aos 82 em 2044, terá uma expectativa de vida ainda maior do que aqueles que em 2012 já tinham essa idade.

Nas tabelas de 2012 do IBGE – ver acesso dado por (*) ao final deste artigo –, o leitor encontrará a expectativa de vida média para a sua idade naquele ano, pois a tabela dá esse valor ano a ano, de zero a 80 ou mais anos.  É interessante consultar essa expectativa para ter uma idéia de até quando deve alcançar o planejamento financeiro para aposentadoria e, ainda, conjecturar quanto aos anos adicionais de sobrevida se a pessoa avançar até o fim da tabela.  

Os passos de uma aposentadoria adequada
Em resumo, são os seguintes: 1) definir o que a pessoa quer em termos de padrão de vida e os recursos capazes de sustentar esse padrão mediante recurso a poupanças acumuladas; 2) dado o efeito dos rendimentos acumulados com os investimentos, quanto mais cedo for praticado esse planejamento maiores serão os recursos acumulados ou menores os valores a serem poupados mensalmente para alcançar um total pretendido; 3) considerar a hipótese de continuar trabalhando além de um primeiro ou segundo rendimento de aposentadoria conquistado, como o do INSS e o de um fundo fechado de previdência; tal continuidade costuma fazer bem à saúde ampliando a própria expectativa de vida; 4) definir um plano de investimentos para acumular os recursos poupados, o que inclui o que virá da previdência pública e/ou privada, mais outros investimentos considerados necessários, como os do tipo PGBL ou VGBL; 5) também é considerada poupança, voltada para proteção de riscos, o custeio de um indispensável plano de saúde para quem não se contentar com os serviços do SUS; pela experiência da minha família, onde há uma pessoa centenária, um aspecto negligenciado no seu plano de saúde, e de alto custo,  foi o da cobertura de cuidados em casa, que ainda não se tornou comum por parte desses planos; (6) os itens 4 e 5 acima devem também incluir um planejamento para minimizar o ônus de impostos sobre rendimentos, gastos,  ativos e suas transmissões a outras pessoas.

No fundo, planejar para aposentadoria é uma ação que envolve encarar o antigo dilema entre gastar hoje ou poupar para o futuro. Esse dilema fica cada vez mais difícil de enfrentar se a pessoa poupa pouco e/ou começa a fazê-lo bem tarde na vida. Optei por poupar mais do que entendia necessário, e comecei bem cedo na vida. Não me arrependo, e hoje lamento ver o drama com que se deparam pessoas idosas que descuidaram desses aspectos no passado, sem ter como reverter as equivocadas decisões então tomadas. Como resultado, elas sofrem dificuldades numa idade em que é ainda mais difícil suportá-las, às vezes ferindo sua própria dignidade como seres humanos.
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Roberto Macedo, CFP® (Certified Financial Planner), é economista formado pela USP com Mestrado e Doutorado na Universidade Harvard (EUA).  Foi Secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Fazenda e Planejamento, funcionário do Banco Central e do Banco do Brasil. E-mail: imprensa@bb.com.br. Este texto reflete a opinião do autor e não necessariamente a do BB; tem caráter apenas informativo, e não deve ser tomado como recomendação de subscrição, tomada de créditos, compra ou venda de ativos, decisões estas de exclusiva responsabilidade do investidor. 
(*)ftp://ftp.ibge.gov.br/Tabuas_Completas_de_Mortalidade/Tabuas_Completas_de_Mortalidade_2012/pdf/homens_pdf.pdf, no caso dos homens; no das mulheres, 
ftp://ftp.ibge.gov.br/Tabuas_Completas_de_Mortalidade/Tabuas_Completas_de_Mortalidade_2012/pdf/mulheres_pdf.pdf. Obs.: as tabelas ou tábuas do IBGE indicam a expectativa de vida na forma de anos adicionais à idade examinada, ou seja, a sobrevida esperada nessa mesma idade. Para se chegar à idade à qual a pessoa poderá chegar é preciso somar esses anos adicionais aos da idade examinada. Por exemplo, para os homens com 50 anos em 2012, os anos adicionais seriam 27,3 e a expectativa seria a de chegar aos 77,3 anos (50+27,3).

Jay Mooreland no Seminário Anual de Planejamento Financeiro, do IBCPF - 26.05.2014
Nosso artigo anterior tratou desse seminário, mas deixou para abordagem posterior a apresentação realizada por Jay Mooreland na ocasião. Trata-se de um especialista em finanças pessoais que atua nos EUA, e que se intitula um “economista comportamental”, inclusive no seu cartão de visitas.

A presença dele no evento, como único palestrante de fora do Brasil e fazendo a palestra de encerramento – que em geral aborda tema tido como de grande importância pela plateia, de modo a garantir a presença desta até o fim do evento –, confirma o que já afirmamos vários artigos anteriores: vem crescendo a importância do enfoque conhecido como de finanças comportamentais no planejamento financeiro pessoal.
Neste artigo será abordado especificamente o conteúdo da palestra de Jay Morreland. Antes de prosseguir, vale lembrar que é uma palestra dirigida a especialistas em planejamento financeiro pessoal que prestam serviços a clientes.

Para início de conversa...
Ele apresentou a distinção entre seu enfoque, o de finanças comportamentais (FCs), que enfatiza a presença do raciocínio intuitivo ou instintivo, e o enfoque tradicional, que sustenta que o ser humano pensa e age racionalmente.

Adiciono que na linguagem do psicólogo Daniel  Kanehman, que deu grande contribuição ao desenvolvimento do enfoque das FCs, as pessoas têm dois modos de pensar, um rápido e instintivo e outro, lento e racional, com muitas decisões sendo tomadas pelo primeiro modo, sem passar pelo segundo, o que pode levar a resultados inconvenientes para as finanças pessoais.

Para ilustrar a diferença entre os dois modos, Mooreland apresentou um teste. Para prosseguir mudei a moeda e os objetos envolvidos nesse teste para deixá-los mais adequados ao Brasil: um pãozinho e uma balinha custam um total de R$1,10. O pãozinho custa R$1 a mais que a balinha. Quanto custa a balinha?

Ao responder, as pessoas usualmente dizem que a balinha custa R$0,10, pois numa primeira reação,  intuitiva, entendem que o referido total se decompõe em R$1,00 do pãozinho mais R$0,10 da balinha. Mas, se a balinha custasse R$0,10, o valor do pãozinho (R$1 a mais que a balinha) seria R$1,10, e o total dele mais a balinha levaria a um valor de R$1,20. Assim, uma reflexão maior sobre o assunto, a partir do segundo modo de pensar, mostra que a resposta dada pela intuição está errada. Avançando-se no modo racional, chega-se ao valor de R$0,05 para a balinha, que somado ao valor do pãozinho, de R$1,05(R$1 a mais que balinha) leva a um total de R$1,10.

É um exemplo interessante, mas na vida real as pessoas não enfrentam pegadinhas como essa. Outro exemplo a que costumo recorrer é a seguinte: nas filas de apostas nas muitas loterias brasileiras, sei que as pessoas usualmente se movem por um raciocínio intuitivo, quanto às suas possibilidades de ganho. Assim, é comum dizerem que “se alguém ganhou, eu também posso ganhar”. Mas, isto é apenas uma possibilidade, e não mede a probabilidade de ganho da aposta realizada. No caso da Mega-Sena, a probabilidade de ganho de uma aposta de apenas seis números é de uma entre 50.063.860, ou praticamente zero. Se os apostadores refletissem racionalmente sobre isto, talvez não apostassem tanto. 

Resumo de outros pontos enfatizados pelo palestrante
1. Além de enfatizar que nem sempre os investidores agem racionalmente, Mooreland também disse que não se pode confiar em previsões de comportamento do mercado, pois frequentemente se revelam falsas. Entendo que essa conclusão precisa ser relativizada. Uma coisa, por exemplo, é investir em ações com base apenas em tendências e ciclos de seus preços no passado; outra é fazê-lo com base em informações sobre os mercados em que atuam as respectivas empresas, juntamente com o exame da situação econômico-financeira atual de cada uma delas.

2.  Em face dos erros de previsão, Mooreland recomenda que os clientes de planejadores financeiros sejam advertidos quanto à presença desses erros, e que lhes seja apresentada não uma única previsão, mas um conjunto de eventos possíveis, com o que se chocarão menos com eventos que fujam ao padrão normal.

3.  Mooreland fez referência a pesquisa que mostrou que 70% das decisões têm natureza psicológica enquanto apenas 30% são movidas pela racionalidade,mas planejadores financeiros usualmente trabalham como se 70% das decisões fossem racionais.

4.  Em seguida distinguiu no comportamento pessoal as distorções decisórias causadas pelo modo de pensar de outras em que predominam as emoções. Entre as primeiras estão, entre outras, as decorrentes do excesso de confiança e as ancoradas em informações que não são pertinentes. Ou que são usadas simplesmente porque estão disponíveis, como as relativas ao passado, como a do desempenho de uma ação do mercado.  Entre as segundas, apontou a aversão a perdas, que causam maior desconforto ao investidor do que a satisfação de um ganho de valor correspondente.

5. Nessa linha, propôs que investidores sejam analisados também pelo seu comportamento e não apenas, como é comum, pelo perfil de sua disposição a aceitar riscos. E que, identificadas distorções comportamentais, sejam instados a corrigi-las.

6. Por exemplo, em face da aversão a perdas, é comum que, agindo emocionalmente para não encará-las, investidores retenham papéis perdedores e vendam papéis ganhadores. Uma saída é investir de forma sistemática afastando emoções ou montando uma carteira em que sejam evitados ativos de comportamento correlacionado com os demais, de tal forma que nem todos eles se movam numa mesma direção.

7. Outra sugestão é ter compromissos assinados pelos investidores quanto às suas decisões, por exemplo, a de comprar um determinado valor de ações quando o mercado cair 15%, e mais outro valor, se cair 25%.

8.  Num resumo ao final, enfatizou os seguintes aspectos já mencionados: a) a recomendação de carteira diversificada mencionada no item 6 acima; b) o aconselhamento no sentido de os clientes que saibam da dificuldade de prever o comportamento do mercado, conforme o item 2; e c) quando administrando carteiras, ter regras assinadas pelo próprio investidor, conforme o item 7 acima. E deixou a pergunta: se você, o planejador financeiro, não ensina aos clientes a forma correta de interpretar os mercados e as informações providas pela mídia, quem faria isto?
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Roberto Macedo, CFP® (Certified Financial Planner), é economista formado pela USP com Mestrado e Doutorado na Universidade Harvard (EUA).  Foi Secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Fazenda e Planejamento, funcionário do Banco Central e do Banco do Brasil. E-mail: imprensa@bb.com.br. Este texto reflete a opinião do autor e não necessariamente a do BB; tem caráter apenas informativo, e não deve ser tomado como recomendação de subscrição, tomada de créditos, compra ou venda de ativos, decisões estas de exclusiva responsabilidade do investidor.

O Seminário Anual de Planejamento Financeiro, do IBCPF - 19.05.2014
Esse seminário ocorreu em São Paulo(SP), no dia 9 deste mês, durando o dia todo. É um evento anual que reúne profissionais    brasileiros que têm a certificação internacional conhecida como CFP®–Certified Financial Planner (Planejador Financeiro Certificado). É conferida pela Financial Planning Association (Associação de Planejamento Financeiro - FPA), que congrega os CFP®s dos EUA, onde a certificação teve origem e há o maior número de  pessoas certificadas.

Em seguida descreverei a estrutura do seminário e resumirei o conteúdo das apresentações realizadas no evento.

CFP®: o que é a certificação
Há instituições certificadoras em 24 países. No Brasil quem faz isto é o IBCPF(Instituto Brasileiro de Certificação de Planejadores Financeiros), ligado à Anbima (Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiros e de Capitais).

A certificação é conferida a pessoas de nível educacional superior, de qualquer área, desde que passem pelo exame exigido. Por exemplo, sei de dois médicos que têm a certificação e no Brasil trabalham em cooperativas de crédito cujos sócios são médicos. Para maiores informações, pode-se consultar o site www.ibcpf.org.br.

A certificação é pessoal. Nos EUA um grande número de CFP®s presta consultoria financeira a pessoas. No Brasil, os CFP®s trabalham predominantemente em instituições financeiras.  Mas, um número crescente deles também já presta serviços a pessoas. A certificação precisa ser atualizada a cada dois anos. Para tanto, o profissional precisa demonstrar que passou por programas de educação financeira continuada, entre outros requisitos. O seminário anual é um desses programas e os CFP®s que o assistem ganham pontos que integram os necessários para renovação da certificação bianual.

A estrutura do evento
Ela seguiu três aspectos que constituem a essência do planejamento financeiro, conforme apresentados pelo presidente do IBCPF, Luiz Sorge, ao dar início ao seminário. São eles: (1) o conhecimento do cenário macroeconômico conforme expresso por suas variáveis mais ligadas ao mercado financeiro, como a inflação, o PIB, a taxa de câmbio e a taxa básica de juros, todas nos seus ciclos e tendências; (2) o detalhe das informações específicas de interesse dos investidores, como sobre a Bovespa e seus índices, sobre os fundos de investimento financeiros e seguros, com o orador lembrando que vivemos na chamada sociedade da informação, na qual o investidor tem grande acesso às informações de seu interesse, e é como se chegasse ao CFP tal como um paciente que fosse ao médico já levando os resultados dos exames que seriam solicitados;  em síntese, com um questionamento cada vez mais embasado que exige um aprimoramento constante quem oferece o planejamento financeiro; 3) a questão da adequação do produto financeiro ao cliente, muitas vezes apresentada pela referência ao termo que em inglês trata dessa questão, ou seja, a “suitability” do produto.

O conteúdo do evento: o primeiro painel
Esse painel teve início com a apresentação do economista Marcos Lisboa, ex-secretário de Politica Econômica do Ministério da Fazenda, atualmente vice-presidente do INSPER, uma instituição de ensino superior voltada para administração e finanças. Sua análise foi voltada para o PIB, cuja variação afeta principalmente a Bovespa, pois os lucros das empresas têm usualmente uma relação direta com o PIB.  Segundo Lisboa, para fazê-lo crescer mais rapidamente será necessário um aumento da produtividade por trabalhador, e destacou que o setor de melhor desempenho da economia brasileira, o agronegócio, conseguiu fazer isso, o que precisaria ser feito pelos demais setores. O setor financeiro também teve forte aumento da sua produtividade, obtido mediante ampla adoção das modernas tecnologias de informação e de telecomunicação. Seguiram-se várias recomendações sobre o aumento da produtividade, em particular a do governo, quanto à ação das suas politicas públicas.

Do mesmo painel participou o cientista político Luiz Felipe D’Ávila, convidado porque neste ano eleitoral há grande interesse no mercado financeiro pelo que poderá acontecer em 2015 quanto à politica econômica dependendo de quem vença o pleito. Ele ressaltou que há muita dificuldade no Brasil na busca de consensos quanto a algumas medidas que precisariam ser tomadas para enfrentar questões impopulares como o desequilíbrio da previdência social e a necessidade de reajustar tarifas de energia elétrica e o preço de derivados de petróleo, como a gasolina e o óleo diesel.   Quem assumir o cargo, seja a presidente atual ou um candidato da oposição, vai precisar de muita liderança para conseguir apoios sustentando-se na promessa de um futuro melhor com as medidas que precisarão ser tomadas. Nas suas palavras, será preciso uma “narrativa sobre o futuro, não sobre o passado; uma narrativa da esperança”.

As demais partes do evento
Com a participação de quatro gestores de recursos, o segundo painel abordou especificamente o tema da internacionalização de investimentos por parte de investidores brasileiros.  Do que foi dito sobre o assunto, três aspectos me pareceram particularmente interessantes: (1)os tempos de uma Selic muitíssimo alta se foram, o interesse por ativos externos cresceu e uma maior globalização é inevitável; (2) passou também a fase de grandes aumentos das exportações e dos preços de commodities que valorizaram o real, e a perspectiva hoje é de uma desvalorização da moeda nacional, o que já vem estimulando investimentos fora do Brasil; (3) no mínimo, esses investimentos já se recomendam como diversificação de portfólio.

No terceiro painel, uma CFP® que atua numa seguradora entrevistou um especialista em seguros e outro em previdência privada, de modo a ressaltar a importância da adequação de seus produtos às necessidades dos clientes. 

Na quarta e última parte do programa houve a apresentação individual de Jay Mooreland, que se intitula um “economista comportamental”, dos EUA.  A presença dessa pessoa no evento, como único palestrante de fora do Brasil e fazendo a palestra de encerramento–que em geral aborda um tema tido como de grande importância pela plateia, de modo a assegurar a presença desta até o fim do evento–, confirma o que temos dito em vários artigos neste espaço: vem crescendo a importância do enfoque conhecido como economia comportamental ou finanças comportamentais no planejamento financeiro pessoal.  Em face desta importância,optei por dedicar um artigo específico à palestra de Jay Mooreland, o que farei numa próxima oportunidade.
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Roberto Macedo, CFP® (Certified Financial Planner), é economista formado pela USP com Mestrado e Doutorado na Universidade Harvard (EUA).  Foi Secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Fazenda e Planejamento, funcionário do Banco Central e do Banco do Brasil. E-mail: imprensa@bb.com.br. Este texto reflete a opinião do autor e não necessariamente a do BB; tem caráter apenas informativo, e não deve ser tomado como recomendação de subscrição, tomada de créditos, compra ou venda de ativos, decisões estas de exclusiva responsabilidade do investidor.

A (in)sustentabilidade da previdência social brasileira - 12.05.2014
Estudo internacional do grupo Allianz, concluído recentemente e que alcançou 50 países, colocou o Brasil em penúltimo lugar nessa sustentabilidade, avaliada no aspecto financeiro. Esse grupo atua em 70 países e se destaca na área de seguros.(*)

Voltado para os sistemas nacionais de aposentadorias e pensões, no caso brasileiro o estudo serve para advertir quanto à necessidade de as pessoas se prepararem para eventuais dificuldades decorrentes de mudanças futuras das regras do sistema.

No que se segue vou tratar da metodologia dessa pesquisa e das razões pelas quais o Brasil se sai mal na foto que ela mostra.  Como conclusão, ponderarei sobre o quê fazer financeiramente diante das condições apresentadas pelo sistema brasileiro.

A metodologia do estudo
Para chegar ao indicador da sustentabilidade financeira do sistema previdenciário de cada país, o estudo recorre a três sub-indicadores, levando em conta a situação atual e as perspectivas futuras de cada um deles. Examinarei os três de forma sintética.

O primeiro é a questão demográfica. Nela se examina o conjunto de aposentados e pensionistas relativamente ao dos que permanecem trabalhando, o qual provê a maioria dos recursos para a sustentação dos benefícios pagos pelo sistema. Com relação a isto, o estudo usa a “taxa de dependência dos idosos (TDI)”, dada pelo número de pessoas com 65 ou mais anos de idade tomado como proporção do de pessoas com 15 ou mais anos e menos de 65.  O primeiro grupo mede aproximadamente o conjunto dos inativos e o segundo o da população em idade de trabalho. 

O segundo sub-indicador envolve regras do sistema, nas quais se destacam o valor dos benefícios e a idade em que as pessoas passam a recebê-los. Quanto maior esse valor e menor essa idade, maior o impacto negativo sobre a sustentabilidade do sistema.

O terceiro é o das finanças públicas, na forma do peso ou participação com que os sistemas oneram essas finanças nos respectivos países. Levando em conta as contribuições que esses sistemas recebem de seus segurados e os gastos realizados, eventuais déficits, se não resolvidos, costumam ser cobertos pela arrecadação de impostos em geral, onerando assim as finanças públicas como um todo.

O Brasil na foto
Não encontrei referência explicita, mas tudo indica que ao analisar o nosso país o estudo se concentrou no exame do INSS, ainda que ocasionalmente se referindo a números que abrangem também os sistemas previdenciários típicos dos funcionários públicos federais, estaduais e municipais. Fala também da previdência privada no Brasil.

No aspecto demográfico, o estudo aponta o envelhecimento mais rápido da população brasileira, abordando especificamente o aumento da referida TDI.  Essa situação se combina com a de outro sub-indicador ao diminuir a sustentabilidade do sistema.  É o que o estudo chama de “opções para aposentadoria precoce”, e é quanto a ele que a pesquisa indica estar se referindo ao INSS, pois assinala que há a aposentadoria por idade, aos 65 anos para homens e 60 para as mulheres, mas homens e mulheres têm as opções de se aposentarem por tempo de contribuição, de 35 e 30 anos respectivamente, o que leva a uma concentração de aposentadorias numa idade perto dos 55 anos.

Ainda quanto às regras, o estudo aponta no Brasil o que chama de “taxa de reposição” elevada, taxa esta que mede a proporção dos rendimentos na fase ativa que é  coberta pelo valor do benefício.  Entendo que o estudo vê essa taxa elevada porque a maioria dos trabalhadores brasileiros tem rendimentos inferiores ao valor do teto de contribuição para o INSS.  Para quem ganha acima deste valor, a taxa de reposição é tanto menor quanto maior o valor do salário na outorga do benefício.

Quanto às finanças públicas, um dos sub-indicadores utilizados é a proporção que o valor total das aposentadorias e pensões representa do Produto Interno Bruto (PIB), o que é uma medida do custo do sistema  relativamente à capacidade que o país tem de gerar tributos e outros recursos para sustentá-lo.  O Brasil aparece com a parcela de 12%, e só é ultrapassado por cinco outros países entre os 50 analisados, ou seja, se destaca entre os que gastam proporcionalmente mais com seus sistemas previdenciários. Digo sistemas, por sei que esses 12% incluem também a previdência de funcionários públicos.

O que pode acontecer no Brasil
Aqui ou lá fora, estudos como esse apontam a necessidade de reformas corretivas, mas elas são universalmente impopulares e os governantes, particularmente os de países democráticos, têm grandes dificuldades de levá-las adiante.

Aqui no Brasil vários estudos sobre o INSS vêm recomendando, entre outros aspectos, a instituição de uma idade mínima igual ou acima de 60 anos para o recebimento dos benefícios de aposentadoria. E a alteração da atual regra de reajuste do salário-mínimo cujo valor há vários anos vem crescendo em termos reais, valor este que reajusta benefícios a ele ligados, prejudicando assim a sustentabilidade desse sistema. Diante das dificuldades políticas, talvez a situação tenha que se agravar ainda mais antes que medidas como essas sejam tomadas.

No caso dos funcionários públicos, algumas já foram tomadas: idades mínimas para aposentadoria e aos funcionários novos agora só se garante o mesmo teto do INSS, tanto para aposentadorias como para e pensões. E veio a previdência complementar pública, com contribuições adicionais de quem quiser ultrapassá-lo.

Como é sempre melhor prevenir-se quanto a problemas do que ser surpreendido por eles, em particular quando a solução já se revela inviável ou de todo impossível, como nas idades mais avançadas, a atitude recomendável é essa de caráter preventivo, até porque pode trazer outros benefícios para quem tomá-la.

Essencialmente, a que tenho em mente é a de se preparar para estender o tempo de serviço, na carreira atual ou noutra, e de ampliar a poupança para a fase de aposentadoria. De concreto mesmo já se sabe que as pessoas vão viver por mais tempo do que seus pais e outros antecessores. A continuidade do trabalho traz benefícios à saúde, e sabe-se também que essa longevidade maior é em parte assegurada, particularmente em suas etapas finais, por avanços da medicina e outros cuidados pessoais que costumam custar caro, mesmo para quem dispõe de um bom plano de saúde. 
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Roberto Macedo, CFP® (Certified Financial Planner), é economista formado pela USP com Mestrado e Doutorado na Universidade Harvard (EUA).  Foi Secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Fazenda e Planejamento, funcionário do Banco Central e do Banco do Brasil. E-mail: imprensa@bb.com.br. Este texto reflete a opinião do autor e não necessariamente a do BB; tem caráter apenas informativo, e não deve ser tomado como recomendação de subscrição, tomada de créditos, compra ou venda de ativos, decisões estas de exclusiva responsabilidade do investidor. 
(*) www.allianz.com/en/press/news/studies/news_2014-04-01.html.

Dificuldades financeiras de idosos com doenças mentais - 05.05.2014
O assunto deste artigo não é agradável, mas é melhor antecipar problemas desse tipo e encará-los antes que sua solução se torne ainda mais complicada. No caso, trata-se de uma questão que muitas famílias têm ou terão que enfrentar, a da presença, dentro delas, de um idoso com doença mental. Mas, sendo uma questão ou mesmo constrangedora, sua discussão fica muito limitada ao âmbito familiar. E, quando já presentes, aos médicos e outros profissionais de saúde que cuidam de idosos.

A abordagem do tema neste espaço foi inspirada por artigo que encontrei ao consultar, por outros motivos, o sítio eletrônico do Banco Central(BC) dos EUA.(*) O artigo trata do efeito sobre decisões financeiras de doenças como a de Alzheimer e outras típicas de idades avançadas, e  que levam ao declínio da capacidade de raciocinar ou mesmo a seu esgotamento. O fato de esse BC se preocupar com o assunto é indicativo de uma relevância que também alcança o sistema financeiro,  como esclarecerei mais à frente.

Vou abordar a natureza do problema, como seu encaminhamento se dá quando há informações sobre a má condição mental de idosos, e outras conclusões do estudo.

A natureza do problema
Os autores tratam o conhecimento e habilidade necessários à gestão dos recursos pessoais e familiares nas idades mais avançadas como uma forma de capital humano acumulado ao longo do tempo. Sua magnitude depende tanto da capacidade individual como dos benefícios que de uma melhor gestão dos recursos. Esse capital acumulado tende a se depreciar tanto por doenças físicas como mentais, e o artigo se dedica a estas últimas, destacando a conhecida como de Alzheimer.

Tais doenças causam progressiva e frequentemente irreversível perda da capacidade de raciocínio que pode ser total, do que decorrem custos e riscos financeiros pessoais e familiares. Há os custos dos cuidados de que a pessoa precisa, que além dos médicos incluem os de profissionais conhecidos no Brasil como “tomadores de conta”, podendo sobrevir também a necessidade ou a conveniência de internação em instituições especializadas nesses cuidados. A questão mais enfatizada pelo estudo é que cresce o risco de perdas se a gestão financeira familiar continuar conduzida pela pessoa doente.

A depreciação da capacidade decisória costuma começar com o esquecimento de pagar contas, com a sujeição a fraudes, e assinatura de contratos incompreensíveis para a pessoa, manifestações estas que tendem a se agravar.  Entendo também que pode sobrevir um endividamento insustentável gerando perdas também para o sistema financeiro, o que pode explicar o interesse do BC americano pelo assunto. Os autores se voltam para saber se as famílias mudam sua gestão de recursos diante dessas dificuldades.

O papel de familiares
A pesquisa confirma que esse papel é muito importante, em particular quando o doente tem cônjuge e este permanece sadio mentalmente, sendo natural que assuma a responsabilidade pela gestão financeira do casal. Mas, as dificuldades não param aí, pois esse estágio pode tardar, e só acontecer depois que os danos às finanças já ocorreram.

Adiciono a observação de que usualmente o cônjuge que permanece sadio é a esposa. Mas, infelizmente, na cultura brasileira ela comumente se mantém ou é mantida alheia à gestão financeira do casal, não estando familiarizada com seus procedimentos. Ou seja, há o risco de a gestão ser passada de quem é doente mental para outra que não saberá o que fazer, o que indica a importância de o casal compartilhar a gestão financeira familiar e que a educação financeira de ambos seja buscada e praticada.

E mais: de um modo geral essa educação deve encarar também temas como este para que as pessoas percebam quão graves são os riscos envolvidos e fiquem atentas para as manifestações do problema, inclusive o próprio doente ao perceber os primeiros sintomas da doença que o atingiu. A importância dessa percepção pelo próprio doente é apontada pelo artigo sob análise, que a chama de auto-percepção.

Acrescento que mesmo sem doenças mentais idosos no Brasil são vítimas de abusos financeiros inclusive por parte de familiares.  Um conhecido meu que trabalhou como assistente social numa cidade vizinha a São Paulo contou-me casos em que filhos ou outros parentes se apropriavam, em proveito próprio, dos cartões com que os idosos gerem suas contas bancárias para realizar saques. E houve até um caso em que um senhor idoso foi responsabilizado pelo pagamento de uma pensão alimentícia devida por um filho que se separou da mulher, um procedimento contemplado pela legislação sobre o assunto, mas ignorado por muitas pessoas.

O efeito da informação 
O estudo conclui também que as famílias que têm mais a ganhar com a preparação para a presença de um doente mental no seu âmbito respondem melhor a informações sobre o declínio da capacidade de raciocinar, como as que vêm de diagnósticos médicos das condições de memória de idosos. Usando termos correspondentes às condições brasileiras, o exemplo dado é o de doentes que além da aposentadoria do INSS têm poupanças financeiras, como um VGBL, PGBL e outros investimentos, quando comparados com outros que têm apenas o rendimento do INSS. Quanto a isso, o estudo revela que aqueles que têm mais recursos mostram uma probabilidade duas vezes maior de transferir ao cônjuge sadio a responsabilidade pela gestão financeira do casal.   Isto faz sentido. Quanto mais recursos uma pessoa tem, maiores serão as perdas associadas a riscos, e maiores os ganhos de uma gestão financeira adequada.

Em conclusão...
A seriedade e a inconveniência das doenças mentais ressaltam a importância de um planejamento para a eventualidade de que a pessoa que administra as finanças familiares já não esteja em condições de seguir fazendo isto ao ter seu raciocínio comprometido por uma dessas doenças.
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Roberto Macedo, CFP® (Certified Financial Planner), é economista formado pela USP com Mestrado e Doutorado na Universidade Harvard (EUA).  Foi Secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Fazenda e Planejamento, funcionário do Banco Central e do Banco do Brasil. E-mail: imprensa@bb.com.br. Este texto reflete a opinião do autor e não necessariamente a do BB; tem caráter apenas informativo, e não deve ser tomado como recomendação de subscrição, tomada de créditos, compra ou venda de ativos, decisões estas de exclusiva responsabilidade do investidor.   
(*) “Dementia Risk and Financial Decision Making by Older Households: The Impact of Information” (Tradução: Risco de Demência e a Tomada de Decisão Financeira por Famílias Idosas: O Impacto da Informação). Autores: Joanne W. Hsu e Robert Willis. Publicação das Divisões de Pesquisa e Estatística e de Assuntos Monetários do Federal Reserve Board (Banco Central dos EUA), integrante da Série de Discussão sobre Finanças e Economia. Setembro, 2013.
 

O primeiro mapeamento da educação financeira no Brasil - 28.04.2014
No último dia 15 foi apresentado em São Paulo,  na BM&FBovespa, um documento intitulado “1o Mapeamento Nacional das Iniciativas de Educação Financeira”(*). A educação desse tipo é tema recorrente dos meus artigos neste espaço, e o título do documento atrai interesse tanto pelo seu conteúdo como por se tratar de iniciativa pioneira. O próprio tema, a educação financeira, é algo relativamente novo no Brasil, pois sua abordagem só se manifestou com maior impulso a partir da década passada.

No que se segue, serão abordados os seguintes aspectos do referido documento: sua origem institucional, avaliações de alguns de seus números e observações finais.

A origem institucional do mapeamento realizado
Ele é a mais recente iniciativa de uma entidade governamental, a ENEF (Estratégia Nacional de Educação Financeira, que teve início em 2007, com a criação de um grupo de trabalho voltado para definir o formato dessa nova entidade. Desse grupo participaram representantes do Banco Central (BC), da Comissão de Valores Mobiliários (CVM), da Secretaria de Previdência Complementar (SPC) e da Superintendência de Seguros Privados (SUSEP). A ENEF veio em 2010, para “(...) promover a educação financeira e previdenciária, e contribuir para (...) a eficiência e solidez do sistema financeiro nacional e a tomada de decisões conscientes por parte dos consumidores.”

Também foi criado o Comitê Nacional de Educação Financeira (CONEF), no qual participam os citados órgãos governamentais (BC, CVM, SPC e SUSEP), e representantes da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (ANBIMA),  da BMF&Bovespa,  da Confederação Nacional de Seguros Privados (CNseg) e da Federação Brasileira de Bancos (Febraban). 

O que mostra o levantamento
Ele encontrou 803 iniciativas de educação financeira das quais 317 foram cadastradas.  Logo no início da apresentação é dito que esse cadastramento foi (...) voluntário, auto preenchido e não feita uma verificação in  loco”. Essa verificação aumentaria enormemente o custo do levantamento. O tamanho da amostra indica boa representatividade, e assim o levantamento se sustenta metodologicamente, particularmente se levada em conta a sua condição de um primeiro levantamento. Algumas das questões investigadas pela pesquisa admitem múltiplas respostas. E vale ressaltar que quem está respondendo são os responsáveis pelas iniciativas cadastras e não os seus beneficiários.

Passando a detalhes, selecionei os seguintes aspectos do levantamento:
1. Os segmentos que oferecem educação financeira são constituídos de empresas públicas ou privadas (47%), órgãos públicos (23%),  indivíduos (19%)   e organizações não-governamentais, associações e outros tipos de entidades (11%).  Creio que os indivíduos atuam como consultores e professores, entre outras atividades.

2. A maioria das iniciativas (60%) oferece seus serviços de forma gratuita, um bom aspecto revelado pelo levantamento, pois facilita o acesso dos interessados.

3. 50% das iniciativas têm atuação nacional, mas entre as regionalizadas 87% estão nas regiões Sudeste e Sul, as de maior nível de renda “per capita”. O Centro-Oeste responde por 16% dessas iniciativas, enquanto o Norte e o Nordeste têm apenas 3% em cada caso. O desequilíbrio, portanto, é muito grande entre as duas primeiras e as duas últimas regiões, e precisa ser levado em conta pela ENEF.

4.  29% das iniciativas atendem até 100 beneficiários, e 17% entre 101 a 500. Creio que são as voltadas para consultorias e cursos, entre outras. Na outra ponta, 20% atingem 10.000 ou mais pessoas, e aí devem estar as abertas ao público em geral, como via internet.

5. 60% das iniciativas são voltadas só para pessoas físicas, e apenas 1% só para jurídicas, enquanto 39% têm foco misto. Entendo que o foco deve ser nas pessoas físicas, pois se educadas financeiramente isto também se refletirá nas empresas em que atuam.

6. Quanto à idade dos beneficiários, a faixa entre 19 e 59 anos representa a maioria, notando-se carência de atendimento para as crianças até 11 anos, um pouco menor para os adolescentes, mas também alta para quem tem mais de 60. O atendimento dos dois primeiros grupos é importante para criar hábitos financeiros saudáveis, enquanto que os idosos costumam ser muito vulneráveis em suas decisões financeiras. Ou seja, nessas duas pontas evidencia-se a necessidade de atenção especial.

7. Quanto à formação educacional dos beneficiários, identifica-se também a maior carência de atenção às pessoas de menor nível educacional, pois predominam os grupos com ensino médio e superior, e há até uma forte participação de pós-graduados.

8. As iniciativas são majoritariamente voltadas para informação, orientação e formação sobre questões financeiras, com distribuição equilibrada entre esses três grupos.

9. Dentre os objetivos mais freqüentes, destaca-se o de educar para consumir e poupar de modo ético e consciente, o que é uma boa constatação, pois são aspectos essenciais da educação financeira.

10. Quanto às formas de contato com o público, destacam-se os recursos tecnológicos (computador e outros), ficando em segundo lugar a comunicação impressa, o que está em linha com o desenvolvimento recente dos meios de comunicação, e destaca a importância da internet na ampliação das iniciativas de educação financeira.
   
Observações finais
O levantamento é bem vindo, principalmente diante da novidade do tema e da carência de informações sobre seu status. O elevado número de iniciativas demonstra interesse pelo assunto. Mas, dadas as grandes e diversificadas dimensões da população e do território do país, a educação financeira ainda está nos seus primórdios.

Destaco a necessidade de formar educadores financeiros, pois o interesse pelo assunto atraiu muitas pessoas se apresentam como qualificadas para a tarefa, o que nem sempre corresponde à realidade. Entre as minhas percepções, noto ênfase muito grande em apontar este ou aquele investimento a fazer, sem a devida atenção para aprimorar o esforço de poupar. Sem este, pode até não haver o que investir. E há questões de detalhe, como a que percebi numa palestra de um desses novos educadores. Ele enfatizava o papel dos juros compostos no crescimento do patrimônio financeiro pessoal, mas chegava a resultados exagerados por não descontar a inflação das taxas de juros nominais.
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Roberto Macedo, CFP® (Certified Financial Planner), é economista formado pela USP com Mestrado e Doutorado na Universidade Harvard (EUA).  Foi Secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Fazenda e Planejamento, funcionário do Banco Central e do Banco do Brasil. E-mail: imprensa@bb.com.br. Este texto reflete a opinião do autor e não necessariamente a do BB; tem caráter apenas informativo, e não deve ser tomado como recomendação de subscrição, tomada de créditos, compra ou venda de ativos, decisões estas de exclusiva responsabilidade do investidor.   
(*) http://www.vidaedinheiro.gov.br/RelatorioEstatisticoENEF.pdf. 

O uso da declaração do IRPF nas finanças pessoais - 22.04.2014
Na próxima semana, no dia 30/4/2014, vence o prazo de entrega da declaração de ajuste do Imposto de Renda de Pessoas Físicas (IRPF) de 2014, relativa ao ano calendário de 2013.  Há os comprovantes a juntar, o tempo que toma para preparar a declaração, e para muitos a tarefa é enfadonha. E quando há mais imposto a pagar? Satisfação mesmo só ocorre quando o contribuinte vê que tem direito a uma restituição,  e começa a pensar no que fazer com ela. Se é que já não pensou antes, e até tomou dinheiro emprestado para antecipar o gasto correspondente.

Chamo a atenção para uma utilidade envolvida nesse trabalho e pouco ou nada conhecida. Para os que preenchem o formulário completo essa utilidade está em que, com alguns ajustes, ele também serve como um balanço anual das finanças pessoais. Como nas empresas, esse balanço deve envolver contas patrimoniais, como os valores de imóveis e os saldos disponíveis em dinheiro e contas bancárias.  Também como nas empresas, cabe a conta dos resultados, que no caso pessoal consiste em avaliar rendimentos e gastos e verificar qual parte daqueles foi poupada.

Ainda como nas empresas, pode-se avaliar o patrimônio líquido (PL).  Trata-se de saber quanto do patrimônio disponível está comprometido por endividamento. E, se descontado este do patrimônio – com o que se chega ao PL –, se o resultado é positivo e qual o seu valor.  Se o PL for negativo, significa que a pessoa deve mais do que tem, uma situação financeiramente desconfortável.

Este artigo abordará esses três aspectos: como a declaração do IRPF pode ser usada para avaliar o resultado do exercício, as contas de patrimônio, e o PL. No seu conjunto eles constituem um balanço anual das finanças pessoais.
   
O resultado do exercício
Como já dito, neste caso interessa se ao final do ano-calendário o declarante poupou parte dos seus rendimentos. Também é bom saber se no mesmo ano o valor desses rendimentos teve pelo menos um aumento que compensou a inflação ocorrida no mesmo período. E, ainda, para quem desenvolve uma carreira profissional, é importante que ao longo dela os rendimentos mostrem uma tendência de crescimento pelo menos até sua fase intermediária.

Todos os rendimentos são declarados ao IRPF, inclusive os não tributados, como a parcela não sujeita ao imposto, mais outros rendimentos isentos, como as retiradas de sócios cujas empresas pagam seu IR pelo regime de lucro presumido, e os rendimentos tributados apenas na fonte, como os de dividendos de sociedades anônimas.  Mas há um problema: do lado das despesas as declaradas constituem um conjunto limitado, como gastos com a saúde, educação e  aluguéis pagos.

Uma saída para ter um levantamento completo das despesas seria fazer uma contabilidade paralela que alcançasse todas elas. Mas, há uma alternativa mais fácil, a de analisar diretamente o que foi poupado, ou os investimentos correspondentes, que aparecerão na declaração. Eles na parte do formulário que lista os bens e direitos, mas será preciso observar apenas os acréscimos ocorridos no ano calendário para a comparação com os rendimentos do mesmo período. 

O balanço das contas de patrimônio
Neste aspecto, o formulário tem essa relação de bens e direitos.  Aí surge outro problema, pois um imóvel, por exemplo, entra pelo seu valor de aquisição. Não se permite que esse valor seja corrigido monetariamente na declaração, e tampouco que o seja avaliado pelo seu valor de mercado no final do ano calendário. Mas, é bom lembrar que o contribuinte pode legalmente acrescentar ao valor de aquisição os acréscimos decorrentes de benfeitorias introduzidas, como as oriundas de reforma do imóvel ou mesmo do prédio em que se encontra, neste último caso pelo valor que coube a cada condômino. Sei que muitas pessoas não registram essas benfeitorias, mas caso o imóvel seja vendido elas não estarão incorporadas ao seu valor de aquisição, o que levará a um maior lucro imobiliário e mais IR a pagar. 

Em face dessas dificuldades trazidas pelo custo histórico de itens do patrimônio, uma saída é aproveitar a lista desses itens que está na declaração de bens e direitos e fazer outra à parte tomando-se as estimativas do valor de mercado de itens cujos valores variam ao longo do tempo, como imóveis, automóveis e ações. 

Agora, o PL
Avaliado o patrimônio, para chegar ao PL é preciso levar em conta o que a declaração lista no item dívidas e ônus reais.  Nessa lista, há também algumas dificuldades, ainda que menores do que no caso do patrimônio. Uma que já enfrentei, diz respeito a como avaliar a dívida remanescente de um imóvel financiado.  Minha conclusão é que se deve começar pelo valor do imóvel adquirido, sem incorporar os juros do financiamento.

Estes devem ser considerados como despesas. Em seguida, é preciso saber quanto das prestações pagas representa as amortizações realizadas e considerar o total das ainda por pagar como o valor da dívida ainda existente. Trata-se de avaliação coerente. Primeiro, porque o imóvel entra na declaração pelo seu valor de aquisição, e o da dívida cairá pelo valor das amortizações. Segundo, porque se os juros fossem acrescentados, esta seria maior que o valor de aquisição. Terceiro, porque os juros correspondem a um custo do financiamento e não propriamente do imóvel.

Em síntese...
A declaração do IRPF tem sem dúvida essa utilidade de permitir um balanço anual das finanças pessoais.  Há as dificuldades citadas, e por sua causa não será fácil chegar a uma avaliação 100% precisa. A pessoa precisará completar as informações da declaração com outras, e usar o bom senso na avaliação do quanto ganhou, do quanto poupou ou investiu, do valor de seu patrimônio e do montante de suas dívidas para chegar a uma visão o mais realista possível de suas finanças.

Não vejo forma mais adequada de fazer isto do que usando informações que em grande parte estão disponíveis e organizadas nas várias partes que constituem a  declaração do IRPF. Assim, é melhor utilizar o que está nessa declaração, com os complementos necessários, do que fazer outro levantamento, que seria idêntico ao do IRPF no conteúdo e nos problemas de avaliação que envolveria.

E para quem usa o formulário simplificado? No formulário simplificado também se revela a oportunidade para também dar à declaração do IRPF a utilidade de que trata este artigo. Só que o trabalho para completá-la será maior. Mas, acredito que vale a pena, levando-se em conta a importante utilidade do esforço, que é a de fornecer um checape anual da saúde financeira do contribuinte.
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Roberto Macedo, CFP® (Certified Financial Planner), é economista formado pela USP com Mestrado e Doutorado na Universidade Harvard (EUA).  Foi Secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Fazenda e Planejamento, funcionário do Banco Central e do Banco do Brasil. E-mail: imprensa@bb.com.br. Este texto reflete a opinião do autor e não necessariamente a do BB; tem caráter apenas informativo, e não deve ser tomado como recomendação de subscrição, tomada de créditos, compra ou venda de ativos, decisões estas de exclusiva responsabilidade do investidor.

Não se aposente! A pregação nos Estados Unidos - 14.04.2014
Há tempos prego este conselho. Também o pratico há mais de 25 anos, quando me aposentei precocemente como professor. Estou feliz com os resultados. Fiquei ainda mais convencido ao constatar essa mesma pregação também num artigo recente publicado em jornal de grande circulação nos Estados Unidos da América (EUA). Já no título o artigo diz que não se aposentar é para muitos o melhor conselho quanto à aposentadoria. (*) Vou examinar os vários argumentos desenvolvidos pelo artigo, examinando se fazem sentido também no Brasil. Agregarei à análise outras observações próprias, inclusive a conclusão final.

Uma síntese do artigo
Começa afirmando que todos sabem que aposentar é difícil, especialmente o planejamento dessa fase, o qual pouca gente faz no Brasil. Aliás, talvez por não fazer esse planejamento, muita gente aqui acha fácil,  sempre pensando na aposentadoria. Mas, o que vem depois dela? Uma solução para não se preocupar com os problemas dessa fase – e eles existem como veremos em seguida –, é não se aposentar, como o mesmo artigo propõe.

Minha visão da aposentadoria é que o ser humano tem raízes no reino animal onde o trabalho, em particular o de buscar alimentos, se impõe como necessidade de sobrevivência.  Ou seja, o animal integrado à natureza morre se parar de trabalhar. Hoje predominantemente fora dela, isto não acontece com o ser humano, mas o hábito de trabalhar tem essas raízes profundas e as pessoas podem ter problemas ao abandoná-lo. Em particular, o trabalho integra as pessoas no meio social, no qual fazem amizades e outros relacionamentos. Como deixá-lo? 

Olhando o que nele se passa, muitas pessoas trabalham por uns 30 anos ou mais, e na aposentadoria buscam só atividades de lazer, às vezes nem isto. Assim, há quem enfrente dificuldades na transição entre o trabalho e a aposentadoria, pois são atividades muito diferentes em termos do esforço e do comprometimento que elas envolvem. 

Em face dessas dificuldades o artigo, ao entrevistar várias pessoas que continuaram ou voltaram a trabalhar, aponta que a continuidade do trabalho contribui para a saúde física e mental.  O jornal que publicou o artigo é muito popular, e algumas das entrevistas são de figuras conhecidas do público em geral. Como um comediante famoso, com 92 anos e ainda atuante, e outras pessoas que atraem interesse dos leitores, como um corretor de imóveis de 99 anos que ainda trabalha um dia por semana.

Mas, na mesma linha que defende a continuidade do trabalho, e nenhum entrevistado se manifestou contra –  talvez em razão do viés do autor do artigo por essa opção –  também há o depoimento de um médico, já na sua terceira carreira. Primeiro praticou a medicina e depois seguiu duas carreiras administrativas na área, na segunda das quais permanece até hoje. Ele assim sintetizou sua opção: "O objetivo da aposentadoria é parar de fazer o que você tem que fazer para começar a fazer o que você quer fazer. Eu estou fazendo isto. E levo uma vida boa.” 

E tem mais
Há o depoimento também de alcance mais geral de uma pessoa que integra a equipe econômica do Instituto de Políticas Publicas da Associação Nacional de Pessoas Aposentadas, uma grande e influente entidade dos EUA. Essa entrevistada diz que o número de pessoas que trabalha nas idades mais avançadas está crescendo, confirma que isto lhes faz bem física e mentalmente, e adiciona que esse trabalho também lhes faz bem do ponto de vista financeiro. E conclui que para quem pode e deseja prolongar seu tempo de trabalho isto pode ser uma experiência positiva. Acrescento que tudo depende muito das condições de saúde nas idades mais avançadas, mas entendo que quem estiver em boas condições deve trabalhar, mesmo em atividades voluntárias.  Para citar um caso emblemático no Brasil, há o do empresário Antonio Ermírio de Moraes, que se destacou como industrial, e mesmo quando ainda ativo na sua empresa  tinha uma ocupação voluntária num grande hospital beneficente de São Paulo, na qual continuou até quando pôde.

Nas razões financeiras, o artigo faz referência a outro texto, no qual se diz que pessoas cobertas por planos fechados de previdência privada nos EUA vêm enfrentando escassez de recursos, pois muitos aposentados se endividam bastante, e comprometem seus rendimentos com o dinheiro que vaza para pagar as dívidas. Num artigo anterior de minha autoria, colocado neste site em 31/3/14, também foi assinalado que muitos beneficiários desses planos sacam seus recursos ao mudarem de emprego ao longo de suas carreiras, mudança esta que é muito comum naquele país, um fenômeno também chamado de alta rotatividade da mão de obra.

Em conclusão e sobre a situação no Brasil
O artigo analisado aponta que razões de saúde física, psicológica e financeira recomendam a continuidade do trabalho efetivo ou voluntário, e essas vantagens serão maiores se a pessoa estiver desenvolvendo um trabalho de que gosta.

Quanto ao Brasil, em 28/1/13 foi postado neste espaço um artigo meu com o título “Aposentadoria? Tô fora”.  Entre outras considerações ele se referiu a uma pesquisa realizada por empresa de recrutamento de mão-de-obra, abrangendo 476 profissionais à procura de emprego, entre os quais 82% de aposentados.   Admitidas respostas múltiplas, 53% declararam buscar uma nova ocupação porque gostam de trabalhar, enquanto que 49% se sentiriam mais ativos, e 47% afirmaram buscar trabalho por necessidade de renda extra.

Como era de se esperar, pois os seres humanos enfrentam problemas que são comuns a muitos países, essas respostas mostram motivações que coincidem com as observadas nos EUA pelo artigo analisado. Ou seja, as pessoas continuam a trabalhar porque gostam, para se sentirem mais ativas – o que é bom para sua saúde –, e por razões financeiras. Estas últimas são agravadas no Brasil onde tanto os rendimentos dos ativos como os dos aposentados pelo INSS são bem mais baixos que nos EUA.

Em retrospecto, embora eu costume enfatizar que o planejamento financeiro pessoal deve ser essencialmente voltado para a fase de aposentadoria, resolvi repensar essa idéia após ler o artigo citado.  Assim, o mais adequado é a pessoa buscar o planejamento para alcançar sua independência financeira, e não necessariamente para se aposentar. Mas, continuarei enfatizando particularmente a necessidade de assegurar essa independência nas idades mais avançadas, trabalhando ou não. Essa ênfase se justifica porque nessa fase da vida o erro ao planejar anteriormente já será então irremediável.
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Roberto Macedo, CFP® (Certified Financial Planner), é economista formado pela USP com Mestrado e Doutorado na Universidade Harvard (EUA).  Foi Secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Fazenda e Planejamento, funcionário do Banco Central e do Banco do Brasil. E-mail: imprensa@bb.com.br. Este texto reflete a opinião do autor e não necessariamente a do BB; tem caráter apenas informativo, e não deve ser tomado como recomendação de subscrição, tomada de créditos, compra ou venda de ativos, decisões estas de responsabilidade exclusiva dos investidores.
(*) Artigo de Rodney Brooks, do jornal USA Today, em http://www.cnbc.com/id/101524058.



A atratividade da poupança diante dos aumentos da Selic - 07.04.2014
A captação líquida da poupança no primeiro trimestre deste ano caiu relativamente à do mesmo período de 2013. Isto significaria uma perda de atratividade da poupança diante de aplicações com remuneração mais ligada à taxa básica de juros, ou Selic, que chegou a 11% ao ano na semana passada? Para responder a esta questão a poupança será comparada com a de um tipo de fundo com remuneração mais ligada à Selic. Esta também costuma ser referida como DI, a taxa dos CDI (Certificados de Depósito Interbancário), que guarda correspondência muito próxima com a Selic.

Examinarei o assunto começando pelos aumentos da Selic que integram um ciclo de altas iniciado pelo Conselho de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC) em 18/4/13. Em seguida serão apresentados números da captação líquida da poupança nesse ciclo de alta e no anterior,  de baixa. Números da captação líquida de fundos do tipo “Referenciado DI” também serão mostrados.

O atual ciclo de aumentos da Selic...
Iniciado na referida data, quando a Selic passou de 7,25% para 7,50 ao ano, ele sucedeu um ciclo de reduções que a trouxe de 12,5% ao ano, em 21/7/2011, para 7,25% ao ano em 11/10/12, neste último valor permanecendo até o início do presente ciclo de aumentos. Essa taxa de 7,25% ao ano foi a menor da Selic na história da política monetária do BC. Com este valor a Selic se aproximou muito da “antiga” e atual remuneração da poupança (6,17% ao ano mais TR, ou taxa referencial), ampliando assim a atratividade das cadernetas, pois os fundos “Referenciados DI” são onerados com o Imposto de Renda (IR) na fonte e taxas de administração, enquanto a poupança não tem nem uma coisa nem outra no caso das pessoas físicas.

Por exemplo, se um fundo desse tipo rendesse essa taxa de 7,25% e seu IR fosse de 20%, o valor líquido dessa taxa cairia para 5,8% ao ano, sem contar a taxa de administração.  Do lado da poupança, o ganho da TR também atuaria em seu favor, mas quando a Selic chegou a 7,25% seu valor caiu para zero.

Estudos mostraram que a atratividade da poupança se mantém até valores da Selic próximos de 8,5% ao ano, supondo uma taxa de administração de 1% ao ano e a alíquota do IR em 20%. Por essa razão, para evitar um grande movimento na direção da poupança caso a Selic caminhasse para valores menores, o governo instituiu a regra de que para os depósitos realizados depois de 4/5/2012 a remuneração mensal da poupança passaria ser de 70% da taxa Selic (+TR) se esta fosse igual a ou inferior a 8,5% ao ano.

O que mostram os dados
Usando esse parâmetro de uma Selic a 8,5% ao ano, verifica-se que ela ficou abaixo dele entre 12/7/2012 a 11/7/13, ou seja, por 12 meses.  Não se pode marcar esse período para avaliar se a maior atratividade da poupança se revelaria exatamente nele, pois há investidores que não reagem imediatamente, seja a uma queda ou a um aumento da Selic,  e também porque a reação desses investidores pode nem mesmo ocorrer. Ela pode também se verificar sob a influência de diferentes avaliações que eles fazem da atratividade de uma aplicação relativamente a outra.

De qualquer forma, tanto a citada reação do governo, limitando em maio de 2012 a atratividade da poupança nas quedas da Selic, como os números da poupança indicam que sua captação líquida aumentou sensivelmente em 2012 relativamente a 2011. Assim, essa captação foi de R$14,2 bilhões em 2011 e passou a R$49,7 bilhões em 2012, um aumento de 250%(!).

Esse ritmo de aumento, contudo, se arrefeceu na comparação de 2013 com relação a 2012, pois foi bem menor (+ 43%).  Isto pode ser explicado tanto porque a Selic voltou a aumentar a partir de julho de 2013 como porque do lado dos investidores talvez já não existissem tantos recursos para serem levados à poupança a partir de aplicações alternativas.

Contudo, com os sucessivos aumentos da Selic a queda da atratividade da poupança acabou por se revelar de modo mais claro no primeiro trimestre de 2014. Assim, em todos os três meses desse trimestre a captação líquida da poupança se revelou menor que nos mesmos meses de 2013, valendo lembrar que tanto em 2012 como em 2013 em apenas um mês em cada um desses anos a captação líquida foi inferior à do ano anterior.  E nesse primeiro trimestre de 2014 houve queda de 49%.

Números dos fundos do tipo “Referenciado DI”
Conforme as definições adotadas pela Anbima (Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais), fonte desses números, esse é o tipo de fundo mais sensível às variações da taxa Selic/DI. 

Tabelas e gráficos dessa fonte permitem concluir que o patrimônio líquido(PL) total dos fundos Referenciados DI alcançou R$300,2 bilhões em fevereiro de 2014. Mas, desde o segundo trimestre de 2011 até o primeiro semestre de 2012 o valor desse PL esteve estagnado em torno de R$250 bilhões em termos nominais, mas caindo em termos reais por conta da inflação . Em seguida, se expandiu para o valor citado, e teve aumento mais sensível em fevereiro de 2013. Portanto, esse período de estagnação e de queda real do PL desses fundos a grosso modo coincidiu com o citado ciclo de queda da Selic, e o período de recuperação com o ciclo de aumentos da mesma taxa. Do lado da poupança, como assinalado, as indicações são de que as aplicações líquidas sobem com a queda da Selic e perdem o ritmo ou mesmo caem quando ela sobe de modo sensível.

Em conclusão...
Tome-se o investidor pessoa física em condições de se informar quanto às variações da Selic e sobre a atratividade da poupança relativamente a aplicações alternativas com rendimentos direta ou indiretamente ligadas a essa taxa, avaliados no seu valor líquido do IR e de taxas de administração quando cabíveis. E, ainda, com recursos disponíveis que justifiquem mudanças de investimentos, ponderadas também as conveniências da poupança na sua facilidade de movimentação, liquidez imediata e risco praticamente nulo. Esse é o investidor que tipicamente deve refletir sobre o novo quadro em que a Selic chegou a 11% ao ano.

Quando na semana passada ocorreu o último aumento da taxa, os analistas se dividiram entre os que apostam em mais um aumento, de 0,25% ponto percentual, e os que entendem que o ciclo de aumentos poderá ser interrompido na próxima reunião.
Mas, no horizonte que se pode contemplar, digamos, até meados do próximo ano, não vi nenhum analista a dizer que a Selic vai cair do seu valor atual, conveniente ao investidor, em particular aos de maiores recursos. Esta é a essência do que esse investidor deve ponderar, e não só comparando os rendimentos da poupança com o dos fundos Referenciados DI, mas também com os de outras aplicações alternativas.
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Roberto Macedo, CFP® (Certified Financial Planner), é economista formado pela USP com Mestrado e Doutorado na Universidade Harvard (EUA).  Foi Secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Fazenda e Planejamento, funcionário do Banco Central e do Banco do Brasil. E-mail: imprensa@bb.com.br. Este texto reflete a opinião do autor e não necessariamente a do BB; tem caráter apenas informativo, e não deve ser tomado como recomendação de subscrição, tomada de créditos, compra ou venda de ativos, decisões estas de responsabilidade exclusiva dos investidores.

Poupança para aposentadoria: decisões pessoais versus produtos para poupar – 31.03.2014
Após refletir por vários anos sobre o que é planejamento financeiro pessoal concluí que seu objetivo mais importante é chegar à fase de aposentadoria em condições de vida dignas de um ser humano: uma residência confortável e rendimentos suficientes para ter e manter um bom padrão de vida em termos de alimentação, vestuário, transporte, lazer e cuidados com a saúde assegurados por um plano de saúde adequado.

Conheço pessoas que hoje lamentam não terem se preparado melhor para essa fase. Outras nem refletem sobre o assunto, conformando-se com o pouco que têm, até porque não têm como superar suas dificuldades.

Portanto, pessoas hoje ainda jovens ou de meia idade devem refletir bastante sobre as condições de vida enfrentadas por diferentes grupos de idosos conforme seu status econômico, para que ainda a tempo possam se engajar num planejamento financeiro que evite as situações constrangedoras que muitos idosos enfrentam.

Nesse planejamento tenho realçado ensinamentos que vêm do enfoque conhecido por finanças comportamentais, que analisa como o ser humano toma decisões, se de modo racional ou influenciado por instintos herdados de seu passado no reino animal. Ou, já fora dele, por crenças e hábitos que o levam a tomar decisões sem refletir sobre suas conseqüências, em particular as de um futuro mais distante.

Este artigo focará numa decisão importante nesse planejamento, a de aderir ou não a planos de previdência privada fechados, oferecidos pelas próprias empresas a seus empregados. Mesmo quando ocorre a adesão, ela pode ser revertida quando a pessoa muda de um emprego para outro, e tem que decidir quanto aos recursos do plano anterior e quanto à inscrição ao plano da empresa em que passou a trabalhar, se oferecido.  Essa abordagem foi estimulada por um artigo em inglês sobre o que se passa nos EUA quanto ao assunto.(*) No Brasil desconheço a existência de relato semelhante.

Primeiro, a clara vantagem de planos desse tipo

Nos EUA os planos de poupança para aposentadoria ofertados por empresas a seus empregados são mais comuns que no Brasil. Lá como cá esses planos oferecem um benefício custeado pela empresa na forma de uma porcentagem sobre os rendimentos mensais de seus trabalhadores, a qual é levada a contas individuais dos mesmos  e cujos recursos são investidos pelo plano para assegurar o benefício na fase de aposentadoria ou quando deixar a empresa. Mas, para ter o benefício, o trabalhador precisa aderir ao plano e contribuir com uma porcentagem igual ou maior à paga pela empresa.

Na linguagem financeira, um plano como esse pode ser visto como um “produto de poupança”. Ou como um produto de investimento. É um produto ou serviço oferecido que o interessado pode “comprá-lo” ou não. Ou seja, aderindo ou não.

Exemplificarei com um plano desse tipo do qual participei no Brasil. A empresa contribuía com 5% do meu salário e eu poderia contribuir com a mesma porcentagem ou mais até o limite de 10%, pelo qual optei.  Não fiquei muito tempo nessa empresa, e quando saí passei a receber um benefício vitalício que hoje cobre a conta do condomínio do prédio onde resido. Acho que foi um ótimo investimento. Mas, seria sempre uma decisão óbvia e permanente? Não, como veremos em seguida.

O caso dos EUA
Lá se percebeu que quando os trabalhadores  eram obrigados a manifestar por escrito sua adesão a um desses planos, muitas vezes deixavam de fazê-la ou procrastinavam a decisão por muito tempo, na linha de um comportamento nada racional, pois, como já ressaltado, a decisão lhes era conveniente.  Em face desta percepção, foi realizada uma experiência em que a inscrição no plano seria automática se não houvesse uma manifestação explícita em contrário.   Com esta simples alteração, a adesão aumentou bastante e a legislação foi modificada para permitir a inscrição automática. Hoje, conforme o artigo citado, essa nova forma de adesão é considerada a mudança mais importante entre as vivenciadas por esses planos.

Mas, outros problemas foram percebidos e mencionarei alguns deles. O primeiro ocorre porque nos EUA é alta a rotatividade da mão de obra. Assim, são muitas as oportunidades para resgatar o plano ao longo da carreira profissional. Creio que lá é possível receber o benefício numa única soma em dinheiro ou em pagamentos mensais, e o artigo dá a entender que muitos optam pelo primeiro caso, quando o melhor seria acumular os benefícios de sucessivos planos. E, ao sacar o dinheiro, não há uma noção clara da tributação que incide sobre eles, que também contra-indica o saque prematuro, pois prejudica rendimentos futuros.

Quanto a esses “vazamentos” por resgates antecipados, o artigo apresenta uma estimativa de que se seu valor total fosse reduzido à metade, um adicional de US$ 1 trilhão(!) seria adicionado na próxima década à poupança para aposentadoria.

Percebeu-se também que quando se procura ensinar questões como estas às pessoas que buscam um resgate antecipado elas podem se sentirem deprimidas diante da ameaça de prejuízos que vem com esses ensinamentos. E reclamam que seus interlocutores não levam em conta outros aspectos de suas condições financeiras como a idade, a história familiar, a disponibilidade do INSS local e o efetivo valor sobre o qual incidiria o imposto de renda na fase da aposentadoria. Em razão disto, segundo um entrevistado, é preciso uma abordagem positiva, partindo de uma estimativa de quanto a pessoa vai precisar nessa fase, o valor já alcançado e como seria alterado pelo resgate.

Mas, também foi percebido que se a mensagem é personalizada como algo que um jovem de 20 anos deve ambicionar,  ou mesmo chegando perto de atemorizar no caso de uma pessoa com 50 anos, ela pode ter um impacto positivo.

Em conclusão...
Os planos fechados de previdência privada são um produto claramente atrativo, mas isto não basta para convencer as pessoas a aderir a eles, e também para manter a adesão quando há mudança de emprego.  Noutras palavras, a atratividade do produto é um elemento importante, mas o comportamento que as pessoas adotam ao administrá-lo é fundamental, pois pode prejudicar o objetivo do plano, a aposentadoria financeiramente adequada, à qual me referi inicialmente.

A educação financeira pode ajudar no processo de conscientizar as pessoas quanto à necessidade de buscar persistentemente esse objetivo, mas a forma de prover essa educação depende, entre outros aspectos, de um amplo conhecimento das condições financeiras da pessoa e de sua família, da idade em que ela se encontra e das reações emocionais envolvidas. Não sem razão, o título do artigo a que me referi, e que só agora revelo é, traduzindo, “A psicologia da poupança para a aposentadoria”.
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Roberto Macedo, CFP® (Certified Financial Planner), é economista formado pela USP com Mestrado e Doutorado na Universidade Harvard (EUA).  Foi Secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Fazenda e Planejamento, funcionário do Banco Central e do Banco do Brasil. E-mail: imprensa@bb.com.br. Este texto reflete a opinião do autor e não necessariamente a do BB; tem caráter apenas informativo, e não deve ser tomado como recomendação de subscrição, tomada de créditos, compra ou venda de ativos, decisões estas de responsabilidade exclusiva dos investidores.
(*)www.cnbc.com/id/101480388.  


Selic e renda fixa – o que vem pela frente? - 24.03.2014
Nos últimos dias houve uma mudança dos cenários da inflação e da taxa básica de juros, ou Selic. Quanto ao da inflação ela voltou a dar sinais de agravamento, principalmente neste mês de março e por conta da prolongada estiagem neste início de ano, a qual vem prejudicando a oferta de alimentos e elevando seus preços.

No caso da Selic, que tem um amplo conjunto de aplicações em renda fixa direta ou indiretamente a ela ligadas, na reunião concluída no dia 26 do mês passado, o Conselho de Política Monetária (Copom), do Banco Central (BC), aumentou-a novamente, desta vez de 10,5% para 10,75%. Na ocasião, e a opinião predominante do mercado financeiro era a de que o atual ciclo de aumentos da Selic teria mais uma elevação de mesma magnitude na reunião a ser concluída no dia 12 de abril próximo.

Na semana passada, contudo, o presidente do BC, Alexandre  Tombini, declarou que está de olho na inflação vinda dos alimentos, o que abriu a perspectiva de mais uma elevação de idêntica magnitude (0,25 ponto percentual) na reunião seguinte que se findará no dia 28 de maio.

No que se segue esse agravamento da inflação serão analisadas essa declaração em maiores detalhes, as opções de política monetária do BC diante dele e as implicações para investidores.

O agravamento da inflação
Ele é evidenciado pela tabela a seguir onde são apresentadas as variações mensais do IPCA do IBGE e do IGP-M da Fundação Getúlio Vargas desde julho do ano passado até fevereiro de 2014. E, em março deste ano, as prévias desses dois índices, apresentadas por variantes dos mesmos, o IPCA-15 e o IGP-M-20 avaliados em datas próximas dos dias 15 e 20 de cada mês, respectivamente.

Inflação Mensal  - IPCA(*) e IGPM (**) –  Jul/13 a Mar/2014 - Em %
Ano/mês
IPCA
IGPM
2013 - Julho
0,03
0,26
2013 - Agosto
0,24
0,15
2013 - Setembro
0,35
1,50
2013 - Outubro
0,57
0,86
2013 - Novembro
0,54
0,29
2013 - Dezembro
0,92
0,60
2014 - Janeiro
0,55
0,48
2014 - Fevereiro
0,69
0,38
2014 - Março
0,73
1,41
Fontes: IBGE (IPCA) e Fundação Getulio Vargas (IGP-DI e IGP-M-20).
(*) IPCA-15, em março de 2014. (**) IGPM-20, idem.

Como se percebe, desde dezembro do ano passado o IPCA, que é  o índice-meta da política monetária do BC,  passou a mostrar taxas bem distantes das necessárias para alcançar uma inflação confortável, que são do valor médio de 0,367% ao mês no caso do centro da meta (4,5% ao ano) e de 0,526% ao mês  no que diz respeito ao teto dessa meta (6,5% ao ano). Destaque-se o forte valor da taxa prévia de março, refletindo claramente o efeito da estiagem e revelando o pior resultado para o mesmo mês desde 2003, segundo o noticiário sobre o assunto.

O IGP-M não é meta da política monetária do BC. Mas, no mesmo mês ele mostrou também um resultado ainda mais elevado, porque nele as variações de preços aos produtores de bens agropecuários e industriais respondem por 60% do índice. E o que preocupa neste caso é que essa alta no atacado também deve pressionar os preços no varejo onde o IPCA é medido, pois este é um índice de preços ao consumidor. Como inclui vários outros itens do orçamento doméstico (habitação, educação, transporte, vestuário e outros), essa pressão não ocorre na mesma magnitude da que se revela no caso do IGP-M, mas ainda assim é significante, como evidenciado pelo resultado de março. Em números, a participação dos alimentos no IPCA é próxima de 23%.

O que disse o presidente do BC
Ao falar na Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) do Senado Federal na terça-feira da semana passada, Alexandre Tombini assinalou que o choque dos preços dos alimentos deve ser temporário, mas acrescentou que cabe à política monetária limitar seus efeitos de curto prazo. Afirmou que nesse contexto não se pode esperar que um aumento da Selic tenha impacto sobre os preços dos alimentos, mas ele pode impedir que essa alta se espalhe para o restante da economia.  Na sequência dessa declaração os contratos de juros futuros de Depósitos Interfinanceiro (DI) tiveram sua taxa aumentada no horizonte mais imediato e a opinião que passou a dominar foi a já referida, ou seja, de mais um aumento de 0,25 ponto percentual da Selic em maio, depois do de mesmo valor esperado em abril, o que a elevaria para 11,25% ao ano.

As opções da política monetária em andamento
É comum que bancos centrais se deparem com circunstâncias difíceis como esta ora enfrentada pelo BC brasileiro. Atualmente ele vem seguindo um ciclo de aumentos da Selic na expectativa de que eles moderem o ritmo da inflação. Mas, também falando na mesma reunião da CAE do Senado Federal, o presidente do BC reconheceu que a inflação vem mostrando resistência acima da esperada. Conforme foi visto, essa resistência transparece na tabela de taxas mostrada acima.

Outro aspecto que complica a ação do BC na frente da inflação é o calendário político, onde se destaca a eleição presidencial deste ano. A experiência demonstra que não se pode esperar uma forte atuação do BC nos meses antes e mais próximos da eleição, e ele esperava que o atual ciclo de aumentos da Selic se encerrasse antes disso, em face da esperada ocorrência de seus efeitos.  Com esse impacto da estiagem na produção de alimentos, será preciso que seus impactos se dissipem nos próximos dois meses, sem o que o BC ficará numa situação ainda mais desconfortável.

Implicações para investidores
Desde que a inflação se comporte de tal modo que não absorva os ganhos reais de novos aumentos da Selic, os rendimentos de aplicações direta ou indiretamente ligados a essa taxa serão beneficiados. Ou pelo menos uma Selic maior evitará que as perdas decorrentes da inflação em alta sejam mais fortes.  De qualquer forma, o investidor não deve contar com uma Selic sempre alta, pois isto não convém ao país.
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Roberto Macedo, CFP® (Certified Financial Planner), é economista formado pela USP com Mestrado e Doutorado na Universidade Harvard (EUA).  Foi Secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Fazenda e Planejamento, funcionário do Banco Central e do Banco do Brasil. E-mail: imprensa@bb.com.br. Este texto reflete a opinião do autor e não necessariamente a do BB; tem caráter apenas informativo, e não deve ser tomado como recomendação de subscrição, tomada de créditos, compra ou venda de ativos, decisões estas de responsabilidade exclusiva dos investidores.


Poupar ou trabalhar mais para ter um mesmo valor? - 17.03.2014
Hoje o tema é uma curiosidade interessante que costumo usar nas minhas pregações do planejamento financeiro pessoal. De novo, o objetivo é realçar a importância de poupar, o verbo mais difícil de conjugar na gestão financeira pessoal.  E, nesse tema, apontar também o peso dos impostos, que costumamos pagar sem perceber seu custo. No caso, o Imposto de Renda de Pessoas Físicas (IRPF) sobre rendimentos do trabalho.

Suponha o leitor que uma pessoa precise de R$1.000,00 a mais para uma despesa, que pode ser um gasto qualquer ou o pagamento de uma dívida não integrante do orçamento usual. A realização desse gasto resolveria o problema em caráter definitivo.

Ai surge o dilema de nosso interesse: que ação seria financeiramente mais conveniente ao enfrentá-lo? Trabalhar mais fazendo horas-extras na atual ou noutra ocupação? Ou poupar esse dinheiro do que já ganha, para atender ao gasto adicional?  No primeiro caso, se a pessoa já estiver pagando o IRPF à alíquota de 27,5%, precisará  de um ganho adicional de R$1.380,00 para chegar ao valor líquido de R$1.000,00. Fazendo as contas: 27,5% de R$1.380,00 resultam em R$379,50 que, arredondados, levam a R$380,00, deixando um valor líquido de R$1.000,00.  Assim, se essa pessoa poupasse este valor, não precisaria trabalhar, nem pagar os R$380,00 de IRPF.

Avançando a discussão do dilema
Ao discutir o assunto surgem dúvidas por parte de meus interlocutores. Alguns ponderam que mesmo tendo um rendimento que coloca a pessoa nessa alíquota da tabela do IRPF a alíquota média que a pessoa paga é menor. Mas, já estando nessa alíquota o que a pessoa vai pagar de IRPF por um rendimento adicional – ou, como dizem os economistas, “na margem” –,  será tributado por essa alíquota maior.

Há quem também pondere que sua alíquota “na margem” é menor que 27,5%. Neste caso, digo que recorro à alíquota maior para ressaltar o tamanho do dilema, como costumam fazer professores como eu.  Em termos de imposto, o dilema só não aparece se a pessoa estiver na faixa em que há isenção do IRPF e se o rendimento adicional não levá-la ao limite em que essa isenção desaparece. Evidentemente, se a “alíquota marginal” da pessoa for menor que 27,5% o ônus tributário será menor.  Vale insistir: o que se pretende é chamar atenção sobre o efeito da tributação e enfatizar novamente a importância de poupar, mesmo que seja para atender a outro gasto.  

Em princípio, portanto, seria melhor poupar, para não ter o ônus do IRPF nem o esforço do trabalho. Não que eu veja o trabalho como abjeto. Pelo contrário, entendo-o como intrínseco à condição humana e assim indispensável. Talvez fosse melhor colocar esta questão em termos do uso do tempo, um recurso sabidamente escasso. Ele poderia ser dedicado a outros afazeres, inclusive o lazer, ou mesmo para trabalhar e pagar mais impostos, mas noutra situação em a discussão não fosse a desse dilema, onde a questão é obter uma importância adicional para uma necessidade específica, e que se esgota com o seu atendimento.

Como tudo em economia e finanças, discussões como essa só são simples nas aparências, e percebo mais dúvidas, como a do IRPF que a pessoa já pagou sobre o dinheiro que já ganhou e do qual teria que “espremer” os R$1.000,00 de que precisa se optasse pela poupança. De fato o IRPF já foi pago, mas quanto a ele não há o que fazer.  Dada a necessidade adicional,  esse dinheiro só poderá vir de uma poupança de mesmo valor ou de renda adicional. Assunto encerrado?  Não.

Outras contas por fazer

Antes de cortar despesas, será importante refletir sobre o que vai ser cortado. Se o orçamento pessoal já estiver “no osso”, todo comprometido com despesas inadiáveis,  às quais é atribuída atribui importância fundamental, e inclui também um valor já poupado que não se quer sacrificar com a nova despesa, também não há o que fazer. Será preciso trabalhar mais e entregar ao IRPF a parte que lhe toca.

Contudo, se há o que pode ser cortado, seria o caso de tirar daí os R$1.000,00 necessários. De novo, não é tão simples assim. A pessoa terá que comparar a satisfação que lhe dá o que seria cortado,  com a satisfação que do que será pago com os R$1.000,00 adicionais. E ponderar também o esforço de trabalho adicional necessário para chegar aos R$1.380,00, ao examinar este caminho. Por exemplo, se não quiser mesmo fazer cortes,  gostar de trabalhar, e ainda tiver tempo disponível para tanto, caminhará na direção do trabalho.

Complicado?  Pode ser, mas às vezes tomamos decisões desse tipo, como a de fazer horas-extras e ganhar mais, sem pensar muito sobre o assunto.  Quando pensamos com esse raciocínio de economistas, as opções são muitas.

Algo que não se pensa muito é sobre o IRPF, talvez porque já estejamos acostumados a olhar apenas o valor líquido do salário mensalmente recebido.  É bom, contudo, refletir sobre o efeito desse imposto, pois poderá mudar a decisão de trabalhar mais.

O que fica de lições
Como cada pessoa tem suas preferências, não há uma opção inequivocamente correta para o dilema, cuja discussão, contudo, enseja três lições importantes. A primeira é a de que o IRPF e a faixa em que estamos são importantes para analisar a opção. A segunda ressalta novamente a importância da poupança em si mesma.  Muitas vezes nos matamos de trabalhar para gerar mais renda, embora uma disciplina maior ao gastar pudesse evitar ou reduzir isso. A terceira é que por isto mesmo devemos estar sempre revendo as despesas, buscando formas de reduzi-las, o que muitas vezes pode ocorrer mesmo sem sacrifício da satisfação que vem com elas. Por exemplo, buscando sempre preços mais baixos, descontos de liquidações e por volumes maiores – que também poupam o tempo dedicado a compras –, a opção pelo usado no lugar do novo, e por aí afora, o que também traz a satisfação de fazer bons negócios.

Em síntese, todas essas lições lembram outra: usar bem o tempo e não jogar dinheiro fora, seja qual for o ralo. E mais uma: é preciso refletir bem sobre as decisões financeiras, seguindo o conselho dos psicólogos, que recomendam não tomá-las rapidamente por instinto ou por hábitos arraigados.     
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Roberto Macedo, CFP® (Certified Financial Planner), é economista formado pela USP com Mestrado e Doutorado na Universidade Harvard (EUA).  Foi Secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Fazenda e Planejamento, funcionário do Banco Central e do Banco do Brasil. E-mail: imprensa@bb.com.br. Este texto reflete a opinião do autor e não necessariamente a do BB; tem caráter apenas informativo, e não deve ser tomado como recomendação de subscrição, tomada de créditos, compra ou venda de ativos, decisões estas de exclusiva responsabilidade do investidor.  


Finanças sociais: o que é isto? - 10.03.2014
Tomei conhecimento do termo finanças sociais na semana passada, por meio da internet, que muito utilizo para pesquisas. Aliás, é impressionante a imensa quantidade de conhecimentos que oferece a um custo muito baixo. Mas, para maior acesso a ela é preciso saber inglês, a língua “internetmente” mais utilizada. E não só para ler, pois nos sites de busca é preciso se expressar nessa língua e de diferentes formas para ter bons resultados. De novo recomendo o investimento nesse aprendizado. Foi um dos que mais me proporcionou ganhos intelectuais e profissionais.

O termo apareceu nessa língua, com o nome de social finance. Em português, finança é mais usado no plural. E o artigo em que achei o termo, de Jennifer Cooper,  falava de carreiras profissionais nessa área.(*) Vou me referir a elas no final, e antes  abordarei o significado do termo e experiências de finanças sociais, inclusive no Brasil.

Finanças sociais: o que é isto?
Trata-se do uso de finanças para alcançar objetivos sociais. Segundo a citada autora, por muito tempo apenas governos e instituições sem fins lucrativos focavam nessa atividade. Hoje, nos EUA, seu país, as finanças sociais “se tornaram uma especialização na área de finanças e também empresas focam nela com objetivo de lucro”.  

Como exemplo dessa combinação de lucro e objetivo social, tome-se o caso de um banco que abriu uma agência, posto de serviço ou apenas de caixas eletrônicos numa comunidade pobre.  Ele pode tirar lucro disso, mas está também gerando um impacto social ao ampliar o acesso por parte dessa comunidade ao sistema financeiro, o que permite aprimorar a gestão financeira das atividades econômicas dentro dela e no seu relacionamento com outras. Quando a ampliação do crédito também ocorre, o impacto econômico e social pode ser maior.  E há instituições financeiras que usam iniciativas desse tipo para aprimorar a imagem com que são vistas pela sociedade em geral.

Experiências no Brasil e a influência de Muhammad Yunus
Como observador da economia brasileira, creio que vem crescendo a importância das finanças sociais no país, começando pelas instituições financeiras oficiais, como também ocorreu no caso dos EUA. Por exemplo, o  Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), ganhou esse S bem depois de ser criado.

Há também o Banco Postal, hoje uma parceria dos Correios com o BB. Suas atividades estão descritas no site www.correios.com.br/bancopostal, no qual é dito que “Tem como objetivo levar serviços de correspondente à população desprovida de atendimento bancário e proporcionar acesso ao Sistema Financeiro”.  Na linguagem das finanças esse acesso é também conhecido como “financeirização” dos segmentos populacionais que alcança.  Sei que no Estado de São Paulo, onde vivo,  também existe, como autarquia estadual, o Banco do Povo Paulista, e eles também estão em outros estados e em alguns municípios.

Conhecidos genericamente como bancos do povo, instituições como essas tiveram forte inspiração de Muhammad Yunus, um cidadão de Bangladesh, país muito pobre.  Nele, em 1983, Yunus criou Banco Grameen para prover empréstimos às comunidades rurais mais pobres. Tais empréstimos mostraram que ser possível despertar a iniciativa pessoal e empresarial para que pessoas em condições de pobreza a deixem para sempre. A ideia é simples: “emprestar dinheiro para os pobres seguindo regras de conveniência deles, ensinar-lhes umas poucas noções básicas de finanças, e com isto eles ajudarão a si mesmos.” A idéia começou em 1976 quando ele emprestou do seu próprio bolso uma pequena importância a 42 pessoas de um vilarejo.

Em 2006, Yunus ganhou o prêmio Nobel da Paz pelo seu trabalho. Segundo dados, presumivelmente de 2010, até então o Grameen já havia emprestado US$ 6 bilhões a sete milhões de pobres nas áreas rurais de Bangladesh. Mais de 250 instituições em cerca de 100 países operavam programas de microcrédito baseados na metodologia do Banco Grameen. Estas informações sobre Yunus foram obtidas no site www.bankertothepoor.com, que entre outros aspectos apresenta seu livro de mesmo nome do site, “Banqueiro para os Pobres” em português.

Iniciativas em finanças sociais, contudo, não se resumem a bancos do povo. Sei de outras no Brasil, como as cooperativas de crédito, ainda que estas sejam mais voltadas para pessoas de maior poder aquisitivo, pois seus fundos vêm dos próprios cooperados.  Em comunidades pobres, há também organizações que chegam ao ponto de criar seu próprio dinheiro para que seus associados se ajudem uns aos outros mediante aquisição de bens e serviços dentro da própria comunidade onde esse dinheiro circula. Eventualmente voltarei ao assunto com mais informações.

Carreiras profissionais em finanças sociais
Como muitas outras, esta é uma área onde atuam profissionais de diferentes especializações, tendo como foco principal o financeiro.  O próprio Yunus é um exemplo disto. Era professor de Economia antes de se envolver no microcrédito.

Voltando ao artigo de Jennifer Cooper, ela fala de investidores comunitários, micro-financistas, executivos de instituições sem fins lucrativos, inclusive fundações, e empreendedores sociais. E, também, de atrativos dessas carreiras: a criatividade envolvida na solução dos problemas de cada cliente, o trabalho “mão-na-massa”, e ver dinheiro usado para promover mudanças sociais. Conclui com dicas para pessoas que pensam numa carreira  voltada para as finanças sociais.

Minha conclusão é que seja para trabalhar na área, se beneficiar dela ou conhecê-la, é interessante saber que esse tipo de finanças existe.
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Roberto Macedo, CFP® (Certified Financial Planner), é economista formado pela USP com Mestrado e Doutorado na Universidade Harvard (EUA).  Foi Secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Fazenda e Planejamento, funcionário do Banco Central e do Banco do Brasil. E-mail: imprensa@bb.com.br. Este texto reflete a opinião do autor e não necessariamente a do BB; tem caráter apenas informativo, e não deve ser tomado como recomendação de subscrição, tomada de créditos, compra ou venda de ativos, decisões estas de exclusiva responsabilidade do investidor.  
(*)www.investopedia.com/articles/financialcareers/07/social_finance.asp?utm_source=term-of-the-day&utm_medium=Email&utm_campaign=TOD-2/26/2014.


Brasileiros estão aprendendo a poupar - 05.03.2014


É comum dizer que o brasileiro é imprevidente, não se preocupa com o futuro,  poupa pouco, e assim por diante.  Isso contrasta com notícias de que os depósitos na caderneta de poupança vêm crescendo muito, os fundos de previdência estão captando mais, os planos de capitalização vão de vento em poupa e o setor de seguros, que também é de poupança, vem se ampliando. Contrasta também com o crescimento do financiamento habitacional, que combina a poupança financeira com a aquisição de um imóvel que, se novo, se soma como investimento ao estoque de capital do país.

Mas, é preciso poupar mais, pois a proporção da renda gerada pelo PIB brasileiro que vai para a poupança ainda é muito baixa relativamente à necessária para depender menos dos recursos de investidores externos. E para permitir mais investimentos de tal forma que as taxas anuais de crescimento do PIB fossem bem maiores que as atuais. Aliás, na semana passada o IBGE divulgou a taxa de 2013, que foi de apenas 2,3%,  quando o ideal seria uma que alcançasse valor próximo de 5% ao ano.

Vamos examinar números ligados ao assunto, os fatores que determinam a poupança financeira, os muitos instrumentos para poupar e ressaltar que é preciso disseminar entre os cidadãos brasileiros a cultura da poupança, pois junto com seu investimento ela é o caminho para a prosperidade pessoal, familiar e nacional.

Poupança ainda é fraca

Em 2013, a taxa de poupança foi de apenas 13,9% no Brasil enquanto que a de investimentos ficou em 18,4%, ambas relativamente ao PIB, também conforme anunciadas pelo IBGE na semana passada.   São taxas muito baixas se comparadas com aquelas que a experiência histórica internacional demonstra serem capazes de fortalecer uma economia para que alcance taxas de crescimento satisfatórias e mediante maior uso de recursos próprios.

Por exemplo, a China, que se destaca pela sua alta taxa de crescimento do PIB, hoje perto de 8% ao ano, chegou a apresentar taxas de investimento próximas de 40% do PIB na década passada, quando este crescia acima de 10% ao ano.  O Brasil não tem condições de alcançar taxas como essa.  Em geral, economistas brasileiros argumentam que deveria buscar uma taxa de investimento próxima de 25% do PIB, que já significaria um crescimento considerável. A taxa de poupança é menos discutida, mas no meu entendimento também deveria ficar próxima de 25% do PIB.

Os referidos dados do IBGE não separam a taxa de poupança por grupos de poupadores, como as famílias, o governo, as empresas e outras instituições. Mas, sabe-se que o governo tem “poupança negativa”, pois suas contas são deficitárias e aumentam sua dívida. Ou seja, não basta que os brasileiros passem a poupar mais. É preciso que sua poupança seja usada para investimentos que façam crescer a capacidade produtiva do país. Por exemplo, quando as pessoas colocam dinheiro na caderneta de poupança a maior parte dele vai para financiar aquisição de imóveis e, como já dito, se forem novos, ocorre um investimento adicional. Mas, o dinheiro colocado em fundos de investimentos lastreados em papéis da dívida pública federal está em parte financiando o déficit do governo que por sua vez investe muito pouco relativamente ao que arrecada e consome.

Do que depende a poupança?

Obviamente, depende da renda, pois é desta que se retira a parte poupada. Em geral, quanto maior a renda, maior a poupança. Mas, esta tende a só se manifestar a partir de um nível de renda que cubra as necessidades básicas de uma pessoa ou família. Uma dificuldade no Brasil é que muitas não têm esse nível de renda. Há até quem defina como pobre a pessoa que não poupa nada, já que não tem como fazê-lo.

Outro fator é a cultura da poupança. No sentido aqui adotado, a cultura é algo impregnado na cabeça das pessoas, e que as levam a determinados padrões de comportamento.  O povo japonês tem uma enaltecida cultura da poupança que em parte vem do fato de que seu país tem uma base territorial pequena para uma população relativamente grande.  No passado, quando sua sobrevivência era muito dependente do desempenho do setor agrícola e pesqueiro do próprio país, os japoneses conviveram por séculos com a escassez de espaço e de alimentos, além de guerras e terremotos, o que teria influenciado seu comportamento preventivamente poupador.  Já os europeus, que por séculos passaram por guerras, invasões e conflitos de todo o tipo, são também conhecidos por bons hábitos de poupança, como na Alemanha.

Outro aspecto é a disponibilidade de instrumentos financeiros para poupar, bem como a facilidade de seu uso. Aqui no Brasil, não se pode queixar quanto a isto, pois há uma profusão deles, como caderneta de poupança, fundos de investimentos financeiros, inclusive cambiais, CDBs, planos de previdência, Letras de Crédito Imobiliário (LCIs), Letras de Crédito do Agronegócio (LCAs), a Bolsa  e outros.

Como adquirir a cultura da poupança?

Aí entra a educação, inclusive no âmbito familiar. É possível estimular a poupança mostrando as suas vantagens, tanto individual como coletivamente. Em particular, ao tornar as pessoas menos pobres ou mais ricas, e pelo que traz de bem estar.  Assim, há quem defenda que o brasileiro seja mais educado para a poupança, para que cresça, e tenhamos um país melhor. Na segunda metade da década passada, o Brasil passou por um período em que o consumo foi muito incentivado, em particular via crédito. Hoje, entretanto, o governo dá indicações de que a poupança e o investimento devem ser estimulados, como no caso do programa Minha Casa, Minha Vida. Outro sinal é o seu empenho em difundir a educação financeira, inclusive no sistema de ensino.

Como nos casos europeu e japonês, algumas peculiaridades do país têm incentivado a poupança. Assim, o brasileiro busca mais seguros para sua crescente frota de veículos ao saber as dificuldades de pessoas que passaram por sinistros sem uma apólice. Também busca o seguro-saúde, depois de conhecer ou experimentar por si mesmo os precários serviços públicos dessa área.  Adquire planos de previdência privada, procurando ampliar a que virá  da pública. Vale lembrar que os diversos tipos de seguro e a previdência privada constituem mecanismos de poupança, pois as seguradoras e as instituições que mantêm esses planos acumulam reservas para fazer face aos seus compromissos com os beneficiários desses planos.

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Roberto Macedo, CFP® (Certified Financial Planner), é economista formado pela USP com Mestrado e Doutorado na Universidade Harvard (EUA).  Foi Secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Fazenda e Planejamento, funcionário do Banco Central e do Banco do Brasil. E-mail: imprensa@bb.com.br. Este texto reflete a opinião do autor e não necessariamente a do BB; tem caráter apenas informativo, e não deve ser tomado como recomendação de subscrição, tomada de créditos, compra ou venda de ativos, decisões estas de exclusiva responsabilidade do investidor.    
(*) Munnell, Alicia H. e Steven A. Saas. “The government’s redesigned reverse mortgage program.” Boston College, Centro de Pesquisa sobre Aposentadoria. Artigo para discussão nº 14-1, Janeiro de 2014.

Hipoteca invertida: interessante, mas ainda não há no Brasil - 24.02.2014
Num artigo sobre esse tipo de hipoteca nos EUA aprendi mais sobre o assunto, do qual já conhecia alguns aspectos.(*) Lá a hipoteca invertida pode ser acessada por pessoa com mais de 62 anos que disponha de um imóvel residencial quitado. Ela poderá hipotecá-lo numa instituição financeira, ou seja, continua sendo uma hipoteca, mas esta se diz invertida porque além de não pagar prestações mensais a pessoa poderá recebê-las dessa instituição, ampliando assim sua renda.  E pode optar também por uma soma em dinheiro ou uma linha de crédito, como numa hipoteca usual.

Vou abordar aspectos da hipoteca invertida, começando pela sua natureza,  ligada aos mecanismos de sustentação da renda que idosos dispõem naquele país. Apontarei também aspectos peculiares dos imóveis nos EUA, como o alto custo do IPTU local. Em seguida abordarei problemas que as hipotecas invertidas apresentaram na esteira da crise do mercado imobiliário, que eclodiu nos EUA em 2007, bem como  soluções concebidas pelo governo daquele país. Concluirei com observações sobre a eventual adoção desse tipo de hipoteca no Brasil.

Fontes de renda e despesas importantes dos idosos nos EUA
Como no Brasil eles podem recorrer à aposentadoria ou pensão do INSS local, o Social Security System, mas também como aqui o benefício mensal recebido muitas vezes é inferior ao valor do último rendimento na ativa. Também como no Brasil há planos de previdência privada fechados e abertos. E novamente como aqui os planos de benefícios definidos vêm sendo substituídos por outros de contribuição definida, com o que os benefícios podem oscilar de valor quando, por exemplo, são sustentados por investimentos no mercado de ações. Muitos idosos, contudo, não contribuíram para esses planos e por esta e outras razões não acumularam recursos suficientes para atender às suas necessidades nessa fase da vida.  Assim, buscam-se outras fontes de recursos, e a hipoteca invertida é uma delas. 

Além de disponibilizar dinheiro mensalmente, outra vantagem é que sua quitação só ocorre se o devedor decidir vender o imóvel ou vier a falecer.  O governo oferece um seguro tanto para quem hipoteca seu imóvel – caso deixe de receber os pagamentos devidos pelo financiador –, como para este se na quitação o valor em aberto do empréstimo se revelar maior que o do imóvel.
 Do lado das despesas há fatores também agravantes da situação dos idosos. Lá o custo do IPTU local é bem mais alto relativamente ao valor do imóvel do que no Brasil. Muitos serviços públicos que no Brasil são oferecidos pelos estados e pela União lá cabem exclusivamente aos municípios, como escolas públicas até o nível médio e  segurança pública.  Há também um Judiciário municipal. Ademais, a participação dos idosos na população vem aumentando pela maior longevidade deles, o que muitas vezes leva a um alto e crescente custo das despesas médicas nessa fase da vida.

A crise que eclodiu em 2007 e os ajustes no programa de hipotecas invertidas
O apoio que recebem do governo nasceu em 1989, mas demorou a ganhar interesse. Creio que em parte pelo desconhecimento dele, pois as hipotecas invertidas não faziam parte da cultura financeira dos americanos. Mas, na década passada o programa se expandiu muito com o crescimento dos valores dos imóveis antes da crise, pois as pessoas viram neles a oportunidade de levantar mais dinheiro.

A crise que sobreveio em 2007  levou a uma forte queda do preço dos imóveis. Mesmo com ela, entretanto, o interesse pelas hipotecas invertidas cresceu em razão  das próprias dificuldades da crise, como o aumento do desemprego e a queda do valor dos benefícios de planos de aposentadoria, o que levou à busca do programa para contornar dificuldades desse tipo. 

Mas, a crise acabou por trazer perdas tanto a devedores como credores. No primeiro caso, entre outras razões por se tornarem inadimplentes dada a dificuldade de pagar o IPTU e o seguro residencial que também integra suas obrigações.  No segundo caso, os credores passaram a ter custos adicionais para recuperar seu dinheiro e/ou lidar com penhoras, diminuindo a rentabilidade do seu negócio.

Com isto, o governo reformou o programa. Entre outros aspectos colocou um limite de valor menor para os financiamentos e passou a exigir comprovação de margem de renda disponível  para o IPTU e o seguro do imóvel, além de ficha limpa nos cadastros de crédito. Os financiamentos voltaram a crescer, tanto por essas razões como porque os preços dos imóveis nos EUA estão em fase de recuperação.

Hipoteca invertida também no Brasil?
Ao responder vou considerar apenas o caso em que a pessoa passa a receber pagamentos mensais da instituição financeira que fez o financiamento.  Parece-me o tipo mais interessante, pois o recebimento de uma única soma em dinheiro ou de uma linha de crédito traria o risco de um imediato e mau uso desses recursos, e ignoro se há restrições quanto a isto nos EUA.

A ideia merece atenção no Brasil, pois vários dos problemas que os idosos enfrentam nos EUA também se repetem aqui. Uma exceção seria o valor relativamente mais baixo do IPTU no Brasil. Ademais, sei que municípios como São Paulo também oferecem descontos para aposentados carentes de recursos.

Mas, também aqui há uma questão cultural a superar. Além de não haver familiaridade com hipotecas invertidas, haveria que enfrentar a reação de herdeiros. A expectativa dos familiares dos idosos e a de herdar o patrimônio deles após sua morte, patrimônio este que,  quando existe, muitas vezes se resume à casa própria.

Em algumas das muitas reuniões de condomínios de que já participei em São Paulo, e numa diversidade de condições provocadas por várias mudanças de residência, às vezes surgiam casos de apartamentos pertencentes a idosos e com seus pagamentos atrasados, dado que eles tinham rendimentos insuficientes ou muito restritos para cobrir suas despesas usuais. Não que fossem pobres no sentido patrimonial, pois às vezes eram apartamentos grandes. Assim, havia a opção de se mudarem para apartamentos menores, tanto para pagar a dívida com o prédio onde viviam como para reduzir o valor de suas taxas de condomínio. Mas, percebia-se a oposição tanto do proprietário, que queria deixar o imóvel como herança, como dos futuros herdeiros diante da expectativa de recebê-la no futuro.

Como não há a hipoteca revertida, ela nunca foi discutida como alternativa. Talvez se os idosos e seus futuros herdeiros soubessem dela sua atitude seria outra. Caberia, assim, uma pesquisa de opinião sobre o assunto, ou um projeto piloto em que fosse oferecida inicialmente em caráter limitado para testar a adesão a ela.

De minha parte, gostaria de ter essa alternativa para a eventualidade de que o recurso a ela se tornasse necessário.
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Roberto Macedo, CFP® (Certified Financial Planner), é economista formado pela USP com Mestrado e Doutorado na Universidade Harvard (EUA).  Foi Secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Fazenda e Planejamento, funcionário do Banco Central e do Banco do Brasil. E-mail: imprensa@bb.com.br. Este texto reflete a opinião do autor e não necessariamente a do BB; tem caráter apenas informativo, e não deve ser tomado como recomendação de subscrição, tomada de créditos, compra ou venda de ativos, decisões estas de exclusiva responsabilidade do investidor.    
(*) Munnell, Alicia H. e Steven A. Saas. “The government’s redesigned reverse mortgage program.” Boston College, Centro de Pesquisa sobre Aposentadoria. Artigo para discussão nº 14-1, Janeiro de 2014.

É bom saber o que é um bem de família - 17.02.2014
Explicarei inicialmente o que é um bem de família referindo-me à legislação pertinente que, já adiantando, na sua essência diz que é um imóvel próprio e usado regularmente pela família.  Depois abordarei outro bem de família, o nome pessoal, cuja preservação é tão ou mais indispensável que a desse imóvel.  Concluirei ressaltando a importância de evitar a inadimplência que comprometem ambos e o privilégio que a lei confere à poupança acumulada na forma de uma casa própria.

O que é bem de família?
A definição está na Lei Nº 8.009, de 29/3/90. Não serão abordados todos os seus detalhes. Aliás, espero que o leitor nunca tenha que consultá-la, nem contratar um advogado para defendê-lo numa ação de penhora de seus bens. Mas, se quiser examiná-la, poderá ser encontrada no sítio eletrônico do Palácio do Planalto que é excelente para consultar a legislação federal: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Leis/L8009.htm.

O nome bem de família só aparece no preâmbulo dessa lei que “Dispõe sobre a impenhorabilidade do bem de família.”  Seu Artigo 1º, define-o: “(...) O imóvel residencial próprio do casal, ou da entidade familiar, é impenhorável e não responderá por qualquer tipo de dívida civil, comercial, fiscal, previdenciária ou de outra natureza, contraída pelos cônjuges ou pelos pais ou filhos que sejam seus proprietários e nele residam, salvo nas hipóteses previstas nesta lei.”  Ou seja, o bem de família é esse imóvel.

O parágrafo único do mesmo artigo adiciona que: “A impenhorabilidade compreende o imóvel sobre o qual se assentam a construção, as plantações, as benfeitorias de qualquer natureza e todos os equipamentos, inclusive os de uso profissional, ou móveis que guarnecem a casa, desde que quitados.”

E o Artigo 5º esclarece:  “ Para os efeitos de impenhorabilidade (...), considera-se residência um único imóvel utilizado pelo casal ou pela entidade familiar para moradia permanente.” E no seu parágrafo único dispõe que: “Na hipótese de o casal, ou entidade familiar, ser possuidor de vários imóveis utilizados como residência, a impenhorabilidade recairá sobre o de menor valor, salvo se outro tiver sido registrado, para esse fim, no Registro de Imóveis e na forma do art. 70 do Código Civil.”

Passando a importantes casos que essa lei não cobre, seu Artigo 2º exclui da “(...) impenhorabilidade os veículos de transporte, obras de arte e adornos suntuosos.” Noutra restrição, há o Artigo 4º:  “Não se beneficiará do disposto nesta lei aquele que, sabendo-se insolvente, adquire de má-fé imóvel mais valioso para transferir a residência familiar, desfazendo-se ou não da moradia antiga.” E o Artigo 3º acrescenta outras exceções importantes.

Começa dizendo que a “ (...) impenhorabilidade é oponível em qualquer processo de execução civil, fiscal, previdenciária, trabalhista ou de outra natureza (...)”, mas seguem-se várias exceções: dívidas com trabalhadores da própria residência e as respectivas contribuições previdenciárias;  dívida decorrente do financiamento destinado à construção ou à aquisição do imóvel, no limite dos créditos e acréscimos constituídos em função do respectivo contrato; dívidas de pensão alimentícia; dívidas de impostos, predial ou territorial, taxas e contribuições devidas em função do imóvel familiar; execução de hipoteca sobre imóvel oferecido como garantia real pelo casal ou pela entidade familiar; por ter sido adquirido com produto de crime ou para execução de sentença penal condenatória a ressarcimento, indenização ou perdimento de bens; obrigação decorrente de fiança concedida em contrato de locação.

Percebe-se que essa lei tem o objetivo social de proteger a família preservando de penhora um único imóvel de sua propriedade, mas estabelece restrições justificáveis pelo bom senso, e porque os credores das dívidas citadas têm direitos que se sobrepõem aos do detentor de um alegado bem de família. Apesar de seus aspectos positivos, a lei tem sido criticada, entre outros aspectos, por não definir um limite de valor para a proteção que confere, e que é a mesma, por exemplo, para uma residência de pequeno valor ou outra que valha R$1 milhão ou mais.

Outro bem de família: o nome pessoal
Mesmo sem chegar a casos de penhora, inclusive porque muitas famílias brasileiras não dispõem sequer de um bem conforme definido pela lei citada, é indispensável preservar outro bem de valor inestimável,  o nome pessoal,  evitando protestos, inscrições em cadastros negativos e outras formas de “sujar a ficha” no sentido financeiro.  Situações como essas depõem contra as pessoas no âmbito social em que vivem Sei de casos de despejos e de veículos e aparelhos eletrodomésticos que são buscados no local onde residem, sob o olhar curioso de vizinhos. O nome sujo também impede o acesso a futuras operações de crédito, as quais são importantes na administração das finanças pessoais, tanto para consumo e principalmente para constituição de patrimônio.    

Portanto, é indispensável evitar a inadimplência
Quando seguida da penhora de bens, é o maior desastre das finanças pessoais.  Mas, é preciso barrá-la antes do seu primeiro estágio, a inadimplência.   Há dívidas que muita gente rola e enrola, como as de contas de serviços públicos, prestações diversas e saldos devedores das chamadas contas especiais. Nos serviços públicos, a encrenca limita-se à suspensão dos mesmos, e pode ocorrer também a inscrição do nome do devedor nos cadastros negativos, como o da Serasa e dos serviços de proteção ao crédito.
Nos casos mais graves, o impasse chega aos cartórios de protesto e aos fóruns. Na sequência, os bens ficam sujeitos à penhora para pagamento das dívidas. A má notícia vem usualmente com a incômoda visita de um Oficial de Justiça. Aí, a última trincheira do devedor será seu bem de família, se não enquadrado nos vários casos de exceção à impenhorabilidade já citados. Mas, mesmo se enquadrado não há nem cabe uma lei capaz de preservar o nome pessoal como um bem de família. Cabe à pessoa cuidar de seu nome.

E mais...
Essa discussão do bem de família serve também para reiterar uma das nossas recomendações usuais para um bom planejamento financeiro, ou seja, a de que casa própria deve ser objetivo prioritário da poupança.    A proteção como bem de família confere a ela status privilegiado, pois a protege de riscos que vêm de dívidas próprias ou assumidas, ao contrário de outros investimentos que a pessoa tenha acumulado.
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Roberto Macedo, CFP® (Certified Financial Planner), é economista formado pela USP com Mestrado e Doutorado na Universidade Harvard (EUA).  Foi Secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Fazenda e Planejamento, funcionário do Banco Central e do Banco do Brasil. E-mail: imprensa@bb.com.br. Este texto reflete a opinião do autor e não necessariamente a do BB; tem caráter apenas informativo, e não deve ser tomado como recomendação de subscrição, tomada de créditos, compra ou venda de ativos, decisões estas de exclusiva responsabilidade do investidor.

A natureza da volatilidade recente afetando os países emergentes - 10.02.2014
Ela se distingue por um viés negativo ou de saída que alcança alguns desses países, pois passaram a ser vistos como sujeitos a maiores riscos de perdas. Esse viés atua contra ativos de maior risco, como o real e outras moedas e ações de empresas locais. Além de desvalorização de moedas e ações, há também o aumento dos juros pagos por operações de crédito a seus governos, empresas e instituições financeiras.

As causas externas
A principal foi que o banco central dos Estados Unidos, conhecido como Fed, passou a reduzir o valor dos estímulos que concede à economia desse país, na forma de aquisições mensais de títulos da dívida do seu governo federal, que hoje alcançam US$70 bilhões por mês. Fazendo isto o Fed coloca mais dinheiro na economia, aumentando a sua liquidez e pressionando os juros para baixo, assim estimulando atividades produtivas e investimentos em ativos de maior risco, como aqueles em países emergentes. Na penúltima frase grifei reduzir, pois tal estímulo não vem sendo eliminado, mas reduzido de valor.

Mesmo assim, houve a reação desses mercados. Eles avaliam que os países emergentes serão afetados pela progressiva redução dos citados estímulos do Fed, pois estes levarão a maiores juros nos EUA, provocando um retorno de recursos aplicados em ativos desses emergentes.  Outra razão é que a China está reduzindo suas outrora altíssimas taxas de crescimento do PIB, o que prejudica países emergentes que se especializaram em abastecer esse país com commodities. Mas, novamente vejo um exagero, e voltei a grifar o verbo reduzir.  Embora em queda, o crescimento do  PIB Chinês  continuará alto, mais de 5% ao ano, com seu enorme mercado crescendo numa magnitude considerável.

Na sua reação, os mercados financeiros miraram, em particular, um grupo de países que passou a ser chamado de “Os cinco frágeis”: Brasil, Indonésia, África do Sul, Índia e Turquia. Argentina nem entra nesse grupo, pois sua situação é fragilíssima. Ao olhar esses países, os mercados também concentram sua atenção em suas condições internas, examinadas a seguir, com foco no nosso país.

A economia brasileira e problemas que enfrenta
Ela passa por um período de transição com dificuldades de ajuste. Resumindo o que precisa ser ajustado, ela vem de um período onde estimulou o consumo de bens e serviços, como via crédito. Outro estímulo veio do aumento de renda ensejado por crescimento bem maior que o atual, tendo como principal força a ampliação da renda interna pelo forte aumento das exportações de commodities e de seus preços, em particular para a China. Houve também forte aumento de gastos sociais, como os do INSS, do Bolsa-Família, seguro-desemprego e abono-salarial. Nesse contexto, contudo, os investimentos voltados para expansão de sua capacidade produtiva, inclusive de sua infraestrutura e da produtividade, tiveram expansão insatisfatória. Na esteira desse modelo pró-consumo, houve a ampliação dos déficits das contas externas e das contas públicas, junto com o aumento da inflação.

Ora, com isto o chamado risco-país também aumenta, pois seu status de crédito externo fica comprometido, e há a expectativa de que outros desdobramentos virão, como em parte já vieram, na forma maior desvalorização do real, menor expansão dos gastos públicos, e aumento da Selic, este para conter a inflação, mas também com o efeito de atrair mais investimentos em renda fixa no país.  Com tudo isto, espera-se que o país passará por um período de menores taxas de crescimento, como já vem acontecendo, reduzindo assim o interesse dos investidores em ativos de maior risco, como ações e atividade empresarial.

Implicações para o investidor brasileiro
Esse quadro está longe de apontar para um desastre como o da Argentina, mas implica numa atitude defensiva e mais voltada para a renda fixa, em particular para preservar o poder aquisitivo dos investimentos financeiros, defendendo-os, assim, da inflação. Essa situação também não recomenda o mercado acionário, ainda que seu período de baixa seja atrativo para investidores dispostos e capazes de enfrentar o maior risco desse mercado. Para investidores de maior poder aquisitivo e também em condições de dominar a dimensão internacional dos investimentos, há também as opções de investimentos em dólar, como em fundos cambiais, ou no mercado acionário de países como os EUA, onde a perspectiva é de uma recuperação, ainda que lenta, de sua economia.
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Roberto Macedo, CFP® (Certified Financial Planner), é economista formado pela USP com Mestrado e Doutorado na Universidade Harvard (EUA).  Foi Secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Fazenda e Planejamento, funcionário do Banco Central e do Banco do Brasil. E-mail: imprensa@bb.com.br. Este texto reflete a opinião do autor e não necessariamente a do BB; tem caráter apenas informativo, e não deve ser tomado como recomendação de subscrição, tomada de créditos, compra ou venda de ativos, decisões estas de exclusiva responsabilidade do investidor.    

Cenário da Selic pós-restauração parcial do compulsório


Na semana passada, o Banco Central (BC) tomou medida importante e da qual se esperam impactos sobre a taxa Selic e os juros em geral.  Nessa decisão, foi restaurada parte dos depósitos compulsórios que os bancos são obrigados a fazer no BC,  e que este lhes havia liberado para contornar a falta de liquidez que veio com a crise econômico-financeira desencadeada em setembro de 2008.

Vamos examinar a natureza dessa decisão, esses impactos e também o que dela podem esperar os investidores.

O que fez o BC

A liberação dos depósitos compulsórios alcançou a cifra de R$121 bilhões, e a partir deste mês R$71 bilhões retornarão ao BC. Para essa restauração parcial, o BC ampliou de 13,5% para 15% a proporção que os bancos recolhem dos depósitos a prazo que recebem. Além disso, a alíquota extra sobre os mesmos depósitos, que havia caído para 4%,  voltou a 8%, e a incidente sobre depósitos à vista, que estava reduzida a 5%,  também passou a essa taxa maior.

Como se percebe, o valor restaurado é de expressiva magnitude, mas antes de passar ao impacto sobre os juros vale lembrar que não se trata de uma contração de  liquidez qualquer, mas sim do enxugamento de um excesso para trazê-la para um nível que o BC entende como adequado. Conforme declarações do presidente do BC, foi percebido esse excesso, tanto de uma forma generalizada, identificada no sistema financeiro como um todo, como na forma de colchões de liquidez mantidos por instituições financeiras  específicas.

Para investidores,  esse excesso começou a ser percebido também em notícias do tipo “...bancos reduzem captações em CDBs”, pois não viam necessidade de recursos adicionais para atender às suas operações de crédito.

Implicações para os juros em geral

No BC a questão dos juros se insere na sua política de metas de inflação e, assim,  as alterações que faz da Selic procuram atender aos propósitos dessa política. Em tese, ele trata os compulsórios de forma separada, neste caso de olho na liquidez do mercado. Em declarações à imprensa, um diretor do BC chegou a afirmar que o aumento do compulsório seria neutro do ponto de vista do seu impacto sobre os juros.

Entretanto, se a liquidez é reduzida, pode haver um impacto que eleva os juros, o que depende muito de como se comportam a oferta e a demanda de recursos. Se a demanda estava sendo atendida, e ainda assim sobrava liquidez que o BC  decidiu reduzir, pode ser que algumas instituições decidam não aumentar os juros que cobram de seus clientes.  Noutras, entretanto, as condições de demanda podem ensejar oportunidades para um aumento das taxas nas novas operações que realizarem.

Mesmo não se sabendo com precisão o impacto final, nossa visão é a de que algum aumento deverá acontecer, em particular porque com a recuperação da economia a demanda de crédito está crescendo, e não encontrará a mesma disponibilidade de recursos que encontrava antes de a decisão do BC ser tomada.

O Impacto sobre a Selic

Neste caso, um impacto que nos parece provável é que com a restauração parcial do compulsório o BC poderá ganhar algum tempo antes de optar por um aumento da Selic, talvez pelo menos mais uma reunião antes de fazer isso. A razão é que se houver esse impacto sobre os juros em geral, o que o BC terá condições de aferir, eles já estariam aumentados sem necessidade de ocorrer a um aumento da Selic para essa finalidade.

Nessas condições, o cenário que se afigura como mais provável é um em que na sua reunião deste mês o Comitê de Política Monetária (Copom) do BC refletirá sobre o impacto  da restauração parcial do compulsório sobre os juros em geral, e ponderará isso na sua decisão. Como achamos que haverá impacto sobre a taxa de juros, ele poderá não realizar o aumento da Selic que alguns analistas já vinham prevendo para essa reunião.  Aliás, depois da decisão de restaurar parcialmente os depósitos compulsórios, parte dessas apostas de um aumento da Selic em março se deslocou para o mês de abril.

É claro que o BC examinará o andar da inflação tanto no passado com nas projeções que faz para o futuro. Pode acontecer também que o Copom se divida a respeito do assunto,  e tenhamos decisões não unânimes antes que esse comitê opte por mudar o curso da Selic, repetindo um processo que já aconteceu algumas vezes no passado.

Implicações para investidores

A decisão do BC deve ser vista com naturalidade, pois é uma medida clássica de enxugamento de liquidez, cujo excesso já se tornava evidente, tanto pelas  medições do BC como na referida referência aos CDBs. Aliás, voltando a esse assunto, ainda que o BC possa adiar um pouco o aumento da Selic, em algumas instituições o enxugamento feito pelo BC pode levar a uma maior necessidade de recursos de investidores, e aumentar as taxas oferecidas por esses papéis. 

Quanto às aplicações mais diretamente referenciadas à Selic, como foi dito a restauração parcial do compulsório pode postergar a decisão de aumentá-la. Mas, por outro lado, essa restauração é também indicativa de que o BC permanece preocupado com a inflação, pois ao enxugar a liquidez reduziu o espaço para crescimento da demanda de crédito, dessa forma reafirmando que a perspectiva de aumento da Selic não saiu do seu radar.

Em suma, para o investidor a decisão mantém o cenário de aumento das remunerações de renda fixa, desde já no caso dos CDBs de algumas instituições, e sem alterar a perspectiva também de aumento da Selic, mesmo que um pouco mais tarde. Em particular porque o cenário de aquecimento da economia e de pressões inflacionárias está se consolidando à medida em que bons resultados de vários indicadores de seu desempenho vêm surgindo, cenário esse que não foi alterado pela decisão tomada quanto aos depósitos compulsórios.

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Roberto Macedo, CFP® (Certified Financial Planner®) e economista formado pela USP com Mestrado e Doutorado pela Universidade Harvard (EUA), é pesquisador da FIPE-USP.  Foi Secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Fazenda e Planejamento, funcionário do Banco Central e do Banco do Brasil.  E-mail: imprensa@bb.com.br. Este texto reflete a opinião do autor e não necessariamente a do BB; tem caráter apenas informativo e não deve ser tomado como recomendação de subscrição, compra ou venda de ativos, decisões estas de responsabilidade exclusiva dos investidores.  

Cenário atualizado da Selic

Ganhou impulso o debate sobre a inflação, as perspectivas de aumento da Selic e quando isto ocorreria. A discussão é estimulada por taxas de inflação maiores e por sinais de que a economia se recuperou da crise por que passou entre os últimos trimestres de 2008 e de 2009, e voltou a crescer com vigor.

Nossa visão da crise abrange esse período porque, embora se recuperando desde o segundo trimestre de 2009,  até o final do terceiro trimestre do mesmo ano a economia brasileira ainda não havia retomado seu patamar pré-crise, segundo dados do PIB trimestral divulgados pelo IBGE. Essa retomada deve ter acontecido no quarto trimestre de 2009 ou nos primeiros meses de 2010, superando assim a fase de crescimento praticamente nulo pela qual passou em 2009, segundo a maioria das previsões.

Vamos examinar dados mais recentes da inflação, mostrar a natureza do referido debate, acrescentar um dado muito importante sobre a recuperação da economia, e concluir com implicações para investidores.

A inflação recente e a discussão em torno dela

A tabela abaixo contém dados mensais de inflação de setembro do ano passado a janeiro de 2010, relativos aos três índices mais acompanhados pelo mercado: o IPCA – índice-meta seguido pelo Copom –,  o IGP-M e o IGP-DI. Em cada mês, a tabela mostra também a taxa de inflação acumulada em doze meses.


Indicadores de Inflação - Últimas Taxas Mensais e Acumuladas em 12 Meses
Setembro de 2009 a Janeiro de 2010 – em %

Índices de Inflação

Setembro de 2009

Outubro de 2009

Novembro de 2009

Dezembro de 2009

Janeiro de 2010

Taxas Mensais

IPCA

0,24

0,28

0,41

0,37

0,75

IGP-M

0,05

0,10

0,10

-0,26

0,63

IGP-DI

0,42

0,05

0,07

-0,11

1,01

Taxas de 12 meses
IPCA

4,34

4,17

4,22

4,31

4,59

IGP-M

-0,40

-1,31

-1,46

-1,71

-0,67

IGP-DI

-0,65

-1,76

-1,33

-1,44

-0,45

Fontes: IBGE e  FGV.

Quanto ao IPCA, recorde-se que para atingir uma inflação anual de 4,5% o centro da meta do Banco Central (BC), a taxa mensal precisa gravitar em torno de um valor médio de 0,367481 ao mês.  Observando a tabela, até dezembro a taxa mensal preenchia esse requisito, pois a acumulada ficava abaixo de 4,5%. Mesmo num mês em que a taxa superou aquele valor, como em novembro, isso foi compensado por taxas menores noutros meses, como em setembro e outubro.

Contudo, 2010 trouxe 0,75% em janeiro, claramente incompatível com 4,5% ao ano. Conforme também mostra a tabela, bastou essa taxa mensal para elevar para 4,59% a taxa em 12 meses do IPCA em janeiro.  Mas, em tese não se pode dar 4,5% em 2010 como um objetivo perdido, pois ainda faltam 11 taxas mensais até o final do ano, as quais poderiam voltar a valores coerentes com o alcance de 4,5% no ano, alguns menores do que a média mensal que leva a essa taxa, para compensar esse descolamento em janeiro.

Nessa linha, uma minoria de analistas argumenta que a inflação observada em janeiro não pode ser tomada como referência para esses outros meses, pois janeiro costuma ter inflação mais alta, devido a aumentos que todo ano nele ocorrem e relativos, entre outros itens, a tarifas de ônibus e preços de materiais escolares, que usualmente sobem nesse mês.    Em 2010,  em janeiro houve também preços mais altos de alimentos “in natura”, devido às fortes chuvas que prejudicaram a sua oferta.

Mais recentemente, a taxa de câmbio, que vinha subindo (em janeiro, a comercial de compra passou de R$1,7412 no final de dezembro para R$1,867 no dia 28, mas desde então caiu), fechou a semana passada mais baixa, em R$1,805, aliviando em parte suas pressões inflacionárias, sobretudo nos preços por atacado. Elas são também evidentes nos números do mês passado mostrados pelo IGP-M e IGP-DI, na mesma tabela. 

A maioria dos analistas, contudo, pondera que a retomada do crescimento vem se mostrando acelerada,  e assim pressionará os preços, o que impediria que a inflação voltasse a se mostrar bem comportada, a ponto de levar ao alcance da taxa anual de 4,5%, a menos que o BC passasse a subir a Selic, e sem mais demora.

Quanto à atividade econômica, na semana passada um indicador atraiu grande atenção dos analistas, pois mostrou aumento vigoroso em janeiro. Foi  o emprego formal avaliado pelo Ministério do Trabalho, e que revelou, nesse mês, as admissões superando os desligamentos em 181.419 empregos. E mais: foi um valor recorde no mês, superando em 27%(!)  o anterior, de janeiro de 2008 (+142.921).  Nessa expansão do emprego, merece destaque a que veio na indústria de transformação (+68.920), pois era o setor que vinha mostrando taxa mais lenta de recuperação, mas que teve também recorde no mês, pois o anterior era de 59.045, também em janeiro de 2008.

Como reagirá o Copom?

Dado esse quadro, houve até quem sugerisse uma saída alternativa à usualmente seguida pelo Copom, de elevar a Selic: aceitar uma inflação um pouco acima do centro da meta, já que a rigor ela envolve um intervalo de dois pontos de porcentagem para cima e para baixo desse centro. Contudo, a maioria do mercado não crê nessa alternativa,  e o último boletim Focus do BC, do dia 12 de fevereiro, mostrava o mercado apostando numa Selic de 11,25% ao ano no final de 2010.

Recorde-se, também, que a última reunião do Copom, em janeiro, reforçou a perspectiva de um aumento da Selic, conforme nosso artigo de 1/2/10. 

Implicações para investidores

Nessas condições, o cenário mais provável permanece um de aumento da Selic, numa das duas próximas reuniões do Copom, elevando assim os ganhos nominais das aplicações em renda fixa. Dado seu valor já atraente, particularmente se avaliado em termos internacionais, e a volatilidade maior que a renda variável vem registrando, a renda fixa revela-se como refúgio adequado à atualidade do mercado financeiro.

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Roberto Macedo, CFP® (Certified Financial Planner®) e economista formado pela USP com Mestrado e Doutorado pela Universidade Harvard (EUA), é pesquisador da FIPE-USP.  Foi Secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Fazenda e Planejamento, funcionário do Banco Central e do Banco do Brasil.  E-mail: imprensa@bb.com.br. Este texto reflete a opinião do autor e não necessariamente a do BB; tem caráter apenas informativo e não deve ser tomado como recomendação de subscrição, compra ou venda de ativos, decisões estas de responsabilidade exclusiva dos investidores.  

Por que poupar é importante


No plano da prosperidade pessoal, familiar e até mesmo nacional, a poupança é tão relevante que se pode falar dela de modo comparável ao de um evangelho, no caso o da poupança. Ele é pregado pelos que como eu acreditam piamente nas inegáveis virtudes que ela tem, e precisa ser repetido exaustivamente para atrair novos fiéis a essa crença, inclusive os incrédulos, e os que por essa ou outras razões não poupam. Na mesma linha, poderíamos chamá-los de pecadores. 

Os jovens, em particular, precisam dar ouvidos a esse evangelho, pois é na sua idade que as pessoas firmam muitas das convicções que irão orientar toda a sua vida.  Falando de minha própria experiência, foi nessa fase que meu pai me convenceu de quão importante era a poupança, e passei a praticá-la logo que comecei a trabalhar com registro em carteira, aos 15 anos. E só tenho a agradecer por essa orientação.

Foi como que um curso de educação financeira, algo que o leitor deve tratar de fazer, seja buscando cursos ou aprendendo por contra própria. Era um termo até então desconhecido, e hoje em moda, a ponto de o governo federal estar desenvolvendo um projeto para levar a educação financeira ao ensino básico.  Entre os adultos, também virou moda falar de planejamento financeiro pessoal, mas posso dizer que com a pregação de meu pai comecei a fazer tal planejamento, ainda que sem esse nome, há mais de cinqüenta anos atrás.

A importância de poupar

Na minha própria pregação da poupança, que neste espaço já havia começado e pretendo repetir com freqüência, no dia 3/8/09 publiquei artigo intitulado “Poupar: o melhor é começar enquanto jovem”.  Nele escrevi sobre o conceito de poupança, discorri sobre sua importância, ressaltando que não se trata  de acumular o dinheiro pelo dinheiro – como o Tio Patinhas às vezes demonstra fazer –, apontei várias razões para poupar,  e ressaltei a necessidade de começar cedo, em particular mostrando o papel que os juros compostos têm  no crescimento da poupança. Se o leitor quiser ler ou reler este artigo, poderá fazer isso diretamente por intermédio do “link” que se segue: http://www.bb.com.br/portalbb/page251,116,2232,1,1,1,1.bb?codigoMenu=1092&codigoNoticia=18648.

Hoje vou adicionar duas histórias verídicas para ilustrar como poupar é importante para alcançar e manter a prosperidade.

Duas histórias de poupança

A primeira é a do Bill Gates, principal acionista da Microsoft, e considerado um dos homens mais ricos do mundo, senão o mais rico. Ele era aluno de graduação na famosa universidade de Harvard (EUA), mas já era fanático por computadores e com alguns colegas com igual interesse passou a desenvolver “softwares” que permitiram o enorme desenvolvimento dos computadores de mesa (os “desktops”) e, mais tarde, dos portáteis (os “laptops” ou “notebooks”, e mais recentemente os “netbooks”, tudo caminhando agora para aparelhos do tipo multimídia que integram também telefonia, música, leitura de livros e outros itens). O  sucesso de Bill Gates foi tal que ele abandonou o curso, mas é muito querido em Harvard, pois em lugar de nela estudar passou a ser um grande doador de recursos.

O que Bill Gates fazia com o dinheiro que ganhava? Mesmo que pensasse em gastá-lo no seu todo ou em grande parte, não poderia fazer isso se quisesse levar adiante seus projetos na Microsoft, pois estava sempre precisando de mais dinheiro para desenvolver novos softwares, contratar gente, comprar instalações, equipamentos e tudo mais que fosse necessário para fazer crescer a empresa.  Do contrário, seria superado pelos concorrentes que logo surgiram na esteira do seu sucesso. Lições básicas: (1) se você quiser começar um negócio, e fazê-lo crescer, precisará poupar boa parte do que ganhou; (2) se você herdar um negócio da família, para mantê-lo em andamento precisará poupar parte substancial dos lucros, pois terá que enfrentar a concorrência e a depreciação do capital do empreendimento, como suas máquinas, equipamentos  e outras instalações.

Outro exemplo interessante é o da Intel, marca famosa de processadores usados nos vários tipos de computadores e outros equipamentos eletrônicos.  Para não ficar para trás, num ramo em constante processo de inovação, ela precisa sempre poupar grande parte dos lucros para investir nos processadores mais modernos que coloca no mercado em intervalos de tempo que se medem em meses.

É certo que esses exemplos são casos de enorme sucesso empresarial.  Mas, pensando agora no mundo mais comum às pessoas, que é tipicamente o de ocupações assalariadas, trata-se de um mercado em que elas precisam se inserir, e que disputarão com outras pessoas. Ademais,  precisam viver dignamente como seres humanos, tendo onde morar e como cuidar do sustento próprio e da família, de seu “progresso científico e tecnológico” (em particular, via educação), além de pensar na aposentadoria e em problemas de saúde que inevitavelmente virão. E a lista de necessidades poderia  prosseguir, incluindo as culturais, de lazer e outros itens.

Não há como ter sucesso nesse destino, sem fazer a própria poupança. E para quem disser, como desculpa para não poupar, que terá uma boa herança, vale lembrar que se trata de poupança alheia, pois poupança não cai do céu. E que será necessário pelo menos não “despoupar”, um movimento de sentido inverso à poupança, que trará o risco de dissipar a que foi herdada.

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Roberto Macedo, CFP® (Certified Financial Planner®) e economista formado pela USP com Mestrado e Doutorado pela Universidade Harvard (EUA), é pesquisador da FIPE-USP.  Foi Secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Fazenda e Planejamento, funcionário do Banco Central e do Banco do Brasil.  E-mail: imprensa@bb.com.br. Este texto reflete a opinião do autor e não necessariamente a do BB; tem caráter apenas informativo e não deve ser tomado como recomendação de subscrição, compra ou venda de ativos, decisões estas de responsabilidade exclusiva dos investidores.

Receita para ser especialista  10 mil horas de prática


É isso mesmo. 10 mil horas que equivalem a 1.250 dias de oito horas de trabalho e a cerca de três anos e meio assim praticando, e seriam mais se fossem descontados fins de semana e férias. Tudo isso desempenhando sempre a mesma atividade em que se busca a especialização. Vamos falar de gente que defende essa receita, dar alguns exemplos e buscar lições.

De onde vem o número

Ele costuma ser citado em artigos voltados para administração de empresas, em particular na área de recursos humanos. Dentro desta, nas discussões sobre aprendizagem e treinamento.

Para entendê-lo, vejamos primeiro o que se entende por um especialista a necessitar de tantas horas de prática. Na literatura anglo-saxônica, esses especialistas costumam ser referidos como “experts”. A tradução em Português é experto, mas é preciso pronunciar essa palavra com bastante cuidado, enfatizando o “x”, para evitar que seja confundida com esperto, que tem  conotações as vezes até pejorativas. Há  quem diga que no Brasil há muitos espertos e poucos expertos.

No caso, especialista não é ser experto em, digamos, colocar e apertar porcas em parafusos. São profissões ou ocupações mais exigentes em termos de habilidade e treinamento, e algumas também requerem extensa formação educacional. Nesse sentido, podemos falar de artistas, esportistas, cirurgiões, dentistas e quaisquer outros profissionais que atuem em áreas muito exigentes em termos de competência, para quem quer chegar ao topo delas. Alguns desses profissionais são também considerados autoridades num assunto, pessoas que se destacam naquilo que fazem, com competência inclusive para fazer avaliações de outros profissionais do ramo e de questões a ele pertinentes, avaliações essas que são valorizadas por seus pares e pelo público em geral.

Alguns exemplos

Vamos citar alguns casos de amplo conhecimento, mas há também os que são conhecidos apenas na área em que atuam e junto daqueles a que servem. No Brasil, dentro do primeiro grupo e sem vacilar poderíamos citar o craque Pelé, o compositor e maestro Villa-Lobos, o cirurgião Adib Jatene e o arquiteto Oscar Niemeyer. Aprendemos sobre esses nomes pela sua notoriedade que alcança o público em geral. Mas, vale insistir que há esse outro grupo dos que não têm tanta fama, que raramente surgem nos meios de comunicação, mas que são também expertos dignos do nome, e constituem a maioria deles.

É esse grupo que um jovem deve mirar como modelo para se tornar um especialista. Em geral tomamos conhecimento dos que o integram quando estudamos um assunto a fundo ou precisamos de um profissional e saímos a buscar informações sobre, digamos, um especialista em determinada doença, um bom dentista ou um contador de prestígio. Muitas informações vêm do chamado boca-a-boca, e se avançarmos nessa linha veremos que elas costumam convergir para os nomes de algumas pessoas. 

Voltando a alguns exemplos entre os mais notórios, e buscando também figuras no campo internacional, é costume citar os “Beatles”,  cuja  banda tocou cerca  de sete anos antes de alcançar enorme sucesso. Na história desse período pré-sucesso costuma haver referência a um período em que os “Beatles” tocavam em casas noturnas de Hamburgo, na Alemanha,  num regime de oito horas por noite.

Outro exemplo muito citado é o de Bill Gates, criador da Microsoft, que ainda no ensino médio já era ligado aos computadores de forma obsessiva. Quando abandonou seu curso de graduação em Harvard para iniciar essa empresa, certamente já havia ultrapassado essas 10 mil horas de dedicação a um assunto.

Lições

10 mil horas é um número para ser pensado, mas não se trata de ir contando as horas uma a uma. É preciso vê-lo no seu significado mais amplo, de que nada se consegue, salvo raríssimas exceções, sem um enorme esforço. É verdade que dois sortudos levaram cada um cerca de R$70 milhões na Mega-Sena do dia 31/12/09, com apostas de apenas seis números num jogo onde a probabilidade de acertar é de uma em 50 milhões, jogando dessa forma. Tente acertar com um dado. Nele, a probabilidade de acerto é de uma em seis,  e você verá que errará na maioria (cinco entre seis) vezes se repetir a experiência um grande número de vezes.

No caminho trivial, a vida exige muito empenho e dedicação, mas é menos arriscada para as pessoas que para ganhar a vida e se realizarem profissionalmente procuram ser competentes naquilo que fazem. Assim, escolha o que você quer fazer como profissional, investigue as oportunidades de trabalho na área escolhida, mude de rumo se necessário, mas mantenha o esforço em busca da competência, fixando-se nos exemplos,  notórios ou não, dos muitos que a conseguiram.

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Roberto Macedo, CFPTM (Certified Financial PlannerTM) e economista formado pela USP com Mestrado e Doutorado pela Universidade Harvard (EUA), é pesquisador da FIPE-USP.  Foi Secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Fazenda e Planejamento, funcionário do Banco Central e do Banco do Brasil.  E-mail: imprensa@bb.com.br. Este texto reflete a opinião do autor e não necessariamente a do BB. 
 

O Ibovespa de novo acima de 70 mil pontos

Com vários fatores a estimulá-la, a Bovespa superou logo no seu primeiro pregão de 2010 a barreira dos 70 mil pontos, aproximando-se do seu recorde histórico de 73,4 mil pontos em 19/5/2008. No processo, superou também, pelo menos em parte, o obstáculo do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF),  de 2%,  criado pelo governo federal a partir do dia 20 de outubro do ano passado, sobre o ingresso de recursos de estrangeiros para aplicações nos mercados financeiro e de capitais.

Resumiremos a evolução do Ibovespa desde seu valor mais baixo depois que a crise econômico-financeira eclodiu em setembro de 2008 (29.435 pontos em 27/10/08), apontando fatores estimulantes que reverteram essa queda. Em seguida, examinaremos as perspectivas para 2010, realçando os fatores de estímulo adicional. E, ainda, os que trazem riscos para continuidade dessa boa fase, bem como a ocasião em que terão maior probabilidade de se manifestar. Concluiremos com lições e implicações para investidores.

A evolução do Ibovespa
Depois de alcançar o recorde histórico de 19/5/08, cerca de cinco meses depois o Ibovespa havia despencado para apenas 29.435 pontos.   Dados do Ibovespa a partir de então são apresentados na tabela abaixo.

Ibovespa, em Pontos
Datas, Índices  e Valores de Barreiras Superadas  nessas Datas,  a Partir do Valor mais Baixo Pós-crise (29.435 pontos, em 27/10/08) e
 Número de Dias (Pregões) de Duração das Barreiras Ultrapassadas

Data

Índice

Valor da Barreira Superada

Dias de Duração da Barreira

28/10/2008

33.387

30 mil

1

04/11/2008

40.255

40 mil

7

04/05/2009

50.405

50 mil

121

16/09/2009

60.410

60 mil

96

04/01/2010

70.045

70 mil

73


Logo depois de cair para esses 29.435 pontos, note-se que em apenas oito pregões o Ibovespa superou 40 mil pontos. Esse período será registrado na história do mercado de ações do Brasil tanto pela forte queda que veio antes como por ter representado grande oportunidade de ganhos, dentro de uma das regras que os investidores procuram seguir, a de comprar na baixa, embora muitos deixem passar oportunidades como essa, acreditando que a queda vai continuar.

Recorde-se que a economia havia entrado numa recessão, e ainda então sem qualquer perspectiva de saída, mas houve investidores que se convenceram de que as ações ficaram muito baratas e foram às compras, levando a um rápido impulso do índice. Como a recessão continuou, a cautela voltou a prevalecer e só depois de 121 pregões, em cerca de seis meses, é que a barreira dos 50 mil pontos foi rompida. Aí, já no segundo trimestre de 2009, surgiam evidências de que a economia havia voltado a crescer, encerrando sua fase recessiva, mas a ciência disso ainda não era disseminada.  Dados do PIB confirmaram isso em agosto, já no terceiro trimestre, e logo ao final dele foram superados os 60 mil pontos.   No início do quarto trimestre veio o IOF postergando o passo seguinte, dos 70 mil pontos, só assegurado no primeiro pregão de 2010.

Na quarta-feira passada o Ibovespa chegou a  70.729 pontos, sua melhor marca desde o pregão de 5/6/2008, quando fechou com 71.209 pontos, e já agora novamente não muito longe do recorde histórico de 73,4 mil pontos. Na quinta e na sexta, com duas pequenas quedas, o Ibovespa mostrou resistência nos 70 mil, fechando a semana com 70.262 pontos.

No processo que o trouxe até esse valor, ocorreu tanto essa percepção de melhoria da economia brasileira como a de que nos países desenvolvidos, onde a crise foi mais forte, o pior cenário foi evitado, mas com ela ainda mostrando seus efeitos.  Nesse contexto, o Brasil passou a ser visto como atrativo também para os investidores desses países, que fortemente contribuíram para a recuperação do Ibovespa, num movimento desestimulado - mas não revertido -,  pela imposição do IOF de 2%.

O que pode manter ou prejudicar crescimento do Ibovespa 
Do lado favorável, há o cenário de um bom desempenho da economia brasileira em 2010, com reflexos positivos nos balanços empresariais, atraindo investidores nacionais e estrangeiros, estes ainda vendo um cenário nada encorajador em seus países.

Quanto ao que pode atrapalhar, o mercado espera que em algum momento os países desenvolvidos avançarão na recuperação, o que dará confiança a seus governos para reverter  estímulos fiscais e monetários dados às suas economias, levando também a  aumentos de suas taxas de juros, e tornando seus mercados financeiros mais atraentes.

A expectativa predominante, contudo, é que esses movimentos previstos lá fora só ocorreriam no segundo semestre deste ano e não seriam suficientes para conter os estímulos da recuperação brasileira e o que ela enseja de atrativos para os investidores estrangeiros. Mas, há também o que advertem que os riscos de novas tempestades vindas de fora são consideráveis, ainda que sem a intensidade das que precipitaram a crise.

Lições e implicações para investidores
Boas oportunidades, como a dos oito dias do início da tabela, são raras e é preciso estar alerta. Bem mesmo se saíram os que venderam no pico e compraram no vale dos 30 mil ou mesmo nos 40 ou 50 mil pontos. Em segundo lugar, os que não venderam na alta, e agora vêm recuperando as perdas. Pior mesmo se saíram os que compraram na alta e venderam na baixa.

Quanto aos que ficaram de fora, foi mais um período a ensinar que o mercado de ações é para quem tem disposição e recursos para arriscar. Os jornais recentes mostraram várias matérias em que predominaram análises otimistas de analistas do mercado e números como 80 ou mesmo 85 mil pontos até o fim do ano. É mesmo um cenário para pessoas com essas características.

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Roberto Macedo, CFPTM (Certified Financial PlannerTM) e economista formado pela USP com Mestrado e Doutorado pela Universidade Harvard (EUA), é pesquisador da FIPE-USP.  Foi Secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Fazenda e Planejamento, funcionário do Banco Central e do Banco do Brasil.  E-mail: imprensa@bb.com.br. Este texto reflete a opinião do autor e não necessariamente a do BB; tem caráter apenas informativo e não deve ser tomado como recomendação de subscrição, compra ou venda de ativos, decisões estas de responsabilidade exclusiva dos investidores. 

Balanço de aplicações financeiras em 2009


A virada do ano é época de balanços, e vamos também fazer um deles para as aplicações financeiras que mais atraem os investidores. Apesar da crise econômico-financeira que prejudicou seriamente o PIB de 2009 – a ponto de levar a uma previsão próxima de zero para o seu crescimento no ano –,  de um modo geral os que seguiram poupando e aplicando não têm do que se queixar, pois os ganhos reais na renda fixa, inclusive na poupança,  foram consideráveis, em termos absolutos e em comparações internacionais. Ademais, o mercado de ações voltou a liderar a corrida dos rendimentos apresentando os maiores ganhos das várias aplicações cujos números serão analisados.
Concluiremos com o cenário para 2010 e implicações para investidores.   


Os números

A tabela abaixo mostra as taxas de rendimentos nominais de sete aplicações financeiras que respondem pela maior parte das aplicações dos investidores. Os números alcançam o mês de dezembro e o ano como um todo conforme detalhes nas notas acrescentadas à tabela. Para fins de comparação, à tabela foram acrescentadas variações da Selic, do CDI, do IPCA e do IGP-M registradas ou estimadas para os mesmos períodos.

Rendimento Nominal(*) em dezembro (**) e no ano até esse mês – Em %

Aplicação

Dezembro

No ano até dezembro

Selic/CDI

0,73/0,72

9,93/9,88

Fundos Referenciados DI

0,58

10,02

Fundos Renda Fixa

0,62

10,32

CDBs(**)

0,69

10,02

Poupança (***)

0,55

6,92

Ibovespa

2,30

82,66

Dólar Comercial Mercado

-0,63

-25,32

Ouro BM&F-Bovespa – Spot

-10,57

-4,61

IPCA-IBGE

0,34

4,28

IGP-M-FGV

-0,26

-1,72

Fonte:  jornal  Valor (30/12/09), baseado  em  informações   do   mercado, colhidas até o dia anterior; Ibovespa atualizado até o dia 30; índices de preços correspondem a números definitivos do IGP-M  e projeções para o IPCA do Relatório Focus, do Banco Central (BC). No caso dos fundos e CDBs há  diferenças relativamente a outras fontes,  derivadas  de  critérios de levantamento, além de a remuneração de cada investidor e de suas aplicações dependerem muito de especificidades, como valor aplicado, fundos escolhidos, taxas de administração, alíquota aplicável do Imposto de Renda (IR) e negociações caso a caso.
(*) salvo menção em contrário, rendimento bruto, sem desconto do IR e taxas de administração, se cabíveis;  (**)  taxa  para  aplicações  no  primeiro  dia do  mês; (***) rendimento mensal de contas com vencimento no primeiro dia útil do mês.

Todas as aplicações com taxas positivas bateram por larga margem o IGP-M, que tanto em dezembro como no ano registrou taxas negativas, sendo que no último caso significa a primeira deflação desde 1989.  No ano passado, esse índice havia subido 9,81%, o que evidencia o bom comportamento da inflação em 2009, refletido também no IPCA que se prevê abaixo do centro da meta fixada pelo BC. O mercado financeiro sempre apreciou comparações com o IGP-M na avaliação dos rendimentos reais, mas com esses números desse índice em  2009 talvez prefira deixar essas comparações de lado. Contudo, mesmo relativamente ao IPCA os ganhos são relevantes, o que se ressalta também em comparações internacionais, pois particularmente nos países desenvolvidos as taxas de juros nominais e reais são muito inferiores às brasileiras.
Na renda fixa um destaque cabe aos números da poupança. Com a queda da Selic para 8,75% ao ano (a tabela mostra taxas Selic/CDI de 0,73/072% em dezembro, que  em janeiro estavam em 1,05/1,04), os rendimentos da poupança, isentos de taxas de administração e de IR para as pessoas físicas, foram consideráveis se comparados aos dos fundos que são sujeitos a esses custos, particularmente aqueles de menores limites mínimos de aplicação, cujos rendimentos líquidos são hoje frequentemente batidos pelos da poupança. Na renda variável, o destaque foram as ações, que mostraram forte recuperação, com o Ibovespa fechando o ano em 68.588 pontos, já bem próximo do recorde de 73,4 mil pontos, alcançado em 19/5/08.

Olhando a frente: o cenário para 2010
Tudo indica que o novo ano será bom tanto para poupar como para aplicar. Depois de um ano em que o crescimento do PIB deve ter registrado um número próximo de zero, os analistas estimam um crescimento próximo de 5% em 2010, o que deverá contribuir para gerar mais rendimentos em geral (salários, lucros empresariais e  honorários profissionais, entre outros), o que permitirá poupar mais.
Do lado das aplicações, a renda fixa tem um cenário atraente, pois não há previsões de novas quedas da Selic. Ao contrário, com a retomada do crescimento, é provável que o Conselho de Política Monetária (Copom) do BC se antecipe ao efeito de pressões inflacionárias e aumente essa taxa, num movimento que ao final de 2010 poderia levá-la a 10,75% ao ano, se confirmada a última previsão do Relatório Focus do BC. Assim, o cenário é particularmente favorável para investidores que conseguirem remuneração bruta bem próxima da Selic e papéis sem taxas de administração ou fundos com taxas desse tipo bem baixas. Note-se que há esse cenário de a Selic subir em 2010 com uma inflação ainda bem comportada, que o mesmo relatório prevê em 4,5%, garantindo assim uma ampliação dos ganhos reais.  Com essa taxa de inflação, também a poupança continuará atraente.
Quanto à renda variável, as atenções estarão concentradas no Ibovespa. Há corretoras prevendo que poderá ultrapassar tanto os 70 mil como os 80 mil pontos em 2010, mas os riscos são altos, e isso deve ser ponderado principalmente pelos que só agora pensam em entrar no mercado. Do lado positivo, há essa perspectiva de crescimento do PIB que costuma favorecer o Ibovespa, tal como acontecia antes da crise.
Tudo isso ponderado, de um modo geral o cenário hoje é estimulante tanto para ganhar mais, como para poupar, aplicar ou mesmo investir em outros ativos que costumam reagir positivamente ao crescimento do PIB, tais como imóveis e atividades empresariais.  Em qualquer caso, nossa pregação continua a mesma, pois não depende de crises: todos devem continuar poupando e aplicando, e é o que desejamos a todos neste alvissareiro início de 2010.

Roberto Macedo, CFPTM (Certified Financial PlannerTM) e economista formado pela USP com Mestrado e Doutorado pela Universidade Harvard (EUA), é pesquisador da FIPE-USP.  Foi Secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Fazenda e Planejamento, funcionário do Banco Central e do Banco do Brasil.  E-mail: imprensa@bb.com.br. Este texto reflete a opinião do autor e não necessariamente a do BB; tem caráter apenas informativo e não deve ser tomado como recomendação de subscrição, compra ou venda de ativos, decisões estas de responsabilidade exclusiva dos investidores.

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Cenários de 2010 para reflexão de investidores


O ano de 2009 está chegando ao fim. Isso ocorre num momento em que o Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro retorna ao seu nível pré-crise, e avança no sentido de superar esse nível. Também é um momento em que economistas, empresários e analistas econômicos em geral se mostram confiantes de que a economia terá um feliz Natal e um próspero Ano Novo.

Vamos examinar os argumentos que sustentam essas expectativas e os números correspondentes no caso de variáveis macroeconômicas importantes. Examinaremos também o que os cenários que apontam significam para investidores num momento em que seu olhar se volta para o ano que chega.

O quadro atual da economia 

Com a crise que veio em setembro de 2008, o PIB caiu 3,4% no último trimestre do ano passado, mais 1,0%  no primeiro trimestre de 2009, totalizando uma queda de  4,37%.  Esse movimento para baixo foi interrompido no segundo trimestre deste ano, com um aumento de  1,9%,  caracterizando o fim da recessão iniciada no último trimestre de 2008, pois os economistas convencionaram que uma recessão ocorre quando o PIB de uma economia cai por dois trimestres consecutivos.

Contudo, esse aumento não significou o fim da crise, no sentido de o PIB voltar ao nível que se encontrava antes dela.  Do ponto a que chegou no segundo trimestre deste ano, seria necessário que o PIB houvesse subido 2,62% no terceiro para marcar o fim da crise.

Quando concluíamos este artigo, os dados desse trimestre ainda não eram disponíveis, mas é pouco provável que essa taxa tenha sido alcançada, pois significaria que a economia estaria crescendo a uma taxa anualizada de mais de 10%.  Se isso aconteceu, ótimo, mas realisticamente o mais provável é que a saída da crise só se consolide neste final de ano, no trimestre corrente.

Nesse caso, sabe-se que a economia está se recuperando a uma velocidade que deverá permitir o fim da crise neste trimestre, começando o Ano Novo com seu PIB com seu valor real já um pouco acima daquele em que estava quando veio a tempestade.

Vários indicadores apontam nessa direção. Entre eles, os de produção física e de utilização de capacidade da indústria, os de vendas do comércio varejista, os de crédito aos consumidores e de inadimplência dos que se endividaram, e os de emprego e desemprego.

A inflação se mantém bem comportada. Conforme avaliada pelo IPCA, o índice-meta da política monetária, seu passado recente revela que se mantém abaixo do centro da meta (4,5% ao ano), e as estimativas quanto à inflação de 2010 mostrada pelas últimas atas do Comitê de Política Monetária (Copom), do Banco Central (BC) também indicam que ela se comporta conforme o propósito dessa política.

Quanto ao mercado financeiro, a Selic teve seu valor reduzido para 8,75% ao ano, o nível mais baixo a que chegou depois que a política de metas de inflação foi instituída, significando uma taxa real próxima de 4,50%. É  ainda distante do ideal, mas bastante razoável para uma economia como a brasileira, com sua história inflacionária e ainda resquícios institucionais desse período, como os juros de 6% ao ano atribuídos às contas de poupança.

O Ibovespa também mostrou recuperação considerável, fechando a semana passada em 67.082 pontos, com o que revelou recuperação de mais de 100% relativamente ao seu ponto mais baixo depois da crise (29.435 pontos, em 27/10/09).

A mesma crise provocou inicialmente uma subida da taxa de câmbio em reais por dólar, mas essa subida se revelou temporária. Com sucessivas quedas, essa taxa no comercial estava em R$1,743 na sexta-feira passada, próxima de seu valor pré-crise, colaborando significativamente para aliviar as pressões inflacionárias. 
 
As expectativas do mercado financeiro para o final de 2009 e para 2010

As expectativas que examinaremos são as levantadas toda sexta-feira pelo BC, e incluídas no Boletim Focus divulgadas na segunda-feira seguinte. A tabela abaixo mostra números do levantamento feito no dia 20/11/09, divulgados no dia 23/11/09, para PIB, inflação medida pelo IPCA, Selic e taxa de câmbio.


Expectativas de Mercado para Valores de
Variáveis Macroeconômicas Selecionadas - 2009 e 2010

Variável

2009

2010

PIB (% de crescimento)

0,21

5,00

IPCA (variação anual - %)

4,26

4,43

Selic (fim de ano - %a.a.)

8,75

10,50

Tx. de câmbio (fim de ano - R$/US$)

1,70

1,74

Fonte: Focus – Relatório de Mercado – 20/11/2009


Quanto a 2009, elas revelam o quadro acima apontado, ou seja, o PIB saindo da crise, a inflação dentro da meta, a Selic no ponto a que chegou (sem previsão de variação até o fim do ano) e a taxa de câmbio próxima do seu valor mais recente. Para 2010 o quadro se mantém nos casos da inflação e da taxa de câmbio.  Quanto ao PIB, a previsão é de que a recuperação deverá levar um crescimento de 5%, com pressões inflacionárias que fariam o Copom subir a Selic para 10,5% até o final do ano.

Implicações para investidores

Antes de prosseguir vale lembrar que os números da tabela relativos a 2009 devem coincidir com os efetivamente realizados (no caso da Selic), ou serão próximos deles, pois já estamos bem perto do final do ano. Quanto a 2010, são previsões sujeitas a erros maiores, pois refletem as expectativas atuais para um futuro mais longínquo e sujeito à influência de fatores imponderáveis neste momento.

Dado esse cenário, os investidores também têm razões para estar confiantes e ampliar suas aplicações. Com a inflação prevista, a Selic continuará trazendo uma remuneração real positiva e ímpar em termos internacionais para investidores que alcançarem ganhos próximos dela. E há ainda a perspectiva de aumento da Selic em 2010. Como tudo indica que foi abandonada a idéia de tributar a poupança das pessoas físicas, e como ela oferece 6% de juros mais TR, sua atratividade, recuperada em 2009, deverá se manter em 2010. Enquanto isso, o dólar permanece sem atrativos.

Em que pesem os seus muitos riscos, a perspectiva para a Bolsa é favorável, pois costuma acompanhar o crescimento da economia, e há forte interesse de investidores estrangeiros, que o governo vem procurando conter com o IOF sobre as aplicações desses investidores, num movimento que representa mais um no elenco dos que afetam o mercado acionário.

Roberto Macedo, CFPTM (Certified Financial PlannerTM) e economista formado pela USP com Mestrado e Doutorado pela Universidade Harvard (EUA), é pesquisador da FIPE-USP.  Foi Secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Fazenda e Planejamento, funcionário do Banco Central e do Banco do Brasil.  E-mail: imprensa@bb.com.br. Este texto reflete a opinião do autor e não necessariamente a do BB; tem caráter apenas informativo e não deve ser tomado como recomendação de subscrição, compra ou venda de ativos, decisões estas de responsabilidade exclusiva dos investidores.

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Poupança versus fundos e o dilema do governo: tributar ou não a poupança

A julgar pela manchete principal da Folha de S. Paulo do último sábado, o presidente Lula desistiu de submeter ao Imposto de Renda (IR) os rendimentos de contas de poupança com saldo mensal superior a R$50 mil, mesmo na segunda e mais simples versão do projeto elaborado pela equipe econômica do governo.  A reportagem esclarece que a decisão ainda poderá ser repensada, se houver insistência do ministro da Fazenda, Guido Mantega. Mas, realisticamente, hoje são pequenas as chances de o projeto ser enviado ao Congresso com efetivo apoio do governo e de sua base política.

Examinaremos as razões que estariam a sustentar essa decisão, os dados da movimentação recente da poupança e dos fundos, e implicações para os investidores.


Em baixa a cotação da idéia

A lógica da idéia era a de que a Selic em queda traria o risco de uma fuga substancial de recursos da poupança para fundos de renda fixa.  Isto porque a primeira tem um rendimento fixo de 6,17% ao ano, mais a TR, ambos isentos de IR (para pessoas físicas e para pessoas jurídicas sem fins lucrativos), enquanto que sucessivas quedas da Selic levaram-na para 8,75% ao ano, em tese tornando a poupança claramente atrativa. Simulações de rendimentos desses fundos baseadas no recebimento integral da Selic, com um IR de 20% e taxas de administração próxima de 1% mostram isso. A tributação de rendimentos da poupança contribuiria para reverter esse quadro.

Acontece que na prática ainda não se verificou uma fuga preocupante para a poupança, conforme dados que mostraremos mais à frente.  Várias razões explicariam isso: (1) instituições financeiras reduziram taxas de administração de fundos; (2) houve também as que modificaram carteiras desses fundos, procurando ampliar seus rendimentos, inclusive acima da Selic; (3) investidores estariam em compasso de espera, aguardando decisões governamentais quanto ao IR da poupança e, eventualmente, até de redução do IR sobre os fundos; (4) nestes, a maior parte dos investimentos vêm de pessoas jurídicas com fins lucrativos, que já são tributadas na poupança, com um IR de 20% sobre os rendimentos; (5) pequenos investidores, que constituem a maioria dos que aplicam na poupança, conhecem bem suas fáceis regras, e apreciam sua facilidade operacional próxima de uma conta corrente, não tendo maior interesse pelos fundos mesmo com a Selic atual, dado que não dominam bem as suas regras e entendem que eles não têm essa mesma facilidade; (6) o mercado hoje aposta numa subida da Selic em 2010, na esteira da recuperação da economia, o que levaria a pressões inflacionárias e a uma reação do Banco Central, aumentando  a taxa básica de juros e a atratividade dos fundos.

E há vários argumentos políticos que também estão a minar a idéia: (1) sua impopularidade agravada porque há quem fale de uma “mexida na poupança”, procurando associá-la ao bloqueio de depósitos no início do governo Collor, em 1990; (2) o temor de repercussões negativas para o governo, particularmente porque seria instituída às vésperas de um ano eleitoral; (3) o receio de que a discussão no Congresso prejudicaria o andamento dos projetos do Pré-sal, tidos como prioritários pelo governo.

Tudo isso explica porque o governo se inclina por deixar as coisas como estão.


Os dados da movimentação dos fundos e da poupança

São apresentados a seguir, cobrindo o patrimônio líquido (PL) em setembro de 2009 dos cinco maiores fundos, e sua captação líquida no mês e no ano até esse mês. Para a poupança, o saldo das contas no final do mesmo mês e essa captação.


Fundos de Investimentos com maior PL no Final de Setembro de 2009,  e Captação Líquida no Mês e no Ano até o Mês – Valores em R$ bilhões


Tipo do FundoPL em 30/09/2009

Captação líquida

em setembro

Captação líquida no

ano até setembro

Referenciado DI

191,9

1,4

-5,1

Renda Fixa

362,8

-2,0

6,6

Multimercados

323,1

9,3

31,5

Previdência

137,9

6,2

15,9

Ações

152,0

-0,1

0,9

Total de Fundos (*)

1.305,3

9,0

72,6


 Fonte: ANBID – Boletim Fundos de Investimentos – Setembro, 2009.
(*) Inclui fundos de Curto Prazo, Cambial, Dívida Externa, FIDC, Imobiliário e Participações.  Não inclui os fundos “off-shore”. (www.anbid.com.br)

Cadernetas de Poupança (*) –   Saldo das Contas em Setembro de 2009, Captação Líquida no Mês e no Ano até o Mês -  Valores em R$ bilhões


Saldo das contas em

30/09/2009

Captação líquida

em setembro

Captação líquida

no ano até setembro

299,9

3,5

15,7


 Fonte: Banco Central – Relatório sobre a Poupança – Setembro, 2009. (*) Inclui SBPE e Rural


Quanto aos fundos, relativamente ao seu patrimônio percebe-se que os DI e de renda fixa propriamente dita têm apresentado uma baixa captação no ano (negativa no caso dos fundos) se comparada à dos fundos multimercados e de previdência. Contudo, não se trata necessariamente de uma fuga para a poupança, pois os dois últimos fundos também têm componentes de renda fixa.

Quanto à poupança, verifica-se que sua captação no ano, em reais e  relativamente ao saldo das contas, superou a dos fundos DI e de renda fixa, mas isso pode ter representado tanto uma saída destes como recursos novos atraídos pela renovada atratividade da poupança e/ou à espera da decisão do governo.  Essa atratividade também transparece de outra forma, pois se sabe que desde abril a captação líquida da poupança tem sido positiva, não mostrando oscilações anteriormente comuns.

Contudo, como foi visto essa atração ainda não se revelou suficiente para induzir maiores movimentos em termos absolutos e relativos na direção da poupança, a ponto de levar o governo a insistir com a idéia de tributar os rendimentos da poupança.


Implicações para os investidores

Já estamos em meados de outubro, e para vigorar em 2010 a tributação de rendimentos da poupança precisaria ser aprovada até o fim do ano. Confirmada a ausência de alterações, esse será o melhor cenário para o investidor, pois terá preservada a poupança como alternativa, ao mesmo tempo em que nos fundos se beneficiará de vantagens que as instituições financeiras passaram a oferecer aos investidores, como as reduções de taxas de administração e a reestruturação de carteiras para assegurar maiores rendimentos. Quem não sabe dessas novidades deve conversar com seu Gerente de
Relacionamento para conhecê-las.

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Roberto Macedo, CFP® (Certified Financial Planner(R)®) e economista formado pela USP com Mestrado e Doutorado pela Universidade Harvard (EUA), é pesquisador da FIPE-USP.  Foi Secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Fazenda e Planejamento, funcionário do Banco Central e do Banco do Brasil.  E-mail: imprensa@bb.com.br. Este texto reflete a opinião do autor e não necessariamente a do BB; tem caráter apenas informativo, e não deve ser tomado como recomendação de subscrição, compra ou venda de ativos, decisões estas de responsabilidade exclusiva dos investidores.  

Cenário pós-ata do Copom de setembro de 2009


A ata da reunião, concluída no dia 2 deste mês, na qual o Comitê de Política Monetária (Copom), do Banco Central (BC),  decidiu manter a Selic, ou taxa básica de juros em  8,75% ao ano, foi bastante elucidativa quanto às razões que levaram à decisão.

Vamos examiná-las no que significam para um futuro que alcança 2010, bem como inferir da ata o que indica quanto aos próximos movimentos da Selic. Concluiremos com implicações para investidores.

Ata,  atitude e futuro da Selic

Lendo a ata, a atitude do Copom parece comparável à de um médico que fez um diagnóstico, aplicou  o remédio em que é especialista,  conforme as dosagens que lhe pareceram adequadas, e viu o paciente reagindo favoravelmente. Agora viu com tranqüilidade os bons resultados que, na sua avaliação, novos exames clínicos vêm revelando, e optou por não fazer qualquer alteração no tratamento.

Recorde-se que no seu atual ciclo de atuação o Copom foi chamado a intervir quando sobreveio, no último trimestre de 2008, a recessão desencadeada pela crise econômico-financeira internacional. Observando a economia prostrada, recorreu ao tratamento de sua especialidade, reduzindo a Selic de 13,75% ao ano para 8,75% ano, esta última dosagem na reunião de julho, o que levou uma queda total de cinco  pontos percentuais, ou 36,4% da taxa que prevalecia no início do processo.

O que viu na reunião do início deste mês? Olhando a inflação do IPCA, concluiu que, em síntese, “o conjunto das informações disponíveis sugere que a aceleração inflacionária observada no ano passado vem sendo superada”, o que também confirmou ao analisar os resultados dos IGPs.

Passando à atividade econômica, constatou que “o comportamento da série da indústria geral, e de seus componentes, sugere que o piso da produção ocorreu em dezembro-janeiro, sendo seguido por gradual recuperação”. Mas, acrescentou que, observados os indicadores de utilização de capacidade compilados pela CNI e pela FGV, “... as evidências sugerem que seguem reduzidas as pressões de demanda sobre a capacidade produtiva da indústria...”.  E que “o mercado de trabalho parece tender a um comportamento mais favorável, no qual aspectos de resiliência predominariam em relação a sinais de perda de vigor.”

Quanto ao comércio, concluiu que “os dados ... vêm desde o início do ano evidenciando recuperação influenciada, principalmente, pela alta nas vendas de veículos, em resposta a incentivos setoriais concedidos pelo governo e à melhora no acesso ao crédito automotivo.

Na frente externa, encontrou sinais de que “...a tendência de diminuição da aversão ao risco e da escassez de fluxos de capitais, bem como certa preocupação entre os investidores quanto à situação fiscal nos EUA, continuou ensejando movimento de recuperação de moedas, de economias emergentes e maduras, ante o dólar americano.” Ou seja, de valorização do real, que alivia pressões inflacionárias.

Com esses elementos e outros, como sua visão da taxa de câmbio, dos preços do petróleo, da questão fiscal e das expectativas do mercado financeiro, passou à inflação futura, que é a mais relevante para o seu processo decisório. Aí constatou que no que chama de cenário de referência, “a projeção para a inflação de 2009 reduziu-se em relação ao valor considerado na reunião do Copom de julho e se encontra abaixo do valor central de 4,50% fixado como meta...”. No que chama de cenário de mercado, “...a projeção de inflação para 2009 também se reduziu em relação ao valor considerado na última reunião do Copom e também se encontra abaixo do valor central da meta para a inflação. Para 2010, no cenário de referência, a projeção se elevou e se encontra em torno da meta; ao passo que recuou no cenário de mercado, mas permanece em torno da meta.”  Ou seja, uma visão também tranqüilizante.

Sendo assim, por que não uma nova queda da Selic?

Mais ao final da ata, o Copom enfatizou novamente que “...a perda de dinamismo da demanda doméstica gerou ampliação da margem de ociosidade da utilização dos fatores, ocasionando redução das pressões inflacionárias”, mas que no curto prazo, “os riscos para a consolidação de um cenário inflacionário benigno derivam ... da atuação de mecanismos de reajuste que contribuem para prolongar no tempo pressões inflacionárias observadas no passado, como evidencia o comportamento dos preços dos serviços,  e ... uma eventual elevação dos preços de commodities. No médio prazo, o risco advém dos efeitos, cumulativos e defasados, da distensão das condições financeiras e do impulso fiscal sobre a evolução da demanda doméstica, levando-se em conta a dinâmica do consumo e do investimento, em contexto de retomada da utilização dos fatores de produção.”

Nessa linha, ressaltou, mais uma vez, que há defasagens importantes entre a implementação da política monetária e seus efeitos tanto sobre o nível de atividade como sobre a inflação. E que “... tais considerações ganham ainda mais relevância em momentos cercados por mais incerteza.” E mais: “Nessas circunstâncias, ... o Copom avalia que a política monetária deve manter postura cautelosa, com vistas a assegurar a manutenção da convergência da inflação para a trajetória de metas.

Ou seja, está tudo bem, mas agora é preciso ter cautela,  aguardar novas reações do paciente, e só eventualmente atuar sobre a dosagem da Selic.

Como não vemos perspectivas de esse quadro se alterar no horizonte imediato, a perspectiva para as reuniões do Copom que ainda se realizarão este ano, a serem concluídas em 21 de outubro e 9 de dezembro, é de estabilidade da taxa. Tampouco vemos maiores alterações para 2010, talvez um pequeno aumento se a economia se recuperar mais fortemente e os preços reagirem com algum vigor. Com os esclarecimentos da ata, uma queda se tornou agora menos provável.

Implicações para investidores

Com essa perspectiva de uma Selic estável, investidores terão melhores condições de reexaminar as alternativas de aplicação, levando-se em conta seus elementos fundamentais, a liquidez, o risco e a rentabilidade. De novidade, deverá vir a decisão final do governo quanto à tributação da caderneta de poupança, pois exigiria aprovação até o dezembro, parecendo-nos hoje que deixará as coisas como estão.

Insistimos novamente que muito importante, e particularmente neste momento em que a Selic se estabiliza,  são as conversas com os Gerentes de Relacionamento, para saber o que se passa com os vários fundos de renda fixa disponíveis, pois sua remuneração se alterou na sequência de reduções das taxas de administração e de mudanças na composição da sua carteira de títulos, buscando elevar essa remuneração.
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Roberto Macedo, CFPTM (Certified Financial PlannerTM) e economista formado pela USP com Mestrado e Doutorado pela Universidade Harvard (EUA), é pesquisador da FIPE-USP.  Foi Secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Fazenda e Planejamento, funcionário do Banco Central e do Banco do Brasil.  E-mail: imprensa@bb.com.br. Este texto reflete a opinião do autor e não necessariamente a do BB; tem caráter apenas informativo e não deve ser tomado como recomendação de subscrição, compra ou venda de ativos, decisões estas de responsabilidade exclusiva dos investidores.

Balanço da crise econômica mundial e no Brasil

Roberto Macedo


Como a crise econômica permanece, examinaremos seu estágio atual. Vamos ver o que se passa lá fora e os desenvolvimentos no Brasil, de olho em informações recentes e concluindo com implicações para  investidores.


A crise lá fora

No caso da economia mundial, em particular a dos EUA, essas informações revelam uma economia bastante combalida pelos efeitos da crise, mas pelo menos não se agravando e mostrando alguns sinais de recuperação.

Assim, na semana passada nos EUA foram anunciadas melhorias nos indicadores de seguro-desemprego, e um novo crescimento do indicador relativo ao início de construção de moradias e do de permissões para novas construções, estes dois últimos particularmente importantes, dado o impacto que a crise teve nesse setor.

Na economia global, a melhoria foi refletida pelo fato de que o Fundo Monetário Internacional (FMI) recentemente reviu para cima suas projeções do crescimento econômico mundial neste e no próximo ano. Na média, houve um aumento de meio ponto percentual nas projeções divulgadas trimestralmente, a última em julho, relativamente às de abril.

Particularmente boa foi na semana passada a de que o PIB da China cresceu 7,9% no segundo trimestre, acima do resultado do primeiro (6,1%), e das previsões dos analistas (6,1%), o que no Brasil repercutiu favoravelmente sobre as ações da Vale e de empresas do setor siderúrgico.


E no Brasil?

Dado esse contexto mundial onde a China começa a mostrar maiores sinais de reativação, mas sem ter condições de arcar sozinha com a recuperação, no Brasil permanece ainda prejudicado o estimulo que vinha de fora para dentro para o crescimento do nosso PIB, mediante ampliação das nossas exportações. Entretanto,  o segundo motor da economia, o seu crescimento interno, vem dando sinais claros de uma recuperação,  ainda que sem retomar a velocidade que tinha antes da crise.

Assim, nos últimos dias vieram do IBGE os dados do comércio varejista que em maio surpreenderam os analistas subindo 0,8% relativamente a abril, e 4% acima de maio de 2008.

Contudo, esses dados do comércio, que aqui não mostrou uma queda sensível como efeito da crise, devem ser tomados com cautela porque na sua base preponderam  informações dos supermercados, um setor dominado pela demanda de bens de consumo não duráveis, a qual se sustenta melhor mesmo em períodos de crise,  em face da prioridade dada a esses bens pelos consumidores.

No caso do crédito merece destaque um novo indicador nacional produzido pelo Serviço Central de Proteção ao Crédito (SCPC),  de São Paulo. Também divulgado na semana que passou, ele cobre dados desse SCPC e de entidades congêneres em 2200 municípios do país,  abrangendo cerca de 20 milhões de consultas mensais a esses serviços quanto aos clientes que procuram lojas e instituições financeiras. Esse índice apresentou variação de 0,5% em junho com relação a maio,  registrando aumento pelo segundo mês consecutivo, e indicando que o credito ao consumidor está em fase de recuperação. Ademais, o índice mostra-se fortemente correlacionado com a produção industrial, pois diz respeito principalmente à demanda de bens duráveis e semi-duráveis que constituem parcela importante da produção industrial. Com isso, o resultado do índice nacional SCPC é também um indicador da melhoria desse setor.

De forma correspondente, na indústria a produção líquida do efeito sazonal mostrou em maio um aumento de 1,3% sobre o mês anterior. Conforme o IBGE, foi o quinto resultado mensal positivo e consecutivo, acumulando uma variação de 7,8% desde dezembro de 2008. Contudo, a produção permanece bem abaixo de seus maiores níveis anteriores,  pois o  indicador acumulado de janeiro a maio ficou 13,9% inferior ao resultado do mesmo período do ano passado. Mas, em compasso de melhoria,  pois no período janeiro-abril esse indicador havia revelado uma queda de 14,6%.

Registre-se também que na semana passada o Ministério do Trabalho anunciou que em junho último o saldo de admissões e desligamentos de empregados formais foi positivo em 119,5 mil trabalhadores, o melhor resultado deste ano, e até aqui já revelando recuperação de metade do número de empregos  perdidos durante a crise.

Olhando esse conjunto de indicadores, eles sustentam a expectativa de que os dados do PIB relativos ao segundo trimestre de 2009 já deverão mostrar uma melhoria quando divulgados,  fazendo com o que o PIB possa mostrar uma pequena taxa positiva. Se não nesse trimestre, pelo menos no terceiro, superando assim os dois trimestres negativos, o ultimo de 2008 e o primeiro de 2009, que tecnicamente caracterizaram uma recessão no Brasil.


Implicações para investidores

No mercado financeiro, o impacto dessas informações da semana passada foi o de nova alta da Bovespa,  de 5,8% na semana,  voltando a superar os 50 mil pontos e concluindo-a com 52.072. Mas, note-se que no início de junho ela havia já havia chegado a 54.48l pontos, mas depois não resistiu a uma onda de más notícias levando-a a 49.177 pontos no dia 8 de julho.
 Essa permanece a característica do mercado de ações, que sobe e desce ao sabor das notícias,  estando ainda longe de marcar uma tendência que inspire maior confiança aos investidores. Há, contudo, espaço para escolhas seletivas daqueles que garimparem informações, mas sempre atentos aos desenvolvimentos nacionais e internacionais, em particular a entrada ou não de recursos externos.

Nesse contexto,  e apesar da queda da sua remuneração, a renda fixa brasileira  permanece um refúgio seguro e rentável, com sua  remuneração ainda entre as maiores do mundo. 
 Nesta semana, a expectativa dos analistas é de uma nova, mas menor queda da Selic, o que deverá esquentar novamente o debate em torno do temor governamental de uma fuga dos fundos para a poupança, e da sua propalada intenção de tributar os rendimentos dessa aplicação e de aliviar a dos fundos. Com o governo esperando para ver a reação dos investidores, a movimentação mais interessante é a das próprias instituições financeiras, ao reduzirem  direta ou indiretamente as taxas de administração dos fundos, um assunto que os investidores devem acompanhar com grande atenção.

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Roberto Macedo, CFPTM (Certified Financial PlannerTM) e economista formado pela USP com Mestrado e Doutorado pela Universidade Harvard (EUA), é pesquisador da FIPE-USP.  Foi Secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Fazenda e Planejamento, funcionário do Banco Central e do Banco do Brasil.  E-mail: imprensa@bb.com.br. Este texto reflete a opinião do autor e não necessariamente a do BB; tem caráter apenas informativo e não deve ser tomado como recomendação de subscrição, compra ou venda de ativos, decisões estas de responsabilidade exclusiva dos investidores. 

Cenário pós ata do Copom de abril de 2009

Roberto Macedo

O Comitê de Política Monetária (COPOM), do Banco Central (BC), divulgou a ata da reunião de abril na qual reduziu a taxa básica de juros ou SELIC em um ponto percentual (p.p.), trazendo-a de 11,25 para 10,25% ao ano. A ata veio bastante esclarecedora, não só quanto às razões que justificaram a decisão, mas também ao dar uma visão bem clara da disposição do Copom em continuar reduzindo a taxa além da própria percepção que o mercado financeiro tinha até então. O Copom foi mais longe, pois na ata procurou até mesmo mudar essa percepção do mercado. Vamos examinar trechos importantes do documento, inclusive o que fala da necessidade ajustar a remuneração líquida dos fundos de renda fixa e da poupança com o objetivo de garantir a competitividade dos primeiros no processo de redução da Selic. Concluiremos com implicações para investidores.

Trechos importantes da ata

Resumindo o diagnóstico que levou a decisão, como de hábito o Copom reviu os dados da inflação passada, que apresentaram um quadro favorável à decisão. Reviu também as condições da economia, que a mostraram ainda prostrada pela queda que sofreu no ultimo trimestre de 2008, e com alguns indícios de recuperação, mas ainda longe de sair de sair desse nível a que caiu. Como sempre mais preocupado com a inflação futura, o Copom apresentou suas tradicionais estimativas quanto a isso nos dois cenários que usualmente utiliza. Sua conclusão foi a de que em ambos dos cenários as previsões para 2009 “... encontram-se sensivelmente abaixo do valor central de 4,50% para a meta fixada pelo Conselho Monetário Nacional (CMN)”. Para 2010, o mesmo diagnóstico foi encontrado para um dos cenários. No outro, as projeções ficaram em torno desse valor. O trecho mais interessante fala da disposição do Copom de continuar o processo de redução da Selic, redigido nestes termos: “O Comitê entende que o desaquecimento da demanda, motivado pelo aperto das condições financeiras e pela deterioração da confiança dos agentes, ainda que nos dois casos se observe alguma melhora na margem, bem como pela contração da economia global, criou importante margem de ociosidade dos fatores de produção que não deve ser eliminada rapidamente (grifo nosso) em um cenário de recuperação gradual da atividade econômica. Esse desenvolvimento deve contribuir para conter as pressões inflacionárias, mesmo diante das consequências do processo de ajuste do balanço de pagamentos e da presença de mecanismos de realimentação inflacionária na economia, abrindo espaço para flexibilização da política monetária.” Recorde-se que essa questão da demanda sempre preocupou o Copom e foi o aquecimento dela nos três trimestres iniciais de 2008 que o levou a um ciclo de aumentos da taxa de juros, depois substituído pelo atual, de reduções, que sobreveio na sequência da presente crise econômico-financeira. Ademais, as notícias de que a economia havia dado sinais de melhora haviam levado muitos analistas a imaginar que o Copom interromperia mais cedo o processo de redução, percepção essa refletida no ultimo relatório Focus, o de 30 de abril, o qual previu que essa taxa ficaria em 9,25% no final do ano, ou seja, admitindo apenas mais 1 p.p. de redução, e que voltaria a subir em 2010, ao final do qual chegaria a 9,50. A propósito, o trecho citado deixa claro que hoje o Copom admite que a oportunidade de reduzir a Selic vai mais longe do que imaginava o mercado, e a ata deve afetar as expectativas que se evidenciarão nesta e nas próximas semanas por meio do relatório Focus. Sob esse aspecto, o Copom foi ainda mais explicito ao dar um recado ao mercado, afirmando que: “ ... entende também que a melhora do cenário prospectivo para a inflação em 2009 e em 2010 não foi, até o momento, incorporada na estrutura a termo da taxa de juros.” No mesmo dia em que veio a ata, o mercado logo promoveu um ajuste da curva de juros futuros, iniciando um movimento para trazê-los para níveis mais condizentes com essas expectativas agora reformuladas pela ata. Na esteira desse recado, também foram negativamente afetadas as expectativas de que o Copom necessariamente irá subir a Selic em 2010.

Rendimentos dos Fundos X Rendimentos da Poupança

Como outros analistas, há tempos insistimos que o governo precisa resolver o problema de que novas reduções da Selic acabariam por tornar mais atrativa a aplicação na poupança relativamente aos fundos de renda fixa, criando dificuldades para o próprio governo, pois esses fundos são fundamentais para o financiamento da divida pública. Trata-se de problema muito sensível para o governo, pois tem implicações políticas muito fortes, e ele vem tratando do assunto com bastante cautela. Com relação a isso, ainda que implicitamente, e também com muita cautela, a ata deu à necessidade de resolver o problema um senso de urgência ao afirmar que “... o Comitê entende que a continuidade do processo de flexibilização monetária torna premente (grifo nosso) a atualização de aspectos, resultantes do longo período de inflação elevada, que subsistem no arcabouço institucional do sistema financeiro nacional.” Para o mercado, essa referência ao “arcabouço institucional” significa uma referência às regras da poupança e o trecho grifado denota esse senso de urgência. No mesmo dia em a ata foi divulgada, voltaram a esquentar as notícias de que o Governo se aproxima de resolver esse assunto. No momento a hipótese mais verossímil é a de que passará a ser cobrado Imposto de Renda (IR) também das pessoas físicas nas aplicações em poupança, a partir de um saldo de valor ainda não determinado, numa medida eventualmente combinada com redução do IR sobre rendimentos dos fundos.

Implicações para o investidor

Fica claro, portanto, que na renda fixa as duas questões mais relevantes do momento são essas da pendência que envolve os fundos e a caderneta de poupança, e a perspectiva, agora reforçada, de novas reduções da Selic. Quanto a essa pendência, o investidor pode ficar tranqüilo, pois o governo não iria prejudicar a indústria de fundos, pois precisa dela. Além disso, a poupança de pequeno valor deverá ser preservada de medida governamental redutora de sua remuneração, a qual só seria adotada se a Selic chegasse muito perto do ganho da poupança, o que ainda não está no horizonte. Agora, está também mais claro um cenário de queda tanto da remuneração nominal quanto real dos fundos de renda fixa, pois a inflação está se estabilizando em torno da meta enquanto a remuneração nominal acaba de cair e deverá sofrer novas quedas, ressalvada uma alteração do cenário atual. De qualquer forma, ainda são remunerações atrativas em termos internacionais e, ainda, particularmente nesta época de crise onde outros agentes econômicos estão perdendo rendimentos, tanto de salários que se vão com empregos perdidos e de lucros que caem na esteira da crise.
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Roberto Macedo, CFPTM (Certified Financial PlannerTM) e economista formado pela USP com Mestrado e Doutorado pela Universidade Harvard (EUA), é pesquisador da FIPE-USP. Foi Secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Fazenda e Planejamento, funcionário do Banco Central e do Banco do Brasil. E-mail: imprensa@bb.com.br. Este texto reflete a opinião do autor e não necessariamente a do BB; tem caráter apenas informativo e não deve ser tomado como recomendação de subscrição, compra ou venda de ativos, decisões estas de responsabilidade exclusiva dos investidores.

Cenário pós-redução da Selic em abril de 2009

            O Comitê de Política Monetária (Copom), do Banco Central (BC),  na sua reunião concluída na quarta-feira da semana passada, decidiu reduzir a Selic, ou taxa básica de juros, em l ponto percentual (p.p.), fixando-a em 10,25% ao ano. A redução veio sem nenhuma surpresa, pois a esmagadora maioria dos analistas, inclusive este, havia apostado nesse número.

            Vamos examinar o comunicado da decisão e razões que a explicam, as quais poderão ou não coincidir com as da ata a ser divulgada nesta semana. Além disso, vamos apresentar algumas considerações sobre o que pode acontecer na próxima reunião, e buscar implicações para os investidores, sempre tendo como pano de fundo o estado da economia nesta fase da crise.

 

O comunicado e a decisão

O comunicado com que o Copom anunciou a redução da Selic veio em termos bem simples, dizendo apenas que  “Avaliando o cenário macroeconômico e visando ampliar o processo de distensão monetária, o Copom decidiu reduzir a taxa Selic para 10,25% a.a., sem viés, por unanimidade.”

Em particular, não veio referência à redução como “parte relevante do processo de ajuste”, como já aconteceu no passado, o que dava claramente a entender que novas reduções viriam, e provavelmente de magnitude menor do que a realizada.

Note-se, entretanto, que o Copom afirmou que há um “processo de distensão monetária” em curso, e não disse que foi encerrado com a decisão, mantendo assim a perspectiva de novas reduções. De qualquer forma, a menos que a ata venha com termos mais esclarecedores, ficou mais difícil o trabalho dos analistas quanto ao que virá na próxima reunião. Um dos motivos, como veremos abaixo, é que a economia está mostrando alguns sinais de reação.

            Quanto à redução da Selic em si, ela veio porque a economia continua em crise e os indicadores de uma inflação em queda a justificam. Conforme mostramos no nosso artigo de 20 de abril, tanto o IPCA como o IGP-M e o IGP-DI vinham caindo desde janeiro deste ano até março, tanto nas suas taxas mensais como nas  de 12 meses, sendo que esses dois IGPs mostraram deflação em março e o segundo desde fevereiro.

            Em abril, o IGP-10, apurado até esse dia voltou a mostrar deflação, caindo 0,71%, enquanto que o IGP-M do mês, divulgado no dia 29, também mostrou queda, de 0,15%. Já o IPCA-15 acelerou sua taxa para 0,36%, bem acima da taxa de março (0,20), mas ao que tudo indica por questões sazonais. Em particular, um aumento médio de 1,82% nos salários das empregadas domésticas, na esteira do reajuste do salário mínimo, e uma forte elevação dos preços dos cigarros (6,62%), puxado pelo maior IPI fixado no início do mês de abril para esse produto.

Quanto à inflação futura, o Copom deve ter feito seus exercícios usuais, que predominantemente devem ter apontado para uma inflação em queda se também avaliada dessa forma, conforme deverá ser esclarecido pela ata do encontro.

            É sobre a evolução da economia que há mais novidades. Conforme nosso artigo da semana passada, tanto na indústria como na agricultura e no comércio, a situação da economia é que houve uma queda na virada do ano, mas ela não vem se agravando, mostra alguma melhora  e pelo lado do crédito também estamos longe do aperto ocorrido nos países mais atingidos pela crise.

            Na semana passada vieram novos indícios na mesma linha, conforme a sondagem conjuntural da FGV junto a empresários, em abril, a qual mostrou indicadores também sensivelmente abaixo dos  do mesmo período do ano anterior, mas com alguma recuperação relativamente a março tanto da utilização da capacidade instalada e principalmente da confiança dos empresários.

            Cabe, entretanto, a pergunta: por que 1 p.p. e não novamente 1,5 p.p?  Uma das razões deve ter sido esse estado da economia, mais animador.  Outra seria que o Copom permanece sob pressão para fazer reduções maiores,  e deve ter entendido conveniente não gastar muita munição em mais uma delas, reservando alguma para o futuro e assim alongar o tal “processo de distensão monetária.”     

 

O cenário à frente para a Selic

            Para a próxima reunião, com final em 10 de junho, vamos começar com uma previsão novamente de 1 p.p.  O valor seria esse porque apesar dos sinais de alguma recuperação da economia eles ainda são fracos, e até a reunião economia ainda deverá continuar prostrada pelo baque que sofreu na virada do ano.

            Também como já assinalamos em artigos anteriores, um elemento importante a ser agregado no exame desse assunto é que a diminuição da Selic reduz as vantagens dos fundos de renda fixa relativamente à caderneta poupança. Isso é um problema para o governo, e a solução não veio na semana anterior à da reunião, conforme chegou a ser anunciado. Mas, virá em algum momento, pois o Copom não pode continuar reduzindo a Selic sem que o governo resolva essa pendência. O investidor deve estar atento, e o cenário mais provável é um em que será mantida a atratividade da caderneta para o pequeno investidor e dos fundos para os demais.

            É bem provável que o assunto se decida antes da próxima reunião do Copom, pois essa última redução da Selic deve ter agravado o problema.

 

Implicações para o investidor

            Quem está nos fundos e agora pensa na poupança deve acompanhar o desfecho dessa pendência, mas desde já sabendo que o governo não irá prejudicar a indústria de fundos, pois precisa deles para financiar sua dívida. Quanto à remuneração deles e, de um modo geral, das aplicações direta ou indiretamente ligadas à Selic, ela deverá continuar caindo em termos nominais, mas com isso compensado em parte pela queda da inflação, daí decorrendo remunerações atrativas em termos reais, particularmente se comparadas às disponíveis em outros países.

            Em situações de queda da Selic, aplicações pré-fixadas, inclusive em fundos concentrados em papéis desse tipo, costumam se destacar, pois o rendimento real tende a subir com a queda da inflação ao mesmo tempo em que a taxa nominal é mantida, e não cai como a das aplicações ligadas à taxa básica de juros.

            Com o alento que a economia vem mostrando, aqui e lá fora, a Bovespa também o segue, tendo superado os 45 mil pontos e mostrado sustentação.  Riscos de queda e de volatilidade permanecem, e quem optar por ela deve estar ciente desses riscos, e ter disposição para assumi-los, bem como condições de enfrentar eventuais perdas.

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Roberto Macedo, CFPTM (Certified Financial PlannerTM) e economista formado pela USP com Mestrado e Doutorado pela Universidade Harvard (EUA), é pesquisador da FIPE-USP.  Foi Secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Fazenda e Planejamento, funcionário do Banco Central e do Banco do Brasil.  E-mail: imprensa@bb.com.br. Este texto reflete a opinião do autor e não necessariamente a do BB; tem caráter apenas informativo e não deve ser tomado como recomendação de subscrição, compra ou venda de ativos, decisões estas de responsabilidade exclusiva dos investidores.

Cenário das aplicações após rendimentos de fevereiro de 2009

No mês de fevereiro, como em janeiro,  o ouro liderou as aplicações quando avaliadas nos seus rendimentos. Na renda fixa, a queda da Selic em janeiro, de 13,75% para 12,75% ao ano, aliada ao menor número de dias úteis, fez com que em fevereiro os rendimentos das aplicações dentro da categoria geral de renda fixa fossem menores do que em janeiro. Em cada mês, o Ibovespa ficou nos extremos, mostrando entre as aplicações analisadas o pior desempenho em fevereiro, depois de ser o melhor de janeiro.

Como a inflação bem comportada e a Selic ainda bem alta, os rendimentos de aplicações direta ou indiretamente ligados a essa taxa se saíram bem em ambos os meses superando claramente a inflação medida pelo IGP-M, que teve variação negativa em janeiro e abaixo de 0,30 em fevereiro. E, também,  a do IPCA, este com taxas positivas em ambos os meses, mas abaixo da Selic. A poupança também ganhou do IGP-M, mas perde do IPCA previsto para fevereiro.

Vamos examinar números desses dois meses e o cenário que vislumbramos à frente com as implicações para os investidores.

 

Os números do primeiro bimestre de 2009

A tabela abaixo apresenta para os meses de janeiro e fevereiro os rendimentos das sete aplicações financeiras que atraem o maior interesse dos investidores.   Inclui também os números da taxa Selic e dos dois índices de inflação mais levados em conta pelo mercado, o IPCA e o IGPM. O rodapé contém as fontes e notas técnicas relevantes para entender o significado desses números.

 

Taxa Selic, Rendimentos Nominais(*) de Aplicações e Índices de Inflação (IPCA e IGP-M) em Janeiro e Fevereiro de 2009 – Em %

Selic, Aplicações e Índices de Inflação

Janeiro

Fevereiro

Taxa Selic

1,10

0,90

Fundos Referenciados DI

1,06

0,95

Fundos Renda Fixa

1,05

0,92

CDBs(**)

1,01

0,81

Poupança (***)

0,68

0,55

Ibovespa

4,66

-2,84

Dólar Comercial

-0,69

2,24

Ouro BM&F – Spot

5,55

3,70

IPCA(****)

0,48

0,59

IGP-M

-0,44

0,26

Fontes:  Informações publicadas  por  jornais  na virada dos meses, baseados em  informações de instituições do mercado.    Nos casos  dos  fundos e dos CDBs há diferenças entre as fontes derivadas de  critérios de levantamento. Em razão disso, e de algumas observações que se seguem, o investidor deve examinar os  próprios rendimentos que obteve. (*) Salvo menção  em  contrário, rendimento bruto,  sem  Imposto de  Renda(IR) quando aplicável  e  taxas  de  administração, se  cabíveis;  (**)  taxa para o primeiro dia  do mês;  (***) rendimento  relativo às contas  com   vencimento no primeiro dia útil  do mês  seguinte; (****) IPCA  de fevereiro conforme previsão do boletim  Focus-Relatório de Mercado, de  20/2/09.

 

 

            Além dos aspectos já abordados inicialmente, a tabela também mostra o dólar com variação negativa em janeiro e positiva em fevereiro, mas sem subir muito ou despencar, com os dados diários indicando uma variação entre R$2,20 e R$2,40 por dólar nesses dois meses.

            O ouro liderou as aplicações em dois meses, descolando-se das variações do dólar, e indicando um movimento típico de crises financeiras, em que investidores buscam refúgio nesse metal  buscando preservar o valor de seu patrimônio,  e também obter ganhos com a valorização do ouro.

                       

O cenário à frente

            A tabela abaixo mostra o cenário que contemplamos no momento. As aplicações em renda fixa têm um horizonte em torno de três meses, exceto a poupança, de cenário que alcança o meio do ano.  Este também vale para Ibovespa e o câmbio, dado que o cenário previsto para os dois deve se estender por um período de tempo maior.

 

Cenários para as principais aplicações financeiras em 2008

Aplicação

Cenário

Fundos DIRemuneração nominal em queda, dadas as perspectivas quanto às próximas decisões do Copom, mas com os ganhos reais mais firmes, tendo em vista que a inflação vem caindo.
Fundos de renda fixaMesmo cenário dos fundos DI. Fundos específicos de renda fixa poderão mostrar maiores rendimentos, pois podem ser favorecidos com a “marcação a mercado”  de papéis pré-fixados que tendem a se valorizar em momentos de queda da Selic.
CDBsEssa queda também pode oferecer boas perspectivas para os CDBs pré-fixados. Tanto nesse caso como nos pós-fixados, o rumo das operações de crédito dos bancos poderá afetar sua disposição de oferecer taxas bem atrativas nas negociações caso a caso, como aconteceu em 2008.
PoupançaCom a queda da Selic, deverá diminuir a diferença de remuneração que usualmente favorece os fundos DI e de renda fixa. Dada a ausência do IR para pessoas físicas e de taxa de administração, para as aplicações menores a poupança poderá aumentar sua atratividade relativamente a esses fundos, mas se esse movimento for forte o governo poderá mudar o cálculo da TR e os bancos reduzirem suas taxas de administração.
IbovespaDepois de chegar perto dos 30 mil pontos reagiu, mas vem mostrando dificuldades de superar efetivamente os 40 mil pontos, onde bate e volta. Em torno desse nível tem mostrado uma volatilidade menor, mas riscos de queda permanecem como evidenciados no mês de fevereiro. Como sempre, exige propensão ao risco e a seletividade adquire importância cada vez maior, conforme demonstram os maus resultados de muitas ações lançadas sob a forma de oferta pública inicial.
DólarValorização ocorrida no último trimestre do ano passado vem sendo contida com medidas do Banco Central para compensar as dificuldades de obtenção de crédito externo, medidas essas que se apóiam no grande volume de reservas. Evolução recente sugere que a taxa se acomodou entre R$2,20 e R$2,40.
OuroEm momentos de crise ganha atratividade, mas envolve o duplo risco do preço do metal e o da taxa cambial, exigindo conhecimentos mais amplos por parte do investidor e propensão para assumir esses riscos.

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Roberto Macedo, CFPTM (Certified Financial PlannerTM) e economista formado pela USP com Mestrado e Doutorado pela Universidade Harvard (EUA), é pesquisador da FIPE-USP.  Foi Secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Fazenda e Planejamento, funcionário do Banco Central e do Banco do Brasil.  E-mail:. Este texto reflete a opinião do autor e não necessariamente a do BB; tem caráter apenas informativo e não deve ser tomado como recomendação de subscrição, compra ou venda de ativos, decisões estas de responsabilidade exclusiva dos investidores.  

Próximo Copom: cairá a Selic mais um ponto percentual?

            Aproximando-se a reunião de 11 de março do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC), intensificaram-se as especulações quanto ao que decidirá na ocasião. Isso, depois que na sua última reunião, em janeiro, a Selic foi reduzida de 13,75% para 12,75% ao ano, marcando o início de um ciclo de quedas, pois a ata do encontro deixou claro que foi iniciado  “um processo de flexibilização da política monetária realizando de imediato parte relevante (grifo nosso) do movimento da taxa básica de juros...” .             Ou seja, se foi dito que era uma parte, isso indica que virão outras. Quanto a ser “parte relevante”, não significa muito no que tange ao que virá, apenas que não haverá excessos.

            Contudo, desde a reunião de janeiro a situação da economia deteriorou-se ainda mais, e a maioria dos analistas trabalha hoje com a expectativa de que virá outra queda de igual magnitude, ou seja, um ponto percentual ou 100 pontos-base.

            Vamos analisar as razões que sustentam essa hipótese a partir dos últimos dados sobre o desempenho da inflação e da economia, bem como apontar as implicações para os investidores.

 

Os dados mais recentes

            A tabela abaixo mostra dados de inflação de dezembro e janeiro, relativos a três índices acompanhados pelo mercado, o IPCA, de preços ao consumidor e cobertura nacional, que é o índice-meta seguido pelo Copom, o IGP-DI, também de cobertura nacional, no qual predominam os preços no atacado, e o IPC-FIPE, outro de preços ao consumidor, tendo como base a região metropolitana de São Paulo.

 

Indicadores de Inflação - Últimas Taxas Mensais e em 12 Meses

Dezembro de 2008 e Janeiro de 2009

Índices de inflação

Dezembro de 2008

Janeiro de 2009

    Indicadores de Inflação – Taxas Mensais

 

 

        IPCA

0,28

0,48

        IGP-DI

-0,44

0,01

        IPC-FIPE

0,16

0,46

      

 

 

    Idem, em 12 meses

 

 

         IPCA

5,90

5,84

         IGP-DI

9,10

8,05

         IPC-FIPE

6,16

6,11

                      Fontes: IBGE, FGV e FIPE.

 

            Esses três índices tiveram vários traços comuns no seu desempenho recente. Primeiro, vinham caindo desde outubro até dezembro do ano passado, num processo que acompanhamos em artigos anteriores.  Segundo, como se pode observar pela tabela, em janeiro experimentaram aumento das taxas mensais.  Terceiro, mesmo com esse aumento, as taxas em 12 meses registraram queda, significando que as mensais de janeiro de 2008 eram maiores que as de janeiro de 2009.

            Os analistas não deram maior importância a essa subida em janeiro, seja porque os números relativos a 12 meses mostraram decréscimo, seja porque viram nos aumentos do mês alguns acontecimentos com impacto apenas nele, como elevações dos preços de produtos agrícolas decorrentes  de problemas climáticos,  aumentos de tarifas de serviços de transporte coletivos e de mensalidades escolares.

Quanto aos dados relativos à atividade econômica, eles demoram mais a sair e os janeiro só recentemente passaram a ser divulgados.  Quanto ao que até então mostravam, desde o final do ano passado vários indicadores, como os de produção industrial, utilização de capacidade e emprego formal passaram a revelar uma economia em desaquecimento.  Na semana passada, causou grande impacto a notícia de que dados do Caged (Cadastro Geral de Empregados e Desempregados), revelaram novo resultado negativo em janeiro, com a perda de 101 mil empregos. O impacto veio também porque foi a primeira vez em 10 anos que o mês teve variação negativa do número de empregos.

Já em fevereiro, também gerou grandes manchetes a decisão da Embraer, de despedir 4.200 trabalhadores de um total de 21.400 mil que empregava. É uma notícia emblemática das dificuldades que algumas empresas exportadoras estão encontrando para colocar seus produtos num mercado mundial que passa por desaquecimento.

 

Na avaliação do mercado financeiro...

            Esse quadro da inflação com tendência de queda e não alterado pelos dados de janeiro, mais as más notícias sobre atividade econômica, alteraram significativamente a expectativa quanto ao que o Copom fará na próxima reunião.   Isso fica claro dos dados do Relatório Focus do BC, que levanta semanalmente as expectativas desses analistas, nesse caso com relação à taxa Selic no final de março, ou seja, após a reunião que o Copom realizará nesse mês.

            Assim, a mediana dessas previsões evoluiu de uma taxa de 12,50% ao ano no levantamento realizado 16/1/09, para 12%, em 6/2/09 e para 11,75%, em 13/2/09, mostrando assim que convergiu para uma queda de um ponto percentual, dado que a taxa atual é de 12,75% ao ano. Se a queda for menor será porque o Copom terá entendido que a maior inflação de janeiro não foi transitória e se prolongou em fevereiro, e/ou porque optou por diluir o ciclo de queda da Selic num número maior de etapas.   

 

Implicações para os investidores

            Conforme vimos assinalando em nossos artigos com a queda da inflação o ganho real das aplicações direta ou indiretamente ligadas a uma Selic de 13,75% ao ano passou a crescer. Assim, desde janeiro a queda já ocorrida e a prevista para essa taxa afetará apenas um pouco a remuneração que os investidores vinham recebendo antes dessa queda.  Portanto, não há por que deixar essas aplicações. Para quem quiser fazer isso, uma possibilidade que pode ser interessante é a das lastreadas em papéis pré-fixados, que costumam ficar mais atraentes quanto a perspectiva é de redução da Selic.

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Roberto Macedo, CFPTM (Certified Financial PlannerTM) e economista formado pela USP com Mestrado e Doutorado pela Universidade Harvard (EUA), é pesquisador da FIPE-USP.  Foi Secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Fazenda e Planejamento, funcionário do Banco Central e do Banco do Brasil.  E-mail: imprensa@bb.com.br. Este texto reflete a opinião do autor e não necessariamente a do BB; tem caráter apenas informativo e não deve ser tomado como recomendação de subscrição, compra ou venda de ativos, decisões estas de responsabilidade exclusiva dos investidores.  

Cenário dos juros pós-ata do Copom de janeiro-2009

           A ata mostrou o que levou o Comitê de Política Monetária (Copom), do Banco Central (BC), a iniciar um ciclo de redução da taxa básica de juros (Selic) na reunião concluída no dia 21, após a qual a taxa passou de 13,75% para 12,75% ao ano.

            Exceto quanto à sua magnitude, o movimento foi bem antecipado pelos analistas e a ata não trouxe maiores novidades quanto às percepções que levaram à decisão. Contudo, os analistas e o noticiário sobre o assunto enfatizam informações passadas, em particular as de inflação e de desempenho da economia.  Por sua vez, o Copom também faz exercícios quanto a inflação futura.  Como é ela que está na sua mira, esses exercícios são particularmente importantes.

Quanto ao futuro da Selic, a ata confirmou que o Copom deverá realizar outras reduções, mas não deu uma indicação de sua magnitude.  Ou melhor, disse que a redução de um ponto percentual é “parte substancial” do ajuste que realizará, mas isso não significa muita coisa, pois tudo depende de como o quadro evoluirá.

Vamos examinar alguns aspectos da ata, em particular os que dizem respeito ao futuro, e concluir com implicações para os investidores.

 

O olhar sobre o passado

            Observando o índice-meta de sua política monetária, o IPCA, o Copom iniciou a ata constatando que a inflação “...recuou de 0,36% em novembro para 0,28% em dezembro. Note-se que, ao contrário dos trimestres anteriores, no último trimestre de 2008 a inflação acumulada (1,09%) foi sensivelmente inferior àquela registrada em igual período de 2007 (1,43%).”

            Ainda a respeito desse índice assim concluiu: “Em síntese, o conjunto das informações disponíveis sugere que o ciclo inflacionário observado nos últimos trimestres tende a ser superado, gradativamente... . ”

            O IGP-DI também recebeu a atenção usual do Copom, pois é importante ao refletir principalmente os preços no atacado, os quais podem repercutir no IPCA no futuro. Além disso, o IGP-DI recebe grande influência da taxa cambial, cujas variações podem ter forte impacto sobre vários preços.

            Nesse caso, o Copom concluiu que ... “ ... não obstante os efeitos da depreciação cambial ocorrida desde agosto, tanto os preços agrícolas no atacado quanto os industriais têm registrado deflação na margem.”  Por deflação devem ser entendidas taxas de inflação negativas, como a registrada pelo mesmo índice em dezembro.

Quanto ao nível de atividade econômica, como de praxe o Copom examinou dados de produção industrial e de vendas do comércio varejista (do IBGE), e de uso da capacidade instalada na indústria (do IBGE e da CNI), também encontrando quedas na margem recente das séries desses dados.  Só no mercado de trabalho viu um quadro ambíguo, com redução de empregos formais nas pesquisas junto aos empregadores e estabilidade do índice de desemprego conforme avaliado nas famílias. Entretanto, os especialistas no assunto apontam que janeiro já deverá mostrar um quadro agravado deste último índice, pois no fim do ano há maior  emprego sazonal e muitas pessoas não procuram trabalho nessa época, deixando assim de serem contadas como desempregadas.

De qualquer forma, olhando o conjunto de informações a conclusão do Copom não mostrou ambigüidade. Textualmente, foi a de que “Em síntese, as evidências sugerem que ocorre redução das pressões de demanda sobre a capacidade produtiva da indústria”.  A propósito, registre-se que, conforme demonstrado nas atas das três últimas reuniões, essas pressões de demanda eram a grande preocupação do Copom e tinham forte papel na sua relutância em iniciar então um processo de redução da Selic.

 

Olhando o futuro do IPCA ...

            No que chama de cenário de referência (que supôs a manutenção da taxa de câmbio em R$2,35 e da taxa Selic ainda em 13,75% ao ano em todo o horizonte),  o Copom concluiu que “...a projeção para a inflação em 2009 recuou em relação ao valor considerado na reunião ... de dezembro e se situa abaixo do valor central de 4,50% para a meta ... . No cenário de mercado, que leva em conta as trajetórias de câmbio e de juros apuradas ... junto a analistas no período imediatamente anterior à reunião do Copom, a projeção ... para 2009 recuou ligeiramente em relação ao valor considerado na última reunião do Copom, mas ainda permanece ao redor do valor central para a meta de inflação. Para 2010, a projeção de inflação, segundo o cenário de referência, recuou em relação ao valor considerado no “Relatório de Inflação” de dezembro e se encontra sensivelmente abaixo do valor central de 4,50%, e no cenário de mercado, sofreu ligeira elevação e se encontra em torno do valor central de 4,50%.”

            Ou seja, um quadro que demonstra a inflação retornando a esse centro da meta que o Copom procura atingir.

            Também olhando o futuro  o Copom disse entender “...que a consolidação de condições financeiras restritivas por período mais prolongado deve exercer efeito contracionista significativo sobre a demanda e, ao longo do tempo, desempenhar pressão desinflacionária importante.”

            Sobre a taxa de juros no futuro, como no comunicado da reunião a ata diz que foi iniciado  “um processo de flexibilização da política monetária realizando de imediato parte relevante (grifo nosso) do movimento da taxa básica de juros...” . Contudo, isso apenas diz que o processo deve continuar e que o mercado não deve esperar, por exemplo, que a taxa irá cair logo à frente e abaixo, digamos, de 10% ao ano.

 

Para o investidor...

            Entretanto, essa atitude cautelosa significa muito, pois assegura que no horizonte que se pode contemplar as aplicações direta ou indiretamente ligadas à Selic continuarão atrativas. Isso porque se a inflação anual cair para 4,5%,  e mesmo com a Selic caindo para 10%,  a taxa real permanecerá praticamente a mesma e muito atrativa em termos absolutos e relativamente ao que se passa no âmbito do sistema financeiro internacional.  Evidentemente, só as aplicações maiores terão condições de obter rendimentos mais próximos dessa taxa, o que evidencia essa vantagem de ampliar a poupança.

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Roberto Macedo, CFP® (Certified Financial Planner®), economista formado pela USP com Mestrado e Doutorado pela Universidade Harvard (EUA), é pesquisador da FIPE-USP.  Foi Secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Fazenda e Planejamento, funcionário do Banco Central e do Banco do Brasil.  E-mail: imprensa@bb.com.br. Este texto reflete a opinião do autor e não necessariamente a do BB; tem caráter apenas informativo e não deve ser tomado como recomendação de subscrição, compra ou venda de ativos, decisões estas de responsabilidade exclusiva dos investidores.

 

Economia enfraquecida e inflação menor prenunciam queda da Selic

            A semana passada mostrou novos dados de indicadores econômicos todos eles confirmando tanto o desaquecimento da economia como a queda da inflação, reforçando assim dados anteriores que apontavam nessa direção. Com isso acontecendo bem perto da reunião que o Comitê de Política Monetária (Copom), do Banco Central (BC) realizará esta semana, aumentou ainda mais a probabilidade de uma queda da Selic.

            Vamos examinar esses dados, dois deles já relativos a 2009, as apostas do mercado quanto ao resultado dessa reunião e as implicações para os investidores.

 

Os dados da semana passada e outros

            A tabela abaixo mostra, na última coluna em cada caso,  os últimos dados de inflação, de atividade industrial e de vendas do comércio varejista então divulgados, bem outros que surgiram na semana anterior, todos desde outubro de 2008 até o mês corrente.

 

Indicadores de Inflação,  da Atividade Industrial e do Comércio Varejista Divulgados

na  Semana de 12 a 16 de Janeiro de 2009 e na Anterior

Últimas Taxas Mensais e de Meses Anteriores  -  Outubro de 2008 a Janeiro de 2009 – em %

 

Semana e Indicadores

Outubro de 2008

Novembro de 2008

Dezembro de 2008

Janeiro de 2009

Semana de 12 a 16/1/2009

Indicadores de Preços

   IGP-M

0,98

0,38

-0,13

-0,31

   IGP-10

0,78

0,73

0,03

-0,85

Indicadores de Atividade Industrial(*)

   Emprego Industrial

-0,20

-0,60

   Horas trabalhadas

-0,30

-1,70

Vendas do comércio varejista(*)

-0,90

-0,70

Semana de 5 a 9/1/2009

Indicador de Preço

   IPCA

0,45

0,36

0,28

Indicador de Atividade Industrial(*)

Produção Industrial

-1,7

-5,2

Fontes: Fundação Getúlio Vargas, para IGP-M e IGP-10; IBGE para indicadores de atividade industrial e IPCA. (*) Com ajuste sazonal.

São dados normalmente aguardados pelos analistas e a tabela não foi seletiva, deste ou aquele indicador. Na semana passada, ela abrange todos os divulgados.

           

É raro encontrar um conjunto de dados como esse tão inequívoco nos seus resultados, pois todos os indicadores mostram uma seqüência não interrompida de quedas, com os valores positivos caindo e os negativos tornando-se ainda mais negativos.  A única exceção são as vendas do comércio varejista cuja taxa em novembro de 2008  mostra ligeiro aumento, mas ainda assim variando no campo dos números negativos.

 

Dado esse quadro, o que fará o Copom?

Vale destacar dois indicadores pela contundência de seus resultados.  O primeiro é a queda do IPCA, o índice-meta da política do BC, que em novembro e dezembro chegou a taxas claramente compatíveis com essa política, que é a de trazer a inflação para valores próximos de 4,5% ao ano. O segundo  é a forte queda da produção industrial em novembro, indicando sensível retração da demanda.

Ora, era o aquecimento da demanda que mais vinha marcando as preocupações do Copom nas suas últimas reuniões. Assim, na penúltima, concluída em 29 de outubro de 2008, essa preocupação veio na ata do encontro nos seguintes termos, entre outros:

 “diante dos sinais de aquecimento da economia, no que se refere, por exemplo, aos dados disponíveis sobre o mercado de trabalho e taxas de utilização da capacidade na indústria, e do comportamento das expectativas de inflação, continuam sendo relevantes os riscos para a concretização de um cenário inflacionário benigno... ”.

  Já na última reunião, concluída em 10 de dezembro, o Copom continuou vendo esses riscos, ainda que menores, conforme este trecho da ata:

“... diante dos sinais ... de arrefecimento do ritmo de atividade econômica, no que se refere, por exemplo, aos indicadores de produção industrial, alguns dados ... sobre o mercado de trabalho e taxas de utilização da capacidade na indústria, bem como .... do comportamento das expectativas de inflação, continuam sendo relevantes, ainda que com menor intensidade, os riscos para a concretização de um cenário inflacionário benigno...”.

 Ainda assim, o Copom achou prudente não reduzir a Selic, apesar de ter então discutido essa hipótese. Agora, entretanto, os tais “riscos para a concretização de um cenário inflacionário benigno” foram substancialmente aliviados, conforme mostra a tabela. É claro que o Copom olha o futuro, mas o cenário indica uma continuidade dos movimentos sintetizados pela tabela, a ponto de disseminar no mercado a visão predominante de que haverá a redução da Selic e de que a questão a ser discutida agora é tão somente a sua magnitude.

Também acreditamos nessa redução e hoje nossa expectativa é de que ela virá entre 0,50 e 1 ponto de porcentagem (p.p).  Até um pouco mais não seria surpresa, pois o Copom poderá optar por uma estratégia com peso maior no início do processo de redução.  É pouco provável uma queda de 0,25 p.p., pois isso pouco benefício traria e a um enorme custo político para a imagem do Copom, até aqui muito criticado por não seguir na mesma linha dos bancos centrais de outros países, cuja maioria optou há meses por uma política de redução dos juros.

 

Implicações para os investidores

            Com a queda da inflação o ganho real das aplicações direta ou indiretamente ligadas a uma Selic de 13,75% ao ano passou a crescer. Assim, a queda que se prevê para essa taxa afetará apenas um pouco a remuneração que os investidores vinham recebendo antes dessa queda, e que se revelava atraente tanto no contexto nacional como internacional.  Assim, não há razões para sair dessas aplicações. Para quem quiser fazer isso, uma possibilidade que pode ser interessante é a das lastreadas em papéis pré-fixados, que costumam ficar mais atraentes quanto a perspectiva é de início de um ciclo de redução da Selic.

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Roberto Macedo, CFPTM (Certified Financial PlannerTM) e economista formado pela USP com Mestrado e Doutorado pela Universidade Harvard (EUA), é pesquisador da FIPE-USP.  Foi Secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Fazenda e Planejamento, funcionário do Banco Central e do Banco do Brasil.  E-mail: imprensa@bb.com.br. Este texto reflete a opinião do autor e não necessariamente a do BB; tem caráter apenas informativo e não deve ser tomado como recomendação de subscrição, compra ou venda de ativos, decisões estas de responsabilidade exclusiva dos investidores.  

Fundos, CDBs e Poupança  Balanço das movimentações em 2008

            O balanço a seguir mostra se tais aplicações cresceram, individualmente e em conjunto, como foi a movimentação dos investidores em cada uma delas e de uma para outra,  qual é a natureza dos estímulos que levaram a essa movimentação e o cenário à frente.

Os Fundos de Investimentos

            A tabela que se segue apresenta o patrimônio líquido (PL) no final de 2007 e 2008 dos cinco fundos de maior PL, sua variação em 2008, a captação líquida (aplicações menos resgates) no ano passado, e os mesmos dados para o total de fundos cobertos pela fonte desses números.

Fundos de Investimentos com Maior PL no Final de 2007 e 2008, Variação do PL   e Captação Líquida em 2008 – Valores em R$ bilhões

Tipo de Fundo

PL em 31/12/2007

PL em 31/12/2008

Variação do PL em 2008

Captação Líquida em 2008

Referenciado DI

169,31

183,40

14,09

-6,78

Renda Fixa

341,28

331,12

-10,16

-60,06

Multimercados

268,17

247,05

-21,12

-54,48

Ações

143,20

114,77

-28,43

5,09

Previdência

93,45

111,02

17,57

14,10

Total de Fundos

1.106,94 (*)

1.094,46

-12,48

-77,84

Fonte: ANBID – Boletim Fundos de Investimentos – Outubro 2008 (www.anbid.com.br)

(*) Inclui também fundos de Curto Prazo, Cambial, Dívida Externa, FIDC, Imobiliário e Participações.  Não inclui os fundos “off-shore”.

            Antes de prosseguir, vale lembrar que o PL desses fundos aumenta pelo acréscimo de rendimentos, mais o efeito da captação líquida, o qual pode ser positivo ou negativo. Por exemplo, os fundos DI, mesmo com captação líquida negativa em 2008, tiveram o seu PL ampliado nesse ano por conta dos rendimentos, cujo valor superou o dessa captação. Os dois fundos seguintes, Renda Fixa e Multimercados,  tiveram captações líquidas bem  negativas, mas o valor do seu PL não caiu pela mesma magnitude, pois houve o acréscimo dos rendimentos.

A captação líquida negativa predominou nos três fundos de maior valor e no total deles. Mas, isso não significa que os investidores em geral não ampliaram sua poupança, pois o principal fator determinante dessa queda foi a atração exercida por outro tipo de aplicação, os certificados de depósito bancário (CDBs), como mostraremos mais à frente.

Também é interessante constatar que mesmo com as perdas da Bovespa em 2008 os fundos de ações tiveram captação positiva, mostrando a crença do investidor nesse mercado, apesar dessa queda e dos riscos que ele envolve. Contudo, o respectivo PL cai pela queda do valor das ações, que pode ser entendida como um rendimento negativo.

Os CDBs

            Um traço marcante do mercado financeiro em 2008 foi a percepção, pelos investidores, de que de esses papéis estavam oferecendo rentabilidade maior do que as dos fundos DI e de renda fixa. Isso porque houve maior interesse dos bancos em captar recursos via CDBs, dado que vinham expandindo suas operações de crédito (onde têm maiores margens de ganho), e esses recursos têm utilização mais flexível do que, por exemplo, os desses fundos e os da poupança. Para o investidor, esse interesse se combinou com atrativos dos próprios papéis, como a ausência de taxa de administração e a incidência do IR apenas no resgate.

            Isso trouxe forte aumento da captação via CDBs, em detrimento principalmente dos fundos de renda fixa e multimercados (conforme a tabela anterior). O acelerado crescimento dos CDBs em 2008 é mostrado claramente na tabela abaixo.

Estoque de Certificados de Depósito Bancário(*) e suas Variações,  2006-2008

Valores em R$bilhões – Taxas em %

Data

Valor do Estoque

Variações Anuais

Final de 2006

326,44

-.-

Final de 2007

360,36

10,39

Final de 2008

670,00

85,93

Fonte: Cetip.  (*) Inclui o que a fonte chama de flutuantes, por exemplo, os pós-fixados referenciados ao DI, os pós-fixados  referenciados a índices de preços e os pré-fixados. 


Cadernetas de Poupança

            Conforme a tabela a seguir, essas cadernetas mostraram captação positiva em 2008, e crescimento superior dos seus saldos por conta dos rendimentos. Contudo, segundo a fonte desses dados, essa captação líquida chegou a pouco mais da metade da que ocorreu em 2007, que alcançou R$ 33,38 bilhões.

Cadernetas de Poupança (*) – Saldo no Final de 2007 e 2008, sua Variação e Captação Líquida em 2008  -  Valores em R$ bilhões

Saldo em 31/12/2007

Saldo em 31/12/2008

Variação do Saldo

Captação Líquida em 2008

235,26

263,37

28,11

17,75

Fonte: Banco Central – Relatório sobre Depósitos de Poupança – Janeiro, 2009

                Assim, tudo indica que até aplicadores em cadernetas, tidos como mais cautelosos, foram atraídos pelos CDBs, embora em menor grau que os cotistas de fundos.

            Vale registrar, também, que somados os ativos das três tabelas teríamos R$1.702,66 bilhões em 31/12/07 e  R$2.207,82 em 31/12/08, o que mostra que os investidores ampliaram sua poupança nesse conjunto de aplicações. Se o leitor não fez isso no ano passado, aí está 2009 para se mover nessa direção.

Quanto ao cenário para 2009, espera-se que a atratividade dos CDBs continue, a menos de uma reviravolta na expansão de crédito dos bancos, ligada a desdobramentos da crise econômica em andamento.

 Quanto aos rendimentos, a expectativa é de uma queda dos nominais direta ou indiretamente ligados à Selic, em face da sua esperada redução em 2009, mas é possível que os rendimentos reais cresçam, se a queda da inflação superar a da Selic.

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Roberto Macedo, CFPTM (Certified Financial PlannerTM) e economista formado pela USP com Mestrado e Doutorado pela Universidade Harvard (EUA), é pesquisador da FIPE-USP.  Foi Secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Fazenda e Planejamento, funcionário do Banco Central e do Banco do Brasil.  E-mail: imprensa@bb.com.br. Este texto reflete a opinião do autor e não necessariamente a do BB; tem caráter apenas informativo e não deve ser tomado como recomendação de subscrição, compra ou venda de ativos, decisões estas de responsabilidade exclusiva dos investidores.  

Balanço das aplicações em 2008 e cenários para 2009

Desta vez, o ouro e o dólar lideraram o campeonato de rendimentos do ano passado, com o segundo empurrando também o primeiro, e superando por larga margem outras aplicações. Em contraste, a Bolsa, que chegou ao penta ininterrupto em 2007, ficou na lanterninha.  Além de não apresentar um resultado positivo, foi longe no negativo.

Como é usual, as aplicações de rendimentos direta ou indiretamente mais ligados à Selic se saíram bem, ainda desta vez superando claramente a inflação medida pelo IPCA, mas ganhando bem menos se comparadas à avaliada pelo IGPM, que acabou superando a da poupança.

Vamos examinar números do ano e o cenário que hoje vislumbramos para 2009.

 

Números de 2008

A tabela abaixo apresenta os rendimentos das sete aplicações financeiras que atraem o maior interesse dos investidores.   Para fins de comparação, nas três últimas colunas ela mostra os resultados em janeiro, dezembro e no ano como  um todo, e inclui também os números da taxa Selic e dos dois índices de inflação mais levados em conta pelo mercado, o IPCA e o IGPM. O rodapé da tabela contém as fontes e notas técnicas relevantes para entender o significado dos números apresentados.

 

Taxa Selic, Rendimentos Nominais(*) de Aplicações e Índices de Inflação (IPCA e IGPM) em Janeiro, Dezembro e em 2008 – Em %

Selic, Aplicações e Índices de Inflação

Janeiro

Dezembro

  2008  

Taxa Selic

0,93

1,02

12,37

Fundos Referenciados DI

0,90

1,00

11,72

Fundos Renda Fixa

0,92

1,44

11,54

CDBs (**)

0,88

1,06

11,87

Poupança (***)

0,60

0,72

7,90

Ibovespa

-6,88

2,60

-41,22

Dólar Comercial PTax

-0,62

0,17

31,94

Ouro BM&F - Spot

7,02

10,64

32,13

IPCA

0,54

0,36

6,39

IGP-M

1,09

-0,13

9,81

Fontes:  Informações publicadas  por  jornais  na virada do ano, baseados em  informações de instituições do mercado.    Nos casos  dos  fundos e dos CDBs há diferenças entre as fontes derivadas de  critérios de levantamento. Em razão disso, e de algumas observações que se seguem, o investidor deve examinar os  próprios rendimentos que obteve. (*) Salvo menção  em  contrário, rendimento bruto,  sem  Imposto de  Renda(IR) quando aplicável  e  taxas  de  administração, se  cabíveis;  (**)  taxa para o primeiro dia  do mês;  (***) rendimento  relativo às contas  com   vencimento no primeiro dia útil  do mês  seguinte.

 

            Esses números sintetizam aspectos que abordamos ao longo do ano em vários artigos. Assim, entre janeiro e dezembro, a Selic caiu e subiu, terminando o ano com uma taxa maior do que aquela com começou.  Recorde-se que em termos anuais essas taxas foram de 11,25% e 13,75%, respectivamente, como resultado da política seguida pelo Comitê de Política Monetária (Copom), do Banco Central (BC). Com isso, os rendimentos dos Fundos DI, de renda fixa, dos CDBs e até mesmo da caderneta de poupança mostraram taxas maiores em dezembro do que em janeiro.

            De modo geral, com exceção da Bolsa, as aplicações superaram por boa margem o IPCA. Contudo, dada a inflação agravada no ano, influenciada que foi pela elevação dos preços das commodities, a comparação com o IGPM, mais afetado por esses preços, mostra um ganho menor, e esse índice superou o rendimento da poupança.

Embora os dados da tabela não reflitam isso, nas aplicações mais direta ou indiretamente ligadas à Selic os CDBs foram o destaque de 2008, pois o interesse dos bancos em obter mais recursos para suas crescentes operações de crédito fez com que oferecessem taxas maiores para os investidores, em negociações caso a caso e particularmente nas aplicações de maior valor. Por isso vale ressaltar uma nota ao rodapé da tabela, a que diz que o investidor deve examinar seus próprios rendimentos e fazer suas próprias comparações. Outra razão é que o rendimento líquido de IR e de taxas de administração, quando cabíveis,  pode levar a resultados diversos desses de caráter geral

           

O cenário para 2009

            A tabela a seguir mostra o cenário que contemplamos neste princípio do ano. As aplicações em renda fixa têm um horizonte em torno de três meses, exceto a poupança, de cenário bem longo.  Já a Bolsa e o câmbio desta vez apresentam um cenário de horizonte mais longo, dadas as condições dos seus mercados e o impacto da crise econômica mundial.

 

Cenários para as principais aplicações financeiras em 2008

Aplicação

Cenário

Fundos DIRemuneração real deve ganhar força, dada a queda da inflação e a inação do Copom, que mesmo quando reagir e baixar os juros deve fazer isso a uma velocidade pequena.
Fundos Renda FixaQueda da inflação vem gerando maiores rendimentos, num movimento típico de aplicações lastreadas em títulos pré-fixados e com “marcação a mercado”.
CDBsPara quem aprecia riscos, boa oportunidade para os pré-fixados, em face da perspectiva de queda da Selic. O rumo das operações de crédito dos bancos poderá afetar sua disposição de oferecer taxas bem atrativas nas negociações caso a caso, como aconteceu em 2008.
PoupançaSempre atrás da Selic,  é particularmente adequada para pequenas aplicações, dada a ausência do IR para pessoas físicas e de taxa de administração, o que pode compensar a diferença mostrada pela tabela.
IbovespaCaiu muito e permanece volátil.  Experiência recente sugere que encontrou um piso em 30 mil pontos. Quem comprou quando chegou a esse valor já ganhou cerca de 30%. Como sempre, e exige propensão ao risco e a seletividade adquire importância cada vez maior, conforme demonstram os maus resultados de muitas ações lançadas sob a forma de oferta pública inicial.
DólarValorização ocorrida vem sendo contida em face do grande volume de reservas. Evolução recente sugere que encontrou um teto entre R$2,30 e R$2,40, mas continua sujeito a volatilidade numa ou noutra direção, dependendo da evolução da crise.
OuroEm momentos de crise ganha atratividade, mas é para investidores mais sofisticados, com o agravante de que sua cotação depende também da taxa cambial.

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Roberto Macedo, CFPTM (Certified Financial PlannerTM) e economista formado pela USP com Mestrado e Doutorado pela Universidade Harvard (EUA), é pesquisador da FIPE-USP.  Foi Secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Fazenda e Planejamento, funcionário do Banco Central e do Banco do Brasil.  E-mail:. Este texto reflete a opinião do autor e não necessariamente a do BB; tem caráter apenas informativo e não deve ser tomado como recomendação de subscrição, compra ou venda de ativos, decisões estas de responsabilidade exclusiva dos investidores.

Taxa Selic - Cenário pós Copom de dezembro-2008

           Na reunião encerrada em 10 de dezembro, o Comitê de Política Monetária (Copom), do Banco Central (BC), decidiu, novamente por unanimidade, manter a taxa básica de juros em 13,75% ao ano, repetindo a decisão da reunião de outubro. Essa decisão foi antecipada pela maioria dos analistas, inclusive este, mas não houve consenso, pois alguns apostaram na hipótese de redução da taxa, que acabou não vindo.

            São várias as razões a explicar a continuidade dessa “pausa para meditação” por parte do Copom. Vamos examiná-las, examinar o cenário à frente e apontar implicações para os investidores.  Nossas razões poderão não ser as mesmas que o Copom apontará nesta semana ao divulgar a ata do encontro, documento que examinaremos no próximo artigo.

 

O comunicado e as razões da decisão  

            O comunicado relativo à reunião pelo Copom como sempre foi sintético e na sua essência disse o seguinte: “Tendo a maioria dos membros do Comitê discutido a possibilidade de reduzir a taxa básica de juros já nesta reunião, em ambiente macroeconômico que continua cercado por grande incerteza, o Copom decidiu por unanimidade, ainda manter a taxa Selic em 13,75% a. a., sem viés, neste momento...”

            Além da decisão em si, dois aspectos se destacam nesse comunicado. O primeiro, repetindo termos do relativo à reunião anterior, é a condição de incerteza em que a decisão foi tomada. Nessa condição é compreensível o recurso ao “deixa como está para ver como é que fica”.

            Apesar dessa incerteza reafirmada, o segundo aspecto a destacar é que o comunicado demonstra que o Copom tomou uma atitude mais afirmativa ao afirmar que a maioria de seus membros discutiu também a possibilidade de reduzir a taxa básica de juros já nessa reunião. Ou seja, essa alternativa esteve em pauta, e só não foi adotada porque o Copom não se sentiu seguro para seguir esse caminho.

            E houve razões para isso.  Em primeiro lugar, é muito importante para o Copom preservar a confiança do mercado na sua política, que assim não pode mudar de curso diante de sinais que embora indiquem uma redução da inflação e uma queda do ritmo de atividade econômica, ainda não fornecem parâmetros seguros desses movimentos, particularmente em face da defasagem com que os dados se tornam disponíveis.  Ou seja, essas duas variáveis estão caindo, mas o que vem pela frente?  Em segundo lugar, é preciso ter segurança em saber se esses movimentos se firmarão por um período suficientemente longo para justificar a decisão alternativa de baixar a Selic.

            De qualquer forma, o fato de que essa alternativa foi discutida na reunião já foi suficiente para levar vários analistas a apostar que na próxima reunião, a ser concluída no dia 21 de janeiro, essa decisão será adotada.  E mais: o mercado já acredita que a economia está evoluindo para uma situação de inflação mais bem comportada e de uma economia em desaquecimento, o que vem provocando a redução dos juros futuros. Ou seja, esses juros estão caindo mesmo sem a redução da Selic, o que parece uma situação em que o Copom consegue reduzir juros mesmo sem uma decisão formal a respeito.

 

Alguns dos últimos dados divulgados

            Dado esse quadro, vamos examinar alguns dados que mais recentemente se tornaram disponíveis e o que indicam quanto à inflação e o desempenho da economia. Sobre a inflação o dado mais recente e interessante veio na quarta-feira da semana passada, com a informação  de que a primeira prévia do IGP-M de dezembro mostrou variação de apenas 0,14%.  Esse é o primeiro número da inflação do mês e confirma que o movimento registrado em outubro e novembro, de queda desse e desse e de outros índices, mostra continuidade no mês corrente no que diz respeito ao IGP-M.

            Quanto ao último dado sobre o desempenho da economia, foi o divulgado no último domingo pelo jornal O Estado de S. Paulo e resultante de pesquisa da Fundação Getúlio Vargas(FGV), de estoques mantidos pelas indústrias. O levantamento  mostrou que em novembro 15,7% das empresas pesquisadas estavam com estoques que consideravam indesejáveis, número esse que na pesquisa de outubro havia sido de 7.9%.

            No momento, a grande expetativa está centrada no movimento das vendas do comércio em dezembro.  Se ao final deste mês restar nas empresas um volume de estoques além do usual isso será sinal de que o consumidor se retraiu de um modo geral,  prenunciando um 2009 com maiores dificuldades, pois nessas condições um número maior de empresas começará o ano concedendo férias coletivas ou mesmo demitindo empregados.  Infelizmente, os dados que pipocam aqui e ali no noticiário pesam na direção de um quadro desse tipo, não se sabendo, entretanto, quão intenso ele se revelará.

 

Implicações para a próxima decisão do Copom e para o investidor

            Quando ocorrer a próxima reunião do Copom ele já estará de posse de informações que darão o tom da virada do ano e das perspectivas para o início de 2009.  De qualquer forma, os limitados traços do quadro que contemplamos nos parecem indicar que está sendo mais rápido do que imaginado esse processo de contaminação com que a crise financeira alcançou o setor produtivo, com impacto também sobre a taxa de inflação, reduzindo-a, o que no momento nos faz pender para a previsão de que na reunião de janeiro o Copom optará por uma redução da Selic.

            Quanto às implicações para o investidor, tudo indica que essa redução começaria em doses pequenas, sem alterar significativamente o quadro usual em que as aplicações referenciadas à  Selic continuarão atrativas. Outra razão seria que essa redução só viria com a continuidade da queda da inflação que, ao favorecer os rendimentos reais, compensaria ou mais que compensaria a queda dos rendimentos nominais. 

            O investidor mais propenso a buscar oportunidades deve estar atento para o fato de que momentos de queda de inflação e juros tendem a favorecer os rendimentos das aplicações em renda fixa propriamente ditas, lastreadas em títulos pré-fixados, ainda que isso não seja o único fator a ponderar. Em particular, as mudanças de uma aplicação para outra devem ser pesadas também relativamente ao inconveniente de reiniciar a contagem dos prazos que levam a um Imposto de Renda de menor magnitude.

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Roberto Macedo, CFPTM (Certified Financial PlannerTM) e economista formado pela USP com Mestrado e Doutorado pela Universidade Harvard (EUA), é pesquisador da FIPE-USP.  Foi Secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Fazenda e Planejamento, funcionário do Banco Central e do Banco do Brasil. Este texto reflete a opinião do autor e não necessariamente a do BB; tem caráter apenas informativo e não deve ser tomado como recomendação de subscrição, compra ou venda de ativos, decisões estas de responsabilidade exclusiva dos investidores. E-mail: imprensa@bb.com.br.

Cenário da economia mundial segundo o FMI - 21.07.2008

Na semana passada o Fundo Monetário Internacional(FMI) divulgou, como faz trimestralmente, sua avaliação das perspectivas da economia mundial, incluindo também previsões específicas para alguns países, inclusive o Brasil.
 Resumindo a avaliação, o documento ressalta que a economia global encontra-se num período difícil, “... presa entre uma demanda que se reduz rapidamente em vários países avançados e uma inflação que aumenta de forma generalizada, notadamente nas economias emergentes e em desenvolvimento. ”
 Mostraremos dados que  fundamentaram essa síntese, inclusive os do Brasil, e da análise retiraremos implicações para os rumos da economia brasileira,  e também para os investidores que atuam no seu sistema financeiro.

Os números
 Dos números contidos no documento do FMI no caso do PIB retiramos os da tabela abaixo, que se referem à economia mundial como um todo, a grupos de países (avançados e emergentes e em desenvolvimento), e a alguns deles individualizados, entre eles o Brasil.  Esses dados cobrem uma retrospectiva do PIB e da inflação em 2006 e 2007, e previsões para o final de 2008 e 2009. No caso da inflação os dados do FMI  se referem apenas aos referidos grupos de países, mas adicionamos os números do Brasil.


Vale lembrar que os números relativos a 2008 e 2009 são previsões que podem se verificar ou não.  Aliás, comparadas às previsões anteriores do FMI, divulgadas em abril, essa nova alterou vários números. Ademais, como mais da metade de 2008 já foi transcorrida, as previsões relativas a 2008 são mais confiáveis do que as de 2009.   
 No seu conjunto, os números da tabela de fato demonstram que o PIB vem caindo mais nos países avançados do que nos  emergentes e em desenvolvimento. Quanto à inflação, além de ser maior neste segundo grupo de países, neles ela vem aumentando mais rapidamente.  Como principal razão do aumento generalizado das taxas de inflação, o documento do FMI aponta os preços de energia, onde se destaca o do petróleo, e o aumento dos preços de commodities em geral, inclusive as que servem de alimentos.
 
PIB e inflação: como  fica o Brasil? 
 Olhando apenas as previsões relativas a 2008,  e para situar o caso brasileiro,  esses dados mostram as economias dos países avançados, em particular as dos EUA, crescendo bem menos do que a economia mundial como um todo e do que os países emergentes e em desenvolvimento, inclusive o Brasil. Neste, a expectativa de crescimento é de 4,9% em 2008 e de 3,9% em 2009, com nosso país sofrendo menos, portanto, do que os EUA e outros países avançados. Este é aproximadamente o diagnóstico dominante no Brasil quanto ao seu PIB, tudo indicando que o FMI recolhe suas informações de fontes locais.
 Quanto à inflação no Brasil, ela é o fator mais preocupante, pois vem provocando um aperto da política monetária, o qual deve levar a um impacto negativo sobre o PIB e talvez a números piores que os mostrados pela tabela, embora as previsões correntes já incorporem parte desse efeito.

Para o investidor...
 Esse esperado aperto da política monetária terá mais um capítulo nesta semana, cujo calendário inclui mais uma reunião do Comitê de Política Monetária(Copom) do Banco Central. Para essa reunião, a maioria dos analistas espera para a taxa Selic um aumento de 0,5 ponto de porcentagem (p.p.). Se o aumento da Selic superar esse valor, chegando a 0,75 p.p ou mesmo 1.0, isso não será grande surpresa. 
 Em qualquer caso, mas sobretudo se acima de 0,5 p.p., o resultado estimulará as aplicações em renda fixa referenciadas direta ou indiretamente à Selic, ao mesmo tempo em que prenunciará maior volatilidade das aplicações em renda variável, em particular a Bolsa, que por sua vez continua a enfrentar dificuldades advindas da crise dos financiamentos imobiliários de alto risco nos EUA e disseminadas por outros países.
  Mais uma vez, na seqüência de nossos artigos divulgados em  12/5/08 e 14/7/08, chamamos atenção para aplicações em CDBs pós fixados, cujos rendimentos vem ganhando de outras aplicações em renda fixa,  pelas razões então expostas. 
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Roberto Macedo, CFPTM (Certified Financial PlannerTM) e economista formado pela USP com Mestrado e Doutorado pela Universidade Harvard (EUA), é pesquisador da FIPE-USP.  Foi Secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Fazenda e Planejamento, funcionário do Banco Central e do Banco do Brasil.  E-mail: imprensa@bb.com.br. Este texto reflete a opinião do autor e não necessariamente a do BB; tem caráter apenas informativo e não deve ser tomado como recomendação de subscrição, compra ou venda de ativos, decisões estas de responsabilidade exclusiva dos investidores.
           

Cenário dos juros após IPCA de janeiro menor que o esperado


Divulgado no dia 13 da semana passada, o  IPCA de janeiro revelou uma taxa de 0,54%, abaixo de previsões do mercado. Essa notícia veio na seqüência de outras que nas duas últimas semanas revelaram uma inflação em queda, ainda que em geral a taxas elevadas e inconsistentes com a política de metas de inflação do Banco Central (BC).

Recorde-se que o IPCA, um índice de custo de vida de cobertura nacional,  é o índice-meta dessa política,  e que a permanência de taxas mensais médias como as que mostrou em novembro e dezembro de 2007 (0,38% e 0,74%, respectivamente), mais a de janeiro de 2008 (0,54%), o  levariam a uma resultado anual acima do centro da meta dessa política, o qual é de uma inflação de  4,5% ao ano.


Vamos examinar esses e outros números da inflação, o que significam para a política monetária do BC, e as implicações para o investidor.


A inflação e seus números mais recentes


A melhoria dos índices de inflação já se prenunciara com prévias cujos resultados se consolidaram  no início do fevereiro com a divulgação dos resultados de janeiro.  Assim, logo no início do mês a Fundação Getúlio Vargas (FGV) anunciou que o IGP-DI desse mês caiu para 0,99%, depois de chegar a 1,47% em dezembro. Poucos dias depois, revelou que seu índice de custo de vida quadrissemanal,  avaliado semanalmente e de cobertura nacional, conhecido como IPC-S, havia caído de 0,97%, na última avaliação em janeiro, para 0,82% na primeira de fevereiro.


Em seguida, a Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (FIPE) anunciou que seu  índice de custo de vida também quadrissemanal, o IPC-FIPE,  avaliado semanalmente na região metropolitana de São Paulo, mostrou na primeira medição de fevereiro a taxa de 0,30%, muito bem comportada.  Esse índice, que havia subido de 0,47% em novembro de 2007 para 0,82% em dezembro, também já havia mostrado uma inflexão em janeiro deste ano, quando caiu para 0,52%


No dia seguinte o IBGE divulgou o IPCA de janeiro, com a referida taxa de 0,54%, abaixo de previsões do mercado, estas em torno de 0,6%.  Essa notícia causou maior impacto dado o papel desse índice como meta da política monetária do BC.


Acompanhando as prévias dos índices e esses números, as previsões do mercado para o IPCA, refletidas no Relatório Focus de periodicidade semanal e baseado nas previsões de analistas do mercado,   mostraram, no levantamento de l/2/08, uma queda da previsão da taxa para os doze meses seguintes, que na semana encerrada nesse dia passou a 4,30%, depois de alcançar 4,35% na semana anterior.  No levantamento de 8/2/08, essa previsão voltou a cair, para 4,26%.


Por trás dessas taxas de inflação em queda esteve o retrocesso das taxas de variação dos preços dos alimentos, os quais foram os principais responsáveis pelo agravamento da inflação nos últimos meses do ano passado.


Caiu, mas taxa do IPCA ainda está lá em cima. E não é só isso.


Focando a atenção no IPCA, em face do papel que lhe cabe na política monetária, note-se que sua última taxa, de 0,54% em janeiro, embora reveladora de uma queda,  ainda é muito alta se comparada com o que a meta anual (4,5%) do Copom. Assim, ainda há chão pela frente antes que uma tendência para taxas bem mais baixas seja vista como consolidada e capaz de repercutir sobre a política monetária do BC, na direção de uma retomada de novos movimentos de redução da taxa básica de juros.


Ademais, ainda que mostrando também uma queda em janeiro, os números do IGP-DI, um índice fortemente influenciado pelos preços no atacado, mostram-se com taxas ainda mais elevadas (1,05 e 1,47% em novembro e dezembro de 2007, respectivamente,  e 0,99 em janeiro de 2008),  e particularmente preocupantes pelo impacto defasado que costumam ter sobre os preços cobrados dos consumidores na etapa do varejo,  e que formam a base de um índice do custo de vida como o IPCA.


Além disso, nas suas análises o Conselho de Política Monetária (Copom) do BC foca sua atenção não apenas nos índices de inflação, mas, em particular, também dá grande atenção aos indicadores do desempenho da atividade econômica, na medida em que vê como agravante da inflação o aquecimento deles além do que entende como produto potencial da economia.  Ora, o Copom viu que essa atividade fechou 2007 nessas condições e as primeiras informações quanto ao seu desempenho em 2008 indicam que esse quadro permanece.


Nessas condições, novamente fica claro que o recente e pequeno alívio da inflação ainda não é prenúncio de uma retomada de quedas da taxa básica de juros.


Mas, tal quadro pelo menos garantiria a estabilidade da Selic?


Esta é a crença predominante entre os analistas, conforme demonstrado pela estabilidade das previsões quando ao valor dessa taxa até o final de 2008, que se mantiveram em 11,25% ao ano, nos dois referidos levantamentos do Relatório Focus do BC, nos quais, como foi visto, houve uma tímida redução das previsões para a variação do IPCA nos próximos 12 meses. Assim, em termos de sua maior probabilidade, acreditamos que essa crença se sustenta.


Mas vale lembrar também a conclusão a que chegou o Copom na sua última reunião, cuja ata mostra ao seu final este trecho: “Mesmo considerando que, no momento, a manutenção da taxa básica de juros é a decisão mais adequada, o comitê reitera que está pronto para adotar uma postura diferente, por meio de ajuste dos instrumentos de política monetária, caso venha a se consolidar um cenário de divergência entre a inflação projetada e a trajetória de metas”(grifo nosso).


Ora, com a inflação prevista pelo mercado para o IPCA girando perto de 4,30% ao ano, a inflação chegou muito perto desse cenário de divergência, e como o quadro de uma inflação em queda alcançando taxas bem mais baixas ainda não está consolidado, não está de todo descartada a hipótese de o Copom recorrer a um aumento da Selic no primeiro semestre de 2008, ainda que seja baixa a probabilidade desse evento, relativamente ao que hoje é mais provável,  de estabilidade da Selic.


Para os investidores... 


Mantém-se, portanto, o quadro que delineamos nos nossos comentários desde que a inflação se agravou no final de 2007 e o Copom interrompeu seu último ciclo de redução da Selic.  Ou seja, um cenário que no curto prazo, digamos, de três meses,  dá novo fôlego às aplicações referenciadas à taxa de juros, pois nesse cenário os eventos mais prováveis são, nesta ordem, a manutenção ou aumento da Selic, com menor probabilidade ainda cabendo à hipótese de uma redução dessa taxa.
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Roberto Macedo, CFPTM (Certified Financial PlannerTM) e economista formado pela USP com Mestrado e Doutorado pela Universidade Harvard (EUA), é pesquisador da FIPE-USP. Foi Secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Fazenda e Planejamento, funcionário do Banco Central e do Banco do Brasil. E-mail: imprensa@bb.com.br

Cenário pós ata do Copom e na visão do mercado

Na reunião encerrada em 23 de janeiro, o Comitê de Política Monetária (Copom), do Banco Central (BC), manteve a taxa básica de juros, em 11,25% ao ano, sem viés. A ata da reunião veio na semana seguinte, e mostrou termos mais duros, ampliando a probabilidade de o Copom recorrer a um aumento da taxa em 2008, em face de sinais preocupantes que viu nos diagnósticos da inflação e da atividade econômica.

Contudo, o Relatório de Mercado divulgado semanalmente pelo BC a partir de dados levantados toda sexta-feira junto ao mercado, não mostrou, no levantamento de 1/2/07, uma reação dele no sentido de ampliar sua estimativa da Selic para o final de 2008.  Pode ser que ele não tenha se preocupado em reagir imediatamente à ata do Copom, mas há também outras razões – e substantivas –  para explicar para essa atitude.

Elas serão examinadas a seguir, juntamente com a ata, dados sobre a inflação e sobre o comportamento da atividade econômica, bem como outros aspectos que pesam sobre a questão. Entre eles, uma outra decisão de política monetária do BC, criando um depósito compulsório para os recursos das operações de arrendamento mercantil (“leasing”) do sistema financeiro, o que deve encarecer, via maior taxa de juros, o seu custo. E, ainda, um aumento do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF), que também aumenta o custo do dinheiro, e a crise por que passa a economia americana em seus desdobramentos sobre a internacional e a brasileira.


A ata mais dura

Três frases sintetizam o que levou o Copom a adotar esse tom na sua ata. A primeira revela um agravamento da projeção de inflação para o índice-meta da política monetária do BC, nestes termos: “A projeção para o IPCA em 2008 elevou-se sensivelmente em relação ao valor considerado na reunião do Copom de dezembro, e agora se encontra em torno do valor central de 4,50% para a meta fixada pelo Conselho Monetário Nacional (CMN)”.

A segunda diz respeito à atividade econômica: “A atividade econômica no Brasil não parece, até o momento, ter sido afetada de forma relevante pela persistente deterioração da confiança nos mercados financeiros globais, e, ainda que não isolada dos desenvolvimentos econômicos externos, a economia brasileira tende a continuar sua trajetória de crescimento, ... sustentado essencialmente pela demanda doméstica”.

O terceiro trecho é o da conclusão do Copom: “Mesmo considerando que, no momento, a manutenção da taxa básica de juros é a decisão mais adequada, o Comitê reitera que está pronto para adotar uma postura diferente, por meio de ajuste dos instrumentos de política monetária, caso venha a se consolidar um cenário de divergência entre a inflação projetada e a trajetória de metas.”


O que veio depois: encarecimento dos juros

Quanto à política monetária, centrada nas metas de inflação, é importante notar que no mesmo dia da divulgação da ata o BC recorreu a um instrumento clássico de uma política dessa natureza, neste caso voltada para os agregados monetários.  Foi a criação de um depósito compulsório sobre os recursos destinados pelas instituições financeiras às operações de arrendamento mercantil (“leasing”), começando com 5% em março deste ano e subindo gradativamente até 25% em janeiro de 2009. Ora, isso deve aumentar o custo dessas operações para seus tomadores.

Recorde-se também o aumento do (IOF), adotado desde o início do ano, como parte do pacote fiscal desenhado para compensar os efeitos do fim da CPMF.  Ao contrário desta, o IOF tem alcance específico sobre operações de crédito. Ainda que adotado no contexto da política fiscal e também por falta de alternativas de impacto imediato, esse aumento terá impacto monetário ao elevar a taxa de juros.

Nessas condições, tudo indica que o governo recorreu a essas outras formas de elevar os juros sem alterar a taxa básica fixada pelo BC.

E mais: atividade econômica, inflação, crise nos EUA e a reação do mercado

Os dados finais da produção industrial em 2007 confirmaram um cenário de aquecimento ao revelarem aumento de 6% no ano. Em dezembro do ano passado, a variação foi negativa, um resultado sazonalmente esperado para esse mês, mas até menor que a queda esperada pelo mercado financeiro. Ou seja, a economia fechou o ano bem, sabendo-se também que tanto ela como o comércio terminaram 2007com estoques mínimos. E, ainda, que a indústria automobilística, que liderou as taxas setoriais em 2007, já começou 2008 a todo vapor, com forte desempenho em janeiro.

Contudo, no caso da inflação, as primeiras notícias sobre os índices de janeiro (o da FIPE e outros) mostraram um esfriamento, ainda que a taxas altas, derivado particularmente do melhor comportamento dos preços dos alimentos.  Na mesma linha, o último divulgado, o IGP-DI de janeiro, caiu para 0,99% ao mês nesse mês, depois de chegar a 1,47% em dezembro. Um de seus componentes, o índice de  preços agrícolas no atacado, caiu para 1,60%, depois de uma péssima taxa em janeiro (4,27%).

Essas notícias sobre a inflação devem ter pesado na avaliação do mercado. Destaque-se, também, a perspectiva de menor crescimento da economia mundial em decorrência da crise nos EUA, o que deve contribuir para aliviar pressões sobre preços de commodities, o que repercutirá favoravelmente sobre a inflação no Brasil.

Contudo, será preciso que tais preços não caiam significativamente, pois isso pioraria a avaliação externa do Brasil nos seus riscos financeiros, o que poderia levar a um aumento da taxa de câmbio em R$ por US$, com efeito desfavorável sobre a inflação.

É ainda um quadro indefinido, mas tudo indica que os resultados mais recentes da inflação foi que pesaram com maior intensidade na aposta da maioria do mercado pela manutenção da Selic. Sabe-se que há dissensões, mas insuficientes para reverter essa avaliação mostrada pelo Relatório de Mercado do BC.

Para os investidores em papéis atrelados à SELIC, o sinal é mais claro: o cenário hoje pintado por essa discussão é um em que na melhor (para esses investidores) das hipóteses a taxa subiria; na pior, ficaria no seu nível atual, que continua a propiciar boa remuneração real desde que em volume capaz de contornar o efeito das taxas de administração incidentes sobre essas aplicações.

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Roberto Macedo, CFPTM (Certified Financial PlannerTM) e economista formado pela USP com Mestrado e Doutorado pela Universidade Harvard (EUA), é pesquisador da FIPE-USP.  Foi Secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Fazenda e Planejamento, funcionário do Banco Central e do Banco do Brasil.  E-mail: imprensa@bb.com.br

Cenário no Brasil com a crise nos EUA

O que o Brasil poderá (ou não) sofrer com a crise que se manifesta nos EUA em decorrência das perdas sofridas por instituições financeiras e outros investidores, na esteira da crise que a partir de agosto de 2007 se evidenciou no mercado de hipotecas imobiliárias de segunda linha (as “subprimes”) daquele país?


Essa é a pergunta que hoje absorve analistas, investidores e outros interessados na economia brasileira. Ainda estamos longe de uma resposta bem esclarecedora, mas um impacto já veio claramente, no mercado de ações.  Pode-se também indicar os caminhos de onde virão outros efeitos, a começar pelos desdobramentos da crise nos próprios EUA.  


Recessão ou não, o impacto nos EUA é uma realidade


No noticiário originário daquele país,  percebe-se o grande interesse em saber se a crise levará a uma recessão ou não.  Poucos analistas, entretanto, explicam o que é uma recessão, talvez porque lá o termo é mais conhecido, pois as análises quantitativas da conjuntura econômica existem há muito mais tempo que no Brasil. E, ainda, têm um alcance muito maior que aqui, em face da profusão de indicadores disponíveis.


Nesse contexto, há várias definições de recessão, mas a que predomina é a que diz que a economia estará nessa condição quando seu Produto Interno Bruto (PIB) mostrar uma taxa de variação negativa por dois trimestres consecutivos. Felizmente, isso ainda não aconteceu desde nessa crise. Hoje o debate sobre seu impacto sobre o PIB centra-se em saber se de fato virá uma recessão ou se será mais suave, levando a uma redução do crescimento anual da economia, mas sem conduzi-la a uma recessão.


Como os desdobramentos da crise ainda se manifestam, e não existem elementos para previsões mais acuradas, o que há são percepções fundamentadas na evolução dos indicadores. Contudo, como eles não ainda não revelam uma recessão nem dão uma clara noção de sua ocorrência futura, o que predomina entre os analistas mais cuidadosos são afirmações baseadas em probabilidades. 


Por exemplo, Alan Greenspan, um dos mais ouvidos pela mídia, ex-presidente do “Fed”, a instituição que naquele país equivale a um banco central, afirmou na terceira semana de janeiro que a probabilidade de uma recessão, que antes via em torno de 50%, já estava um pouco acima desse número. Contudo, mesmo supondo que ele estivesse pensando em 55% ou 60%, isso significaria que a probabilidade de uma recessão não ocorrer seria de 45% ou 40%, um número ainda bem alto. 


Assim, há uma questão de diagnóstico, agora ainda mais complicada pois previsões como essa levaram a medidas em contrário, como as tomadas pelo “Fed” e pelo governo federal dos EUA. Aquele reduziu sua taxa básica de juros de 4,75% ao ano para 3,00%, fazendo isso numa reunião extraordinária em 22/1/08, quando houve uma redução de 0,75 ponto de porcentagem (p.p.), seguida, apenas oito dias depois,  de uma queda de mais 0,50 p.p..

Por sua vez, o Presidente Bush anunciou no dia 22/1 um pacote de estímulos fiscais no valor aproximado de US$150 bilhões.


Mesmo assim, e em particular porque há defasagens nos efeitos da crise e desses estímulos, as previsões que predominam, ainda que sem descartar uma recessão,  são de uma queda da taxa de crescimento do PIB dos EUA, que em 2007 foi estimada em  2,6%, e deve cair em 2008 para um valor entre 1,5% e 1,8%. Note-se que essa taxa foi de 3,9% em 2004, 3,2% em 2005 e 3,4% em 2006. Ou seja, a queda em 2007 já foi considerável.


No Brasil, já surgiram efeitos e devem vir outros


1. Bolsa – Em grande parte como resultado dessa crise nos EUA, a Bovespa passou a mostrar grandes oscilações desde agosto do ano passado.  Chegou a bater novos recordes, mas de outubro a dezembro do mesmo ano o Ibovespa ficou entre 60 e 65 mil pontos, caindo fortemente em meados de janeiro, chegando a 54.235 pontos em 23/1/08, e fechando o mês em  59.490, com queda de 6,88% nesse período.   Este resultado foi muito influenciado pelas notícias sobre o prejuízo de várias instituições financeiras em razão dos “subprimes”.  Em síntese, esse mercado apresenta-se volátil e as oportunidades estarão mais ações que caírem de valor.


2. Câmbio – A taxa em R$ por US$ fechou o mês a 1,7603 com pequena queda de 0,90%, mas com as más notícias dos EUA e a saída de investidores estrangeiros ela chegou a 1,8301 em 22/1/08.  Tende a oscilar com a natureza dessas notícias, mas continua resistindo em face da confortável situação das contas externas do país.


3. PIB – por causa da perspectiva de menor crescimento dos EUA, prevê-se que a taxa de variação do PIB brasileiro também será afetada, mas em menor proporção, porque nossa economia hoje depende menos das exportações que realiza para aquele país.  Note-se que as últimas previsões do Relatório de Mercado (semanal) do Banco Central mostram uma estimativa de 4,5% para o crescimento PIB em 2008 (e 4,00 em 2009), abaixo do crescimento em 2007, que a maioria das estimativas coloca acima de 5%.  


O que mais pode vir: a contaminação pelos EUA e a hipótese do “descolamento”


O pior cenário para o Brasil será se a crise dos EUA contaminar com forte intensidade a economia mundial, em particular o crescimento dos países emergentes, em particular o da China.  Nos últimos três anos surgiu entre os analistas a hipótese de que esse grupo de países, que inclui o Brasil, teve o seu desempenho “descolado” dos EUA, em função do dinamismo de suas próprias economias.


Essa tese será agora colocada à prova, e tudo indica que por mais veraz que seja algum efeito irá alcançar a economia desses países, como já se prevê no caso brasileiro.  O que se discute é a dimensão desse impacto, e até aqui predomina a avaliação de que o “descolamento” não será total, mas suficiente para garantir um impacto muito menor que o ocorrido no passado, como nas crises de 1997 e  1998.


Mas, além de indagar sobre esses efeitos, o caminho mais seguro é o de acompanhá-los com vistas a antecipar seus desdobramentos.  Nessa linha, o mais importante, pois indica a demanda que vem de fora, e assim o status da economia mundial, serão os preços das principais commodities exportadas pelo Brasil. Serão eles que sinalizarão tanto para a economia real como para a financeira os efeitos mais relevantes dessa crise sobre a economia brasileira.

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Roberto Macedo, CFPTM (Certified Financial PlannerTM) e economista formado pela USP com Mestrado e Doutorado pela Universidade Harvard (EUA), é pesquisador da FIPE-USP.  Foi Secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Fazenda e Planejamento, funcionário do Banco Central e do Banco do Brasil.  E-mail: imprensa@bb.com.br  

Cenário pós-Copom que manteve a Selic

Na semana passada, o Comitê de Política Monetária (Copom), do Banco Central (BC), unanimemente, decidiu manter a taxa básica de juros, em 11,25% ao ano, sem viés. Não foi surpresa, pois o mercado previu isso também de forma unânime, e é a terceira vez que a manutenção se repete desde que em 17 de outubro do ano passado o Copom interrompeu o ciclo de sucessivas quedas iniciado em agosto de 2005. Vamos examinar as razões da decisão, sem necessariamente coincidir com as que prevaleceram no Copom, pois estas só serão esclarecidas na ata do encontro, que sairá nesta semana.


Abordaremos também o cenário da Selic ao  qual a decisão conduz neste início de 2008, e as implicações para os investidores.


O comunicado: mesmo o óbvio gerou especulação 


Nele veio uma frase dizendo que o Copom “irá acompanhar a evolução do cenário macroeconômico até a sua próxima reunião, para então definir os próximos passos na sua estratégia de política monetária”. No comunicado anterior, notei só o anúncio, mas não essa frase, a qual é uma obviedade, pois o Copom sempre faz o que ela diz.  Pesquisando, vi que analistas do mercado levaram-na em conta nas suas considerações.  Por exemplo, um ponderou que essa frase, quando adicionada, antecedeu decisões não unânimes e diferentes das anteriores no primeiro semestre de 2006. Depois ela sumiu. Voltou no segundo semestre de 2007, em duas situações que precederam decisões do mesmo tipo.


Assim, considerações como essas aumentam o interesse pela ata da reunião, a ser divulgada esta semana, e ampliam especulações quanto ao que virá na próxima reunião.


As razões da decisão – a inflação


Os dados mais recentes sobre a inflação certamente pesaram na decisão.  Recorde-se que o IPCA do IBGE, o índice-meta da política monetária, depois de taxas muito favoráveis em abril, maio, junho e julho  do ano passado (0,25%, 0,28%, 0,28% e 0,24% ao mês, respectivamente), mostrou em agosto uma elevação bem forte, quando a taxa saltou para 0,47%.  No mês seguinte veio  um alívio (0,18%), mas em outubro (0,30%), novembro (0,38%) e, principalmente, dezembro (0,74%), a tendência foi crescente e chegou a este último número que está  claramente na contramão de uma política que tem como centro de sua meta uma taxa de 4,5% ao ano.


E mais, divulgado no mesmo dia em que saiu o comunicado do Copom (23/1, quarta-feira) o IPCA-15 de janeiro, que calcula a inflação mensal centrando seu levantamento no dia 15 de cada de cada mês, também veio na contramão, com 0,70%. É muito provável que na sua reunião o Copom já tivesse essa informação, mesmo que não oficialmente, mas levando-a em conta ao decidir. Novamente o índice foi pressionado pelo preço dos alimentos. O grupo que estes compõem junto com bebidas mostrou uma alta de 1,96% e respondeu por mais da metade da variação do índice (0,42%).  Junto com essa má notícia, um alento: a inflação desse grupo demonstrou sinais de desaceleração.


Quanto ao IGP-10, que centrado no dia 10 também dá uma indicação do que vem no mês, ele também mostrou desaceleração, mas em valores muito mais altos, passando de 1,59% em dezembro para 1,02% em janeiro.
 
II – Outras razões, o cenário da economia dos EUA e a próxima decisão do Copom


Sabe-se também que a demanda agregada continua elevada, conforme revelaram indicadores do comércio varejista no final do ano, e informações de que esse comércio encerrou 2007 com estoques baixos, recolhidas aqui e ali, pois ainda não há no Brasil um índice adequado das variações deles. Isso prenunciaria novas encomendas no início do ano, com o que a usual desaceleração da indústria nessa época antecipa-se também menos acentuada.  Acrescente-se que o índice de desemprego voltou a cair em dezembro, conforme dados divulgados na última quinta-feira.


Nessas condições, com o agravamento da inflação ainda incontido e esse quadro dos fatores que a influenciam, é possível que o citado trecho do comunicado do Copom leve a um tom mais duro na ata que virá esta semana. A conferir. Mas,  qualquer que seja o tom, o que virá na próxima reunião, que se encerrará em 5 de março, estará cercado de dúvidas adicionais, pois o agravamento do cenário da economia dos EUA trouxe mais atores ao palco, ainda com desempenho imponderável.


Assim, nos últimos dias, houve aqui desdobramentos financeiros, como a  alta volatilidade e queda do Ibovespa,  e aumento do dólar em reais. Quanto ao crescimento econômico, cresceram as apostas numa recessão nos EUA. Mas, ela ainda não veio, e as apostas predominantes ainda se limitam a uma taxa de crescimento menor.


Isso bastou para reduzir os preços internacionais do petróleo, cuja manutenção pesaria por uma inflação mais alta.  De um modo geral, um menor crescimento dos EUA e em outros países também aliviaria a pressão sobre os preços de commodities, ainda que menos no caso dos alimentos, cuja demanda responde menos a variações de renda.


Nesse contexto, o efeito mais importante sobre a inflação brasileira poderia vir do câmbio se pressionado por uma crise financeira, pois sua resposta é mais imediata nesse caso, como ficou claro durante o surto de agravamento dessa crise em agosto de 2007.   Se o maior efeito vier do menor crescimento do PIB da economia mundial,  ele será mais diluído no tempo, com menor impacto imediato.


Como não se sabe qual efeito deverá predominar, o mais provável é que o Copom esperará o quadro clarear, mantendo a Selic inalterada até que o quadro internacional se esclareça, só aumentando-a se a inflação mostrar contínuos sinais de agravamento. 
 
Implicações para os investidores


Neste início do ano, como ninguém fala em queda dos juros, para a renda fixa permanece no mínimo a expectativa de  prolongar-se ainda mais a estabilidade da Selic, dando fôlego às aplicações desse tipo, em particular para os investidores assustados com a alta volatilidade e queda da Bovespa em 2008. Ademais, vale relembrar que a Selic continua proporcionando ganho real elevado relativamente a padrões internacionais, o que ficou ainda mais claro com as quedas que vêm acontecendo na taxa correspondente dos EUA.

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Roberto Macedo, CFPTM (Certified Financial PlannerTM) e economista formado pela USP com Mestrado e Doutorado pela Universidade Harvard (EUA), é pesquisador da FIPE-USP.  Foi Secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Fazenda e Planejamento, funcionário do Banco Central e do Banco do Brasil.  E-mail: imprensa@bb.com.br  

Cenário da Bolsa exige sangue-frio do investidor

2008 começou cruel para Bolsa, que até o final da semana passada havia caído 10% em janeiro. Más notícias que vieram de fora e saídas de investidores estrangeiros que estavam no país sobrepuseram-se às boas informações sobre a macroeconomia brasileira e seu crescimento, e azedaram o clima do mercado acionário.

Como dialogamos mais com investidores brasileiros e somos um deles, nas  conversas ouvimos a frustração de vários, em particular dos que entraram na Bovespa mais recentemente, inclusive nas IPOs (Ofertas Públicas Iniciais) da própria Bovespa e da BM&F, que atraíram tanta atenção e tanta gente à procura de seus papéis. A da Bovespa foi o maior IPO brasileiro de 2007 e o quinto maior do mundo no mesmo ano.

Nesses dois casos, além das más notícias de fora houve também uma aqui dentro, de caráter microeconômico, porque de impacto setorial.  Foi o aumento da CSLL (Contribuição sobre o Lucro Líquido) das instituições financeiras, incidente também sobre os resultados dessas duas, e imediatamente descontado do preço de suas ações pelo mercado. Na sexta feira, ao anunciar novos projetos e a perspectiva de bons resultados em 2008 as ações da BM&F tiveram uma recuperação de 8%.

Nesse contexto, vamos examinar o estado atual da Bolsa, o impacto desses ventos de fora e o cenário para o investidor brasileiro tomar decisões cruciais, num momento que exige forte dose de sangue-frio por parte de quem decide.


O Ibovespa em clima de montanha russa


 Na tabela abaixo estão os números do Ibovespa e suas taxas de variação entre 27/9/07 a 18/1/08nas datas com as características indicadas no título da tabela.

Ibovespa: Data em que Passou o Limite de 60 mil pontos (L), Recordes  de Alta (R), Valores mais Baixos (B) em Seguida, Valor ao final de 2007(07) e Cinco Últimos Valores(U) -  Variação Porcentual em % entre as Mesmas Datas- Setembro de 2007 a Janeiro de 2008.

DiaBolsa (pontos)Variação em %DiaBolsa (pontos)Variação em %
27/09

 61.052 (L)(R)

17/12

59.828 (B)

-9,06

03/10

60.099 (B)

-1,56

28/12

63.886 (07)

+6,78

09/10

63.549 (R)

+5,74

14/1/08

62.188 (U)

-2,66

19/10

60.894 (B)

-4,18

15/1

59.907 (U)

-3,67

31/10

65.318 (R)

-7,27

16/1

58.777 (U)

-1,88

26/11

59.069 (B)

-9,57

17/1

57.037(U)B)

-2,96

06/12

65.791 (R)

+11,38

18/1

57.506 (U)

+0,82

Fontes: Ipeadata e  Bovespa, inclusive para as duas tabelas seguintes.


 Note-se que depois de ultrapassar em 27/9/07 a barreira dos 60 mil pontos, pelo primeiro valor da tabela, o Ibovespa alcançou seu último recorde perto de 65 mil pontos em 6/12. E desde a primeira data até o final do ano, ou seja, por cerca de três meses, oscilou entre números perto desses dois valores (60 e 65 mil pontos), já demonstrando dificuldades de arrancar além do segundo.

 Começou 2008 em queda, mas dentro desses limites, até que em 15/1 rompeu de cima para baixo a barreira dos 60 mil pontos, atingindo seu menor valor do ano no dia seguinte. Na sexta-feira, subiu 0,82%, mas acumulando uma baixa de 10% no ano.

 Dada a grande participação de investimentos estrangeiros, os ventos que sopram de fora têm grande influência na Bovespa.  Ora, desde agosto do ano passado, com a eclosão da crise no mercado de financiamentos imobiliários de segunda linha (os “subprimes”) nos EUA, e com as maiores especulações sobre a ocorrência futura de uma recessão naquele país, a Bovespa passou a sofrer oscilações dependendo do tom das notícias sobre a economia daquele país e de suas instituições financeiras.

 Na referida terça-feira, a forte queda das bolsas mundiais, arrastando a brasileira, seguiu-se ao anúncio, pelo Citigroup, de um grande prejuízo no quarto trimestre de 2007, depois de baixa contábil de US$18,1 bilhões,  de perdas no mercado “subprime”. Prejuízos de mesma origem foram divulgados nos dias seguintes, em menor escala (J.P. Morgan) ou também de grande magnitude (Merrill Lynch).  Ao mesmo tempo, aumentaram as apostas numa próxima recessão, cujo conceito usual é o de duas taxas negativas de variação trimestral do PIB, o que até agora não ocorreu.

 Os bancos centrais dos países mais afetados pela crise passaram a atuar contra a crise, em particular o dos EUA, que vem reduzindo sua taxa básica, e deve fazer isso novamente na sua reunião nos dias 29 e 30 deste mês.  Como a expectativa de recessão nos EUA se acentuou, na sexta-feira passada o governo dos EUA anunciou um pacote de incentivos no valor aproximado de US$145 bilhões, ou 1% do PIB do país, pacote esse deverá passar ainda pelo Congresso, onde deve ser aprovado ou até ampliado.

 As bolsas de ações dos EUA reagiram com indiferença, aguardando maiores detalhes, com alguns analistas aqui afirmando que o pacote é pequeno.  Mas, não é bem assim. Seu valor é próximo de estimativas dos prejuízos trazidos pela crise.



Perspectivas para o investidor brasileiro

 Nesse quadro, quem investe na Bovespa deve ponderar que: (a) uma visão difundida da crise dos “subprimes” é de que ainda está na metade; (b) as perdas de bancos americanos são altas, mas se referem ao passado,  e eles estão se capitalizando para ampliar suas operações; (c) não se deve subestimar a capacidade de reação da economia dos EUA, a qual é muito forte na sua natureza e muito diversificada, com amplo espaço para reações saudáveis, como ocorre com suas exportações, que subiram na esteira da desvalorização do dólar;  (d) as quedas da taxa de juros e o referido pacote fiscal devem produzir resultados, mas mais a partir do segundo trimestre;  (e) com tudo isso, ainda vemos como cenário mais provável um de redução do crescimento, mas não uma recessão;  (f) o primeiro semestre de 2008 deverá mostrar alta volatilidade do Ibovespa, sem desprezar até mesmo uma queda mais acentuada; (g) quem está nela deve tomar as decisões mais adequadas ao seu perfil de ativos em geral, de rendimentos e de propensão ao risco; (h) por exemplo, para quem aplicou um valor maior do que pode perder seria o caso de fazer o ajuste antes que isso aconteça; (j) tanto para quem ficar como para quem pensa em entrar, as quedas poderão ser oportunidades de compra, mas cada vez mais seletivas, pois salvo quedas mais fortes  a Bovespa chegou a um ponto em que a valorização geral ligada a baixos valores da relação preço-lucro praticamente se esgotou, com as perspectivas futuras estando mais ligadas aos desempenhos específicos das empresas.

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Roberto Macedo, CFPTM (Certified Financial PlannerTM) e  economista formado pela USP com Mestrado e Doutorado pela Universidade Harvard (EUA), é pesquisador da FIPE-USP.  Foi Secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Fazenda e Planejamento, funcionário do Banco Central e do Banco do Brasil.  E-mail: imprensa@bb.com.br

Balanço das aplicações em 2007 e cenários para 2008


Mais uma vez, a Bolsa foi a vedete do ano, batendo por larga margem os fundos de ligados à taxa básica de juros. E foi também penta-campeã, pois essa chegada na ponta se repete desde 2003 quando, depois de vários anos perdendo da Selic, inverteu o jogo e vem ganhando até aqui.

Na renda fixa em geral, com a queda da Selic os rendimentos nominais foram menores que no passado recente, mas ainda ganhando claramente da inflação medida pelo IPCA, mas dependendo do caso já perdendo do IGPM, tanto pela queda dos rendimentos como pela subida desse índice em 2007.

Também tido como de renda variável, o dólar foi o lanterninha das aplicações que examinaremos, e por tabela prejudicou  o ouro, que em dólares subiu, refletindo a crise dessa moeda nos mercados internacionais.

Examinaremos esses e outros números e delinearemos um cenário  para 2008 das aplicações que serão analisadas.



As aplicações e seus números em 2007


A tabela abaixo mostra os rendimentos de sete aplicações financeiras de maior interesse do investidor brasileiro.Nas duas últimas colunas estão os resultados em dezembro do ano passado e no ano como um todo. Para fins de comparação, a tabela também inclui os resultados, nesses períodos e em janeiro,  da taxa Selic e de dois índices de inflação levados em conta pelo mercado, o IPCA e o IGP-M. O rodapé contém as fontes e várias notas técnicas relevantes para entender o significado dos números apresentados.


Taxa Selic, Rendimentos Nominais(*) de Aplicações e Índices de Inflação IPCA e IGP- em Janeiro, Dezembro e no total de 2007 –Em %

Selic, Aplicações e Índices de Inflação

Janeiro

Dezembro 2007
Taxa Selic

1,08

0,84

11,88

Fundos Referenciados DI

1,02

0,77

10,86

Fundos Renda Fixa

1,00

0,70

10,38

CDBs (**)

1,00

0,88

11,87

Poupança (***)

0,72

0,56

7,70

Ibovespa

0,38

1,40

+43,65

Dólar Comercial PTax

-0,62

-0,70

-17,15

Ouro BM&F - Spot

3,22

-0,45

-7,31

IPCA

0,44

0,74

4,46

IGP-M

0,50

1,76

7,75

Fontes: www.ipeadata.gov.br, Valor, 2/1/08 e Gazeta Mercantil, 3/1/08), conforme instituições do mercado. Nos casos dos fundos e dos CDBs há diferenças entre as fontes derivadas de critérios de levantamento. Em razão disso, e de algumas observações que se seguem, o investidor deve examinar os próprios rendimentos que obteve. (*) Salvo menção em contrário, rendimento bruto, sem Imposto de Renda(IR) quando aplicável e taxas de administração, se cabíveis; (**) taxa para o primeiro dia do mês, para grandes aplicações;(***) rendimento relativo às contas com vencimento no primeiro dia útil do mês seguinte.

Em síntese, esses números revelam aspectos que realçamos ao longo do ano. Assim, entre janeiro e dezembro, houve a queda da Selic, como resultado da política de redução da taxa de juros adotada pelo Banco Central ao longo de 2007. Com isso, os rendimentos dos Fundos DI, de renda fixa e da caderneta de poupança também acompanharam essa queda.

De um modo geral, com exceção do dólar e do ouro, todas as aplicações superam por boa margem o IPCA. Contudo, com o agravamento da inflação a partir de meados do ano, a poupança perdeu levemente do IGPM, e nos casos específicos fundos e dos CDBs vale ressaltar uma nota ao rodapé da tabela, a que diz que o investidor deve examinar seus próprios rendimentos. A razão é que na comparação com os índices de inflação, principalmente com o IGP-M, o rendimento líquido de IR e de taxas de administração, quando cabíveis, pode levar a resultados diversos desses de caráter geral.


O cenário para o investidor em 2008

A tabela abaixo mostra o cenário que contemplamos neste princípio do ano. Nessa visão, as aplicações em renda fixa têm horizonte maior, em torno de três meses. Já as de renda variável, sua volatilidade limita o cenário ao horizonte imediato, exceto no caso do câmbio, que deve continuar próximo do seu nível atual enquanto o quadro favorável das contas externas brasileiras não demonstrar indícios de deterioração ou de folga ainda mais acentuada, ressalvada também a volatilidade que pode vir dos ventos que sopram de fora.

Cenários para as principais aplicações financeiras em 2008

Aplicação

Cenário

Fundos DI

De um modo geral, remuneração ainda alta versus inflação, em particular a do IPCA, e sem perspectivas de queda em face da estabilidade prevista da taxa Selic. Se o agravamento da inflação (vide primeira tabela) não refluir, essa taxa pode até aumentar.

CDBs

Usualmente gera ganhos maiores para grandes aplicações negociadas caso a caso. Em face desse cenário da inflação e dos juros, risco é maior para prazos mais longos.

Fundos de renda fixa

Tendem a acompanhar os fundos DI, mas sofrem de risco similar ao dos CDBs dependendo da composição de sua carteira.

Poupança

Sempre atrás, acompanha variações da Selic, mas com o valor em que esta se encontra é particularmente adequada para pequenas aplicações, dada a ausência do IR para pessoas físicas e de taxa de administração..

Ibovespa

Está num patamar alto onde volatilidade é maior.Desde o início de outubro vem mostrando dificuldades de arrancar acima dos 65 mil pontos. Exige propensão ao risco e a seletividade adquire importância cada vez maior, conforme demonstra a variância dos resultados das ações, principalmente das lançadas sob a forma de oferta pública Inicial. Exige propensão ao risco e disposição para não se assustar ou se entusiasmar com resultados de curto prazo.

Dólar

Continua sem atrativos.

Ouro BM&F - Spot

Inadequado para o investidor comum, com o agravante de que sua cotação depende também da taxa cambial.

Fundos multimercados

Vantagem relativa caiu com volatilidade da Bolsa e perspectiva de Selic estável, ou mesmo subindo, conforme assinalado acima.

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Roberto Macedo, CFPTM (Certified Financial PlannerTM) e economista formado pela USP com Mestrado e Doutorado pela Universidade Harvard (EUA), é pesquisador da FIPE-USP. Foi Secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Fazenda e Planejamento, funcionário do Banco Central e do Banco do Brasil. E-mail: imprensa@bb.com.br.

Equação (- CPMF + IOF + CSLL + Cortes + Outras = 0) favorece investidor

      Depois que a CPMF se extinguiu no final de 2007, o governo federal montou essa equação, onde CPMF é a Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira, extinta no final de 2007,  IOF é o Imposto sobre Operações Financeiras, recentemente aumentado, e CSLL é a Contribuição Social sobre o Lucro Líquido (que na equação incide apenas sobre o setor financeiro), também ampliada, mas a partir de abril.

      Cortes são os que o governo pretende fazer nas despesas do orçamento de 2008, ano ao qual se referem também as demais variáveis da equação. Outras são as demais medidas a que o governo pode recorrer para fechá-la. Depois de 2008, as opções poderão ser diferentes. Elas dependerão da evolução das receitas, e há tributos que tomam mais tempo para ser ampliados.


      Ao escrevermos sobre o fim da CPMF em 17/12, nossa previsão era a de que o governo iria “... contornar o impacto orçamentário da perda da CPMF com um pacote fiscal que incluirá cortes de despesas orçadas, aumento de impostos em vigor e, ainda, um substituto para o tributo extinto.”  Dessa lista, falta ainda o último item, mas sabe-se que permanece na agenda do governo - e também de parte da oposição -, um outro imposto sobre a movimentação financeira nas contas bancárias, com outro nome, destinação específica (saúde), alíquota menor e caráter permanente. Esse novo imposto é de concepção e viabilização política mais complicada que as medidas já tomadas.


      Não foi difícil acertar a previsão de aumento de impostos, pois são vultosos os recursos que o governo perdeu com o fim da CPMF, e sua política fiscal não contempla cobrir tal perda só com contenção de gastos. Há estimativas de que a arrecadação desse tributo em 2007 alcançou cerca de R$36 bilhões, um valor que subiria para R$40 bilhões este ano.  Como o valor do pacote de medidas compensatórias é estimado em R$30 bilhões, estariam faltando R$10 bilhões na equação citada, que poderão vir de um novo imposto e/ou da maior arrecadação ligada ao crescimento do PIB. 


      Independentemente desses e outros desdobramentos, e ressalvadas algumas exceções a que nos referiremos posteriormente, o que está claro é que a equação até aqui montada favorece o investidor que como tal é beneficiado pelo fim da CPMF e em geral não é atingido pelas demais medidas tomadas. 


      No que se segue vamos examinar esses e outros aspectos da equação que nos pareceram mais importantes, limitando nossas observações aos tributos.


O aumento de impostos


 Na sexta-feira o governo detalhou vários aspectos desse aumento, em particular do IOF, que alcança um espectro maior de operações financeiras.  Mais precisamente, ele incide sobre operações de crédito, seguro, títulos e valores mobiliários. O governo não alterou várias isenções, com destaque para as operações de financiamento de imóveis para pessoas físicas, que permanecem isentas de IOF.

      No caso geral das operações de crédito para pessoas físicas, é importante lembrar que a alíquota era de 1,5% ao ano, enquanto que a CPMF de 0,38% incidia uma única vez sobre o empréstimo liberado.  O que o governo fez foi ampliar a  primeira alíquota para 3% ao ano, e estabeleceu também uma incidência única de 0,38% sobre o valor do empréstimo.  Para as pessoas jurídicas, o acréscimo ficou apenas neste último valor, assumindo assim a característica de um substituto da CPMF.   


      Alguns analistas opinaram que em reação a essa nova forma de tributar poderão ser ampliadas as operações parceladas com o uso de cheque e as de leasing, que não sofrem a incidência do IOF.
 
O claro benefício do fim da CPMF e outros aspectos

      Com o fim dessa contribuição o investidor que realiza uma nova aplicação tem um “ganho” (na forma de uma despesa evitada), pois até o final do ano passado sofria o ônus de 0,38% quando retirava seu dinheiro da conta corrente para essa aplicação. Ademais, de um modo geral esse “ganho” do investidor como tal não foi comprometido pelas demais medidas adotadas pelo governo.


      Quando nos referimos ao investidor como tal é porque as pessoas podem desempenhar outros papéis no mercado financeiro, e é nessas condições que ele deverá examinar os detalhes das medidas tomadas pelo governo.  Entre esses papéis está o de tomador de empréstimos e financiamentos, que em geral serão diretamente gravados com o aumento do IOF.


      Em geral o investidor é cliente de uma ou mais instituições financeiras, e nessa condição ele poderá ter ônus adicionais se essas instituições procurarem transferir o custo do aumento do CSLL para as taxas e tarifas cobradas pelos seus vários serviços. Assim, o investidor precisará estar atento à reação dessas instituições quanto ao impacto de uma CSLL sensivelmente ampliada.


      Ainda quanto ao impacto do aumento da CSLL, já aconteceram desdobramentos que afetaram o investidor de papéis específicos, como as ações de bancos, da Bovespa e da BM&F, que caíram de valor, dado que essas instituições foram diretamente afetadas por esse aumento. Pelo IOF também foi afetado o investidor em moeda estrangeira e/ou que investe em outros ativos no exterior. Essas operações deixarão de ter a incidência da CPMF, mas receberão o ônus do IOF ampliado.


      Identificamos ainda um caso pouco conhecido em seu alcance e dimensões, o do investidor que toma empréstimos para realizar suas aplicações financeiras.  Soubemos que esse tipo de operação era realizado por alguns investidores na Bolsa, em face da perspectiva de maiores ganhos que passou a oferecer nos últimos quatro anos, a ponto de compensar o custo desses empréstimos, outra razão sendo que os investidores do mercado acionário são mais propensos a assumir riscos. Evidentemente, quem estiver nessa situação deverá refazer seus cálculos tanto do lado da captação como da aplicação de recursos, mas são investidores sofisticados e certamente acostumados a fazer isso.    


      Para o investidor, outro aspecto a ponderar é o da Conta Investimento, que em princípio perderia sua razão de ser com a extinção do CPMF.  Contudo, ela não foi revogada com as medidas até aqui adotadas, o que é mais uma indicação de que pode vir um substituto da CPMF. Assim,  até que isso se decida será melhor manter por meio dessa conta o fluxo de recursos já aplicados, para evitar o ônus de um imposto substitutivo da CPMF num retorno da conta corrente à mesma Conta Investimento no futuro.

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Roberto Macedo, CFPTM (Certified Financial PlannerTM) e economista formado pela USP com Mestrado e Doutorado pela Universidade Harvard (EUA), é pesquisador da FIPE-USP.  Foi Secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Fazenda e Planejamento, funcionário do Banco Central e do Banco do Brasil.  E-mail: imprensa@bb.com.br

Um cenário das suas finanças pessoais em 2008

Estamos sempre a discutir cenários da economia mundial, da nacional e dos mercados financeiros de ambas, procurando identificar tendências que nos levem, como investidores, às melhores decisões quanto à alocação de nossos recursos entre aplicações alternativas.

Raramente, entretanto, as pessoas fazem um cenário explícito e estruturado de suas próprias finanças pessoais,  com objetivos semelhantes.  Ou seja, verificar o que se vislumbra à frente no que diz respeito ao patrimônio, aos rendimentos, à poupança e investimentos, às despesas, triviais ou não, cobrindo não apenas aspectos quantitativos como qualitativos. E, dentro desse cenário, o que vai mal e tomar decisões corretivas de rumos, mesmo aqueles que estejam bons para alcançar resultados ainda melhores.

A virada do ano, nesta semana, é um momento particularmente adequado para configurar um cenário desse tipo.  Há a mudança de calendário indicando um ano novo, o que estimula a reflexão quanto a esse período que se inaugura.

Assim, vamos tratar das linhas mestras do que deve ser um cenário desse tipo, insistindo sempre que não se deve fazer isso por mera curiosidade, mas, sobretudo,  para agir no sentido de consolidar ou de mudar o cenário que de início for delineado. 

 

O que incluir de números

            Os itens listados abaixo não foram simplesmente pinçados daqui e dali, pois se articulam segundo a lógica dos balanços e das demonstrações de resultados regularmente levantados por empresas e outras instituições. Elas fazem isso para permitir uma análise de sua eficácia e eficiência nas atividades que desenvolvem.

            No plano pessoal, nem sempre as pessoas percebem que fazem algo semelhante, se e quando preenchem a declaração anual do Imposto de Renda(IR) das pessoas físicas, a qual inclui a declaração de rendimentos e a de bens, direitos, dívidas e ônus reais.

            Uma diferença relativamente à declaração do IR é que embora a lista abaixo também cubra aspectos do passado, como o patrimônio, ela deve ser avaliada de olho no seu cenário para o ano seguinte. Outra diferença é que ela é mais completa, pois seu objetivo não é apenas o de atender a exigências fiscais. Por exemplo, as despesas vão além das dedutíveis do IR, e o patrimônio inclui também o capital humano.  Eis a lista:

·         Patrimônio ao final de 2007, incluindo: (a) valor de mercado de imóveis, aplicações financeiras, veículos, móveis, máquinas, aparelhos e equipamentos, obras de arte, tudo isso e o que mais a pessoa tiver que seja passível de venda. Também devem ser incluídos direitos como empréstimos concedidos, e descontados o valor de dívidas contraídas; (b)  planos de previdência e de saúde, públicos ou complementares; (c) patrimônio sob a forma de capital humano individual e dos dependentes, abrangendo as condições de saúde e o status educacional e de habilidades requisitadas pelo mercado de trabalho e por outras atividades geradoras de rendimentos.

·         Rendimentos previstos em 2008 das várias fontes (trabalho assalariado, autônomo, de empresas inclusive empreendimentos rurais,  aluguéis, ganhos de capital em geral, rendimentos financeiros, aposentadorias, pensões, doações, heranças, bolsas de estudo e outras); no caso do patrimônio (b) deve ser incluído o que pode gerar de rendimentos ou cobrir de despesas caso haja o recurso a ele.

·         Recomposições, acréscimos e reduções  previstos nos patrimônios (a) e (b)  a que se refere o primeiro item, ou seja, poupança, despoupança, investimentos e desinvestimentos em 2008 (grifo nosso, para referência posterior).

·         Despesas individuais e dos dependentes e dos dependentes em 2008, usuais ou extraordinárias, como as de habitação, alimentação,  vestuário, transporte e serviços pessoais. 

 

Avaliação da  qualidade dos números

            Preparado o cenário na forma de números, o passo seguinte é o de uma avaliação qualitativa desses números.  Qualitativa no sentido de saber em que medida as cifras reveladas pelo cenário são adequadas ou não ao objetivo maior de ter recursos para um padrão de vida satisfatório, hoje e/ou no futuro.

            No caso do patrimônio, do ponto de vista econômico-financeiro as qualidades exigidas dos seus componentes devem atender aos requisitos de diversificação, utilização, segurança, rentabilidade e liquidez.  Se o cenário desses requisitos não for conveniente, cabe atuar no sentido de modificá-lo. Nem todos os itens irão satisfazer essas características simultaneamente, mas no balanço deles e delas o conjunto deve atender às conveniências do dono.  Um imóvel residencial, por exemplo, pode ter baixa liquidez, mas seu dono pode valorizá-lo pelo uso que faz dele e pela segurança que traz. É difícil, entretanto, defender a conveniência de ter um imóvel não ou mal utilizado.

            Quanto aos rendimentos, todas as pessoas querem vê-los maiores, mas a maioria está numa atividade que não oferece essa perspectiva. Essa maioria nem sempre se esforça para melhorar seu status ocupacional de forma a gerar mais rendimentos. Para quem quiser mudar de rumo, os caminhos usuais são o de adquirir maior nível educacional e outras qualificações em demanda pelo mercado, procurar outra ocupação como empregado ou empresário, expandir a rede pessoal de contatos que abram oportunidades e procurá-las com empenho. Nada disso se resolve de uma hora para outra, exigindo planejamento e até reservas financeiras para a fase de transição.

            Como outros projetos, esse requer investimentos e não pode prescindir de poupança adequada.

 

O mais importante

            Por conta dessa necessidade sempre presente, grifamos o penúltimo item e o colocamos antes das despesas usuais, pois deve ser considerado prioritário e definido com rigor e comprometimento antes de realizar essas despesas, para que não seja tratado apenas como o que restar depois de realizá-las, pois nesse caso o resultado é que freqüentemente acaba não sobrando nada.  Ou seja, as despesas do item final devem se ajustar à poupança e aos investimentos planejados, e não deixar estes dois últimos ficarem na dependência dessas despesas.

            É em construir e efetivar um cenário que maximize o penúltimo item que está a oportunidade aberta a todos, de fazer crescer o patrimônio e ampliar os rendimentos dele, completando os vindos de outras fontes, mesmo que estes últimos não aumentem.

            Se recomendamos isso é porque sabemos por experiência própria e alheia que é um caminho que funciona para ampliar patrimônio e rendimentos, e é o que desejo em 2008 àqueles que no ano que se encerra  dedicaram sua atenção aos nossos artigos.

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Roberto Macedo, CFPTM (Certified Financial PlannerTM) e economista formado pela USP com Mestrado e Doutorado pela Universidade Harvard (EUA), é pesquisador da FIPE-USP.  Foi Secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Fazenda e Planejamento, funcionário do Banco Central e do Banco do Brasil.  E-mail: imprensa@bb.com.br

Volatilidade continua determinando o cenário da Bolsa

           Há quase três meses a Bovespa oscila em torno de 60 a 65 mil pontos, evidenciando uma volatilidade derivada de várias causas.  Vamos tratar dessas oscilações, de suas principais razões e mostrá-las de uma forma diferente da que usualmente se vê na mídia, voltada usualmente para as taxas de variação do Ibovespa.  Nessa linha, vamos simular carteiras de diferentes valores em reais e verificar como oscilaram na semana passada, para que o leitor perceba melhor o significado do vai e vem das taxas para o investidor. Encerraremos com uma nota de cautela dirigida principalmente aos calouros do mercado, efetivos ou potenciais.  

O sobe e desce do Ibovespa

            Na tabela abaixo são mostrados, no enfoque tradicional,  os números absolutos do Ibovespa e suas taxas de variação entre 19/7 a 21/12, nos  dias em que houve recordes de alta(R), os valores mais baixos(B) que se seguiram e o valor desse índice na última cotação disponível(U) quando concluíamos este artigo.

 Ibovespa: Recordes  de (R), Valores mais Baixos (B) em Seguida e Último Valor(U) Fechamento nas  Datas Indicadas e Variação Porcentual entre as Mesmas Datas  Julho a Dezembro de 2007

Dia

Bolsa (pontos)

Variação em %

19/7

58.125(R)

-

16/8

48.016(B)

-17,39

9/10

63.549(R)

+32,35

19/10

60.894(B)

-4,18

31/10

65.318(R)

+7,27

26/11

59.069(B)

-9,57

6/12

65.791(R)

+11,38

17/12

59.828(B)

-9,06

21/12

63.098(U)

+5,47

Fontes: Ipeadata e Bovespa, inclusive para as duas tabelas seguintes

           Na tabela, entre o primeiro e o último recorde mostrado pelo Ibovespa (19/7 e 6/12), o ganho foi considerável (+13,2%), e são movimentos desse tipo que têm atraído novos investidores para o mercado. Nas subidas, houve razões macroeconômicas, como o maior crescimento do PIB e a sensível melhoria das contas externas brasileiras, esta particularmente importante para os investidores estrangeiros, cuja vinda é muito influenciada pela segurança de uma eventual saída. Na microeconomia,  ocorre um melhor desempenho de empresas, com a Vale sendo um dos casos emblemáticos. E houve até razões fortuitas, como a descoberta do campo de Tupi, que impulsionou as ações da Petrobrás. São duas empresas com grande peso no Ibovespa.


          Nas quedas, predominaram, no plano macroeconômico, as preocupações com o desempenho da economia dos EUA, às voltas com uma inflação ainda resistente e com um menor crescimento do PIB.  No plano microeconômico, mas com repercussões mais amplas, há a crise que veio dos financiamentos imobiliários conhecidos como “subprimes”.  Nesse contexto, vez por outra surgiram notícias negativas que levam à saída de investidores estrangeiros e à queda do Ibovespa.

As oscilações da última semana


          A tabela acima também revela que depois de atingir um recorde de 63.549 pontos em 9/10, o Ibovespa voltou praticamente ao mesmo valor mais de dois meses depois, em 21/12, nesse período alcançando também outro novo recorde. Nos seus números arredondados, há quase três meses esse índice vem oscilando entre 60 e 65 mil pontos, e a semana passada foi típica desse padrão, conforme mostra a tabela abaixo.

 Ibovespa: Números Diários da Semana de 17 a 21 de Dezembro 2007

Dia

Bolsa (pontos)

Variação no dia em %

17/12

59.828

-4,19

18/12

61.896

+3,46

19/12

61.722

-0,28

20/12

61.716

-0,01

21/12

63.098

+2,24

Das taxas aos números em reais

          Na tabela que se segue, mostramos a oscilação correspondente dos valores em reais de quatro carteiras simuladas com valores iniciais indicados na primeira coluna, e oscilando sob a hipótese de que tiveram variação idêntica à do Ibovespa.  

Ibovespa: Volatilidade em Reais – Valores Diários de Carteiras a partir de seus Valores Iniciais em 14/12/07, Supondo Oscilação Idêntica à do Índice Bovespa,

na Semana de 17/12 a 21/12/07

           Valores das Carteiras nos dias indicados - em R$

Valor inicial da carteira (R$)

17/12

18/12

19/12

20/12

21/12

10.000

9.581,00

9.912,50

9.884,75

9.883,76

10.105,15

100.000

95.810,00

99.125,03

98.847,45

98.837,62

101.051,56

300.000

287.430,00

297.375,08

296.542,35

296.512,85

303.315,47

1.000.000

958.100,00

991.250,26

988.474,50

988.376,15

1.010.515,62

            

              Note-se que no dia 17/12 as perdas das carteiras simuladas na tabela foram de R$419,00, R$4.190,00, R$12.570,00 e R$41.900,00, respectivamente. Veteranos do mercado acionário estão acostumados com essas oscilações, mas novos ingressantes precisam fazer o mesmo para não tomarem decisões precipitadas, sempre pensando numa perspectiva de prazo maior, e lembrando-se de que o futuro nem sempre repete o passado (note-se que no final da tabela há um ganho de 1,05%). E, em particular, que essas oscilações ocorrem num momento de alta onde os riscos de volatilidade são maiores, podendo frustrar investidores que pensam apenas em ganhos de curto prazo.

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Roberto Macedo, CFPTM (Certified Financial PlannerTM) e economista formado pela USP com Mestrado e Doutorado pela Universidade Harvard (EUA), é pesquisador da FIPE-USP.  Foi Secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Fazenda e Planejamento, funcionário do Banco Central e do Banco do Brasil.  E-mail: imprensa@bb.com.br

Cenário pós-queda da CPMF

Tal como existe hoje, a CPMF se extinguirá no final deste mês, pois a proposta governamental de prorrogá-la não teve os votos necessários ao ser levada ao plenário do Senado na semana passada.

Para o governo federal, o impacto imediato será uma perda de arrecadação pelo menos no início de 2008, pois tudo indica que irá contornar o impacto orçamentário da perda da CPMF com um pacote fiscal que incluirá cortes de despesas orçadas, aumento de impostos em vigor e, ainda, um substituto para o tributo extinto. Este seria cobrado da mesma forma, isto é, sobre a movimentação financeira nas contas bancárias, mas com outro nome, destinação específica (gastos em saúde), alíquota menor e caráter permanente.

A extinção da CPMF tem implicações macro e microeconômicas que alcançam desde a política fiscal e monetária do governo até as decisões dos cidadãos, tanto de investidores como de consumidores. 

Vamos examinar algumas dessas implicações num contexto em que o impacto do fim da CPMF ainda não foi de todo absorvido pelas autoridades responsáveis pela política econômica, que estão ainda a ponderar sobre o ocorrido e a procurar medidas  que possam contrabalançar os efeitos fiscais que ela trouxe e seus desdobramentos. 


I – Na macroeconomia... 
O grande interesse dos analistas está na reação da política fiscal do governo.  Em particular, se serão mantidos os altos superávits primários (receitas menos despesas exceto juros), que vinham permitindo o pagamento de parcelas crescentes das despesas com juros,  e criando inclusive a perspectiva de um déficit final ou nominal nulo. Isso, dentro de uns dois ou três anos, em particular se mantida também a política monetária de redução progressiva da taxa Selic.

A manutenção de um cenário como esse é crucial para redução progressiva da proporção entre a dívida líquida do setor público e o PIB, proporção essa que funciona como um importante “indicador de cadastro” das finanças governamentais. A razão é que sua queda progressiva significaria o afastamento de riscos de insolvência, os quais dominam as preocupações dos analistas e de investidores em papéis do governo, com desdobramentos nos demais mercados. E traria, também, uma redução do custo da dívida.

A propósito, recorde-se que a primeira reação dos investidores no mercado acionário, por meio da  Bovespa, foi negativa, com queda acentuada das cotações (2,9%) no dia seguinte (13/12)  ao da decisão do Senado.
Felizmente, logo em seguida o governo emitiu sinais claros de que a essência da política fiscal, na forma dos referidos superávits primários, será mantida.  Com isso, no dia 14 essa reação dos investidores em ações foi contida, com uma queda menor, de 0,66%.

Esse mercado permanece numa atitude de cautela, mas tornou-se confiante que as medidas macroeconômicas não serão danosas às linhas mestras, acima referidas,  da atual política fiscal.
Nesse contexto, um aspecto importante que o mercado acionário pondera é o impacto do fim da CPMF sobre a perspectiva,  hoje presente,  de o Brasil alcançar em 2008 ou no início de 2009 o chamado “grau de investimento” na avaliação das agencias de risco internacional.  A razão é que a preocupação fundamental dessas agências é com a solvência da dívida pública, que por sua vez depende fundamentalmente do superávit primário e da conta de juros.

Em síntese, pelo que se pode perceber no momento o cenário macroeconômico é um em que o governo federal não sacrificará esse rumo de sua política fiscal, pois só teria a perder com isso, em face do abalo que isso traria não só às condições de financiamento da dívida pública como ao mercado acionário na sua capacidade de atrair recursos externos para o país. E, também, de investidores nacionais para as empresas que têm suas ações negociadas na Bovespa ou o propósito de fazê-lo no futuro.


II – Na microeconomia...
As implicações são em maior número em face dos múltiplos efeitos da CPMF. Em particular, estamos a menos de duas semanas do final do ano, que terá o dia 28/12 como último dia útil e de transações bancárias válidas no ano corrente, o que enseja a oportunidade de adiar para 2008 as operações sujeitas à CPMF para evitar o custo de 0,38% desse imposto sobre seu valor.

Isso pode ensejar um “ganho” (na forma de uma despesa evitada), particularmente importante quando ligado a transações de maior valor, como a aquisição de automóveis e imóveis.  Em termos relativos, 0,38% por um prazo menor ou igual a 10 dias úteis equivale a um “ganho”  bem superior ao oferecido por aplicações de renda fixa nesse período.
Há, contudo, fatores ainda imponderáveis que dependerão do que o governo irá fazer até o final deste ano quanto ao assunto. O ministro da Fazenda, Guido Mantega, em entrevista a  O Estado de S. Paulo (15/12/07), disse que “Vamos ter que aumentar alguns tributos”... É para a semana que vem, não vou dizer o dia”. Perguntado pelos repórteres sobre quais impostos seriam aumentados, respondeu: “Examinem os que estão à disposição”.

Ora, o IOF pode subir por decreto, e como a CPMF termina no fim do ano, novas alíquotas poderiam vigorar logo no início de 2008. Ou seja, o adiamento de operações que envolvam IOF corre o risco de vê-las sujeitas a uma alíquota maior em 2008. Assim, neste caso o recomendável seria esperar o que o governo vai anunciar nos próximos dias e deixar para pouco antes do dia 28 a decisão final quanto ao assunto. O Imposto de Importação também pode ser aumentado por decreto, mas é pouco provável que o governo recorra a ele, pois agravaria a valorização do real. Os demais exigem pelo menos 90 dias ou mais de prazo antes de entrarem em vigor.

Fora essa dúvida com relação ao IOF, permanece clara a vantagem de adiar para 2008 as transações hoje sujeitas à CPMF, pois não há condições de o governo criar um substituto para a CPMF com vigência a partir de janeiro de 2008. Cada caso, entretanto, deve ser examinado nas suas implicações.
Outro aspecto é a Conta Investimento, que perderia sua razão de ser com a extinção do CPMF. 

Contudo, como pode vir um substituto da CPMF, até que isso se decida será melhor manter por dessa conta o fluxo de recursos já aplicados, para evitar o ônus do imposto substituto num retorno a essa conta no futuro. Esse imposto continua na agenda do governo e até da oposição, apesar dos desmentidos em contrário.
Se o governo anunciar alguma outra medida com relação ao assunto esta semana, como nessa questão do IOF, voltaremos ao tema na próxima.
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Roberto Macedo, CFPTM (Certified Financial PlannerTM) e economista formado pela USP com Mestrado e Doutorado pela Universidade Harvard (EUA), é pesquisador da FIPE-USP.  Foi Secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Fazenda e Planejamento, funcionário do Banco Central e do Banco do Brasil.  E-mail: imprensa@bb.com.br  

 

Por que o dólar cai em euros e recentemente subiu em reais?

              São muitas as notícias de que o dólar já não é mais aquele, pois vem perdendo valor relativamente a outras moedas, em particular o euro, e também o real.  Notícias incluem até artistas,  modelos e atletas, que agora dizem preferir contratos em euros.

            Quais os fundamentos dessa queda?  E o dólar frente ao real?  Por que ele recentemente se moveu na direção contrária, de valorização?  Como fica o investidor brasileiro, que no passado costumava investir em dólares?

            Essas e outras questões serão tratadas a seguir.

 

A queda frente ao euro e ao real 

            Na sua segunda coluna  a tabela abaixo mostra a queda do valor do dólar em euros entre 2002 e 2007, pois o número de unidades e centavos de dólar por euro mostra clara tendência de queda do início para o fim do período coberto pela tabela.

            Na mesma tabela, também foram colocados, na terceira coluna, os números relativos às unidades e centavos de reais por dólar, surgindo também uma tendência de queda, mais evidente a partir de 2004.

Euro e Real X Dólar - Dias Selecionados - 2002 a 2007. Em Euros/Dólar e Reais/Dólar (cotação de compra, comercial)

Dia, mês e ano

Euros/Dólar

Reais/Dólar

01/01/2002

1,12

2,42

16/07/2002

0,99

2,87

13/06/2003

0,84

2,86

08/01/2004

0,78

2,86

11/03/2005

0,74

2,70

12/05/2006

0,78

2,13

01/12/2006

0,75

2,17

27/04/2007

0,73

2,03

23/11/2007

0,67

1,80

Fontes: Veja (28/11/07) e Ipeadata (www.ipeadata.gov.br)

            Observando-se com mais detalhe o caso brasileiro, nota-se, entretanto, que mais recentemente quem se desvalorizou foi o real, pois os números desde então revelam alguns centavos a mais.  Assim, na seqüência do seu movimento de valorização mostrado pela tabela o real havia rompido a barreira dos R$1,80 por dólar em 24/10 deste ano, valendo então R1,797.  Depois chegou a seu valor mínimo desde o início de 2000,  com a taxa caindo para R$1,73 em 6/11.  A partir daí começa a subir alcançando seu valor máximo nesse período recente, R$1,81 em 26/11.  Nos últimos dias a taxa caiu um pouco, ficando em torno de R$1,79, mas sem voltar a seu valor mais baixo.

Essas contas de centavos podem parecer pouca coisa, mas referem-se a valores que giraram em torno de R$1,70 e R$1,80. Em termos relativos, no balanço do mês de novembro, que terminou na semana passada, o dólar subiu 3,28%, o que não é pouca coisa, representando o segundo ativo de maior valorização no mês, perdendo só para o ouro, que ganhou 5,89%.  Quando moedas fortes fraquejam, a demanda por esse metal costuma crescer, pois é também um ativo monetário.

 

Por que cai o dólar?

A moeda de um país usualmente se desvaloriza quando seu PIB perde velocidade, sua taxa de juros cai no curto prazo, sua inflação resiste à política monetária, e seus mercados financeiros estão estressados por riscos.  Hoje os EUA mostram todos esses sintomas, pois a taxa de crescimento vem caindo, a inflação continua a preocupar,  a taxa de juros cai porque a preocupação de seu banco central, o “Fed”, é maior com o crescimento que com a inflação, e seus mercados financeiros estão sob a tensão da crise do mercado de hipotecas imobiliárias de segunda linha. 

Ademais, o país mostra grandes déficits nas suas contas públicas, na balança comercial e na de transações correntes, e as nações que geram os correspondentes superávits acumularam enormes reservas em dólares e em papéis do Tesouro dos EUA, ficando desconfortáveis com essa situação. Inclusive, algumas pensam e já agem no sentido de aplicá-las em outras moedas, como o euro.

 

E a recente subida do dólar no Brasil?

            Ela se explica porque em meados de novembro a crise no mercado imobiliário dos EUA se agravou, com grandes instituições financeiras mostrando sérios prejuízos, com queda da cotação de suas ações em bolsa. Ora, esses prejuízos geram contração de crédito, aversão ao risco e movimentos de capitais com o objetivo de cobrir perdas e ajustar “portfolios” aos riscos maiores.  

            Com isso, investidores estrangeiros retiraram recursos do Brasil, levando a essa desvalorização do real registrada pelos dados de novembro.  Nos últimos dias da semana passada, o movimento se estabilizou com o dólar oscilando bem perto de R$1,79, e sabe-se também que a operação de “IPO” da BM&F voltou a atrair investidores estrangeiros e seus recursos.

 

Como fica o investidor

            Quem seguiu um antigo hábito nacional de investir em dólares arcou com o prejuízo indicado pela tabela acima. Não sem razão, hoje esse é um hábito em desuso, conforme as estatísticas dos fundos cambiais deixam claro, pois mostram pequenos volumes de recursos.  Há ainda quem compre, mas por diferentes motivos, como alguma diversificação e investimentos no exterior nessa moeda.   

            A confortável situação cambial do Brasil, com grande superávit comercial, saldo positivo nas transações correntes, bom volume de investimentos estrangeiros diretos  e reservas elevadas, impede o sucesso de ataques especulativos  contra o real, que tem resistido bem às turbulências por que passam os mercados financeiros internacionais.

            Mais a médio e longo prazo, contudo, há a possibilidade de um movimento de desvalorização do real, pois embora ainda altos os superávits comerciais vêm caindo diante de um forte aumento das importações, enquanto o superávit em transações correntes tende para zero. Assim, é preciso estar atento para essa possibilidade de valorização do dólar, mas enquanto ela não se firma, o grande atrativo que ele oferece hoje é o seu uso para importações, viagens e outros dispêndios no exterior, em particular nos EUA, onde é moeda local e as alternativas para gastá-la são imensas. 

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Roberto Macedo, CFPTM (Certified Financial PlannerTM) e economista formado pela USP com Mestrado e Doutorado pela Universidade Harvard (EUA), é pesquisador da FIPE-USP.  Foi Secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Fazenda e Planejamento, funcionário do Banco Central e do Banco do Brasil.  E-mail: imprensa@bb.com.br

Bolsa Volatilidade adicional recomenda cautela maior

O mês de novembro não tem sido bom para a Bovespa, que até a sexta-feira passada mostrou seu índice caindo  6,7% no mês. Entre as razões, está a forte valorização em setembro e outubro, que ensejou movimentos de realização de lucros e, da parte de alguns investidores, a crescente percepção de que há supervalorização.  Outra razão foi a saída de investidores estrangeiros, cuja movimentação tem forte papel nas cotações.

Vamos examinar esse mau humor do mercado acionário. O quadro claramente sugere cautela ainda maior por parte do investidor.

 

O vai e vem da Bovespa

            Na tabela abaixo são apresentados, na segunda coluna e para o período que vai de 19/7 a 23/11, os número do Ibovespa nos  dias em que bateu recordes de alta(R), e os valores mais baixos(B) que se seguiram.  Para referência posterior são também apresentados, nos mesmos dias,  os valores da taxa de câmbio em R$ por dólar, para operações de venda de dólar comercial.

            No caso do Ibovespa, percebe-se que depois atingir seu recorde de 9/10, quando alcançou 63.549 pontos, nos quarenta dias que se seguiram esse índice passou a oscilar.  No dia 31/10 alcançou novo recorde, mas não muito acima desse anterior, e em novembro retrocedeu sem fôlego para nova arrancada.  

     

Ibovespa: Records (R), Valores mais Baixos (B) em Seguida e Último Valor (U) - Taxa Cambial em R$/US$ - Fechamento nas Datas Indicadas e Variação Porcentual entre as Mesmas Datas - Julho a Novembro de 2007

DiaBolsa (pontos)Variação em %Dólar (taxa em R$/US$)Variação em %

19/7

58.125(R)

1,85

16/8

48.016(B)

-17,39

2,11

+14,05

9/10

63.549(R)

+32,35

1,81

-14,22

19/10

60.894(B)

-4,18

1,80

-0,55

31/10

65.318(R)

+7,27

1,74

-3,33

21/11

60.582(B)

-7,25

1,79

+2,87

23/11

60.970(U)

+0,64

1,81

+1,12

Fontes: Ipeadata (www.gov.br) e Bovespa (www.bovespa.com.br)

            Para isso contribuiu, entre outros fatores, a realização de lucros após sucessivos recordes. Há também, por parte de alguns investidores, uma percepção de sobrevalorização.         Em novembro, entretanto, predominou a atitude de investidores estrangeiros. A crise dos financiamentos imobiliários de segunda linha (os “subprime”), nos EUA, continua se desdobrando em perdas que cresceram de valor e atingem instituições financeiras importantes nos mercados mundiais.  Isso leva a uma contração mais generalizada das suas operações de crédito, que também prejudica investimentos financeiros nelas alavancados. 

            Além disso, investimentos estrangeiros na Bovespa refluem para seus países de origem, seja pela necessidade de fazer caixa para cobertura de perdas, seja em busca de ativos considerados mais seguros como os papéis do Tesouro Americano.

            Os dados da tabela que se segue mostram que  em novembro, até o dia 14, o fluxo de investidores estrangeiros na Bolsa foi negativo nesse mês, repetindo a queda ocorrida em outubro, que se seguiu à forte recuperação em setembro. A mesma tabela mostra, contudo, que as pessoas físicas mantiveram em novembro seu interesse pela Bolsa sem, contudo, compensar a forte saída de investidores estrangeiros.

 

Bovespa - Fluxo de Investimentos - Pessoas Físicas e Investidores Estrangeiros Novembro de 2007, até dia 14 - Em R$ milhões

Pessoas Físicas

Investidores Estrangeiros

1.871,53

-3.145,18

Fonte: O Globo, 22/11/07.

            

             As cotações do dólar, apresentadas na primeira tabela, mostram correlação negativa com as variações do Ibovespa.  Ou seja, de um modo geral, quando a Bolsa sobe o dólar cai e este sobe quando ela cai. Assim, a aversão ao maior risco que os investidores estrangeiros percebem no Brasil e sua saída da Bovespa contribuem para uma valorização do real.  Comprovando essa aversão, o “risco Brasil” também aumentou recentemente.

 

Bolsa:  tão interessante quanto arriscada

            A marca da BM&F (Bolsa de Mercadorias & Futuros) tem oito traços em diagonal, além dessas letras e do &.  Esses traços nos lembram os riscos que suas operações envolvem.

            A marca Bovespa também deveria mostrar vários riscos, para deixar bem claros os envolvidos nas suas operações. É sabido que o investimento na Bolsa deve ser voltado para resultados de médio e longo prazos.   No curto prazo a Bolsa oscila ao sabor do humor do mercado, e no Brasil ela é muito afetada pelo que se passa nos mercados financeiros internacionais, conforme demonstrado pelos seus números neste mês. Também é sabido que nada garante que resultados passados serão repetidos no futuro, e que a melhor estratégia de ganhos é comprar na baixa e vender na alta.

            Apesar desses conhecimentos serem bastante difundidos, muitas pessoas os ignoram ou não lhes dão valor.  Falando com corretores, já ouvi de alguns deles a percepção de que na esteira dos bons resultados do mercado acionário  nos anos recentes a Bolsa vem atraindo novos investidores, mas em geral estes sempre têm expectativa de ganhos  muito elevados e no curto prazo, acreditam que ela sempre vai continuar subindo e frustram-se quando ela cai por qualquer razão.

        Neste momento conturbado pelo cenário internacional, é particularmente importante que o investidor reflita novamente sobre essas lições, em particular sobre os fatos de que a Bolsa subiu muito nos últimos quatro anos e de que sua alta atravessa agora esse momento onde maior cautela é claramente recomendável.   Isso não significa ausência de oportunidades, inclusive numa ou noutra oferta pública inicial, e também como na situação apresentada pelo primeiro movimento de baixa mostrado na primeira tabela.  Quem a percebeu comprou, teve fortes ganhos até aqui inquestionáveis.

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Roberto Macedo, CFPTM (Certified Financial PlannerTM) e economista formado pela USP com Mestrado e Doutorado pela Universidade Harvard (EUA), é pesquisador da FIPE-USP.  Foi Secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Fazenda e Planejamento, funcionário do Banco Central e do Banco do Brasil.  E-mail: imprensa@bb.com.br

Cenários de 2008 já recebem maior atenção

As previsões que o mercado financeiro elabora toda sexta-feira sobre indicadores macroeconômicos, como o PIB a taxa de inflação e outros, são levantadas e condensadas semanalmente pelo boletim Focus – Relatório de Mercado que o Banco Central (BC) divulga toda segunda-feira.

Vamos mostrar que no momento atual, meados do último trimestre, os analistas desse mercado voltam com maior vigor seu interesse para 2008.  Uma razão é que, dispondo de mais informações sobre o futuro imediato, que já alcança o início do próximo ano,  passam a especular com maior ênfase sobre o que poderá acontecer então e, assim, alteram mais freqüentemente as previsões que até então faziam.

Vamos examinar essa alteração de ênfase, outras razões dela, os últimos números das previsões e implicações para o investidor.

 

Interesse pelo ano seguinte emerge com mais força no último trimestre

As previsões do boletim Focus usualmente incorporam as do ano corrente e as do ano vindouro. Entretanto, ao longo do ano e até o início do último trimestre, estas últimas se alteram menos que as primeiras. Entre as razões está o fato de que comparadas às previsões para períodos mais curtos, as de períodos mais longos são mais carentes de informações ou mais cheias de incertezas sobre o que pode ocorrer.  Nessas condições, no início do ano é feita uma previsão para o ano seguinte, em geral assentad/a /também no que se espera para o ano corrente, a qual em geral não receb/e alterações freqüentes até o início do último trimestre do ano.  

A partir de então, os analistas do mercado passam a concentrar mais sua atenção no ano seguinte, dando a entender que focam mais essa atenção no período de três meses à frente, o qual passa então a alcançar o próximo ano.

 

Os números e suas alterações

            Na tabela a seguir são apresentados, na sua primeira e terceira colunas,  os últimos números do último boletim Focus, levantados em 9/11/07, das previsões para o final do ano corrente e para 2008.

                           Indicadores Macroeconômicos

Previsões do Mercado Financeiro para 2007 e 2008, nas datas indicadas.

Variáveis2007, em 9/11/072008, em 6/07/072008, em 9/11/07
Crescimento do PIB (% de variação anual)

4,70

4,14

4,32

Produção industrial (idem)

5,22

4,50

4,50

Inflação - IPCA (% a.a.)

3,92

4,00

4,10

Idem, IGP-DI (% a.a.)

6,01

4,00

4,10

Juros - Selic (final de período, % a.a.)

11,25

9,75

10,25

Taxa de câmbio (final de período, R$/US$)

1,75

2,00

1,85

Dados fiscais (% PIB): Div. Liq. Setor Público

43,40

42,00

42,00

Balança Comercial (US$) bilhões)

40,79

36,05

34,00

Balança em Conta Corrente (US$ bilhões)

8,80

5,00

2,21

Fonte: Bacen, boletim Focus - Relatório de Mercado, conforme datas indicadas.

Na sua segunda coluna, a tabela também apresenta os resultados do levantamento de 6/7/07, data próxima do meio do ano, para comparações que incluirão três aspectos.

            No primeiro, nota-se que as previsões para 2008 têm números mais redondos que os da primeira coluna, o que indica maior incerteza. Um segundo aspecto, não incluído na tabela, foi colhido das duas edições dos boletins que ela abrange, e revela que os dados da segunda coluna, levantados em meados do ano, sofreram apenas duas alterações relativamente aos da semana anterior. Já os da terceira coluna sofreram cinco alterações, o que confirma nossa percepção de  que em novembro o mercado já está com olhos mais fixos em 2008, dispõe de mais informações sobre o que pode acontecer no seu início, analisa-as e altera de forma correspondente suas previsões.

            Um terceiro aspecto diz respeito ao significado das previsões para 2008 que emergiram do último levantamento (vide terceira coluna), relativamente ao que na mesma data se contempla para 2007 (conforme a primeira coluna).

 

Em síntese, essa comparação mostra que...

            No caso do PIB o mercado está prevendo um crescimento menor em 2008, o que alcança também a taxa de crescimento da produção industrial.  Um dos motivos é que em 2007 o PIB se acelerou bastante relativamente a 2006, quando cresceu 3,7%, e há indícios de que a indústria está mais próxima de seu limite de utilização de capacidade, inclusive com pressões inflacionárias que levaram o BC a fazer uma pausa na sua política de redução da taxa de juros.  Outra razão é que se  prevê que esta cairá menos em 2008 do que 2007, trazendo estímulos menores para o PIB, pois no ano corrente ela caiu de 13,25%  para 11,25% ao ano.  Ademais, o real se valorizou bastante em 2007, e a tabela indica que terá uma pequena queda, mas ainda fortemente valorizado, levando a uma redução dos saldos da balança comercial e transações correntes com o exterior,  o que deverá trazer um impacto negativo sobre a taxa de crescimento do PIB.

            Quanto à inflação, para o IPCA a previsão é de uma taxa levemente acima daquela que se espera para o final deste ano, mas com o IGP-DI mostrando taxa bem menor, ambas abaixo do centro da meta do BC (4,5% ao ano), o que deve estar sustentando a convicção, já apontada, de retomada das quedas da taxa de juros, ainda que num ritmo bem mais baixo que o de 2007.

            Ademais, espera-se para a dívida pública como proporção do PIB uma pequena redução ligada principalmente ao aumento do esse último indicador.

 

Implicações para o investidor

            Nesse cenário – e enfatizamos que são previsões que poderão não se confirmar em 2008 –,  a taxa Selic real terminaria próxima de 6% ao ano, mais baixa que a média de 2007, mas com os investimentos em renda fixa ainda propiciando ao investidor um ganho real bem alto se avaliado à luz de padrões internacionais.

            Contudo, para muitos investidores, acostumados aos juros mais altos oferecidos no Brasil em anos anteriores, esse rendimento será considerado baixo,  e deve continuar a busca por outros mais elevados, seja nos mercados de ações e outros de renda variável, seja em empreendimentos no setor real, como os empresariais em geral.

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Roberto Macedo, CFPTM (Certified Financial PlannerTM) e economista formado pela USP com Mestrado e Doutorado pela Universidade Harvard (EUA), é pesquisador da FIPE-USP.  Foi Secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Fazenda e Planejamento, funcionário do Banco Central e do Banco do Brasil.  E-mail: imprensa@bb.com.br

Dólar queda revela cenário mundial mais nebuloso

A queda do dólar nos mercados internacionais mostra o agravamento de problemas de que a economia mundial padece no momento, em particular a dos EUA.  Examinaremos o que vem provocando essa queda, no seu movimento mais recente. Em seguida, passaremos à queda do dólar em reais e suas forças específicas. Ao final, abordaremos também implicações para os investidores brasileiros, inclusive no que  toca a investimentos não financeiros e gastos de consumo em dólares. 

 

Dólar X euro

            Como a segunda moeda forte mundial, o euro é a mais utilizada para mostrar a queda do dólar.  Assim, no final de 2005 eram necessários US$1,18 para comprar 1 euro; no final de 2006, esse valor havia subido para US$1,33 e na sexta-feira passada estava em R$1,47. Ou seja, mais dólares por euros.  Vendo essas cotações em euro por dólar, seus valores passam a 0,85, 0,75 e 0,68, respectivamente, ou seja, menos euros  por dólares, 11,8% a menos entre o primeiro e o segundo número, 9,3% entre o segundo e o terceiro, e 20% entre o primeiro e o terceiro.            Portanto, há uma desvalorização substancial do dólar.


           Pela teoria econômica e pela história, sabe-se que a  moeda de um país tende a se desvalorizar quando sua economia declina, sua taxa de juros cai no curto prazo, sua inflação resiste à política monetária, e seus mercados financeiros estão estressados por riscos.  O que se passa nos EUA confirma isso, pois sua taxa de crescimento está caindo, sua inflação continua a preocupar seu banco central, sua taxa de juros cai porque a preocupação com o crescimento é maior do que com a inflação, e seus mercados financeiros estão sob a tensão dos desdobramentos da crise do mercado de hipotecas imobiliárias de segunda linha.  Estima-se que essa crise gerou perdas entre US$150 bilhões e US$200 bilhões, e via conexões entre instituições financeiras alcançou grandes bancos cujas ações já sofreram fortes perdas na bolsa.

Esse quadro é agravado por outro fator. Os EUA registram grandes déficits em sua balança comercial e nas transações correntes, e as nações que geram os correspondentes superávits acumularam enormes reservas em dólares. Com isso, passaram a sentir desconforto com essa situação. Inclusive, pensam e já agem no sentido de aplicá-las em outras moedas, como o euro. E, também, de utilizá-las para comprar ativos não tradicionais em seu papel de reservas. Isso, por meio dos chamados fundos soberanos, que entre outras alternativas aplicam em mercados de ações.
 

Assim, na semana passada uma das razões da nova queda do dólar foram declarações de autoridades chinesas, cujo país tem cerca de US$1,4 trilhão em reservas, de que o dólar está perdendo status como moeda forte,  e que a China deveria converter parte adicional delas em outras moedas fortes.

Ora, declarações como essas também levam investidores a buscar outras moedas e ativos nelas expressos que ofereçam mais segurança e rendimentos, gerando novas quedas do dólar.

 

Dólar X real

            No Brasil, o dólar comercial fechou a semana passada a R$1,75, na seqüência de forte processo de valorização do real que se manifesta desde o final de 2002, com o que depois de sete anos voltou a esse valor só registrado anteriormente no ano 2000!  

            Além da posição fortemente superavitária do país nas balanças comercial e de transações correntes, outros fatores continuam pesando na valorização do real. Entre eles, as maiores taxas de juros oferecidas no Brasil,  o ingresso de capitais tanto por essa razão como para adquirir ações e realizar investimentos diretos, e a perspectiva de o país receber o “grau de investimento” em 2008, em função do melhor conceito que passou a ter nos mercados financeiros. Comparado aos EUA, no Brasil a taxa de crescimento está forte, a taxa básica de juros vinha caindo, mas esse movimento foi interrompido - e ela é ainda muito  alta -, e seus mercados financeiros estão em fase de euforia, refletida sobretudo no desempenho da Bovespa.

            Esse quadro tem também o efeito do dólar enfraquecido.  Como dito acima, isso leva à busca de outras moedas e ativos referenciados a elas, o que pode gerar valorizações excessivas, inclusive bolhas. Essa valorização se explica também porque os mercados financeiros mundiais continuam acreditando na atuação dos bancos centrais, uma atitude justificada em face do que eles fizeram nos últimos dois meses, em particular o dos EUA, com as reduções de juros e o socorro de liquidez que adotou.

 

Ansiedades alcançam também o Brasil 

            Apesar da sensível melhora da nossa economia desde 2004, seu bom momento atual também traz ansiedades para quem vê nosso país com sua moeda referenciada principalmente ao dólar e a economia dos EUA com as dificuldades apontadas.

            Em particular, o real valorizado prejudica as exportações nacionais, principalmente as do setor industrial, a acumulação de reservas já preocupa pelos seus custos,  e ativos como as ações dão sinais de supervalorização. Há também forte incentivo às remessas de lucros e dividendos. Ademais, um desenlace mais sério da crise da economia dos EUA e do dólar pode levar a conseqüências mais graves, se sobrevier uma queda mais forte da atividade econômica naquele país, afetando as exportações de países como a China e sua forte demanda de produtos brasileiros.

            Contudo, permanece nossa análise de que o cenário ainda é de “aterrissagem suave” da economia dos EUA, em particular por um fato ao qual o noticiário vem dando pouca atenção.  É o aumento das exportações americanas devido à desvalorização do dólar, o que  reduz  o efeito negativo sobre o PIB da retração do mercado imobiliário.

 

Nesse quadro de incertezas, o investidor...

            Quem se aventurou pelos mercados de maiores riscos, como a Bovespa, deve estar bem informado a respeito do que se passa na economia mundial e na brasileira. E, ainda, claramente ciente desses riscos, contendo seu entusiasmo com os ganhos que vem obtendo, pois a alta da Bolsa ocorre num quadro dos mercados financeiros  que oferece espaço para grande volatilidade.

            Entretanto, nesse mesmo quadro não há dúvida quanto a oportunidades para gastos de consumo e alguns tipos de investimento referenciados em dólar que não a própria moeda.   Viagens internacionais, produtos e serviços importados dos EUA ou lá consumidos, cursos, tratamentos de saúde e outros investimentos no “capital humano”  dos investidores e seus familiares, passam por um momento muito favorável nos seus preços.  Dentro da visão de que a poupança não vale por si mesma, mas sim pelo que pode trazer de mais qualidade de vida para quem a faz e seus familiares, estamos diante de um momento particularmente adequado para colocar essa teoria em prática.

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Roberto Macedo, CFPTM (Certified Financial PlannerTM) e economista formado pela USP com Mestrado e Doutorado pela Universidade Harvard (EUA), é pesquisador da FIPE-USP.  Foi Secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Fazenda e Planejamento, funcionário do Banco Central e do Banco do Brasil.  E-mail: imprensa@bb.com.br

Inflação: cenário melhor e significado para os juros

       

 

Roberto Macedo

Nas últimas semanas a inflação revelou significativa melhora, trazida por movimentos internos dos preços.  Veio também a perspectiva de um alívio dado por renovada valorização do real, ou seja, uma queda da taxa de câmbio em reais por dólar.

Vamos examinar essa melhora e seu significado para a taxa básica de juros.

 

I – A inflação mais baixa mostrada pelos índices

            A tabela abaixo mostra as variações mensais do IPCA e do IGP-DI de junho a setembro desde ano, e também as do IGP-M, as quais alcançam o mês de outubro, pois os dados desse último índice são concluídos antecipadamente aos demais citados. 

            Percebe-se o agravamento da inflação em setembro, no primeiro índice, e a partir de agosto e setembro, nos dois últimos.   Também se percebe que o IPCA e o IGP-DI melhoraram em setembro, enquanto que a queda do IGP-M surge em outubro. 

           

IPCA,  IGP-DI e IGP-M - Junho a Outubro de 2007 - Em % ao mês

Mês

IPCA

IGP-DI

 IGP-M

Junho

0,28

0,26

0,26

Julho

0,24

0,37

0,28

Agosto

0,42

1,39

0,98

Setembro

0,24

1,17

1,29

Outubro

1,05

          Fonte:  IBGE e Fundação Getúlio Vargas (FGV)

 

            Como o IGP-M é uma antecipação do IGP-DI, com a segunda metade do levantamento diário do primeiro índice constituindo a primeira metade da pesquisa que produz o segundo, o resultado de outubro sugere que o IGP-DI também deve mostrar nova melhoria do mesmo mês. A propósito, falando à imprensa sobre o assunto, o responsável pelos IGPs da FGV, Salomão Quadros, disse esperar, para o IGP-M,  “uma  variação abaixo de 0,75% em novembro e algo em torno de 0,30% em dezembro”, o que deve se refletir no IGP-DI, dado que este representa o IGP-M defasado.

            Essa redução do ritmo dos IGPs veio do melhor comportamento dos preços no atacado, que respondem por 60% do IGP-DI, em particular das matérias-primas brutas e dos produtos agropecuários. Quanto aos preços ao consumidor, que respondem por 30% do mesmo índice, a variação mensal no IGP-M passou de 0,21% em setembro para 0,28% em outubro, num movimento influenciado principalmente pelos alimentos “in natura”, como hortaliças e frutas.  Destaque-se também a forte queda do preço do leite, que caiu 6,91% no mês, influenciado pelo aumento de oferta noticiado pelos jornais.

            Em síntese, há claros indícios de queda da inflação. No que diz respeito aos preços ao consumidor, que constituem o IPCA – o  índice-meta da política do BC –, eles  ainda não garantem que a queda de setembro significará que o índice se manterá em torno de 0,25 ao mês dar tranqüilidade ao BC, mas isso pode acontecer entre outras razões porque a chegada das chuvas deve aliviar os preços dos alimentos “in natura” e porque o preço do leite, que exerceu forte pressão altista nos últimos meses, agora passará a dar uma contribuição de baixa com essas chuvas e com a redução do consumo em decorrência dos problemas de contaminação que a imprensa vem registrando.  

 

II – A inflação mais baixa mostrada pelas previsões

            Esses melhores resultados da inflação e a perspectiva de sua continuidade passaram a influenciar as previsões dos analistas quanto ao resultado final da inflação de 2007, conforme revela a tabela seguir.  Ela mostra as previsões do Focus - Relatório de Mercado semanal do BC, tanto para o IPCA como para o IGP-DI.

 

IPCA e IGP-DI - Previsões da Taxa de Inflação - 2007 – Em % ao ano

Data de Previsão

IPCA

IGP-DI

Janeiro 5

4,00

4,30

Maio 25

3,41

4,00

Setembro 21

4,02

5,24

Outubro 5

4,01

5,55

Outubro 26

3,86

5,76

             Fonte: BC – Focus – Relatório de Mercado

 

            Fica claro que do início do ano até 25 de maio, as previsões da taxa anual desses índices caíram.  Em seguida elas sobem até 21 de setembro para o IPCA, caindo em seguida até a última previsão divulgada.  Já as previsões do IGP-DI subiram desde 25 de maio, mas como vimos acima as variações mensais desse índice devem voltar a cair.

 

E haverá também o efeito do câmbio

            Outra variável importante na inflação brasileira é a taxa de câmbio.  Conforme a tabela abaixo, depois de subir em agosto por conta da crise dos financiamentos imobiliários de segunda linha nos EUA, esse aumento não só se reverteu como trouxe a taxa para valores abaixo de R$1,80, e os menores desde o início da década passada. Isso decorreu da sólida posição de reservas do país e da retomada do ingresso de recursos, com a estimulada pela busca dos novos lançamentos de ações na Bovespa. Isso deve contribuir para reduzir variações de preços tanto no atacado e no varejo.

 

Taxa de Câmbio(*) em R$/US$

Cotação Diária nas Datas Indicadas - 2007

Julho 23

1,8448

Agosto 16

2,1124

Outubro 31

1,7360

(*) Taxa média de venda.

Significado para os juros

            Essa melhoria do quadro inflacionário abre a perspectiva de uma menor duração da pausa nas reduções da taxa Selic que o Copom decidiu adotar na sua última reunião. Ainda não se pode dizer que essa melhoria está consolidada, mas por isso mesmo seu processo deve ser acompanhado com atenção pelos investidores.  Entre outros aspectos, será essa evolução que balizará decisões de arbitragem entre papéis pré ou pós fixados, dependendo do rumo que prenunciar quanto ao comportamento da taxa Selic nas próximas reuniões do Copom.

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Roberto Macedo, CFPTM (Certified Financial PlannerTM) e economista formado pela USP com Mestrado e Doutorado pela Universidade Harvard (EUA), é pesquisador da FIPE-USP.  Foi Secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Fazenda e Planejamento, funcionário do Banco Central e do Banco do Brasil.  E-mail: imprensa@bb.com.br

Ata do Copom: prudência pausou parcimônia

Roberto Macedo

A prudência passa a ter papel ainda mais importante ... em momentos, como atualmente, nos quais a deterioração do balanço dos riscos inflacionários reduz a margem de segurança da política monetária.” 

Essa frase é da ata da última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), do Banco Central (BC), divulgada na quinta-feira  passada. O termo prudência, com que a frase começa, e o diagnóstico que a conclui sintetizam a atitude que marcou a decisão de manter a taxa básica de juros em 11,25% ao ano, adotada por unanimidade, pausando assim a política de reduzir parcimoniosamente essa taxa a cada reunião. Tantas foram estas que no seu conjunto trouxeram a taxa de 19,75%, onde estava em agosto de 2005, para esse valor onde agora estacionou, totalizando assim uma significativa redução de 8,5 pontos percentuais. Entre outros impactos, isso reduziu o custo da dívida pública, melhorou as condições de crédito para seus tomadores e estimulou os investidores a diminuir sua ênfase em aplicações em renda fixa.

Vamos examinar as razões da prudência e se a ata prenunciou o que pode acontecer nas próximas reuniões. E, ainda, as implicações para o investidor.

 

I - O porquê da prudência: os índices de preços

Na semana passada, ainda sem conhecer essa ata comentamos essa decisão -  que antecipamos como mais provável em nossos artigos de 17 e 24 de setembro último -, e argumentamos que na sua essência ela se explicava porque os novos dados que vieram antes da reunião anterior confirmaram o diagnóstico de uma inflação ainda em agravamento no seu processo e uma demanda em aquecimento.  Recorde-se que foi esse diagnóstico que na reunião anterior levou o Copom a prenunciar, como raramente o faz, que optaria por uma pausa na reunião de outubro.

A ata da reunião assinala essa interpretação dos novos dados. Assim, no caso do IPCA, a inflação “subiu para 0,47% em agosto (ante 0,24% em julho), arrefeceu para 0,18% em setembro e .. em doze meses até setembro, tingiu 4,15%, patamar superior àquele registrado em setembro de 2006 (3,70%).

Esse arrefecimento em setembro não tranquilizou o Copom, pois  “...o IGP-DI se acelerou nos meses de agosto (1,39%) e setembro (1,17%), frente aos valores registrados em meses anteriores”... e a ... “variação acumulada ... nos nove primeiros meses de 2007 atingiu 4,44%, contra 2,11% em igual período do ano passado. Em doze meses até setembro, a inflação medida pelo IGP-DI situou-se em 6,16%, ante 3,16% em 2006.” E mais: nesse mesmo período a variação do  IPA-DI, de preços no atacado, que responde por 60% do IGP-DI, “... passou de 3,13% para 6,92%” e   “destaque-se o forte aumento no preço dos itens agrícolas, cuja variação em doze meses até setembro atingiu 19,50%, ante 1,98% observados em setembro de 2006.” Destaque-se também que dada a preponderância no IGP-DI dos preços no atacado ele é prenúncio de desdobramentos futuros no varejo.

 

II – O porquê da prudência – o aquecimento da demanda

            Ao examinar esse aspecto, por meio de indicadores de produção, comércio e emprego, o Copom encontrou resultados que confirmaram a presença de uma demanda forte e sem segurança de correspondente crescimento da oferta.  Entre os indicadores assim diagnosticados, estiveram a elevada produção industrial (neste caso inclusive com aceleração na margem, ou seja, nos dados mais recentes), o desemprego em queda, a expansão do crédito e o “comércio varejista ... registrando desempenho favorável, indicando que o ritmo de crescimento da demanda doméstica se mantém robusto, sem mostrar sinais consistentes de arrefecimento.... Para os próximos trimestres, as perspectivas são de fortalecimento das atividades de comércio varejista, que continuarão a ser impulsionadas, essencialmente, pela expansão da massa salarial real e do crédito, aliada à própria recuperação da confiança do consumidor, que, até o momento, não parece ter sido abalada pelo aumento da volatilidade nos mercados financeiros.”

            A utilização da capacidade instalada atingiu nível recorde, mas o Copom também encontrou forte crescimento da importação e da produção de bens  de capital, o que amplia essa capacidade. Entretanto, concluiu que “...embora o volume de investimento venha contribuindo para retardar a elevação das taxas de utilização da capacidade, ele não tem sido suficiente para evitar que essas se mantenham em níveis historicamente elevados, os quais, no passado, coincidiram com períodos de aceleração inflacionária.”

            Em síntese, um conjunto de dados configuram um momento no  qual “...a deterioração do balanço dos riscos inflacionários reduz a margem de segurança da política monetária”, conforme o trecho da ata inicialmente citado.

 

De olho na inflação futura...

          O Copom também viu um cenário cinzento, pois “... estão emergindo sinais que podem apontar para a intensificação de riscos inflacionários em escala global, como indica o comportamento dos preços de certas matérias primas. Dessa forma,... as perspectivas para a inflação estão cercadas por maior incerteza.”  Viu também que “... parte importante dos efeitos dos cortes de juros ainda não se refletiu no nível de atividade, e tampouco os efeitos da atividade sobre a inflação tiveram tempo de se materializar”.  

            Em síntese, a olhando o futuro a pausa veio  “... diante das incertezas associadas ao mecanismo de transmissão da política monetária e ao ritmo de crescimento prospectivo da oferta e demanda agregadas.”

 

Até quando a pausa?  Como fica o investidor?

            Como argumentamos neste e noutros artigos, na reunião anterior a essa cuja ata analisamos o Copom havia prenunciado a pausa que acabou acontecendo.  Nessa ata, contudo, não dá qualquer indicação sobre quando voltará a alterar a taxa e que direção tomará se fizer isso. Como autoridades monetárias não costumam alterar logo o rumo de suas decisões, o  mais provável é que o Copom  só retomará o ciclo de reduções a partir da segunda reunião de 2008, dependendo, é claro, do rumo que a inflação tomar até lá.

Para os investidores,  reiteramos que a pausa dá novo ânimo às aplicações em renda fixa, pois estende o período em que estarão referenciadas a uma taxa mais alta do que se houvesse ocorrido a queda da taxa Selic. A pausa reduz também o espaço para arbitragem entre aplicações de renda fixa curtas pré e pós fixadas.  No médio e longo prazos esse espaço continua existindo, pois em algum momento a taxa Selic será alterada, mas isso envolve riscos, dadas as incertezas quanto ao futuro da inflação, ao fim da pausa e ao rumo que o Copom tomará ao sair dela.

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Roberto Macedo, CFPTM (Certified Financial PlannerTM) e economista formado pela USP com Mestrado e Doutorado pela Universidade Harvard (EUA), é pesquisador da FIPE-USP.  Foi Secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Fazenda e Planejamento, funcionário do Banco Central e do Banco do Brasil.  E-mail: imprensa@bb.com.br

Cenário da Bolsa  o céu não é o limite

Na semana passada, operando lá no alto, a Bovespa bateu mais dois recordes, mas subiu dois dias e caiu dois, terminando praticamente onde começou. É bom que isso ocorra, pois no mercado de ações as subidas muito aceleradas e rápidas costumam prenunciar um tombo mais sério que aqui no Brasil poderia arranhar essa nova fase da Bolsa, marcada por uma credibilidade bem maior por parte dos investidores, mas ainda relativamente recente e construída num processo que tomou tempo e ainda não se consolidou inteiramente.

Assim, e pensando não apenas como observador, mas também como investidor, prefiro que os ganhos venham em prazo mais longo, mais consistentes e firmes do que em euforias episódicas.  Em outras palavras, o céu não é o limite e a ilusória crença de que será alcançado pode conduzir a perdas infernais, em particular para os investidores novatos e inexperientes que só agora acordaram para esse mercado.

Vamos rever o que levou a esse quadro mais recente, relembrar antigas lições que não podem ser negligenciadas pelos investidores e mostrar novamente que o espaço das oportunidades de ganho ainda permanece, mas mais favorável aos que se detêm na microeconomia da análise acionária, ou seja, voltada para ações específicas.  Isso deve se contrapor a um enfoque menos provável no seu sucesso, o de olhar apenas o Ibovespa e fazer qualquer investimento na esperança de acompanhá-lo.

 

O sobe e desce lá no alto

A tabela a seguir mostra as variações diárias do Ibovespa nas três últimas semanas.  Ela começa em 24/9 quando depois de forte queda em agosto veio uma recuperação que fez com que nessa data batesse seu recorde anterior, de 19/7 (mais de dois meses antes), quando alcançou 58.125 pontos. No espaço de 14 dias úteis cobertos pela tabela, em seis, quase a metade deles, o índice bateu recordes, culminando com os da semana passada, nos seus dois primeiros dias, mas logo em seguida teve dois de perdas que praticamente retornaram o valor do Ibovespa para o alcançado ao final da semana anterior.

Ibovespa - 2007 - Fechamento Diário em Três Semanas, de 24/9 a 11/10/07

Dia

Fechamento

Variação em %

Dia

Fechamento

Variação em %

Dia

Fechamento

Variação em %

24/9

58.719

1,59

1/10

62.340

3,10

8/10

62.661

0,55

25/9

58.858

0,23

2/10

62.017

-0,52

9/10

63.549

1,42

26/9

59.715

1,46

3/10

60.099

-3,09

10/10

63.197

-0,55

27/9

61.052

2,24

4/10

60.407

0,51

11/10

62.456

-1,17

28/9

60.465

-0,96

5/10

62.319

3,17

Fontes: Ipeadata (www.gov.br), de 17/9 a 4/10/07, e Bovespa (www.bovespa.com.br)

A subida e seus traços marcantes

            No nosso artigo de duas semanas atrás, vimos que a forte queda de agosto, causada pelo movimento de aversão a riscos decorrente da crise nos financiamentos imobiliários de segunda linha (os “subprime”) nos EUA, foi aliviada pela atuação em sentido contrário de bancos centrais, em particular o dos EUA. Esses bancos reduziram taxas básicas e de empréstimos a instituições financeiras, com o objetivo de prover maior liquidez aos mercados financeiros. Recorde-se que nestes últimos, pelo receio de perdas, mesmo por parte das instituições não diretamente envolvidas no mercado dos “subprime”, sobreveio uma falta de liquidez porque esta ficou “empoçada” em ativos e instituições de menor risco.

            Com esse alívio, os mercados se acalmaram e investidores estrangeiros, que têm sido os maiores responsáveis pelos movimentos mais acentuados do Ibovespa, voltaram ao Brasil. Assim, em setembro trouxeram à Bovespa um fluxo positivo de US$3,8 bilhões, depois de fluxos negativos nos três meses anteriores. Novamente, foram estimulados pela perspectiva de maiores rendimentos aqui, em face do maior crescimento da economia brasileira - o que repercute favoravelmente no desempenho das empresas brasileiras e de  suas ações -,  e da queda dos juros nos países de origem desses investidores. E, ainda, em termos mais gerais, porque viram nas decisões  dos citados bancos centrais a opção de evitar uma recessão de suas economias, nesse processo até sacrificando, ainda que momentaneamente, sua preocupação preponderante com as taxas de inflação.

 

Para o investidor, qual o cenário?

            Ele mostra a Bovespa com seu índice lá no alto, com uma recuperação que superou os recordes pré-crise dos “subprimes”.            Nesse quadro, é importante ressaltar os riscos que podem vir de fora ou que estão aqui dentro, ao lado das oportunidades aqui localizadas.

            Quanto aos primeiros, embora tenha vindo um alívio da crise pela ação dos bancos centrais, os desdobramentos dela ainda se desenvolvem, e o grande temor ainda não foi dissipado, o de uma redução mais forte do crescimento dos EUA, prejudicando outros países, inclusive o nosso, o que levaria a impactos negativos no seu mercado de ações.

            Aqui dentro, os maiores riscos estão na euforia por que passa o mercado de ações, o que pode levar investidores a avaliações equivocadas dos aspectos microeconômicos das várias ações, em particular das suas ofertas públicas, onde as empresas são menos conhecidas no seu desempenho passado e nas suas perspectivas.

            Quanto às mais conhecidas, uma das variáveis mais importantes a acompanhar é se sua valorização chegou ou não ao limite do razoável, com a relação preço/lucro alcançando valores que sugerem maior cautela.  Mesmo nessa euforia que favorece decisões nem sempre pautadas pela racionalidade, nota-se que essa preocupação está presente no mercado, conforme se percebe pelas cotações recentes das ações da Vale e Petrobrás. 

Assim, por muito tempo as ações da primeira se valorizaram mais que as da segunda, com o valor de mercado daquela ultrapassando o desta no final de setembro, e analistas mostrando que as relações preço/lucro das duas empresas sugeriam uma oportunidade no caso da Petrobrás. Na seqüência, do dia 1º  ao dia 11, tomando-se as ações preferenciais, as da Vale caíram 6,8%, enquanto que as da Petrobrás subiram  8%.

 É esse tipo de análise, mais voltado para ações específicas, que é o mais adequado a este momento da Bolsa brasileira.   Ela nunca chegará ao céu, e sua forte valorização tornou-a mais vulnerável à volatilidade, mas o risco será menor e as oportunidades maiores para quem se detiver no exame mais aprofundado das suas várias ações.

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Roberto Macedo, CFPTM (Certified Financial PlannerTM) e economista formado pela USP com Mestrado e Doutorado pela Universidade Harvard (EUA), é pesquisador da FIPE-USP.  Foi Secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Fazenda e Planejamento, funcionário do Banco Central e do Banco do Brasil.  E-mail: imprensa@bb.com.br

                  Ibovespa - 2007 - Fechamento Diário em Três Semanas, de 24/9 a 11/10/07

Bolsa na alta, cenário também de alta volatilidade

Duas coisas subiram na Bolsa nas três últimas semanas, as cotações e a volatilidade. Na semana passada, depois de novo recorde no início, o Ibovespa passou por baixas e altas, sem conseguir superá-lo. Algumas ações ultrapassaram ou chegaram próximo do que se considera seu preço justo, e pergunta-se se ela esgotou suas possibilidades de ganho.

Vamos examinar essa questão, mas para chegar a ela é preciso ver os últimos números e dois aspectos muito importantes.  O primeiro é a grande importância de dois papéis, da Vale e da Petrobrás,  na determinação dos últimos resultados.  O segundo são os lançamentos de novas ações, já realizados ou ainda por realizar, estes últimos estimulados pelas perspectivas de um mercado novamente na alta e interessado em novos papéis.   Nesse contexto, examinaremos também as perspectivas para o investidor.

 

A alta volatilidade na Bovespa em alta

Na tabela abaixo são apresentadas as variações diárias do Ibovespa nas três últimas semanas.  Antes desse período o último recorde ocorreu cerca de dois meses atrás, em 19/7, quando esse índice foi de 58.125 pontos. Seguiu-se uma queda cujo ponto mais baixo foi em 16/8, com 48.016 pontos. A partir de 17/8, veio uma alta que trouxe o índice para perto de 54.000 pontos, em 31/8, e aí ficou oscilando até 17/9, quando começa a tabela.

              No dia seguinte veio o estímulo da queda da taxa básica de juros nos EUA e um retorno mais forte de investidores estrangeiros cuja saída havia precipitado a referida queda.   Seguido também pelos brasileiros, isso provocou uma arrancada que levou, na semana seguinte, a quatro sucessivos recordes, de segunda a quinta, e mais um no primeiro dia de outubro e da semana passada. Contudo, a arrancada perdeu fôlego  e a semana se encerrou com o índice quase igual ao do fechamento da segunda-feira.

      Ibovespa - 2007 - Fechamento Diário em três semanas, de 17/9 a 5/10/07

DiaFechamentoVariação em %DiaFechamentoVariação em %DiaFechamentoVariação em %

17/9

54.341

0,60

24/9

58.719

1,59

1/10

62.340

3,10

18/9

56.666

4,28

25/9

58.858

0,23

2/10

62.017

-0,52

19/9

57.264

1,05

26/9

59.715

1,46

3/10

60.099

-3,09

20/9

56.906

-0,63

27/9

61.052

2,24

4/10

60.407

0,51

21/9

57.799

1,57

28/9

60.465

-0,96

5/10

62.319

3,17

Fontes: Ipeadata (www.gov.br), de 17/9 a 4/10/07, e Bovespa (www.bovespa.com.br).

Assim subiu, mas parou por que?

            Para responder, vale lembrar que grande parte da subida que levou aos últimos recordes foi deflagrada pelo forte interesse dos investidores pelas duas ações mais importantes do mercado, as da Vale e da Petrobrás, que têm peso de 11,68% e 16,3% no Ibovespa, respectivamente.  Matéria do jornal Valor, do último fim de semana, mostrou que essas ações, com peso total de 27,98% no índice, contribuíram com 40% da alta dele entre o referido ponto de baixa (16/8) até o dia 3/10, em face do maior interesse dos investidores por esses papéis, relativamente à média dos demais.

            Na tabela a seguir são apresentadas as cotações dessas ações, no caso das preferenciais, na semana passada.  Observando-se essa tabela, verifica-se que a queda de segunda até quinta-feira, menor no caso da Petrobrás, foram fatores importantes na volatilidade do Íbovespa na semana passada, conforme a primeira tabela.

Cotação em Reais (e variações em %) - Ações da Vale e da Petrobrás - 1/10 a 5/10/07

Dia

1/10

2/10

3/10

4/10

5/10

VALE -PNA

55,60 (6,51)

54,75(-1,52)

50,50 (-7,76)

49,12 (-2,73)

51,55 (4,95)

PETR. -PN

60,35 (1,94)

60,71 (0,59)

58,70  (-3,31)

59,20 (0,85)

61,58 (4,02)

Fonte: Bovespa

Segundo o noticiário, um banco estrangeiro deflagrou a forte queda do dia 3/10, ao passar de positiva para neutra sua recomendação de compra dos papéis da Vale, ponderando que já haviam subido muito. Para o investidor, uma conclusão importante é que nem todas as ações da Bolsa tiveram a mesma valorização. Mesmo com todos os riscos que a situação atual oferece, um trabalho de garimpagem poderá identificar ações com potencial de alta, mas isso é coisa para investidores experientes e/ou bem assessorados.

 

E os IPOs (Initial Public Offers) ou OPIs (Ofertas Públicas Iniciais)?

            Essas OPIs se tornaram comuns na seqüência do crescimento da Bovespa e  da confiança dos investidores no mercado nos últimos anos, ampliando fortemente a possibilidade de captação de recursos no mercado de capitais.  Sabe-se, contudo, que a maioria dos OPIs de 2007 teve até aqui rendimento inferior ao Ibovespa, o que em parte decorre do forte desempenho de ações como as da Vale e da Petrobrás e outras que puxam esse índice. E há OPI até de rendimento negativo.   

            Nesse caso das OPIs, o investidor deve estar atento, em particular, a uma análise mais profunda das perspectivas de cada empresa, tanto de sua rentabilidade e risco como de sua liquidez.  Esta última questão é tão importante que algumas empresas novatas na Bolsa estão contratando instituições formadoras de mercados (ou “market makers”). Sua a função  é a de manter ações da contratante dentro de uma faixa de preços e facilitar sua liquidez, reduzindo a volatilidade das cotações e, ainda, garantindo preços mais próximos dos considerados adequados aos resultados mostrados pela empresas.             Esse é outro aspecto que deve ser ponderado pelos investidores com interesse potencial ou efetivo pelos OPIs.

 

Em síntese...

            No mercado acionário a cautela deve ser ainda maior quando as subidas são muito fortes. É preciso entender os fatores por trás desses movimentos  e ser mais ainda mais seletivo na escolha dos investimentos, sem o que será forte a possibilidade de rimarem com desapontamentos.      

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Roberto Macedo, CFPTM (Certified Financial PlannerTM) e economista formado pela USP com Mestrado e Doutorado pela Universidade Harvard (EUA), é pesquisador da FIPE-USP.  Foi Secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Fazenda e Planejamento, funcionário do Banco Central e do Banco do Brasil.  E-mail: imprensa@bb.com.br.

Bovespa mais recordes e cenário pós 60 mil pontos

Na semana passada, da segunda à quinta-feira a Bovespa bateu quatro sucessivos recordes de pontos no fechamento diário, completando 36 marcas desse tipo em 2007.   Na sexta, caiu 0,96%, via realização de lucros, mas o índice Bovespa fechou setembro com um crescimento de 10,67%, batendo por larga margem as demais aplicações financeiras tanto nesse mês como no ano até ele, nesse caso com um avanço de 35,96%. 

Vamos examinar os números do Ibovespa desde seu recorde em 19 de julho último,  anterior aos da semana passada. E, também,  as razões dessa recuperação e o cenário que os recordes da última semana deixaram para os investidores.

 

Os números da subida que superou a queda anterior...

São apresentados na tabela a seguir, que cobre, entre outras datas, as que mais marcaram o período compreendido entre 19/7 até o fim de setembro. Assim, entre o recorde de 58.125 pontos naquele dia e até aproximadamente um mês depois, em 16/8, a Bovespa mostrou forte queda, registrando neste último dia seu valor mais baixo de todo esse período, 48.016 pontos. Essa queda foi de 17,39%, referida como V1 na tabela. A partir de 17/8, o Ibovespa iniciou uma alta que em duas semanas levou-o para um valor próximo de 54.000 pontos, em 31/8. Nesse nível, ficou oscilando por mais uns 15 dias, fechando em 54.241 pontos na véspera de 18/9.

            Nesse dia, teve um forte aumento, de 4,28% iniciando a arrancada que a levou aos recordes da semana passada, ao final da qual mostrava uma variação de  25,93% (V2 na tabela) relativamente a 16 de agosto. 


Ibovespa - 2007 - Fechamento - Variação Total entre 19/7 e 16/8 (V1),      Diária de 17/8 a 3/9, de 17/9 a 27/9 e total entre 16/8 e 28/9/07 (V2). 

DiaFechamentoVariação em %DiaFechamentoVariação em %DiaFechamentoVariação em %

19/7

58.125

27/8

53.078

0,15

19/9

57.264

1,05

16/8

48.016

-17,39 (V1)

28/8

51.645

-2,70

20/9

56.906

-0,63

17/8

48.559

1,13

29/8

52.735

2,11

21/9

57.799

1,57

20/8

49.206

1,33

30/8

52.858

0,23

24/9

58.719

1,59

21/8

49.815

1,24

31/8

54.637

3,37

25/9

58.858

0,23

22/8

51.745

3,87

14/9

54.671

-0,43

26/9

59.715

1,46

23/8

51.848

0,20

17/9

54.341

0,60

27/9

61.052

2,24

24/8

52.998

2,22

18/9

56.666

4,28

28/9

60.465

25,93(V2)

Fontes: Ipeadata(www.gov.br), de 19/7 a 5/9/07. Bovespa (www.bovespa.com.br).


O que aconteceu nesses dias, 17/8 e 18/9, marcantes de novas altas?

            Recorde-se que a queda entre 19 de julho e 16/8 foi causada pela crise no mercado de financiamentos imobiliários de segunda linha (MFISL) , conhecido como “subprime”, nos EUA. Essa crise também alcançou outras instituições financeiras - e seus investidores -  que financiaram as que atuam  no setor, e gerou um surto de aversão ao risco que trouxe dificuldades de liquidez nos mercados financeiros, na medida em prejudicou transações financeiras entre vários de seus agentes.  Em particular, na Bolsa brasileira isso causou uma  saída de investidores estrangeiros que hoje respondem por grande parte de sua movimentação, saída essa motivada também para retirar recursos para necessidades de liquidez e de cobertura de perdas nos países de origem, em particular nos EUA.

            Diante desse quadro, no dia 17/8  o Fed, o banco central desse país, reduziu de 6,25% para 5,75% anuais a taxa de empréstimo a instituições financeiras, provocando algum alívio nos mercados e valorização de ativos que chegou  à Bovespa.  Como os sinais da crise continuaram, cerca de um mês depois, em 18/9, reduziu novamente essa taxa para 5,25% ao ano e, num ato mais ousado, diminuiu a taxa básica, de 5,25% para 4,75% ao ano. 

            Foi esse movimento que provocou grande alívio, quase uma euforia, nos mercados mundiais e alcançou a Bovespa levando aos recordes da semana passada, em larga medida atribuídos ao retorno de investidores estrangeiros.

 

Mas, houve também outras razões

            Em particular, por força da melhoria de suas contas externas e o forte acúmulo de reservas, a economia brasileira resistiu bem à referida crise, com o dólar subindo muito pouco relativamente ao que ocorreu em crises como as de 1997, 1998,  1999 e 2002, e retrocedendo logo em seguida.  Nossa economia também mostra agora melhor desempenho, o que gera boas perspectivas para suas empresas e suas ações. A queda dos juros americanos também tornou o Brasil mais atrativo na rentabilidade que oferece a investidores estrangeiros.

 

O investidor diante do novo cenário da Bolsa

            Antes cabe um olhar sobre o passado, para o que pedimos ao leitor que volte à tabela acima.  Onde está ou esteve a grande oportunidade nesse período que ela cobre?  Certamente, não foi no recorde com que a tabela começa, pois logo depois veio uma queda;  tampouco está  no ponto a que chegou no final da semana passada.  A grande oportunidade veio em meados de agosto, quando chegou ao seu ponto mais baixo.

            No nosso artigo de 20 de agosto, chamamos a atenção para essa oportunidade, sem ignorar os riscos que ensejava.   Quem se arriscou, ganhou, mas também poderia ter perdido se o rumo das cotações houvesse tomado outra direção.

            A posteriori, sempre é fácil fazer análises. Agora, com essas cotações lá em cima, no nosso entendimento o risco é muito maior que naquela ocasião, e os jornais estão cheios de opiniões de analistas quanto a esse cenário.  Mas, mesmo com esse risco não se pode excluir a possibilidade de ganhos, em particular para o investidor seletivo que conseguir identificar oportunidades em ações específicas, pois nesse momento de subida, onde pontificaram ações como as da Vale, nem todas acompanharam a média dada pelo índice Bovespa.

Como sempre, as lições se repetem: a Bolsa exige mais informações para capturar oportunidades, ao lado de disposição e recursos para enfrentar o risco que der e vier.

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Roberto Macedo, CFPTM (Certified Financial PlannerTM) e economista formado pela USP com Mestrado e Doutorado pela Universidade Harvard (EUA), é pesquisador da FIPE-USP.  Foi Secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Fazenda e Planejamento, funcionário do Banco Central e do Banco do Brasil.  E-mail: imprensa@bb.com.br.

Ibovespa - 2007 - Fechamento - Variação Total entre 19/7 e 16/8 (V1), Diária de 17/8 a 3/9, de 17/9 a 27/9 e total entre 16/8 e 28/9/07 (V2)

Cenário da taxa de juros no Brasil após queda nos EUA

Na semana passada, o “Fed”, como é conhecido o banco central dos EUA, reduziu em 0,5 ponto percentual (p.p.) a taxa básica de juros daquele país, a qual caiu para 4,75% ao ano. Isso provocou euforia nos mercados financeiros, inclusive no Brasil, e em particular nas bolsas de valores.


              Por conta dessa queda, alguns analistas brasileiros passaram a apostar que o  Banco Central (BC) também baixará  sua taxa básica na próxima reunião do seu Conselho de Política Monetária (Copom),  que terminará em 17 de outubro. Com isso, deixaram de lado a opinião que predominou após a última reunião desse conselho, de que a seqüência de quedas seria interrompida.  Isso, em face da ata desse encontro, a qual pintou um quadro cinzento da inflação, em alta desde meados de junho.  Entre as causas, o documento mostrou-se particularmente preocupado com a contínua expansão da demanda e de suas pressões sobre os preços.  

Vamos examinar as razões desses analistas, bem como outras que se contrapõem a elas, e dar nossa própria opinião, inclusive quanto às implicações para o investidor em face dessa divisão de opiniões. 

 

O vai e vem das apostas

As apostas de que a Selic cairá  de novo haviam crescido na quarta-feira da semana anterior à passada. Foi quando surgiram os dados do PIB do segundo trimestre deste ano, mostrando a economia crescendo um pouco abaixo do esperado e forte expansão dos investimentos para ampliar a capacidade produtiva. 

Isso foi tomado como um menor desequilíbrio entre oferta e demanda, o que reduziria a preocupação do Copom quanto a essa questão.  Convenhamos, entretanto, que esses dados são um tanto antigos, pois o terceiro trimestre já está no fim, e  eles se referem apenas ao segundo. Ademais, as preocupações do Copom externadas na ata da última reunião se baseiam em dados bem mais recentes.

Essa ata veio no dia seguinte ao da divulgação dos dados do PIB e mudou o humor dos analistas que na sua maioria passaram a crer que  ela prenunciava um abandono das quedas da  Selic.  Entre outros trechos indicativos disso, ao esclarecer por que a taxa foi reduzida em apenas 0,25 p.p. - e não 0,50 p.p. como vinha acontecendo -,  a ata revelou que o Copom também cogitou de não realizar qualquer redução, e deixou clara a preocupação com dados bem recentes,  de inflação demanda em alta.

 Na semana passada veio a queda da taxa básica dos EUA, e cresceram  as apostas em nova redução da brasileira, dado que a decisão do Fed levou à ampliação da diferença entre as duas.  A brasileira, hoje em 11,25% ao ano, é mais que duas vezes a dos EUA. Isso aumentaria a atratividade de investimentos financeiros no Brasil, fazendo  cair a taxa de câmbio em reais por dólar, pressionando assim a inflação para baixo.

Ora, isso vem acontecendo, mas não será o único fator a ser ponderado pelo Copom em sua próxima  reunião.  Há outros mais importantes pesando no momento. A menos que se dissipem fortemente até lá, o mais provável é que se mantenha o quadro que fez o Copom prenunciar uma pausa na queda dos juros..

 

Entre esses outros fatores...

Estão os que apontam diferenças fundamentais na situação enfrentada pelo Fed e pelo BC, bem como o diferente papel institucional de ambos. Nos EUA, o Fed hoje contempla uma taxa de crescimento econômico e a de uma inflação em queda.  Mesmo não satisfeito com o ponto a que esta última chegou, tem também que se preocupar com o desempenho da economia, pois, ao contrário do BC, ele tem o duplo mandato de assegurar o bom comportamento das duas variáveis.

Nessas condições, vendo também as ameaças para o crescimento do PIB trazidas pela crise financeira desencadeada no mercado de segunda linha (“subprime”), de  financiamentos imobiliários daquele país, optou por reduzir a taxa básica de juros.

            No Brasil a situação é diversa, pois a inflação mostrou sinais de agravamento e o crescimento se acelerou.  Além disso, o mandato do BC é voltado apenas para o controle da inflação, e não o de assegurar também o crescimento do PIB.

 

Os sinais mais recentes

 Entre os índices de preços, os dois últimos divulgados foram prévias dos dois mais importantes, o IPCA-15, que mede a inflação até o dia 15, e o IGP-10, até o dia 10, ambos relativos a setembro.

O IGP-10, um índice onde predominam (com 60%) os preços no atacado,  mostrou alta de 1,47% em setembro (a maior desde fevereiro de 2003), ante 0,64% em agosto, o que decorreu principalmente da forte elevação dos preços dos produtos agropecuários, cuja taxa foi de 6,04% em setembro, depois de já terem subido 2,64% em agosto. Foi um resultado ruim, aliviado, contudo, pelo fato de que seu componente (30%) de varejo manteve-se praticamente estável (0,35% em agosto e 0,37% em setembro).  Além disso, dentro desse componente os preços dos alimentos subiram menos em setembro (0,49% e 0,32% respectivamente).

Outra notícia boa veio do IPCA-15, que se desacelerou de 0,42% em agosto para 0,29% em setembro, como resultado principalmente da perda de fôlego dos preços de alimentos, cujo grupo mostrou taxas de 1,61% e de 0,87% nesses dois meses.

 

Dado esse quadro...

            Pensando na inflação futura, o Copom deverá ponderar esse comportamento recente do IPCA (na próxima reunião já terá os índices de setembro e informações do IGP-10 de outubro), sempre lembrando que o IGP costuma impactar o IPCA mais à frente. E, ainda, terá mais dados sobre a demanda, e levará em conta que o estímulo das muitas quedas da taxa de juros ainda estará acontecendo.

            Embora os analistas estejam divididos entre não-redução da Selic e uma redução de 0,25 p.p. que adiaria para a reunião que termina em 5 de dezembro a  interrupção do ciclo de quedas, continuamos entendendo que as preocupações externadas pelo Copom na última ata que divulgou hoje ainda pesam na direção da primeira hipótese.

 

Para o investidor...

            O relevante dessa discussão é que está voltada para uma queda ou não de 0,25 p.p. na Selic, e não há quem fale em quedas de 0,50 p.p., neste ano ou no próximo. Assim, será mantida  por mais tempo a atratividade de fundos e de papéis ligados à Selic, pois as remunerações reais que asseguram continuam bem acima da inflação e altas por padrões internacionais. . No horizonte imediato, em face das incertezas que cercam a inflação, cresceu também o interesse por papéis ligados a índices de inflação, pois a proteção contra seu efeito corrosivo sempre é uma preocupação dos investidores. 


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Roberto Macedo, CFPTM (Certified Financial PlannerTM) e economista formado pela USP com Mestrado e Doutorado pela Universidade Harvard (EUA), é pesquisador da FIPE-USP. Foi Secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Fazenda e Planejamento, funcionário do Banco Central e do Banco do Brasil. E-mail: imprensa@bb.com.br.

Cenário pós-queda de 0,25 p.p. da taxa básica de juros

A ata da reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), que no dia 6 de setembro reduziu a taxa básica de juros em 0,25 ponto porcentual (p.p), de 11,50% para 11,25% ao ano, explica o que levou ao placar de goleada,  7 a 0, que fez vitoriosa essa dose maior de parcimônia por parte do Banco Central (BC).


             Como sempre, uma ata de reunião do Copom desperta interesse pelas razões do que se decidiu e pelo que, na interpretação do leitor, prenuncia quanto ao que vem na próxima reunião. E, ainda, pelas implicações para o investidor. Vamos abordar esses três aspectos.

 

Primeira razão da parcimônia reforçada: a inflação em alta

Quanto à inflação, a ata mostra vários sinais de seu agravamento. No IPCA, o índice-meta da política do BC, a “inflação ... alcançou 0,24% em julho, ante 0,28% em maio e em junho, acumulando 2,32% nos sete primeiros meses de 2007, ante 1,73% no mesmo período do ano passado.” E “observa-se aceleração na margem pelo quarto mês consecutivo.”


              Quanto ao IGP-DI, “situou-se em 1,39% em agosto (grifo nosso, assim como outros a seguir), ante 0,37% em julho, e em 3,24% nos oito primeiros meses de 2007, ante 1,87% em igual período do ano passado. Em doze meses até agosto, a aceleração foi mais acentuada, com a variação dos preços passando de 2,78% em 2006 para 5,19% neste ano”.

No IPCA, a inflação em doze meses situou-se em  3,74%,  inferior à registrada em julho de 2006 (3,97%). Mas, conforme já citado, houve a aceleração na margem nos últimos quatro meses e o aumento do IGP-DI costuma ampliar a variação do IPCA em seguida, pois naquele predominam os preços no atacado e este é de preços ao consumidor. No núcleo do IPCA o Copom não viu agravamento na inflação dos últimos doze meses, mas constatou  que como “o índice cheio, as medidas de núcleo do IPCA-15, de agosto, sugerem aceleração e maior disseminação do processo inflacionário”.

Além dessas más notícias registradas pela ata, a prévia do IGP-DI de setembro, divulgada pela imprensa, também apontou taxa que superará valores anteriormente previstos pelo mercado.

 

Segunda razão da parcimônia reforçada: aquecimento da demanda

Neste caso, a ata volta-se para vários indicadores do nível de atividade e do crescimento do emprego, dos rendimentos e das vendas no comércio. Assim, constatou que a produção industrial cresceu 0,6% em julho, e na “comparação ... com o mês equivalente do ano passado, registra-se expansão de 6,8%. Além disso, note-se que o crescimento acumulado no ano até julho alcançou 5,1%...”.

 No mercado de trabalho, viu nova queda da taxa de desemprego nas seis regiões metropolitanas cobertas pela Pesquisa Mensal de Emprego (PME), taxa essa “que  diminuiu novamente em julho e situou-se em 9,5%. Comparativamente a igual mês de 2006, recuou 1,2 p.p. em julho, a sexta queda seguida nessa base de comparação, de modo que a média da taxa de desemprego, nos sete primeiros meses de 2007, mostra-se 0,4 p.p. abaixo da verificada no mesmo período do ano anterior.” Por sua vez, “a massa salarial real aumentou 7,2%  nos primeiros sete meses do ano, frente ao mesmo período de 2006, constituindo-se em um dos fatores-chave para o crescimento sustentado da demanda agregada”. E mais: “Com relação ao emprego formal celetista, dados ... indicam continuidade do forte processo de expansão.”

No comércio varejista, no “primeiro semestre, a expansão das vendas atingiu 9,9%, ante mesmo período do ano anterior e em doze meses, 8,2%”. E a “Utilização da Capacidade Instalada (UCI) na indústria de transformação situou-se em 82,4% em julho...,” e “ praticamente volta ... ao ponto de máximo da série.”

Após examinar outros dados, de oferta e demanda, a ata conclui que  “se elevou a probabilidade de que a emergência de pressões inflacionárias inicialmente localizadas venha a apresentar riscos para a trajetória de inflação doméstica, uma vez que o aquecimento da demanda pode ensejar aumento no repasse de pressões sobre preços no atacado para os preços ao consumidor.” E enfatiza que “a elevação das expectativas de inflação para 2007 e para os próximos doze meses... é processo que deve ser monitorado com atenção”

 

Entre outras causas, não apontadas pelo Copom...

Há que destacar pressões sobre os preços que vêm sobretudo da agricultura. Desta vez, não se trata apenas do tradicional fenômeno da entressafra, que nesta época do ano pressionava esses preços.  A escassez do leite também decorre de aumento da demanda internacional e os preços de alguns grãos, como milho e soja, estão ligados também à utilização da agricultura para geração de combustíveis renováveis, como o etanol. E, olhando para dados mais atuais, há a já citada prévia do IGP-DI de setembro, com taxa acima das expectativas do mercado.

 

Tudo isso ponderado...

            Mais o caráter tradicionalmente conservador do Copom, e levando também em conta que a política antiinflacionária do governo como um todo não recorre à contenção fiscal, nem a medidas de caráter microeconômico como redução de tarifas de produtos importados, delineou-se um quadro da inflação em que os membros desse colegiado não viram alternativa senão a de optar pela redução menor.

 

O cenário à frente

            Como esse nublado quadro inflacionário não oferece perspectiva de dissipação no horizonte imediato -  a menos que ventos novos, ainda não identificados, sejam  capazes de clareá-lo -, o mais provável é que na sua próxima reunião o Copom interromperá a trajetória de queda da taxa Selic, com uma parada técnica para observar a evolução desse quadro.

 

Para o investidor...

            Na escada pela qual se move a taxa de juros, nessa reunião do Copom ele desceu-a por um degrau mais baixo que o anterior, e o mais provável é que em seguida ela estacionará, com isso mantendo por mais tempo a atratividade de fundos e de papéis ligados à Selic. E, ainda, despertando também o interesse para os indexados, em face desse cenário de uma inflação que mostra sinais de agravamento, ao deixar a posição onde estava confortavelmente bem abaixo de 4,5% ao ano, o  centro da meta do BC, para chegar bem próxima desse parâmetro, e já acima dele, no caso do IGP-DI.

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Roberto Macedo, CFPTM (Certified Financial PlannerTM) e economista formado pela USP com Mestrado e Doutorado pela Universidade Harvard (EUA), é pesquisador da FIPE-USP. Foi Secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Fazenda e Planejamento, funcionário do Banco Central e do Banco do Brasil. E-mail: imprensa@bb.com.br.

Cenário da Bovespa  subida enfrenta volatilidade

Do seu último recorde em 19 de julho último até 6 de setembro, o último dia útil da semana passada, o Ibovespa mostrou um movimento em forma de V, ou seja, uma queda seguida de subida. A queda veio na esteira da crise por que passam os mercados financeiros mundiais, com origem nos financiamentos imobiliários de segunda linha – o chamado “subprime” –, nos EUA. A subida recente levou à pergunta: acabaram-se os efeitos dessa crise sobre a Bovespa?  


               Nossa resposta é que a crise continua e ainda imprevisível na sua duração, tamanho e alcance.  Entretanto, já enseja algumas lições, pois serve para realçar aspectos da Bolsa brasileira que seus investidores, efetivos ou potenciais, precisam levar em conta, em particular a de que integra um mercado mundial cujos movimentos repercutem rápida e intensamente nas suas cotações. 

Examinaremos números recentes do Ibovespa, alguns desses aspectos e suas lições.

 

Os números em V

São apresentados na tabela a seguir.   Olhado da esquerda para a direita esse V imaginário mostra no seu lado esquerdo uma tendência de queda do Ibovespa.  Essa queda (V1) é dada pela variação entre o dia 19/7, quando bateu seu último recorde (58.125 pontos), e o dia 16 de agosto, quando atingiu seu ponto mínimo (48.016 pontos), ou vértice desse V,  no período coberto pela tabela. Em seguida, o Ibovespa inicia uma tendência de alta (V2) que associamos ao lado direito do V, alta essa marcada por 13 dias de variação positiva e apenas dois em que a mudança foi negativa.

            O lado esquerdo do V é mais longo que o direito, pois o primeiro registra até o fechamento de 16 de agosto uma queda de 17,39%, enquanto que o segundo fechou a semana passada em 54.569 pontos, subindo 13,65% a partir da mesma data. Para alcançar o recorde do dia 19 de julho teria sido necessário um aumento de  21,05%. 

                                   
                                                                          Ibovespa

                   Fechamento, Variação Total entre 19/7 e 16/8 (V1)

                   Diária de 17/8 a 6/9 e Total entre 16/8 e 6/9/07 (V2)

DiaFechamentoVariação em %Dia FechamentoVariação em %Dia FechamentoVariação em %

19/7

58.125

23/8

51.848

0,20

31/8

54.637

3,37

16/8

48.016

-17,39 (V1)

24/8

52.998

2,22

3/9

54.832

0,36

17/8

48.559

1,13

27/8

53.078

0,15

4/9

55.250

0,76

20/8

49.206

1,33

28/8

51.645

-2,70

5/9

54.408

-1,52

21/8

49.815

1,24

29/8

52.735

2,11

6/9

54.569

0,30

22/8

51.745

3,87

30/8

52.858

0,23

6/9

54.56913,65 (V2)

Fontes: Ipeadata(www.gov.br), de 19/7 a 5/9/07. Bovespa (www.bovespa.com.br)

A Bovespa num mundo globalizado

            Para prosseguir, cabe uma nota sobre globalização e a movimentação mundial de recursos. O avanço da globalização é muito ligado a aprimoramentos dos meios de transporte e de comunicações. Contudo, o grau de movimentação de recursos não é o mesmo, pois há diferentes restrições em cada caso.

            Assim, em ordem decrescente de facilidade de movimentação, estão:  (a) as informações; (b) os recursos financeiros; (c) o comércio, via exportações e importações; (c) as pessoas, nos seus movimentos de migração.

            Dada a maior facilidade de movimentação de informações e de recursos, a Bovespa é muito sensível às oscilações dos mercados financeiros mundiais.  Outra razão é que no seu forte movimento de alta que se manifesta desde 2003 pesou muito o forte ingresso de capital estrangeiro, cujos movimentos respondem ao que se passa nos países de origem.

            Nessas condições, os movimentos da Bolsa são muito correlacionados com os dos mercados financeiros dos países mais desenvolvidos, em particular os EUA, e com o fluxo de entradas e saídas de capital estrangeiro que nela atua.

 

O movimento mais recente mostra isso

            Esse último movimento de subida  – o  V2 ao  qual  nos referimos acima – veio de investidores atraídos pela baixa das cotações, e animados pela notícia de que o “Fed”, o banco central dos EUA, reduzira a taxa de empréstimo a instituições financeiras, visando aliviar as dificuldades de liquidez geradas pela referida crise. Contudo, os ventos que sopram de fora ainda configuram um quadro onde, mais que em outras vezes, há muitas incertezas capazes de gerar grande volatilidade na Bolsa, tanto para cima como para baixo.

Exemplo do último tipo foi a queda no dia 5 (ver tabela), quando o “Fed” divulgou documento onde afirmou que a força da inflação ainda era considerável, o que para os investidores enfraqueceu a possibilidade de uma redução da taxa básica de juros na próxima reunião que decidirá o assunto.

No dia 6 a Bovespa voltou a subir, animada pelo crescimento das vendas no varejo dos EUA. Mas, no dia 7, feriado no Brasil, tudo indica que escapou de nova queda, pois o mau humor voltou a se manifestar nos mercados mundiais com a notícia de queda do emprego nos EUA, o que estaria a indicar uma recessão mais forte naquele país, com o risco de maior contaminação da economia de outros países.

Sintetizando o quadro lá fora, trata-se de um momento, raro na história, que combina três tipos de incertezas: (a) as ligadas ao desempenho da economia no seu lado real, em particular nos EUA; (b) as incertezas quanto à política monetária do mesmo país, pois não está claro se vai manter ou  atenuar sua política de juros; (c) as dos desdobramentos ainda por ocorrer da crise referida inicialmente.

Nesta semana, serão anunciados dois indicadores importantes da economia dos EUA, o de pedidos de seguro desemprego e o de confiança do consumidor.  Dependendo da direção que apontarem, os humores do mercado se moverão numa ou noutra direção, e não se garante uma tendência. É como numa montanha russa diferente, onde além do sobe e desce,  mas numa tendência de queda, o carrinho também pode andar de marcha a ré,  voltando a subir. Arrisque-se quem quiser, e puder.
  

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Roberto Macedo, CFPTM (Certified Financial PlannerTM) e economista formado pela USP com Mestrado e Doutorado pela Universidade Harvard (EUA), é pesquisador da FIPE-USP.  Foi Secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Fazenda e Planejamento, funcionário do Banco Central e do Banco do Brasil.  E-mail: imprensa@bb.com.br

Cenários das aplicações após rendimentos de agosto

Sem a arrancada de 3,37% que teve no último dia do mês, a Bolsa teria encerrado agosto com novo desempenho negativo, como aconteceu em julho, quando fechou com      –0,4%. Ademais, seu crescimento em agosto limitou-se a 0,84%, alcançando 54.637 pontos, 6% abaixo do recorde de 58.125 pontos, em 19 de julho último.

Desde esse dia mostrou grande volatilidade, com arrancadas cujo valor máximo foi de 3,87% (em 22/8), e quedas cujo maior valor  foi de -3,86% (em 24/7). Com altas e baixas, onde predominaram estas últimas desde seu último recorde, no mês a Bolsa concentrou as atenções entre as aplicações de maior interesse dos investidores, mas seus riscos, a grande volatilidade e o ponto a que chegou continuam marcando-a como um espaço para os mais propensos ao risco.

Quanto às aplicações em renda fixa, seus rendimentos nominais continuaram menores que no passado recente, mas como de hábito e ganhando claramente da inflação medida pelo IPCA. Desta vez, entretanto, perderam para o IGP-M de agosto, que foi surpreendentemente alto, mostrando uma taxa, de 0,98% no mês, que bateu também a Bolsa. Contudo, no acumulado do ano, entretanto, as aplicações em renda fixa continuaram superando esses dois índices.

O dólar, por tabela impulsionando o ouro, refletiu a volatilidade dos mercados financeiros e teve no mês a maior alta entre as mostradas pela tabela, mas no acumulado do ano continua, também junto com o ouro, apresentando o pior resultado.

Vamos examinar esses e outros números e o cenário à frente para o investidor.

 

Os números

Cobrindo o mês de agosto e os oito meses já transcorridos do ano, a tabela a seguir apresenta os rendimentos das sete aplicações financeiras que respondem pela maior parte das aplicações dos investidores.   Também são colocadas as variações correspondentes dos dois índices de preços citados. Para comparação com um mês mais próximo do início do ano, são também apresentados os resultados de abril das aplicações de renda fixa. Fontes e várias notas técnicas cabíveis estão no rodapé da tabela.

 

Rendimento Nominal(*) em agosto,

no ano até agosto e em marco de 2007 - Em %

Aplicações e índices de inflaçãoAgosto

No ano até agosto

Abril (****)
Fundos Referenciados DI

0,94

7,90

0,86

Fundos Renda Fixa

0,87

8,10

1,08

CDBs(**)

0,90

8,01

0,99

Poupança (***)

0,65

5,29

0,63

Ibovespa

0,84

22,85

Dólar Comercial

4,30

-8,10

Ouro BM&F - Spot

2,93

-2,53

IPCA (****)

0,34

2,67

IGP-M

0,98

2,75

Fonte:  Jornais de 1/9 baseados em informações do mercado.  Em alguns casos   diferenças entre fontes, em  geral  pequenas,  derivadas   de    critérios de levantamento. (*) Salvo menção  em  contrário,  rendimento  bruto, sem descontodo  IR quando aplicável e taxas de administração,  se  cabíveis;  (**)     taxa para o primeiro dia  do mês;  (***) rendimento  relativo  às  contas  com   vencimento no primeiro dia útil  do mês  seguinte; (****) estimativa de agosto tomada do     Relatório Focus, do Banco Central. (****) Nosso artigo de 7/5/07.

            Além dos aspectos já comentados, a comparação com os dados de abril mostra em agosto uma queda da remuneração mensal dos fundos de renda fixa e CDBs,  associada à redução da taxa básica de juros pelo Banco Central.  Entretanto, nos fundos DI isso não aconteceu, porque houve aumento das taxas de juros futuras em função da crise desencadeada pelo mercado de financiamentos imobiliários de segunda linha (“subprime”) nos EUA, o que elevou o preço de papéis nas carteiras desses fundos.

            No mês todos esses três casos ganharam da Bovespa, o que é um resultado tradicional em momentos de crise. Não sem razão, quando elas acontecem os investidores buscam refúgio em fundos desse tipo.

 

O cenário à frente para o investidor

            A tabela que se segue mostra o cenário que se contempla no momento. Nesse cenário, as aplicações em renda fixa têm horizonte maior, de pelo menos de três meses.  Já as de renda variável, sua volatilidade limita o cenário ao horizonte imediato, exceto no caso do câmbio, onde o quadro favorável das contas externas brasileiras tem perspectivas de permanecer por muito tempo, impedindo valorizações mais fortes da taxa cambial.


                     Cenários para as principais aplicações financeiras

Aplicação

Cenário

Fundos de Renda FixaRemuneração ainda alta versus inflação acumulada no ano, e em queda menor em face de reduções menos acentuadas ou mesmo estabilidade da Selic.
CDBsIdem, mas com ganhos maiores para grandes aplicações negociadas caso a caso.
Fundos DIIdem, mas sujeita à volatilidade ligada à referida crise, como o aumento em agosto, que pode refluir com normalidade.
PoupançaRemuneração em queda cada vez menos acentuada, também superando a inflação acumulada, ainda que em menor grau. Particularmente adequada para pequenas aplicações.
IbovespaEstá num patamar alto onde volatilidade é maior. Desdobramenos da mesma crise podem continuar afetando-a. Exige propensão ao risco.
Dólar ComercialMesmo com subida recente não atrai dada a forte posição cambial do país.
Ouro BM&F - SpotInadequado para o investidor comum, com o agravante de que sua cotação depende também da taxa cambial.
Fundos multimercadosVantagem relativa diminuiu com volatilidade da Bolsa e perspectiva de Selic em queda menor ou mesmo estável.

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Roberto Macedo, CFPTM (Certified Financial PlannerTM) e economista formado pela USP com Mestrado e Doutorado pela Universidade Harvard (EUA), é pesquisador da FIPE-USP.  Foi Secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Fazenda e Planejamento, funcionário do Banco Central e do Banco do Brasil.  E-mail: imprensa@bb.com.br.

Com cena externa favorável, Bovespa sobe mais de 2% (Matéria publicada em 24/08/2007 - 18:15)

SÃO PAULO – Passada a volatilidade da manhã, o pregão de hoje finalizou com uma expressiva alta de 2,22% a 52.997 pontos. O volume financeiro do dia foi de R$ 4,275 bilhões. "Foi uma semana de notícias mais positivas no setor imobiliário", disse o analista de investimentos Gustavo Barbeito, da corretora Prosper. Para ele, a injeção de capital de US$ 2 bilhões do Bank of America na financiadora de hipotecas norte-americana Countrywide Financial, a queda da volatilidade no período, a expectativa de reabertura dos fundos de hedge do banco francês BNP Paribas e atuação dos bancos centrais europeu e norte-americano na semana acabaram colocando os mercados em um movimento de alta. "E depois da divulgação dos dados positivos de encomendas de bens duráveis, houve uma melhora no mercado", acrescentou.

Depois de freqüentes informações ruins vindas do mercado imobiliário, uma notícia acabou sendo positiva. Hoje, o Departamento do Comércio informou que as vendas de imóveis novos nos Estados Unidos subiram inesperadamente em julho revertendo dois meses de quedas bruscas, enquanto as casas disponíveis baixaram pelo quarto mês consecutivo. As vendas avançaram 2,8% para uma taxa anualizada (encerrada em julho) de 870 mil residências, acima do valor revisado de 846 mil de junho. Analistas esperavam queda nas vendas para uma taxa anualizada de 825 mil.

No setor industrial, o Departamento do Comércio divulgou que os pedidos de bens duráveis nos Estados Unidos aumentaram em julho no maior ritmo em dez meses. As encomendas às fábricas cresceram 5,9% para US$ 230,698 bilhões em julho, depois do avanço revisado de 1,9% em junho. Analistas esperavam que os pedidos desacelerassem em julho, chegando a 1% em julho.

Passando para o pregão, novos comentários de mercado de que a Cesp poderá ser privatizada movimentaram as ações preferenciais B, que subiram 5,55% a R$ 32,30. Segundo analistas ouvidos pela Agência Leia, a possibilidade de privatização da Cesp ganhou força com a notícia de que o governador de São Paulo, José Serra, estaria abrindo licitação para contratar uma empresa que avaliará a composição acionária nas empresas estaduais. Avaliar os ativos seria o primeiro passo para a venda. No setor de petróleo e gás, os papéis Petrobras PN apreciaram 1,26%, a R$ 49,52. Ontem, a estatal confirmou ter arrematado em 20 de agosto 34 blocos no leilão promovido pelo órgão regulador norte-americano para atividades no mar, o Minerals Management Service (MMS). O leilão teve como foco a região oeste do Golfo do México, onde a companhia apresentou ofertas para 40 blocos, sendo a maior proponente em 34, pelo valor total de US$ 29,3 milhões. Com esse resultado, a Petrobras assegurou 100% de participação e a condição de operadora em 20 blocos. Nos demais 14 blocos, arrematados em parceria com a americana Devon Energy, que será a operadora, a participação da Petrobras é de 50%. Em consumo, as ações Pão de Açúcar PN aumentaram 3,7%, a R$ 63,20.

Entre as quedas do dia, estavam Telemig PN, do setor de telecom, caindo 2,21% a R$ 55,25, e as ações ordinárias da incorporadora Cyrela, cedendo 1,63% a R$ 18,10. O setor petroquímico também fechou em baixa, com as ações Suzano Petroquímica PN e Unipar PNB caindo, respectivamente, 0,53%, a R$ 9,35, e 1,36%, a R$ 2,17.

Os papéis Vale do Rio Doce PNA terminaram o pregão como os mais negociados do dia, com um volume de R$ 515,668 milhões (e em alta de 2,96% a R$ 78,15). Em seguida, vieram as ações Petrobras PN, que giraram R$ 402,992 milhões, e Bradesco PN, movimentando R$ 145,168 milhões e terminando em alta de 1,73% a R$ 47,97.

Mercados internacionais
O mercado de ações norte-americano encerrou a sexta-feira em alta. O índice Dow Jones encerrou o dia em alta 1,08%, aos 13.378,87 pontos. Da mesma forma, o índice Nasdaq Composto ganhou 1,38%, com 2.576,69. Por outro lado, o índice S&P 500 fechou com elevação de 1,15%, a 1.479,37 pontos.

As bolsas européias encerraram o dia de hoje sem rumo definido. O índice FTSE-100, da Bolsa de Londres, ganhou 0,37%. em 6.220,10 pontos. Entre os principais índices do velho continente, o único que encerrou com queda foi o DAX-30, da Bolsa de Frankfurt, que perdeu 0,06%, para situar-se em 7.507,27 pontos, mas o índice CAC-40, da Bolsa de Paris, subiu 0,83%, a 5.569,38 pontos.

Nos mercados internacionais o petróleo operava em alta. Na bolsa de mercadorias de Nova York, o preço do barril de petróleo WTI com entrega para outubro de 2007 subia 1,80% a US$ 71,09. Em Londres, a cotação do petróleo Brent com entrega para outubro de 2007 apreciava 1,37% a US$ 70,82.

Câmbio
No mercado de câmbio, o dólar comercial fechou cotado a R$ 1,9440, baixa de 2,36%. O dólar futuro com vencimento em setembro fechou a R$ 1,9420 na BM&F (Bolsa de Mercadorias & Futuros).

Juros
Os contratos de Depósito Interfinanceiro (DI), negociados na BM&F, projetavam uma taxa de 11,85% em janeiro de 2010, queda em relação ao fechamento de quinta-feira, 11,03%. Hoje foi o primeiro dia de negócios após a atualização da taxa básica de juro da economia para 11,5% ao ano.

Hoje a Fundação Getúlio Vargas (FGV) informou que o Índice de Preços ao Consumidor - Semanal (IPC-S) registrou desaceleração em quatro das sete capitais pesquisadas na terceira quadrissemana de agosto. Ontem, a FGV informou que o IPC-S se manteve estável em 0,42%.

Agenda do próximo dia
A agenda econômica da segunda-feira começará com a divulgação dos dados de vendas de casas usadas no período de 12 meses encerrados em julho, nos EUA.

No Brasil, o calendário começa com as projeções econômicas no boletim semanal Focus e os dados da balança comercial da quarta semana de agosto.

Queda na Bovespa também pode gerar oportunidades, mas...

Na semana passada agravou-se a turbulência nos mercados financeiros internacionais  como desdobramento da que nos EUA assolou o mercado de financiamentos imobiliários de segunda linha (MFISL), chamado de “subprime”, e alcançou também seus investidores, ou seja, os que financiaram instituições do setor.

Vamos examinar as razões desse agravamento e seu impacto na Bovespa.  Mesmo num momento de inquietação no mercado de ações, há a antiga regra desse mercado, a de que os momentos de baixa são os mais adequados para investir. Ou seja, no meio dessa turbulência, também pode haver oportunidades.

 

Por que  a crise se  agravou e alcançou outros mercados?

            Em artigo no último dia 6, referimos à crise que atingiu o MFISL nos EUA. Ela decorreu de baixas taxas de juros no início desta década e de alta liquidez,  estimulando financiamentos inclusive a mutuários que não comprovavam capacidade de pagamento, davam pequena ou nenhuma entrada, e se dispunham a aceitar taxas variáveis de juros.

Depois que estas passaram a subir, eles passaram a mostrar inadimplência, o que gerou problemas nas instituições financiadoras e naquelas que as financiavam. Sem solução, o problema foi se agravando até gerar em meados de julho uma crise mais forte que alcançou bancos de maior porte.  

Para entender por que na semana passada essa crise se estendeu com maior vigor a outros mercados, vale lembrar que paralelamente a ela havia um problema que se agravava e que permanecia sem solução. Era grande liquidez mundial alimentada pelo crescimento das economias e do comércio, juntamente com baixas taxas de juros em alguns países. Isso estimulou financiamentos que desprezaram avaliações mais criteriosas de preços e de riscos, tanto nesse mercado de MFISL como em outros, alcançando também as moedas, papéis de renda fixa e ações de países emergentes.  Nesses países, a expansão da economia mundial também aumentou fortemente os preços de suas commodities.

            Com a crise alargando suas dimensões, essa liquidez deixou de fluir e/ou o fez para ativos de menor risco. Ora, na medida em que os investidores passaram a temer a ampliação da crise para outros mercados, seu movimento de saída acabou estimulando o que se temia. Ou seja, a maior contaminação de outros mercados.

            Com a liquidez secando, vários bancos centrais, como nos EUA e na Europa, passaram a intervir em sentido contrário.  Esse é um papel clássico deles, como “emprestadores de última instância”. Assim o fizeram, mas sem estabilizar a crise, que alcançou seu ponto mais grave na quinta-feira passada.

            Dado esse agravamento, na sexta o Fed, o banco central dos EUA, tomou medida mais ousada, reduzindo de 6,25% para 5,75% ao ano a taxa com que empresta a instituições financeiras.  Ao comunicar essa decisão, o Fed registrou sua preocupação em evitar que a crise alcançasse também a atividade econômica não-financeira.

 

Nessa crise, o Brasil...

            Com grandes superávits nas balanças comercial e de transações correntes, bem como elevado nível de reservas,  está numa situação muito menos vulnerável do que aquelas de outras crises externas como as do final da década passada. E, também, crises internas com desdobramentos externos, como a que veio no ano eleitoral em 2002.

            Mesmo em melhor situação, entretanto, não deixou de sofrer efeitos nessas duas ultimas semanas, como um aumento do risco Brasil e desvalorização do real.  O efeito mais sério veio na Bovespa, cujas ações haviam alcançado forte valorização em decorrência da forte liquidez mundial anteriormente mencionada, parte da qual aportou aqui em busca de maiores ganhos que os encontrados nos países de origem.

Esse ingresso levou a Bovespa a bater sucessivos recordes de valorização, até chegar ao último, de 58.125 pontos, em 19/7/07.  Desde então passou a mostrar uma tendência de queda que se agravou na semana passada, o que é mostrado na tabela abaixo, que apresenta os números diários do fechamento e suas variações, com as negativas realçadas em negrito, as quais claramente dominaram essa última semana. 

 

Ibovespa – Fechamento e Variação no Dia - 19/7/07 a 17/8/07

DiaFechamentoVariação em %Dia FechamentoVariação em %Dia Fechamento Variação em %
19/0758.1250,99(*)31/0754.183-0,7110/0852.638-1,48
20/0757.443-1,1701/0854.2340,0913/0852.434-0,39
23/0758.0371,0302/0854.6910,8414/0850.912-2,90
24/0755.795-3,8603/0852.846-3,3715/0849.285-3,20
25/0756.0010,3706/0853.0910,4616/0848.016-2,57
26/0753.893-3,7607/0853.8021,3417/0848.5591,13
27/0752.922-1,8008/0855.2412,67
30/0754.5733,1109/0853.431-3,28

Fonte: Ipeadata (www.ipeadata.gov.br) e Bovespa (www.bovespa.com.br).

(*) Relativamente ao dia anterior, no qual o Ibovespa fechou em 57.556 pontos.


 

            A tabela também mostra que na sexta-feira a queda se interrompeu. Isso aconteceu em vários outros países, e foi resultado da medida adotada pelo Fed, pois ela assegurou mais liquidez a taxas mais baixas, procurando conter e refluir o contínuo contágio dos mercados pela crise, o que poderia atingir a atividade econômica em geral.

            Uma das dificuldades dessa crise é que suas dimensões ainda não estão bem definidas, com o que fica difícil avaliar as perdas incorridas, os danos que causaram e se remédios como o do Fed são adequados em sua dosagem.   O cenário mais provável no curto prazo permanece um de volatilidade.

 

Como muitas crises....

            Esta também abre a perspectiva de oportunidades de ganho.  No caso da Bovespa, a queda acumulada no período coberto pela tabela acima foi de 16,46%, uma taxa considerável, e a receita de sucesso do mercado é de comprar na baixa e vender na alta. Mas, será que ela já atingiu o fundo do poço ou cairá ainda mais?

            Como não se sabe a resposta, isso mostra que mesmo em situações mais propícias ao ganho o mercado de ações evidencia maiores riscos. Para quem é propenso a eles, pode ser o momento de comprar; para os avessos a eles, seria o caso de aguardar mais um pouco.  Em qualquer caso, mais e melhores informações tendem a diminuir o risco, e nessa linha a questão chave será a de saber se os recursos estrangeiros que deixaram a Bolsa nesses dias estariam estariam ou não retornando ao Brasil. 

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Roberto Macedo, CFPTM (Certified Financial PlannerTM) e economista formado pela USP com Mestrado e Doutorado pela Universidade Harvard (EUA), é pesquisador da FIPE-USP. Foi Secretário de Política Econômica do Ministério da Economia, Fazenda e Planejamento, funcionário do Banco Central e do Banco do Brasil. E-mail: imprensa@bb.com.br

Cenário de volatilidade na Bolsa

Depois que atingiu seu último recorde de pontos, no dia 19 do mês passado, o Ibovespa passou a mostrar tendência de queda marcada também por grande volatilidade.  Ao tratar das causas, o noticiário aponta como principal a turbulência que veio dos EUA, onde o mercado de financiamentos imobiliários de segunda linha (MFISL), conhecido como “subprime”, passa por crise que também alcança instituições financeiras - e seus investidores -  que financiaram as que atuam  no setor.  Contudo, por trás dessa queda e volatilidade do Ibovespa há  também outras causas.


           Vamos examinar os ventos que sopram dos EUA e outros específicos à Bolsa brasileira para, ao final, concluir que a volatilidade ora observada nesse mercado deve continuar até que a dimensão dos danos seja esclarecida, o mercado realize as perdas e a percepção de melhores condições econômico-financeiras desencadeie novo movimento de valorização.

 

O que se passa no MFISL de financiamentos imobiliários

             Há tempos existia a percepção de uma excessiva valorização ou bolha no mercado imobiliário norte-americano, o que foi um dos fatores a provocar um aumento da taxa básica de juros naquele país, pois havia a convicção de que essa bolha estava alimentando o processo inflacionário.


              No seu último ciclo de baixa essa taxa de juros havia chegado a 1% (!) ao ano em junho de 2003.  Aí ficou até junho de 2004, quando iniciou um ciclo de alta que a trouxe para 5,25% ao ano, onde se encontra desde junho de 2006. Nesta semana seu valor será reexaminado novamente pelo “Fed”, o banco central dos EUA.


              Com esse aumento dos juros, a economia e o mercado imobiliário começaram a dar sinais de esfriamento, mas aí surgiu o problema no MFISL. São financiamentos dados com uma pequena ou mesmo inexistente entrada e/ou a tomadores que não conseguem documentar com precisão sua capacidade de pagamento.  Além disso, pelo próprio risco, em geral esses financiamentos têm taxas de juros variáveis, que seguem a taxa básica do Fed, e o aumento dela ampliou a inadimplência dos mutuários.


            Acrescente-se que nos EUA as instituições que lidam com financiamento de moradias recebem aportes de outras instituições financeiras e seus investidores.  Com isso, estas últimas também passaram a enfrentar prejuízos em suas carteiras desse tipo, num movimento que alcançou instituições de grande porte, como o banco Bear Stearns(BS). Suas ações BS caíram 5,6% na sexta-feira passada, na Bolsa de Nova Iorque, junto com queda geral que afetou particularmente os bancos.


              Embora antigas as preocupações com o mercado imobiliário dos EUA, e dentro dele com o MFISL, entendia-se que a crise estava confinada nesse mercado e nas instituições mais diretamente ligadas a ele. Contudo, desde meados de julho tanto essas instituições como suas financiadoras e investidores passaram  a